"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 28 de setembro de 2013

A banca seguirá o exemplo de Chipre e confiscará depósitos para evitar colapso

O exemplo do Chipre, o laboratório do modelo de confisco de fundos privados, tornar-se-á cada vez mais prático para a banca como mecanismo de obtenção de recursos. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón.
A banca quer o teu dinheiro
Quando o ministro das Finanças holandês Jeroen Dijsselbloem disse à imprensa, há seis meses, que o regime de confisco de depósitos do Chipre seria o modelo para os futuros resgates dos bancos europeus, a declaração causou tanto furor que ele teve de retratar-se. Mas Dijsselbloem dizia a verdade: o confisco dos depósitos dos depositantes está a converter-se na política oficial da União Europeia, dado que a banca quer o teu dinheiro (I want your Money, como diz o Tio Sam). A Itália e a Polónia seguiram o exemplo cipriota e o plano vai prosseguir noutros países. Os ministros das Finanças da UE puseram-se de acordo em relação a este plano para deslocar a responsabilidade das perdas bancárias para os próprios investidores, credores e depositantes dos bancos. Está claro que os fundos públicos já não são suficientes para resgatar uma banca que está na falência e requer o confisco de parte importante das poupanças privadas.
Se o modelo de Chipre for seguido ao pé da letra, os depósitos inferiores a 100 mil euros estarão assegurados pelos governos, enquanto os montantes superiores a essa soma sofrerão cortes que podem chegar ao 40 ou 50 por cento. Esta nova prática de resgates à banca começou a ter seguidores e está a estender-se para além da Europa. Os bancos da Nova Zelândia e do Canadá também querem o dinheiro dos depositantes. Cedo esta prática estender-se-á aos Estados Unidos e os grandes depósitos sofrerão severos castigos. Quem se atreverá a ter dinheiro nos bancos no futuro?
A banca continua num processo de forte desalavancagem e por isso precisa de dinheiro real bem mais além do que oferecem os bancos centrais. Uma das razões do estancamento que sofre a economia e da falta de crédito que asfixia o sector produtivo é que todo o dinheiro que os bancos recebem com os planos de flexibilização quantitativa (a taxas de 0,25% ou 1%) é colocado em bónus soberanos dos governos, onde a taxa é de 4 ou 5 por cento, o que permite obter ganhos de 6 a 20 vezes só movendo o dinheiro do banco central para o Tesouro público. Apesar de a redução do prémio de risco ter sido significativa, bem mais o foi o ganho da banca que, com este método, consegue limpar os seus balanços dos ativos tóxicos.
O laboratório dos confiscos
Num esforço por salvar a economia cipriota da falência, o governo aprovou uma lei que confiscou 4.300 milhões de euros em depósitos pertencentes a cerca de 14.000 depositantes do Laiki Bank, deixando a cada depositante, com não mais de 100 mil euros, o limite de depósito assegurado sob as regulamentações da UE. Depois do fecho do Laiki, os ativos diminuídos dos depositantes foram transferidos para o Banco do Chipre. Como assinalámos em março, num esforço por recapitalizar o principal banco da ilha, as autoridades cipriotas impuseram uma perda de 47,5 por cento dos depósitos que excediam o limite de 100 mil euros. Com esta medida, os depositantes perderam um total estimado de 10.600 milhões de euros.
O exemplo do Chipre, tomado como laboratório deste modelo de confisco de fundos privados, tornar-se-á cada vez mais prático para a banca como mecanismo de obtenção de recursos. Este facto põe em perigo todas as contas bancárias privadas e as poupanças dos fundos de pensões que a banca usa para especular nos mercados. A Polónia conseguiu reduzir a sua dívida pública pela via do confisco dos fundos de pensões. Os ministros de Finanças da UE não só estão a patrocinar estas novas medidas da banca, como além disso estão a aprovar um plano para obrigar os detentores de bónus e acionistas a financiar as futuras falências bancárias com fundos privados, antes de continuar a fazê-lo com os fundos públicos que são dos contribuintes.
Este facto, que já está a acontecer na Itália, Polónia, Nova Zelândia e Canadá, cedo terá a sua estreia nos Estados Unidos e será o mecanismo que vai evitar a falência em massa do sistema bancário, desta vez com os depósitos e fundos de pensões das pessoas. Dado que muitos destes depósitos se encontram num complicado novelo de derivados financeiros, os depositantes não terão facilidade de retirar o seu dinheiro para o guardar debaixo do colchão. E de nada servirão os processos contra a banca contra estes confiscos, dado que contam com o apoio pleno dos governos. Mais uma demonstração da simbiose hegemónica que envolve o poder político com o poder económico.
27 de setembro de 2013
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

As revoluções

Duas Revoluções criadoras de duas superpotências: A primeira a Revolução Americana no século XVIII e a Segunda a Revolução russa de 1917.

A revolução americana resolveu institucionalizar o poder revolucionário em um senado e uma corte constitucional com o poder de controle sobre a Constituição, isso segundo Hannah Arendt; a Revolução Russa se  fundiu em um partido, tinha a ideia de manter o poder das massas direto mas a institucionalidade de um partido-deus não era compatível.

Ouvindo o Hino Soviético louvando Lenin e a sagrado na Constituição americana funcionam com "religiões", talvez seja isso que a humanidade precise superar. Se os Estados Unidos permanecem há mais de 200 anos talvez seja pela caráter de poder da lei, e a União Soviética não se manteve sequer por um Século em virtude da pessoalidade do governo.

Conselho de Segurança da ONU aprovou resolução sobre Síria

O Conselho de Segurança da ONU aprovou unanimemente o projeto da resolução sobre as armas químicas na Síria. Esta foi a primeira resolução juridicamente vinculativa contra a Síria desde 2011 quando no país começou a guerra civil.
 
Os membros do Conselho de Segurança levaram duas semanas para coordenar o texto do documento.

A resolução obriga a Síria a destruir suas reservas de armas químicas e garantir um acesso livre no país para os peritos em armas químicas. O documento condena o emprego de armas químicas na Síria, mas não responsabiliza nenhuma das partes pelo seu uso.

Voz da Rússia

Quando a cegueira julga

O problema de seguir cegamente sem crítica para construir e autocrítica para visualizar, comparando a própria situação com o criticado. O julgamento das massas reunida é livre de autoquestionamentos.

O descrédito com ocupantes de cargos políticos atualmente vista é ruto de uma crise. Décadas atrás a construção de um Estado firmado no pacto social era tudo, hoje os poderes políticos são mais inimigos do que alguém em que se deposite alguma esperança.

Nós somos da época de um Mundo Líquido, o termo do sociólogo Bauman (Liquidez) é o mais adequado. A "ética" do consumismo exige um Mundo solúvel.Não temos mais em que nos prender, tudo muda em constante rotina.

O sistema representativo abusou de errar e agora não inspira mais confiança, não é certo se tiraremos uma nova forma de governo desta crise.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Putin: Entre a paz, a Santa Rússia e a homofobia

Putin depois de anos de esforço está a conseguir que o seu país volte a desempenhar o papel de superpotência, após duas décadas de letargia. Artigo de Nazanin Armanian, publicado em Publico.es
O patriarca Kirill e Vladimir Putin
A engenhosa proposta russa para a Síria pôr as suas armas químicas sob o controle internacional e assim desativar o ataque militar dos EUA, coloca Vladimir Putin no centro da arena internacional frente a um belicista temerário como Barack Obama, desacreditado pela moral dúplice e pela indecisão.
Para além de se pôr do “lado correto da história”, - e apesar de os EUA poderem procurar outro pretexto para agredir a Síria -, Putin depois de anos de esforço está a conseguir que o seu país volte a desempenhar o papel de superpotência, após duas décadas de letargia. Para isso, valeu-se de duas “armas” principais: ser o primeiro produtor mundial de gás e de petróleo e ser o centro da religião ortodoxa cristã.
O aumento dos preços do petróleo durante a década passada e a sua incursão no grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, Chinesa e África do Sul) são algumas das causas de um crescimento económico de 6,8% (em 2011). Hoje, a Rússia capitalista, que apesar da destruição da URSS não se converteu num “estado falhado” e sobreviveu às “revoluções de cores” fabricadas em Washington, conta com 10% das reservas do ouro mundial e é a terceira reserva monetária maior do mundo após a China e o Japão, bem como tem o segundo lugar no pódio planetário em número de multimilionários... enquanto que 43% da população vive na pobreza. Não serve de consolo que esta cifra seja de 48% nos EUA.
A Santa Aliança
Ainda que Vladimir Putin não tenha chegado a ser como George Bush que chegou a dar começo às reuniões da Casa Branca com uma prece, nem seja a cabeça da Igreja como a rainha Isabel II de Inglaterra, mas pede a bênção do clérigo ortodoxo e protege a fé e Deus como ninguém.
Com o fim de restaurar a força da Rússia, o homem de olhar penetrante impulsionou algo parecido como uma segunda cristianização do país, e converteu o cristianismo ortodoxo no novo conceito nacional de coesão, substituto da doutrina unificadora marxista da era soviética e fazendo barreira ao avanço imparável do catolicismo rival, símbolo do capitalismo ocidental.
Em 1997, a Lei Ieltsin suprimiu a igualdade de todas as religiões perante a lei, outorgou importantes privilégios à Igreja Ortodoxa, acabando com o sonho do Papa polaco João Paulo II de “catolizar a Rússia”, como prémio da sua estreita colaboração com a CIA na destruição da União Soviética (ler: O Vaticano contra os EUA).
Esta sociedade agnóstica, ainda que respeitosa com a sua poderosa igreja, que necessita de hospitais, escolas ou residências de idosos, não sabe por que é que o número de igrejas e mosteiros ascendeu de 5.318 em 1985 para 31.200 em 2012. Está prevista a instalação em São Petersburgo do monumento a Jesus Cristo mais alto da Europa, com 33 metros de altura, o que supõe a elevação deste fervor ressuscitado das épocas czaristas.
O Kremlin, através desta igreja, mantém laços de influência em países como Bielorrúsia, Geórgia, Ucrânia, os países da antiga Jugoslávia, Roménia, Moldávia, Bulgária, Grécia, Chipre e Arménia, mas também no Cazaquistão, Quirguistão, Usbequistão, Turcomenistão, Médio Oriente e sobre os 25 milhões de russos que a desintegração da URSS deixou em países hoje independentes.
O patriarca Kirill conta com a autoridade sobre os 225 milhões de fiéis em todo mundo. Com uma ativa diplomacia, o chefe desta instituição visitou Ucrânia, Polónia, Grécia, Jerusalém, Líbano e Síria, onde foi fotografado com o presidente Assad, elogiando o seu trato com os cristãos.

A religião ortodoxa, por outro lado, resulta muito também para manter o controle e a ordem social, legitimar as políticas conservadoras, e certamente vigiar o Islão professado por 24 milhões de fiéis (ou seja, mais muçulmanos que na própria Arábia Saudita) com um alto índice de natalidade.
A acusação de “vandalismo motivado por ódio religioso” e o encarceramento das cantoras do grupo punk Pussy Riot, que denunciavam os laços entre Putin e a hierarquia da Igreja Ortodoxa, foi continuada pela aprovação de uma lei anti-blasfémia que castiga com penas de até três anos de prisão as ofensas contra a religião: começa a caça de bruxas e de bruxos.
Os bolcheviques abriram os armários
Com pequenas discrepâncias, houve uma abstenção e nenhum voto contra (nem o da esquerda), o parlamento russo aprovou a lei contra a “propaganda gay”, apoiada por uma grande maioria de cidadãos que equipara a homossexualidade com a pedofilia, apesar de grandes e queridos artistas e intelectuais como Tchaikovsky, Pushkin, Gogol, Kuzmin, ou Ivanov, terem sido gays.
Paradoxo de um país que quando foi dirigido por Lenine se converteu no primeiro Estado do mundo a legalizar a homossexualidade, despenalizando a “sodomia”. Os EUA fizeram o mesmo em 2003! Foi Estaline quem em 1933 voltou a castigá-la com cinco anos de prisão. Aquele georgiano considerava-a um produto da decadência moral dos exploradores, um produto propagado pelos nazis que assim atentavam contra a moral do proletariado. Por sua vez, os fascistas chamavam de “cultura bolchevique” a homossexualidade e a libertação da mulher, ambas símbolos da degeneração moral.
Seguindo as diretrizes de Estaline, os partidos comunistas e socialistas de todo o mundo recusaram como militantes aqueles que fossem suspeitos de amar alguém do seu próprio sexo.
Os motivos reais por trás da campanha homófoba russa são:
1. Tal como há 3.000 anos, juntamente com a criminalização do aborto, a proibição de relações homossexuais entre homens faz parte das medidas pró natalidade destinadas a aumentar a população do grupo. A Rússia, que em 1991 contava com 149 milhões de habitantes, em 2001 baixou para 146 milhões e prevê-se que em 2030 e com este ritmo se reduza para os 128 milhões. Diminuem os nascimentos, aumenta a mortalidade pela deterioração na qualidade de vida, que deixa a esperança de vida em 69 anos. Precisa-se mão de obra e por isso oferecem-se incentivos económicos e laborais para quem tenha filhos. As reticências impostas à política de adoções de crianças russas por estrangeiros também procede desta perspetiva.
2. Medo a perder o controle sobre o corpo e a mente dos cidadãos
3. Manter o sistema patriarcal e o poder dos homens numa sociedade machista e preservar a estrutura da família tradicional, apesar da sua disfuncionalidade.
4. Desviar com estas campanhas a atenção pública dos graves problemas sociais da população.
A Anaconda não é só um réptil
A Anaconda é o nome nepalês da serpente “assassino de elefantes”, que rodeia e estrangula a sua presa lentamente, mas também é a contrassenha da estratégia desenhada pelos EUA de rodear a Eurásia e asfixiar a Rússia através de bases militares, da chamada C4ISR (acrónimo inglês de “Comando, Controle, Comunicações, Informática, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento”), e de usar a bandeira da democracia e dos direitos humanos. Dificultar o acesso dos russos aos mares é o centro desta política. Com a guerra contra a Síria, Washington o que pretende é justamente desalojar a Rússia dos portos sírios e pôr todo o levante mediterrânico sob a esfera da NATO.
A armadilha que Obama estendeu a Putin no caso da Líbia fez com que o líder russo desse uma viragem radical nas suas relações com os EUA. Pois, o que ia ser uma operação limitada de exclusão aérea, converteu-se num bombardeamento do país, no brutal assassinato de Kadhafi e no saque da sua ingente fortuna em bancos ocidentais, ficando assim com os seus amplos campos de gás e petróleo.
Começa agora uma verdadeira Guerra Fria. Na batalha - ainda que discreta -, contra a NATO e os EUA, Putin serve-se dos BRICS (que golpeiam duramente o dólar com o seu cabaz de moedas diferentes), mas também com uma cooperação com a China (sem precedentes desde os tempos de Mao e Estaline), através da Organização de Cooperação de Xangai (OCS). Juntos exigiram a retirada das forças armadas dos EUA da Ásia Central, pelo que a potência ocidental não teve outro remédio senão pôr a data de 2014 para a sua saída forçada do Afeganistão.
Depois de pôr a sua marca na crise síria, Putin pensa atalhar o conflito nuclear do Irão, o seu poderoso vizinho do sul.
A superpotência energética vai desmontando o “Novo Conceito Estratégico da NATO” traçado em 2010 na cimeira da Aliança em Lisboa, que situava como objetivos domesticar a Rússia, com o fim de conter o Irão e debilitar a China. Tanto os BRICS como a OCS, encabeçadas por Moscovo e Beijing, oferecem estruturas alternativas à influência decadente dos Estados Unidos no mundo.
Será o fim da hibernação do urso, que unido ao dragão impedirão o voo da águia?
Artigo de Nazanin Armanian1, publicado em Publico.es a 15 de setembro de 2013 e disponível também em nazanin.es. Tradução para português de Carlos Santos

1 Nazanin Armanian é uma escritora iraniana, jornalista e professora na Universidade de Barcelona. Residente em Espanha desde 1983

Pnad: população brasileira chega a 197 milhões de pessoas

A população brasileira cresceu 0,8% no ano passado, chegando a 196,9 milhões de pessoas. É o que informa a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, divulgada hoje (27) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um aumento de 1,6 milhão de pessoas.
Na Região Norte, o crescimento foi 1,4%; o Sul teve aumento de 0,6%. Quase a metade da população brasileira está concentrada no Sudeste (82,7 milhões). No Centro-Oeste vivem 14,8 milhões. As mulheres são maioria: correspondem a 51,3% da população.
A pirâmide etária mostra que a população está envelhecendo. A proporção de idosos, com 60 anos ou mais, passou de 12,1% para 12,6%, chegando a 14,2% na Região Sul e a 8,1% na Região Nordeste. Em 2004, a base da pirâmide etária reunia 42,8% dos brasileiros com até 24 anos. Em 2012, a proporção caiu para 39,6%.
Quanto à cor ou raça, 46,2% das pessoas autodeclararam-se brancas, 45% pardas, 7,9% negras e 0,8% indígenas e amarelos, somando 1,6 milhão de pessoas. Com isso, a população negra, que soma pretos e pardos, está em 104,2 milhões de pessoas, o que corresponde a 52,9% dos brasileiros. No Sul, 76,8% autodeclararam-se brancos e no Norte os pardos são 70,2%.
Em 2012, 39,4% não residiam em seu município de origem e 15,7% estavam em outra unidade da federação. No Distrito Federal, 48,5% das pessoas são de outros estados; no Rio Grande do Sul a proporção é 3,7%.
Do Rio de Janeiro, da Agência Brasil, Akemi Nitahara.
27/09/13
De São Paulo, com reportagem de Akemi Nitahara da Agência Brasil, Leonardo Ferreira.

Ipcc afirma que aquecimento global é causado pela atividade humana

Relatório do Painel da ONU sobre Mudança Climática confirma influência humana como a causa dominante do aumento da temperatura do planeta; concentração de gases como o CO2 é a maior em 800 mil anos.
Mudanças climáticas
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, Ipcc, confirmou nesta sexta-feira que a influência humana é a causa dominante do aquecimento global observado desde 1950.
As atividades humanas contribuem com 95% a 100% do aumento da temperatura do planeta. Da cidade de Xian, na China, o professor e membro do IPCC, Filipe Duarte Santos, explicou à Rádio ONU quais são essas ações.
Petróleo
"As atividades são essencialmente duas. A utilização dos combustíveis fósseis, do carvão, do petróleo e do gás natural. Esses combustíveis fósseis representam cerca de 80% das fontes primárias de energia a nível global, 80% é um valor muito elevado. E a outra causa das emissões de dióxido de carbono na atmosfera são as alterações do uso dos solos e em particular, o desmatamento."
O professor Filipe Duarte Santos ressalta que a agricultura e a pecuária também causam o aquecimento global. Segundo ele, a produção de arroz, por exemplo, lança na atmosfera grandes quantidades do gás metano.
Níveis Históricos 
O relatório do Ipcc informa ainda que a concentração na atmosfera de gases como metano, dióxido de carbono, CO2, e óxido nitroso, é a maior já observada em 800 mil anos.
Só as concentrações de CO2 aumentaram 40% desde os níveis da era pré-industrial. O oceano absorve 30% desses gases, o que causa a acidificação dos mares.
O Ipcc destaca que a mudança climática é sem precedentes, com aquecimento da atmosfera e dos oceanos; diminuição da neve e do gelo; aumento do nível do mar e maior concentração de gases que causam o efeito estufa.
Dias Quentes
A previsão do painel é que a temperatura média global irá aumentar entre 0,3˚ C e 0,7˚ C no período 2016-2035. Com a mudança do clima, a população enfrenta menos dias frios e mais dias e noites quentes.
Outra estimativa do Ipcc é de que até 2100, o volume glacial pode ser entre 35% e85% menor.
O painel recomenda uma redução sustentada e substancial das emissões dos gases que causam o efeito estufa, como maneira para limitar a mudança climática. Mas o Ipcc acredita que os efeitos irão persistir por "muitos séculos, mesmo se houvesse um fim das emissões de dióxido de carbono".

A tragédia da civilização do automóvel

O carro promete liberdade, mas se tornou uma espécie de cárcere privado. A tragédia da ‘civilização do automóvel’ é resultado das políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva


Cesar Sanson*

Há exatos 40 anos, num ensaio considerado visionário, André Gorz publicou um texto intitulado ‘Le Sauvage’ [O Selvagem]. O ensaio, datado de 1973, é considerado pelos ambientalistas como o ‘Manifesto contra o carro’ por antecipar a tragédia da civilização do automóvel.  No texto, Gorz afirma que “o carro fez a cidade grande inabitável, a fez fedorenta, barulhenta, sufocante, empoeirada, congestionada”.

O carro instaurou uma lógica e um estilo de vida que promete liberdade, mas no lugar de ir e vir se tornou uma espécie de cárcere privado. Paradoxalmente, promete agilidade, mas proporciona a lentidão dos tempos pré-industriais. Promete ganhar tempo, mas na realidade faz perder tempo.

Eles entopem os estacionamentos das universidades privadas e públicas, dos aeroportos, dos shoppings, dos supermercados. Estacionar já se tornou um drama. Ter uma vaga cativa – e gratuita – é um privilégio que se assemelha ao da casa própria. Nos grandes centros já é mais caro estacionar do que almoçar.

O estresse no trânsito é alto, os engarrafamentos enormes, a irritação é grande, mas ninguém quer abrir mão do carro. E ainda tem mais: quanto mais potente, belo e equipado, melhor. O sociólogo Richard Sennett, em seu livro A nova cultura do capitalismo, afirma que as pessoas se movem pela "paixão consumptiva" que assume as formas de "envolvimento em imagística e incitação pela potência", ou seja, as pessoas quando consomem não compram apenas produtos, mas prazer e poder.

O fantástico e maravilhoso mundo prometido pelo carro tem um outro lado menos edificante. O carro provoca o caos, confusão, barulho, estresse, poluição, perdas econômicas e, o pior, mata. E mata muito. As estatísticas dão conta de que mata em média mais de 50 mil pessoas por ano, apenas no Brasil.

A tragédia da ‘civilização do automóvel’ tem como um dos responsáveis as políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva. No caso brasileiro, o modelo de desenvolvimento ancorou nas montadoras a sua base crescimentista. Desde Juscelino Kubistchek, a indústria automotiva recebe incentivos, subsídios e isenções.

Erigimos o ‘Império do automóvel’ e agora - da prometida sociedade do bem-estar -, ele, o carro, nos empurra para um crescente mal-estar. A mobilidade prometida pelo carro aos indivíduos se tornou fonte de angústia, estresse e sofrimento.

Outra mobilidade e cidade são possíveis, porém é preciso superar a cultura carrocentrista e promover ousadas políticas públicas que invistam pesado no transporte coletivo.

*Cesar Sanson é professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Ecologia da ação

"Conhecer é também uma estratégia, que pode se modificar em relação ao programa inicial, que é flexível e leva em conta o que chamo de ecologia da ação. Sabe-se hoje que uma ação, lançada ao mundo, entra num turbilhão de interações e retroações, que podem se voltar contra a intenção inicial". (Edgar Morin)

Já imaginou querer a paz mundial e fomentar a guerra, ou então, descobrir a fissão dos átomos e produzir a bomba atômica exterminando milhões de vidas? Por isso entende Edgar Morin como a ecologia da ação, para ele as ideias lançadas no Mundo ganham vida própria e o que o autor pretendia dizer pode tomar-sr por seu lado averso e gerar consequências desastrosas.

O problema se relaciona ao "fechamento ético", ao seguidorismo, à incapacidade de autocrítica. Tem sido assim na História da Humanidade, uma ética universal lançada se fecha, cega e provoca perseguições. Certamente há como divergir no plano das ideias sem reduzir o outro a suas ideias, sem divergência estagnaríamos, no entanto, divergir não significa se fechar e quando proporem uma ideia nos fechamos na "self deception", quando mentimos para nós mesmo para comprovarmos a verdade do que havíamos defendido.

A educação do futuro deve ensinar que até o conhecimento precisa de explicação, o que é o conhecimento?

"Viver de Morte, morrer de vida"

No reino animal e vida e a morte se autorregulam normalmente, a não ser por um fator externo há desequilíbrios, sejam de própria origem natural (vulcões, terremotos, eras glaciais) ou Civilizacionais (destruição de ecossistemas, poluição de rios. Para o Homem em Civilização a morte ao invés de próprio da vida é um drama sob o qual se debruça.

Em Civilização os indivíduos se particularizam, constroem uma história própria, criam laços entre gerações e morrer é deixar para trás um todo que ele se integra, esperava ficar para ver e permanecer nessa interação. Entre a vida eterna e dizimar grupos inimigos a vida e a morte na civilização provocam diversos turbilhões de dúvidas e desafios para a biosfera, já que a civilização humana interfere no todo.

A Civilização, principalmente no século XX provocou inúmeros desastres, genocídios, com a técnica demonstrou forças suficientes de dizimarem cada vez mais, passou-se a haver uma preocupação com a preservação da vida e o desafio da compreensão se pôs na pauta do dia.

Por outro lado a tema de uma vida eterna amaterial transcende à realidade. Vida sem morte não seria vida e sim existência. Heráclito dizia: "Viver de Morte, morrer de vida", o sistema Pachamama, a vida na biosfera é um ciclo perfeito de morte e vida que na verdade é um mesmo ciclo.

"Viver de morte, morrer de vida". Eis uma proposição extravagante. No entanto, sabemos hoje que os seres vivos — nosso organismo, por exemplo — ao funcionar degradam sua energia, isto é, as moléculas de suas células. Estas morrem e são substituídas por outras. Dizendo de outra forma, nossa vida continua graças à morte celular, porque o organismo é dotado de um poder de regeneração contínua. Cada batimento do coração, cada movimento respiratório, é uma obra de regeneração. O oxigênio é um detoxificante". (MORIN)

Sem razão a morte não existiria como preocupação, vive-se enquanto vida houver já que morrer é apenas a continuação do ciclo, no entanto a civilização como dissemos gera ódios e se o outro é comparado como mera existência pode abrir caminhos  para os extermínios e o desvalor da vida. A Civilização precisa pelo mesmo uso da razão se preocupar com a preservação da vida e agora do todo vivo.

Vicenç Navarro - Marx ( e não somente Keynes) tinha razão

Uma das causas da crise financeira e econômica que tem recebido pouca atenção tem sido a evolução da distribuição de renda entre os derivados do capital e aqueles derivada do trabalho, no período pós Segunda Guerra Mundial .

O conflito capital-trabalho, a que Karl Marx dedicou uma atenção especial, até ao ponto de considerar isso como o segmento da história ("a história da humanidade é a história da luta de classes"), perdeu visibilidade na análise da crise atual, substituída por análises do comportamento de uma seção do mundo do capital, ou seja, o capital financeiro, sem dar importância suficiente para o conflito de capital (e não apenas seu componente financeiro) com o mundo do trabalho. Dados, continuam no entanto, enfatizando a importância da relação do trabalho na gênese das crises econõmicas e financeiras que estão ocorrendo no momento.

Durante o período entre o final da segunda guerra mundial e a década de 1970 (definida como a idade de ouro do capitalismo), o pacto Social entre o mundo do trabalho e o mundo do capital (no qual o primeiro aceitou o princípio da propriedade privada dos meios de produção em troca de aumentos salariais - condicionado ao aumento da produtividade - e o estabelecimento do estado de bem-estar) resultou um aumento muito significativo dos rendimentos a trabalho que atingiu seu nível mais alto na década dos anos 70.

A participação dos salários (em termos de remuneração por trabalhador)  na renda nacional alcançou o cifras  recordes até então. Nos países que mais tarde seria a UE-15 (grupo dos país mais economicamente desenvolvidos  da União Europeia), esse percentual era de 72,9%. Na Alemanha, a porcentagem foi 70,4%, na França 74,3%, na Itália 72,2%, Grã-Bretanha 74,3% e 72,4% Espanha. Do outro lado do Atlântico Norte, nos Estados Unidos, foi de 69,9% (Comissão Europeia, outono 2011, ECFIN, anexo estatístico, tabela 32).

Esta situação criou uma resposta por parte do mundo do capital, que inverteu a distribuição de renda. As políticas iniciadas pelo Presidente Reagan nos EUA e a senhora Thatcher na Grã-Bretanha foram destinadas a favorecer o rendimentos de capitais, enfraquecendo e diluindo o pacto Social.

A generalização destas políticas determinou uma redistribuição das rendas a favor da capital, às custas da renda do trabalho. Como resultado, a participação destes últimos diminuiu consideravelmente então em 2012 foi 65.2% do PIB da Alemanha, em França a 68,2%, 64,4% em Itália, 72,7% na Grã-Bretanha e 58,4% em Espanha, o menor percentual entre estes países e abaixo da UE-15, cuja média foi de 66,5%.

Esta diminuição da quota do PIB dos rendimentos do trabalho criou um enorme problema de escassez de demanda privada, origem da crise econômica. Esta escassez passou, sem embargo, despercebida,  devido a vários fatos, dos quais um era o impacto econômico da reunificação alemã em 1990 e o enorme crescimento do resultado de gasto público em políticas de integração da Alemanha de leste a oeste, que foram financiadas com um grande crescimento do déficit público alemão, que passou a ser excedentárias em 1989 (0,1% do PIB) para um défice de 3,4 por cento do PIB em 1996. Este crescimento da despesa pública tinha um efeito estimulante da economia alemã e, portanto, da economia europeia, dentro do qual o alemão teve e continua a ter um peso central.

O segundo fato que escondeu o impacto negativo que a diminuição na participação do rendimento do trabalho  teve na procura privada foi o enorme endividamento das famílias e empresas, que decorreu em paralelo com a diminuição da renda do trabalho. Este empréstimo foi facilitado pela criação do euro, que resultou na tendência de fundir os interesses bancários dos países da zona euro com a Alemanha.

A substituição do Marco alemão pelo euro conduziu à "alemanizacion" das taxas de juro. A Espanha foi um exemplo claro disto. O preço do dinheiro nunca foi tão baixo, facilitando assim a enorme dívida privada que teve lugar em Espanha. Enquanto o setor público estava em superávit, o privado  tinha um enorme déficit que passou despercebido devido a sua grande dívida (uma consequência da diminuição dos rendimentos do trabalho).

Nesta situação, ainda muito pronunciada na Espanha e outra países periféricos da zona do euro, teve lugar em todos os países da zona euro. Crescimento anual do salário médio dos países da zona euro caiu de 3,5% no período 1991-2000 para 2,4% no período 2001-2010, na Alemanha, de 3,2% a 1,1% e em Espanha, de 4,9% para 3,6% (Comissão Europeia, outono 2011, ECFIN, anexo estatístico, tabela 29). O notável crescimento do endividamento é baseado, em grande medida, nesta realidade.

Por outro lado, a alta rentabilidade das atividades especulativas em comparação com a  de caráter produtivo (afetaram, este último, a diminuição da procura) explica o alto risco e a instabilidade financeira, com o aparecimento de bolhas, incluindo a imobiliária. A explosão dessas bolhas, especialmente nos Estados Unidos deu origem à percepção de que a crise financeira começou e seria limitada para os EUA, sem perceber  que a banca europeia e a alemã em particular (incluindo caixas) estava entrelaçada com a americano de uma forma tal que a crise financeira dos EUA afetou imediatamente o capital financeiro europeu e especialmente o alemão.

A Banca Alemã  (Sachsen LB, IKB Deutsche Industriebank, Hypo Real Estate, Deutsche Bank, Bayern LB, LB, DZ Cisjordânia, entre outros) tiveram que ser resgatados com fundos públicos, incluindo por certo, fundos do Banco Central dos Estados Unidos, o Federal Reserve Board. Neste casos bancários e alemão também foram afetados pelo surto da bolha da imobiliária espanhola, que gerou o pedido de resgate dos bancos espanhóis (que incluía as caixas), que significava, na verdade, um resgate para o capital financeiro alemão, que investiu em instituições espanholas tinha quase 200 bilhões euros, agora tentando recuperar a partir do resgate da banca espanhola , resgate que vai acabar sendo pago com fundos públicos espanhóis, como apontam os dados mais recentes.

A redistribuição de renda a favor do capital e à custa do mundo do trabalho criou este enorme problema de escassez de demanda (devido à crise econômica) e o crescimento da dívida e a especulação (a causa da crise financeira). Tais conflitos trabalhistas tem desempenhado um papel fundamental na origem e na reprodução da crise atual, mostrando que Karl Marx (além de Keynes) estava certo.

Vicenç Navarro

Pecuária provoca 14,5% de todas as emissões de gases de efeito estufa, diz FAO

A pecuária é responsável por 14,5% das emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo homem, anunciou ontem (26) a Organização das Nações Unidas (ONU), ao estimar que a generalização de práticas já existentes permitiria reduzir essas emissões em 30%.
A conclusão é da agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que hoje lança o relatório Lidar com as Alterações Climáticas através da Pecuária: Uma Avaliação Global das Emissões e das Oportunidades de Mitigação, que a organização diz ser a mais vasta análise feita até hoje do impacto da produção animal para o aquecimento global.
Segundo a FAO, as principais fontes das emissões são a produção e processamento de alimento (45% do total), as emissões produzidas pela digestão das vacas (39%) e a decomposição do estrume (10%). O resto é atribuído ao processamento e transporte dos produtos animais.
Todas juntas, as emissões de gases de efeito estufa resultantes da pecuária equivalem a 7,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, ou seja, 14,5% de todas as emissões produzidas pela atividade humana.
A agência da ONU, sediada em Roma, conclui ainda que a aplicação mais generalizada de métodos já existentes, incluindo a mudança da dieta dos animais e uma produção mais eficiente dos alimentos para o gado, permitiriam reduzir as emissões em 30%.
“Essas descobertas mostram que o potencial de melhoria do desempenho ambiental do setor é significativo”, disse Ren Wang, diretor adjunto da FAO para a Agricultura e a Proteção do Consumidor.
Ele diz ser “imperativo agir agora” para reduzir as emissões do setor, uma vez que a procura de carne e de leite aumenta de forma muito rápida, em especial nos mercados emergentes.
Matéria da Agência Lusa / ABr, publicada pelo EcoDebate

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Complexidade e Liberdade

 Edgar Morin

A complexidade nos convoca para uma verdadeira reforma do pensamento, semelhante à produzida no passado pelo paradigma copernicano. Mas essa nova abordagem e compreensão do mundo, de um mundo que se "autoproduz", confere também um novo sentido à ação: trata-se de fazer nossas apostas, o que vale dizer que com a complexidade ganhamos a liberdade.


A grande descoberta do século é que a ciência não é o reino da certeza. Ela se baseia, seguramente, numa série de certezas local e espacialmente situadas. A rotação da Terra em torno do sol, por exemplo, nos parece certa; mas seria possível dizer isso, tanto 100 milhões de anos antes de nossa era quanto depois, sabendo-se que o Universo está submetido a flutuações e perturbações, às quais hoje chamamos de movimento caótico? A ciência é de fato um domínio de múltiplas certezas, e não o da certeza absoluta no plano teórico. A obra de Popper se tornou indispensável para a compreensão de que uma teoria científica não existe como tal, a não ser que, na medida em que aceita ser falível, submete-se ao jogo da "falsificabilidade" e, portanto, aceita sua biodegradabilidade.

Ordem, Separabilidade e Lógica: os Pilares da Ciência Clássica

A ciência clássica se apóia nos três pilares da certeza, que são a ordem, a separabilidade e a lógica. Para ela, esses eram os fundamentos absolutos. A ordem do Universo, tal como entendida por Descartes e Newton, era o produto da perfeição divina. Com Laplace, a hipótese de Deus é descartada: a ordem funciona sozinha, é "autoconsolidada". A idéia de determinismo absoluto tornou-se objeto de uma crença quase religiosa entre os cientistas, que por isso se esqueceram de que ela não pode, de modo algum, ser demonstrada.

A segunda idéia-chave era a
separabilidade. Conhecer é separar: face a um problema complicado, dizia Descartes, é preciso dividi-lo em pequenos fragmentos e trabalhá-los um após o outro. Assim, as disciplinas científicas são desenvolvidas a partir da divisão do interior das grandes ciências, a física, a biologia etc., o que dá origem a compartimentos sempre novos. No limite, pode-se dizer que a separação entre ciência e filosofia e, mais amplamente, entre ciência e cultura humanista — filosofia, literatura, poesia etc. —, está instituída em nosso século como uma necessidade legítima.

Nas ciências, a separação entre o observador e sua observação, ou seja, entre nós, humanos, que consideramos os fenômenos, e estes (os objetos de conhecimento), tinha valor de certeza absoluta. O conhecimento científico, objetivo, implicava a eliminação do indivíduo e da subjetividade. Se existisse um sujeito, ele causaria perturbação — seria um ruído.


Terceiro pilar: a lógica, a indução
. Com base em um número importante e variado de observações, podia-se tirar delas leis gerais. Quanto à dedução, era um meio implacável de conduzir à verdade. Os princípios aristotélicos da identidade, da não-contradição e do terceiro excluído, permitiam eliminar toda confusão, equívoco e contradição.

A lógica, a separabilidade e a ordem levaram para a ciência clássica essa certeza absoluta, na qual ela se baseia. E os resultados têm sido tão brilhantes que acabaram, paradoxalmente, colocando em xeque os princípios fundamentadores da separação.
Foi a ordem, isto é, o determinismo (tudo o que escapa ao acaso, às perturbações e à imprevisão), que entrou primeiro em crise. Com efeito, a termodinâmica introduziu a desordem molecular no fenômeno chamado calor. Sabemos hoje que nosso Universo tem uma origem calorífica, surgiu de um fenômeno térmico inicial, uma espécie de explosão seguida de enorme agitação.

A presença da desordem universal se revela em todos os níveis: microscópico, cosmofísico e também histórico, humano. Em relação a este, lembramos que a história não se reduz a processos determinísticos: é também feita de bifurcações, acasos, crises, daquilo que Shakespeare chamou de "
o som e a fúria". Isso não quer dizer, no entanto, que a desordem tomou o lugar da ordem. Um Universo assim seria tão insensato e impossível como aquele em que reinasse a ordem pura.

No reinado da ordem pura não há criação, não há possibilidade de nada novo. Se só existisse a desordem, agitação, a álea, o Universo seria simplesmente inviável.

É preciso, portanto, que desde o começo um certo número de princípios, considerados como de ordem, provoquem, sob certas condições, alguns encontros nessa agitação de partículas. O princípio de interação forte ligará e formará núcleos; o princípio de interação eletromagnética impelirá os elétrons, para que eles se coloquem em volta do núcleo e formem os átomos; enfim, o princípio gravitacional atua no plano da formação dos astros, das galáxias...

Em outros termos, estamos diante deste
paradoxo: as noções de ordem e desordem se repelem mutuamente. O Universo é um coquetel de ambas, uma mistura muito diferente segundo os casos, as condições, os lugares, os momentos... De acordo com o ângulo de observação, um dado fenômeno pode ao mesmo tempo se inclinar para um lado ou para o outro. Os átomos de carbono, por exemplo, são formados nos sóis anteriores ao nosso, pela reunião instantânea de três núcleos de hélio. No interior dessas fantásticas forjas que são os astros, as interações são inumeráveis e o encontro, no mesmo momento, de três núcleos de hélio, é tão raro quanto aleatório. Entretanto, uma vez ocorrido, uma lei entra em jogo: a do carbono que vai ser produzido.

É no encontro da ordem e da desordem que se produz a organização
. Quando os três núcleos de hélio se reúnem, nasce uma delas, a do átomo de carbono. Essas organizações criam, no seu próprio interior, uma ordem que lhes é própria. O mundo dos seres vivos obedece a todas as leis da física e da química; sua ordem é baseada na autoprodução, na regeneração etc.

Quanto á separabilidade, percebeu-se que ela leva à divisão das partes constituintes dos conjuntos organizados em sistemas, o que proporciona um conhecimento insuficiente, mutilado. Pode-se extrair um corpo de seu meio natural, colocá-lo num contexto experimental, controlado pelas variações que sobre ele atuam. Não é possível conhecer, numa única avaliação, a relação profunda que existe entre o corpo e seu ambiente. Os seres vivos não são nada sem o seu meio. As experiências realizadas em cativeiro, para investigar a inteligência de seres sociais como os chimpanzés, não nos têm permitido saber o que eles aprenderam depois delas. Com efeito, no curso de observações pacientes desses animais, em seu meio natural e em suas sociedades, pôde-se constatar que os indivíduos são diferenciados e que existem relações muito complexas entre eles. O chimpanzé adulto, por exemplo, não pratica o incesto.


A separabilidade perdeu seu valor absoluto
. Uma das peculiaridades de um conjunto organizado em sistema decorre do fato de que, ao existir, essa organização produz qualidades novas, chamadas "emergências". Estas retroagem sobre o todo, e não podem ser identificadas quando se tomam os elementos isoladamente. Desse modo, a organização viva gera um certo número de qualidades, como autoprodução, autonutrição e auto-reparação. Tais qualidades não se encontram nas partes, mas as beneficiam. Da mesma forma, uma sociedade produz emergências culturais, como a linguagem, que retroage sobre os indivíduos e lhes permite, por sua aquisição (que é também conhecimento), tornarem-se plenamente humanos.

Consumou-se hoje, nas ciências, uma segunda transformação
. A primeira aconteceu na física, no começo deste século, e destronou a ordem. A outra começou na segunda metade do século, com as ciências ditas sistêmicas, que lidam com os sistemas ecológicos espontâneos, que nascem das interações entre as plantas, os animais, o terreno geofísico, o clima. Todas essas interações produzem um conjunto mais ou menos auto-regulado, submetido a perturbações. Dessa maneira, a partir dos anos 80, a ecologia começou a levar em conta, além dos ecossistemas, o sistema ainda mais complexo e mais ou menos regulado que é a biosfera. Isso permitiu acrescentar os seres humanos e sua civilização técnica, e prever com alguma certeza os riscos possíveis da desregulação.

A partir da descoberta da tectônica das placas, nos anos 60, as
ciências da Terra (sismologia, vulcanologia, geologia), que não se comunicavam entre si, hoje são articuladas umas às outras. Essa circunstância tem permitido compreender o planeta como um conjunto articulado e complexo. O ecologista, por exemplo, não conhece todos os dados da zoologia, botânica, física, geografia; tem um conhecimento parcial de cada uma, "um pouco de tudo", como dizia Pascal. No entanto, ao apelar para as competências dessas diferentes especialidades, ele dá um sentido a seus conhecimentos e os articula entre si. Infelizmente, a sociologia não fez essa revolução. A biologia também não.

A
cosmofísica, na realidade, tornou-se inseparável da cosmologia, que é um ensaio de compreensão do mundo. A revolução da ressurreição do cosmos (durante um século, o espaço-tempo — uma espécie de infinito — havia tomado o seu lugar) começou logo que se constatou o afastamento das galáxias. Num determinado momento, supunha-se que elas eram muito próximas umas das outras e que havia existido um núcleo inicial. Hoje sabemos que o cosmos tem uma história e que ela sofreu transformações. O cosmólogo foi levado a refletir sobre o mundo, sua origem, seu propósito ou sentido, se é que existe um. Ele retoma assim a relação filosófica, reinventa uma filosofia em estado selvagem. Com efeito, por falta de interesse dos filósofos, os cientistas são obrigados a refletir sobre o sentido de suas descobertas.

A questão: "O que é o real?", que parecia tão evidente, reapareceu
. O que é o Universo onde — para seguir d'Espagnat — as coisas obviamente separadas são, num certo nível, inseparáveis, a partir do momento em que interagem? Trata-se de falar de inseparabilidade na separabilidade. O grande desafio do conhecimento repousa sobre esse paradoxo: para uma mesma realidade, depara-se ao mesmo tempo com o contínuo e com o descontínuo. As célebres experiências sobre a onda e o corpúsculo, relativas à natureza da partícula, mostraram que ela se comporta tanto como ondulação quanto como grânulo. Ou seja: ora de modo contínuo, ora de forma descontínua — o que é contraditório do ponto de vista lógico. Reencontramos os mesmos problemas no que se refere à sociedade: se a consideramos de modo global, trata-se de um continuum. Os indivíduos nela se dissolvem, como ainda imaginam numerosos sociólogos. Ou então, pode-se considerar que tanto os indivíduos quando a sociedade se diluem, o que permite a certos autores dizer que esta não existe, e que só contam as interações entre as pessoas. No caso da espécie e do indivíduo é a mesma coisa: não existem senão indivíduos. Contudo, quando se leva em conta um longo espaço de tempo, eles se dissolvem e surge a noção contínua de espécie.

Eis o paradoxo do separável e do inseparável
. Pascal não só já o havia colocado, mas tinha também indicado o caminho a seguir para avançar no conhecimento. Que dizia ele? Que "sendo todas as coisas ajudadas e ajudantes, causadas e causadoras, estando tudo unido por uma ligação natural e insensível, acho impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, e impossível conhecer o todo sem conhecer cada uma das partes". Nessa frase, de uma densidade e clareza extraordinárias, ele formula — no mesmo momento em que Descartes, triunfante, introduz o princípio da separação absoluta — o programa do conhecimento contemporâneo, que ainda não se conseguiu pôr em prática.

No que concerne à lógica, o umbral foi transposto no momento em que certos teóricos, ou pensadores, mostraram os limites da indução. Segundo o célebre exemplo de Popper, a regra geral que diz que "todos os cisnes são brancos" já não é una, porque não se pode pressupor que não existam, em algum lugar, cisnes negros. A indução não é certeza absoluta; significa, em muitos casos, a existência de fortes possibilidades, de quase-certezas. Essa "derrapagem", que ocorre também na dedução, foi assinalada pelos gregos. É o "paradoxo de Creta", segundo o qual todos os cretenses são mentirosos. Se um deles disser a verdade será, portanto, um mentiroso, porque todos os demais o são.

Esse paradoxo foi retomado por
Russell, que tentou superá-lo. Ele nos conduz ao teorema de Gödel, cujo sentido é múltiplo, desde que queiramos investigá-lo além de seus limites matemáticos. É um problema de lógica fundamental, que nos ensina que nenhum sistema tem a capacidade de dar a si próprio a prova de sua consistência, atribuir-se uma certeza suficiente a partir de suas próprias fontes. Conseqüência metalógica: nenhum ser humano pode se autoconhecer por completo. O mesmo acontece com a Humanidade. Eis uma abertura reveladora da inconclusibilidade do conhecimento — e da lógica.

A partir daí,
a ciência clássica se defrontou com a contradição e começou a temer o erro. Niels Bohr teve a coragem de afrontar a aporia da onda e do corpúsculo sem poder ultrapassá-la, o que significa reconhecer que se trata de dois termos contraditórios e complementares. Admite-se hoje que é possível chegar, por meios racionais e empíricos, a essas contradições. De resto, Kant já havia mostrado que no horizonte da razão havia um certo número de impasses fundamentais.

Pode-se enfrentar esse problema não sonhando entrar numa nova lógica, que nos permita integrar as contradições, mas mostrando que é possível promover um incessante
jogo de circularidade entre nossa lógica tradicional e as transgressões necessárias ao progresso de uma racionalidade aberta. Esse propósito pode ser ilustrado tomando o aforismo de Heráclito: "Viver de morte, morrer de vida". Eis uma proposição extravagante. No entanto, sabemos hoje que os seres vivos — nosso organismo, por exemplo — ao funcionar degradam sua energia, isto é, as moléculas de suas células. Estas morrem e são substituídas por outras. Dizendo de outra forma, nossa vida continua graças à morte celular, porque o organismo é dotado de um poder de regeneração contínua. Cada batimento do coração, cada movimento respiratório, é uma obra de regeneração. O oxigênio é um detoxificante.

Do mesmo modo,
uma sociedade vive da morte de seus indivíduos. Faz isso passando às novas gerações a cultura que começa a se decompor nos cérebros mais senis. É como viver da morte. Essa contradição lógica fundamental pode ser explicada, etapa por etapa, de modo segmentar, sem sair do caminho lógico (as células têm a capacidade de se reproduzir). Entretanto, para compreender esse fenômeno básico necessitamos do paradoxo (que vale também para os ecossistemas) chamado circularidade trófica, que ilustra a recursividade da vida: o ciclo vital, que é também de morte. São duas faces da mesma realidade. Morrer de vida: esse é o nosso processo de rejuvenescimento contínuo. É "mortificante" remoçar, eis a trágica lição da vida.

Estas formulações nos permitem
unir o que o pensamento clássico não conseguiu. Continua sendo verdade que o maior inimigo da vida é a morte, e que o maior desafio ao fenômeno da decomposição é o renascimento da vida. O pensamento deve ser capaz de confrontar os antagonismos, poder enxergar as aporias, sem que para tanto precise renegar o valor da lógica, a dedução ou a indução.

O Pensamento Complexo

Desses três desafios — a relação entre a ordem, a desordem e a organização; a questão da separabilidade ou a distinção entre separabilidade e não-separação; e o problema da lógica — podem ser tiradas
as três vertentes do pensamento complexo.

Discutir sem dividir
: a palavra complexus retira daí seu primeiro sentido, ou seja, "o que é tecido junto". Pensar a complexidade é respeitar a tessitura comum, o complexo que ela forma para além de suas partes.
A segunda linha fundamental é a imprevisibilidade. Um pensamento complexo deve ser capaz de não apenas religar, mas de adotar uma postura em relação à incerteza. As ciências físicas, que descobriram a incerteza, encontraram estratégias para lidar com ela, utilizando a estatística, por exemplo. A eletrônica permite alcançar resultados de grande precisão, em termos de conhecimento desse mundo flutuante. O pensamento capaz de lidar com a incerteza existe no domínio das ciências, mas não nos âmbitos social, econômico, psicológico e histórico.

O terceiro ponto é a oposição da racionalização fechada à racionalidade aberta. A primeira pensa que é a razão que está a serviço da lógica, enquanto a segunda imagina o inverso. Racionalizar significa acreditar que, se um determinado sistema é coerente, é portanto perfeito e por isso não precisa ser verificado. Vivemos sob o império de idéias racionalizadoras, que não conseguem se dar conta do que acontece e privilegiam os sistemas fechados, coerentes e consistentes. A ciência econômica contemporânea — formalizada e matemática — é um magnífico exemplo de racionalização. É inteiramente fechada, não consegue perceber as paixões, a vida, a carne dos seres humanos. Por isso, é incapaz de fazer previsões quando surgem eventos inesperados. Mais ainda que no século de Moliére, os Disfoirus triunfam.

O desafio é hoje generalizado: falar da incerteza é falar do caos. Emprego esse termo em seu sentido original, e não no derivado das teorias sobre o tema. Trata-se, como no pensamento grego, da idéia de que o cosmos, ou universo ordenado, nasce do caos, isto é, que forças genésicas extremamente violentas, comportando potencialmente a ordem e a desordem indiferenciadas, podem se exprimir num determinado momento. Os gregos pensavam que a origem do organizado, ou racional, é a loucura. É o que sustenta Platão, quando diz que diké, a justiça, é filha de hubris, o delírio. O caos é um pouco daquilo que corresponde à palavra physis, isto é, o mundo no qual estamos e do qual as coisas nascem. Está continuamente presente sob o cosmos, ou — pouco importa — no interior dele. O Universo é caos. Isso quer dizer que forças de desordem, ordem e organização brotam continuamente do seu seio, o que dá origem à constituição de novas estrelas, a colisões de galáxias e, em nossa Terra, ao conflito de impulsos de barbárie e associação.

De acordo com a teoria do caos, processos deterministas por natureza conduzem, com grande rapidez, a estados imprevisíveis e aparentemente desordenados. Por quê? Porque as interações são incontroláveis e o conhecimento total e absoluto dos estados iniciais não nos é permitido. É uma maneira de dizer que, mesmo na ocorrência de um determinismo inicial, há imprevisibilidade e desordem aparentes. O que compreendeu Henri Atlan, o termodinâmico de origem austríaca, quando disse que a vida existe à temperatura de sua própria destruição? Segundo o seu belo livro Entre le Cristal et la Fumée [Entre o Cristal e a Fumaça], é preciso entender que não somos nem fumaça nem cristal. Não somos seres fluidos nem sólidos. Somos híbridos que vivem à temperatura de sua combustão e destruição.

No desafio da complexidade, certos filósofos podem nos ajudar: Heráclito, com o enfrentamento das contradições; Sócrates com a dialética, cujo jogo de oposições faz progredir o conhecimento; Nicolás de Cusa, no plano místico; João da Cruz; Jacob Boehme; Pascal, em cuja obra não se reconheceu o papel central que desempenham as contradições; Hegel, evidentemente; Nietzsche, até certo ponto.

A Emergência dos Sistemas

Entretanto, para que adquiríssemos os meios intelectuais e conceituais necessários à entrada no universo da complexidade, foi preciso esperar pelos
anos 50, quando surgiram três teorias novas.

A primeira foi a cibernética de Norbert Wiener, que é ao mesmo tempo engenheiro e pensador. A ele devemos a idéia de retroação e circularidade, que estava latente desde a obra de Marx, na qual a superestrutura retroage sobre a infra-estrutura. Essa idéia de ciclos retroativos, que quebram a causalidade linear, mostra que os fatos podem, eles próprios, tornar-se causadores, ao retroagir sobre a causa, como Pascal já havia assinalado. Essa recursividade tem dois aspectos: um, regulador, que impede que os desvios destruam os sistemas; e outro potencialmente destruidor, chamado de feedback positivo, que os fazem explodir.

Nos anos 60, outro pensador, o nipo-americano Magoroh Maruyama, fez a seguinte proposição: não se pode ter criação, a não ser por meio dos feedbacks positivos. Em outros termos, quando um sistema se desregula, há um desvio que se amplifica. Nesse caso, o sistema - sobretudo se é complexo (social ou humano) - em vez de se desgovernar pode transformar-se. A criação não é possível senão pela desregulação.

O segundo aporte conceitual é a teoria dos sistemas, que propõe que o todo é maior que a soma de suas partes, mas também que é menor que ela; assim, a totalidade pode oprimir as partes e impedir que estas dêem o melhor de si mesmas. Isso tem conseqüências político-sociais indiretas. Um grande império não é melhor porque é um todo: sua bancarrota pode ser salutar, ao liberar as potencialidades das partes dominadas.

A idéia capital aqui é a de emergência. As qualidades que aparecem podem ser induzidas, mas não podem, em contrapartida, ser deduzidas logicamente. As emergências estão em qualquer espécie de flor. A evolução biológica levou, num determinado momento, a uma verdadeira explosão floral - mas persiste a questão de saber por que as flores têm necessidade de mostrar o seu sexo, de serem exibicionistas!

O terceiro aporte é a teoria da informação, de Shannon e Weaver. É um instrumento capaz de lidar com a incerteza, com o inesperado. Extrai-se do mundo do ruído algo de novo e muitas vezes surpreendente. A noção de informação, ao mesmo tempo física e semântica, nos introduz num mundo onde o novo pode aparecer, ser reconhecido, assinalado... Captamos o novo nessa relação permanente de ordem e redundância, na integração do conhecido e na ordem do ruído.

Essas três teorias formam uma espécie de "rés-do-chão". No primeiro estágio, pode-se colocar a contribuição de Von Foerster e Von Neumann. Este, refletindo sobre a diferença entre as máquinas artificiais - as que produzimos a partir de elementos fabricados e confiáveis - e as máquinas naturais, cujos elementos são pouco confiáveis (essas moléculas que se degradam por um nada!), perguntou-se: por que as primeiras, logo que começam a funcionar, iniciam seus processos de usura e degradação, enquanto que as segundas - os seres vivos - podem progredir, evoluir? A resposta é que os viventes têm o poder da auto-reparação, da auto-reforma.

A segunda idéia, de Von Foerster, é a "ordem a partir do ruído". Seu jogo experimental era o seguinte: tomava de uma caixa, dentro da qual colocava cubos com determinados lados imantados. Em seguida provocava agitação, isto é, introduzia na caixa uma energia não-direcional e, portanto, a desordem. Apesar disso, a presença de um princípio de ordem - os ímãs - permitia que os cubos chegassem a uma arquitetura bem organizada. Eis o fenômeno da auto-organização.

O segundo estágio é o que se poderia chamar de auto-eco-organização. Um ser vivo precisa nutrir-se para regenerar sua energia. Para ser autônomo, tem necessidade do meio ambiente, de onde retira não energia bruta, mas já organizada. Do mesmo modo, temos gravada em nossa organização uma ordem cósmica, a alternância do dia e da noite. Essa ordem (por uma espécie de mecanismo cíclico, que pode se tornar independente da luz e da obscuridade, como mostraram experiências em cavernas sem luz) nos permite alternar a vigília e o sono...

Tudo isso para dizer que a separação entre o conhecedor e o conhecido não pode ser alcançada. Sabe-se, depois de Kant, que para conhecer o mundo projetamos nele nossas categorias, nossos a priori espaciais e temporais.

Por uma Convivência Solidária


Essa circunstância pode ser ainda confirmada pelo funcionamento do cérebro humano: isolado no interior de uma caixa fechada, ele todavia se comunica com o Universo pela mediação de terminais sensoriais. Os estímulos visuais, por exemplo, são transformados num código binário, que tecido cerebral retrabalha e transforma em percepção ou representação.
O conhecimento não é senão uma tradução, uma reconstrução. Não conhecemos a essência das coisas exteriores. Sabemos das coisas objetivas, que podemos confirmar, mas não há conhecimento sem integração do conhecido. Essa circunstância vale também para os fenômenos sociais e humanos. O sociólogo e o economista são parte da sociedade, e a totalidade desta - ou seja, a cultura, a linguagem - está também neles.

Num estágio superior, vejo a necessidade de uma reforma paradigmática dos conceitos dominantes e de suas relações lógicas, que controlam, inconsciente e incorrigivelmente, todo o nosso conhecimento. O paradigma sob o qual vivemos é o da disjunção e da redução: e ele nos torna cegos, nesta era de globalidade e mundialização.

Não podemos produzir por decreto a reforma necessária, porque ela está inscrita no próprio curso da história; pensemos na passagem do paradigma ptolomaico ao copernicano. Tal reforma consiste em passar para um paradigma de religação, conjunção, implicação mútua e distinção. Ela pressupõe uma mudança no ensino, que por sua vez implica uma transformação do pensamento. É um círculo vicioso, do qual precisamos sair um dia... Um conhecimento pertinente é aquele que é capaz de contextualizar, isto é, religar, globalizar. A ação adquire um novo sentido: fazer as apostas. Pascal - novamente ele - apostava em Deus. Nós apostamos em valores que não podem ser fundamentados. Assim como o mundo, a ética se autoproduz.

Conhecer é também uma estratégia, que pode se modificar em relação ao programa inicial, que é flexível e leva em conta o que chamo de ecologia da ação. Sabe-se hoje que uma ação, lançada ao mundo, entra num turbilhão de interações e retroações, que podem se voltar contra a intenção inicial.

Por fim, uma última idéia: o sentimento de uma comunidade de destino profundo, que liga as idéias de solidariedade e fraternidade. O laço entre complexidade e solidariedade não é mecânico. Uma sociedade muito complexa proporciona muitas liberdades de jogo a seus indivíduos e grupos. Permite-lhes ser criativos, algumas vezes delinqüentes. A complexidade tem, assim, seus riscos. Ao atingir o extremo da complexidade a sociedade se desintegra. Para impedi-lo, pode-se recorrer a medidas autoritárias; entretanto, supondo que desejemos o mínimo possível de coerção, o único cimento que nos resta é a solidariedade vivida.

EDGAR MORIN é diretor emérito do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, e presidente da Association pour la Pensée Complexe, também sediada em Paris.

Elogio da metamorfose. Artigo de Edgar Morin

“A verdadeira esperança sabe que não tem certeza. É a esperança não no melhor dos mundos, mas em um mundo melhor. A origem está diante de nós, disse Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem”, escreve o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, em artigo publicado no jornal francês Le Monde, 9-01-2010. A tradução é do Cepat.

Quando um sistema é incapaz de tratar os seus problemas vitais, se degrada ou se desintegra ou então é capaz de suscitar um meta-sistema capaz de lidar com seus problemas: ele se metamorfoseia. O sistema Terra é incapaz de se organizar para resolver seus problemas críticos: perigos nucleares que se agravam com a expansão e, talvez, a privatização das armas atômicas; degradação da biosfera; economia mundial sem verdadeira regulação; retorno da fome; conflitos étnico-político-religiosos que tendem a se desenvolver em guerras de civilização.

O aumento e a aceleração destes processos podem ser considerados como o desencadeamento de um poderoso feedback negativo, um processo pelo qual um sistema se desintegra irremediavelmente.

A desintegração é provável. O improvável, mas possível é a metamorfose. O que é uma metamorfose? Nós vemos inúmeros exemplos no reino animal. A lagarta que se fecha num casulo começa um processo ao mesmo tempo de destruição e de autoreconstrução, como uma organização e uma forma de borboleta, diferente da lagarta, permanecendo a mesma. O nascimento da vida pode ser concebido como a metamorfose de uma organização físico-química, que, tendo chegado a um ponto de saturação, cria a meta-organização viva que, embora tendo os mesmos aspectos físico-químicos, produz novas qualidades.

A formação das sociedades históricas – no Oriente Médio, na Índia, na China, no México, no Peru – constitui uma metamorfose a partir de um conjunto de antigas sociedades de caçadores-coletores, que produziu as cidades, o Estado, as classes sociais, a especialização do trabalho, as grandes religiões, a arquitetura, as artes, a literatura e a filosofia. E também as piores coisas: a guerra e a escravidão. A partir do século XXI se coloca o problema da metamorfose das sociedades históricas em uma sociedade-mundo de um novo tipo, que englobará a ONU, sem suprimi-la. Porque a continuação da história, isto é, das guerras, por parte dos Estados com armas de destruição em massa, leva à destruição da humanidade. Ainda que, para Fukuyama, sejam as capacidades criativas da evolução humana que se esgotaram com a democracia representativa e a economia liberal, devemos pensar que, ao contrário, é a história que se esgota e não as habilidades criativas da humanidade.

A ideia de metamorfose, mais rica do que a ideia de revolução, guarda a radicalidade transformadora, mas a liga à conservação (da vida, do patrimônio cultural). Para ir rumo à metamorfose, como mudar de caminho? Mas se parece possível corrigir alguns males, é impossível romper a lógica técnico-científico-econômico-civilizacional que leva o planeta ao desastre. No entanto, a História humana mudou muitas vezes de caminho. Tudo recomeça por uma inovação, uma nova mensagem desviante, marginal, pequena, muitas vezes invisível para os contemporâneos. Assim começaram as grandes religiões: budismo, cristianismo, islamismo. O capitalismo se desenvolveu parasitando as sociedades feudais para finalmente decolar e, com a ajuda de monarquias, desintegrá-las.

A ciência moderna formou-se a partir de algumas mentes desviantes dispersas, Galileu, Bacon, Descartes, e então criou suas redes e associações, se introduziu nas universidades no século XIX, e depois, no século XX nas economias e nos Estados para se tornar um dos quatro poderosos motores da nave espacial Terra. O socialismo nasceu de algumas mentes autodidatas e marginalizadas no século XIX para se tornar uma formidável força histórica no século XX. Hoje, tudo tem que ser repensado. Tudo deve recomeçar.

Com efeito, tudo começou, mas sem que se soubesse. Estamos no estágio de começos, modestos, invisíveis, marginais, dispersos. Porque já existe, em todos os continentes, uma efervescência criativa, uma multiplicidade de iniciativas locais, em conformidade com a revitalização econômica, ou social, ou política, ou cognitiva, ou educacional ou ética, ou da reforma da vida.

Estas iniciativas estão isoladas, nenhuma administração as leva em conta, nenhum partido toma conhecimento delas. Mas elas são o viveiro do futuro. Trata-se de reconhecê-las, inventariá-las, cotejá-las, catalogá-las, combiná-los e de conjugá-las em uma pluralidade de caminhos reformadores. São estes caminhos múltiplos que podem, através de um desenvolvimento conjunto, se combinar para formar o novo caminho que nos levaria em direção à metamorfose ainda invisível e inconcebível. Para desenvolver formas que vão desembocar no Caminho, é preciso identificar alternativas limitadas, que limitam o mundo do conhecimento e do pensamento hegemônicos. Assim, é preciso ao mesmo tempo globalizar e desmundializar, crescer e diminuir, desenvolver e envolver.

A orientação mundialização/desmundialização significa que, se é preciso multiplicar os processos de comunicação e de planetarização culturais, é preciso que se constitua uma consciência da Terra-Pátria, mas também é preciso promover, de maneira desmundializante, a alimentação de proximidade, os artesanatos locais, as lojas locais, a jardinagem suburbana, as comunidades locais e regionais.

A orientação “crescimento/decrescimento” significa que precisamos aumentar os serviços, as energias verdes, os transportes públicos, a economia plural capaz de incluir a economia social e solidária, o desenvolvimento da humanização das megacidades, a pecuária orgânica, mas diminuir as intoxicações consumistas, a alimentação industrializada, a produção de objetos descartáveis e não consertáveis, o tráfego de automóvel, o tráfego de caminhões (em benefício do transporte ferroviário).

A orientação desenvolvimento/envolvimento significa que o objetivo não é mais fundamentalmente o desenvolvimento de bens materiais, da eficiência, da rentabilidade, do cálculo; é também o retorno de cada um às necessidades interiores, o grande retorno à vida interior e ao primado da compreensão do outro, do amor e da amizade.

Já não basta mais apenas denunciar. Precisamos propor. Não basta apelar à urgência. É preciso saber também começar a definir os caminhos que levarão ao Caminho. É para isso que estamos tentando contribuir. Quais são as razões para ter esperança? Podemos formular cinco princípios de esperança.

1. O surgimento do improvável. Assim, por duas vezes a vitoriosa resistência da pequena Atenas à formidável força dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável e permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Igualmente inesperado foi o congelamento da ofensiva alemã diante de Moscou, no outono de 1941, e depois a contra-ofensiva vitoriosa de Jukov que começou em 5 de dezembro e, depois, no dia 8 de dezembro com o ataque a Pearl Harbor, que marcou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

2. As virtudes geradoras/criadoras inerentes à humanidade. Assim como existem em qualquer organismo humano adulto células-tronco dotadas de habilidades polivalentes (totipotentes) próprias às células embrionárias, mas inativas, existem em cada ser humano, em cada sociedade humana, virtudes regeneradoras, geradoras e criativas em estado dormente ou inibidas.

3. As virtudes da crise. Ao mesmo tempo que forças regressivas e desintegradoras, as forças criadoras despertam na crise planetária da humanidade.

4. Com o que se combinam as virtudes do perigo: “Aí onde cresce o perigo cresce também o que salva”. A chance suprema é inseparável do risco supremo.

5. A aspiração multimilenar da humanidade à harmonia (paraíso, depois utopias, depois ideologias libertárias/socialistas/comunistas, depois aspirações e revoltas juvenis dos anos 1960). Esta aspiração renasce no formigueiro de iniciativas múltiplas e dispersas que alimentarão o caminho da reforma, consagradas a se unirem ao novo caminho.

A esperança estava morta. As gerações mais velhas estão decepcionadas com falsas esperanças. As gerações mais jovens se desconsolam com o fato de que não haja mais causas como a nossa resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a nossa causa trazia em si o seu contrário. Como disse Vasily Grossman de Stalingrado, a maior vitória da humanidade foi ao mesmo tempo a sua maior derrota, desde que o totalitarismo stalinista saiu vitorioso. A vitória das democracias restabeleceu no mesmo ato seu colonialismo. Hoje, a causa é inequivocamente sublime: trata-se de salvar a humanidade.


A verdadeira esperança sabe que não tem certeza. É a esperança não no melhor dos mundos, mas em um mundo melhor. A origem está diante de nós, disse Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem.