"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A Professora e os Vampiros

Neste sábado (26) uma "notícia" veiculada pelo Programa Cidade Alerta da Rádio Rural de Caicó, um programa que faz espetáculo com a violência em uma emissora pertencente a uma fundação católica e que ultimamente vem destinando parte de seu tempo para fazer propaganda da gestão do atual prefeito eleito pelo PMDB, fez uma espécie de manipulação para falsificar a imagem da Professora Amanda Gurgel junto à população. A notícia chama Amanda de professorinha-super-votada e diz que e um "fato questionável eticamente e não autorizado do ponto de vista jurídico a atitude da professora em doar parte do seu salário para o seu Partido, o PSTU, e tratou a fato de a doação ser feita ao partido como algo absurdo, claro "analistas" que nunca leram um livro de ciência política não imaginam o que sejam um partido socialista com um programa revolucionário, e o apresentador ainda falou que Amanda já teria sido encoberta por um "lençol", certamente mencionando a corrupção.

Agora por que isso ser divulgado em uma cidade do interior se Amanda é vereadora em Natal? A questão é que Amanda Gurgel foi eleita vereadora na capital potiguar com mais de 32 mil votos o que lhe traz a possibilidade de ser eleita Deputada Estadual, o que seria uma tragédia para os "Vampiros" que habitam a Casa Legislativa Estadual.

A Assembleia Legislativa é a casa das oligarquias que eles chamam a "Casa do povo", a maioria de seus membros vêm do interior do estado, das maiores cidades, e pertencem a grupos familiares oligárquicos que fingem ser parlamentares para sugar o sangue do povo deste estado, a maioria desses oligarcas possuem emissoras de rádio em suas cidades e manipulam facilmente a opinião pública, geralmente o programa mais popular das emissoras é um Programa Policial, estes programas servem para estereotipar pobres como inimigos perigosos e criar um medo e esconder a culpa dessas próprias oligarquias como responsáveis pela calamidade social que é verdadeira responsável pela tragédia social.

Amanda como deputada seria um perigo para os farsantes vampiros  disfarçados de deputados, poderia servir até como denunciadora das irresponsabilidades funcionais cometidas pelos tais parlamentares. A maioria dos oligarcas ocupam o cargo há mais de 20 anos e já preparam seus filhos ou apadrinhados para ficarem com sua vaga.

Ações que representam perigo para os vampiros:

Neste momento Amanda está saindo às ruas de Natal recolhendo assinaturas (Abaixo-assinado) em contraposição ao aumento dos salários dos vereadores, do prefeito e dos secretários que vai custar cerca de R$ 1,2 milhão por ano aos cofres públicos de Natal.

Marcha do fio de aço

Na manhã deste sábado Amanda Gurgel esteve na intitulada "Marcha do fio de Aço", ato em defesa da saúde pública e do médico Jeancarlo Cavalcanti, que está sendo processado por mostrar em um vídeo como falta até fio de aço para as cirurgias no Walfredo Gurgel. O PSTU e a vereadora Amanda Gurgel estiveram presentes. "Se a saúde antes estava por um fio, agora esse fio caiu. Chega de caos. Chega de culpar os trabalhadores", disse Amanda. "Fora Rosalba!"

Fracasso neoliberal: Espanha não encontra o caminho e prossegue queda


A economia espanhola completou cinco trimestres consecutivos de contração e não há sinais de que a situação se reverta no curto prazo. Por Marco Antonio Moreno.
No último trimestre de 2012, de acordo com os dados do Banco de Espanha, o retrocesso chegou a -1,7% anual. Isto confirma algo que pode parecer surpreendente: cada trimestre do atual governo tem sido pior que o anterior, um triste recorde que deixa a descoberto o absoluto falhanço dos planos de austeridade que se aplicaram com motosserra e sem nenhum critério de “reengenharia produtiva”.
Tudo isto se confirma quando vemos que a Espanha bate mês a mês novos recordes em matéria de desemprego, de queda no consumo, no investimento, nas vendas, nos créditos bancários, nos níveis de demora e endividamento. O relatório do Banco de Espanha dá conta abundante destes pontos. Como antecipamos neste post, tudo indica que a situação continuará em queda durante 2013 e, a não ser que ocorra um milagre, o PIB pode retroceder 1,5 por cento adicional, deixando a economia bem perto de um retrocesso anual do 3% para o fim do ano.
E não é para menos num país que tem 6 milhões de pessoas sem trabalho, e onde não se aplica nenhuma medida que ajude à reativação real, dado que todos os esforços se destinaram a apoiar a banca. A promessa de Mario Draghi de defender o euro ao preço que seja está a deixar claro quais são as prioridades e os custos. Por um lado, ganha a banca, com o dinheiro barato que empresta aos governos a um valor mais caro; e, pelo outro lado, gera maior pobreza e miséria. É o resultado das desvalorizações competitivas, cujo impacto atinge fortemente os salários.
Isto confirma que a recuperação da zona euro é inexistente e que o panorama europeu é extremamente débil, com vários países em recessão e a Alemanha entrando na foto pela porta traseira. Apesar da acalmia aparente que gera um prémio de risco em torno dos 350 pontos, o nervosismo dos mercados está latente: as posses estrangeiras de títulos espanhóis caíram 54% desde o seu pico, em 2010, para os 34% atuais.
Apesar de a banca pedir dinheiro emprestado ao Banco Central Europeu a uma taxa baixíssima e a compra de títulos se ter convertido num lucrativo negócio, isto não tem fortalecido a economia, dado que o dinheiro não flui para as fontes produtivas. Os investidores retêm o dinheiro e decidem apostar nos países emergentes. Isto está a gerar um problema adicional, dado que quando os bancos centrais começarem a subir a taxa de juros produzir-se-á um tsunami financeiro nestes países que acelerará a contração da economia. A queda da procura, que se vive a nível global, e a diminuição da despesa dos lares demonstra que se navega em águas turbulentas sem achar “terra à vista”. Não haverá recuperação em 2013 e será preciso esperar por 2014, se é que ainda a vamos ver.
24 de janeiro de 2013
Publicado em El Blog Salmón
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Movimentos social realizam Cúpula dos Povos no Chile - País sedia 1º encontro da Celac

Grupos de esquerda e sindicatos iniciaram nesta sexta-feia (25)  no Chile a Cúpula dos Povos, uma organização paralela ao encontro de chefes de Estado e Governo que inicia-se no domingo (27).

Nos dias 26 e 27 de janeiro Santiago do Chile será sede da primeira Cúpula da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) com a União Europeia (UE), e a partir da tarde de 27 até 28 de janeiro será realizada a primeira reunião de cúpula da Celac.

Já o encontro entre os povos, que acontecerá até domingo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Chile, abordará problemáticas referentes ao desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente, o respeito às comunidades indígenas e assuntos sociais como a saúde, educação e aspectos trabalhistas. A cúpula dos povos discutirá a justiça social e ambiental, a solidariedade e unidade entre as nações e os povos latino-americanos e europeus, a defesa dos bens comuns e o rechaço à mercantilização da vida e da natureza.

Na tarda da sexta-feira (25) a Cúpula dos Povos organizou uma marcha  macada pela declaração da apoio a Cuba, o país caribenho receberá a presidência temporária da Celac, que exercerá o mandato em 2013. Durante coletiva de imprensa, o vice-chanceler cubano Abelardo Moreno afirmou que o país promoverá a integração, a solidariedade e a paz regional ao assumir a presidência temporária do bloco.



A Celac foi criada em fevereiro de 2010 no México e oficializada em 2011 na Venezuela, constitui um mecanismo de organização política e integração que abriga os 33 países da América do Sul, América Central e Caribe.

Após o encontro em Caracas ficou estabelecido que os países membros da Celac deveriam potencializar o diálogo político e trabalhar conjuntamente para tomar medidas de proteção diante da crise econômica global, complementar os mecanismos regionais de integração e gerar programas de combate à fome, a pobreza,  proteção do meio ambiente e  cuidado do migrante.

Com Prensa Latina

Manifestações no Egito geram confrontos



Euronews

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Caicó e as duas oligarquias

Neste momento os professores do município de Caicó enfrentam a questão do não recebimento de salários, os servidores ficaram sem os salários de dezembro, tudo isso leva a uma série de movimentações dos próprios professores, mas que mobilizações são essas?

São movimentos sem um direcionamento político-social bem definido e articulado, seguem a linha do movimento conhecido como "Nas Ruas', "marcha contra a corrupção", "dia do basta" etc, diria que são mobilizações influenciadas pelo senso político criado pela mídia que é muito frágil, imagina-se a política como pura corrupção e desconhece-se a Política com P maiúsculo que é a própria essência das lutas sociais.

A primeira coisa que quem pense em fazer movimento social em Caicó precisa entender é que sua  primeira tarefa é destruir as duas oligarquias que dividem o poder na cidade, entender que temos um povo facilmente manipulável e despolitizado, o papel do movimento social é fazer a propaganda contra essas oligarquias é politizar os jovens.

Caicó a cada ano deixa sair da escola uma geração com uma distorção na própria instrução e uma desmoralização nos costumes, vemos uma geração despolitizada e com a cultura da TV, sem essência social.

O atual prefeito (da oligarquia verde) demonstra enorme agilidade em fazer um "carnaval, na realidade a prova de uma sociedade fracassada, e nada tem a elaborar sobre educação, nenhuma medida eficaz que pudesse criar pelo menos bases para instituir a educação na cidade; e nem teria condição, já que pela forma que chega ao poder, sem formação política, como agente de um joguinho imbecil, política do aperto de mão, discursos vazios, como diz Zeca Afonso, são os vampiros.

É preciso ensinar aos jovens o que é política, política com P maiúsculo.

Reality shows: uma reprodução do capitalismo. Entrevista com Silvia Viana


Os reality shows seriam impensáveis “até trinta anos atrás, quando o capitalismo tomava por justificativa o ‘bem-estar’ que produzia”, assinala a socióloga.
Confira a entrevista. 
“Os reality shows são mal-estar enlatado para consumo, e isso só é possível em uma estrutura social que já não se preocupa com autolegitimação alguma”. A reflexão é de Silvia Viana, autora do livro Rituais de sofrimento, que será lançado pela Boitempo Editorial no dia 6 de fevereiro em São Paulo, a partir das 19h no Espaço Serralheria (Lapa). Para ela, a popularidade desses programas está diretamente relacionada à reprodução da “forma de dominação típica do capitalismo de acumulação flexível, dominação essa que ainda não foi superada”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Silvia compara os processos do programa à estrutura capitalista, onde “devemos ser ‘fortes’ para ‘superar as dificuldades’ (por mais imbecis e esdrúxulas que sejam) e, por fim, ‘sobrevivermos’”. E conclui: “O assustador é que essa mesma estrutura organiza nossa existência no atual modo de produção: trabalhamos para arrumar mais trabalho, para não sermos demitidos, para sobrevivermos… E se retirarmos essa fantasia que organiza nossa existência, o que resta é o ‘Truman Show’: o tédio insuportável da vida desprovida de sentido”.
Silvia Viana é graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, mestre  e doutora em Sociologia pela mesma universidade.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O elemento sofrimento pode justificar o sucesso de programas de reality shows? 
Silva Viana - Se você quer dizer com isso que os telespectadores gostam de assistir a esses programas porque são sádicos, eu responderia que não. Pelo contrário, a noção de que somos todos perversos é o falso discurso dos próprios programas. Quando Pedro Bial afirma, em tom irônico, que o telespectador, em sua “imensa bondade”, deve votar na forma de tormento mais adequada aos participantes (na prova da “garagem”, de 2010), é isso o que ele sugere, mas não é verdade. De fato, nos anestesiamos como uma forma de defesa, para fugirmos do sofrimento, gerado em nós, pela imagem da dor alheia. Nossa sociedade exige que sejamos “fortes”, que não nos deixemos abalar, que “superemos os desafios” (por mais estúpidos e sem sentido que sejam). Mas, acima de tudo, exige que participemos, seja lá do que for, ininterruptamente. Para que possamos cumprir essa ordem social precisamos nos distanciar de nossa própria compaixão. É isso o que os telespectadores fazem: acima de tudo, eles participam, seja lá no que for, seja lá como for.
IHU On-Line – O que os faz permanecer no ar por tanto tempo?
Silva Viana - Se você pensar bem, não é tanto tempo assim. Os reality shows surgiram no início da década de 1990. Eles permanecem ainda hoje por reproduzirem a forma de dominação típica do capitalismo de acumulação flexível, dominação essa que ainda não foi superada. Imagino que esse formato televisivo seria impensável até trinta anos atrás, quando o capitalismo tomava por justificativa o “bem-estar” que produzia. Os reality showssão mal-estar enlatado para consumo, e isso só é possível em uma estrutura social que já não se preocupa com autolegitimação alguma. O capitalismo hoje já não promete nada, nem mesmo o prêmio de consolação da época anterior: segurança e conforto. O horizonte máximo que se apresenta é: “trabalhe, trabalhe muito, pois, talvez assim, você possa continuar tendo mais trabalho até o fim de sua vida”. Isso não é promessa, é ameaça, e é o máximo de garantia que nosso mundo oferece. Mesmo que os reality shows deixem de atrair o público, o importante é que esse sistema que os gera desapareça.
IHU On-Line – O que compõe a “engrenagem do sofrimento”?
Silva Viana - Usei o termo “engrenagem de fazer sofrer” para caracterizar o funcionamento de nossa sociedade. Em termos bastante sintéticos, a máquina funciona da seguinte forma: o capitalismo contemporâneo nos leva a crer que vivemos em permanente escassez (como se não houvesse trabalho ou riqueza para todos). Para que conquistemos nossa cota de migalhas, precisamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos mantermos produzindo. Isso significa um sacrifício sem fim, em termos de trabalho exaustivo, mas também em termos de nossa subjetividade, de nossas crenças, de nossas relações sociais, de nosso tempo etc. Por si só, esse sacrifício já é gerador de um imenso sofrimento físico e psíquico. Mas não é apenas isso: estamos já acostumados a ouvir a ladainha segundo a qual “ser um vencedor” significa “vencer a concorrência”, significa passar por cima dos outros. Bem, como não somos uma sociedade de psicopatas, esse “passar por cima dos outros” exige que nos libertemos de nossa compaixão. É precisamente isso o que a propaganda do mundo sugere quando afirma incessantemente que “devemos ser fortes”.
Para nos resguardarmos de toda essa dor e não enlouquecermos, criamos mecanismos psíquicos de defesa, como se nos anestesiássemos a nós mesmos. Assim, somos capazes de suportar cada vez mais sofrimento e assim o sofrimento se torna cada vez mais aceitável. Um exemplo: quando um participante de reality show é obrigado a votar em uma pessoa com a qual têm convivido diariamente, porque “só pode haver um vencedor”, isso gera mal estar. Por isso ele cria mecanismos de defesa que fazem esse trabalho sujo se tornar suportável, daí aquelas repetições de frases feitas: “isso é um jogo, tenho que jogar”, “nós temos menos afinidade”, “gosto dele, mas, infelizmente, algum dia todos teremos que voltar para casa” etc. Não são frases de hipócritas, como se costuma pensá-las, são frases que geram alívio para a realização do trabalho sujo que lhes foi confiado: a eliminação dos outros.
IHU On-Line – Como aparece o príncipio violento do BBB? Em que situações aparece o caráter cruel do jogo?
Silva Viana - Ora, esse princípio é o que mais se divulga! O site da emissora pergunta: “Quer ver o participante sofrer?”, o apresentador diz que aquilo “não é uma colônia de férias”, o diretor afirma que o BBB “é um jogo cruel”, os telespectadores dizem querer ver “sangue”, o narrador da propaganda de “A Fazenda” afirma que “o cerco se fecha, o medo aumenta…”, o participante compara sua situação com a das vítimas de Jigsaw do filme “Jogos Mortais”. Logo após ter sido eliminado mediante a sessão de tortura que ficou conhecida como “quarto branco”, o participante teve que ouvir a seguinte pergunta de Pedro Bial: “Tem gente que vendo lá de casa diz assim: ‘Ah! Mas é só um quarto branco, o que tem de mais?’. Conta pra gente a barra que é”. A humilhação e o sofrimento estão lá para quem quiser ver, em rede nacional, sublinhados por setas de neon. O problema não é que a brutalidade seja um princípio oculto que, para ser visto, necessite de uma análise aprofundada. O problema é outro: como é possível que essa violência banal e despropositada seja explicitada com tamanho desvelo e, ainda assim, as pessoas tomem parte nisso?
IHU On-Line – Por que você afirma que “nenhum contrato assinado pelos participantes de reality shows poderia ser válido em qualquer lugar no qual a democracia e os direitos humanos vigoram”?
Silva Viana - Em teoria vivemos em um Estado de Direito, seu princípio é o de que há direitos fundamentais que são inalienáveis, ou seja, não podemos abrir mão deles, mesmo que assim desejemos. O princípio da inalienabilidade foi formulado justamente para que não haja servidão voluntária, ou seja, uma pessoa não pode abrir mão de seu direito de ir e vir em troca de um prêmio, do mesmo modo, não pode abdicar de sua dignidade por fama. Por mais que os participantes afirmem que seu confinamento seja de sua livre e espontânea vontade (afirmação que, por sinal, deve ser questionada, já que em outros momentos afirmam que necessitam estar lá), isso não poderia acontecer em um verdadeiro Estado de Direito. Além disso, é da lógica dos programas que as pessoas sejam surpreendidas por formas variadas de tortura e humilhação; isso significa que, ainda que fosse aceitável a alienação desses direitos (sabe-se lá com que justificativa), os participantes não poderiam optar por passar pelo que ainda não sabem que ocorrerá. Como os participantes poderiam afirmar que aceitaram livremente ir a um “quarto branco”, e passar por uma sessão enlouquecedora de privação de sentidos, se eles não sabiam que lá seriam atirados?
IHU On-Line – Em que você se baseia ao defender que os reality shows indicam que “vivemos em um estado de exceção permanente, pulverizado e onipresente”?
Silva Viana – No que eu afirmei na resposta anterior. Esses programas assumem o papel de pequenos soberanos e se arrogam o direito total sobre a imagem e os corpos daqueles que lá estão aprisionados.  Isso ficou muito claro no caso do suposto estupro que ocorreu na edição passada do BBB. A produção não apenas protelou a entrada do poder público na “casa”, como realizou, ela mesma, um interrogatório com os envolvidos no caso antes mesmo que a polícia tivesse contato com eles. Além disso, muito do conteúdo dessa investigação privada foi divulgado como parte do show. Por fim, a produção eliminou sumariamente o suposto criminoso, sem que uma investigação pública tivesse sequer sido iniciada. O poder de uma empresa privada – a Rede Globo, mas não apenas ela, também a Record, o SBT, aBandeirantes e todos os demais produtores desse tipo de mercadoria – de torturar a seu bel prazer, de controlar a alimentação dos “confinados” (inclusive como forma de punição), de submetê-los a escracho público, de expor seus corpos etc, é um poder de exceção que, pelo jeito, tornou-se regra. E não é regra apenas na indústria cultural. Quando a empresa de telemarketing controla os horários de ida ao banheiro de seus funcionários, através de um “check in” em suas estações de trabalho, está fazendo exatamente a mesma coisa.
IHU On-Line – Qual a inspiração que a obra 1984, de George Orwell, exerce sobre o formato de reality shows que são feitos pelo mundo?
Silva Viana - Para além do uso cínico do termo “big brother”, que já é uma declaração explícita da brutalidade do que é transmitido, creio que pouca. Costuma-se associar os reality shows com essa obra devido à vigilância permanente dos confinados. Contudo, a vigilância é fator secundário, importam mesmo os rituais que dão forma ao que será vigiado. Imaginemos que uma emissora realizasse um programa como o Truman Show (Filme de Peter Weir, de 1998), ou seja, que a vida cotidiana de uma pessoa comum fosse transmitida ininterruptamente: o beijo matinal na esposa, a ida de carro ao trabalho, a realização do trabalho diante do computador, a volta ao lar… Fica chato até de contar! Esse programa seria um fracasso estrondoso.
Os reality shows deslocam a vida cotidiana dos participantes, seja mediante o isolamento físico, seja por alguma “transformação radical” em sua vida (como em realities de “transformação” ou de “consultoria”), em todos os casos, impondo-lhes alguma forma de “desafio”. É esse “desafio”, na forma da seleção ou de provas brutais, ou de ambas, aquilo o que gera o interesse na vigilância. Apesar da variedade dos tormentos aplicados, a estrutura narrativa final é apenas uma: devemos ser “fortes” para “superar as dificuldades” (por mais imbecis e esdrúxulas que sejam) e, por fim, “sobrevivermos”.  O produto só se torna vendável quando conformado por essa narrativa. O assustador é que essa mesma estrutura organiza nossa existência no atual modo de produção: trabalhamos para arrumar mais trabalho, para não sermos demitidos, para sobrevivermos… E se retirarmos essa fantasia que organiza nossa existência, o que resta é o “Truman Show”: o tédio insuportável da vida desprovida de sentido.
(Ecodebate, 25/01/2013) publicado pela IHU On-line

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

53% das mulheres latinas já sofreram violência do parceiro


Levantamento foi feito em 12 países da América Latina e Caribe, incluindo Haiti, Paraguai e Peru; elas foram vítimas de violência física ou sexual.
Mulheres protestam contra a violência. Foto: ONU Mulheres
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 
Um novo relatório da Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, mostra que em 12 países da América Latina e do Caribe, entre 17% e 53% das mulheres já sofreram violência do parceiro.
Elas foram vítimas de abusos físicos ou sexuais, de acordo com a análise comparativa da Opas. O estudo afirma que até 82% das mulheres que foram violentadas pelo parceiro tiveram ferimentos físicos, como cortes, contusões e até ossos quebrados. Algumas sofreram aborto espontâneo e queimaduras.
Ações
De Washington, uma das autoras do relatório, a especialista da Opas, Alessandra Guedes, ressalta que os números impressionam.
"Eu acho que esses números, são números que devem chocar a todos nós. Ou seja, encontrar países na nossa região onde mais da metade das mulheres afirma já ter sofrido algum tipo de violência por parte de um parceiro é inadmissível. É algo que deve chocar e deve incentivar mais ações por parte do governo e da sociedade civil."
Segundo a assessora da Opas para violência familiar, foram encontradas também relações entre casos de violência contra mulheres e crianças. Alessandra Guedes afirma que nas casas onde as mulheres sofrem abusos, as crianças tendem a ser disciplinadas de maneira mais violenta.
O relatório traz dados de entrevistas com mais de 180 mil mulheres da Bolívia, Colômbia, Haiti, Guatemala, Jamaica, Peru e mais seis países.

Apatia política ou política apática

Segundo pesquisa divulgada pelo IBOPE 56%  das pessoas consultadas não têm preferência por algum partido político.

Não é um fato difícil de ser percebido essa repugnância pelos partidos por parte da população brasileira; há dois aspectos distintos que contribuem para este quadro, em primeiro lugar é evidente que existe uma perda da capacidade de indignação, do conformismo, inclusive com a grande mídia atuando fortemente para manter as pessoas vendo tv dentro de suas casas e mesmo por que esse terrível modelo de vida individualista americanizado nos propõe, é compras e festas; em segundo lugar a falta de Partidos com "P" maiúsculo, o Brasil tem hoje, com raras exceções da esquerda, apenas siglas que legalizam as candidaturas, portanto, são partidos que não cumprem função político-ideológico, mas apenas de registrador de candidaturas.

Os próprios partidos sem essência gostam desse afastamento do povo para com a política, por isso que  sua imprensa está a mostrar escândalos de corrupção, ela aproveita-se disso para mostrar a política em um sentido diverso da verdadeira política.

Marcha do Fio de Aço - grito contra o descaso na saúde


Em assembleia na terça a noite, no Sinmed-RN, foi confirmada a marcha do "Fio de aço" que acontecerá no próximo sábado (26), às 8h30. A marcha tem início na Associação Médica do RN e segue até o Hospital Walfredo Gurgel. (Confirme sua presença aqui e leve sua camiseta preta do movimento #ForaRosalba)
O protesto está sendo chamado de Fio de Aço, em alusão a falta de fio de aço para fechar um paciente durante uma cirurgia de emergência no Hospital Walfredo Gurgel, situação extrema que levou o cirurgião Jeancarlo Cavalcanti, que também é presidente do Conselho Regional de Medicina do RN, a filmar o caso.
O vídeo foi exibido na última semana no Jornal Hoje, da rede Globo e tem tido grande repercussão em rede nacional e em telejornais locais como o Bom Dia Brasília - DF no Ar – no qual a reportagem foi reprisada.

Nas redes

No Facebook há duas comunidades com o nome "Fio de Aço", em apoio ao médico. Uma das comunidades está com 3.184 membros a outra com 1.769. O caso chamou tanta atenção que pessoas de outros países estão comentando o assunto nas redes sociais.
Além das comunidades, tem surgido ainda uma série de imagens e charges em apoio ao médico, que foi denunciado na terça (22) pela Secretária Estadual de Saúde ao Conselho Federal de Medicina.
Para acessar as comunidades clique aqui ou aqui.

Calamidade pública

Não é de agora que a situação calamitosa da saúde do RN é destaque na mídia nacional. A situação caótica foi noticiada durante todo 2012. Há seis meses, O governo do Rio Grande do Norte decretou estado de calamidade pública na tentativa de resolver o caos na saúde.
No entanto, a vigência do decreto terminou no início de janeiro sem que os problemas de pessoal e abastecimento houvessem sido sanados.

Greve no RN chega aos 9 meses

No próximo dia 29 de janeiro a greve dos médicos completa 9 meses. Após diversas tentativas de negociação a categoria foi surpreendida no último dia 15 com uma nota oficial do governo anunciando, compulsoriamente, o reajuste para os médicos e corte do ponto para os grevistas.
Ainda assim, os médicos mantiveram o movimento grevista, visto que, haviam outras reivindicações. “Nossa luta não é somente e nem principalmente por questão salarial, é por condições de trabalho e, ao que parece, o governo não sabe ou não quer saber disso. Lutamos por dignidade no trabalho, os 12% a categoria sempre aceitou, mas não só isso”, lembra o presidente do Sinmed, Geraldo Ferreira.
Veja o vídeo denúncia: http://migre.me/cWHqd

O noticiário policial é a violência como espetáculo e lucro

O noticiário policial transformou-se em um atrativo à parte que passou a ocupar boa parte da imprensa, além de ser um espetáculo aqui a violência  se torna um negócio lucrativo.

Com o sensacionalismo extremado a população é levada a acreditar na existência de um inimigo perigoso, evidente que a violência é um grande inimigo, o Brasil é o 20º país mais homicida do mundo (27,3 mortes a cada 100 mil habitantes), mas os agentes da violência não são filhos do demônio, são filhos, por exemplo, da exclusão social; o sensacionalismo do noticiário policial reflete no pensamento onde acredita-se que é necessário uma série de reformas que levem a um enrijecimento penal, neste momento tramita na CCJ do senado  3 projetos visando à redução da maioridade penal no Brasil.

Pesquisa do Instituto DataSenado publicada em outubro apontou que 89% dos 1.232 cidadãos entrevistados querem imputar crimes aos adolescentes que os cometerem. De acordo com a enquete, 35% fixaram 16 anos como idade mínima para que uma pessoa possa ter a mesma condenação de um adulto; 18% apontaram 14 anos e 16% responderam 12 anos. Houve ainda 20% que disseram “qualquer idade”, defendendo que qualquer pessoa, independente da sua idade, deve ser julgada e, se for o caso, condenada como um adulto, esse pensamento popular foi criado pelo noticiário policial, os 3 projetos sobre redução da maioridade penal são de autoria de parlamentares financiados pelo dinheiro da burguesia.

A PEC 33/2012, do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), restringe a redução da maioridade penal - para 16 anos - aos crimes arrolados como inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia: tortura, terrorismo, tráfico de drogas e hediondos (artigo 5º, inciso XLIII da Constituição). Também inclui os casos em que o menor tiver múltipla reincidência na prática de lesão corporal grave ou roubo qualificado.

O senador Acir Gurgacz (PDT-RO) foi além em sua proposta (PEC 74/2011): para ele, quem tem 15 anos também deve ser responsabilizado penalmente na prática de homicídio doloso e roubo seguido de morte, tentados ou consumados.

A terceira PEC sobre maioridade em análise na CCJ (PEC 83/2011) é mais ampla que as duas anteriores. O texto, apresentado pelo senador Clésio Andrade (PMDB-MG), estabelece o limite de 16 anos para qualquer tipo de crime cometido. Clésio propõe uma nova redação para o artigo 228: “A maioridade é atingida aos 16 anos, momento a partir do qual a pessoa é penalmente imputável e capaz de exercer todos os atos da vida civil”.

Pensa dessa forma somente quem não tem a capacidade de visualizar a causa real do problema da escalada da violência que ocorre no Brasil nos últimos 40 anos.

A desigualdade social é absurdamente grande no país e quando somada à acelerada urbanização vivenciada pelo Brasil nos últimos 50 anos foi capaz de criar uma nova sociedade, urbana e muito desigual como era a anterior sociedade rural, só que os valores forma perdidos, os valores  que inibiam comportamentos comuns hoje, aqui não é um elogia a esta sociedade anterior, ela era tão ou mais pobre e excludente, os valores católicos eram uma praga que transformava em esmolés e retirantes a maioria do povo. 

O Brasil sempre foi uma sociedade elitista, educação nunca faltou para os ricos, e certamente nunca serão as elites as responsáveis pela transformação da educação neste país, essa deve ser a grande bandeira do povo brasileiro no século XXI.

Quanto ao sensacionalismo do noticiário policial, o jurista Luiz Flávio Gomes, em artigo publicado hoje (24) no Jornal Jurid diz o seguinte: "Faz parte das técnicas midiáticas, da era da espetacularização. Se a matéria não dramatizar não vende. O que vende é o sensacionalismo. A matéria é imediatista, articulada para a comoção e clamor social".

O problema jamais será solucionado com as fórmulas dos urubus de plantão.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Brasil é país que mais concentra terras no mundo

reforma agraria03O declínio dos dados referentes à Reforma Agrária em 2012 são assustadores. No ano que se encerrou, o Brasil assistiu a Reforma Agrária atingir um de seus piores indicadores em décadas. Em um país onde existem cerca de 200 mil trabalhadores e trabalhadoras em luta pela terra, o Governo Brasileiro desapropriou apenas 31 novas áreas, totalizando somente 72 mil hectares, segundo informações do próprio Incra. - Da CPT - Regional Nordeste II para a Caros Amigos

Neste mesmo ano, somente 23 mil famílias foram assentadas em 117 assentamentos criados a partir de processos muitos antigos. Índices tão baixos só foram atingidos na década de 90, com o Governo de Fernando Collor. O Brasil permanece com o posto de país que mais concentra terras no mundo.
Vale ressaltar que 120 milhões de hectares de terras em grandes propriedades improdutivas foram detectados quando da elaboração do segundo Plano Nacional de Reforma Agrária, em 2003. De lá até aqui, nenhuma medida concreta alterou a concentração de terras no país.
Já que o Governo não desapropria as terras dos latifúndios que não cumprem a função social, como manda a Constituição, deveria, ao menos, destinar as terras Públicas devolutas para fins de Reforma Agrária. O problema é que grande parte destas terras está sob domínio do agronegócio. São mais de 309 milhões de hectares de terras que o Censo agropecuário de 2006 classificou como "outras ocupações".
De acordo com as análises do professor e pesquisador Ariovaldo Umbelino, o dado corresponde como sendo terras públicas devolutas, que o Censo não incluiu na classificação. Soma-se a isto, milhares de hectares de Terras da União, que desde o século XIX, encontram-se nas mãos dos usineiros na região Nordeste, por exemplo, sem pagamento de impostos nem de taxas de aforamento. Onde existe ocupação de Terras da União por povos tradicionais e posseiros, há a ameaça do agronegócio e da mineração, como na região Norte.
Os números envergonham e comprovam: O Estado brasileiro não foi constituído para realizar uma ampla e radical modificação da estrutura da propriedade da terra e os diversos Governos que passaram pelo Palácio do Planalto nada ou pouco fizeram para tencionar em favor da democratização das terras no país.
Questão de Estado
Os números vergonhosos para o país resultam da escolha, histórica e injustificável, dos Governos pela implementação do agronegócio como modelo ideal de desenvolvimento para campo. O Capital financeiro-industrial-agrário torna-se cada vez mais fortalecido, se alicerça no apoio e proteção do Poder Judiciário, no Parlamento e nos diversos setores do Governo Federal.
Cada vez mais a terra se consolida como simples ativo econômico a serviço do mercado em suas diversas formas de especulação e expansão. Ao optar pelo modelo clássico-concentrador de produção agropecuária, inclusive através de financiamentos públicos e incentivos fiscais, o Brasil parece continuar a repetir os mesmos erros do tempo das capitanias hereditárias, mas com o cinismo dos paradigmas de mercado.
Enquanto isso, os investimentos para a agricultura camponesa e especialmente para a Reforma Agrária continuam reprimidos pela falta de recursos e normas excessivamente protecionistas do latifúndio. De forma associada, mercado e Estado passaram a praticar uma espécie de 'bullying' contra a Reforma Agrária, através do esvaziamento das políticas públicas para as famílias camponesas, de forma a impor o Agronegócio como modelo "único" e "consolidado". Neste cenário desfavorável, o grande Capital acaba por distanciar os movimentos sociais de luta pela terra da realização do seu projeto camponês.
O outro reflexo, não menos perverso, ocorre pela corrida desenfreada do Capital por novos ativos econômicos com maior potencial de expansão. Nesse caso, outro grande revés sofrido pela coletividade ocorre através dos danos ambientais. A destruição da floresta Amazônica e do Cerrado voltou a acelerar em 2012, acompanhando a dinâmica de hegemonia e ocupação do território pelo agronegócio. Nestes casos, alguns elementos são obstáculos a serem eliminados para a maior expansão do agronegócio: as florestas, os projetos de assentamento da Reforma Agrária e as populações tradicionais, não por coincidência, cada vez mais negligenciadas e criminalizadas pelo Estado brasileiro.
A ousadia ilimitada do capital se materializa nas medidas de Governo. A nova frente de ação em curso no Congresso e no Governo Federal é a flexibilização da compra de terra por o capital estrangeiro, que encontra-se ávido por participar dessa cruzada anticivilizatória em curso nos campos brasileiros. Em projeto já aprovado na Câmara dos Deputados no segundo semestre do ano passado, qualquer empresa ou pessoa física de qualquer país do mundo poderá adquirir terras no Brasil. Para tanto, precisará apenas constituir ou adquirir empresas no país. O relator do projeto na Câmara, o Ministro da Agricultura, garante que a proposta será acolhida pelo Governo. Não restará ao país sequer as diferenças legais que o distingua da antiga condição de colônia.
Transformação estrutural
Esta "pujança" do agronegócio ainda é cotidianamente exaltada pela grande mídia. Não é por acaso também que quase não há visibilidade para a violência cometida todos os dias pelos empreendimentos do agronegócio. De acordo com os dados parciais da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de janeiro à outubro de 2012, o ano foi marcado pelo aumento da violência do poder privado contra as famílias camponesas em processos de luta e resistência. Pouco ou quase nada desta violência foi estampada nos Jornais e na TV. Neste período, foram registrados o assassinato de 21 camponeses e a tentativa de assassinato de 96 pessoas no campo.
A ação de pistolagem cresceu em todo País. Na região Nordeste teve um acréscimo de 133%, a Centro Oeste de 73%. Já na região Sudeste, o número de famílias vítimas de pistolagem passou de 371 famílias para 1.198, correspondendo a um aumento de 323%, comparado com o mesmo período do ano anterior. O aumento destas ações de violência privada ocorre pela omissão e conivência do Estado, como também pela perversidade e ânsia do capital em explorar novas terras.
Como não há força nem vontade em alterar o modelo de produção no campo nem a estrutura fundiária, os programas que fazem parte da chamada Reforma Agrária apresentam-se de forma tímida e muito burocratizada: não provocam e não exigem o avanço de um verdadeiro projeto de Reforma Agrária que garanta a permanência das famílias na terra. Também inviabilizam o aumento da oferta de alimentos baratos e sadios, além de não eliminarem a pobreza no campo. O que se vê é o caminho inverso.
A ausência do Estado para a consolidação de uma agricultura camponesa nas áreas já desapropriadas acaba por "transferir" as terras para a intervenção livre e aberta das grandes empresas de monocultivos. São muitos os agricultores e agricultoras assentados que se vêm pressionados e submetidos às investidas do agronegócio.
A luta pela Reforma Agrária no Brasil só pode assumir a face de uma luta anticapitalista. Portanto, não há possibilidade da realização da Reforma Agrária em nosso país sem uma mudança na estrutura do Estado e das relações de poder, sem uma profunda alteração entre o sistema político e econômico, hoje um só.
A realização da Reforma Agrária só se dará via processo de ruptura do modelo em curso, com a atuação corajosa de governos populares e com um intenso processo de lutas, organização e mobilização popular, o que não tem sido visto nos últimos anos. É necessário construir uma correlação de forças e uma conjuntura mais favorável para que o campesinato possa seguir semeando alimentos e sonhos para toda a sociedade.

O Vaticano construiu um império imobiliário com milhões recebidos de Mussolini


A Santa Sé tem vários edifícios no Reino Unido, França e Suíça, num total de US $ 800 milhões

O Vaticano poderia ter adquirido várias propriedades no Reino Unido, França e Suíça com o dinheiro que recebeu de Mussolini durante o regime fascista na Itália.



Isso é o que revelou o jornal britânico 'The Guardian', após uma investigação jornalística e depois de examinar os arquivos do serviço de inteligência britânico. 



Segundo o jornal, o Vaticano, através de uma rede de empresas fantasmas, possui edifícios em Londres como Bulgari na loja New Bond Street ou Altium de Capital do banco na Praça de Saint-James e outros imóveis no Reino Unido, França e Suíça, para um valor total de cerca de US $ 800 milhões. 



Este dinheiro, de acordo com o 'The Guardian', foi recebido pela Santa Sé em 1929 em troca do reconhecimento papal do regime fascista italiano de Benito Mussolini. 



O representante oficial do Vaticano em Londres, Arcebispo Antonio Mennini, se recusou a comentar sobre a situação.



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

OIT afirma que desemprego global aumentou novamente em 2012


Só no ano passado, 4,2 milhões de pessoas ficaram sem trabalho; relatório destaca recuperação da América Latina, mas trabalho informal ainda é problema.
Trabalhadores na Ásia. Foto: OIT.
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 
Após dois anos consecutivos de queda, o desemprego global voltou a crescer em 2012 e a tendência poderá continuar neste ano. O alerta está em novo relatório da Organização Internacional do Trabalho, OIT.
Só no ano passado, 4,2 milhões ficaram desempregados no mundo, o que levou o total de pessoas sem trabalho para 197 milhões. O documento "Tendências do Emprego Global 2013" destaca que a taxa de desemprego está a 5,9%.
Mercado de Trabalho
O diretor adjunto da OIT em Nova York, Vinícius Pinheiro, explica os motivos que ditaram o aumento do desemprego.
"Claramente é a desaceleração econômica global, principalmente nos países mais avançados. É importante notar que isso reflete somente a ponta do iceberg. Um outro dado impressionante do relatório é que 39 milhões de pessoas deixaram o mercado de trabalho. Isso quer dizer que eles estiveram procurando emprego por um bom tempo e depois ficaram desestimulados, ficaram desencorajados e já nem sequer fazem parte da estatística. Essa é uma péssima notícia para o mundo, que pode ser atribuída principalmente à desaceleração econômica global."
Informalidade 
O relatório da OIT confirma o aumento da classe média trabalhadora em países emergentes. Entretanto, o poder de compra dessas pessoas ainda não é suficiente para compensar o baixo crescimento dos países desenvolvidos.
De acordo com Vinícius Pinheiro, apesar dos bons resultados na América Latina e Caribe, o emprego informal é um problema na região.
"Em 2012, na América Latina o desemprego foi reduzido para 6,6%, uma redução expressiva em relação aos 7,8% de 2009, justamente após a crise. Mas tanto na América Latina quanto na Ásia e na África Subsaariana, um grande problema continua sendo a informalidade. Há uma diminuição do desemprego, mas a qualidade do emprego é questionável. São empregos que não propiciam acesso à seguridade social e não estão protegidos pelas leis do trabalho."
Jovens
A OIT prevê  ainda que a recuperação econômica global não seja forte suficiente para que haja uma queda rápida no desemprego. O número de pessoas que buscam trabalho deverá chegar a 210 milhões nos próximos cinco anos.
A situação continua difícil para os jovens: são quase 74 milhões sem trabalho, entre aqueles com 15 a 24 anos de idade. Uma preocupação especial da OIT é com o desemprego a longo prazo. Quase 35% dos jovens sem trabalho nas economias avançadas está nesta situação por seis meses ou mais.

Cenários para 2013. Reforma Agrária, da estagnação para a regressão


A agenda da Reforma Agrária encontra-se estagnada e vem regredindo no governo Dilma Rousseff. Ao longo dos últimos 20 anos, o governo Dilma é o que menos desapropriou imóveis rurais para fazer reforma agrária.
Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), “no ano de 2012, o Brasil assistiu a Reforma Agrária alcançar os seus piores indicadores em décadas. Enquanto do outro lado, o Agronegócio se consolidou como o modelo preferencial do Governo Dilma para o campo, priorizado por diversas políticas públicas, inclusive com financiamentos oficiais de elevadas proporções”. De acordo com a CPT, “se continuar no mesmo ritmo de 2012, o Brasil precisará de mais 50 anos só para assentar a demanda atual de famílias sem terra acampadas”.
Ainda segundo a CPT, “outra decepção foi com relação às áreas de assentamentos já existentes, declaradas como prioridade pelo governo Dilma”. A CPT diz que “faltou política de Estado (crédito, habitação, infraestrutura, parcelamento, etc) e para a maioria dos assentamentos não foram liberados recursos para os Planos de Desenvolvimento dos Assentamentos (PDAs) – ferramenta principal para obtenção de créditos de investimentos e produção”.
Por outro lado, diz a organização, “a pauta da Reforma Agrária do governo caminhou em um ritmo inversamente proporcional à velocidade e intensidade do agronegócio. A permissividade irrestrita concedida à bancada ruralista dominou internamente o governo e fez paralisar não só o Incra, mas tudo aquilo que pudesse interferir em seus interesses”.
Segundo a CPT, “lamentavelmente, a opção do Governo pelo agronegócio está consolidada e é demonstrada tanto através do discurso político da maioria dos ministérios como pela forte liberação de recursos para as grandes empresas do setor”. O agronegócio, afirma, “se instala onde deseja e o Estado brasileiro oferece todas as condições para isso, mesmo em áreas destinadas para a conservação da biodiversidade, terras indígenas ou de populações tradicionais diversas, ainda que o discurso oficial algumas vezes afirme o contrário”.
A hegemonia do agronegócio é segundo João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST, o grande entrave para se alterar a estrutura agrária brasileira. Segundo ele, “85% de todas as melhores terras do Brasil são utilizadas apenas para soja/ milho, pasto e cana-de-açúcar”. Stedile destaca que “apenas 10% dos proprietários rurais, os fazendeiros que possuem áreas acima de 500 hectares, controlam 85% de todo o valor da produção agropecuária, destinando-a, sem nenhum valor agregado, para a exportação”.
“O agronegócio reprimarizou a economia brasileira”, afirma João Pedro para quem “somos produtores de matérias-primas, vendidas e apropriadas por apenas 50 empresas transnacionais que controlam os preços, a taxa de lucro e o mercado mundial”. Surpreendentemente em 2012, o Brasil precisou comprar feijão preto da China, comenta Roberto Smeraldi.
Na opinião de Alexandre Conceição, também da coordenação nacional do MST, “o governo Dilma é refém dessa aliança com o agronegócio, que é o latifúndio modernizado, que se aliou com as empresas transnacionais. O governo está iludido pela proteção que a grande mídia dá a essa aliança e com os saldos na balança comercial”.
Esse modelo, diz Stedile “é insustentável para o meio ambiente, pois pratica a monocultura e destrói toda a biodiversidade existente na natureza, usando agrotóxicos de forma irresponsável. O resultado é que o Brasil responde por apenas 5% da produção agrícola mundial, mas consome 20% de todos os venenos do mundo”, afirma.
O problema é que o governo não demonstra disposição para mudar esse quadro. “Infelizmente, não há motivação no governo para tratar seriamente esses temas. Por um lado, estão cegos pelo sucesso burro das exportações do agronegócio, que não tem nada a ver com projeto de país, e, por outro lado, há um contingente de técnicos bajuladores que cercam os ministros, sem experiência da vida real, que apenas analisam sob o viés eleitoral ou se é caro ou barato”, diz João Pedro Stedile.
Segundo ele, “ultimamente, inventaram até que seria muito caro assentar famílias, que é necessário primeiro resolver os problemas dos que já têm terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o quê? O Bolsa Família, o trabalho doméstico, migrar para São Paulo”? O governo está prometendo que em 2013 irá acelerar as desapropriações.
A regressividade da agenda social no mundo rural acompanha também as populações tradicionais. A falta de prioridade não atingiu apenas os sem-terras, mas também as comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas, pescadores tradicionais, bem como os agricultores e agricultoras que sofrem os efeitos de uma seca de dimensões insuportáveis, principalmente no Nordeste.
As esperanças de retomada da agenda dos povos do campo e tradicionais encontram-se no movimento social. Um fato alentador foi a realização em agosto de 2012, do Encontro Unitário dos Trabalhadores, Trabalhadoras e povos do campo, das águas e das florestas, que reuniu cerca de 7 mil pessoas em Brasília. A perspectiva que se apresenta para 2013 é de que os povos do campo coloquem em marcha as lutas unificadas e assumam para si a responsabilidade da Reforma Agrária e da defesa dos territórios das comunidades tradicionais ameaçadas pelo capital.
A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.
(Ecodebate, 22/01/2013) publicado pela IHU On-line

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Berlusconi admite que a "revolução" na Líbia foi fabricada


reyberlusO ex-primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, admitiu que a intervenção da OTAN na Líbia foi orquestrada pelo então presidente francês, Nicolas Sarkozy, que queria obter uma quota de petróleo e gás natural da Líbia, depois que ele viajou para a Líbia e viu cartazes de Muammar Gaddafi abraçando Berlusconi.
De acordo com um vídeo postado pelo site em Eretz Zen de Yuo Tubo canal, a descoberta de grandes reservas de gás natural na costa mediterrânea da Síria, Líbano e Israel teria causado um outro "Spring Revolução Árabe" na Síria, cuja derrubada artificial não significa apenas tomar o controle das reservas de gás natural da Síria e do Líbano - ambos "Líbano e Síria são" - mas também encontrar uma rota para o gasoduto de gás natural do Catar para ir para a Europa ea Turquia, enquanto o Catar olhar para a Europa e Turquia oferecem um bom acordo sobre este recurso natural ao cortar o fornecedor atual, na Rússia.
Fonte /  Eretz Zen /  You Tube

Educação pra quem? - No Rio Grande do Norte 1.502.312 não têm instrução

De acordo com o censo 2010 do IBGE o estado do Rio Grande do Norte tem  965.313 pessoas sem nenhum rendimento o que corresponde a quase metade da população que é de 3.168.027. Essa população torna-se extremamente vulnerável à toda sorte de manipulação, é a sustentação política das elites locais além de ser afetada diretamente pela violência.

O Censo mostra também que 1.011.882 pessoas sobrevivem com apenas 1 salário mínimo, sendo que boa parte dessa população recebe este salário ao se aposentar como agricultor, ou seja, apenas recebem o primeiro  salário da vida na terceira idade.

Na contramão desta realidade, 11.752 pessoas recebem acima de 20 salários, aí estão os vampiros da Assembleia Legislativa e do palácio do governo.

Não é difícil de apontar a causa que leva a esta situação de pobreza material e intelectual, no Rio Grande do Norte  1.502.312 pessoas estão enquadradas no levantamento sobre educação no grupo dos sem instrução ou com ensino fundamental incompleto; e 410.111 com fundamental completo e ensino médio incompleto, ou seja, praticamente 2/3 da população com um nível de instrução precário, já que mesmos os que completam o ensino médio ficam na condição de analfabetos funcionais devido a precariedade do ensino; a função do magistério não atrai, pelo contrário, na própria sala de aula os professores recomendam aos alunos para não seguirem a carreira, o que é absurdo deviam convidá-los a fazer a revolução, sistema curricular atrasado, enfim uma série de atrasos que não permitem que a educação modifiquem a sociedade, ela chega como obrigação para o governo e não como a prioridade.

O Fato de o estado sempre ter sido governado por oligarquias é crucial para o atraso na educação, com educação essas elites perderiam seu curral eleitoral.

Países pobres são destino ‘de 80% do lixo eletrônico de nações ricas’


Os países em desenvolvimento são o destino de 80% do lixo eletrônico produzido nas nações ricas, mas carecem da infraestrutura, de tecnologias de reciclagem apropriadas e da regulamentação legal para absorver essa vasta quantidade de detritos.
Essa é uma das conclusões de um relatório [The global impact of e-waste: Addressing the challenge] divulgado nesta sexta-feira (18) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Segundo o documento O Impacto Global do Lixo Eletrônico: Lidando com o Desafio, boa parte do lixo eletrônico exportado para as nações em desenvolvimento é enviado ilegalmente, e estes detritos acabam indo parar em plantas de reciclagem informais, predominantemente em países como China, Índia, Gana e Nigéria.
Especificamente em relação à América Latina, o documento afirma que a maior parte dos países da região ”ainda precisa elaborar uma legislação para o lixo eletrônico”.
O documento afirma que houve avanços recentes na região, como na Costa Rica, o primeiro país latino-americano a criar uma legislação nacional específica sobre o tema.
Ônus

De acordo com o estudo, ”as nações em desenvolvimento estão tendo de lidar com o ônus de um problema global, sem ter a tecnologia para lidar com isso. Além disso, os países em desenvolvimento estão eles próprios cada vez gerando maiores quantidades de lixo eletrônico’.
O estudo afirma que está havendo um aumento rápido na geração de lixo eletrônico doméstico produzido na China, no Leste Europeu e na América Latina.
Um total de 40 bilhões de toneladas de lixo eletrônico é produzido anualmente. Estima-se que 70% dos produtos eletrônicos descartados e exportados todos os anos vá parar na China e que esta proporção estaria aumentando.
Muitas vezes, esse lixo exportado para a China é reexportado para outros países do Sudoeste asiático, como Cambodja e Vietnã.
De um modo geral, as exportações de pequeno porte são destinadas a países da África Ocidental. Mas o relatório diz que essa proporção deverá crescer, devido à adoção de leis mais duras por parte dos países do Sudeste Asiático, que costumavam absorver parte desse comércio.
Entre os principais problemas ligados ao lixo eletrônico, de acordo com o relatório, estão a ausência de regulamentações para assegurar a segurança dos que lidam com esses produtos descartados e a falta de incentivos financeiros para reciclar detritos eletrônicos de forma responsável.
A manipulação desses detritos traz vários riscos à saúde pela presença de materiais tóxicos.
Entre as recomendações feitas no documento da OIT, está a adoção de legislações apropriadas por parte dos países em desenvolvimento, a regularização do setor informal de reciclagem e a organização de trabalhadores que lidam com detritos eltrônicos em cooperativas.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Mapa biogeográfico mundial é atualizado após 136 anos


Criado pelo naturalista Alfred Russel Wallace há mais de 100 anos, o estudo que dividia o planeta em seis regiões de biodiversidade ganhou mais cinco áreas graças aos avanços em investigações genéticas; cerca de 20 mil espécies estão catalogadas. Por Jéssica Lipinski do Instituto CarbonoBrasil.
Você com certeza já ouviu falar em Charles Darwin, naturalista inglês responsável por desenvolver a teoria até hoje mais defendida no que se refere à evolução das espécies. Mas é provável que desconheça o nome de Alfred Russel Wallace, cujo principal trabalho – um mapa que divide o planeta em seis regiões biogeográficas – teve importantes contribuições para essa teoria.
O mapa de Wallace, criado em 1876, foi uma tentativa de dividir e definir o mundo de acordo com as suas espécies, e é usado até hoje em diversos tipos de investigação. Só no final do último ano, no entanto, o trabalho ganhou uma versão atualizada desenvolvida por cientistas da Universidade de Copenhaga e da Universidade McGill (Canadá), que redividiram as seis regiões biogeográficas de Wallace em 11 e agregaram mais dados sobre as espécies.
Agora, o mapa contém informações de cerca de 20 mil espécies, onde elas vivem, como mudaram através do tempo e espaço e como se relacionam umas com as outras. O trabalho usa diferentes gradientes de cor para transmitir essas relações. Áreas de cores similares têm espécies que se assemelham mais entre si do que as das áreas de cores mais diferentes.
As 11 novas regiões, por sua vez, foram subdivididas em 20 áreas menores, também de acordo com as características das espécies que as habitam. Todo este detalhe permite mostrar, por exemplo, como o Hemisfério Sul tende a ter uma abundância maior de comunidades animais únicas.
Neste aspeto, a América do Sul, a Austrália e a ilha de Madagáscar destacam-se, enquanto a variedade de vida acima da linha do Equador é menor. Acredita-se que isso ocorre por causa do relativo isolamento das áreas ao sul do equador, assim como devido aos seus habitats únicos e à abundância de chuvas e temperaturas quentes, que são fatores que estimulam uma diversidade de vida mais ampla.
“O nosso estudo é uma atualização de um dos mapas mais fundamentais das ciências naturais. Pela primeira vez desde a tentativa de Wallace somos finalmente capazes de fornecer uma descrição ampla do mundo natural baseados em informações incrivelmente detalhadas para milhares de espécies vertebradas”, declarou Ben Holt, principal autor da pesquisa, num comunicado à imprensa.
As espécies catalogadas no trabalho são sobretudo de mamíferos, aves e anfíbios. O mapa ainda não inclui dados sobre répteis, plantas ou insetos porque essa informação é menos completa, mas poderá ser incorporada facilmente assim que se tornar disponível, afirmaram os cientistas.
ADN
A acumulação de novos dados só foi possível, entretanto, por causa dos avanços da tecnologia científica, principalmente em relação a estudos genéticos baseados em investigações com o ADN das espécies, algo que não era possível na época de Wallace.
“O mapa é o resultado de 20 anos de compilação de dados sobre a distribuição geográfica de espécies e informações baseadas em ADN que permitem reconstruir relações ancestrais entre as espécies”, comentou Jean-Philippe Lessard, coautor do estudo, em entrevista ao Portal Instituto CarbonoBrasil.
“A extração de DNA tornou-se mais acessível na última década, o que permitiu o ganho de novos conhecimentos na evolução de relações entre espécies. É esse conhecimento baseado no ADN que permite criar uma nova geração do mapa das regiões biogeográficas dos vertebrados do mundo”, explicou Lessard.
Conservação
Além de ser extremamente importante para o desenvolvimento de investigações no ramo das ciências naturais, permitindo conhecer cada vez mais sobre as espécies, seus habitats e suas relações, o mapa também tem um papel chave no que diz respeito a tentativas de conservação.
“Já que esses mapas são usados não apenas nas ciências naturais, mas também para estabelecer prioridades para a conservação, é importante que tenhamos um mapa atualizado como ferramenta de trabalho”, observou Lessard.
“Além disso, o nosso mapa baseado em ADN fornece novas informações sobre relações entre regiões, o que permite quantificar o grau de singularidade evolutiva de cada uma. Isso talvez mude a forma que vemos as prioridades de conservação, o que é mais relevante devido à atual crise de biodiversidade”, acrescentou o coautor canadiano.
Mas apesar de todos os novos dados, os investigadores ressaltaram que ainda é necessário muito estudo para entender completamente a evolução das espécies em todos os seus aspetos.
“O mapa original de Wallace claramente teve uma influência grande e inquantificável no estudo de biodiversidade global. O novo mapa mostra o incrível progresso que fizemos desde o tempo de Wallace e também serve como um lembrete de que ainda sabemos muito pouco sobre como esses padrões [de distribuição da vida] foram formados”, concluiu Holt.
Por Jéssica Lipinski do Instituto CarbonoBrasil