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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cientistas acusam o governo dos EUA de desenvolver novas armas atómicas

Cientistas norte-americanos acusam o governo dos EUA de ir para além da mera manutenção das suas armas atómicas e de desenvolver na prática novos sistemas de armamento. Por Markus Becker.
Cientistas norte-americanos acusam o governo dos EUA de ir para além da mera manutenção das suas armas atómicas e de desenvolver na prática novos sistemas de armamento
Barack Obama tem falado muitas vezes de desarmamento nuclear. No seu discurso de Praga em 2009 desenvolveu, pegando no lema “Yes, we can!”, a visão de um mundo livre de bombas atómicas. No seu discurso de Berlim no verão deste ano já se mostrou bastante mais modesto: disse que o número de armas atómicas norte-americanas poderia ser reduzido em um terço se os russos se mostrassem dispostos a fazer o mesmo nas negociações.
No entanto, a realidade é muito diferente, como afirmam agora novamente os críticos. A associação de cientistas norte-americanos Union of Concerned Scientists (UCS) acaba de apresentar um amplo informe sobre a modernização do arsenal nuclear do seu país1. Este relatório não deteta quase nenhum progresso em matéria de desarmamento. Além disso, os cientistas acusam o governo dos EUA de ir para além da mera manutenção das suas armas atómicas e de desenvolver na prática novos sistemas de armamento.
O governo de Washington confronta-se desde há tempo com um dilema: a última bomba nuclear dos EUA foi desenvolvida em 1990 e está baseada na tecnologia dos anos setenta. Os ensaios nucleares subterrâneos ficaram suspensos em 1992 e desde então as provas baseiam-se em simulações por computador. Ao mesmo tempo, o arsenal envelhece, e para garantir a segurança e a fiabilidade do armamento é preciso investir enormes somas de dinheiro. Porque os EUA todavia dispõem de nada menos que cerca de 7.700 ogivas nucleares, das quais 2.150 estão ativas.
É verdade que se trata apenas de prolongar a vida das bombas?
Segundo o relatório da UCS, o governo de Obama quer investir 60.000 milhões de dólares nos próximos 25 anos na modernização do seu arsenal nuclear, mas isto não é mais do que uma fração do que a superpotência pensa gastar neste período com as suas armas atómicas. O relatório da UCS, de 81 páginas, cita alguns exemplos:
- O custo de uma fábrica química e metalúrgica no Laboratório Nacional dos Álamos ascendeu a um custo situado entre 3.700 e 5.900 milhões de dólares, o que representa entre seis e nove vezes o custo estimado em 2004.
- A construção de uma nova fábrica de processamento de urânio devia custar em 2004 entre 600 e 1.100 milhões de dólares, mas agora fala-se de 7.500 milhões.
- A modernização das bombas aéreas do tipo B61 foi orçamentada em 2010, por parte do ministério de Energia dos EUA, em apenas 2.000 milhões de dólares, repartidos em quatro anos. Mais tarde disse-se que seriam 4.000 milhões e em 2012 já se falava de 6.000 milhões. Segundo a UCS,agora a soma já ascende a 10.000 milhões de dólares (7.400 milhões de euros).
O “programa de prolongamento da vida útil” da bomba atómica B61 já é objeto de crítica desde há tempo. Entre os especialistas reina em grande medida o consenso de que as bombas nucleares aéreas estacionadas na Europa ocidental são, do ponto de vista militar, relíquias inúteis da guerra fria que deveriam ser eliminadas de imediato. Não obstante, o governo dos EUA não só não se mostra disposto a retirar essas armas, como as moderniza a tal ponto que os técnicos já falam de sistemas completamente novos.
A UCS afirma agora algo parecido. É certo que o número de tipos de ogivas nucleares norte-americanas reduzir-se-á de sete para cinco durante o processo de modernização, mas essas ogivas empregar-se-iam em diferentes tipos de portadores: três em mísseis de longo alcance e dois em bombardeiros e mísseis de cruzeiro. Este propósito “viola o espírito, para não dizer a letra, da promessa do governo de não desenvolver novas armas nucleares”, declarou Philip Coyle, do Center for Arms Controle and Non-Proliferation, um dos autores do relatório da UCS.
Isto não é, de forma nenhuma, uma bagatela. Em 2011 entrou em vigor o tratado “New Start” de redução de armas estratégicas, pelo qual os EUA e a Rússia se comprometeram a reduzir até ao ano de 2018 o número das suas ogivas nucleares estacionadas no terreno das 4.000 atuais para 1.550. Os críticos temem que as futuras conversações em matéria de desarmamento se vejam enormemente dificultadas se os norte-americanos estacionam de repente, contrariamente às suas promessas em sentido contrário, armas com capacidades totalmente novas.
Material suficiente para 13.000 ogivas nucleares
Por exemplo, a bomba B61 completamente renovada, do modelo B61-12, é na opinião do especialista norte-americano em desarmamento Hans Kristensen uma arma destas características. De acordo com os planos atuais, a partir de 2019 fabricar-se-ão cerca de 400 unidades, das quais uma parte será estacionada também na Alemanha. Neste momento há entre 10 e 20 exemplares antigos desta bomba atómica na base aérea de Büchel, na Alemanha.
Os cientistas da UCS também estão preocupados com a enorme quantidade de bombas atómicas inativas. Segundo dados do instituto Sipri de Estocolmo, os EUA contam com cerca de 2.500 ogivas nucleares de reserva, às quais há que acrescentar outras 3.000 que estão à espera de ser destruídas. Segundo o informe da UCS, “há grandes quantidades de plutónio e urânio altamente enriquecido que o exército já não necessita”. Ainda que a National Nuclear Security Administration (NNSA) - o departamento do ministério da Energia dos EUA que se encarrega da custódia das bombas atómicas - tenha previsto destruir grande parte do material de fissão das armas destruídas, depois disso, diz a UCS, os EUA continuarão a dispor de material suficiente para 13.000 bombas atómicas. Por isso, os cientistas exigem que o governo elimine uma parte maior deste material e que o faça de um modo seguro, ainda que seja apenas para evitar roubos. Esta preocupação não é gratuita, como mostra um relatório da Nuclear Threat Initiative (NTI), que denunciou toda uma série de trabalhos mal feios e em parte horripilantes na custódia do material nuclear em todo mundo.
A UCS também vê possíveis problemas nos EUA. Assim, ao que parece a NNSA pretende desfazer-se do plutónio sobrante aproveitando-o para a fabricação das chamadas barras de combustível de mistura de óxidos para as centrais nucleares. “Isto comporta graves riscos de segurança”, escreve a UCS, que exige que a NNSA detenha este programa e elimine o plutónio em forma de vidro ou cerâmica.
Artigo de Markus Becker, com material da Reuters, publicado a 18/10/2013 em spiegel.de. Tradução para espanhol por vientosur.info e do espanhol para português por Carlos Santos para esquerda.net

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