"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 3 de agosto de 2013

Evo Morales consagra o dia2 de agosto como o Dia do Anti-imperialismo

O presidente da Bolívia, Evo Morales, afirmou sexta-feira que  o dia 02 de agosto vai ser conhecido no país como o Dia da Anti-imperialismo em que o povo boliviano pode desfrutar de um governo que fornece respostas.
"Com este governo fazemos história o, uma nova história para a Bolívia. Hoje comemoramos o dia da Reforma Agrária. Agora, em 02 de agosto celebramos o Dia da Anti-imperialismo. Essa é a conclusão a que cheguei. Nós fazemos a história, com vitórias contra os poderes políticos que os seres humanos danos.

Durante a sessão de encerramento da Cimeira ar Antiimperialista realizada durante os últimos dois dias em Cochabamba (centro do país), o chefe de Estado boliviano lembrou que, desde que o seu governo foi eleito pelo povo boliviano as forças sociais  têm satisfeito as suas necessidades.

"Eu tenho a obrigação de prestar contas ao povo irmãs e irmãos, as forças sociais, as forças do campo, as áreas sociais. A partir do momento em que chegamos, em 2006, a nossa missão é dar às pessoas a terra para trabalhar e produzir e assim garantir que uma mudança profunda na posse da terra ", acrescentou.

A este respeito, recordou que desde que chegou à Presidência, os bolivianos eram enforcados por bancos privados e governos que ajudaram pessoas.

Antes da participação do presidente Morales, os movimentos sociais chamaram os governos dos países latino-americanos a expulsarem de seus territórios as bases militares norte-americanas, a fim de preservar a sua soberania e independência.

As centenas de organizações sociais, de 18 países, reunidos em Cochabamba , também condenaram a posição da Espanha, França, Portugal e Itália em evitar a operações da aeronave presidencial boliviana por seus respectivos territórios.

A Cimeira Anti-Imperialista começou em 31 de julho, na cidade de Cochabamba (centro) e terminou ontem (02 de agosto), a fim de criar um instrumento político de libertação latino-americana.

Entre os participantes, representantes de 15 países, mais de 36 delegados de organizações sociais na Bolívia, juntamente com representantes dos países membros da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), a União de Nações Sul-americanas (Unasul), Organizações Comunidade da América Latina e das Caraíbas (CELAC), entre outros.

Fonte: Telesur

Mudanças climáticas multiplicarão a violência no Mundo, diz estudo.

Por Europa Press - Agencia

As Mudanças no clima estão intimamente ligados à violência humana em todo o mundo. Mesmo relativamente pequenos desvios da temperatura normal ou chuva aumentaram substancialmente o risco de conflito na antiguidade e na atualidade, de acordo com um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e da Universidade de Princeton, ambas nos Estados Unidos .

Os resultados, que cobrem todas as principais regiões do mundo, com dados de Brasil, China, Alemanha, Somália e Estados Unidos, e mostram padrões similares de conflitos ligados às mudanças climáticas, como o aumento das secas e aumento da temperatura média anual, o estudo foi na revista "Science".

Com o acúmulo de mais dados do que os estudos anteriores, os autores foram capazes de mostrar que o clima da Terra desempenha um papel mais influente nos assuntos humanos do que se pensava.

Alguns exemplos que expõe esta pesquisa são os picos de violência doméstica na Índia e na Austrália, o aumento de assaltos e assassinatos nos Estados Unidos e na Tanzânia, a violência étnica na Europa e na Ásia do Sul, invasões de terras no Brasil, o uso de polícia na Holanda, conflito civil nos trópicos, e até mesmo o colapso dos impérios maia e chinesa.

O novo estudo pode ter implicações importantes para a compreensão do impacto da futura mudança climática sobre as sociedades humanas, como muitos modelos climáticos globais apontam para um aumento da temperatura global de pelo menos dois graus Celsius durante o próximo meio século.

"Reunimos 60 estudos existentes, contendo 45 diferentes conjuntos de dados e voltamoa a analisar e obter resultados através de um quadro estatístico comum. Resultados foram surpreendentes", diz Solomon Hsiang, principal autor do estudo, que era um pós-doutorando em Ciência, Tecnologia e Política Ambiental da Universidade de Princeton, durante o projeto de pesquisa e é agora professor adjunto de Políticas Públicas na Escola Goldman, da Universidade da Califórnia em Berkeley.

O mais recente estudo adotou uma definição ampla de métodos de conflito e de pesquisa utilizados, ao invés de reavaliar os resultados obtidos em estudos quantitativos mais rigorosos publicados desde 1986, para examinar os aspectos do clima, como chuva, seca ou temperatura, e sua associação com as diversas formas de violência.

Para determinar se havia uma relação entre o clima e os conflitos em vários níveis de organização social, os pesquisadores investigaram se a evidência de uma ligação é consistente dentro de cada uma das três grandes categorias de conflitos: a violência pessoal e crime como assassinato, assalto, estupro e violência doméstica intergrupal violência e instabilidade política, guerras civis, revoltas, violência étnica e invasões de terra, e as mudanças institucionais, como mudanças repentinas e significativas nas instituições do governo e a queda de civilizações inteiras .

Os cientistas descobriram que os três tipos de conflitos exibem respostas sistemáticas e grandes às mudanças no clima, com o efeito sobre o conflito entre grupos como a mais pronunciada em termos percentuais. Além disso, viram que o conflito sempre responde à temperatura, com uma relação positiva entre altas temperaturas e aumento da violência em 27 estudos, utilizando uma abordagem que se tornou localização unidades específicas de mudanças climáticas conhecidos estatísticos como desvios padrão.

"Descobrimos que uma mudança de desvio padrão para as condições mais quentes faz com que a probabilidade de violência pessoal aumente 4 por cento e os conflitos intergrupos crescem 14 por cento, disse Marshall Burke, co-autor do estudo e estudante  doutorando no Secretaria de Agricultura e Recursos Econômicos em Berkeley. Para se ter uma ideia da escala, esse tipo de mudança na temperatura é aproximadamente igual para aquecer um país Africano a 0,4 ° C.

Desmond Tutu: "Prefiro o inferno a um paraíso homofóbico"

O Nobel da Paz e líder religioso sul-africano, um dos principais ativistas na luta contra o apartheid, foi o anfitrião do lançamento da campanha internacional das Nações Unidas pelos direitos da comunidade LGBT no mundo.
Desmond Tutu apoia a campanha da ONO contra a discriminação homofóbica. Foto Llywodraeth Cymru/Flickr
O ex-arcebispo da Igreja Anglicana da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, um dos principais ativistas dos direitos humanos no continente africano, fez uma importante defesa dos direitos da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) no mundo.
Durante um evento na ONU (Organização das Nações Unidas) na África do Sul em defesa da diversidade sexual, Tutu, vencedor do Prémio Nobel da Paz em 1984 pela sua ação contra o apartheid, afirmou que prefere “o inferno do que um paraíso homofóbico”.
“Eu não veneraria um Deus que fosse homofóbico e é assim que me sinto para falar sobre isso”, afirmou. “Eu recusar-me-ia a entrar num paraíso homofóbico. Chegaria lá e diria: ‘sinto muito’, prefiro ir para ‘o outro lugar’”. Tutu também fez pesadas críticas a religiões e líderes espirituais que discriminam pessoas pelas suas opções sexuais.
O evento, ocorrido no dia 26 de julho na Cidade do Cabo, contou também com a presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e da alta comissária para os direitos humanos, Navi Pillay, no lançamento de uma campanha em defesa da comunidade LGBT pelo mundo. Pillay lembrou que 76 países criminalizam as relações entre pessoas do mesmo sexo. As punições, nesses locais, variam desde sentenças de prisão à execução, o “que se constitui em clara violação aos direitos humanos básicos”.
“Estou tão empenhado nesta campanha como sempre estive na luta contra o apartheid. Para mim, ambas estão no mesmo nível”, disse Tutu, que se aposentou recentemente.

Artigo publicado no portal Opera Mundi

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A queda de credibilidade nas instituições - De "partidos" a igrejas

Pesquisa Ibope, chamada Índice de Confiança Social mostra a queda da confiança entre todas as instituições incluídas na pesquisa. A Presidência da República e o Governo Federal tiveram as maiores quedas, de -23 e -33% respectivamente. No geral a menor credibilidade fica com os partidos políticos, registrando uma confiança de 25%. Confira no gráfico os números.


Quando tão diversificadas instituições, instituições que são pilastras importantes neste tipo de sociedade em que vivemos sofrem tamanho desprestígio é uma mostra de que há uma efervescência social, uma efervescência que rejeita o que está posto, mas parece que não se sabe muito definidamente como construir um novo, pelo menos por parte dos indivíduos distantes da esquerda política.

Talvez esse tipo de vida líquida, como conceitua Bauman, não se compactue com instituições feitas para serem duráveis e ainda mais quando eles já não oferecem nem credibilidade, confiança e muito menos novas perspectivas, se na Europa as pessoas estão indo às ruas por que sentem o neoliberalismo arrancar seus direitos sociais, no Brasil as pessoas vão as ruas por que querem um pouco mais do que nunca tiveram direito.

O descrédito atinge Igrejas, bombeiros e partidos e sindicatos, por exemplo, coisas bem distintas. Os partidos são os últimos do ranking por que perderam a validade no país em que se cria, se funde e se extingue "partidos" criado para buscarem cargos e que não representam nada, salvo raras exceções que são sufocadas e existem minimamente, apesar de que com o clima de contestação tendem a haver um crescimento.

Trocando de identidade

A moral coloca o indivíduo em um ciclo, os valores, como diz Nietzsche, são criados pelo homem mas separam-se dele e passam a influenciá-los como se fossem criadores de homens e não suas criaturas. A moral quando nos receita algo, moralina no terno de Nietzsche, uma fórmula de boa conduta afasta a humanidade dela mesma e abre espaço para que aquilo que são dos homens transformem-se em imoralidades.

Na internet as pessoas criam perfis falsos, e são elas mesmas naquilo que são, mas tentam não ser, a moral diz para não ser aquilo da 'Identidade" falsa, mas ao mesmo tempo em que diz isso abre a porta para a falsificação.

Para Bauman na Modernidade líquida uma única pessoa pode ter várias identidades, porque agora caba a ela mesma dar-lha uma "Identidade".

[...] a ‘identidade’ só nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto; como alvo de um esforço, ‘um objetivo’; como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais — mesmo que, para que essa luta seja vitoriosa, a verdade sobre a condição precária e eternamente inconclusa da identidade deva ser, e tenda a ser, suprimida e laboriosamente oculta". (BAUMAN, 2005, p. 22)

Neoliberalismo é o retorno ao capitalismo do Séc. XIX?

A concorrência com o "socialismo real 'do Bloco soviético é o medo da perda do poder fizeram com que as nações centrais do Capitalismo instituíssem o Estado do Bem-estar social. Na década de 1970 Inglaterra e Estados Unidos iniciam o giro para as políticas neoliberais, o capitalismo sentia-se livre para perseguir seu curso normal.

As políticas neoliberais culminaram na primeira década do século XXI em crises institucionais e retração nos direitos sociais, a Europa volta às ruas, essas reivindicações encontram-se com o ecologismo, um traço do socialismo do século XXI.

Em entrevista publicada na Revista Fórum o geógrafo britânico David Harvey destaca que o neoliberalismo retroage o capitalismo para aquilo que ele era no século XIX, fazendo com que derperte-se o interesse pela obra econômica de Karl Marx.

"...quando se tem 30, 40 anos de neoliberalismo destruindo o Estado de Bem-Estar Social, mudando os processos de trabalho para um estágio anterior e voltando ao que eram no século XIX, as pessoas leem Marx, especialmente o Volume 1 de O Capital, sobre as condições do trabalho, e dizem: “Nossa, é o que está acontecendo na China, nas zonas de empresas maquiladoras”. Fica muito mais fácil conectar o argumento, principalmente do volume 1 de O Capital, com o que está acontecendo agora, porque toda a história do neoliberalismo tem sido recriar aquele mundo do século XIX, com a visão de forças de exploração, a desigualdade econômica e, claro, a destruição do meio ambiente e tudo relacionado a isso. Como professor, é mais fácil para eu poder dizer: “Leiam Marx, e agora vamos pegar alguns trechos do New York Times da última semana e ver qual é a diferença”. As pessoas dizem: “Uau, o que está acontecendo?”

Absorção de CO2 pelas florestas seria menor com aumento das temperaturas

Um novo estudo aponta que teremos menos carbono a ser absorvido pelas florestas com temperaturas mais altas que as atuais. Por Fernanda B. Muller do Instituto CarbonoBrasil
Um novo estudo aponta que teremos menos carbono a ser absorvido pelas florestas com temperaturas mais altas que as atuais
Um novo estudo, produzido pela NASA e CSIRO, avaliou episódios de transição de períodos mais frios para mais quentes na Terra para entender como as florestas estão a comportar-se no atual processo de aquecimento global.
“A ideia era juntar grandes bancos de dados que existem sobre as concentrações globais de CO2 na atmosfera, e uma série de produtos da NASA sobre temperatura e precipitação, e correlacionar essas variáveis para realmente entender o quanto as florestas tropicais estão a influenciar as mudanças de concentração atmosférica de CO2 ano a ano”, comentou Pep Canadell, co-autor do estudo, que foi publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.
A conclusão é que, de facto, teremos menos carbono a ser absorvido pelas florestas com temperaturas mais altas que as atuais.
“O que vimos é que a temperatura sobre os trópicos está realmente a controlar em larga escala os altos e baixos no CO2 global que vemos acontecer anualmente devido à variabilidade climática”, comentou Canadell.
Ele explica que estas pequenas anomalias logo desaparecem, revelando o quanto o sistema terrestre é resiliente, porém questiona sobre o que acontecerá quando estas perturbações forem mais consistentes.
“A resposta é que provavelmente veremos um tipo similar de resposta que temos ano a ano, que é um grande declínio na capacidade das florestas tropicais de remover o CO2 atmosférico”, alerta.
Artigo de Fernanda B. Muller, publicada em Instituto CarbonoBrasil

Trabalhadores voltam às ruas em agosto e ANDES-SN chama docentes à mobilização

Dia 6 marcará a luta contra o PL 4330, das privatizações, e em 30 de agosto, as centrais convocam “Dia Nacional de Paralisação”

Nos dias 6 e 30 de agosto, os trabalhadores de todo o país devem voltar às ruas em protesto à política econômico-social do governo, que segue sem dar resposta efetiva às inúmeras reivindicações apresentadas pela população nas manifestações que ocorrem por todo o Brasil há mais dois meses. O dia 6 irá marcar a luta contra o PL 4330, das Terceirizações. Já em 30 de agosto, acontece o “Dia Nacional de Paralisação”, com uma pauta unitária (veja abaixo).

As datas foram convocadas pelas centrais sindicais – CSP-Conlutas, a CUT, a CTB, a UGT, a NCST, a CSB –, e integram o calendário de lutas do ANDES-SN para o próximo período, que foi aprovado durante o 58º Conad, realizado entre os dias 18 e 21 de julho, em Santa Maria (RS).

Para ressaltar a importância em se debater integrar as mobilizações nestas duas datas, o ANDES-SN enviou a circular nº 128/2013, indicando às seções sindicais a realização de assembleias gerais “para que estabeleçam, de acordo com suas deliberações, a participação e as atividades a serem preparadas para os dias 6 e 30 de agosto”. Confira aqui o documento.

“Nesse momento é fundamental que cumpramos nosso papel, sem atropelar as nossas formas organizativas democráticas pela base, para ampliar e fortalecer a participação dos docentes nas ações orientadas pelo Sindicato Nacional e pela nossa central - CSP Conlutas”, ressalta a circular assinada pela presidente do ANDES-SN, Marinalva Oliveira.

Marinalva ressalta a importância dos docentes participarem da organização dos atos em suas cidades, junto às demais entidades representativas dos trabalhadores. “Precisamos fortalecer a mobilização no dia 6, que traz como pauta uma das nossas bandeiras históricas, que é a luta contra a terceirização dos serviços em todos os setores, para realizar mais um grande dia nacional de paralisação, em 30 de agosto”, destaca a presidente do ANDES-SN.

Confira os eixos da pauta unificada proposta pelas Centrais:

- redução do preço e melhor a qualidade dos transportes coletivos;
- mais investimentos na saúde e na educação pública;
- fim do fator previdenciário e aumento das aposentadorias;
- redução da jornada de trabalho;
- Salário igual para trabalho igual, combatendo a discriminação da mulher no trabalho;
- fim dos leilões das reservas de petróleo;
- contra o PL 4330, da terceirização;
- Reforma Agrária.

Fonte: ANDES

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Edward Snowden recebe asilo temporário da Rússia

Especialista informático que revelou a existência de programas massivos de vigilância pela net implantados pelos EUA já saiu do aeroporto de Moscovo acompanhado da ativista da Wikileaks que o assessora, com destino desconhecido.
Snowden já saiu do aeroporto de Moscovo.
A Wikileaks anunciou através do Twitter que Edward Snowden recebeu um asilo temporário na Rússia por um ano e já deixou o aeroporto de Moscovo sob os cuidados de Sarah Harrison, a ativista da organização fundada por Julian Assange que deu apoio a Snowden desde que, em Hong Kong, o especialista em informática fez as suas denúncias.
Noutro twit, a Wikileaks agradece ao povo russo e a todos os que ajudaram a proteger o norte-americano, a quem o governo dos EUA retirou o passaporte. “Ganhámos a batalha – não a guerra”, conclui.
Segundo a Associated Press, o advogado russo Anatoly Kucherena confirmou a informação, e disse que levou os papéis a Snowden nesta quinta-feira, permitindo assim que deixasse o aeroporto de Sheremetyevo, onde permanecia bloqueado desde que chegara de Hong Kong em 23 de junho. O advogado disse que o destino do norte-americano não será divulgado por motivos de segurança.
A Casa Branca já tinha pedido ao governo russo que o extraditasse para os EUA, onde seria processado por espionagem, mas o governo de Putin não o aceitou.
O presidente russo colocou como condição para a concessão do asilo que Snowden suspendesse a revelação dos segredos dos EUA. Kucherena disse que Snowden aceitou a condição.

Governo recua no aumento da graduação em medicina

Ontem o governo anunciou o recuo a proposta do Programa Mais Médicos de ampliar em dois anos os cursos de graduação em medicina.

Em tudo que o governo propôs e que desagradou aos aliados da grande oligarquia teve que recuar, sinal de que a tal da governabilidade e os altos índices de popularidade somente se mantinha no alto enquanto havia o crescimento da economia, mas um crescimento baseado na exportação de commodities e com a crise mundial tem suas exportações diminuídas.

O PMDB pode se relacionar com quem quer que esteja na presidência, já o PT se mantêm preso e agora quando o descontentamento com os serviços públicos desgastam a imagem de que está no poder o partido se ver em ma das piores situações desde quando chegou ao poder.

Fundo Partidário: legendas dividem R$ 24,5 milhões em julho

Um total de R$ 24.514.010,33 de verbas do Fundo Partidário foi distribuído entre os partidos políticos em julho. Os valores foram divulgados no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) do último dia 26, sendo que o relatório de ordens bancárias foi encaminhado ao Banco do Brasil no dia 24 de julho.

Ao todo, vinte e nove partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) receberam o repasse. O Partido dos Trabalhadores (PT), legenda com maior bancada na Câmara dos Deputados, ficou com o maior montante, R$ 3.952.723,87, seguido do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que obteve R$ 2.950.108,25, e do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que recebeu R$ 2.688.825,56.

O artigo 5º da Lei dos Partidos Políticos (Lei n° 9.096/1995) determina que 95% dos valores do Fundo Partidário devem ser distribuídos para as legendas na proporção dos votos obtidos na última eleição geral para a Câmara dos Deputados. Os 5% restantes são divididos em partes iguais a todos os partidos que tenham seus estatutos registrados no TSE.

Essa divisão se baseia no passado para manter o status quo de forma que só se muda alguma coisa com um partido vivente das ruas.

Informações: TSE

Onde está Amarildo?

A repórter da Agência Pública foi à favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, para conhecer a história do pedreiro que desapareceu depois de ter sido detido por polícias, apesar de este estar na posse de todos os seus documentos e de não ser acusado de qualquer crime. Uma campanha está em curso para que o caso não caia no esquecimento. Por Anne Vigna, Agência Pública.
Aos 43 anos, Amarildo desapareceu sem que a família tenha direito sequer a uma explicação oficial, como tantos outros de tantas favelas brasileiras vítimas de violência policial. Foto tirada do Facebook da campanha.
Não é preciso passar muito tempo junto à família de Amarildo para entender que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha se envolveu num problema bem grande. Amarildo não é uma pessoa que pudesse desaparecer sem que a sua família perguntasse por ele, não é o pai de quem os filhos esqueceriam facilmente, não é o sobrinho, tio, primo, irmão, marido por quem ninguém perguntaria: onde está Amarildo?
Neste pedaço bem pobre da Rocinha, onde nasceu, cresceu, viveu e desapareceu Amarildo, “muitos são de nossa família”, diz Arildo, seu irmão mais velho, apontando os quatro lados da casa. Numa caminhada pela comunidade na companhia de um sobrinho de Amarildo, a repórter da Públicaconheceu algumas primas, depois umas sobrinhas, tomou um café com as tias lá em cima, de onde desceu acompanhada de irmãos e filhos de Amarildo. De todos ouviu a descrição de Amarildo como “um cara do bem” que, por desgraça, tornou-se famoso – e não pela sua característica mais marcante, o bom coração.
As casas são ligadas por escadas antigas, feitas possivelmente pelos seus avós que vieram da zona rural de Petrópolis para o Rio com os três filhos ainda bem pequenos. “A Rocinha nessa época ainda era mato e poucas casas de madeira, uns barracos, como se diz, e nada mais”, diz Eunice, irmã mais velha de Amarildo.
A curiosidade da repórter sobre o passado da família é o suficiente para que ela pegue o telefone, para ligar para uma tia avó, “a única que pode saber alguma coisa sobre a história é ela”, diz. A tia-avó, que também vive na Rocinha, confirma por telefone o que Eunice já sabia: a “tataravó era escrava, possivelmente numa fazenda de Petrópolis, mas não se sabe mais do que isso”.
Eunice diz ter retomado as origens familiares ao fazer da sua casa um centro de Umbanda. É aqui, na parte debaixo da casa, a mais silenciosa, que ela recebe as pessoas que querem saber do seu irmão. “Temos a mesma mãe, mas o nosso pai não é o mesmo. A minha mãe gostava de variar”, comenta, rindo.
Ali, na casa construída por ela, moram pelo menos 10 pessoas, entre crianças e adultos. Na cozinha, as panelas são grandes como numerosas são as bocas. No primeiro quarto, três mulheres comem sentadas na cama. Noutro quarto, duas sobrinhas estão em frente ao computador,trabalhando na página do Facebook feita para Amarildo, seguindo os cartazes virtuais de “onde está Amarildo?” que vêm de várias partes do país.
Entre onze irmãos
A mãe de Amarildo teve 12 filhos e trabalhou muito tempo como empregada doméstica na casa de uma atriz famosa do bairro do Leblon. “Essa atriz quis adotar um de nós mas a minha mãe nunca quis”, lembra o irmão Arildo, três anos mais velho do que ele. Sobre o pai de ambos, não se sabe onde nasceu, apenas que era pescador, com barco na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro, onde conheceu a sua esposa. Os netos não se lembram como nem quando, mas ele se acidentou num naufrágio e acabou morrendo em consequência de um ferimento na perna. Amarildo tinha um ano e meio. Mas, adulto, Amarildo, tinha paixão pela pesca. “Era a única coisa que ele fazia na vida, quando não estava trabalhando ou nos ajudando: ia pescar sozinho ou com um primo nas rochas de São Conrado. Voltava com muitos peixes”, conta orgulhoso, Anderson, o mais velho dos seus seis filhos.
As varas de pescar de bambu, que ele mesmo fazia, estão encostadas em casa desde o dia 14 de julho, um domingo, quando os polícias da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o levaram “para verificação”. Ele tinha acabado de limpar os peixes trazidos do mar e Bete, apelido de Elizabete, sua esposa há mais de 20 anos, esperou que ele voltasse da UPP para fritar os peixes “como tantos domingos”, conta, o olhar perdido. Foram 20 anos de união, seis filhos, a vida dividida num único quarto que servia de dormitório, cozinha e sala.
Semanas após o desaparecimento do marido, Bete esforça-se para conseguir contar como conheceu o “meu homem”, diz, evocando a lembrança do jovem que se sentou ao lado dela num banco em Ipanema: “Eu não saía muito desde que cheguei de Natal (estado do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil) para trabalhar como empregada de uma família. No domingo, ia caminhar um pouco no bairro. “Ele veio conversar comigo, nos conhecemos, e ele me trouxe para a casa da sua mãe aqui na Rocinha. Nunca mais saí”, conta.
Bete trouxe os dois filhos que vieram com ela do Nordeste sem criar problema com Amarildo. “Ele adora crianças”, diz. O que as duas menorzinhas da família confirmam: “É o tio Amarildo que nos leva para a praia de São Conrado, ele que nos ensinou a nadar”. Ela apenas sorri, sempre fumando, e sem disfarçar a tristeza conta que está preocupada com a filha mais nova, de 5 anos. “Ela sempre estava com o pai”, suspira. No começo, Bete lhe disse que o pai tinha ido viajar e que, por hora, ele não voltaria. A pequena conserva a esperança da filha que sempre acreditou nas palavras do pai, e ele lhe prometeu um bolo grande no próximo aniversário.
Era um menino e pulou no fogo”
Aos 11 anos, Amarildo tornou-se o herói da comunidade ao meter-se num barraco em chamas para salvar o sobrinho de 4 anos. “Era um menino, e pulou no fogo. Me salvou e também tentou salvar a minha irmã, que tinha 8 anos. Não conseguiu tirá-la de lá, ela morreu, e eu fiquei meses no hospital”, lembra Robinho, hoje com 34 anos, a pele marcada pelas cicatrizes desta noite de incêndio.
Aqui, Amarildo é conhecido por todos como “Boi”, por ser um homem forte que carregava as pessoas que precisavam de socorro para descer as escadas e chegar com urgência a um hospital. “Uns dias antes de desaparecer, ele carregou no colo uma vizinha, e salvou-a. É uma ótima pessoa, sempre ajudava os outros – numa emergência ou numa mudança”, conta a cunhada Simone, sem conter as lágrimas. “Eu tenho muita saudade dele, principalmente do seu sorriso. O meu marido não fala nada, mas eu conheço-o, está com muita raiva. Na primeira noite, ficou debruçado na janela a noite toda, esperando o irmão voltar”, diz, emocionada.
Toda a família está com raiva. E desta vez ninguém quer ficar quieto, mesmo sabendo dos riscos da denúncia. Vários familiares foram ameaçados por polícias. “Por que foram atrás dele? Estamos voltando à ditadura?”, pergunta a prima, Michelle. “Ele trabalhou toda a vida, quando não trabalhava, ajudava-nos, ou ia pescar para a sua família. Nunca se meteu com ninguém”, comenta, revoltada.
Boi era pedreiro havia 30 anos e ganhava meio salário mínimo por mês. “Por isso, às vezes carregava sacos de areia aos sábados para ganhar um pouco mais”, comenta Anderson, mostrando os tijolos que o pai comprou com o dinheiro extra para fazer um “puxadinho” no segundo andar na casa: “Na verdade, ele ia ter que voltar a fazer a fundação aqui de casa porque está caindo, eu e meu irmão íamos ajudar”, detalha.
“Ele era meu pai, irmão, amigo, era tudo para mim”, diz, escondendo as lágrimas quando chega a irmã mais nova, de 13 anos.
Os familiares vivem em suspense, à espera das notícias que não chegam. Não desistem: organizam-se como podem com vizinhos, amigos e outras vítimas da polícia. Negaram uma oferta do governo do Estado do Rio de Janeiro para entrar no programa de proteção à testemunha. Preferiram continuar na Rocinha, a sua comunidade. Na próxima quinta-feira, dia 1 de agosto, farão mais uma manifestação na Rocinha, onde estarão presentes familiares de outros desaparecidos por obra de outros polícias noutras favelas. “Temos de lutar para que essa impunidade não continue. Queremos justiça por Amarildo e para todos nós que convivemos agora com essa polícia”, revolta-se a sobrinha Erika.
Aos 43 anos, Amarildo desapareceu sem que a família tenha direito sequer a uma explicação oficial, como tantos outros de tantas favelas brasileiras vítimas de violência policial. Mas desta vez, ninguém vai se calar. Onde está Amarildo?
Como levaram Amarildo
A Operação Paz Armada, que mobilizou 300 polícias, entrou na Rocinha nos dias 13 e 14 de julho para prender suspeitos sem passagem pela polícia depois de um arrastão ocorrido nas proximidades da favela. Segundo a polícia, 30 pessoas foram presas, entre elas Amarildo. Segundo uma testemunha contou à reporter Elenilce Bottari, do Globo, ele foi levado por volta das 20 horas do dia 14, na posse de todos os seus documentos: “Ele estava na porta da birosca [bar], já indo para casa, quando os policiais chegaram. O Cara de Macaco (como é conhecido um dos polícias da UPP) meteu a mão no bolso dele.
“Ele reclamou e mostrou os documentos. O polícia fingiu que ia confirmar pelo rádio, mas quase que imediatamente virou-se para ele e disse que o Boi tinha que ir com eles”, disse a testemunha.
Assim que soube, Bete foi à base da UPP no Parque Ecológico e chegou a ver o marido lá dentro. “Ele olhou-me e disse que o polícia estava com os documentos dele. Então eles disseram que já, já ele retornaria para casa e que não era para a gente esperar lá. Fomos para casa e esperamos a noite inteira. Depois, meu filho procurou o comandante, que disse que Amarildo já tinha sido libertado, mas que não dava para ver nas imagens das câmaras da UPP porque tinha ocorrido uma pane. Eles acham que pobre também é burro”, contou Bete ao Globo.
O caso está a ser investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP (Gávea), ainda sem conclusão.
Publicado por Agência Pública

Uruguai: Deputados aprovam a legalização da maconha

Lei foi aprovada por 50 votos em 96 deputados, num debate de mais de 12 horas. A iniciativa estabelece como e onde se pode aceder à cannabis: pelo autocultivo, por clubes de partilha, e pela venda em farmácias de até 40 gramas por mês, a partir de licenças estatais para produzir o fornecimento. Por Emilio Ruchansky, Página12

O deputado Sebastián Sabini foi o relator da maioria. Foto de Bancadaespacio609
Numa longa jornada de debate, que incluiu golpes baixos e acesas discussões, o governo uruguaio conseguiu ontem a meia sanção [ainda será necessária a aprovação no Senado] na Câmara de Deputados para a regulamentação da marijuana para uso recreativo, medicinal e industrial. A votação foi de 50 votos a favor, sobre os 96 presentes. Os deputados oficialistas esclareceram boa parte dos dados falsos e incompletos lançados no debate pela oposição. “Estamos a dar um passo histórico para mudar uma política baseada na dupla moral e na hipocrisia, que prejudica os que têm menos acesso à justiça, criminaliza a pobreza e fracassou em todos os seus objetivos”, disse ao Página/12 o deputado oficialista Sebastián Sabini. “O desafio agora é que o sistema funcione”, acrescentou. A sanção definitiva no Senado, concordaram várias fontes parlamentares, já está assegurada.

Três vias de aquisição

O projeto estabelece três vias de aquisição da marijuana: o autocultivo de até seis plantas fêmeas com um máximo de 480 gramas de colheita anual, os clubes onde se podem compartilhar as flores de 99 plantas entre 15 e 45 pessoas, e a venda em farmácias de até 40 gramas por mês, a partir de licenças estatais para produzir o fornecimento. Criar-se-ia um órgão de controle interministerial, com representação dos cultivadores, chamado Instituto de Regulação e Controle de Cannabis. Todos os interessados deverão inscrever-se num registo, cujos dados serão protegidos.

A sessão começou às 10h, com as longas exposições dos deputados relatores da Frente Ampla, do Partido Nacional e do Partido Colorado. As cartas estavam jogadas de antemão, alguns parlamentares opositores votaram contra em geral mas a favor de vários artigos, respeitando a disciplina partidária. No lado da bancada do governo, houve críticas mas respeitou-se a decisão do Executivo. A pérola da noite foi a apresentação de uma iniciativa para controlar mais o álcool, como exigiam muitos legisladores.

Regular ou marginalizar

Pelo bancada da maioria falou Sabini, que tinha apresentado um projeto de regulamentação antes de o Executivo ter enviado o seu. “A regulamentação dos mercados de drogas, como política alternativa aos esquemas proibicionistas ou aos liberais, é ponto intermediário”, esclareceu. Depois afirmou que a iniciativa oferece ferramentas para reduzir a oferta e a procura mais eficientes, racionais e respeitosas dos direitos humanos.

Em seguida traçou várias comparações. Uma delas apontou à década de 1920, quando o governo dos Estados Unidos proibiu o álcool, enquanto que no Uruguai se controlava a sua produção e venda. “A nossa sociedade regula substâncias igual ou mais nocivas que o cannabis, regulamenta-as, não as proíbe. E consumir cannabis implica riscos, como consumir tabaco ou álcool ou psicofármacos. Mas a ilegalidade não resolve estes problemas, agrava-os. Não resolve os problemas de saúde, agrava-os”, sustentou Sabini.

Diferente de boa parte dos deputados da oposição que falaram a seguir, o deputado relator deu percentagens e cifras com as devidas fontes. Afirmou que segundo um relatório da ONU, há no mundo “entre 119 e 224 milhões” de consumidores de marijuana, convertendo-a na droga ilegal mais usada. Depois sustentou que no Uruguai 20 por cento da população declara ter provado cannabis. Em comparação com outros países, o mercado de marijuana nesse país é pequeno: “Envolve 30 milhões de dólares ao ano”.Diante deste panorama, Sabini recordou as palavras do secretário geral da Organização de Estados Americanos, Miguel Insulza, à equipa que construiu quatro cenários possíveis a partir de diferentes estratégias políticas sobre o tema: “O foco atual, para além de alguns resultados importantes, não tem tido sucesso e não está a funcionar suficientemente bem. Devemos encontrar e combinar novas e melhores alternativas”. Neste marco, acrescentou, o Uruguai propõe-se regulamentar o mercado de cannabis.

O deputado da Frente Ampla continuou a explicar que o projeto procura conjugar uma abordagem de direitos e garantias individuais “com uma forte ênfase nos laços sociais solidários e no compromisso com os sectores que vivem na exclusão social e cultural”. Sabini citou como antecedentes a Holanda, que separa o mercado da cannabis e da heroína e mencionou os clubes de cultivo em Espanha, “que fazem atividades de assessoria médica e legal aos seus membros, além de encontros informativos e educativos para melhorar a gestão dos riscos do uso”.

Entre outros fins, o deputado relator sustentou que a regulamentação permitirá uma melhor atenção médica, o financiamento de centros públicos de atenção e o alívio dos quadros de abstinência de drogas “duras” a partir da provisão de cannabis. “Também a separação de mercados de cannabis com o de outras drogas potencialmente mais daninhas para a saúde pode ajudar a diminuir o número de novos consumidores de pasta base de cocaína, o que já ocorreu na Holanda com a heroína”, disse em referência a vários estudos oficiais desse país europeu.

Vale tudo

Gerardo Amarilla e Richard Sander, deputados relatores dos partidos Nacional e Colorado, respetivamente, admitiram o falhanço da repressão ao narcotráfico como forma de deter o consumo. No entanto, acusaram o governo de “improvisar soluções”, de ter uma visão “derrotista” por aceitar o uso de marijuana e pediram mais recursos para comunidades terapêuticas, evangélicas algumas, e ONGs, desconhecendo ou minimizando o papel que o projeto confere ao sistema de saúde pública, como pilar da prevenção e tratamento para utentes dependentes.

“Propõe-se um ensaio com mais incertezas que certezas. E cujos resultados podem ser impactos negativos e irreversíveis de uma geração inteira. Frente à necessidade de uma resposta contundente, integral com ampla base de legitimação política e social, responde-se setorialmente contra a maioria da opinião publica, e com o apoio de uma maioria partidária muito limitada, muito dimensionada, muito frágil. Não se esgotaram as vias para chegar a esses consensos e esse é o motivo hoje de que estejamos a lamentar o rumo que se pretende seguir”, disse Amarilla.

O deputado sustentou que os centros de acolhimento e tratamento construídos pelo governo atual são “dramaticamente insuficientes” e denunciou que a Federação de Comunidades Terapêuticas do Uruguai, que antes recebia bolsas do Estado, tem vários lugares que entraram em colapso económico. Amarilla recordou que um projeto seu para financiar estas comunidades e outras ONGs retirando o salário dos assessores do Ministério de Saúde foi eliminado no Parlamento. Depois sustentou que a marijuana é a porta de acesso a outras drogas, o que foi rebatido depois por Sabini.

Por sua vez, Sander propôs um referendo para derrubar a lei se for aprovada no Senado. Em seguida realçou as sondagens que indicam a rejeição ao projeto por mais de 60 por cento dos consultados. O deputado realçou que a norma atual não penaliza a posse de drogas para uso pessoal, dependendo “do que os juízes entendam que é consumo, na lei atual o viciado possa tratar-se e não ficar preso”. Esqueceu-se de mencionar que o juiz determina se se trata de um utente ou de um traficante com base na sua “convicção moral” e não pela “sã crítica”, como propôs o oficialismo.

“Eu comecei a estudar este tema desde 2010 porque nunca consumi drogas e essa é a imagem que quero dar aos meus filhos e aos filhos de todos o uruguaios. Não são precisas drogas para ser feliz, há que ser menino, jovem, ser são e estudar e ter valores para se ser feliz”, sustentou Sander. E prosseguiu ironizando que os utentes vão ter de comprar balanças para pesar os 480 gramas de colheita que podem ter na sua casa. “Sei que há plantas que dão um quilo e meio. Como vai ser a gestão quando tiverem dois ou três quilos? Alguém me disse: ‘Têm que a deitar fora...’”.

Para dar dramatismo, Sander mostrou um vídeo de viciados em fase de recuperação do departamento de Rivera, de onde é representante. Todos concordavam com um relato disciplinado, e diziam, quase na mesma ordem discursiva, que tinham começado por fumar marijuana para passar à paste base e à cocaína, que roubavam para comprar. Alguns realçavam que estiveram presos ou se prostituíram com outros homens para pagar o vício. A maioria salvou-se ao encontrar “Deus”. Todos estavam contra a regulamentação da cannabis.

“Todos eles são pacientes de uma comunidade terapêutica da igreja evangélica, nós lutamos para que tenham mais dinheiro para os tratar”, esclareceu o deputado. “Não se pode legislar em base a vídeos, mas sim com base em provas científicas”, respondeu Sabini.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"Juventude" do PMDB indica Valter Alves - Nós indicamos derrubar a oligarquia

Eles brincam de ser governo, há vagas para filhos, demais parentes, apadrinhados, espera sua vez, sera a vez de quem...?

Uma tal Juventude do PMDB decidiu, ora vejam só, indicar o nome do Filho do Ministro da Previdência Garibaldi Alves Filho de Garibaldi Alves, senador assumindo a vaga deixada por Rosalba Ciarline, não vou dizer os parentes destas no poder senão ficaria cego diante da tela, sim Garibaldi é sobrinho de Aluízio Alves, homem do verde da Esperança furtada, ilusão cega, o pai de Henrique Alves; o nome do indicado é Walter Alves, hoje no cargo de Deputado Estadual.

"Ser Jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética", dizia Che Guevara, ser da "Juventude do PMDB" em um estado dominado por oligarquias e sendo este o partido de uma das maiores e mais nocivas oligarquias do RN e encontrar um nome apenas mais um para dar sequência a esse domínio é se contradizer ao extremo.

A Juventude potiguar precisa fazer a política com os pés nas ruas, derrubar o oligarquismo, trágico é brincar de indicar nomes de oligarcas para andarem em cima do trio e colocar propaganda na televisão, ah... tem os passeios nos Aviões da FAB.

Brasil: O capitalismo extrativo e o grande salto para trás

por James Petras

O Brasil testemunhou um dos mais gritantes retrocessos sócio-económicos da moderna história mundial:  de uma dinâmica nacionalista de industrialização para uma economia exportadora primária. Entre meados da década de 1930 e meados da década de 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média de cerca de 10% no seu sector manufactureiro, em grande medida com base em políticas intervencionistas do estado, subsídios, protecção e regulação do crescimento de empresas públicas nacionais e privadas. Mudanças no "equilíbrio" entre o capital nacional e estrangeiro (imperial) começaram a verificar-se a seguir ao golpe de 1964 e aceleraram-se após o retorno da política eleitoral nos meados da década de 1980. A eleição de políticos neoliberais, especialmente com a eleição do regime Cardoso em meados da década de 1990, teve um impacto devastador sobre sectores estratégicos da economia nacional: a privatização generalizada foi acompanhada pela desnacionalização dos altos comandos da economia e a desregulamentação maciça de mercados de capitais [1] . O regime Cardoso preparou o cenário para o fluxo maciço de capital estrangeiro nos sectores agro-mineral, financeiro, seguros e imobiliário. A ascensão das taxas de juro, como exigido pelo FMI, o Banco Mundial e o mercado especulativo imobiliário elevaram os custos da produção industrial. A redução de tarifas de Cardoso acabou com subsídios à indústria e abriu a porta a importações industriais. Estas políticas neoliberais levaram ao declínio relativo e absoluto da produção industrial [2] .

A vitória presidencial do auto-intitulado "Partido dos Trabalhadores", em 2002, aprofundou e expandiu o "grande retrocesso" promovido pelos seus antecessores neoliberais. O Brasil reverteu para tornar-se um exportador primário de commodities, como soja, gado, ferro e minérios que se multiplicaram, as exportações de material de transporte e manufacturas declinaram [3] . O Brasil tornou-se uma dos principais exportadores de commodities extractivas do mundo. A dependência do Brasil das exportações de commodities foi ajudada e compensada pela entrada maciça e a penetração de corporações imperiais multinacionais e de fluxos de financeiros por bancos além-mar. Os mercados além-mar e os bancos estrangeiros tornaram-se a força condutora do crescimento extractivo e da morte industrial.

Para ter um melhor entendimento da "grande reversão" do Brasil de uma dinâmica nacionalista-industrializante para uma vulnerável dependência imperial conduzida pela extracção agro-mineral, precisamos resumidamente rever a economia política do Brasil ao longo dos últimos cinquenta anos a fim de identificar os "pontos de viragem" decisivos e a centralidade da política e da luta de classe.

Modelo militar: Modernização a partir de cima 

Sob a ditadura militar (1964-1984) a política económica era baseada numa estratégia híbrida enfatizando uma tríplice aliança do estado, do capital estrangeiro e do capital privado nacional [4] centrada primariamente em exportações industriais e secundariamente e commodities agrícolas (especialmente produtos tradicionais como o café).

Os militares rejeitaram o modelo nacionalista-populista baseado em indústrias do estado e cooperativas camponesas do deposto presidente Goulart e puseram em vigor uma aliança de capitalistas industriais e agronegócio. A cavalgar uma onda de mercados globais em expansão e beneficiando da repressão do trabalho, a compressão de salários, subsídios abrangentes e políticas proteccionistas, a economia cresceu a dois dígitos desde o fim da década de 1960 até meados da de 1970, o chamado "Milagre brasileiro" [5] . Os militares, se bem que afastando quaisquer ameaças de nacionalizações, puseram em vigor um certo número de regras de "conteúdo nacional" e ampliaram a dimensão e âmbito da classe trabalhadora urbana, especialmente na indústria automotiva. Isto levou ao crescimento dos sindicatos de trabalhadores metalúrgicos e posteriormente do Partido dos Trabalhadores. O "modelo exportador" baseado na indústria leve e pesada, de produtores estrangeiros e internos, tinha base regional (Sudeste). A estratégia de modernização aumentou desigualdades e integrou os capitalistas "nacionais" a multinacionais imperiais. Isto preparou o terreno para o início das lutas anti-ditatoriais e o retorno da democracia. Partidos neoliberais ganharam hegemonia com a viragem para políticas eleitorais.

Políticas eleitorais, a ascensão de neoliberalismo e a ascendência do capitalismo extractivo 

A oposição eleitoral que sucedeu aos regimes militares esteve inicialmente polarizada entre uma elite liberal, adepta do livre mercado agro-mineral e aliada a multinacionais imperiais e, por outro lado, um bloco nacionalista de trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e classe média baixa. Trabalhadores militantes constituíam a CUT, camponeses sem terra o MST e ambos juntaram-se à classe média para constituir o PT. [6]

A primeira década de política eleitoral, 1984-94, foi caracterizada pelo puxa e empurra entre o capitalismo estatista residual herdado do regime militar anterior e a emergente burguesia do "livre mercado" liberal. As crises de dívida, hiper-inflação, corrupção sistémica maciça, o impedimento do presidente Collor e a estagnação económica enfraqueceram gravemente os sectores capitalistas estatais e levaram à ascendência de uma aliança do capital agro-mineral e financeiro, tanto de capitalistas estrangeiros como locais, ligada a mercados além-mar. Esta coligação retrógrada encontrou o seu líder politico e o caminho do poder com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, um antigo académico de esquerda que se converteu em fanático do mercado livre.

A eleição de Cardoso levou a uma ruptura decisiva com as políticas nacionais estatistas dos sessenta anos anteriores. As políticas de Cardoso deram um impulso decisivo à desnacionalização e privatização da economia, elementos essenciais na reconfiguração da economia do Brasil, e à ascendência do capital extractivo [7] . De acordo com quase todos os indicadores, as políticas ultra-liberais de Cardoso levaram a um precipitado grande salto para trás, concentrando rendimento e terra, e aumentando a propriedade estrangeiro de sectores estratégicos. A "reforma" da economia de Cardoso a expensas do trabalho industrial, da propriedade pública, dos trabalhadores sem terra provocou greves generalizadas e ocupações de terra [8] . A "economia extractiva", especialmente a abertura de sectores lucrativos na agricultura, mineração e energia, ganhou espaço a expensas das forças produtivas: a posição relativa da manufactura, tecnologia e serviços avançados declinou. Em particular, os ganhos do trabalho como um todo declinaram como percentagem do PNB [9] .

A taxa de crescimento médio da indústria declinou para uns magros 1,4%. O emprego no sector industrial caiu em 26%, o desemprego subiu para mais de 18,4%, o "sector informal" subiu de 52,5% em 1980 para 56,1% em 1995 [10] .

A privatização de empresas públicas como a Telebrás, firma gigante e lucrativa de telecomunicações, levou ao despedimento maciço de trabalhadores e à subcontratação de trabalho com salários mais baixos e sem benefícios sociais. Sob Cardoso, o Brasil tinha as mais altas taxas de desigualdade (coeficiente de Gini) entre todos os países do mundo.

Cardoso utilizou subsídios do estado para promover o capital estrangeiro, especialmente nos sectores da exportação agrária e mineral, enquanto pequenos e médios agricultores ansiavam por crédito. O seu programa de desregulamentação financeira levou à especulação com divisas, lucros maciços e inesperados para bancos da Wall Street quando o regime elevou as taxas de juro em mais de 50% [11] . A bancarrota de agricultores levou ao seu despojamento pelos capitalistas agro-exportadores. A concentração de terra assumiu uma viragem decisiva quando 7% dos grandes proprietários que possuíam fazendas de mais de 2000 hectares aumentaram a dimensão das suas terras de 39,5% para 43% das terras agrícolas brasileiras [12] .

Durante os oito anos de Cardoso no governo (1994-2001) houve um tsunami de investimento estrangeiro: mais de US$50 mil milhões entraram no país só nos primeiros cinco anos – dez vezes o total dos 15 anos anteriores [13] . Companhias agro-minerais de propriedade estrangeiras entre as principais companhias estrangeiras (em 1997) representavam mais de um terço e continuavam a crescer. Entre 1996-1998 multinacionais estrangeiras adquiriram oito grandes firmas de alimentos, mineração e produção metálica [14] .

As políticas neoliberais de Cardoso abriram a porta amplamente para a tomada de indústrias críticas e sectores bancários pelo capital estrangeiro. No entanto, foram os presidentes do "Partido dos Trabalhadores" que vieram a seguir, Lula da Silva e Rousseff, que completaram o Grande Salto para Trás da economia brasileira ao se voltarem decisivamente para o capital extractivo como a força condutora da economia.

Do neoliberalismo ao capital extractivo 

As privatizações de Cardoso foram apoiadas e aprofundadas pelo regime Lula. A ultrajante privatização de Cardoso da mineradora Vale do Rio Doce por uma fracção do seu valor foi defendida por Lula; o mesmo se passou com a privatização de facto da companhia petrolífera estatal Petrobrás. Lula abraçou as políticas monetárias restritivas, acordos de excedente orçamental com o FMI e seguiu as prescrições orçamentais dos directores do FMI [15] .

O regime Lula (2003-2011) adoptou as políticas neoliberais de Cardoso como um guia para promover a reconfiguração da economia do Brasil em benefício do capital estrangeiro e interno, agora assente no sector primário e de exportação de matérias-primas. Em 2005 o Brasil exportou US$55,3 mil milhões em matérias-primas e US$44,2 mil milhões em bens manufacturados; em 2011 o Brasil triplicou suas exportações de matérias-primas para US$162,2 mil milhões enquanto suas exportações de manufacturas aumentaram para uns meros US$60,3 mil milhões [16] .

Por outras palavras, a diferença entre o valor das exportações de matérias-primas e de manufacturas aumentou de US$13 mil milhões para mais de US$100 mil milhões nos últimos cinco anos do regime Lula. A desindustrialização relativa da economia, o desequilíbrio crescente entre o sector extractivo dominante e o sector manufactureiro ilustra a reversão do Brasil para o seu "estilo colonial de desenvolvimento".

O capitalismo agro-mineral, o estado e o povo 

O sector exportador do Brasil beneficiou-se enormemente com a ascensão dos preços das commodities . O principal beneficiário foi o sector exportador agro-mineral. Mas o custo para a indústria, transporte público, condições de vida, investigação e desenvolvimento e educação foi enorme. As exportações agro-minerais proporcionarem grandes receitas para o estado mas também extrairam-lhe grandes subsídios, benefícios fiscais e lucros.

A economia industrial do Brasil foi afectada desfavoravelmente pelo boom da commodities devido à ascensão no valor da sua divisa, o real, em 40% entre 2010-2012, a qual aumentou o preços das exportações de manufacturas e diminuiu a competitividade dos produtos manufacturados [17]. As políticas de "mercado livre" também facilitaram a entrada de bens manufacturados mais baratos da Ásia, particularmente da China. Enquanto as exportações primárias para a China deram um salto, o sector manufactureiro do Brasil, particularmente bens de consumo como têxteis e calçados, declinou entre 2005 e 2010 em mais de 10% [18] .

Sob os regimes Lula-Rousseff, a extrema dependência de um número limitado de commodities levou a um declínio agudo nas forças produtivas, medido pelos investimentos em inovações tecnológicas, especialmente aqueles relacionados com a indústria [19] . Além disso, o Brasil tornou-se mais dependente do que nunca de um único mercado. De 2000 para 2010 a importações chinesas de soja – a principal exportação agrícola – representaram 40% das exportações do Brasil; as importações chinesas de ferro – a exportação mineira chave – constituem mais de um terço do total das exportações daquele sector. A China também importa cerca de 10% das exportações brasileiras de petróleo, carne, celulose e papel [20] . Sob os regimes Lula e Rousseff, o Brasil reverteu para uma economia quase mono-cultural dependente de um mercado muito limitado. Em consequência, o arrefecimento da economia da China levou como era de prever a um declínio no crescimento do Brasil para menos de 2% de 2011 para 2013 [21] .

Brasil: Paraíso económico do capital financeiro 

Sob as políticas de mercado livre do Partido dos Trabalhadores, o capital financeiro entrou a jorros no Brasil, como nunca antes. O investimento directo estrangeiro saltou de cerca de US$16 mil milhões em 2002, durante o último ano do regime Cardoso, para mais de US$48 mil milhões no último ano do governo de Lula [22] . A carteira de investimento – na maior parte de tipo especulativo – subiu de US$5 mil milhões negativo em 2002 para US$67 mil milhões em 2010. Entradas líquidas de investimento directo estrangeiro (IDE) e investimentos de carteira totalizaram US$400 mil milhões durante 2007-2011, a comparar com os US$79 mil milhões durante o período anterior de cinco anos [23] . Investimentos de carteira em títulos de altos juros retornaram entre 8% e 15%, o triplo e o quádruplo das taxas na América do Norte e Europa. Lula e Dilma são presidentes poster da Wall Street.

De acordo com os indicadores económicos mais importantes, as políticas dos regimes Lula-Dilma foram as mais lucrativas para o capital estrangeiro além-mar e os investidores nos sectores agro-minerais primários na história recente do Brasil.

O modelo agro-mineral e o ambiente 

Apesar da sua retórica política em favor da família agricultora, os regimes Lula-Dilva têm estado entre os maiores promotores do agro-negócio na história política brasileira. A maior fatia de recursos do estado foi concedida à agricultura, finanças e grandes proprietários rurais. De acordo com um estudo, em 2008/2009 pequenos proprietários receberam cerca de US$6,35 mil milhões, ao passo que o agro-negócio e grandes proprietários rurais receberam US$31,9 mil milhões em financiamento e crédito [24] . Menos de 4% dos recursos do governo e de investigação foi destinada à agricultura familiar e explorações agro-ecológicas.

Sob Lula, a destruição das florestas tropicais verificou-se a um ritmo acelerado. Entre 2002 e 2008 a vegetação da região do Cerrado foi reduzida em 7,5% ou mais de 8,5 milhões de hectares, principalmente por corporações do agro-negócio [25] . O Cerrado brasileiro é uma das regiões de savana mais biologicamente ricas do mundo, concentrando-se na região centro-leste do país. De acordo com um estudo, 69% da terra de propriedade de corporações estrangeiras está concentrada no Cerrado do Brasil [26] . Entre 1995 e 2005 a fatia de capital estrangeiro no sector cerealífero agro-industrial saltou de 16% para 57%. O capital estrangeiro capitalizou com as políticas neoliberais sob Cardoso, Lula e Dilma deslocando-se para o sector do agro-combustível (etanol), controlando cerca de 22% das companhias brasileiras de cana-de-açúcar e etanol [27]– e rapidamente invadindo a floresta amazónica.

Desflorestação da Amazónia.Entre Maio de 2000 e Agosto de 2005, graças à expansão do sector exportador, o Brasil perdeu 132 mil quilómetros quadrados de floresta devido à expansão de grandes proprietários de terra e multinacionais dedicados à criação de gado, soja e madeira [28] . Entre 2003 e 2012, mais de 137 mil quilómetros quadrados foram desflorestados, crime ajudado por multibilionários investimentos do governo em infraestrutura, incentivos fiscais e subsídios.

Em 2008 o dano à floresta tropical amazónica aumentou 67%. Sob pressão de indígenas, camponeses, trabalhadores rurais sem terra e movimentos ecológicos o governo entrou em acção para restringir a desflorestação. Ela declinou de um pico de 27.772 quilómetros quadrados em 2004 (o segundo, apenas inferior ao de 1995, sob Cardoso, com 29.059 km2) para 4.656 km2 em 2012 [29] .

A criação de gado é a principal causa da desflorestação na Amazónia brasileira. Estimativas atribuem mais de 40% a grandes capitalistas e corporações multinacionais de processamento de carne [30] . Os principais investimentos em infraestrutura dos regimes Lula-Dilma, principalmente estradas, haviam aberto anteriormente terras florestais inacessíveis a empresas corporativas de gado. Sob Lula e Dilma, a agricultura comercial, especialmente a soja, tornou-se o segundo maior contribuidor para a desflorestação da Amazónia.

Acompanhando a degradação do ambiente natural, a expansão do agro-negócio foi acompanhada pelo despojamento, assassínio e escravização de povos indígenas. A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, informou que em 2004 a violência latifundiária atingiu o seu mais alto nível em pelo menos 20 anos – o segundo ano do mandato de Lula. Os conflitos subiram de 1.801 em 2004, quando em 2003 foram 1.690 e em 2002 foram 925 [31] .

Segundo o governo, corporações de gado e soja exploram pelo menos 25 mil brasileiros (principalmente índios despojados da sua terra e camponeses sem terra) sob "condições análogas à escravidão". As principais ONGs afirmam que o número verdadeiro poderia ser dez vezes superior àquele. Mais de 183 fazendas foram inspeccionadas em 2005 libertando 4.133 escravizados [32] .

Mineração: A fraude da "privatização" da Vale, agora poluidora número um 

Cerca de 25% das exportações do Brasil são constituídas por produtos minerais – o que destaca a crescente centralidade do capital extractivo na economia. O minério de ferro é o minério de maior importância, representando 78% do total das exportações mineiras. Em 2008, o ferro representou US$16,5 dos rendimentos da indústria, num total de US$22,5 mil milhões [33] . A vasta maioria das exportações de ferro está dependente de um único mercado – a China. Quando o crescimento da China diminui, a procura declina e a vulnerabilidade económica do Brasil aumenta.

Uma firma, privatizada durante a presidência Cardoso, a Vale, através de aquisições e fusões controla quase 100% da produção das minas de ferro do Brasil [34] . Em 1997 a Vale foi vendida pelo estado neoliberal por US$3,14 mil milhões, uma pequena fracção do seu valor. Ao longo da década seguinte ela concentrou seus investimentos na mineração, estabelecendo uma rede global de minas e mais de uma dúzia de países na América do Norte e do Sul, Austrália, África e Ásia. O regime Lula-Dilma desempenhou um papel importante para facilitar a dominância da Vale no sector mineiro e o crescimento exponencial do seu valor. O valor líquido da Vale hoje é de mais de US$100 mil milhões mas ela paga uma das mais baixas taxas de imposto do mundo, apesar de ser a segunda maior companhia mineira do mundo, o maior produtor de minério de ferro e o segundo maior de níquel. Os royalties máximos sobre a riqueza mineral subiram de 2% para 4% em 2013 [35] . Por outras palavras, durante a década do governo "progressista" de Lula e Dilma, a taxa fiscal era um sexto daquela da conservadora Austrália, que mantém uma taxa de 12%.

A Vale tem utilizado os seus enormes lucros para diversificar operações mineiras e actividades relacionadas. Ela liquidou negócios como o aço e a celulose vendendo-os por US$2,9 mil milhões – aproximadamente o preço pago por todo o complexo mineral. Em vez disso concentrou-se na compra de minas de ferro de competidores e literalmente na monopolização da produção. A Vale expandiu-se no manganês, níquel, cobre, carvão, potassa, caulim, bauxita; comprou ferrovias, portos, terminais de contentores, navios e pelo menos oito centrais hidroeléctricas; dois terços das suas centrais hidroeléctricas foram construídas durante o regime Lula [36] .

Em suma, o capitalismo floresceu durante o regime Lula com lucros recorde no sector extractivo, perigo extremo para o ambiente e deslocamento maciço de povos indígenas e produtores em pequena escala. A experiência mineira da Vale sublinha as poderosas continuidades estruturais entre o regime neoliberal de Cardoso e o de Lula: o primeiro privatizou a Vale a preço de saldo, o último promoveu a Vale como o produtor e exportador monopolista dominante de ferro, ignorando totalmente a concentração de riqueza, lucros e poderes do capital extractivo.

Em comparação com o crescimento geométrico dos lucros de monopólio do sector extractivo, os miseráveis dois dólares por dia de Lula e Dilma, dados como subsídio para reduzir a pobreza, dificilmente permitem classificar este regime como "progressista" ou de "centro-esquerda".

Se bem que Lula e Dilma estejam embevecidos com o crescimento do "campeão mineiro" do Brasil (a Vale), outros não estão. Em 2002, a Public Eye, um grupo de direitos humanos e ambientais, deu à Vale um "prémio" como a pior corporação do mundo: "A Vale Corporation actua com o maior desrespeito pelo ambiente e direitos humanos no mundo" [37] . Os críticos citaram a construção da barragem de Belo Monte, da Vale, no meio da floresta tropical amazónica como tendo "consequências devastadoras para regiões com biodiversidade única e tribos indígenas" [38] .

O sector mineiro é capital intensivo, gera poucos empregos e acrescenta pouco valor às suas exportações. Ele tem degradado á água, a terra e o ar; afectado desfavoravelmente comunidades locais, despojado comunidades índias e criado uma economia de altos e baixos.

Com o acentuado arrefecimento da economia chinesa, especialmente o seu sector manufactureiro em 2012-14, os preços do ferro e do cobre caíram. As receitas de exportação do Brasil declinaram, minando o crescimento geral. É especialmente importante que a canalização de recursos para infraestruturas destinadas aos sectores agro-minerais resultou no esgotamento de fundos para hospitais, escolas e transporte urbano – os quais estão de deprimidos e proporcionam um serviço fraco a milhões de trabalhadores urbanos.

O fim do "mega ciclo" extractivo e a ascensão de protestos em massa 

O modelo de orientação extractiva do Brasil entrou num período de declínio e estagnação em 2012-2013 quando a procura mundial – especialmente na Ásia – declinou, sobretudo na China [39] . O crescimento flutuou em torno dos 2%, mal acompanhando o crescimento populacional. A classe baseada neste modelo de crescimento, especialmente o estrato reduzido de investidores estrangeiros de carteira, mineração monopolista e grandes corporações do agro-negócio, os quais controlam e arrecadam a maior parte das receitas e lucros, limitou os "efeitos gotejamento" ("trickle down effects") que os regimes Lula-Dilma promoveram como a sua "transformação social". Se bem que alguns programas inovadores tenham sido iniciados, o acompanhamento e a qualidade dos serviços realmente deteriorou-se.

O número de camas para pacientes em hospitais declinou de 3,3 por 1000 brasileiros em 1993 para 1,9 em 2009, o segundo mais baixo da OCDE[40] . As admissões em hospitais financiados pelo sector público caiu e as longas esperas e baixa qualidade são endémicos.

O gasto federal no sistema de saúde tem caído desde 2003, quando ajustado à inflação, segundo o estudo da OCDE. A despesa pública em saúde é baixa: 41%, a comparar com 82% no Reino Unido e 45,5% nos EUA [41] . A polarização de classe inerente ao modelo extractivo agro-mineral estende-se às despesas do governo, impostos, transportes e infraestrutura: financiamento maciço para rodovias, barragens, centrais hidroeléctricas para o capital extractivo, contra gastos inadequados e em declínio para transportes públicos, saúde pública e educação.

As raízes mais profundas dos levantamentos em massa de 2013 estão localizadas na política de classe de um estado corporativo. Os regimes Cardoso e Lula-Dilma, ao longo das últimas duas décadas, seguiram uma agenda elitista e conservadora, amortecida pela política clientelista e paternalista que neutralizou a oposição em massa durante um período de tempo extenso, até que a rebelião em massa e os protestos à escala nacional desmascararam a fachada "progressista".

Publicistas de esquerda e sabichões conservadores que saudaram Lula como um "progressista pragmático" ignoraram o facto de que durante o seu primeiro mandato o apoio do estado à elite do agro-negócio foi sete vezes maior do que a oferecida aos agricultores familiares que representavam aproximadamente 90% da força de trabalho rural e proporcionavam a maior parte dos alimentos para consumo local. Durante o segundo mandato de Lula, o apoio financeiro do Ministério da Agricultura ao agro-negócio durante a safra 2008.09 foi seis vezes maiores do que os fundos concedidos ao programa de redução da pobreza de Lula, o altamente publicitado programa "Bolsa Família" [42] . Ortodoxia económica e demagogia populista não são substitutos de mudanças estruturais substantivas, envolvendo uma reforma agrária ampla que abranja 4 milhões de trabalhadores rurais sem terra, assim como uma renacionalização de empresas extractivas estratégicas como a Vale a fim de financiar agricultura sustentável e preservar a floresta tropical.

Ao invés disso, Lula e Dilma saltaram em força para o boom do etanol: "açúcar, açúcar por toda a parte" mas sem nunca perguntar, "Que bolsos enchem?" A crescente rigidez estrutural do Brasil, sua transformação numa economia capitalista extractiva, potenciou e ampliou o âmbito da corrupção. A competição por contratos mineiros, concessões de terra e projectos gigantes de infraestrutura encoraja as elites dos negócios agro-minerais a pagarem ao "partido no poder" a fim de assegurar vantagens competitivas. Isto se verificou particularmente com o "Partido dos Trabalhadores" cuja liderança executiva (destituída de trabalhadores) era composta de profissionais em ascensão, aspirando a posições na classe da elite que encarava os subornos nos negócios para o seu "capital inicial" como uma espécie de "acumulação inicial através da corrupção".

O boom das commodities, durante quase uma década, encobriu as contradições de classe e a extrema vulnerabilidade de uma economia extractiva dependente de exportações de bens primários para mercados limitados. As políticas neoliberais adaptadas à promoção de exportações de commodities levaram ao influxo dos bens manufacturados e enfraqueceram a posição do sector industrial. Em consequência, os esforços de Dilma para renovar a economia produtiva a fim de compensar o declínio das receitas de commodities não funcionaram: estagflação, excedentes orçamentais em declínio e enfraquecimento da balança comercial praguejaram a sua administração precisamente quando a massa de trabalhadores e da classe média estão a pedir uma redistribuição de recursos em grande escala, de subsídios ao sector privado para investimentos em serviços públicos.

As fortunas politicas de Rousseff e do seu mentor, Lula, foram construídas sobre os frágeis fundamentos do modelo extractivo. Eles falharam em reconhecer os limites do seu modelo, muito menos em formular uma estratégia alternativa. Uma colcha de retalhos de propostas, reformas políticas, retórica anti-corrupção face aos protestos de milhões de pessoas que se estendem a todas as grandes e pequenas cidades do país não resolve o problema básico de desafiar a concentração de riqueza, propriedade e poder de classe da elite agro-mineral e financeira. As suas aliadas multinacionais controlam as alavancas do poder político, com e sem corrupção e bloqueiam quaisquer reformas significativas.

A era do "Populismo Wall Street" de Lula está acabada. A ideia de que altas receitas provenientes das indústrias extractivas podem comprar lealdades populares através do consumismo, financiado pelo crédito fácil, está ultrapassada. Os investidores da Wall Street já não louvam mais os BRICs como um novo mercado dinâmico. Como é previsível eles estão a transferir seus investimentos para actividades mais lucrativas em novas regiões. Quando a carteira de investimentos declina e a economia estagna, o capital extractivo intensifica sua pressão dentro da Amazónia e com terrível preço por parte da população indígena e a floresta tropical.

O ano de 2012 foi um dos piores para os povos indígenas. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, filiado à Igreja Católica, o número de incidentes violentos contra as comunidades índias aumentou 237% [43] . O regime Rousseff deu aos índios o menor número de títulos legais à terra do que qualquer presidente desde o retorno da democracia (sete títulos). A esta taxa, o estado brasileiro levará um século para titular os pedidos de terra das comunidades índias. Ao mesmo tempo, em 2012, 62 territórios índios foram invadidos por latifundiários, mineiros e madeireiros, 47% mais do que em 2011 [44] . A maior ameaça de despojamento vem de projectos como a mega barragem de Belo Monte e centrais hidroeléctricas gigantes promovidas pelo regime Rousseff. Quando a economia agro-mineral vacila, as comunidades índias estão a ser esmagadas ("genocídio silencioso") a fim de intensificar o crescimento agro-mineral.

Os maiores beneficiários da economia extractiva do Brasil são os principais traders de commodities do mundo os quais, à escala mundial, embolsaram US$250 mil milhões ao longo do período 2003-2013, ultrapassando os lucros das maiores firmas da Wall Street e cinco das maiores companhias automobilísticas. Em meados de 2000, alguns traders desfrutaram retornos de 50 a 60 por cento. Mesmo em 2013 eles estavam numa média de 20-30% ( Financial Times , 4/15/13, p. 1). Especuladores de commodities ganharam mais de 10 vezes o que foi gasto com os pobres. Estes especuladores lucram com flutuações de preços entre localizações, com oportunidades de arbitragem proporcionadas pela abundância de discrepâncias de preços entre regiões. Traders monopolistas eliminaram competidores e os impostos baixos (5-15%) aumentaram a sua mega riqueza. Os maiores beneficiários do modelo extractivista Lula-Dilma, ultrapassando mesmo os gigantes agro-minerais, são os vinte maiores traders-especuladores de commodities. 

Capital extractivo, colonialismo interno e o declínio a luta de classe 

A luta de classe, especialmente sua expressão em greves conduzidas por sindicatos e trabalhadores rurais localizados em acampamentos que lançam ocupações de terras, declinou drasticamente ao longo do último quarto de século. O Brasil durante o período que se seguiu à ditadura militar (1989) foi um líder mundial em greves, com 4000 em 1989. Com o retorno da política eleitoral e a incorporação e legalização dos sindicatos, especialmente na estrutura de negociações colectivas tripartidas, as greves declinaram para uma média de 500 durante a década de 1990. Com o advento do regime Lula (2003-2010) as greves declinaram ainda mais, para 300-400 por ano [45] . As duas maiores centrais sindicais, CUT e Força Sindical, aliadas ao regime Lula, tornaram-se adjuntas virtuais do Ministério do Trabalho: sindicalistas asseguravam posições no governo e as organizações recebiam grandes subsídios do estado, ostensivamente para treino e educação do trabalhador. Com o boom das commodities e a ascensão das receitas do estado e rendimentos de exportações, os governos formularam uma estratégia do gotejamento, aumentando o salário mínimo e lançando novos programas anti-pobreza. Nas zonas rurais, o MST continuava a pedir uma reforma agrária e empenhado em ocupações de terras mas a sua posição de apoiar criticamente o Partido dos Trabalhadores em troca de subsídios sociais levou a um declínio agudo nos acampamentos a partir dos quais lançar ocupações de terras. No arranque da presidência de Lula (2003) o MST tinha 285 acampamentos, em 2012 tinha 13 [46] .

O declínio da luta de classe e a cooptação dos movimentos de massa estabelecidos coincidiram com a intensificação da exploração capitalista extractiva do interior do país e o violento despojamento das comunidades indígenas. Por outras palavras, a exploração acrescida do "interior" pelo capital agro-mineral facilitou a concentração de riqueza nos grandes centros urbanos e nas áreas rurais estabelecidas, levando à cooptação de sindicatos e movimentos rurais. Portanto, apesar de algumas declarações retóricas e protestos simbólicos, o capital agro-mineral encontrou pouca solidariedade organizada entre o trabalho urbano e os índios despojados e trabalhadores rurais escravizados na Amazónia "arrasada". Lula e Dilma desempenharam um papel chave na neutralização de qualquer frente unida nacional contra as depredações do capital agro-mineral.

A degeneração das principais confederações trabalhistas é visível não só com a sua presença no governo e com a ausência de greves como também na organização dos comícios anuais de trabalhadores no 1º de Maio. Os mais recentes virtualmente não incluíram qualquer conteúdo político. Há espectáculos de música, temperados com lotarias oferecendo automóveis e outras formas de entretenimento consumista, financiados e patrocinados por grandes bancos privados e multinacionais [47] . Esta relação entre a cidade e a Amazónia lembra com efeito uma espécie de colonialismo interno, no qual o capital extractivo subornou uma aristocracia do trabalho como aliado cúmplice para a sua pilhagem das comunidades do interior.

Conclusão: Com movimentos de massa, o modelo extractivista está sob sítio 

Se a CUT e a Força Sindical estão cooptadas, o MST está enfraquecido e as classes de baixo rendimento receberam aumentos monetários, como e por que movimentos de massa sem precedentes emergiram em simultâneo numa centena de grandes cidades e outras menores por todo o país?

O contraste entre os novos movimentos de massa e os sindicatos foi evidente na sua capacidade para mobilizar apoio durante os dias de protesto de Junho-Julho/2013: os primeiros mobilizaram 2 milhões, os últimos 100 mil.

Manifestação em S. Paulo.O que precisa ser esclarecido é a diferença entre os pequenos grupos locais de estudantes ( Movimento Passe Livre , MPL) que detonaram os movimentos de massa com base num aumento em tarifas de autocarros e os gastos faraónicos do estado com a Copa do Mundo (campeonato de futebol) e as Olimpíadas e os movimentos de massa espontâneos que questionaram as políticas orçamentais do estado e as prioridades na sua totalidade.

Muitos publicistas dos regimes Lula-Dilma aceitam sem questionamento as verbas orçamentais atribuídas a projectos sociais e de infraestrutura, quando de facto apenas uma fracção é realmente gasta na medida em que são roubadas por responsáveis corruptos. Exemplo: entre 2008-12 foram destinados R$6,5 mil milhões para transporte públicos nas cidades principais mas só 17% foi realmente gasto ( Veja,17/07/2013). Segundo a ONG "Contas Abertas", ao longo de um período de dez anos o Brasil gastou mais de R$160 mil milhões em obras públicas que não estão concluídas, nunca deixaram a prancheta de desenho ou foram roubadas por responsáveis corruptos. Um dos mais notórios casos de corrupção e má administração é a construção de 12 quilómetros de metro em Salvador, com a condição estabelecida de que seria completado em 40 meses ao custo de R$307 milhões. Treze anos depois (2000-13) as despesas aumentaram para cerca 1000 milhões de reais e escassos 6 km foram completados. Seis locomotoras e 24 carruagens compradas por 100 milhões de reais decompuseram-se e a garantia dos fabricantes expirou ( Veja, 17/07/2013). O projecto foi paralisado por acções de sobrefacturação corrupta envolvendo responsáveis federais, estaduais e municipais. Enquanto isso, 200 mil passageiros são forçados a viajar diariamente em autocarros decrépitos.

A corrupção profunda que infecta toda a administração Lula-Dilma conduziu a um vasto fosso entre os apregoados feitos do regime e a deteriorada experiência diária da grande maioria do povo brasileiro. O mesmo fosso existe em relação às despesas para preservar a floresta tropical amazónica, as terras dos índios e para financiar os programas anti-pobreza: responsáveis corruptos do PT desviam fundos para financiar suas campanhas eleitorais ao invés de reduzir a destruição ambiental e reduzir a pobreza.

Se a riqueza do boom no modelo extractivo agro-mineral "filtrou-se" para o resto da economia e elevou salários, isso fez-se de um modo muito irregular, desigual e distorcido. A grande riqueza concentrada no topo encontrou expressão numa espécie de novo sistema casta-classe no qual transporte privado – helicópteros e heliportos – clínicas privadas, escolas privadas, áreas de recreação privadas, exércitos de segurança privada para os ricos e abastado foram financiados por subsídios promovidos pelo estado. Em contraste, as massas experimentaram um agudo declínio relativo e absoluto em serviços públicos nas próprias experiências essenciais da vida. A ascensão no salário mínimo não compensada por 10 horas de espera em apinhadas salas públicas de emergência, transportes irregulares e sobrelotados, ameaças pessoais diárias e insegurança (50 mil homicídios). Pais que recebem a esmola anti-pobreza enviam seus filhos para escola decadentes onde professores mal pagos correm de uma escola para outra mal atendendo suas classes e proporcionando um fraco aprendizado. A maior indignidade para aqueles que recebem esmolas de subsistência foi dizerem-lhes que, nesta sociedade de classe-casta, eles eram "classe média"; que faziam parte da imensa transformação social que retirou 40 milhões da pobreza, quando se arrastavam para suas casas com horas de tráfego, retornando de empregos cujo salário mensal pagava uma partida de ténis num clube de campo da classe alta. A economia extractiva agro-mineral acentuou todas as desigualdades sócio-económicas do Brasil e o regime Lula-Dilma acentuou esta diferença pela elevação das expectativas, ao afirmar o seu cumprimento e a seguir ignorar os impactos sociais reais na vida diária. As verbas orçamentais em grande escala do governo para transporte público e promessas de projectos para novas linhas de metro e comboio foram adiadas durante décadas pela corrupção em grande escala e a longo prazo. Os milhares de milhões gastos ao longo de anos renderam resultados mínimos – uns poucos quilómetros completados. O resultado é que o fosso entre as projecções optimistas do regime e a frustração das massas aumentou amplamente. O fosso entre a promessa populista e o aprofundamento da clivagem entre classes sociais não será encoberto por lotarias sindicais e almoços VIP. Especialmente para toda uma geração de jovens trabalhadores que não estão presos às antigas memórias do Lula "metalúrgico" um quarto de século antes. A CUT, a FS, o Partido dos Trabalhadores são irrelevantes ou são percebidos como parte do sistema de corrupção, estagnação social e privilégio. A característica mais gritante da nova onda de protesto de classe é a divisão geracional e organizacional: trabalhadores metalúrgicos mais velhos ausentes, jovens trabalhadores não organizados dos serviços presentes. Organizações locais e espontâneas substituem os sindicatos cooptados.

O local de confrontação é a rua – não o lugar de trabalho. As reivindicações transcendem salários monetários – as questões em causa são o salário social, padrões de vida, orçamentos nacionais. Em última análise os novos movimentos sociais levantam a questão das prioridades de classe nacionais. O regime está a despojar centenas de milhares de residentes em favelas – um expurgo social – para construir complexos desportivos e acomodações de luxo. As questões sociais permeiam os movimentos de massa. A sua independência organizativa e autonomia sublinham o mais profundo desafio a todo o modelo extractivista neoliberal; muito embora nenhuma organização ou liderança nacional tenha emergido para elaborar uma alternativa. Mas a luta continua. Os mecanismos tradicionais de cooptação fracassam porque não há líderes identificáveis para subornar. O regime, a enfrentar o declínio dos mercados de exportações e dos preços das commodities, e profundamente comprometido com investimentos não produtivos de muitos milhares de milhões de dólares nos jogos, tem poucas opções. O PT perdeu há muito a sua vanguarda anti-sistémica. Seus políticos estão ligados a e financiados por bancos e elites agro-minerais. Os líderes sindicais protegem seus feudos, suas deduções mensais automáticas e seus estipêndios. Os movimentos de massa das cidades, tal como as comunidades índias da Amazónia, terão de encontrar novos instrumentos políticos. Mas ao tomarem o caminho da "acção directa" eles deram o primeiro grande passo.

[1] James Petras and Henry Veltmeyer Cardoso's Brazil: A land for Sale (Lanham, Maryland: Rowman and Littlefield 2003/Chapter 2. 

[2] ibid Chapter 1. 
[3] James Petras, Brasil e Lula – Ano Zero (Blumenau: EdiFurb 2005) Chapter 1. 
[4] Peter Evans, Dependent Development: The Alliance of Multinational State and Local Capital in Brazil (Princeton NJ : Princeton University Press 1979). 
[5] Jose Serra "The Brazilian Economic Miracle" in James Petras Latin America from Dependence to Revolution (New York: John Wiley 1973) pp. 100 – 140. 
[6] Brasil e Lula op cit. Ch. 1 
[7] Cardoso's Brazil Ch. 5 
[8] ibid, Ch.3 and 6 
[9] ibid, Table A.12, p. 126 
[10]iIbid, Ch. 3. 
[11] ibid, Ch. 1, 2. 
[12] ibid, Ch. 5 
[13] ibid, Ch. 2. 
[14] ibid, Table A. 6. 
[15] Brasil e Lula, Ch. 1. 
[16] Brazil Exports by Product Section (USD) www.INDEXMUNDI.com/trade/exports/Brazil 
[17] Peter Kingstone "Brazil 's Reliance on Commodity Exports threatens its Medium and Long Term Growth Prospects" www.americasquarterly.or/icingstone . 
[18] Brazil Exports op cit. 
[19] Kingstone op cit. 
[20] Kingstone op cit. World Bank Yearbook 2011. 
[21] Financial Times, 3/26/13, p. 7. 
[22] Brazil's Surging Foreign Investment: A Blessing or Curse? VSITC Executive Briefing on Trade Oct. 2012. 
[23] ibid 
[25] Ibid. 
[26] Bernard Mancano Fernandes and Elizabeth Alice Clements "Land Grabbing, Agribusiness and the Peasantry in Brazil and Mozambique " Agrarian South (April 2013). 
[27] Rainforests op cit. 
[28] Rainforests op cit. 
[29] Rainforests op cit. 
[30] ibid 
[31] Jose Manual Rambla "La agonia de los pueblos indigenas, buera de la agenda reivindicativa de Brasil" rebellion.org/notice, 5/7/13. 
[32] Rainforests ibid p. 8 
[34] Wikipedia Vale, en.wilkipedia.org/wiki/vale_miningcompany . 
[35] The Economist, June 2, 2013. 
[36] Wikipedia, p. 9. 
[37] Guardian, Jan. 27, 2012. 
[38] ibid 
[39] Financial Times, July 13, 2013, p. 9. 
[40] Financial Times, July 1, 2013. 
[41] ibid 
[42] Rainforest op cit. 
[43] ibid 
[44] ibid 
[45] Raul Zibechi, "El fin del consenso lulista" rebellion 7/7/13 
[46] Ibid. 
[47] Ibid. 



O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=1945