"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 17 de agosto de 2013

Egito: Apoiantes de Morsi vão prosseguir manifestações

Depois de uma quinta-feira de brutal repressão militar sobre os apoiantes de Mohamed Morsi no Cairo, as imagens repetiram-se na “Sexta-feira de Raiva” convocada pela Irmandade Muçulmana, com dezenas de mortos no Cairo e noutras cidades do país. Enquanto o poder militar encerrou a delegação da tv Al-Jazeera, as manifestações de apoio a Morsi estenderam-se a Istambul e Carachi.
Manifestantes pró-Morsi procuram fugir às balas lançadas pela polícia e o exército. Foto Mohamed Azazy/Flickr

O balanço de vítimas mortais dos protestos de sexta-feira ainda está por apurar, mas informações recolhidas pelas agências de notícias internacionais apontam para mais de 60 pessoas mortas, nas sua maioria metralhadas pela policia e pelo exército. A Sexta-feira de Raiva" foi convocada pela Irmandade Muçulmana após o massacre da manifestação da véspera e partiu de várias mesquitas do Cairo após a oração do meio-dia. Os manifestantes foram recebidos com balas e as cenas de batalha campal sucederam-se nas ruas da capital, ocupadas por um dispositivo militar e policial de enorme envergadura e com ordens para atirar a matar pelo segundo dia consecutivo. Centenas de manifestantes foram presos ao abrigo do estado de emergência decretado pelo atual governo.
Na sexta-feira à noite, a Irmandade Muçulmana apelou à continuação dos protestos diários em todo o país, sublinhando que deverão decorrer pacificamente até ao recuo do regime instaurado após o golpe que depôs o presidente Mohamed Morsi no mês passado. Na sexta-feira, as manifestações estenderam-se a cidades como Alexandria, Ismailia, Beni Soueif, Fayoum ou Hourghada. E o protesto contra o massacre da véspera atravessou fronteiras, com milhares de pessoas em Istambul e Carachi, as cidades mais populosas da Turquia e do Paquistão, e centenas em Amã e Cartum.
Do lado do governo, é bem visível a radicalização e endurecimento do discurso, com os seus porta-vozes a denunciarem o "plano terrorista" em marcha por parte da Irmandade Muçulmana, um discurso que recolheu apoio entusiasta por parte da monarquia saudita e dos Emiratos Árabes Unidos. À demissão do vice-presidente ElBaradei, que representava a ala liberal do golpe militar anti-Morsi, juntou-se Khaled Dawoud, um dos porta-vozes da Frente de Salvação Nacional que tomou o governo após o golpe, justificando a saída com a ausência de condenação do massacre do Cairo por parte da coligação anti-Morsi que tomou o governo.
A tensão social agravou-se com a repressão de quinta-feira e a resposta de alguns grupos foi igualmente violenta. Para além das barricadas nas ruas que marcaram o protesto, houve varios ataques a esquadras de polícia, a edifícios públicos e igrejas cristãs coptas, cujos fiéis são vistos como apoiantes do golpe que depôs Morsi. Durante os protestos desta sexta-feira, circularam nas redes sociais várias imagens com apoiantes de Morsi a fazerem um cordão de segurança à volta de uma destas igrejas, impedindo que se viessem a repetir esses ataques.
Militares silenciam Al-Jazeera, jornalistas tornam-se alvo no conflito
Na noite de quinta para sexta-feira, a polícia encerrou a sede da Al-Jazeera Mubashir, a filial egípcia da cadeia televisiva internacional. Os trabalhadores foram obrigados a sair e o canal continuou a transmitir apenas online. Tal como outras estações consideradas pró-Morsi pelos militares, a Al-Jazeera já tinha sido alvo de uma rusga policial momentos antes da deposição de Mohamed Morsi, a 3 de julho, e os equipamentos apreendidos ainda estão por devolver, acusa a estação televisiva. Um dos seus fotógrafos, Mohamed Bader, está preso desde 15 de julho sob acusação de posse de arma ilegal e não há informação sobre o paradeiro de um dos correspondentes da estação, Abdullah al-Shami, detido na quarta-feira. Outros membros da redação enfrentam acusações de ameaça à segurança nacional, devido às notícias que puseram no ar.
A morte do operador de câmara da Sky News na quinta-feira não foi a única entra jornalistas esta semana. O Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) aponta para três jornalistas mortos e vários presos ou feridos durante os confrontos. Para além disso, aumentaram exponencialmente os casos de agressões e roubos de material a jornalistas, protagonizados quer pela polícia e milícias anti-Morsi, quer por apoiantes do presidente deposto. 
Na quarta-feira, o CPJ divulgou o relatório "Liberdade de imprensa em risco no Egito", apontando os falhanços da presidência de Morsi nesta matéria, bem como a censura imposta pelos militares após o golpe de julho.

Premiê interino do Egito propõe ilegalizar Irmandade Muçulmana

Voz da Rússia

O primeiro-ministro interino do Egito, Hazem Beblawi, propôs ilegalizar o movimento islâmico Irmandade Muçulmana.

"Seus ativistas ultrapassaram todos os limites admissíveis de protestos de rua, colocando em risco a segurança pública", disse o assessor de imprensa do gabinete, Sherif Shoki.

Ele informou que o premiê encarregou um número de ministros de preparar a base jurídica necessária para a dissolução da Irmandade Muçulmana.


Equador decide explorar petróleo na Amazónia após fracasso de plano ambiental

Em 2007, Rafael Correa propôs à ONU um plano inédito: evitar a extração de petróleo no Parque Yasuní em troca de uma ajuda internacional de 3,6 mil milhões de dólares. Mas o resto do mundo não quis pagar para proteger aquela zona amazônica e assim combater as alterações climáticas.
A comunidade internacional não quis evitar que esta região ficasse livre da exploração petrolífera e Correa diz não ter outra hipótese senão dar luz verde à perfuração na zona protegida.
No que classificou como o "dia mais difícil" de sua administração, o presidente do Equador, Rafael Correa, anunciou nesta quinta-feira que irá pedir ao Congresso a autorização para explorar petróleo numa reserva ecológica da Amazónia. Segundo ele, o plano ambiental apoiado em contribuições internacionais fracassou.
"É com profunda tristeza, mas também com absoluta responsabilidade com o nosso povo e a nossa história, que tomei a decisão mais difícil de todo o meu governo: acabar com a iniciativa que buscava evitar a extração de petróleo" na zona do Parque Yasuní, disse o presidente.
Em 2007, Correa propôs diante da ONU (Organização das Nações Unidas) proibir a exploração de petróleo no chamado bloco Ishpingo, Tambococha e Tiputini (ITT), cujas reservas são estimadas em 920 milhões de barris de petróleo, em troca de uma ajuda de 3,6 mil milhões de dólares, em 12 anos, pela contribuição do país na luta contra o aquecimento global.
Segundo Correa, em cinco anos o Equador recebeu apenas 13,3 milhões de dólares, algo em torno de 0,37% do valor acertado. "O mundo falhou" com o Equador, "e diante disto resolvi solicitar à Assembleia a declaração de interesse nacional para o aproveitamento do petróleo" do Parque Yasuní. Caso o Congresso autorize, "a atividade extrativista não poderá desenvolver-se numa área superior a 1 milésimo do Parque Nacional Yasuní", cuja extensão supera um milhão de hectares.
Segundo Correa, o "aproveitamento das reservas do ITT representará um valor líquido de quase 18,3 mil milhões de dólares" para o Equador. A Constituição de 2008 proíbe a exploração de recursos não renováveis em áreas protegidas, mas concede ao presidente a prerrogativa de autorizá-la sob a figura do interesse nacional, com o aval do Congresso.
"Esta decisão é uma desilusão para todos, mas é necessária. Já não podemos manter isto sem um grave prejuízo para o bem-estar do nosso povo. A história julgar-nos-á", afirmou Correa. O fracasso da iniciativa ambiental soma-se ao facto de que o Equador não encontrou novas reservas petrolíferas nos últimos anos, o que pode levar ao colapso da economia no prazo de 20 anos, disse Correa. Segundo o presidente, a estatal Petroamazonas assumirá "nas próximas semanas" os trabalhos no bloco ITT.
Os ambientalistas afirmam que a exploração total ou parcial do ITT prejudicará a riqueza biológica da área, enquanto a população indígena promete resistir à medida. Ambos defendem a realização de um referendo para que a população equatoriana decida sobre o destino da reserva. 

Artigo publicado no portal Opera Mundi

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Favoráveis a Morsi vão às ruas no Egito

O número de mortos em confrontos entre islamitas e forças de segurança, no Cairo, chegou a 50, informou a Reuters, citando fontes policiais.

Egito, revolução, vítimas, protesto

Os partidários do deposto presidente Mohamed Mursi batizaram esta sexta-feira de "dia de fúria" e saíram às ruas para protestar contra as ações dos militares, que realizam a repressão violenta dos protestos.

A polícia alertou que iria acabar de forma definitiva com todas as ações ilegais. A praça Ramsés se tornou o centro de resistência no Cairo. Os corpos de manifestantes mortos são colocados em uma mesquita localizada próximo do local, relata a mídia.


Bradley Manning: Pedido de desculpas se deu através da tortura

Os jornais informam que Bradley Manning fez esta quinta uma declaração de arrependimento, em audiência para sentença, em Fort Meade, Maryland. A declaração de Manning surge no fim de um tribunal marcial, no qual os procuradores atuaram com fúria sem precedentes. Por Wikileaks
Bradley Manning
Os jornais informam que Bradley Manning fez hoje uma declaração de arrependimento, em audiência para sentença, em Fort Meade, Maryland. A declaração de Manning surge no fim de um tribunal marcial, no qual os procuradores atuaram com fúria sem precedentes.
Desde que foi preso, o Sr. Manning tem sido exemplo de resistência e coragem ante a adversidade. Resistiu sempre a pressões extraordinárias. Sobreviveu à prisão em cela solitária, nu e submetido a tratamento cruel, desumano e degradante, pelo governo dos EUA. Ignorou-se o seu direito constitucional a julgamento rápido. Está preso há três anos, sob condições ilegais de prisão, enquanto o governo arrebanhava 141 testemunhas e ocultava os milhares de documentos aos quais os advogados da defesa não tiveram acesso.
O governo negou-lhe o direito de construir defesa básica de whistleblower [alertador]. Foi indevidamente acusado, até que se viu ante a iminência de ser condenado a um século de cadeia, tendo tido impedidas praticamente todas as suas testemunhas, exceto umas poucas. Negaram-lhe o direito de declarar em sua defesa, no julgamento, que os atos de que era acusado não provocaram dano algum. Seus advogados foram preventivamente impedidos de falar das intenções do acusado e de provar que suas ações não prejudicaram ninguém.
Apesar de todos esses obstáculos, o Sr. Manning e sua equipe de defesa lutaram passo a passo a luta que lhes foi imposta. Mês passado, foi condenado a penas que chegavam a 90 anos de prisão. O governo dos EUA admitiu que suas ações não feriram fisicamente ninguém; e foi absolvido da acusação de “ajudar o inimigo”. Suas condenações só têm a ver com a suposta decisão de informar a opinião pública sobre crimes de guerra e a prática sistemática de atos injustos.
Mas, afinal, se esgotaram as opções para o Sr. Manning. A única moeda que esse tribunal militar aceitaria seria a humilhação. À luz disso, a decisão forçada do Sr. Manning, de pedir desculpas ao governo dos EUA, na esperança de reduzir uma década ou mais em sua sentença, tem de ser vista com compaixão e compreensão.
As desculpas foram declaração arrancada dele, depois de longo massacre a que foi submetido sob o peso do sistema militar judicial dos EUA. Foram necessários três anos e milhões de dólares, para extrair dois minutos de remorso tático desse homem valente.
As desculpas foram extraídas à força de Bradley Manning. Num tribunal justo, o governo dos EUA pediria desculpas a Bradley Manning. Como o atesta a sua indicação ao Prêmio Nobel da Paz, já com mais de 100 mil assinaturas, Bradley Manning mudou o mundo para melhor. E ele permanece, como símbolo de coragem e de resistência humanitária.
As desculpas do Sr. Manning mostram que, no que tenha a ver com sua sentença, ainda há décadas pelas quais lutar.
Nesses dias finais, é preciso intensificar a pressão pública contra o tribunal militar que julga Bradley Manning, antes de que se consuma a decisão sobre a sentença que terá de cumprir.
WikiLeaks continua a apoiar Bradley Manning e manterá a campanha, até que seja posto em liberdade, sem condições.

Egito: Objetivo do Exército é acabar com a Revolução

O brutal massacre que o Exército e a polícia estão a cometer é um ensaio geral sangrento para a liquidação da Revolução Egípcia. O seu alvo é quebrar a vontade revolucionária de todos os egípcios que lutam pelos seus direitos, afirmam os Socialistas Revolucionários egípcios.
Os que entraram no governo de Al-Sissi têm as mãos sujas de sangue, dizem os socialistas revolucionários egípcios. Foto de Mosa'ab Elshamy
Declaração dos Socialistas Revolucionários egípcios sobre o massacre do Cairo.
Abaixo o regime militar! Abaixo Al-Sissi, o líder da contra-revolução!
A dissolução sangrenta dos acampamentos na praça Al-Nahda e Raba'a al-Adawiyya não é mais que um massacre – preparado com antecedência. O seu objetivo é liquidar a Irmandade Muçulmana. Mas é também parte de um plano para liquidar a Revolução Egípcia e restaurar o Estado militar-policial do regime de Mubarak.
Os socialistas revolucionários não defenderam o regime de Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana por um só dia. Estivemos sempre nas primeiras linhas da oposição a esse governo criminoso e fracassado que traiu os objetivos da Revolução egípcia. Um governo que até protegeu os pilares do regime de Mubarak e o seu aparato de segurança, as forças armadas e os empresários corruptos. Participámos fortemente na onda revolucionária de 30 de junho.
Nem defendemos por um só dia os acampamentos da Irmandade e a sua tentativa de levar Morsi de volta ao poder.
Mas temos de pôr os acontecimentos de hoje no seu contexto, que é a sua utilização para esmagar as greves dos trabalhadores. Também vemos a nomeação dos novos governadores provinciais – largamente originários das fileiras dos resquícios do velho regime, da polícia e dos militares generais. Depois há também as políticas do governo do general Abdel Fatah Al-Sissi. Adotou uma agenda hostil aos objetivos e reivindicações da Revolução Egípcia, que são liberdade, dignidade e justiça social.
Este é o contexto para o brutal massacre que o Exército e a polícia estão a cometer. É um ensaio geral sangrento para a liquidação da Revolução Egípcia. O seu alvo é quebrar a vontade revolucionária de todos os egípcios que lutam pelos seus direitos, sejam trabalhadores, pobres, ou a juventude revolucionária, criando um Estado de terror.
Contudo, a reação da Irmandade Muçulmana e dos Salafitas de atacar os cristãos e as suas igrejas, é um crime sectário que apenas serve as forças da contra-revolução. A suja tentativa de criar uma guerra civil, na qual os cristãos egípcios cairão vítimas dos reacionários da Irmandade Muçulmana, tem a cumplicidade do Estado de Mubarak e de Al-Sissi, que nunca, por um único dia, defenderam os coptas e as suas igrejas.
Opomo-nos firmemente aos massacres de Al-Sissi e à sua feia tentativa de abortar a Revolução Egípcia. Porque os massacres de hoje são o primeiro passo na via da contra-revolução. Opomo-nos com a mesma firmeza aos ataques aos cristãos egípcios e à campanha sectária que serve apenas os interesses de Al-Sissi e o seu projeto sangrento.
Mutos que se apresentam como liberais e de esquerda traíram a Revolução Egípcia, a começar pelos que entraram no governo de Al-Sissi. Venderam o sangue dos mártires para lavar os militares e a contra-revolução. Esta gente tem as mãos sujas de sangue.
Nós, os socialistas revolucionários, nunca nos desviaremos por um só instante do caminho da Revolução Egípcia. Nunca faremos compromissos sobre os direitos dos mártires revolucionários e o seu sangue puro: os que caíram confrontando Mubarak, os que caíram confrontando o Conselho Militar, os que caíram confrontando o regime de Morsi, e os que caem agora confrontando Al-Sissi e os seus cães.
Abaixo o governo militar!
Não ao regresso do velho regime!
Não ao regresso da Irmandade!
Todo o poder e riqueza para o povo.
Os Socialistas Revolucionários
14 de agosto de 2013
Reproduzido de Socialist Worker
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

ENTREVISTA COM EDGAR MORIN: "A ideia de metamorfose é que, basicamente, tudo deve mudar"

Se o Mundo tal como vai produz desastres, Edgar Morin convida a acreditar que chegará o "improvável benefício". Para este sociólogo a mudança se produzirá em escala planetária.

Entrevista Publicada em: El Correo
Edgar Morin é um pensador conhecedor do Mundo, fino conhecedor da América Latina e frequentemente convidado para dar palestras nos quatro cantos do mundo, um mundo que permeia seu pensamento. Sociólogo, filósofo, antropólogo,  ama os olhares, confrontar os saberes, interrogar as disciplinas.

Nascido em 1921, Edgar Morin se torna um rebelde aos vinte anos, juntou-se ao PCF (Partido Comunista Francês), em 1941, antes de ser excluído por ter se distanciado do stalinismo. Em 1950 entra no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), que em 1970 foi nomeado diretor do Research. Este pensador inclassificável é também um homem comprometido, um militante. Muito cedo Edgar Morin, convida para o "cruzamento do conhecimento." Esta é a marca que o levou a desenvolver o conceito de "pensamento complexo", entendida como "aquilo que é tecido" já levantado em seu livro Science avec conscience  (Ciência com Consciência) de 1982. Em seu Métode, escrito em seis volumes (1977-2004) inclui títulos sugestivos, a vida da vida, o conhecimento do conhecimento e mais importante, a humanidade da humanidade, o que explica os desafios da complexidade.

Observador de catástrofes mundiais, Edgar Morino cujo fio de Ariadne   é um reflexo direto do futuro "Estamos caminhando para o desastre em cadeia" "algo que parece provável que se decidiu mudar de rota" Questiona em  A Via, escrito em 2011.

Acaba de assinar com dezenas de intelectuais, o "Manifesto dos Convivencialistas", que vai se esforçar para definir filosofia comum aos movimentos tão diversos como o alter-globalização, os indignados espanhóis, o "slow food" ou a economia social e solidária Você acha que essas iniciativas podem moldar o futuro?

Existem os movimentos, mas não chegaram verdadeiramente a convergir. Todas estas iniciativas formam uma constelação, mas ainda não associado organicamente. O movimento,dos sociáveis sociável representa uma parte da perspectiva. É necessário voltar a introduzir a convivência em nossa sociedade. "Convivencialismo" é um bom rótulo, mas não cobre toda a complexidade do problema. Eu atribuo grande importância para o pensamento de Ivan Illich um dos pensadores da nossa cultura na década de 70 que faz uma crítica da nossa civilização bastante radical, tanto da industrialização como dos padrões de consumo, educação, etc. Agora, estamos em um momento da história em que tudo apresenta problemas, o domínio do capital financeiro, a agricultura ou a pecuária industrial, o consumo no sentido de uma verdadeira intoxicação. Instituições globais tornaram-se totalmente insuficientes, impotentes e arbitrárias como a ONU ou desviadas como o FMI. A Política atingiu o nível zero do pensamento.

Nesta situação, podemos inclinar-nos para para o otimismo ou pessimismo?

Temos de encontrar um novo caminho. Eu desenvolvi a idéia de metamorfose para dizer que, basicamente, tudo deve mudar. Países da América Latina e o Equador têm desenvolvido uma política de "boa vida". É uma ideia que devemos incentivar. O "bem-estar" é uma bela palavra cujo significado foi completamente degradada. O problema não é só para chegar a um nível de conforto através da posse de bens materiais, como uma televisão, uma geladeira ou um carro. Eles são importantes, mas o que importa acima de tudo é a sensação da "boa vida" que repousa sobre o desenvolvimento de um indivíduo que executa o desenvolvimento coletivo de uma comunidade fraterna. O desejo de uma outra vida através da história. Faz tempo que foi incorporado na ideia de paraíso. Ele então retornou à Terra com a Revolução Francesa, com o socialismo de Karl Marx. Acho que temos de unir as três fontes: a libertária para o indivíduo, a socialista para melhorar a sociedade  e a comunista para viver em comunidade. E devemos acrescentar o ambientalista. O anseio por outra vida cruzou o socialismo que foi amaciado, o comunismo que se há desviado; foi o que levantou o jovem em Maio de 68. Atualmente anima os jovens da Primavera Árabe ao Ocupe Wall Street, em os EUA, os Indignados espanhóis, os manifestantes do Brasil. Mas para mudar o curso está faltando pensamento político. As pessoas estão decepcionados, resignadas, sem esperança. É verdade, mas principalmente porque eu ainda não vejo a descrição de algo credível. Basicamente, o que é uma sociedade de convivência? Uma sociedade em que a cooperação entre os homens tomam o lugar da exploração do homem pelo homem? O Filme Vittorio De Sica - Milagre em Milão termina com a ideia de uma sociedade em que cada um diz ao outro "Bom dia." Em uma sociedade de convivência as pessoas não são anônimas, se encontram, se entrelaçam. Não são apenas boas maneiras e cortesia. O outro existe e é reconhecido como sendo diferente e semelhante a si mesmo. Esta necessidade de reconhecimento é comum a todos os seres humanos. Aqueles que são privados desse desfrute são humilhados, submetidos, dominados, sofrem. No governo, nos negócios, em todos os lugares as pessoas são interrompidas, separados uns dos outros. Você poderia dizer que é preciso uma "re-união"?

Estar ligado a seu vizinho em escala individual, de um povo ou uma comunidade é fácil de imaginar. Mas em uma escala global? Só pode basear-se no conceito de que você participa da "terra-pátria"?

Em cada ser humano há dois princípios fundamentais. Primeiro, o "eu" egocêntrico e vital para se defender contra a adversidade. Mas também o "nós" que se expande na família, os colegas, os partidos políticos, religião, etc. Nossa civilização tem ampliado o "eu" e tem subdesenvolvido o "nós". Temos que mudar essa abordagem e reconstruir o "nós". Anteriormente um se efrentava o inimigo, o invasor. A coexistência mundial é descrita como a consciência de que compartilhamos um destino humano comum. Corremos a mesma aventura, fomos até o mesmo abismo, é necessário reagir globalmente. O problema é que para salvar a nossa terra-pátria da destruição. Nós somos o produto da evolução biológica que foi construído mais de 2.000 milhões de anos atrás e da qual surgiu uma espécie chamada Homo sapiens a. Essa identidade comum produz diferenças. A palavra "pátria" fala da sensibilidade, confraterniza. Não se pode conceber senão na base de respeito por todas as diversidades nacionais e culturais, desde que continue a insistir na unidade. Para aqueles que só vêem a diversidade humana e esquecem a unidade. E aqueles que só vêem a unidade  esquecem a diversidade humana. A atual globalização técnica e econômica ignora a diversidade cultural e sensibilidade dos povos. Agora, se a "terra-pátria" engloba os países de origem, em seguida, a diversidade humana é o tesouro da unidade humana e da unidade é o tesouro da diversidade.

Há momentos na história da humanidade em que há mudanças de rotas, bifurcações. Que sinais percebe que nos indica que estamos realmente em uma dessas fases?


Estamos em uma situação onde não há algo inventado, não sei quando ou como será o tempo para a transição. O mundo está fermentando. Não se sabe com que fim. A morte e os instintos de destruição são muito fortes, mas que não devemos nos desesperançarmos. Há muitos conflitos que podem levar a uma deflagração geral. Cada um é como uma árvore. O vento espalha as sementes. Quando caem em solo fértil germina. Na Índia, as reflexões do Príncipe Sakyamuni, o Buda, o sofrimento humano e a verdade deu origem a uma religião que professam milhões. Em outro sentido Marx e Proudhon foram considerados marginais pelos intelectuais da época, com idéias desviantes antes de dar à luz a forças políticas consideráveis.

Edgar Morin: "Eu tenho a impressão que  tenho poucos  preconceitos, estou aberto a idéias que se contradizem e me percebo interiormente livre. Que bom é a liberdade que compõe tantas qualidades ausentes.".
***
Embora o futuro previsível não gere muito otimismo você afirma, porém, que provavelmente serão beneficiados. Será que as revoluções árabes são para você sinais de que o improvável pode se tornar provável?

A Primavera Árabe, especialmente na Tunísia e no Egito, são movimentos muito importantes, pacíficos. Mas por agora o que surgiu em termos de processos eleitorais é tanto positivo como negativo. A maior  parte dos partidos de esquerda  foram perseguidos pelos regimes ditatoriais. Eles muitas vezes perderam o contato com o povo. Os islamitas foram  e as pessoas votaram. Isso não tem nada a ver com a importância do evento. Hoje as pessoas são contra o presidente Mursi mas a oposição é muito heterogênea. A Primavera Árabe é um despertar inicial que irá fertilizar o futuro, mas ainda não sei como.

Os autores da Primavera Árabe tem chamado seu movimento com o termo "revolução" Você preferiu chamar de metamorfose. O que significa esse conceito?

É preciso pensar que a lagarta é encerrada em um casulo para se tornar uma borboleta. Chega a destrir-se  totalmente para se transformar em algo diferente. A história humana é cheia de metamorfoses. A nova metamorfose só ocorrem em uma escala global. Ele vai modificar o conjunto de relações, a organização vai mudar e hoje é impossível prever como será essa nova sociedade global. Eu abandonei a ideia de revolução, por duas razões. O primeiro corresponde ao objetivo de não prosseguir com a ideia de fazer 'tábula rasa" com o passado. Precisamos de todas as culturas do passado, tudo adquirido pelo pensamento no passado. A ideia de metamorfose leva à ruptura e continuidade do tempo. A segunda proposta foi a de que a ideia da revolução mais violenta foi a mais autêntica. A violência às vezes é inevitável, mas é errado pensar que é justificado e necessário porque, em seguida, gera outra violência.

O tratamento dado à Grécia, os planos de austeridade que levam à recessão alimentando em grandes áreas da população um sentimento de rejeição em relação à Europa. A Europa ainda pode desempenhar um papel na civilização política que você impulsiona?

A crise econômica tem destacado a crise existente. A Europa desenvolvida economicamente sem unidade fiscal tornou-se um anão político incapaz de realizar a ideia original: unir pela paz e pela função comum em aspectos civilizatórios. Atualmente, a diferença é um perigo real. A Alemanha tornou-se o poder político dominante e tem imposto o falso remédio da austeridade. Há agora, para mim, dois sinais de alerta. As respostas levantadas pelo domínio do neoliberalismo econômico estão produzindo o caos na Grécia e na Hungria, levando a um novo sistema autoritário que não pode ser descrito, mesmo fascista, mas é perigoso.

Na França, você convidou recentemente o presidente a mudar seu gabinete. Como o senhor vê a situação?

Vamos apenas dizer que eu espero  o sobressalto. Ainda não estou  desesperado. Plantei uma crítica construtiva. A situação mostra sinais preocupantes. Nós encontramos as mesmas pessoas em posições ministeriais que produzem os mesmos relatórios e pensamento político de idéias com base no crescimento e competitividade. O presidente deve entender que é necessário mudar de rumo e que o grande palco é um genuíno avivamento da economia verde. A falta de ideias sobre o nosso mundo contemporâneo, sobre a crise atual da humanidade na era da globalização conduz a uma visão míope que muitas vezes culpa os partidos políticos.

Você chama a regenerar pensamento político. O que você entende a este respeito?


Os formuladores de políticas vivem o dia-a-dia. Eles não têm uma visão global. Para não serem condenados ao sonambulismo parece útil para desenvolver um pensamento político que saiba reunir conhecimento. Tomemos, por exemplo, a globalização. É um processo econômico, demográfico, sociológico, psicológico, religioso, etc. Todas as ideias se cruzam. Também eventos. Em 2001, um grupo de minoria marginal, Al Qaeda, conseguiu destruir duas torres de Nova York, e o resultado foi uma conflagração mundial. Os partidos estão no todo, mas o todo não está nos partidos. O mundo está em nós. E este fato leva a uma maneira muito diferente de pensar, complexo, de longo prazo, não maniqueísta. O mundo tem  ao mesmo tempo necessidade de globalização (por exemplo, cultural) e de "desglobalização" (agricultura) é tem tanto a necessidade de crescer e encolher. Devem ser desenvolvidas para que todos possam desfrutar de uma evolução positiva e delimitar para que as pessoas continuem a pertencer a uma comunidade. Aqui está um pensamento político que poderia levar a uma metamorfose, uma mudança de rumo....


Acabar com a impunidade da polícia e promover os direitos dos povos indígenas devem ser prioridades

Comitiva da Anistia Internacional visita local onde estão enterrados indígenas mortos em Dourados.
"Apesar de todo o progresso econômico feito no Brasil na última década, a violência é endêmica e a atual resposta dos governos não apenas deixa de reduzir a violência, como agrava a situação”, disse o Secretário-Geral Salil Shetty, da Anistia Internacional, ao completar uma visita oficial ao país.
A visita destacou questões de segurança pública nas favelas do Rio e a situação dos povos indígenas. Conferiu também o progresso do Brasil na área dos direitos humanos, considerando que o país se prepara para sediar a próxima Copa do Mundo e as Olimpíadas, e coincidiu com o Dia Internacional dos Povos Indígenas – comemorado anualmente em 9 de agosto.
Nas favelas, o Secretário-Geral se reuniu com membros da comunidade que lhe disseram como se sentem aprisionados em suas próprias casas. "As pessoas que conhecemos que vivem na Maré temem tanto os criminosos que os atacam e quanto os policiais que deveriam protegê-los", disse Salil Shetty.
A Anistia Internacional tem documentado um padrão de abuso policial, buscas ilegais nas casas, execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados nas favelas. Salil Shetty expressou suas preocupações com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, em Brasília, e uma série de outros ministros, pressionando-os por reformas urgentes no país.
Atila Roque, diretor da Anistia Internacional no Brasil, acompanhou o Secretário-Geral durante toda a visita. "A insegurança e a frustração das pessoas que vivem nas favelas está se espalhando. As pessoas que se identificam como classe média e tomaram as ruas nos últimos dois meses - muitas delas pela primeira vez - estão vendo o lado feio do policiamento que não está sujeito à supervisão civil", disse Atila Roque.
A Anistia Internacional acredita que é urgente que o policiamento passe por uma reforma estrutural no Brasil. Um primeiro passo seria estabelecer órgãos de controle externo e independente da polícia, com poderes de investigação para possibilitar a responsabilização de policiais.
A delegação da Anistia Internacional visitou também o Mato Grosso do Sul, onde se reuniu com lideranças indígenas na aldeia Jaguapiru, na reserva de Dourados, e visitou o acampamento Apikay, na BR 163, perto da cidade de Dourados.
"Os sucessivos atrasos na demarcação das terras indígenas está levando à violência, remoções forçadas e outras violações de direitos humanos contra estas populações", disse Salil Shetty. O Secretário-Geral cobrou das autoridades federais que assumam um papel de liderança na proteção dos direitos dos povos indígenas.
"É importante que o governo brasileiro rejeite a falsa dicotomia entre desenvolvimento e direitos humanos. O Brasil tem o aparato legal e os recursos financeiros para garantir os direitos dos povos indígenas. Agora, o governo deve demonstrar que também tem a vontade política", disse Salil Shetty.
A Anistia Internacional tem uma longa história de trabalho no Brasil. Esta é a primeira missão de alto nível do Secretário-Geral ao país desde que a Anistia Internacional abriu a sua sede nacional no Rio de Janeiro.
"O governo tem o direito de se sentir orgulhoso das muitas realizações, em especial na redução da pobreza e da desigualdade de renda. Mas ele precisa resolver os gravíssimos problemas de violência e insegurança. Não é aceitável que favelas e comunidades indígenas sejam áreas ‘sem direitos humanos’”, disse Salil Shetty.
O Secretário-Geral foi acompanhado pelo diretor da Anistia Internacional no Brasil, Átila Roque, pela diretora da Anistia Internacional no Reino Unido, Kate Allen, pela diretora sênior de Legislação e Política, Widney Brown. A Anistia Internacional começou recentemente a recrutar indivíduos no Brasil para participar do movimento de direitos humanos que tem mais de 3 milhões de membros no mundo.
FONTE: ANISTIA INTERNACIONAL

Confrontos no Egito - A velha estratégia dos USA de entregar o poder aos Militares

No Egito os Militares decretaram nesta quarta-feira (14) o Estado de Emergência, confrontos deixaram pelo menos  343  mortos.
Foto: Reuters
Os enfrentamentos começaram depois que tropas se deslocaram no intuito de retirar os acampamentos dos que pedem o retorno do presidente deposto, Mohamed Mursi. Quem repetir acampamentos de protesto semelhantes aos que se seguiram ao golpe de Estado de julho pagará caro, o aviso é do ministro do Interior. "Tenho a convicção que depois de ter sido decretado o estado de emergência e do presidente ter mandatado os militares a assistir as forças policiais, em coordenação estreita connosco e as forças armadas, não vamos permitir mais acampamentos de protesto em qualquer zona do país, qualquer que seja o sacrifício", declarou Mohamed Ibrahim.

A ação das das forças da ordem para acabar com os protestos que já duravam há várias semanas resultou em sangrentos confrontos. Imagens divulgadas pelo exército mostraram alegados rebeldes a utilizar espingardas automáticas, facto não verificado, para já, por jornalistas. 

Foi decretado o estado de emergência e o recolher obrigatório noturno no Cairo e noutras 10 províncias, as forças armadas recuperam os poderes de detenção indefinida que tiveram durante os trinta anos da era Hosni Mubarak.

Egito, Irmandade Muçulmana, manifestação

A Irmandade Muçulmana pretende organizar esta tarde (15) uma manifestação no Cairo mesmo com o Estado de Emergência.

Exército no Comando - a velha estratégia Yanke

Parece que está em voga a velha tática norte-americana de impedir que o vírus da luta popular se espalhe pela região, segundo Noam Chomski na obra "O Que o Tio Sam Realmente Quer", nessas situações de levante popular e riscos de afronta ao livre desenrolar das atividades dos investidores americanos usa-se da estratégia de por o exército no poder, além disso espera-se evitar a influência 'negativa". O exército egípcio é financiado por dinheiro norte-americano


"O que se faz quando se tem um vírus? Primeiro você o destrói e, em seguida, vacina as vítimas em potencial para que a doença não se propague. É essa a estratégia que os EUA utilizam no Terceiro Mundo.


Se possível, é aconselhável fazer com que os militares locais destruam para você. Se eles não puderem, você terá de contar com suas próprias forças. Isso é mais oneroso, e deselegante, mas algumas vezes você tem de fazer isso. O Vietnã foi um desses lugares em que tivemos de agir assim." (Chomski)


Apesar dos discursos de democracia e Direitos Humanos, a estratégia americana já está em plena execução, militares no comando, repressão brutal e aliança econômica garantida.

Com Euro News 
Leia mais: http://portuguese.ruvr.ru/news/2013_08_15/irmandade-muculmana-pretende-organizar-hoje-desfile-pelo-cairo-2462/

Chega de sufoco: movimentos protestam em São Paulo por transporte público de qualidade

“Chega de sufoco”. A máfia dos transportes e os escandalosos esquemas de corrupção entre o governo do Estado e empresas por meio de licitações do transporte público, os panes nos metrôs, os sufocos cotidianos que a população enfrenta nos trens e ônibus lotados  e a defesa de um transporte público de qualidade levaram cerca de 4 mil pessoas às ruas na capital paulista nessa quarta-feira (14).

Convocada pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Movimento Passe Livre (MPL), CSP-Conlutas e outras entidades, a manifestação concentrou-se às 15h no Vale do Anhangabaú. Uma imensa faixa com os dizeres “Transporte não é mercadoria. Chega de sufoco! Por um transporte dos trabalhadores e usuários” via-se pendurada do Viaduto do Chá.

Além da CSP-Conlutas, Intersindical, CUT, CTB, ANEL, Movimento Luta Popular, PSOL, PSTU, Levante Popular da Juventude, Marcha Mundial de Mulheres, Juventude do PT, UNE, PCO, MTST, Juntos, Fórum Popular da Juventude, e anarquistas foram alguns dos grupos que coloriram o ato com bandeiras e faixas.

Sem carro de som, o ritmo da manifestação foi marcado pelos tambores das baterias de variados grupos. “Trabalho, estudo, dou duro o dia inteiro; Geraldo anda de carro e ainda rouba o meu dinheiro!”, “Se tem dinheiro pra propina de tucano, não aceito lero-lero; não pago três, não pago dois, não pago um, eu quero tarifa zero!” foram alguns dos gritos de ordem do ato, que percorreu diferentes pontos do centro da cidade, apesar do frio e da chuva fraca.

“Estamos aqui expressando nossa indignação frente a máfia dos transportes, que inclui o governo Alckmin e vai além dele”, afirma Altino de Melo Prazeres, presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. “A população está mobilizada e a confiança nos politicos vem caindo todos os dias”, avalia.
Na carta de reivindicações entregue pelo Sindicato dos Metroviários ao secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, os trabalhadores exigem, entre outras demandas, a abertura da caixa-preta dos transportes, prisão “dos corruptos e corruptores”, suspensão imediata da licitação da linha 6, fim das privatizações e das terceirizações, tarifa zero, metrô 24h aos domingos e feriados com contratação de mais funcionários e gestão do transporte conduzida sem empresários, mas por trabalhadores e usuários.

“Queremos a devolução do dinheiro roubado, já se fala em R$425 milhões. E claro que o contrato com a empresa tem que ser cancelado, não é possível que se saiba que houve roubo de verba pública e o contrato continua como se nada tivesse acontecido”, critica Altino, referindo-se à declaração de Geraldo Alckmin (PSDB) de que vai processar a multinacional alemã Siemens por formação de cartel, mas manterá os contratos com a empresa que ainda estão em vigor.

Na coletiva de imprensa realizada na terça-feira (13) o procurador-geral do Estado, Elival da Silva Ramos, afirmou desajeitadamente que “se há uma contradição, é da legislação. O Estado não tem o poder de dizer ‘como uma empresa praticou um ilícito, vou romper os contratos’”.

Para Marcelo Hotmisky, integrante do MPL, as denúncias de superfaturamento de contratos do metrô e da CPTM escancara como “o dinheiro público está servindo, uma vez mais, aos interesses dos empresários e politicos”. “O protesto de hoje tem a mesma lógica dos que fizemos contra o aumento da tarifa, tarifa que barramos com as forças das ruas”, descreve.

O protesto seguiu pela rua Libero Badaró e fez uma parada em frente ao Ministério Público de São Paulo, passou pelo Pátio do Colégio, a rua Boa Vista e ateou fogo em uma catraca em frente a Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos. O boneco de um empresário, com uma cartola, foi queimado.

Ao final, a maioria dos manifestantes ficou na praça da Sé e alguns grupos se dirigiram por outros trajetos. Alguns subiram a av. Brigadeiro Luís Antônio, outros foram para a frente da Assembleia Legislativa de São Paulo, onde houve confronto com a Polícia Militar e outros se dirigiram para o que se transformou em uma ocupação na Câmara Municipal de São Paulo.

Para o membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas José Maria de Almeida, o Zé Maria, além de apontar os problemas do transporte em São Paulo, a marcha também serve como preparação para a paralisação nacional de 30 de agosto. “É importante apontar aqui os problemas relacionados os transporte em São Paulo e transformar essa iniciativa em uma preparação para o dia 30, quando trabalharemos com bandeiras mais amplas, entre elas o arquivamento do PL (Projeto de Lei) 4330, que precariza ainda mais o trabalho  e hoje teve sua votação adiada para setembro pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) da Câmara dos Deputados.

Após protesto, estudantes ocupam a Câmara Municipal de São Paulo em defesa do passe livre  

A Câmara foi ocupada pela CSP-Conlutas, a ANEL, o DCE da USP, estudantes da Escola de Sociologia Política, entre outras entidades. A principal reivindicação é o agendamento de uma audiência pública para debater a viabilidade do passe livre.

Durante a ocupação da Câmara, Clara Saraiva, da Secretaria Executiva da Anel (Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre), disse que a ação faz parte da “jornada de agosto”, em que Câmaras estão sendo ocupadas em todo o Brasil. O passe livre é o principal eixo da pauta de reivindicações dos manifestantes. “Nosso objetivo é ficar aqui até que seja agendada uma data para uma audiência pública sobre este tema”, explicou a estudante.

Os ocupantes também querem a garantia de que não vão sofrer retaliações e que não irá se repetir violência por parte da polícia, como aconteceu durante a entrada no prédio da Câmara Municipal e com mais intensidade na ocupação da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), realizada por outros grupos.

O vereador Ricardo Young (PPS) conversou com representantes das entidades e movimentos presentes. Está em discussão a possibilidade de realização de uma audiência pública na quinta-feira, 22, com a presença de todos os membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Transportes, no salão nobre, com capacidade de 380 pessoas.

Young afirmou, em transmissão ao vivo pela internet, que concorda que a CPI é “chapa branca” e se comprometeu em ouvir todos os movimentos. “Todos os movimentos organizados vão poder explanar sobre seus pleitos, mas não se esqueçam que é uma audiência com a CPI. É a hora de ficar cara a cara com a CPI. CPI não se sabe quando começa nem quando termina, depende da pressão popular”, disse.

Além de reivindicar o passe livre, os manifestantes são contra a corrupção e defendem a abertura da caixa preta dos transportes; o fim das privatizações; a estatização do metrô, trens e ônibus; a redução das tarifas; o fim das terceirizações etc. A pauta foi construída através do Fórum em Defesa do Transporte Público, com a participação, por exemplo, do Sindicato dos Metroviários e do MPL.

Gabi Moncau e Lara Tapety - CSP Conlutas

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Protestos: Os casos de desaparecidos na Favela e a invasão do Sírio-Libanês

Duas notícias envolvendo protestos populares um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo chamam a atenção para temáticas sociais complicadas no Brasil inventado e neoliberal. Depois do desaparecimento do Pedreiro Amarildo no Rio agora a morte de um jovem está sob suspeitas de ter sido praticada por policiais da UPP, no noite de ontem queimaram-se ônibus e destruíra-se um carro da PM. Em São Paulo um protesto mais do que importante e chamativo, um grupo protestando por um adequado sistema de saúde pública invadiu o Hospital Sírio-Libanês, o escolhido dos oligarcas e privilegiados do país quando necessitam de tratamento médico.

No Rio diz-se que o Estado traz sua presença para as comunidades pobres com as UPP´S e  as UPP´S são da Polícia Militar, uma instituição hierarquizada e militar exercendo governo nunca dá certo; o sumiço de Amarildo e agora desse jovem revelaram a face da UPP que não vinha sendo demonstrada até então na Mídia oficial e nos discursos de governo. A miséria e o tráfico nessas comunidades são fruto de uma realidade social extremamente excludente que o Estado tenta apagar com repressão policial e  consumo, pesquisa do Instituto data Popular em parceria com a Central Única de Favelas (CUFA) demonstram que moradores das favelas brasileiras consomem cerca de R$ 56 bilhões por ano, o que equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) da Bolívia. No Rio de Janeiro, mais de 20% dos habitantes vivem em favelas. São cerca de 1,3 milhão pessoas em 763 comunidades, que movimentam R$ 13 bilhões por ano. Este valor supera o Produto Interno Bruto (PIB) de diversas capitais brasileiras como Florianópolis, Natal e Cuiabá.

“Com a instalação das UPPs nas favelas, o capital pode se instalar nessas regiões com algum nível de segurança jurídica e patrimonial, que antes ele não gozava”, afirma o professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Rodrigo Castelo em entrevista publicada no jornal  Brasil de Fato. 

Em todo o Brasil cria-se a imagem de uma Classe média baseada somente no poder de compra, se as pessoas podem consumir estão no paraíso, essa é a lógica, e qualidade de vida? Serviços públicos?

No caso de São Paulo, a ocupação de um grande e moderno Hospital Privado pode ter uma configuração ideológica importante, hospital superdesenvolvido, com tratamentos de alta qualidade para os ricos e fila e corredores para os pobres, por que não o Sírio-Libanês público?

Descontentamento monumental faz emergir era de rebeliões no Brasil

Um dos grandes estudiosos do mundo do trabalho, o sociólogo e professor da Unicamp Ricardo Antunes já tinha dito, após a eclosão da crise económica internacional, quando explodia a Primavera Árabe, que um novo tempo de ebulição social marcaria o início do século XXI, a exemplo, porém não identicamente, do século 20. Por Valéria Nader e Gabriel Brito, Correio da Cidadania
Ricardo Antunes: os sindicatos poderiam se inspirar mais nos movimentos sociais, ou seja, terem uma conceção mais horizontal, menos cupulista, menos burocratizada
Pois bem. O capitalismo financeirizado e globalizado continuou a buscar as suas fugas para frente e, de fato, vieram as novas explosões sociais, em todos os cantos do mundo, chegando finalmente ao Brasil, sede dos próximos megaeventos desportivos.
Para discutir o atual momento das mobilizações sociais no país que se dizia descolado de toda essa conjuntura mundial, o Correio da Cidadania voltou a conversar com Antunes, em entrevista dividida em duas partes.
Nesta primeira metade, Antunes analisa as razões que fizeram explodir a revolta social em solo brasileiro, além de tratar da entrada em cena do movimento sindical, marcada pelas mobilizações de 11 de julho. Na entrevista, ele reitera a necessidade de reinvenção da concepção e atuação sindical, porém, não mostra acreditar que as atuais direções das centrais se disponham a abandonar a sua situação de “sindicalismo negocial de Estado”, o que tornaria impossível, mesmo adiante, uma adesão das massas trabalhadoras às suas lutas e bandeiras.
A primeira parte da entrevista com Ricardo Antunes pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Como sente o atual momento do país, após as grandes e intensas manifestações país afora no mês de junho? Qual o sentido e perspetivas para os quais apontam estas manifestações?
Ricardo Antunes: As manifestações que começaram em junho e continuam hoje tiveram uma cara multiforme. Elas têm motivações, modos e formas de ser diferentes. Começaram no dia 6 de junho com 2 mil pessoas, ligadas ao Movimento Passe Livre, depois foram se ampliando, até atingirem manifestações multitudinárias, com dezenas e centenas de milhares de pessoas, chegando, no momento de auge, a mais de 2 milhões de manifestantes no conjunto do país. Depois, entramos em julho, com manifestações mais localizadas. Mas quase todo dia ainda temos expressões das mobilizações de junho.
Para mim, é preciso entender a causalidade desse movimento, passando por três ou quatro pontos que me parecem centrais. O primeiro é uma causalidade interna, motivada, digamos, pela perceção de que o projeto que vem se desenvolvendo no Brasil desde a década de 90 (com FHC, depois levemente alterado, mas não substantivamente, pelos governos Lula e Dilma), voltado ao desenvolvimento capitalista financeirizado e mundializado, sedimentado em privatizações, superávit primário e desregulamentação dos capitais, portanto, tendo os fluxos de capitais comomodus operandi, causou, ou vem causando, profundo mal estar social.
E podemos dizer que tal processo de desenvolvimento chegou à sua exaustão. A população não suporta mais o transporte privatizado, a saúde precarizada, degradada e também privatizada, o ensino público profundamente degradado e abandonado. À exceção das escolas da elite, privadas mas com mensalidades exorbitantes, somente para as classes dominantes e classes médias altas.
A população, portanto, chegou ao seu ponto de saturação e esgotamento, causados por essa mercadorização da res publica, a privatização tipicamente neoliberal. Vale lembrar que também na Inglaterra tivemos a mesma saturação, levando à queda Margaret Thatcher, com a explosão contra o aumento do imposto, o chamado poll tax. Ainda que os quadros brasileiro e inglês sejam bastante diferentes, chega uma hora que tal processo exaure o seu sentimento de aceitação na população. É por isso que faço aqui a referência ao exemplo inglês. Em alguma medida, as explosões de junho estampam o exaurimento da população com tanto descaso.
Iniciamos uma fase de fim da letargia. Aconteceu e aí entra o segundo elemento, numa conjuntura muito específica: a explosão das manifestações foi marcada pela Copa das Confederações, quando a população percebeu que estádios de primeiro mundo o Brasil faz; enquanto isso, já no entorno dos estádios, a população é excluída. Todos vimos durante a “Copa das Rebeliões” que os pobres e negros não estavam presentes nos estádios. Estavam vendo os jogos nos estádios as classes médias e as camadas abastadas. Os que construíram o país nestas últimas duas décadas ficaram excluídos. Até mesmo dos arredores do estádio, já que o comércio oficial da Copa expulsou a população que poderia explorá-lo, os ambulantes, aquele pequeno comércio que, para muitas pessoas, é a sobrevivência, a fim de se colocar somente aquilo que a FIFA impunha. A população percebeu que há uma simbiose complexa entre FIFA, interesses transnacionais e governo. E as prejudicadas, quem sofreu e vem sofrendo com tal processo, são as camadas populares. Isso fez com que houvesse, a cada jogo, uma ou muitas manifestações, muitas rebeliões, com muita conflagração, onde a população mostrava o seu completo e cabal desconforto. Tudo fica evidente ao se ver que, ao menos desde que acompanho futebol, desde os anos 60, não houve comemoração do título. Após a vitória contra a Espanha, não houve festejo, pois a insatisfação popular estava no limite.
Isso coincidiu num terceiro e importante movimento, relacionado ao cenário internacional. Desde 2008 vemos que todas as manifestações de massa – começando da Tunísia e indo à praça Tahrir (Egito), à praça Taksim (Turquia), voltando à Tahrir, passando pela Grécia, Itália, Portugal, França, Reino Unido, EUA, com o Occupy Wall Street, e Espanha, com os Indignados – têm como traço comum a ocupação do espaço público, das ruas e praças. Tal ocupação significa que a população não suporta mais a atual forma degradada de institucionalidade, seja no caso dos países do Médio Oriente com as suas ditaduras, seja no caso dos países do ocidente com o seu modelo de “democracia burguesa” só para os ricos. Há também um fosso muito grande entre a vontade popular e os interesses do parlamento. No caso brasileiro, por exemplo, o Congresso Nacional certamente é a instituição mais rejeitada pelo país hoje.
No caso internacional, naturalmente há um efeito demonstrativo para o conjunto de cada país: da Tunísia para o Egito, de lá para o Iraque e a Síria; da Espanha para Portugal; da Grécia para Itália; de lá para o Reino Unido; depois, do Reino Unido para os EUA com o Occupy. Isto é, esse cenário de manifestações populares contra a destruição da res publica, contra a lógica de uma acumulação financeira ilimitada, além de destruição social e pública também ilimitada, uma hora teve um limite.
Isso corrobora as suas afirmações em entrevista concedida a nós em 2011, na qual afirmou que, assim como as placas tectónicas se mexeram no início do século XX, estávamos vivendo novos tempos de ebulição social, tão globalizada como o próprio capitalismo?
Sim, usando essa metáfora, as várias curvas que existiam no nosso país, de direções muito diferentes, se encontraram, todas elas, num ponto de intersecção representado inicialmente pelo 6 de junho, e esse ponto de intersecção gerou a ebulição. A perceção de projeto de governo de matriz ou neoliberal ou social-liberal começa a ruir.
Outro ponto: o mito da classe média mostrou-se muito mais mito que realidade. Vimos agora que os níveis de desemprego – ou, se quiserem, níveis de aumento de emprego – de algum modo começam a diminuir, sinalizando a diminuição dos ritmos de crescimento, que começam a chegar também aqui ao Brasil.
Esse cenário todo é, para mim, a explicação de fundo do monumental descontentamento e desta era das rebeliões em que adentramos no Brasil a partir de junho. Entre junho e julho, as grandes manifestações de massa migraram para manifestações nas periferias, ou manifestações contra os pedágios ou para outras motivações, como as contrárias ao brutal desaparecimento de Amarildo, no estado do Rio, onde os governos estão marcados por níveis aviltantes de descuido da gestão pública.
Vimos outro caso nos últimos dias: todo o espaço preparado, com muita verba pública, para a visita do papa, no cenário onde ele poderia fazer seu “festival”, sua celebração, e que não foi usado, por causa da chuva e da lama. Quantos milhões foram gastos para preparar o espaço (que depois foi substituído pela praia de Copacabana)? Isso aflora, de novo, a destruição da res publica no Brasil.
Tudo isto num contexto em que muitos estratos da classe trabalhadora estão endividados, porque consumiram e usaram seu cartão. O cartão é um fetichismo espetacularmente perigoso. Gasta-se dinheiro que não se paga com papel-dinheiro. E o não uso do papel-dinheiro, para muitas pessoas, leva a certo nível de abstração, do tipo “no cartão eu pago depois”. Mas, a cada dia não pago, se é lesado pelas altíssimas, explosivas e verdadeiramente saqueadoras taxas de juros dos cartões de crédito cobrados pelos bancos no Brasil. Esse é o cenário e o conjunto de questões sem os quais não dá para entender o que se passa no país no momento.
A reboque dessas manifestações, foi convocada a greve geral de 11 julho de 2013. Como avaliou a oportunidade dessa convocação, bem como os resultados dela advindos, em termos da participação de facto da classe trabalhadora e da juventude operária?
Aqui precisamos de um pouco de atenção na análise. As manifestações mais fortes que têm tido corpo no país nesse período recente são as de rua, puxadas pela juventude estudantil que trabalha ou pelo assalariado urbano que estuda, além de setores da periferia – e, por isso, diferentes da greve das universidades federais de 2012 ou das greves de Jirau e das obras do PAC, também grandes, e diferentemente ainda de 2012 no geral, marcado por muitas greves com reivindicações mais específicas e próprias da pauta sindical, salarial.
A greve de 11 de julho, então, precisa ser analisada com cuidado. Em primeiro lugar, a maioria das greves no Brasil, salvo exceções, não são momentos de grandes manifestações de massa nas ruas. Houve quatro grandes greves gerais no Brasil nos anos 1980 e não tivemos então grandes manifestações de massa nas ruas. Mas foram greves marcadas pela paralisação de setores importantes do país; bancos, indústria, setores do comércio etc.
Ainda não temos um levantamento cuidadoso de quais setores pararam no dia 11. Quais atividades foram mais ou menos afetadas? Sabemos, por exemplo, que foram importantes as paralisações de várias estradas e autopistas, portanto, dificultando o fluxo de mercadorias e pessoas. Precisamos saber o que se passou com a produção, bancos, comércio etc. Teremos análises mais profundas sobre a incidência dessa greve quando soubermos exatamente quais setores pararam ou não.
O segundo ponto é mais difícil. Das centrais sindicais que participaram, muitas são completamente atreladas aos projetos do governo e é difícil para a população entender como elas, que apoiam mais ou menos o governo (com a exceção clara da CONLUTAS e do movimento IINTERSINDICAL), tornam-se, de repente, parte de um movimento de clara oposição a todos os governos.
E como você analisa a entrada de tais centrais atreladas ao governo no embalo das mobilizações de rua?
Essas manifestações de junho nasceram contra o sistema de governos existentes. Não foram manifestações especificamente contra a Dilma, ou contra o Alckmin, ou contra o Haddad, o Eduardo Paes, o Cabral. Mas foram, simultaneamente, contra todos. Contra o governo federal, contra os governos estaduais, contra os municipais, no caso do Rio até mais evidentemente. Depois, vimos as sondagens mostrando o desmoronamento dos índices de aprovação de todos esses governos, de cima a baixo. E muitas das centrais sindicais estavam comprometidas com o projeto do governo.
Assim, como uma central comprometida com tais projetos vai pautar a rua? A CUT, por exemplo, acreditou piamente no mito de que o país estava mudando. Reproduziu o discurso lulista de que o país era de classe média, a classe trabalhadora estava feliz, tudo funcionava melhor... De repente, ficaram completamente aturdidos. É compreensível, portanto, que a maioria das centrais sindicais, por acreditarem no mito do país que dava certo, não podia ter grande sucesso no seu chamamento.
Desse modo, eu não gostaria de classificar a greve nem como vitória, nem como derrota. Ela tem de ser vista com um pouco mais de atenção. Os bancos funcionaram? O setor de transporte funcionou? As indústrias tiveram diminuição de suas atividades? Se o nível de paralisação em tais setores foi muito baixo, está configurada uma derrota.
E quanto às centrais independentes e de oposição, você diria que ficaram sem muito espaço para operarem uma mobilização de sucesso?
As centrais que sempre fizeram oposição ao governo, como a Conlutas e o movimento denominado Intersindical, além de outros setores que têm estado desde o início do governo Lula em clara oposição, para não falar do governo FHC, ainda têm uma força minoritária, mas têm um amplo espaço para avançar.
As centrais que estão na órbita do governo tentaram mostrar o seu espaço, mas as manifestações que vemos não são manifestações lideradas pela institucionalidade, nem mesmo pela institucionalidade sindical. São manifestações de massa contra as formas burocratizadas e degradadas da institucionalidade.
Assim, coloco um outro ponto, para encerrar a análise da greve: elas, em geral, não costumam convergir em grandes manifestações de rua, salvo quando tínhamos as greves do ABC, em tempos passados e históricos do país. No ABC, as manifestações iam às ruas para entrar no estádio, à época de Vila Euclides, depois 1º de Maio, a polícia impedia e sempre havia confronto. Mas, salvo momentos de crise profunda, as greves no Brasil não são marcadas por grandes manifestações de massa na rua. Salvo, repito, aquelas greves de caráter político muito aberto, como na época da ditadura ou em outras greves do pré-64, claramente políticas. Em geral, quando bem sucedidas, são marcadas por maior ou menor adesão dos trabalhadores ao chamamento de suas centrais. Se o índice de paralisação é alto, torna-se vitoriosa em grande medida. Baixa adesão significa o inverso.
Como as centrais têm sido cooptadas, muitas delas pelo governo, burocratizadas e institucionalizadas, não é difícil concluir, com as exceções já citadas (e suas dificuldades por serem entidades de menor amplitude), que as paralisações de 11 de julho certamente não entraram no mesmo patamar, nem de longe, de força que tiveram as manifestações de junho, que atingiram dezenas e centenas de milhares de participantes em São Paulo e no conjunto do país, caracterizadas como grandes manifestações nas praças e espaços públicos.
Face a este contexto, onde a vitalidade das manifestações da juventude contrastou com uma greve geral esvaziada, o que pode ser diagnosticado quanto à atual estrutura sindical, com traços evidentes de corporativismo, economicismo e atrelamento ao Estado?
O problema da estrutura sindical, formalmente atrelada ao Estado e burocratizada, deve ser adicionado a outro elemento central: o problema é das direções sindicais que aceitaram os chamamentos do governo lulista, aceitaram o caminho da servidão voluntária; lutaram e bateram palmas para a extensão do imposto sindical às centrais, essa verdadeira aberração do sindicalismo, criado pela ditadura varguista, mas que gera muito dinheiro. Direções estas que acreditaram no projeto lulista.
O que vemos, na realidade, é que a cúpula das centrais, por problema de sua estrutura e, essencialmente, por suas conceções políticas, sindicais e ideológicas, altamente burocratizadas, submersas e atoladas no que já chamei de sindicalismo negocial de Estado, vive um momento difícil.
Claro que o problema tem causas complexas: a classe trabalhadora se metamorfoseou. Há uma nova morfologia do trabalho, coisa que já expus bastante em meus trabalhos. Essa nova morfologia nos apresenta categorias novas, que não existiam anteriormente: os trabalhadores do telemarketing, de call center, caixas de supermercados, da indústria de fast-food, enfim, um novo proletariado do setor de serviços, não industrial. Desses setores, muitos estão à margem da representação sindical ou não aceitam a representação tradicional. Portanto, estamos num momento de redefinição da conceção de sindicato.
Mas qual tipo de redefinição na estrutura sindical você avalia como necessária e possível para os próximos anos?
Tenho dito há algum tempo que os sindicatos poderiam se inspirar mais nos movimentos sociais, ou seja, terem uma conceção mais horizontal, menos cupulista, menos burocratizada e mais afinada e sintonizada com as questões vitais que tocam os seus representados. Quais são as questões vitais que vêm atingindo o quotidiano da classe trabalhadora brasileira: precarizados, precarizadas, terceirizados, terceirizadas, quarteirizados e quarteirizadas, e todos que estão inseridos na economia pautados por laços de informalidade?
A classe trabalhadora hoje é tanto masculina quanto feminina, como sempre foi. Há setores como telemarketing e call center nos quais 70% ou 80% de seu contingente é feminino; a classe trabalhadora hoje tem alguns de seus estratos (como os supermercados) marcados pela juventude; ela tem traços de género, geração e etnia. São todas questões que o sindicalismo precisa compreender. Não é estranho que uma categoria como o call center, cuja grande maioria é formada por mulheres, tenha as direções dos seus sindicatos formadas por homens? E é só um traço, um exemplo.
Assim como na virada do século XIX para o século XX, quando nós saímos de um sindicalismo de ofício para um sindicalismo de massa, na transição para o século XXI nós devemos sair de um sindicalismo que começou como de massa, tornou-se profundamente burocratizado, institucionalizado e verticalizado, para um sindicalismo mais horizontal, que seja efetivamente representativo do conjunto da classe trabalhadora que ele pretende representar. Esse é o desafio mais vital do sindicalismo de classe hoje.
Por fim, é preciso também resgatar o sentido de pertença de classe, que obriga os sindicatos a compreenderem a nova morfologia da classe. E avançar em sua dimensão autónoma, de base, significa abandonar o sindicalismo negocial de Estado, que tem sido dominante pelo menos nas cúpulas sindicais mais próximas ao governo – as quais, vale acrescentar, se desenvolveram muito sob o lulismo.
7 de agosto de 2013
Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.