"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Baixo investimento e alto desemprego: as armadilhas da estagnação econômica

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil está preso na armadilha do baixo crescimento econômico e a principal variável que explica a “estagnação secular” brasileira é a baixa taxa de investimento. Sem investimento, à altura das necessidades, o país não consegue modernizar a infraestrutura, não consegue avançar tecnologicamente, não consegue investir o necessário em tecnologia amigável ao meio ambiente (como as energias renováveis) e não consegue criar postos de trabalho para atingir a meta do “Pleno emprego com trabalho decente para todas as pessoas”.

O gráfico abaixo, com base em trabalho do IBRE (BALASSIANO e TRECE, 01/07/2019) mostra que, em meio século, o Brasil nunca conseguiu manter taxas de investimento acima de 24% e que o nível de Formação Bruta de Capita Fixo (FBCF) atual é o mais baixo dos últimos 50 anos. Sem renovação da estrutura produtiva o Brasil apresenta estagnação da produtividade e perda de competitividade no comércio internacional.

menor taxa de investimento em 50 anos

Sem uma taxa de investimento acima de 25% do PIB não há como renovar a economia, a infraestrutura, a proteção ambiental e a geração de emprego e renda. O gráfico abaixo, incluindo a Coreia do Sul, mostra que o Brasil pratica as menores taxas de investimento entre os BRICS.
Enquanto a China apresenta investimentos de 43,2% do PIB, na média, no período compreendido entre 1992 e 2024, a Coreia do Sul de 33,1%, a Índia de 31,5% e a Rússia de 23%, o Brasil e a África do Sul apresentam investimentos de somente 19,2% do PIB. Sendo que o Brasil ficou próximo de 15% a 16% nos últimos anos. Este nível de investimento é suficiente apenas, praticamente, para se repor a depreciação da infraestrutura e do aparato produtivo. É reconhecidamente impossível um país apresentar altas taxas de crescimento econômico e geração de empregos decentes com investimentos abaixo de 20% do PIB e baixa competitividade internacional.

taxa de investimento da China, Coreia, Índia, Rússia, África do Sul e Brasil

Como resultado do baixo nível das taxas de investimento, o Brasil não consegue criar empregos adequados para ocupar a população em idade ativa e o desemprego dispara. O segundo mandato da dupla Dilma-Temer foi um desastre para o mercado de trabalho formal no Brasil. Logo depois das eleições presidenciais de outubro de 2014 – quando foram prometidos milagres para colocar o Brasil nos píncaros – o povo brasileiro começou a sentir o peso inexorável da realidade. O mercado de trabalho formal teve uma queda de 555 mil empregos em dezembro de 2014, continuou caindo forte em 2015 e 2016, teve uma ligeira queda em 2017 e uma recuperação pequena em 2018.
Compreendido todo o período entre dezembro de 2014 e dezembro de 2018 (governos Dilma-Temer) houve redução de 3,1 milhões no número de vagas do mercado de trabalho formal, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho.
O presidente eleito em 2018 prometia resolver esta calamidade pública que é o desemprego de milhões de pessoas que não conseguem preencher o direito humano básico que é o emprego e a chance de contribuir com a riqueza do país. Porém, mesmo que positivo, os dados do mercado de trabalho formal em 2019 são decepcionantes no sentido de recuperar as perdas desde dezembro de 2014. A economia brasileira gerou 408,5 mil empregos com carteira assinada no primeiro semestre deste ano, segundo números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).
O saldo é a diferença entre as contratações e a demissões. Nos seis primeiros meses de 2019, o país registrou 8.221.237 contratações e 7.812.737 demissões. As 408,5 mil vagas criadas representam o melhor resultado, para o primeiro semestre do ano, desde 2014. Porém, nos 55 meses desde dezembro de 2014 a junho de 2019 a perda de empregos formais no Brasil foi de 2,79 milhões de vagas, o que dá uma perda média de 59,2 mil vagas por mês ou menos 1,9 mil vagas por dia, conforme mostra o gráfico abaixo. Ou seja, no ritmo do “ótimo” do primeiro semestre de 2019, o país só vai recuperar o nível de emprego formal de novembro de 2014, no final do ano dos 200 anos da Independência do Brasil (2022).

comportamento do emprego formal no Brasil

A crise do mercado de trabalho na presente década significa a perda do futuro do país e do futuro não só da juventude atual (que sofre mais que proporcionalmente com a escassez de oportunidades de trabalho) mas do futuro das gerações que ainda vão nascer e que vão herdar mais problemas do que soluções. Significa também que os idosos serão prejudicados, já que sem uma solidariedade intergeracional não há como garantir boas condições de vida no envelhecimento.
O Brasil está em uma trajetória submergente durante todo o período da Nova República. O passo fundamental para mudar esta triste página da história brasileira é possibilitar que cada cidadã e cidadão possa ter orgulho de trabalhar para se sustentar e para garantir a sustentabilidade econômica e ambiental do país. O Brasil poderia ter uma população ocupada de 120 milhões, mas ocupa menos de 93 milhões de pessoas, além de ter uma baixa produtividade.
A pesquisa PNADC do IBGE, divulgada dia 31/07/2019, mostra uma realidade ainda mais tenebrosa. No trimestre móvel de abril a junho de 2019, havia aproximadamente 12,8 milhões de pessoas desocupadas no Brasil. Este contingente recuou (-4,6%, ou menos 621 mil pessoas em busca de trabalho) frente ao trimestre anterior e ficou estatisticamente estável em relação a igual período de 2018.
Já a taxa composta de subutilização da força de trabalho foi estimada em 24,8% no trimestre móvel de abril a junho de 2019 e não mostrou variação estatisticamente significativa em ambas as comparações: nem em relação ao trimestre de janeiro a março de 2019 (25,0%) quanto ao mesmo trimestre móvel de 2018 (24,5%). O número de pessoas subutilizadas no Brasil chegou a 28,4 milhões no trimestre de abril a junho de 2019, sem mostrar variação significativa frente ao trimestre de janeiro a março de 2019. No confronto com igual trimestre de 2018, esta estimativa cresceu 3,4%, ou mais 923 mil pessoas subutilizadas. O Brasil está em uma rota insustentável, pois não consegue empregar a sua força de trabalho e está desperdiçando os melhores momentos do bônus demográfico.

taxa composta de subutilização

O trabalho produtivo é a base da riqueza das nações e o pleno emprego e o trabalho decente devem ser a prioridade número um, pois é o direito humano mais desrespeitado atualmente no Brasil. Sem trabalho para todos, os demais direitos ficam comprometidos, a economia não melhora e a qualidade de vida tende a cair para toda a população nacional. Mas a empregabilidade para todos só será alcançada com o aumento das taxas de investimento.
Sem o aumento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) não existe outro caminho para evitar a “especialização regressiva” (dependente da exportação de commodities agressoras do meio ambiente), e para tirar o Brasil do subdesenvolvimento e da estagnação secular.

Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


Referências:
ALVES, JED. Pior recessão, pior recuperação e pior octênio (2012-2019) da história brasileira, Ecodebate, 10/06/2019

ALVES, JED. A crise fiscal brasileira e suas armadilhas¸ Ecodebate, 10/05/2019

BALASSIANO, Marcel e TRECE, JCC. Taxa de investimentos no Brasil: Menor nível dos últimos 50 anos, IBRE, Rio de Janeiro, 01/07/2019


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/08/2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A América Latina submergente

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Fundo Monetário Internacional divulgou no dia 23 de julho de 2019 as atualizações para o desempenho da economia global, das regiões e dos países. O crescimento do PIB mundial que estava estimado para 3,3% em 2019 (WEO de abril) caiu para 3,2%. A maior redução ocorreu na América Latina e Caribe (ALC) cujo crescimento estava previsto para 1,4% e caiu para O,6% em 2019. Portanto, a região (com 33 países) deve apresentar redução da renda per capita em 2019, pois o crescimento populacional está previsto em 1% neste mesmo ano.
O Brasil – o maior PIB da ALC – teve um corte de 2,1% (WEO de abril) para 0,8% (WEO de julho) na previsão de crescimento econômico em 2019. O México – o segundo maior PIB da ALC – teve um corte de 1,9% para 0,9%, muito abaixo das promessas do presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO), que assegurou na campanha eleitoral um crescimento de 4% nos seis anos do seu mandato. A Argentina – o terceiro maior PIB da ALC – está em recessão pelo segundo ano consecutivo. Contudo, notícias piores acontecem na Venezuela que teve uma queda do PIB de 25% em 2018 e deve ter outra queda consecutiva, agora de 35% em 2019.
Na verdade, o baixo desempenho econômico da ALC vem desde o início da chamada década perdida. Em 1980 a ALC representa 12,2% do PIB mundial, enquanto os 5 países fundadores da ASEAN (Indonésia, Filipinas, Malásia, Singapura e Tailândia) tinham 3,2% do PIB mundial, a Índia 2,9% e a China apenas 2,3% do PIB mundial. Mas nos últimos 40 anos a ALC apresentou um mergulho e diminuiu sua participação no PIB mundial, caindo para 7,5% em 2018, devendo atingir 7% em 2024, conforme mostra o gráfico abaixo.
No mesmo período a China deu um salto e ultrapassou a ALC em 2003, chegou a uma participação de 18,7% em 2018 e deve alcançar 21,4% do PIB mundial em 2024. A Índia também apresentou uma ascensão (embora menor do que a China) e atingiu 7,8% do PIB mundial em 2018, ultrapassando a ALC. Os 5 países da ASEAN atingiram 5,5% do PIB mundial em 2018 e devem ficar com 6,1% em 2024, muito perto da ALC (com 33 países).

participação da ALC, China, Índia e ASEAN+5 no PIB global

O fato é que os países asiáticos do gráfico acima estão em uma tendência emergente, enquanto a ALC está numa tendência submergente. A ALC tinha um tamanho 5,3 vezes maior do que a China em 1980 e em 2018 a China era 2,5 vezes maior. A ALC tinha um tamanho 4,3 vezes maior do que a Índia em 1980 e agora empataram de tamanho e a Índia será maior na próxima década. A ALC era 3,8 vezes maior do que os 5 países fundadores da ASEAN e pode ser ultrapassada em meados da próxima década.
A ALC, em 1980, tinha uma renda per capita (preços constantes em poder de paridade de compra – ppp) de US$ 10,8 mil, sendo 15 vezes superior à renda per capita da China de apenas US$ 721, sendo 8,3 vezes superior à renda per capita da Índia de US$ 1,3 mil e sendo 3,4 vezes superior à renda per capita da ASEAN+5 que era de US$ 3,1 mil, conforme mostra o gráfico abaixo.
Mas em 2017, a China com renda per capita de US$ 15,2 mil já havia ultrapassado a renda per capita da ALC e deve deixar os latino-americanos bem para trás na próxima década. Os 5 países da ASEAN reduziram bastante a diferença e podem ultrapassar a renda per capita da ALC antes de 2030. Já a Índia deve ultrapassar a ALC após 2030.

renda per capita da ALC, China, Índia e ASEAN+5

Os países da Ásia parecem que estão decolando como um avião, enquanto a ALC, ao contrário, está mergulhando como um submarino descontrolado e sem rumo definido. A renda per capita de 2013 da ALC só será alcançada novamente em 2021 ou 2022. Portanto, a região está passando pela segunda década perdida e pode ficar eternamente presa à armadilha da renda média e à estagnação secular.
Uma das explicações para a trajetória emergente da Ásia e a trajetória submergente da ALC é o nível das taxas de investimento (formação bruta de capital fixo). A taxa de investimento na ALC está em torno de 20% do PIB e da Ásia emergente em torno de 40% do PIB.
Enquanto os países asiáticos investem em infraestrutura, ciência e tecnologia e capital humano (gerando emprego e aumento da produtividade) os países latino-americanos apenas repõe a depreciação econômica e não conseguem acompanhar o ritmo da Ásia emergente.


Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/08/2019

terça-feira, 23 de julho de 2019

O que está impulsionando o populismo?

Se o populismo autoritário está enraizado na economia, então o remédio apropriado é um populismo de outro tipo - visando a injustiça econômica e a inclusão, mas pluralista em sua política e não necessariamente prejudicial à democracia.

Resultado de imagem para populismo

por Dani Rodrik

É cultura ou economia? Essa questão enquadra grande parte do debate sobre o populismo contemporâneo. A presidência de Donald Trump, o Brexit e a ascensão de partidos políticos nativistas de direita na Europa continental são consequência de um racha crescente entre valores conservadores sociais e liberais sociais, com o primeiro tendo apoiado políticos xenófobos, etno-nacionalistas e autoritários?, Ou refletem a ansiedade e a insegurança econômica de muitos eleitores, alimentados por crises financeiras, austeridade e globalização?
Muito depende da resposta. Se o populismo autoritário está enraizado na economia, então o remédio apropriado é um populismo de outro tipo - visando a injustiça econômica e a inclusão, mas pluralista em sua política e não necessariamente prejudicial à democracia. Se estiver enraizado na cultura e nos valores, no entanto, há menos opções. A democracia liberal pode ser condenada por suas próprias dinâmicas e contradições internas.

Recurso duradouro

Algumas versões do argumento cultural podem ser descartadas de imediato. Por exemplo, muitos comentaristas nos Estados Unidos se concentraram nos apelos de Trump ao racismo. Mas o racismo, de uma forma ou de outra, tem sido uma característica permanente da sociedade norte-americana e não pode nos dizer, por si só, por que a manipulação de Trump se mostrou tão popular. Uma constante não pode explicar uma mudança.
Outras contas são mais sofisticadas. A versão mais completa e ambiciosa do argumento de reação cultural foi apresentada por meu colega da Harvard Kennedy School, Pippa Norris, e Ronald Inglehart, da Universidade de Michigan. Em um  livro recente, eles argumentam que o populismo autoritário é a consequência de uma mudança geracional de longo prazo nos valores.
À medida que as gerações mais jovens se tornaram mais ricas, mais educadas e mais seguras, adotaram valores "pós-materialistas" que enfatizam o secularismo, a autonomia pessoal e a diversidade em detrimento da religiosidade, das estruturas familiares tradicionais e da conformidade. Gerações mais antigas se tornaram alienadas - tornando-se efetivamente "estranhas em sua própria terra". Enquanto os tradicionalistas são agora numericamente o grupo menor, eles votam em maior número e são mais politicamente ativos.
Will Wilkinson, do Niskanen Center, fez recentemente um  argumento semelhante, enfocando o papel da urbanização em particular. Wilkinson argumenta que a urbanização é um processo de ordenação espacial que divide a sociedade em termos não apenas de fortunas econômicas, mas também de valores culturais. Cria áreas prósperas, multiculturais e de alta densidade, onde predominam os valores socialmente liberais. E deixa para trás áreas rurais e centros urbanos menores, cada vez mais uniformes em termos de conservadorismo social e aversão à diversidade.
Esse processo, além disso, é auto-reforçador: o sucesso econômico nas grandes cidades valida os valores urbanos, enquanto a auto-seleção na migração a partir de regiões mais atrasadas aumenta ainda mais a polarização. Tanto na Europa como nos Estados Unidos, áreas homogêneas e socialmente conservadoras constituem a base do apoio a populistas nativistas.

Choques econômicos

Do outro lado do argumento, os economistas produziram uma série de estudos que ligam o apoio político dos populistas a choques econômicos. No que talvez seja o mais famoso entre eles, David Autor, David Dorn, Gordon Hanson e Kaveh Majlesi - do MIT, da Universidade de Zurique, da Universidade da Califórnia em San Diego e da Universidade de Lund, respectivamente - mostraram  que os votos para Trump nas eleições presidenciais de 2016 em todas as comunidades dos EUA foram fortemente correlacionados com a magnitude dos choques comerciais adversos da China. Tudo o mais sendo igual, quanto maior a perda de empregos devido ao aumento das importações da China, maior o apoio a Trump.
De fato, de acordo com Autor, Dorn, Hanson e Majlesi, o choque comercial na China pode ter sido diretamente responsável pela vitória eleitoral de Trump em 2016. Suas estimativas indicam que a penetração das importações foi 50% menor do que a taxa real no período 2002-14. Um candidato presidencial democrata teria vencido os estados críticos de Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, tornando Hillary Clinton a vencedora da eleição.
Outros estudos empíricos produziram resultados semelhantes para a Europa Ocidental. Descobriu-se que a maior penetração das importações chinesas está implicada no  apoio ao Brexit  na Grã-Bretanha e na  ascensão de partidos nacionalistas de extrema direita na Europa continental. A austeridade  e medidas mais amplas de  insegurança econômica  demonstraram ter desempenhado um papel estatisticamente significativo também. E na Suécia, o aumento  da insegurança no mercado de trabalho  tem sido empiricamente ligado à ascensão dos democratas suecos de extrema-direita.

Convergência

Os argumentos culturais e econômicos podem parecer estar em tensão - se não completamente inconsistentes - um com o outro. Mas, lendo nas entrelinhas, pode-se discernir um tipo de convergência .
Como as tendências culturais - como o pós-materialismo e os valores promovidos pela urbanização - são de natureza de longo prazo, elas não explicam totalmente o momento da reação populista. (Norris e Inglehart postulam um ponto crítico em que grupos socialmente conservadores se tornaram minoria, mas ainda têm poder político desproporcional.) E aqueles que advogam pela primazia das explicações culturais não descartam de fato o papel dos choques econômicos. Esses choques, eles afirmam, agravaram e exacerbaram as divisões culturais, dando aos populistas autoritários o impulso adicional de que precisavam.
Norris e Inglehart, por exemplo, argumentam que "as condições econômicas de médio prazo e o crescimento da diversidade social" aceleraram a reação cultural e mostram em seu trabalho empírico que os fatores econômicos desempenharam um papel no apoio aos partidos populistas. Da mesma forma, Wilkinson enfatiza que "ansiedade racial" e "ansiedade econômica" não são hipóteses alternativas, porque os choques econômicos intensificaram muito a triagem cultural conduzida pela urbanização. Por sua parte, os deterministas econômicos devem reconhecer que fatores como o choque comercial da China não ocorrem em um vácuo, mas no contexto de divisões societárias pré-existentes ao longo das linhas sócio-culturais.
Em última análise, a análise precisa das causas por trás do surgimento do populismo autoritário pode ser menos importante do que as lições políticas a serem tiradas dele. Há pouco debate aqui. Remédios econômicos para a desigualdade e insegurança são fundamentais.


Dani Rodrik é o professor de economia política internacional da Fundação Ford na Harvard Kennedy School.

domingo, 21 de julho de 2019

A participação da ASEAN e da América Latina e Caribe na economia global

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Associação das Nações do Sudeste Asiático (Association of Southeast Asian Nations – ASEAN) é uma organização regional de países do sudeste asiático que foi criada, em 1967, por 5 países: Indonésia, Filipinas, Malásia, Singapura e Tailândia. Mas ao longo dos anos, outros 5 países foram incorporados: Brunei (1984), Vietnã (1995), Laos (1997), Camboja (1999) e Mianmar (1997). Além dos 10 países membros efetivos, são membros observadores Timor-Leste e Papua-Nova Guiné. Os principais objetivos da ASEAN são acelerar o desenvolvimento econômico, apoiar a integração comercial, fomentar a paz e a estabilidade regional.
Estes 10 países da ASEAN possuem aproximadamente a mesma população dos 34 países da América Latina e Caribe (ALC), compostos por: Antígua e Barbuda, Argentina, Aruba, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Equador, Granada, Guiana, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela. Em 1950, a população da ALC era de 169 milhões de habitantes, contra 165 milhões de habitantes do grupo de países da ASEAN. Em 2018, os números eram, respectivamente 642 milhões e 654 milhões.
Em termos econômicos, a trajetória dos dois grupos é bastante divergente. A participação dos 33 países da ALC (o FMI não possui dados de Cuba) no PIB global era de 12,2% em 1980, enquanto a participação dos 10 países da ASEAN era de 3,5%. Nas décadas seguintes a participação da ALC foi caindo e ficou em 7,3% em 2018 e deve ficar em 7,0% em 2024, enquanto a participação da ASEAN chegou, respectivamente, a 6,6% e 7,2%, conforme o gráfico abaixo. Portanto, o FMI estima que o PIB do grupo ASEAN será maior do que o PIB do conjunto da ALC em 2024.

Participação da ASEAN e da ALC no PIB mundial: 1980-2024
Participação da ASEAN e da ALC no PIB mundial: 1980-2024
Fonte: FMI, WEO, abril/2019 https://www.imf.org/external/datamapper/datasets/WEO


A ALC que tinha uma renda per capita em preços correntes (em poder de paridade de compra – ppp) bem superior à renda per capita da ASEAN deve ser ultrapassada nos próximos 5 anos, conforme mostra o gráfico abaixo. Em 1980, a ALC tinha uma renda per capita de US$ 4,5 mil, contra apenas US$ 1,4 mil da ASEAN. Mas em 2018 a diferença já havia caído muito, sendo US$ 15,8 mil para os latino-americanos e US$ 13,3 mil para os habitantes do sudeste asiático. Para 2024 o FMI estima que a renda per capita da ASEAN, de US$ 19,5 mil seja maior do que a da ALC de US$ 19,4 mil.

Renda per capita (preços correntes em ppp) da ASEAN e ALC: 1980-2024
Renda per capita (preços correntes em ppp) da ASEAN e ALC: 1980-2024
Fonte: FMI, WEO, abril/2019 https://www.imf.org/external/datamapper/datasets/WEO


Mesmo tendo um PIB menor, os países da ASEAN exportavam um pouco mais do que o conjunto dos países da ALC até o início da atual década. Mas desde 2012, a diferença tem aumentado em favor dos países asiáticos. Em 2017, a ALC exportou US$ 1,06 trilhão, enquanto a ASEAN exportou US$ 1,32 trilhão.

Exportações da ASEAN e da ALC: 1994-2017
Exportações da ASEAN e da ALC: 1994-2017
WTO: http://stat.wto.org/StatisticalProgram/WSDBViewData.aspx?Language=E


Diante da guerra comercial que se desenrola entre os EUA e a China, os países da ASEAN buscam fortalecer os laços internos dentro da Associação, além de procurar parceiros para a ampliação do comércio e a continuidade do desenvolvimento econômico.
A 34ª Cúpula da ASEAN ocorreu nos dias 22 e 23 de junho de 2019 em Bangkok, capital da Tailândia, expressando preocupação com o “protecionismo e a hostilidade antiglobalização”. Os líderes da ASEAN defenderam um sistema comercial baseado no multilateralismo e mostraram insatisfação com a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, em janeiro de 2017, de retirar os Estados Unidos do projeto de tratado conhecido como Acordo de Cooperação Econômica Transpacífico (TPP).
Cúpula dos Chefes de Estado da ASEAN
Os líderes do bloco estão procurando outras formas de parceria. A ASEAN está avaliando um acordo comercial proposto pela China – um substituto para o TPP – que cobriria cerca de metade da população mundial. A Parceria Econômica Global Regional (RCEP) incluiria todos os dez estados membros da ASEAN, além da Índia, Japão, Coréia do Sul, Austrália e Nova Zelândia.
Se o bloco concordar com o acordo RCEP elaborado na China, será o maior acordo comercial do mundo. Mas a Índia expressou preocupação com o acordo, temendo que os produtos chineses possam inundar seu enorme mercado consumidor. Austrália e Nova Zelândia levantaram objeções à falta de proteção trabalhista e salvaguardas ambientais.
O fato é que a ASEAN já tem laços fortes de comércio com a China e a Índia – os dois grandes países que apresentam as maiores taxas de crescimento econômico – e tende a ter uma participação cada vez maior nas exportações globais. Além disto, a ASEAN não quer perder os laços comerciais com os EUA e a União Europeia e enfatiza mais o termo “Indo-Pacífico” do que o ”Ásia-Pacífico”. Desta forma, o bloco do sudeste asiático deve manter taxas de crescimento anuais acima de 5%, enquanto a ALC não tem conseguido superar as taxas de 2% ao ano.
Portanto, a perspectiva é que a ASEAN aumente a sua participação na economia global, buscando se equilibrar entre as influências dos EUA, da Índia e da China, para elevar a renda per capita e possibilitando a redução da pobreza. A ASEAN joga um papel central na segurança e na estabilidade do sudeste asiático. A ALC, ao contrário, parece isolada, sem rumo definido e presa à armadilha da renda média e à estagnação secular. O acordo do Mercosul com a União Europeia não parece que vai mudar a situação.
Para complicar tudo, todos terão que enfrentar os problemas do envelhecimento populacional e do “apartheid climático” que ameaça o futuro de toda a população mundial. Assim como os países só conseguem “enriquecer” antes de envelhecer só vão atingir alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) antes do agravamento das catástrofes climáticas. Ou seja, há pouco tempo para os países garantirem o progresso e, no futuro não muito distante, haverá a necessidade de muita luta para evitar um retrocesso global.

Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/07/2019

terça-feira, 9 de julho de 2019

ONU: Brasil tem a segunda maior taxa de homicídios da América do Sul

Timor-Leste ocupou posição similar no Sudeste Asiático em 2017; estudo aponta que número de pessoas assassinadas está 80% acima dos mortos em conflitos armados; mulheres são mais frequentemente assassinadas por familiares e parceiros íntimos.

Cerca de 464 mil pessoas foram vítimas de homicídios em 2017, anunciaram esta segunda-feira as Nações Unidas.
O número de pessoas assassinadas supera de longe os 89 mil mortos em conflitos armados nesse período, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc.
Crime Organizado

Estudo Global sobre Homicídios 2019 destaca que o crime organizado foi responsável por até 19% de todos os homicídios em 2017. Foto: Alessandro Scotti/UNODC













A agência lançou o Estudo Global sobre Homicídios 2019, em Viena e Nova Iorque, destacando que o crime organizado foi responsável por até 19% de todos os homicídios em 2017.
Essa prática causou a morte do maior número de pessoas que foi registrado em todos os conflitos armados do mundo desde o início do século 21.
A região das Américas registra 17,2 mortes em cada 100 mil habitantes, a taxa mais alta registrada na região desde que ​​começaram os registros confiáveis em 1990.  O Brasil tem a taxa de 30,5 homicídios a cada 100.000, a segunda maior da região da américa do Sul depois da Venezuela com 56.
Em valores absolutos, cerca de 1,2 milhão de pessoas perderam a vida por homicídio doloso no Brasil entre 1991 e 2017.

Intervenções Locais 

O relatório destaca que intervenções locais podem ajudar a reduzir o crime, com exemplos positivos em território brasileiro que incluem são em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
Nessas áreas foram implementadas medidas direcionadas de prevenção do crime que visam explicitamente lugares, pessoas e momentos associados a uma alta concentração de crimes.
Em todo o país, o homicídio de forças policiais foi em média de 14,9 por cada 100 mil habitantes. O país, ao lado do Peru e do Uruguai, destaca-se com aumentos substanciais de cerca de um terço de crimes desse tipo.
As prisões do Brasil também são apontadas como consideravelmente as mais perigosas da região em termos de prática de homicídios, assim como El Salvador e Colômbia.
ONU/Martine Perret
Timor-Leste tem a segunda maior taxa do sudeste asiático.

Timor-Leste

O outro país lusófono mencionado no estudo é Timor-Leste. Com 3,9 homicídios em cada 100 mil habitantes, o país tem a segunda maior taxa do sudeste asiático.
África também está acima da taxa global com 13 homicídios para cada 100 mil habitantes enquanto as taxas na Ásia, na Europa e na Oceania se colocam abaixo da média global com 2,3, 3,0 e 2,8, cada um.
O estudo revela que assim como acontece nos conflitos armados, o crime organizado desestabiliza os países, mina o desenvolvimento socioeconômico e corrói o Estado de Direito, destaca o relatório.
Em nível global, a maioria das vítimas de homicídio são homens, mas as mulheres são mais frequentemente mortas por familiares e parceiros íntimos.

Taxas

O diretor executivo do Unodc, Yuri Fedotov, disse que a pesquisa procura lançar luz sobre assassinatos relacionados a gênero, violência letal de gangues e outros desafios, para apoiar a prevenção e as intervenções para reduzir as taxas de homicídio.
O representante destaca que “os países se comprometeram com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para reduzir todas as formas de violência e taxas de mortalidade relacionadas até 2030.”
Para Fedotov “o relatório oferece exemplos importantes de intervenções comunitárias eficazes que ajudaram a melhorar as áreas atingidas pela violência, as gangues crime organizada.”
De acordo com o estudo, as vítimas de morte violenta como resultado de homicídio aumentou nos últimos 25 anos.  Em 1992, o número foi de 395.542 que passou para 464.000 em 2017.
Vítimas
Com o aumento rápido da população global superior ao aumento registrado nas vítimas de homicídio, o risco geral de ser morto em homicídios diminuiu constantemente.
Houve ainda uma queda da taxa global de homicídios, de 7,2 vítimas por 100 mil pessoas em 1992 para 6,1 por cada 100 mil em 2017. O documento defende que essa taxa global média de homicídios mascara variações regionais dramáticas.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Libra: nova moeda do Facebook falha no teste de Hayek

Libra significa "equilíbrio" em latim. Mas Peter Bofinger argumenta que a criptomoeda proposta pelo Facebook seria altamente arriscada para os proprietários e um gigantesco programa de enriquecimento para a empresa.

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por Peter Bofinger 

A idéia do Facebook de emitir sua própria criptomoeda encontrou fortes críticas. Katherina Pistor pediu aos governos que protejam os cidadãos da Libra, enquanto Joe Stiglitz disse que eles deveriam impedi-la imediatamente.
Ambos estão absolutamente certos. A Libra é tudo menos uma moeda estável - apesar das alegações do Facebook.

Concorrência da moeda de Hayek

A estabilidade é crucial para uma moeda privada, se quiser ter sucesso na competição com as moedas nacionais estabelecidas e com o Euro. Isso já ficou claro por Friedrich Hayek em seu livro pioneiro Denationisation of Money, publicado em 1976:
"Parece-me bastante certo que,
(a) um dinheiro geralmente esperado para preservar seu poder de compra aproximadamente constante seria de demanda contínua, desde que as pessoas fossem livres para usá-lo,
(b) com uma demanda tão contínua, dependendo do sucesso em manter o valor da moeda constante, poder-se-ia confiar nos bancos emissores para envidar todos os esforços para conseguir isso melhor do que qualquer monopolista que não corresse nenhum risco ao depreciar seu dinheiro,
(c) a instituição emissora poderia alcançar esse resultado regulando a quantidade de sua emissão, e
(d) tal regulação da quantidade de cada moeda constituiria o melhor de todos os métodos praticáveis ​​de regular a quantidade de meios de troca para todos os possíveis propósitos.
A falta de estabilidade é precisamente o que as criptomoedas vêm sofrendo até agora - acima de tudo, o Bitcoin, que revela uma volatilidade excessiva.
Os projetistas do Libra estão cientes desse desafio e acho que eles devem ter lido Hayek. Eles prometem estabilizar o valor de sua nova moeda em termos de uma cesta de moedas. Para isso, eles querem manter reservas na forma de depósitos bancários e títulos públicos de curto prazo, de acordo com a estrutura monetária da cesta. As reservas são criadas quando os investidores trocam depósitos bancários, denominados nas moedas estabelecidas, em libras.
Os projetistas de Libra, portanto, comparam seu modelo com a instituição de um “currency board”, como praticado na Argentina entre 1991 e 2002 e ainda adotado na Bulgária. Um conselho monetário é um tipo de banco central onde os passivos (caixa e reservas dos bancos comerciais) são, em princípio, totalmente cobertos por investimentos líquidos em moeda estrangeira.

Risco de taxa de câmbio

O problema com a Libra, no entanto, é que ela não é concebida como moeda nacional, mas sim supranacional. A estabilidade da moeda está, portanto, relacionada à cesta e não a uma moeda específica.
A este respeito, a Libra pode ser comparada a uma moeda de cesta, como o Direito de Saque Especial (SDR) criado pelo Fundo Monetário Internacional. O SDR é definido por valores absolutos de moedas: 0,58252 dólares, 0,38671 euros, 1,0174 yuan chinês, 11,9 ienes e 0,085946 libras esterlinas. A taxa de câmbio atual do SDR em relação ao euro é de cerca de 1,22 SDR / EUR. A participação do euro na cesta de moedas é de cerca de 32%.
Cesta de Moeda do Direito de Saque Especial (SDR)
Assumindo que uma estrutura de cabaz comparável à SDR é escolhida para a Libra, a garantia da estabilidade de valor não é garantida do ponto de vista dos investidores nacionais. Se uma família alemã comprasse 10.000 libras com 12.200 euros, de fato,compraria moedas estrangeiras por cerca de 68% do valor (o resíduo depois da participação de 32% do euro). Com flutuações às vezes muito fortes entre as principais moedas de reserva, a família assumiria um risco cambial considerável.

Assim, os investimentos em Libra são completamente diferentes dos depósitos bancários tradicionais, denominados em moeda nacional. Libra é um investimento altamente especulativo.
Quanto menor a parcela da moeda nacional na cesta de moedas de Libra, mais pronunciado se torna esse efeito. Com uma parcela da cesta de DES da libra esterlina de pouco menos de 8%, 92% de um investimento de Libra para um investidor britânico representaria um investimento em moeda estrangeira. Além disso, a Associação Libra se reserva o direito de alterar a composição da cesta de moedas no caso de uma crise econômica em um dos países de investimento - aumentando o risco.

Risco de liquidez

Mas o risco da taxa de câmbio não é o único ligado à nova moeda. Até agora, não está claro o que aconteceria no caso de uma perda geral de confiança.
Em circunstâncias normais, a taxa de câmbio teria que corresponder aproximadamente ao valor contábil das reservas. Seus projetistas acreditam que uma 'corrida' na Libra, com detentores buscando troca de volta em moedas nacionais, poderia ser descartada devido à cobertura da reserva. Isso é o que Hayek tinha em mente com a regulação da quantidade da questão.
Uma crise repentina de confiança só pode ser interrompida de forma confiável se cada investidor puder esperar um pagamento integral de Libra nos componentes da cesta. Libra pode manter sua taxa de câmbio em relação às moedas nacionais no mercado de câmbio a um nível constante através de intervenção (compra de libra contra a venda de reservas).
A reserva de Libra é, no entanto, apenas parcialmente realizada em depósitos à vista (que são facilmente acessíveis) junto dos bancos. Destina-se a investir uma grande quantidade da reserva em títulos do governo. Em uma situação de 'execução', esses ativos teriam que ser vendidos muito rapidamente, em quantidades muito altas. Quanto mais difundida a Libra e quanto maiores as participações na reserva, maiores serão as perdas nesses ativos. Este risco de liquidez pode levar, pelo menos temporariamente, a uma grande desvalorização do Libra contra o valor contábil das reservas.
O risco de liquidez pode ser exacerbado pelo fato de que, em contraste com as moedas estaduais, não há obrigação de aceitar a Libra: ele não é moeda legal. As lojas podem se recusar a aceitá-las a qualquer momento, o que intensificaria qualquer perda de confiança.

Risco de resgate

O que é ainda mais importante, no entanto, é a falta de uma obrigação de resgate obrigatória. Isso difere substancialmente da proposta de Hayek:
[…] Anunciaria a emissão de certificados ou notas não remunerados e a disponibilidade para abrir contas correntes de cheques, em termos de uma unidade com um nome comercial distinto, como «ducado». A única obrigação legal que eu assumiria seria resgatar esses títulos e depósitos à vista com, a critério do detentor, 5 francos suíços ou 5 marcos alemães ou 2 dólares por ducado.
No caso de uma crise de confiança, não é claro se as intervenções necessárias seriam efetivamente realizadas. Os documentos de Libra afirmam explicitamente que não deve haver contato direto entre os usuários e a reserva. Em vez disso, deve haver 'revendedores', como os únicos atores autorizados pela associação a realizar transações maiores de libras para as moedas estaduais e vice-versa .
Assim, há uma distinção fundamental entre um depósito bancário tradicional e um saldo Libra. Um depósito bancário de 100 euros implica um compromisso juridicamente vinculativo de resgatá-lo em notas de 100 euros. Um depósito de Libra é apenas uma promessa não vinculante para estabilizar a taxa de câmbio de Libra em aproximadamente o valor contábil das reservas. Um depósito de Libra, portanto, carrega um risco de resgate, em comparação com o depósito bancário tradicional.
Esses três riscos não são compensados ​​por oportunidades adequadas para os detentores lucrarem, mesmo onde a demanda por libra é muito forte. A oferta é completamente elástica devido ao mecanismo de emissão: nova libra pode ser emitida sem limite sempre que houver uma demanda pela moeda.
Isso é fundamentalmente diferente do Bitcoin. Bitcoin também não tem obrigação de resgate. Mas sua oferta é quase completamente rígida no curto prazo, devido ao complexo processo de "mineração" pelo qual as transações são verificadas. Saltos de preço tão grandes (e ganhos extraordinários) são possíveis se a demanda aumentar.

Programa de enriquecimento gigantesco

O problema básico com os saldos de crédito de Libra é que eles não são dívidas, o que exige uma promessa de resgate, nem patrimônio, o que implicaria alguma forma de participação nos lucros e o direito a uma palavra. Para os organizadores do sistema, isto é, claro, a grande vantagem . Eles recebem liquidez que podem usar de forma lucrativa, no sentido de um fundo gigante do mercado monetário - sem ter que conceder aos depositantes uma participação nos lucros.
Em caso de perdas, no entanto, os organizadores não podem esperar quaisquer consequências sob a forma de processo de insolvência. Libra se tornaria, assim, um gigantesco programa de enriquecimento para o Facebook e seus companheiros de armas, às custas de investidores que não compreendem os mecanismos subjacentes do esquema.
A melhor resposta à iniciativa do Facebook é, portanto, a ampla educação pública sobre os riscos de taxa de câmbio, liquidez e resgate do Libra. Se Hayek estiver certo, ninguém gostaria de manter uma moeda instável.
E quando se trata de fazer transferências internacionais de forma rápida e barata, não há necessidade de novas moedas. A concorrência adequada entre os prestadores de serviços de pagamento seria suficiente.
Este artigo é uma publicação conjunta da Social Europe e do IPS-Journa
Peter Bofinger é professor de economia na Universidade de Würzburg e ex-membro do Conselho Alemão de Especialistas Econômicos.