"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 15 de junho de 2019

O encolhimento e o empobrecimento relativo da América Latina

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 A América Latina e Caribe (ALC) ganhou destaque na economia mundial depois do processo de descolonização ocorrido na primeira metade do século XIX. O primeiro país a fazer a independência foi o Haiti. Depois veio o México. Simon Bolívar garantiu a independência da Venezuela e foi homenageado na independência da Bolívia. O Brasil foi o último (dos grandes) a fazer a independência, o último a acabar com a escravidão e o único a implantar uma monarquia.
Entre 1820 e 1870, segundo dados de Angus Maddison, o PIB da ALC cresceu 1,2% ao ano e o PIB do mundo cresceu 0,9% ao ano. Uma diferença relativamente pequena. Entre 1870 e 1950, a diferença aumentou, pois, respectivamente, o crescimento foi de 3,5% ao ano contra 2% ao ano. Entre 1950 e 1980, o crescimento econômico acelerou geral, com a ALC crescendo 5,3% ao ano e o mundo crescendo 4,5% ao ano. Ou seja, durante 160 anos, devido ao alto crescimento populacional e econômico, a América Latina e Caribe ganhou participação relativa no PIB mundial.
Contudo, a situação se inverteu depois de 1980 e a ALC começou a perder participação relativa no PIB mundial. O gráfico abaixo mostra que o crescimento econômico médio da região, nos primeiros 20 anos do século XXI, foi de 2,7% ao ano, abaixo da média mundial (4% ao ano), muito abaixo do desempenho da Ásia emergente (7,9% aa) e abaixo inclusive do crescimento da África Subsaariana (5,1% aa). Entre 2015 e 2020 o crescimento da ALC tem ficado abaixo de 1% ao ano, praticamente, com estagnação da renda per capita.

taxa de crescimento do PIB do mundo

Em 2019, alguns países da ALC vão crescer acima de 3%, como Chile, Costa Rica e Colômbia, mas o Brasil e o México – as duas maiores economias da região – não devem crescer mais do que 1,5%, enquanto Argentina deve ter uma recessão de – 1,2% e a Venezuela deve ter uma queda do PIB de inacreditáveis -25%, isto depois de 5 anos de recessão. Ou seja, segundo o FMI, a ALC é a região do mundo com menores taxas de crescimento e com grande aumento da pobreza e da desigualdade social.
O gráfico abaixo mostra a participação de três regiões no PIB global. Observa-se que a ALC estava na frente e representava 12,2% do PIB mundial em 1980, contra 8,9% da Ásia emergente e 2,5% da África Subsaariana. Mas ao longo das últimas 4 décadas a ALC apresentou uma tendência submergente e diminuiu sua participação na economia global para 7,5% em 2018, devendo ficar com somente 7% em 2024. A África Subsaariana tinha uma participação muito baixa em 1980, mas aumentou para 3% em 2018 e deve ficar com 3,1% em 2024. Já a Ásia emergente aumentou sua participação no bolo global da produção de bens e serviços para 33,3% em 2018 e deve atingir 38,8% em 2024.

participação da Ásia, ALC e África Subsaariana no PIB mundial

Todo este baixo crescimento econômico da América Latina e Caribe acontece quando as condições demográficas da região são ainda favoráveis. A ALC está ainda na fase conhecida como bônus demográfico, que é o momento que, em geral, os países aproveitam para dar um salto no desenvolvimento e no bem-estar. Como se costuma dizer: “um país ou região só consegue ficar rico antes de envelhecer”.
Isto quer dizer que a ALC tem pouco tempo para reverter sua trajetória submergente, pois depois do envelhecimento será praticamente impossível dar um salto na qualidade da estrutura produtiva. Infelizmente, a maioria dos países da região estão sendo gerenciados por governos populistas (mais à esquerda ou mais à direita) que não enfrentam os verdadeiros problemas para retomar a rota da prosperidade e da mobilidade social ascendente.
Embora o PIB da ALC esteja em processo de encolhimento relativo, a região ainda possui uma renda per capita mais alta do que a da Ásia Emergente e da África Subsaariana. O gráfico abaixo mostra que a ALC tinha uma renda per capita, em poder de paridade de compra (ppp, na sigla em inglês) de US$ 4,6 mil em 1980, contra US$ 2,97 mil da média mundial, US$ 1,2 mil da África Subsaariana e de somente US$ 561,6 da Ásia emergente.
Porém, a partir de 2015 a renda per capita brasileira ficou abaixo da renda per capita mundial, mostrando que o Brasil passou para o lado de baixo (da média global) do posicionamento dos países em termos de renda. A Ásia emergente também tem uma renda per capita abaixo da média mundial, mas está em processo de rápido crescimento e deve superar o Brasil até 2025 e superar a média global até 2030. A África Subsaariana tem a menor renda per capita do mundo, mas apresentou crescimento desempenho melhor do que o Brasil nos anos 2000.

renda per capita do mundo

A ideia positivista de progresso – que orientou a história da América Latina – tem sido colocada em questionamento desde a primeira década perdida, nos anos 1980. Depois de duas décadas de baixo crescimento, uma nova década perdida tem marcado mais retrocessos do que progressos na região.
Sucessivas décadas perdidas podem inviabilizar a utopia de uma região próspera e feliz e dar início a dura realidade de uma distopia persistente.

Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/06/2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma política industrial para bons empregos

A concorrência das autoridades públicas para atrair grandes empresas com benefícios fiscais ou outros subsídios não é o caminho para bons empregos. Um diálogo iterativo com as empresas oferece uma maneira melhor.

por Dani Rodrik e Charles F Sabel 

Resultado de imagem para política industrial

Tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, uma combinação de forças tecnológicas e econômicas criou um segmento de produção avançada, concentrado em áreas metropolitanas, que agora coexiste com uma massa de atividades e comunidades relativamente menos produtivas. Esse dualismo produtivo está por trás de muitos males contemporâneos: crescente desigualdade e exclusão, perda de confiança nas elites governantes e crescente apoio eleitoral a populistas autoritários. Mas grande parte da discussão sobre políticas hoje se concentra em soluções que não percebem a verdadeira fonte do problema.

Por exemplo, a redistribuição por meio de impostos e transferências fiscais aceita a estrutura produtiva como dada e apenas melhora os resultados por meio de folhetos. Da mesma forma, os investimentos em educação, renda básica universal e fundos de riqueza social buscam fortalecer as dotações da força de trabalho, sem garantir que as melhores dotações sejam colocadas em uso produtivo. Enquanto isso, as garantias de emprego e a gestão da demanda keynesiana oferecem pouco para melhorar o mix de empregos.

Para ter certeza, precisamos de muitas dessas políticas. Mas funcionarão melhor - e, a longo prazo, talvez apenas - com um novo conjunto de medidas "produtivistas" que intervêm diretamente na economia real, visando a expansão do emprego produtivo 

Reforçando mutuamente

A estratégia que temos em mente compreenderia três componentes que se reforçam mutuamente: um aumento no nível de qualificação e produtividade dos empregos existentes, fornecendo serviços de extensão para melhorar os programas de gestão ou de cooperação para o avanço da tecnologia; um aumento no número de bons empregos, apoiando a expansão de empresas locais existentes ou atraindo investimentos de forasteiros; e políticas ativas de mercado de trabalho ou programas de desenvolvimento da força de trabalho para ajudar os trabalhadores, especialmente de grupos em risco, a dominar as habilidades necessárias para obter bons empregos.
Nenhum desses três componentes é novo, e elementos de cada um podem ser encontrados em programas governamentais reais. Mas as políticas existentes são tipicamente enraizadas em estruturas regulatórias que funcionam mal sob condições de alta incerteza. O que é um bom trabalho? Quantos podem ser razoavelmente criados? Como as escolhas tecnológicas e outras no nível da empresa influenciam a criação de empregos? Quais alavancas políticas complementares estão disponíveis? Como esse conjunto de instrumentos pode ser expandido?
Estas são necessariamente questões locais e contextuais. Eles podem ser respondidos e revisados ​​periodicamente, apenas por meio de um processo iterativo de interação estratégica entre órgãos públicos e empresas privadas. Um tema comum que emerge dos  estudos  das chamadas políticas baseadas no lugar, como os subsídios ao emprego com orientação regional e o investimento em infraestrutura, é a natureza altamente contingente do sucesso. Poucas políticas funcionam prontamente e de forma confiável em diversas configurações.
As competições entre estados e localidades para atrair grandes empregadores com impostos e outros subsídios funcionam especialmente mal. Ofertas recentes de alto perfil para a Foxconn e Amazon, em Wisconsin e Nova York, respectivamente, explodiram. Além de serem desequilibrados, eles eram baseados em um ambiente estável, refletido em termos contratuais fixos e detalhados. Quando a Foxconn enfrentou mudanças na demanda e na tecnologia, e a Amazon enfrentou consequências políticas inesperadas, não havia espaço suficiente para revisão ou renegociação.

Arranjos inovadores

Os regimes de governança devem reconhecer plenamente a natureza provisória e interativa de qualquer estrutura política eficaz. Felizmente, os princípios sobre os quais tais regimes podem ser construídos não precisam ser inventados do zero. Eles podem ser emprestados de arranjos inovadores de governança que firmas, reguladores e outras agências públicas já desenvolveram em outras esferas.
Em um  artigo recente , fornecemos ilustrações detalhadas de dois domínios: o fomento de tecnologias pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) e seu desdobramento, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada-Energia (ARPA-E), nos Estados Unidos e regulamentação ambiental da produção leiteira na Irlanda.
Sob extrema incerteza, nenhuma das partes - nem reguladores nem firmas - tem informações confiáveis ​​sobre as possibilidades e os custos do ajuste no médio prazo, e haverá apenas vagas conjecturas em relação às possibilidades futuras. A resposta - em promoção de inovação, regulamentação ambiental, segurança alimentar e aviação civil, entre outras áreas - é a criação de um regime de troca de informações que vincula a especificação contínua das metas à exploração contínua de novas soluções.
Na União Européia, por exemplo, o regulador estabelece 'água boa' como um resultado ambicioso e aberto. As entidades regulamentadas e partes afetadas - empresas e fazendas, estados membros, governos locais, atores da sociedade civil - são obrigadas a fazer planos para atingir as metas e relatar resultados regularmente. Penalidades são impostas por falha em reportar honestamente ou por falha persistente em alcançar resultados viáveis ​​(como demonstrado por outros em posição similar). Esses métodos não são autopoliciadores. Como todas as instituições, elas podem ser corrompidas ou degradadas. Mas com a supervisão pública adequada, eles funcionam quando as abordagens convencionais falham.

Boa estratégia de empregos

Além de alguns programas de treinamento em faculdades comunitárias bem-sucedidos, esses arranjos de governança não foram implantados em busca de bons empregos. Mas eles podem ser adaptados para esse fim. O conceito de 'bom trabalho', assim como a água limpa, é impreciso e precisa ser operacionalizado de uma maneira que esteja tanto evoluindo quanto dependente do contexto. Uma estratégia de bons empregos poderia ser introduzida em quatro etapas.
Primeiro, por meio de legislação ou outros meios, o governo se compromete a resolver o problema dos maus empregos, cria um organismo inter-agências para revisar e estimular a melhoria das respostas regulatórias e fornece fundos e autoridade para programas voluntários. Em segundo lugar, os reguladores que atualmente supervisionam áreas que afetam diretamente a qualidade e a oferta de trabalho - treinamento vocacional, extensão agrícola e manufatureira, estabelecimento de normas e afins - introduzem mecanismos de governança que não apenas induzem a inovação, mas também antecipam a necessidade de serviços de apoio para ajudar os atores vulneráveis ​​a cumprir requisitos cada vez mais exigentes. Os requisitos podem assumir diferentes formas, incluindo metas específicas de quantidade de emprego e / ou padrões.
Em terceiro lugar, onde a autoridade reguladora atual não alcança, o governo cria programas públicos-privados voluntários para avançar as fronteiras da tecnologia e organização ou - talvez mais importante - fornece serviços de apoio e possivelmente subsídios para ajudar empresas de baixa produtividade / baixa qualificação mudar para o setor avançado. Por último, condicionado ao sucesso dos acordos voluntários, o âmbito destas práticas seria gradualmente tornado obrigatório para as empresas não participantes, começando pela apresentação obrigatória de planos credíveis para melhorar a qualidade e a quantidade de empregos.
Uma característica atraente da estratégia de bons empregos que propomos é que as mesmas instituições de governança interativa que permitem às partes especificar e resolver os problemas que enfrentam sob incerteza também lhes permitem desenvolver a confiança e a confiança mútua de que necessitam para aprofundar e ampliar seus problemas. esforços. A ampla coalizão necessária para que a abordagem seja bem-sucedida já não precisa existir; pode e provavelmente será o resultado de seguir a estratégia. Confiança e novas alianças são tanto - ou mais - o resultado da resolução conjunta de problemas como pré-condições.

Dani Rodrik, professor de economia política internacional na Escola de Governo John F Kennedy da Universidade de Harvard, é autor de " Straight Talk on Trade: Idéias para uma economia mundial sadia". Charles F Sabel é professor de direito na Universidade de Columbia.

Big Data e seu recinto dos bens comuns

As distopias digitais são exageradas, mas a desigualdade está aumentando. A resposta está no tratamento de dados como comuns e Big Data como um problema de ação coletiva.

por Ekkehard Ernst 

Big DataO medo da máquina está de volta. Visões distópicas de um mundo sem empregos abundam à medida que veículos autônomos, robôs humanóides e supercomputadores são pensados ​​para substituir trabalhadores humanos. O progresso recente na inteligência artificial tem sido impressionante: as máquinas estão recebendo ligações telefônicas, entendendo questões e sugerindo soluções - geralmente muito mais rápido do que um funcionário de um call center humano.
No entanto, até agora, não há provas de perda de emprego está montando. Entre os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, as taxas de desemprego estão em seu nível mais baixo desde 2006. O que tem aumentado é a desigualdade de renda. A economia digital exige novas abordagens políticas para lidar com isso.

Polarização de trabalho

O crescimento inclusivo está ameaçado de três maneirasPrimeiro, a automação devido a máquinas inteligentes e computadores não está mais confinada à fabricação, mas afeta os empregos - principalmente a classe média - nos serviços também. Serviços jurídicos básicos, contabilidade, logística e varejo verão muitas tarefas substituídas por máquinas que exigem pouca supervisão ou manutenção pelos funcionários. A experiência sugere que, em vez de ficar desempregado, um número crescente de pessoas deslocadas competirá para baixo, levando a uma nova polarização de empregos.
Em segundo lugar, o aumento exponencial do consumo de energia induzido por algoritmos complexos sugere que as novas aplicações da inteligência artificial serão voltadas mais para inovações de economia de capital e de aumento de fator. O gerenciamento de redes - por exemplo, redes de eletricidade ou sistemas de controle de tráfego para cidades "inteligentes" - bem como sistemas especialistas em pesquisa, agricultura ou saúde provavelmente dominarão as inovações de automação pura. Isso levará a um novo aumento nas mudanças tecnológicas, uma tendência observada nas últimas décadas.
Por último, mas não menos importante, as empresas digitais concentram lucros e riqueza à medida que coletam e exploram grandes quantidades de dados para seus algoritmos para individualizar preços e ofertas de produtos. As externalidades de rede subjacentes permitem que os pioneiros inovadores se equipem, deixando aos novos participantes pouca chance de competir por participações de mercado ou lucros. vieses algorítmicos - a tendência das decisões sobre máquinas de replicar a discriminação profundamente enraizada nos dados históricos em que essas rotinas são executadas - compõem o desafio da desigualdade.
As respostas tradicionais às desigualdades decorrentes do progresso tecnológico permanecem relevantes. Tributar o excesso de lucros (corporativos), garantir que o consumo de serviços digitais seja tributado onde é consumido - atualmente não é - e fortalecer a negociação coletiva, para garantir que os benefícios sejam amplamente compartilhados em toda a economia, continue sendo a primeira linha de resposta. Da mesma forma, a combinação da seguridade social digital com a aprendizagem ao longo da vida ajuda os trabalhadores deslocados a investir em suas competências para encontrar empregos mais bem remunerados.

Pouca alavancagem

Essas medidas, embora necessárias, são, no entanto, improváveis ​​de serem suficientes para reduzir as desigualdades. Para começar, os efeitos de rede envolvidos na economia digital não permitirão que todas as empresas aumentem os salários da mesma forma que os corredores da frente, deixando acordos de participação nos lucros ou negociação coletiva com pouca alavancagem para melhorar a equidade.
Mais importante ainda, o novo modelo de negócios desse "capitalismo de vigilância" baseia-se na coleta de dados sem barreiras ao acesso, explorados com algoritmos proprietários e na venda dessa inteligência de mercado. Enquanto os dados vêm de graça - e os usuários muitas vezes estão dispostos a desistir de sua privacidade - sua colheita não é, já que as coleções de dados são protegidas por direitos de propriedade intelectual e assim a concorrência sobre quem desenvolve o melhor algoritmo é sufocada. Somente quando o acesso aos dados é desimpedido e compartilhado com pouco ou nenhum custo, os novos concorrentes podem competir de verdade, como, por exemplo, no negócio de tradução automática, que depende da captura de traduções disponíveis gratuitamente pela web.
Soluções sugeridas, como o fortalecimento da contestabilidade de mercado, garantindo a portabilidade de dados - por exemplo, através do desenvolvimento de interfaces e padrões - são úteis, mas novamente insuficientes, pois poucos usuários ficarão incomodados em manter vários sites de mídia social diferentes para garantir a concorrência entre provedores. A quebra de grandes players digitais, como o Facebook ou o Twitter, por meio da desintegração vertical também não resolveria o problema subjacente de garantir acesso às coleções de dados que essas empresas monopolizam.
Recentemente, Glen Weyl e seus co-autores sugeriram uma solução inovadora - estabelecendo direitos de propriedade de dados para que os dados se tornassem trabalhoCada usuário seria remunerado de acordo com quanto valor sua entrada de dados criava para um provedor de conteúdo digital. Além disso, os usuários poderiam rastrear onde e em qual contexto seus dados estavam sendo usados, possivelmente bloqueando certas formas de uso de dados (por exemplo, para fins militares).
Tão elegante como esta solução aparece, tem uma desvantagem: mais dados não significam melhores algoritmosOs poucos indivíduos cujos dados são altamente relevantes obtêm grandes retornos, mas o usuário médio ainda não vê muito da entrada de dados.

Problema 'Commons'

Em vez disso, os monopólios naturais que surgem na economia digital devem ser tratados de forma semelhante a outros problemas comuns. Em vez de (apenas) fortalecer os direitos de propriedade individual para regular as externalidades, os governos devem extrair renda para construir capital públicoTais abordagens já existem na forma de fundos soberanos ou de riqueza social e foram implementadas para uma variedade de ativos, embora muitas vezes relacionados a recursos naturais.
Considerar os dados como comuns, o que permite a extração de aluguéis, ajudaria a restabelecer o equilíbrio entre fornecedores de dados individuais e fornecedores de plataformas corporativas. Mais importante ainda, com os governos investindo em tais plataformas por meio dos fundos de riqueza dos cidadãos, isso deixaria os incentivos para o desenvolvimento algorítmico intactos e ainda permitiria uma competição mais rigorosa e melhores retornos individuais no fornecimento de dados.
Somente quando tratamos a propriedade de dados como um problema de ação coletiva, podemos esperar abordar o contínuo aumento da desigualdade.


Ekkehard Ernst lidera a pesquisa global sobre o Futuro do Trabalho e outros desafios de longo alcance na Organização Internacional do Trabalho. Juntamente com sua equipe, ele desenvolve cenários sobre como a inteligência artificial, uma sociedade envelhecida, a mudança climática e o populismo afetarão o emprego e a desigualdade.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Pior recessão, pior recuperação e pior octênio (2012-1019) da história brasileira

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil vive o seu pior período de recessão e recuperação dos últimos 120 anos. A retração do Produto Interno Bruto (PIB) entre os anos de 2014 a 2016 foi longa e profunda, mas pior tem sido a inédita a lenta recuperação, com a manutenção de altas taxas de desemprego e de subutilização da força de trabalho.
O Gráfico abaixo, com base em texto do IBRE, de Borça Jr, Barboza e Furtado (02/05/2019), contrasta os dados da última recessão com os dados dos dois períodos recessivos mais intensos do Brasil e também com a média das nove recessões ocorridas desde 1980. O artigo compara, como base 100, o trimestre imediatamente anterior ao início de cada recessão. Os resultados mostrados abaixo indicam que o Brasil atravessa o período de pior desempenho dos últimos 40 anos.
O texto diz: “Das nove recessões identificadas, as mais longevas e profundas, em ordem cronológica, foram as seguintes: i) entre 1T/1981 e 1T/1983, com duração de 9 trimestres e queda acumulada da economia de 8,5%, no contexto de crise da dívida externa dos países da América Latina; ii) entre 3T/1989 e 1T/1992, com duração de 11 trimestres e queda acumulada do PIB de 7,7%, em um ambiente de restrição de liquidez advindo do Plano Collor; e iii) o episódio recente, com duração de 11 trimestres e contração acumulada de 8,2%, entre 2T/2014 e 4T/2016”.

padrão de evolução do PIB Brasileiro em recessões

O texto continua: “A recessão de 1981-1983 (linha azul) não foi apenas mais pronunciada do que a média das contrações brasileiras, mas também apresentou uma espécie de “doudle dip”, ou recuperação em “W”, em que a economia ensaia uma retomada e, logo depois, entra novamente em contração. Foi somente a partir do 10º trimestre depois de iniciada a recessão que a economia passou a se recuperar de forma ininterrupta, retornando a seus níveis pré-recessão apenas 16 trimestres (o que equivale a 4 anos) depois de iniciada a contração do PIB.
Por sua vez, a recessão 1989-1992 (linha cinza) também apresentou queda rápida e profunda da atividade. Porém, a recuperação foi bem irregular, com dois movimentos de aceleração e posterior contração. Esse processo claudicante esteve ligado à implementação do Plano Collor, no 1T/1990, com forte restrição de liquidez aos agentes econômicos. Foi somente a partir do 12º trimestre que a recuperação, de fato, aconteceu. A economia recuperou seus níveis pré-recessão apenas 18 trimestres depois (ou seja após 4,5 anos).
Já a contração de 2014-2016 (linha vermelha) foi bem diferente tanto da média das recessões anteriores quanto daqueles episódios mais profundos já mencionados. Primeiro, porque a queda de PIB foi praticamente contínua ao longo de quase 3 anos. Segundo, porque a recuperação se caracteriza por uma lentidão sem precedentes em nossa história. Após 19 trimestres do início da recessão, ou seja, quase 5 anos depois, a economia brasileira ainda se encontra mais de 5% abaixo de seu nível do início de 2014. Comparativamente à média das recessões brasileiras, o nível atual do PIB do Brasil encontra-se, depois de 19 trimestres após o início da contração, 12,6% abaixo do padrão histórico de recuperação (94,9 contra 106,9)”.
Portanto, a análise acima mostra que o Brasil vive o seu pior desempenho econômico das últimas 4 décadas. Mas um olhar a partir de um horizonte mais longo indica que o medíocre crescimento econômico atual é o pior dos últimos 120 anos. Considerando a média móvel de oito anos (octênios), o gráfico abaixo mostra que desde 2011 o ritmo de crescimento tem diminuído continuamente.
Considerando a média móvel de 8 anos, em todo o período, o atual octênio (2012-2019) apresenta o resultado mais decepcionante, seguido pelo octênio que cobre os governos Sarney e Collor. Todos os octênios entre 1901 e 1987 apresentaram crescimento médio anual acima de 2,9% ao ano.

taxas anuais de crescimento do PIB

A economia brasileira cresceu 4,5%, ao ano, na média dos 120 anos. A renda per capita cresceu 2,4% ao ano durante as 12 décadas. O período de maior crescimento foi entre 1968 e 1973 (conhecido como “milagre econômico”) quando o PIB, em média, cresceu 11% ao ano e a população cresceu 2,5% ao ano. Portanto, a renda per capita cresceu 8,5% ao ano entre 1968 e 1973.
O contraste com a situação atual é marcante, pois, no período Dilma-Temer, entre 2011 e 2018, o PIB cresceu 0,52% ao ano e a população cresceu 0,8% ao ano. O resultado foi a redução da renda per capita em – 0,27% ao ano. Mas o que estava ruim piorou. O ano de 2019 começou com uma retração no PIB de 0,2% no primeiro trimestre. O Boletim Focus do Banco Central já prevê um crescimento do PIB de 1,13% em 2019.
Assim, no período Dilma-Temer-Bolsonaro, entre 2012 e 2019, o PIB deve crescer somente 0,17% ao ano e a renda per capita caiu cerca de -0,63% ao ano (se confirmada a estimativa de crescimento do PIB de 1,13% em 2019). A população brasileira, na média, ficou mais pobre no octênio Dilma-Temer-Bolsonaro.
O caos atual das políticas públicas só agrava a situação. Quando era candidato, Jair Bolsonaro prometeu zerar o déficit público no primeiro ano da nova administração. Ainda no primeiro semestre, o presidente implora ao Congresso a autorização para o governo emitir cerca de R$ 249 bilhões em dívida.
O lado mais dramático de todos estes números está na situação de milhões de pessoas que não conseguem exercer o direito humano básico que é ter um emprego decente. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, o Brasil teve uma perda líquida de cerca de 3 milhões de empregos formais desde dezembro de 2014. Em março de 2019, ao invés de aumentar as contratações houve uma perda de 43 mil vagas no mercado formal, mostrando que a economia brasileira está em marcha lenta.
Segundo a PNADC, do IBGE, a taxa de desocupação (pessoas que não estavam trabalhando, mas estavam procurando emprego) foi de 12,7% no primeiro trimestre de 2019, significando 13,4 milhões de pessoas que desejam trabalhar, mas não conseguem vagas no mercado de trabalho. Segundo a mesma pesquisa, a taxa composta de subutilização da força de trabalho (que mede o percentual de pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e na força de trabalho potencial) foi de 25% no mesmo período, representando 28,3 milhões de pessoas subutilizadas no Brasil. No trimestre fevereiro a abril de 2019 este número subiu para 28,4 milhões, o maior contingente da série histórica. O Brasil tem uma população subutilizada aproximadamente equivalente ao total da população da Espanha.
Tudo que foi dito indica que o Brasil está preso na “armadilha da renda média” e está vivendo a sua segunda “década perdida”. Os indicadores macroeconômicos (como déficit público, dívida bruta, taxa de investimento, etc.) são todos problemáticos. E o pior é que existe um embate permanente entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e não se vê um plano para tirar o país do pântano. Até as manifestações de rua estão conflagradas.
Neste cenário, o sofrimento da população se agrava, enquanto aumenta a insatisfação geral. Existe um ambiente de muita instabilidade no presente e uma enorme ansiedade com o futuro.

Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


Referência:
Gilberto Borça Jr., Ricardo de Menezes Barboza, Mauricio Furtado. A recuperação do PIB brasileiro em recessões: uma visão comparativa, IBRE, 02/05/2019


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/06/2019

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O mundo com mais idosos do que crianças pequenas a partir de 2019

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O ano de 2019 é um marco no processo de envelhecimento da população global. Pela primeira vez na história, o número de idosos de 65 anos e mais de idade será superior ao número de crianças pequenas de 0 a 4 anos. Vale dizer, o mundo passa a ter mais “avós do que netos”.
A mudança nas curvas acontece no corrente ano, mas vai se acentuar ao longo do século XXI, pois a população de 0 a 4 anos de idade vai ficar aproximadamente estável, em torno de 650 a 700 milhões de crianças, enquanto a população de 65 anos e mais de idade vai passar de 700 milhões de idosos, em 2019, para cerca de 2 bilhões de pessoas em 2075 e para 2,5 bilhões em 2100, conforme mostra o gráfico abaixo, com base nos dados demográficos da Divisão de População da ONU.
Em 2075, o número de idosos vai ultrapassar o número de crianças e jovens de 0 a 14 anos, ou seja, o Índice de Envelhecimento (IE) será superior a 100, indicando que o mundo será efetivamente idoso a partir desta data. Esta mudança na relação intergeracional é inédita desde o surgimento do Homo sapiens, pois o mundo sempre teve uma estrutura etária rejuvenescida, mas está em processo acelerado de envelhecimento populacional e terá uma estrutura, inquestionavelmente, envelhecida a partir do último quartel do século XXI.

população global de isosos, crianças e jovens

No caso brasileiro, o processo de envelhecimento populacional é ainda mais precoce e acelerado, conforme mostra o gráfico abaixo, também com base nos dados da Divisão de População da ONU. Nota-se que, no Brasil, o número de idosos de 65 anos e mais de idade ultrapassou o número de crianças pequenas de 0 a 4 anos no ano de 2013 e vai superar o número de crianças e jovens de 0 a 14 anos em 2037. Portanto, o Brasil está mais adiantado no processo de envelhecimento do que a média mundial e será um país, efetivamente, idoso a partir de 2037.

população de isosos, crianças e jovens: Brasil

O envelhecimento populacional é uma realidade que ninguém pode negar e que traz, como tudo na vida, oportunidades e desafios. Cabe às pessoas, às famílias, ao setor produtivo e às políticas públicas se adaptar à nova estrutura etária, caracterizada por uma base da pirâmide populacional estreita e um topo alargado, conforme mostram as figuras abaixo.

distribuição de sexo e idade da população mundialdistribuição de sexo e idade da população no Brasil


As transformações demográficas são significativas no mundo e, especialmente, no Brasil, afetando toda a sociedade. Assim, é necessário que os países se adaptem a essa nova realidade. Mas embora o Brasil e o mundo tenham cada vez mais “avós do que netos”, as políticas públicas não devem focar apenas no topo da pirâmide, pois somente com a solidariedade intergeracional é possível atender as demandas das crianças, dos jovens, adultos e idosos.
Apesar das gerações terem capacidades e necessidades diferentes, somente o relacionamento justo, mesmo que desigual e combinado, pode garantir o futuro de prosperidade comum para toda a população, independentemente do posicionamento de cada indivíduo na estrutura de sexo e idade que constitui o pilar da dinâmica social de cada nação.

Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/06/2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Banco Mundial: economia global precisa crescer mais para que se reduza a pobrezaBR

Novo relatório analisa riscos para economias globais e traz novas expectativas de crescimento para o Brasil e outros países neste ano.


O Banco Mundial revisou nesta terça-feira a previsão para o crescimento econômico do Brasil em 2019. Em vez dos 2,2% estimados em janeiro, a economia do país deve crescer 1,5%. E, para 2020, está prevista expansão de 2,5%. Os novos dados são do estudo Perspectivas Econômicas Globais, ou GEP, na sigla em inglês.
Moçambique deverá ter crescimento econômico de 2% em 2019. Foto: Banco Mundial / Sarah Farhat












O relatório explica que, embora o acesso ao crédito esteja um pouco mais fácil, outros indicadores de atividade econômica no Brasil permanecem lentos. Os números do Brasil terão impacto no desempenho da América Latina e do Caribe, cujo crescimento deverá ser de 1,7% em 2019 e 2,5% em 2020.

Cenário  

Para Angola, a previsão de crescimento econômico neste ano é de 1%, para Moçambique, 2%, para Cabo Verde, 4,4%, para Guiné Bissau, 4,3%. Já a economia da Guiné Equatorial terá retração de 2,2% em 2019. E, para Timor-Leste, há expectativa de crescimento de 3,9%.
Globalmente, as perspectivas são de crescimento tímido: 2,6% em 2019 e 2,7% em 2020.
Alex Balayut/Banco Mundial
Timor-Leste deverá ter crescimento econômico de 3,9% por cento em 2019.

Problemas

Entre os atuais riscos, estão o aumento das barreiras comerciais, novas tensões financeiras e uma desaceleração maior do que a esperada em diversas economias. O relatório ainda cita problemas estruturais que desencorajam o investimento em todo o mundo.
O estudo alerta que, para alcançar o objetivo global de reduzir a extrema pobreza a menos de 3% até 2030, será necessário um crescimento econômico mais robusto. E discute algumas ideias para mudar esse cenário.
Para os países emergentes, como o Brasil, uma das recomendações é evitar os riscos associados ao superendividamento público. Além disso, realizar reformas para gerar um clima mais favorável aos negócios e, assim, estimular o investimento privado.

*Reportagem: Mariana Ceratti

terça-feira, 4 de junho de 2019

Teoria monetária moderna: um modelo macroeconômico simples

Por que a teoria monetária moderna sai da academia? Porque ajuda a modelar a atual situação econômica e como sair dela.


por Dirk Ehnts

Qualquer coisa que possamos fazer, podemos pagar. Uma vez feito, está lá.
John Maynard Keynes (1942)
A moderna teoria monetária (MMT) recebeu muita atenção recentemente. Alexandria Ocasio-Cortez, estrela em ascensão do Partido Democrático dos EUA, constrói suas políticas - como o Green New Deal - na MMT e pede à mídia que leia a teoria monetária. Bernie Sanders, corredor presidencial, é aconselhado por Stephanie Kelton, uma das principais economistas da MMT.
Na Europa, de acordo com o maior jornal da Alemanha, a MMT está a caminho de se tornar a teoria econômica da esquerda. E o colunista da Social Europe, Peter Bofinger, ex-membro do Conselho de Especialistas Econômicos da Alemanha, escreveu que "a combinação de política fiscal expansiva e política monetária expansiva é uma ferramenta muito poderosa, que deve ser usada se necessário e ao mesmo tempo tratada". com muito cuidado '.

Insights confirmados

A novidade da MMT é seu foco nos balanços patrimoniais. Ela examina como os governos gastam e taxam, como os bancos centrais e outros bancos emprestam e como o setor privado toma emprestado e paga. A MMT, que é baseada em mais de um quarto de século de trabalho acadêmico e não pode ser explicada em um post de blog, produziu insights que foram confirmados desde o início.
O maior insight é que é preciso dividir os emissores de moeda dos usuários de moeda. Os emissores de moeda estão livres de restrições técnicas do balanço. Se quisessem, poderiam aumentar os gastos sem limite. Isso funciona melhor se não houver dívida pública em circulação em moeda estrangeira e houver uma taxa de câmbio flexível. Os países onde isso se aplica incluem os Estados Unidos, o Canadá, o Japão, o Reino Unido, a Suécia, a Suíça e muito mais. Existem também restrições políticas, como o limite da dívida pública nos EUA, os freios nacionais da dívida na Europa ou o Pacto de Estabilidade e Crescimento na zona do euro. No entanto, as regras nem sempre são cumpridas, por isso, tecnicamente, a zona euro é igual a qualquer outra área monetária, mesmo que politicamente não é.
modelo macroeconômico simples abaixo é baseado na percepção de que a renda (nacional) é causada pelos gastos, e que os gastos têm que vir de algum lugar. Aumentos nos gastos de curto prazo e, portanto, na dívida de curto prazo - privada, pública ou estrangeira - levam a um aumento da renda. Seja um aumento nos gastos do governo, no investimento privado financiado por dívida e/ou nas exportações, todas essas transações criam novos depósitos líquidos (bancários) na economia. Os depósitos, por sua vez, são drenados pela poupança privada (pagamento de dívidas, por exemplo), impostos e importações. Portanto, é plausível que exista uma conexão relativamente estável entre as mudanças nos depósitos líquidos e na renda. Uma injeção de depósitos líquidos é expansionista, enquanto seu vazamento é contracionário. Isso é mostrado abaixo. (Ignoramos a inflação e a equação quantitativa relacionando o nível de preços e a quantidade de dinheiro, P (/ V) = M / Y.)
Enfatizando que as rendas (Y) e os gastos (AD) precisam se equilibrar, podemos então traçar um em relação ao outro em uma linha de 45 graus. Supondo-se que o investimento privadoI, os gastos do governo G e as exportações são exógenas e que o consumo C, privado de poupança p, impostos T e as importações depende da renda nacional, chegamos à figura seguinte (incluindo as exportações líquidas NX).
Examinamos os saldos setoriais que são derivados do modelo. As mudanças na poupança financeira do setor privado são a poupança privada menos o investimento ( p- I ), as do setor público igual renda fiscal menos as despesas do governo ( TG ) e as do setor externo (o resto do mundo) igual às importações menos exportações. A maneira que os diagramas acima são desenhados - e adicionando a suposição de que a renda tributária (não mostrada acima) é igual aos gastos do governo - a mudança na economia financeira líquida do setor privado é zero. Isso decorre da balança corrente equilibrada e do saldo do orçamento público.
Podemos agora passar para o modelo total, que consiste nas três partes acima.
teoria monetária moderna
Simulando um aumento do investimento privado I, a economia vai melhorar à medida que o emprego aumenta com o aumento da renda nacional. Isso se assemelha às bolhas imobiliárias que vimos nos anos 2000 na Espanha e na Irlanda.
teoria monetária moderna
Desde que não pode durar para sempre tem que parar em algum momento, nós, em seguida, passamos para o colapso do investimento privado I que é causada por uma mudança nas expectativas sobre futuros preços imobiliários e a probabilidade da próxima geração de jovens estar disposta a carregar com dívidas para comprar uma casa ou apartamento.
teoria monetária moderna
Note-se que a economia se contrai, com as importações caindo abaixo das exportações. Ainda assumindo um orçamento governamental equilibrado, isso permite que o setor privado acabe com uma economia financeira líquida positiva ( p -I > 0). Estes são necessários para pagar dívidas antigas e reconstruir a riqueza líquida. A queda na renda nacional significa que temos um desemprego substancial, já que o nível de gastos privados ( C + I ), dado o gasto público G e o resto do gasto mundial, é muito baixo para levar ao pleno emprego. Se o investimento privado que não pode ser estimulada através de uma política de taxa de juro zero no Banco Central Europeu, em seguida, os gastos do governo Gé o único jogo na cidade. Como Hyman Minsky argumentou, a instabilidade inerente da economia capitalista pode ser atenuada pela confiança no Big Bank e no Big Government.
teoria monetária moderna
O aumento nos gastos do governo G permite que o setor privado para reconstruir seu balanço enquanto sustentar um nível de exigência que é compatível com o pleno emprego. Na zona do euro, a situação é complicada pelo fato de que o fornecedor monopolista de moeda, o BCE, pode emprestar a bancos, mas não a governos.

Restrições políticas

Os problemas econômicos da zona do euro devem-se a restrições políticas que derivam da construção da própria zona do euro - não por falta de competitividade ou por excesso de dívida (privada ou pública) ou restrições técnicas . Essas restrições podem ser abordadas politicamente e fixas. Um Tesouro da área do euro seria uma forma de avançar, conforme previsto pela Comissão Europeia.
A teoria monetária moderna ajuda a entender de onde vêm os problemas da zona do euro - e como resolvê-los.

Dirk Ehnts é assistente de pesquisa na Universidade Técnica de Chemnitz e porta-voz da diretoria da Pufendorf-Gesellschaft eV em Berlim.