"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 19 de outubro de 2013

Crime eleitoral na festa de padroeiro em Caicó

Em Caicó a diocese da Cidade se utiliza de um carro de som de um Deputado estadual com o Número de campanha e o nome de Nélter Queiroz em tamanho privilegiado, interessante é como o crime eleitoral passa despercebido já que a utilização ocorre em espaço público.

A igreja católica brasileira sempre fora "puxadinho" dos coronéis, satisfaz a miséria e ajunta os votos,mas o que ocorre é um crime disposto na lei das eleições e ocorre com frequência nas festas realizadas pela diocese da Cidade.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O fascismo na América? O caso do Tea Party

Este artigo discute o movimento Tea Party , observando suas características mais importantes, algumas das quais se assemelham aos do l catolicismo nacional espanhol.

Artigo publicado por  Vicenç Navarro na revista SYSTEM , 18 de outubro de 2013

Há uma percepção generalizada nos maiores meios de comunicação espanhóis que o Tea Party nos EUA é um movimento social que surgiu da sensibilidade libertária em resposta ao que foi percebido por grandes setores da população dos EUA como o aumento do intervencionismo do Estado federal dos EUA sob a presidência de Barack Obama. O correspondente Antonio Cano do El Pais nos EUA tem sido um promotor desse ponto de vista, o que também é promovido por este movimento e mídia conservadora liberais e ultra simpáticos a ele.

A realidade, no entanto, é bastante diferente. Ambas as suas origens e sua prática atual indica um outro tipo de movimento, que visa defender os interesses econômicos e financeiros de grupos empresariais específicos ( que vão desde as empresas de tabaco para as companhias de seguros , bancos e companhias de petróleo) . É um movimento cuja base social é setores de alta renda das classes abastadas, que acreditam que seus impostos estão indo  sustentar as minorias pobres do país de classe média e pobre. É extremamente bem financiada, com uma riqueza de recursos de grupos económicos e financeiros que gostam de grandes recursos políticos e meios de comunicação. Seu poder político , que são derivados de controlar o sistema eleitoral, pela redefinição dos círculos eleitorais que são projetados pelas legislaturas dos estados controlados pelo Partido Republicano , favorecendo a escolha de políticos ultra- liberais, de nenhuma sensibilidade democrática.

Seus membros são características nacionais com catolicismo espanhol . São considerados parte de um país escolhido por Deus , o nacionalismo extremo , que também tem a missão de salvar os EUA de "ideologias anti -americanos" , liberando governo federal agora controlada por um anti- Cristo. 62% dos membros do Tea Party ( de acordo com a Public Policy Polling ) acham que o Presidente Obama quer estabelecer o socialismo em os EUA , 42% acreditam que o presidente Obama é muçulmano e quer impor a lei islâmica no sistema judicial norte-americano, o 21% acreditam que o governo federal está matando as pessoas para estimular o medo das armas ( sim, você leu essa frase ) e uma longa lista de falsidades óbvias, suportados por um vasto sistema de doutrinação , como ter 20 Losantos -in horário nobre, ao longo do território dos EUA : Rush Limbaugh , Glenn Beck, Michael Savage e Fox News. O montante de dinheiro que estes dispositivos têm disponível é enorme. É o movimento de extrema-direita mais próximo ao fascismo europeu, embora tenha suas características próprias que o distinguem .

Seu poder deriva do seu controle de grandes recursos (financiados por esses grupos empresariais ) e grande número de legislaturas dos Estados que são, como indiquei anteriormente , definindo os círculos eleitorais das eleições federais. Isso explica por que , mesmo quando o Partido Democrata venceu a última eleição para o Congresso (mais de um milhão e meio mais votos do que os republicanos ) , agora o Congresso está nas mãos do Partido Republicano , controlada pelo Tea Party.

Sua eficácia é também devido ao seu profundo sentimento de pertença e participação ativa no processo eleitoral . Uma vez que a abstenção é enorme nas eleições parlamentares (uma das instituições mais desacreditadas em os EUA ) , uma minoria muito , como o Tea Party pode ganhar a eleição facilmente. Nas eleições parlamentares , apenas 30 % dos votos eleitorado ( nas eleições presidenciais , que coincidem com o Congresso , fez a 52%) , portanto , muito mobilizados pode terminar (com 16% dos votos) controlar os poderes legislativos do Estado eo Congresso . Sua motivação é muito acentuada , pois eles têm um fanatismo religioso que mantém a crença de que eles estão lutando contra o anti- Cristo , sendo altamente manipulado por grupos econômicos que financiam . Seu fanatismo é complementada por uma enorme ignorância , acreditando , por exemplo, que a paralisia do governo federal ea impossibilidade de pagar a dívida vai melhorar a economia dos EUA. Assim, o controle do Congresso, através do Partido Republicano representa uma ameaça ao sistema econômico dos EUA , mesmo para o sistema econômico mundial . A situação da dívida pública é um exemplo disso , pois eles estão tentando fazer chantagem ao presidente Obama para parar a reforma da Administração Democrática saúde e pensões públicas no país. Seu discurso é semelhante ao utilizado por estabelecimentos europeias e espanholas que , sob o pretexto de reduzir o déficit público é eliminar o Estado-providência , impondo políticas que beneficiam o mundo dos negócios e as classes abastadas.

Possibilidades de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco

Mais uma publicação de um órgão oficial reafirma a existência de racismo institucional no Brasil. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) anunciou nesta quinta-feira (17) que as possibilidades de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco.

Os dados estão presentes no relatório Segurança Pública e Racismo Institucional, que compõe o Boletim de Análise Político-Institucional do Ipea. Os pesquisadores analisaram o conjunto da população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes.

Ao analisar as mortes violentas, o Ipea destaca que enquanto a taxa de homicídios de negros é de 36,5 por 100 mil habitantes, entre os brancos a relação é de 15,5 por 100 mil habitantes. A cor negra ou parda faz aumentar em cerca de 8 pontos percentuais a probabilidade de um indivíduo ser vítima de homicídio.

A vitimização desproporcional de jovens negros é caracterizada pelos movimentos sociais como uma situação de genocídio. O problema passou a ser denunciado com maior ênfase nos últimos anos, quando cresceu consideravelmente o número de jovens negros mortos por policiais.

Nesta semana, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves (PMDB), se comprometeu a colocar em votação o Projeto de Lei que põe fim aos registros de “resistência seguida de morte”.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

Um novo retrato da desigualdade global

A desigualdade nos EUA começou a crescer há 30 anos, impulsionada por reduções de impostos para os ricos e relaxamento das regulamentações do mercado financeiro. Não é coincidência. O fenómeno foi agravado devido a investimentos insuficientes em infraestrutura, educação e saúde, e em redes de seguridade social. E a Europa parece ansiosa para seguir o mau exemplo dos EUA. Por Joseph Stiglitz
Na última década, as desigualdades de rendimentos cresceram mesmo em países tradicionalmente mais igualitários, como Alemanha, Suécia e Dinamarca. Foto de Paulete Matos
Sabe-se perfeitamente hoje que as desigualdades de rendimento e riqueza na maior parte dos países ricos, e especialmente nos Estados Unidos, dispararam, nas últimas décadas e, de modo trágico, agravaram-se ainda mais desde a Grande Recessão. Mas e no resto do mundo? A distância entre os países está a reduzir-se, à medida que potências económicas como a China e Índia resgatam centenas de milhões de pessoas da pobreza? E no interior das nações pobres e de riqueza média, a desigualdade está a piorar ou a ser reduzida? Estamos a caminhar para um mundo mais igual ou mais injusto?
São questões complexas. Uma pesquisa de um economista do Banco Mundial de nome Branko Milanovic, junto com outros académicos, começou a apontar algumas respostas.
A partir do século 18, a revolução industrial produziu um aumento gigantesco da riqueza na Europa e América do Norte. É claro, a desigualdade nestes países era chocante. Pense nas indústrias têxteis de Liverpool e Manchester, na Inglaterra dos anos 1820, ou nas favelas do baixo Leste de Manhattan ou do Sul de Chicago, nos 1890. Mas o abismo entre os ricos e o resto, como um fenómeno global, alargou-se ainda mais até a II Guerra Mundial. Àquela época, a desigualdade entre os países era maior que a desigualdade no seu interior.
Mas depois da Guerra Fria, no final dos anos 1980, a globalização económica acelerou-se e a distância entre as nações começou a encolher. O período entre 1988 e 2008 “pode ter representado o primeiro declínio na desigualdade global entre cidadãos do mundo desde a Revolução Industrial”, diz Milanovic, que nasceu na antiga Jugoslávia. É o autor de Os que têm e os que não têm: uma história breve e idiossincrática da desigualdade global [sem edição em português], um texto publicado em novembro último. Embora a distância entre algumas regiões tenha diminuído notavelmente – em especial, entre a Ásia e as economias avançadas do Ocidente –, persistem grandes abismos. Os rendimentos globais, por país, aproximaram-se uns dos outros nas últimas décadas, particularmente devido à força do crescimento da China e da Índia. Mas a igualdade geral entre os seres humanos, considerados como indivíduos, melhorou muito pouco. O coeficiente de Gini, uma medida de desigualdade, melhorou apenas 1,4 pontos, entre 2002 e 2008.
Ou seja: embora nações da Ásia, do Médio Oriente e da América Latina, como um todo, possam estar a aproximar-se do Ocidente, os pobres são deixados para trás em toda parte – inclusive em países como a China, onde se beneficiaram de alguma forma da melhora dos padrões de vida. Entre 1988 e 2008, descobriu Milanovic, os rendimentos dos 1% mais ricos do planeta cresceram 60%, enquanto os 5% mais pobres não tiveram mudanças nos seus rendimentos. E embora os rendimentos médios tenham melhorado bastante, nas últimas décadas, há ainda enormes desequilíbrios: 8% da humanidade abocanham 50% do rendimento global; o 1% mais rico fica, sozinho, como 15%. Os ganhos de rendimentos foram maiores entre a elite global – executivos financeiros e corporativos nos países ricos – e entre as grandes “classes médias emergentes” da China, Índia, Indonésia e Brasil. Quem perdeu? Os africanos, alguns latino-americanos e gente na Europa Oriental pós-comunista e na antiga União Soviética, apurou Milanovic.
Os Estados Unidos oferecem um exemplo particularmente sombrio para o mundo. E como, de diversas maneiras, eles “lideram o mundo”, se outros seguirem o seu padrão não poderemos esperar por um futuro mais justo.
Por um lado, a ampliação das desigualdades de rendimentos e riqueza nos EUA é parte de uma tendência mundial. Um estudo de 2011, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), verificou que as desigualdades começaram a crescer no final dos anos 1970 e início dos 80, nos EUA e Grã-Bretanha (além de Israel). A tendência começou a espalhar-se pelo mundo no final dos anos 1980. Na última década, as desigualdades de rendimentos cresceram mesmo em países tradicionalmente mais igualitários, como Alemanha, Suécia e Dinamarca. Com algumas poucas exceções – França, Japão, Espanha – os 10% mais ricos, na maior parte das economias avançadas, dispararam, enquanto os 10% mais pobres ficaram para trás.
Mas a tendência não foi universal, nem inevitável. Nestes mesmos anos, países como Chile, México, Grécia, Turquia e Hungria conseguiram reduzir de modo significativo as desigualdades de rendimentos (em alguns casos, muito altas). Isso sugere que a desigualdade é um produto da política, e não apenas de forças macroeconómicas. Não tem amparo nos factos a ideia de que a desigualdade é um subproduto inevitável da globalização, do livre movimento de trabalho, capital, bens e serviços, ou das mudanças tecnológicas que favorecem os assalariados melhor formados ou capacitados.
Entre as economias avançadas, os EUA têm algumas das piores disparidades de rendimentos e oportunidades, com consequências macroeconómicas devastadoras. O Produto Interno Bruto (PIB) do país mais que quadruplicou, nos últimos quarenta anos, e quase dobrou nos últimos 25, mas, como se sabe agora, os benefícios concentraram-se no topo – e, cada vez mais, no topo do topo.
No ano passado, o 1% dos norte-americanos mais ricos apoderou-se de 22% do rendimento do país. O 0,1% mais rico, sozinho, abocanhou 11%. E 95% de todos os ganhos de rendimentos desde 2009 foram para o 1% mais rico. Estatísticas recentes demonstram que o rendimento mediano nos EUA não cresceu em quase um quarto de século. O homem norte-americano típico ganha menos do que ganhava há 45 anos, se considerada a inflação; homens que terminaram o ensino médio mas não completaram quatro anos de ensino superior recebem quase 40% menos do que há quatro décadas.
A desigualdade norte-americana começou a crescer há trinta anos, impulsionada por reduções de impostos para os ricos e relaxamento das regulamentações do mercado financeiro. Não é coincidência. O fenómeno foi agravado devido a investimentos insuficientes em infraestrutura, educação e saúde, e em redes de seguridade social. O aumento da desigualdade avança em espiral, ao corroer o sistema político e a governança democrática.
E a Europa parece ansiosa para seguir o mau exemplo dos EUA. A adesão a políticas de “austeridade”, da Grã-Bretanha à Alemanha, está a conduzir a desemprego alto, salários em queda e desigualdade crescente. Governantes como Angela Merkel, a chanceler alemã reeleita, e Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, argumentam que os problemas europeus resultam de gastos exagerados com o estado de bem-estar social. Mas esta linha de raciocínio apenas mergulhou o continente em recessão (ou mesmo depressão). O facto de o processo ter atingido o fundo do poço (a recessão “oficial” pode ter terminado) oferece pouco conforto para os 27 milhões de desempregados na União Europeia. Em ambos os lados do Atlântico Norte, os fanáticos da “austeridade” dizem: “vamos em frente; são pílulas amargas de que precisamos para alcançar a prosperidade”. Mas prosperidade para quem?
A financeirização excessiva – que ajuda a explicar a condição britânica de segundo país mais desigual (depois dos EUA), entre as economias avançadas – também permite compreender os mecanismos da desigualdade. Em muitos países, controles débeis sobre as empresas e coesão social erodida produziram abismos crescentes entre os rendimentos dos executivos-chefes e dos trabalhadores comuns. Ainda não se chegou ao nível de 500 x 1, das maiores corporações norte-americanas (segundo estatísticas da Organização Internacional do Trabalho), mas a níveis bem mais alto que os de antes da recessão. O Japão, que reduziu os salários dos executivos, é uma exceção notável. As inovações norte-americanas em rent-seeking – enriquecer não por meio de um aumento do tamanho do bolo, mas manipulando o sistema para abocanhar uma fatia maior – tornaram-se globais.
A globalização assimétrica produziu efeitos em todo o mundo. A mobilidade do capital obrigou os trabalhadores a fazer concessões salariais, e os governos a oferecer benefícios fiscais. O resultado é uma corrida para baixo. Os salários e condições de trabalho estão sob ameaça. Empresas pioneiras, como a Apple, cuja atividade baseia-se em grandes avanços científicos e tecnológicos (muitos dos quais, financiados pelos governos) também mostraram grande destreza em evitar impostos. Apropriam-se do esforço coletivo, mas não dão nada em retorno.
A desigualdade e pobreza entre as crianças é um desastre moral mais chocante. Elas desmentem as hipóteses da direita, segundo as quais a pobreza resulta de preguiça e escolhas erradas: as crianças não podem escolher os seus pais. Nos EUA, uma em cada quatro crianças vive na pobreza; na Espanha e Grécia, uma em cada seis; na Austrália, Grã-Bretanha e Canadá, mais de uma em cada dez. Nada disso é inevitável. Alguns países optaram por criar economias menos desiguais: a Coreia do Sul, onde há meio século apenas uma em cada dez pessoas chegava à universidade, tem hoje um dos índices mais altos de acesso ao ensino superior.
Por todas estas razões, penso que estamos a caminhar para um mundo dividido não apenas entre os que têm e os que não têm. Alguns países terão sucesso ao criar prosperidade compartilhada – a única que, a meu ver, é verdadeiramente sustentável. Outros, deixaram a desigualdade correr solta. Nestas sociedades divididas, os ricos irão encastelar-se em bairros murados, quase completamente separados dos pobres, cujas vidas serão quase insondáveis para eles – e vice-versa. Visitei sociedades que parecem ter escolhido este padrão. Não são lugares em que a maior parte de nós gostaria de viver – seja nos enclaves enclausurados, seja nas favelas em desespero.
Publicado no blog The Great Divide, do New York Times
Tradução de Antonio Martins para o Outras Palavras

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"Meus parabéns pelo belo trabalho"!

Quem realmente acredita que poderá solucionar uma taxa de mais de 27 homicídios por cem mil habitantes, em Alagoas chega a 72, com polícia nas ruas? Teria que ter tanta polícia que seria o suficiente para tornar-se a única "autoridade" do país. Muitos "discursos" propagam a ideia cega de que falta "investir" em segurança pública para todo custo, talvez seja mesmo no tocante a garantia de direitos, não de repressão da forma como é pregada.

O discurso policialesco de bom trabalho colocando marginais nas cadeias precisa ser substituído pelo discurso desconcentração da renda nacional e melhoria em serviços públicos básicos. Atitude criminosa exaltada é um sentido de mundo fácil de ser colocado na cabeça, mas difícil de ser retirado com repressão.

Não adianta nada dizer acerca deste tema, quem vai explicar que o assaltante ou homicida que rouba e mata sem nenhum tipo de piedade, que chegar mesmo a rir das vítimas, que fala que vai continuar praticando crimes merecem algum tipo de consideração ou proteção? A questão não é querer vingança, esqueça a figura individualizada, pensemos no quadro social de violência roupa suja e rasgada ou terno e gravata. Assassina-se desde Canudos, Araguaia, Chico Mendes, Chacina de Candelária, afora a fome, a inutilidade de oligarquias no poder. Como disse no início não se chega a um número de aproximadamente 111 mortes a cada  19 hores, número de mortos no Carandiru, por livre disposição de monstros, será que há tanta diferença assim entre os "cidadãos de bem" e os "bandidos"?

VICENÇ NAVARRO: As origens do fascismo na Europa

Este artigo analisa as origens do nazismo na Europa, assinalando pontos semelhantes que se estão a dar agora neste continente. O artigo assinala que as políticas neoliberais são as responsáveis por este fenômeno.
“Hitler foi eleito em 1933. E o que caracterizou o período pré 1933 não foi uma elevada inflação, mas sim uma enorme depressão económica, acompanhada e causada, em parte, pelas enormes políticas de austeridade” - Foto de Desempregados no porto de Hamburgo (1931)
Um dos maiores mitos que se reproduz nos establishmentseconómicos e políticos europeus é que as políticas de austeridade promovidas na União Europeia pelo governo alemão são consequência do temor que este país, a Alemanha, tem ao perigo da inflação, pois assume-se (erroneamente) que foi a inflação que causou o surgimento do nazismo na Alemanha e a vitória de Hitler naquele país. Daí a necessidade de levar a cabo as políticas de austeridade (com os cortes da despesa pública, incluindo no social, e a baixa de salários que caracteriza tais políticas).
Esta explicação do que está a ocorrer na Europa alcançou a categoria de dogma, de maneira que quando se explica o porquê do Banco Central Europeu ter como objetivo principal (na realidade, o único) o controle da inflação, a resposta padrão é que esta foi uma condição posta pelo governo alemão e pelo seu Banco Central, o Bundesbank, para que se estabelecesse o Banco Central Europeu, e isso como resultado do temor do governo alemão a que a substituição do marco pelo euro pudesse fazer disparar a inflação.
Este mito, no entanto, é fácil de mostrar que não corresponde com o ocorrido na Alemanha. O historiador económico Frederick Taylor, num interessante artigo “The German trauma”, publicado em New Statesman (05.09.13), questiona esta interpretação, contribuindo com dados que assinalam o erro da dita suposição. Mostra, em primeiro lugar, que a inflação não estava limitada à Alemanha, pois outros países, como Áustria, Hungria, Rússia e Polónia, tinham tido também uma elevada inflação, sem que tivesse dado origem ao surgimento do nazismo. E noutros momentos, Grécia, Itália e França tinham tido também níveis de elevada inflação sem que aparecesse um Hitler na sua vida política. A inflação, pois, não foi a causa do nazismo.
Na realidade, se olharmos a evolução económica, relacionando-a com a política, vemos que Hitler foi eleito em 1933. E o que caracterizou o período pré 1933 não foi uma elevada inflação, mas sim uma enorme depressão económica, acompanhada e causada, em parte, pelas enormes políticas de austeridade que se estavam a impor e que criaram uma enorme destruição de postos de trabalho (seis milhões) e uma grande insatisfação e descontentamento popular com oestablishment político do país, algo semelhante ao que está a ocorrer agora na periferia da União Europeia. E nesta depressão, como acentuava Taylor, havia deflação, o contrário da inflação.
Esta enorme austeridade estava a ser imposta pelo establishment económico e financeiro alemão (que Taylor define como a upper class da Alemanha). Esta austeridade considerava-se necessária para pagar os enormes custos das reparações que os aliados tinham imposto à Alemanha perdedora da I Guerra Mundial (e cuja severidade tinha sido denunciada por Keynes no seu livro “The Economic Consequences of the Peace”, escrito em 1919). E também tinha por objetivo controlar o perigo de inflação, consequência da elevada dívida pública e o grande défice público (resultado do pagamento das reparações). Dita austeridade teve êxito na redução da inflação (redução que beneficiou a upper class), mas prejudicou imenso as classes populares. Daí surgiu o nazismo, baseado no descontentamento popular, e ajudado pelas profundas divisões das esquerdas.
É interessante assinalar as semelhanças com o período atual. Estamos a ver uma rejeição das classes populares para com esta Europa que não consideram, com razão, a sua Europa. E esta rejeição inclui os partidos governantes ou ex-governantes de esquerda, que contribuíram para esta austeridade. Daí o surgimento do fascismo de base popular ao longo da Europa, realidade que o establishment europeu (incluindo as suas esquerdas governantes) facilitou o surgimento, e que agora não entende. As lições dos anos trinta explicam que depois da II Guerra Mundial, os aliados atuaram de uma maneira diferente do que ocorreu depois da I Guerra Mundial, perdoando metade da dívida que a Alemanha tinha para com os aliados, facto a que a Alemanha atual, beneficiária daquela medida dos aliados, se opõe à aceitação para aqueles países, como os países periféricos, que adquiriram enormes dívidas com o Estado alemão e com os bancos alemães, resultado das políticas de austeridade que têm estado a impor. Esta é a situação que está a levar ao aparecimento do fascismo popular na Europa.
Artigo publicado por Vicenç Navarro no diário digital O PLURAL, 14 de outubro de 2013 Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Situação análoga à escravidão atinge 29,8 milhões de pessoas no mundo

A África e a Ásia, de acordo com o documento, são os continentes com a maior incidência e prevalência de pessoas nessa condição. Somadas, a Índia, China, o Paquistão, a Nigéria, Etiópia, Rússia, Tailândia, o Congo, Myanmar e Bangladesh têm 76% do total mundial, cerca de 22,6 milhões de pessoas.

Nos parâmetros do índice, escravidão é a condição de uma pessoa sobre a qual é exercido qualquer poder de propriedade. Entre essas condições estão a servidão por dívida, casamento forçado ou servil e a venda ou a exploração de crianças – inclusive em conflito armado. Por incidência, entende-se a proporção ou a quantidade de novos casos. Por prevalência, o total de casos em um determinado momento. Assim, a incidência reflete as condições de vida nos países em questão – que propiciam, ou não, o aparecimento de casos e a manutenção dos índices.

“[Os parâmetros] não são baseados em legislação, mas, na realidade, as pessoas exploradas de alguma forma, especialmente a econômica”, disse à Agência Brasil o autor do relatório, Kevin Bales.

De acordo com o índice, os países com o maior número de trabalho escravo são a Índia, China e o Paquistão. Na Índia, existem de 13,3 milhões e 14,7 milhões de pessoas escravizadas – quantidade mais de duas vezes superior à população do Paraguai, com cerca de 6 milhões de habitantes. Segundo o levantamento da Walk Free, a maioria dos casos é a escravização de indianos pelos próprios indianos, por meio da manutenção de dívidas e de trabalho forçado.

A China, o segundo país com a maior quantidade absoluta de pessoas em condição análoga à escravidão, estima-se que haja de 2,8 milhões e 3,1 milhões de casos, entre os quais o uso de mão de obra forçada de homens, mulheres e crianças, servidão doméstica e exploração sexual.

Proporcionalmente, a Mauritânia, na Costa Oeste da África, é o país que lidera o ranking dos de maior incidência de trabalho escravo – de 140 mil e 160 mil pessoas estão em situação análoga à escravidão, o dado representa que, pelo menos, 3,6% da população, de 3,8 milhões de pessoas, são atingidas pelo problema. De acordo com a Walk Free, a situação se deve à tradição de escravidão no país, refletida pelos altos índices de casamento infantil forçado.

No Haiti, o segundo país no ranking, os conflitos, a ocorrência de terremotos e a tradição de escravidão infantil são os fatores que influenciam a alta incidência de situações análogas à escravidão. No país, há de 200 mil a 220 mil pessoas escravizadas – 1,9% da população de 10,2 milhões de pessoas. No Afeganistão, o país com a terceira pior colocação, existem mais de 2 milhões de pessoas (1,1% da população de 179 milhões) nessas condições. Segundo o índice, devido ao grande contingente de refugiados e à frágil legislação vigente.

“Na maioria dos casos, a situação é a insuficiência legislativa e a falta de recursos. Os países não têm as leis específicas, o entendimento público do que significa situação análoga à escravidão e não investem para solucionar o problema”, disse Bales.

Em contrapartida, a Islândia, a Irlanda e o Reino Unido são os países com a mais baixa incidência de escravização, empatados 160º lugar no ranking – com 100, 340 e 4,6 mil pessoas em situação análoga à escravidão, respectivamente. Para o autor do índice, a situação desses países com as menores incidência e prevalência é tão crítica quanto – se não mais que – a dos países com os maiores indicativos.

“Eu diria que esses são igualmente críticos aos que têm mais, pois eles não têm desculpa. Não são pobres, não têm corrupção. Então o que está errado é que ainda não eliminaram a escravidão”, declarou Bales.

No levantamento, além da medição quantitativa dos casos, são identificados fatores de risco relevantes e a comparação dessas vulnerabilidades entre os países. Entre os fatores de risco, estão a extensão das políticas adotadas nos países; a extensão das garantias aos direitos humanos; a estabilidade do Estado, que mede fatores como corrupção; e o nível de discriminação sofrida pelas mulheres.

O índice da Walk Free é a primeira edição do trabalho da fundação em que há um ranking do uso de mão de obra escrava em 162 países. O ranking foi elaborado de acordo com a avaliação e a mensuração de três critérios considerados determinantes para a incidência de condições análogas à escravidão: a prevalência do trabalho escravo, os casos de casamento infantil e o tráfico de pessoas.

“Esse índice tem o objetivo de medir onde estamos e para onde temos de ir. Os países têm de definir até quando esse tipo de situação será aceita”, ressaltou Bales, enfatizando a necessidade de o aumento da participação de organizações da sociedade civil e da ampliação do acesso a serviços públicos.

Reportagem de Carolina Sarres, da Agência Brasil

Movimentos sociais e sindicais ocupam Ministério de Minas e Energia, em Brasília

O Ministério de Minas e Energia foi ocupado na manhã deste dia 17 de outubro por cerca de 1000 pessoas integrantes dos movimentos sociais da Via Campesina e da Plataforma Operária e Camponesa para a Energia exigindo a suspensão do leilão do campo de Libra.

No último dia 20 de setembro mais de 90 movimentos sociais e sindicais entregaram uma carta à presidenta Dilma pedindo uma audiência e a suspensão do leilão do campo de Libra. As organizações reclamam que não receberam nenhuma resposta até o momento.

Neste dia 17, as mobilizações dos movimentos sociais estão ocorrendo em grande parte dos estados brasileiros pedindo o cancelamento do leilão e os petroleiros também iniciaram uma greve por tempo indeterminado.

As mobilizações e greves acontecem porque as organizações e os trabalhadores consideram que o leilão de libra representará a privatização de uma área estratégica de petróleo. “Por isso a luta contra o leilão de libra é a luta em defesa da soberania do povo brasileiro”, afirmou Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do MAB.

Comunicado Movimento dos Atingidos por Barragens

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Câmara de Natal não deixou de ser estufa

As câmara de vereadores do Rio Grande do Norte são um apanhado de demagogos, produtores e produtos de uma realidade politicamente terrível, semeada em favores e esmolas, comumente centros de placas e títulos de cidadania. Em Natal com a Chegada da Vereadora Amanda Gurgel (PSTU) e mais dois deputados do PSOL, Sandro Pimentel e Marcos, experimenta-se uma das raras demonstrações de crítica político-social e de transformação.

Ontem a Câmara de Natal, em sua maioria composta por seguidores de oligarcas ou produtos mesmo da situação do "bom viciado (me ajude), demonstrou isso claramente, atua contra população. Havia sido aprovado  projeto de lei instituindo o passe-livre para estudantes da cidade, como havia pressão popular e estudantil, o projeto fora aprovado em dois-turnos à unanimidade; esta semana o projeto fora vetado pelo prefeito da Cidade, Carlos Eduardo Alves.  Com o objetivo de impedir a mobilização e a pressão dos estudantes, a Câmara decidiu colocar o veto do prefeito em votação imediata nesta terça-feira (dia 15), poucas horas após a chegada do veto às mãos dos vereadores. Contrariando, inclusive, o regimento interno da casa, que determina que nenhum projeto de lei ou veto do executivo seja votado sem ser analisado com um espaço de, no mínimo, 24 horas depois de lido em plenário. 

Assim funciona qualquer casa legislativa no Brasil, uma estufa em conluio com o executivo, fechado, que infelizmente precisa pedir votos, corporativismo, distante.

Que dia dos professores!

Foi um dia dos professores mais representativos da história do país, afora os longo anos de lutas incansáveis nas ruas este 15 de Outubro fora marcado por grandes passeatas nas ruas de várias cidades brasileiras, no Rio de Janeiro cerca de 7 mil pessoas estiveram presentes, em São Paulo sem-tetos e estudantes fortaleceram o ato.

São Paulo

VÍDEO: Passeata do dia do profissional de educação leva multidão às ruas do Centro do Rio





Um grande dia, apesar de depreciado pelos discursos midiáticos tentando criminalizar esses movimentos, utilizando fortemente dos confrontos entre Blac Bloks e PM´s. A Mídia brasileira tomada pelo noticiário policial que faz com quê uma pauta conservadora tome os discursos populares.

Rio de Janeiro

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Do lado de lá

O Brasil imerso na violência homicida que torna o país o 7º classificado no ranking dos mais homicidas do planeta não sabe se comportar diante desse fato, somos ouvintes, telespactadores ou leitores incansáveis de notícias policiais formadoras de discursos notadamente fascistas, intolerantes e violentos. Um país que abandona muitos com uma pasta de drogas e que somente gosta de se impressionar com punição.

Não concluamos, pois, que nossa violência centrada na delinquência é fruto de qualquer falta de rigor punitivo, é fruto de uma sociedade desequilibrada, o Brasil com uma população mais de 5 vezes menor do que a china tem mais que 50 mil homicídios por ano enquanto que naquele país esse número não chega a 15 mil.

O Filósofo Luiz Eduardo Soares relata fato de sua vida no livro Justiça que se fossem propagados em meios tão potentes com o noticiário policial, ou mesmo escolas, chamariam para um debate sensato, ele relata que durante uma viagem a Recife para palestra o taxista com quem se deslocava começou a relatar o caso de um amigo assassinado durante assalto no ônibus que dirigia, morto pelo assaltante, o taxista cobrava pena de morte, e furioso por saber que nada aconteceria ao criminoso, o queria ver torrar na cadeira elétrica. Em dado momento o taxista começa a pensar a situação dos filhos do motorista, a mãe não se profissionalizou-se, doméstica, como educaria os filhos, preocupava-se com os riscos, teriam que abandonar a escola e irem trabalhar, vender balas; Luiz Eduardo começa a concordar com os riscos, essas crianças em contato com "a rua" poderiam se viciar, e sabe-se que para satisfazer o vício de crack não poderiam assaltar um ônibus e executar o motorista, então, neste caso ele pergunta ao taxista se ele queria a pena de morte e o mesmo responde que não.

É difícil se colocar no lugar de vítimas da violência, mas dessa maneira com a qual nossa sociedade inventada se depara não vai ser pedindo pena de morte, redução de maioridade penal que mudaremos o quadro, já pensamos em quem cria a violência, quem fez que sejamos uma sociedade aberrante? 

Metade da população da terra não têm acesso ao manejo do lixo

 O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, alertou que 3,5 bilhões de pessoas, metade da população mundial, não têm acesso ao manejo do lixo.

Segundo o Pnuma, essa situação representa riscos à saúde e ao meio ambiente, além de prejudicar a economia.

Guia

A informação consta do Guia de Estratégias Nacionais para o Manejo do Lixo: Mudando de Desafios para Oportunidades, preparado com o apoio do Instituto da ONU para Treinamento e Pesquisa, Unitar.

O documento fornece um guia estratégico aos países cujos sistemas de manejo do lixo estejam desorganizados, com poucos recursos ou passando por alguma revisão.

Lixões

Segundo o Pnuma, os lixões, como são chamadas as áreas abertas onde os dejetos são despejados, podem causar sérios problemas de saúde para as pessoas que vivem perto desses locais.

Além disso, o Guia afirma que um manejo ruim do lixo pode causar a contaminação do solo e da água. A queima do material pode poluir o ar e o fato de não se utilizar materiais reciclados pode acelerar o esgotamento dos bens naturais.

Coleta

O Pnuma calcula que todos os anos são coletados 1,3 bilhão de toneladas de lixo sólido no mundo. Essa quantidade deve aumentar para 2,2 bilhões até 2025, principalmente, por causa dos países em desenvolvimento.

O mercado global do lixo, desde a coleta até a reciclagem, movimenta um mercado de US$ 410 bilhões por ano, mais de R$ 820 bilhões. As atividades de reciclagem na União Europeia geraram mais de 500 mil empregos em 2008.

Desperdício

O Guia do Pnuma diz ainda que o desperdício de alimentos chega a 1,3 bilhão de toneladas por ano. Praticamente um terço da comida destinada ao consumo humano é perdida ou jogada no lixo anualmente.

Para combater o problema, o documento diz que o manejo não é o único desafio. Os benefícios aparecem quando o lixo é tratado como um recurso que pode ser recuperado e colocado para uso produtivo e rentável.

O Pnuma reforça a importância da implementação de estratégias nacionais, como também, da necessidade de ajuste dos sistemas tendo como base mudanças das circunstâncias ou do contexto local.

Autor: Edgard Júnior   -   Fonte: Rádio ONU

ZYGMUNT BAUMAN: “Nos tem imposto que somos mais felizes quanto mais consumirmos e mais competirmos”

Nesta entrevista o sociólogo polonês, Zigmunt Bauman de 87 anos, propõe aos jovens o desafio de organizarem-se e firmarem um compromisso com sua sociedade.



Zygmunt Bauman, durante la entrevista en el hotel Voramar de Benicàssim. | ana torregrosa
Baumam - Foto la província

Estão sexo e amor tornando-se uma hipoteca para a sociedade ocidental?

Somos todos feitos para amar e ser amados e não nos sentimos completos, a menos que tenhamos essa pessoa para amar e ser amados, e também em termos de amizades, relacionamentos. Quando falo desta hipoteca me refiro a que para poder amar são necessárias  certas obrigações, um compromisso de longo prazo que pode envolver sacrifícios para cuidar da outra pessoa e de alguma forma comprometer suas chances futuras, se põe como risco. E o que acontece em nossa sociedade é que as pessoas, especialmente os jovens estão sendo incentivados a evitar comprometimento de longo prazo. As pessoas se reúnem para ver se funciona, mas se você fizer isso, a menor discordância torna-se um grande problema. E isso reflete-se também nas amizades, relacionamentos, vizinhos... Também faz parte da crise.

Em que medida?

É extremamente importante para o futuro da humanidade. O verdadeiro problema é substituir as lições de como viver que foram impostas: primeiro, somos ensinados que para ser feliz temos que consumir mais, ter o mais recente iPad ou o último modelo de telefone ou camisa. Em segundo lugar nos é dito que devemos ser melhor que o outro, você tem que competir constantemente. E essas duas estradas são duas das causas da crise atual.

Que estradas seriam mais desejáveis?

Buscar um sentido definido  e objetivos comuns das pessoas, compartilhando e discutindo, discordando, o que também dá muita felicidade, mas estamos ocupados demais tentando competir. Vamos encontrar formas em conjunto, e não apenas ouvindo o que uma pessoa mais velha, como eu pode dizer. Mas posso dizer que uma das chaves é entender que o que traz felicidade não é consumir, mas produzir. Esse é o presente.

Na atual sociedade de internet continuamos sendo o que escrevemos?

Digo-lhe que uma pessoa viciada em Facebook pode fazer mais de 200 amigos em um dia. Em 87 anos eu não pude fazer mais de 500 amigos, e eu não estou me referindo a esse tipo de amigos que  podem preencher com a felicidade. Amigos da Internet são apenas rede de amigos, e você também pode perder em um dia e não estarão ali quando você precisar deles. A amizade e o amor não são uma questão de tecnologia, precisam de uma dedicação espiritual.

A Europa está afundado ? Vai ganhar a batalha econômica contra os valores e direitos ?

Eu não sou um profeta, mas eu posso olhar ao meu redor e vejo pouco sinal de que estamos no caminho para sair da crise. Esta crise de crédito tem sido a de acabar com a redistribuição da riqueza que tem dado mais a uns poucos ricos e fez com que os pobres se tornem mais pobres, especialmente os jovens. 52% dos jovens estão desempregados na Espanha, e isso é muito sério, não acontecia algo parecido desde a Segunda Guerra Mundial. E isso frustra-los, e isso retira a sua dignidade, fazendo-lhes sentir que nada lhes quer, que eles são inúteis. Está-se tomando a riqueza dos mais fracos e isso é muito perigoso, e os governos sentem a pressão de bancos, instituições . E nisto não há meio termo: ou você se rende ao que te pedem os bancos a economia  tornando a vida mais fácil para os bancos e penalizando os mais fracos ou, pelo contrário, defende os interesses de seu povo.

Por que viestes a um Fórum Social de um festival de reggae?

Eu acho que este tipo de pontos de encontro com interesses comuns são muito importantes, compartilhando não só música, mas também trocando e fazendo relacionamentos. Eu me sacrifiquei para vir aqui, porque eu acho que é importante, porque em Benicàssim é muito quente e eu sou uma pessoa que certamente vai mal com o calor, mas eu estou aqui porque eu acho que é importante.

Que mensagem vai passar os jovens que vão ouvir-te no fórum social e  que procuram respostas, guias para sair desta crise, para mudar as coisas ?

Você pode assar ou amassar o seu futuro. É apenas a sua escolha, e não há certeza, mas é apenas uma questão de compromisso com a sua sociedade. Você conhece um filósofo italiano que se chama  Gramsci? Gramsci disse que a única maneira de prever o futuro é a organização e fazer que o que você quer aconteça .

Entrevista publicada em Laprovincia.es por Nacho Martín

A falência do sistema da dívida

Em vez de dotar de novos recursos os países em desenvolvimento, o sistema da dívida obrigou esses países a darem prioridade ao pagamento aos credores, preterindo a prestação de serviços sociais básicos. Artigo de Eric Toussaint e Daniel Munevar, publicado no CADMT.


No momento em que se realiza em Washington a reunião anual do FMI e do Banco Mundial, convém regressar às promessas feitas no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A história do desenvolvimento econômico está carregada de tentativas de corrigir os “erros” da política de desenvolvimento. O método preferido é adicionar novos elementos à agenda. A abordagem tem consistido no alargamento das temáticas que são tidas em consideração na altura de tomar decisões políticas, integrando preocupações ambientais e sociais.
O fracasso dessa metodologia é óbvio: dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), apenas dois são alcançados e é pouco provável que os outros seis sejam alcançados até 2015. Dito de outro modo, os resultados da atual agenda de desenvolvimento são escandalosamente escassosi.

De facto, não é necessário adicionar mais elementos ao quadro, o melhor é ver se os elementos entretanto integrados resultam ou se não deveriam ser eliminados. Esse é o caso da dívida, entendida como ferramenta de desenvolvimento político, económico e social.
Desde o Plano Marshall na Europa, os círculos políticos funcionam baseados na ideia de que os empréstimos internacionais são fatores fundamentais de desenvolvimento. Nos últimos 69 anos, o Banco Mundial baseou-se nessa premissa, fazendo do endividamento dos países a chave para o seu desenvolvimento. A experiência demonstrou que essa abordagem foi um fracasso total. Em muitos casos, as condições de vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo têm-se deteriorado devido às políticas de endividamento implementadas pelo Banco Mundial, pelo FMI, com o apoio ou a cumplicidade dos governos em causaii.
Em vez de dotar de novos recursos os países em desenvolvimento, o sistema da dívida obrigou esses países a darem prioridade ao pagamento aos credores, preterindo a prestação de serviços sociais básicos. De acordo com dados do Banco Mundial, em 2010, apenas, os países em desenvolvimento pagaram 184 bilhões de dólares (135 bilhões de euros) em termos de serviço da dívida, o que equivale a cerca de três vezes o montante anual que teria sido necessário para realizar os ODM.
É ainda mais preocupante saber que, entre 1985 e 2010, o montante pago foi de 530 bilhões (390 bilhões de euros), sendo superior ao montante emprestadoiii. A transferência líquida de recursos dos países em desenvolvimento para os credores é equivalente a cinco vezes o Plano Marshall.
Durante esse período, a dívida foi a alavanca utilizada pelas instituições financeiras internacionais e pelos países credores para forçarem os países a adotarem políticas que impedissem a concessão de condições de vida básicas às suas populações. Desde privatizações, à redução em massa do número de funcionários públicos, passando pelo abandono das barreiras alfandegárias, que tornaram impossível a soberania alimentar, as políticas impostas aos países em desenvolvimento minaram seriamente a capacidade de esses países alcançarem o desenvolvimento através de meios endógenos.
Assim sendo, se alguma coisa deve ser feita é anular as dívidas públicas dos países em desenvolvimento. Ao contrário do que dizem os céticos, essa dívida representa apenas um montante ínfimo: em 2010, o montante total da dívida pública externa atingiu 1,6 bilhões de dólares (1,2 bilhões de euros), ou seja, menos de 5% dos recursos disponibilizados pelo governo norte-americano para salvar os bancosiv. Apesar desse montante ter sido desbloqueado para manter os privilégios dos quadros do setor financeiro, querem convencer-nos que seria de mais pedir que uma pequena parcela fosse destinada a garantir a melhoria das condições de vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Trata-se claramente de uma questão política e não de uma questão de natureza econômica, mas é um fato que a dívida continua a ser o grande obstáculo ao desenvolvimento.

É, portanto, necessário eliminar esse obstáculo como o CADTM tem defendido nos últimos 24 anos.

Tradução: Maria da Liberdade
Revisão: Rui Viana Pereira

Daniel Munevar é economista e membro do CADTM Colômbia.

Eric Toussaint é politólogo e presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo.



i«Millennium development goals – the key datasets you need to know», consultar em:http://www.theguardian.com/global-d...
iiVer Eric Toussaint, Banque mondiale, le Coup d’Etat permanent, CADTM/Syllepse/CETIM, 2006. Descarregável em: http://cadtm.org/Banque-mondiale-le.... Ver também Eric Toussaint, Tese de Doutoramento em Ciência Política, apresentada em 2004 nas Universidades de Liège e de Paris VIII: «Enjeux politiques de l’action de la Banque mondiale et du Fonds monétaire international envers le tiers-monde», http://cadtm.org/Enjeux-politiques-...
iiiVer Damien Millet, Daniel Munevar, Eric Toussaint, Os números da dívida 2012,http://cadtm.org/Os-numeros-da-divi....
ivCálculo efetuado com base na análise de custos realizada pelo Levy Institute, que estima o custo total em 29 biliões de dólares. Ver Felkerson, J. (2011), «$29,000,000,000,000: A Detailed Look at the Fed’s Bailout by Funding Facility and Recipient», Levy Institute Working Paper 698.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

El Niño deve se intensificar até o final do século, indicam modelagens




Autor: Fernanda B. Müller   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil



O aumento das chuvas e outras variações significativas no padrão climático de diversas regiões do mundo causadas pelo fenômeno do El Niño Oscilação Sul (ENOS) já são relativamente bem conhecidos, e estudos sobre a sua reação ao aquecimento global vem sendo bem divulgados nas últimas décadas.

Em um novo estudo publicado na revista Nature, pesquisadores afirmam que “na realidade, há mudanças robustas projetadas nos padrões espaciais da variabilidade decorrente do ENOS ano a ano, tanto em relação à temperatura da superfície quanto à precipitação”.  

Eles completam que essas mudanças são evidentes nas duas gerações mais recentes de modelagens climáticas. E essas projeções indicam uma intensificação do El Niño.

“As mudanças previstas nas características elementares do ENOS são muito mais claras do que se pensava”, concluem os pesquisadores do Australian Bureau of Meteorology.

As consequências do El Niño são várias, entre elas o aumento das chuvas na América do Sul e em parte dos Estados Unidos, a intensificação das secas no Nordeste e das enchentes no Sul do Brasil e fortes tempestades no meio do Oceano Pacífico. Já na Austrália e partes da Ásia, o fenômeno estende o período de secas.

A palavra El Niño é derivada do espanhol, e refere-se à presença de águas quentes que todos os anos aparecem na costa norte do Peru na época de Natal. Os pescadores do Peru e Equador chamaram a esta presença de águas mais quentes de ‘Corriente de El Niño’ em referência ao Niño Jesus ou Menino Jesus.

Imagem: Clique na figura para assistir uma animação sobre como funciona o El Niño / CpTec

O Rio Grande do Norte na lama

Uma Assembleia repleta de demagogos que cobram o tempo todo ações efetivas para "combater a seca", como diz Ariano Suassuna combater a seca no sertão era o mesmo que acabar a neve na Sibéria, os tais demagogos são feitos da miséria econômica da região, o Rio Grande do Norte é política e economicamente uma oligarquiazinha depravada. Falamos da ordinárias sessões da AL-RN.



A economia do Sertão é insustentável, centrada na criação de gado bovino e na pequena agricultura de milho e feijão, tudo dependendo que ocorra invernos que sempre serão intercalados por longos períodos de estiagem. A não ser a previdência social ou os programas de transferência de renda, mesmo com terra, a fome seria certa.



As cenas são do Município de Caicó onde o criador procura água em um poço artesanal para dar ao gado, a forma errada de praticar uma atividade econômica na região. Seria possível reorientar a região para uma economia baseada na criação de animais adaptados ao clima semi-árido e há algumas técnicas de se buscar água, como as barragens subterrâneas, cisternas e poços tubulares. A água é um dos principais problemas nesta região, por exemplo, poços tubulares geralmente contém um elevado percentual de salinidade, as melhores alternativas para o consumo humano parecem ser as cisternas que acumulam água no período de chuvas.

"As cisternas rurais talvez sejam os reservatórios hídricos mais importantes no Semi-árido, tendo em vista a sua capacidade de acumular água de excelente qualidade - as águas das cisternas não têm contato direto com outros ambientes que possam mineralizá-las ou contaminá-las - bem como a função reguladora de estoques para o consumo das famílias durante todo ano. Centros de pesquisa, organizações não governamentais e governos estaduais têm orientado o homem do campo no sentido de construir cisternas com técnicas modernas e baratas e de proporcionar uma melhor forma de manejo de suas águas. Estima-se que uma cisterna de 12000 litros seja suficiente para abastecer uma família de 5 pessoas durante os meses sem chuvas no Semi-árido, considerando o consumo diário de 10 litros por pessoa, durante 8 meses." ( João Suassuna)

Quanto ao fornecimento para animais ou para irrigação os grandes açudes aparelhados com sistemas de adultoras podem solucionar os problemas.

"As 28 maiores represas do Nordeste têm capacidade para acumular 12 bilhões e 750 milhões de m³ de água, mas apenas 30% desse volume são utilizados em sistemas de abastecimento ou em irrigação". (João Suassuna)


ÁGUA POTÁVEL NO SEMI-ÁRIDO: escassez anunciada - João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

domingo, 13 de outubro de 2013

Chomsky: Governo dos EUA pode pedir moratória

Linguista e ativista político diz que o establishment republicano está a chegar a um ponto em que não consegue mais controlar a base que mobilizou. E compara a atual situação dos EUA com a dos últimos anos da República de Weimar, na Alemanha. Entrevista a Harrison Samphir, Znet
Noam Chomsky: As maiores atrocidades das últimas décadas têm ocorrido no Congo – na região oriental –, onde mais ou menos 5 milhões de pessoas foram mortas.
Nesta entrevista, Chomsky debate a paralisação do governo norte-americano, por disputas incessantes no sistema político e, em especial, pela chantagem das forças de direita mais primitivas. Também aborda os sinais de perda de influência de Washington na Síria e da emergência, na América do Sul, de um conjunto de governos que se afasta dos EUA, pela primeira vez em dois séculos.
Gostaria de começar com a paralisação recente do governo dos EUA. Por que é diferente desta vez, se já aconteceu no passado?
Noam Chomsky: Paul Krugman fez há dias, no New York Timesum ótimo comentário a respeito. Lembra que o partido republicano é minoritário entre a opinião pública e controla a Câmara [House of Representatives, que junto do Senado representa o Legislativo nos EUA]. Está a levar o governo à paralisação e talvez ao calote das suas dívidas. Conseguiu a maioria por conta de inúmeras artimanhas. Obteve uma minoria de votos, mas a maioria das cadeiras. Está a utilizar-se disso para impor uma agenda extremamente nociva para a sociedade. Foca particularmente a questão do sistema de saúde público.
Os EUA são o único, entre os países ricos e desenvolvidos, que não possui um sistema nacional de saúde pública. O sistema norte-americano é escandaloso. Gasta o dobro de recursos de países comparáveis, para obter um dos piores resultados. E a razão para isso é ser altamente privatizado e não-regulado, tornando-se extremamente ineficaz e caro. Aquilo que alguns chamam de “Obamacare” é uma tentativa de mudar esse sistema de forma suave – não tão radicalmente como seria desejável – para torná-lo um pouco melhor e mais acessível.
O Partido Republicano escolheu o sistema de saúde como alavanca para conquistar alguma força política. Quer destruir o Obamacare. Essa posição não é unânime entre os republicanos, é de uma ala do partido – chamada de “conservadora”, de fato, profundamente reacionária. Norman Orstein, um dos principais comentadores conservadores, descreve o movimento, corretamente, como uma “insurgência radical”.
Então, há uma insurgência radical, que implica grande parte da base republicana, disposta a tudo – destruir o país, ou qualquer coisa, com o intuito de acabar com a Lei de Assistência Acessível (o Obamacare). É a única coisa a que foram capazes de se agarrar. Se falharem nisso, terão de dizer à sua base que lhe mentiram, ao longo dos últimos cinco anos. Por isso, estão dispostos a ir até onde for necessário. É um fato incomum – penso que único – na história dos sistemas parlamentaristas modernos. É muito perigoso para o país e para o mundo.
Como a paralisação poderia terminar?
Bem, a paralisação por si só é ruim – mas não devastadora. O perigo real surgirá nas próximas semanas. Há, nos Estados Unidos, uma legislação rotineira – aprovada todos os anos – que permite ao governo tomar dinheiro emprestado. Do contrário, ele não funciona. Se o Congresso não autorizar a continuação da tomada de empréstimos, talvez o governo peça moratória. Isso nunca aconteceu e um calote do governo norte-americano não seria muito prejudicial apenas aos EUA. Ele provavelmente afundaria o país, de novo, numa profunda recessão – mas talvez também quebre o sistema financeiro internacional. É possível que encontrem maneiras para contornar a situação, mas o sistema financeiro mundial depende muito da credibilidade do Departamento do Tesouro dos EUA. A credibilidade dos títulos de dívida emitidos pelos EUA é vista como “tão boa quanto ouro”: esses papéis são a base das finanças internacionais. Se o governo não conseguir honrá-los, eles não possuirão mais valor, e o efeito no sistema financeiro internacional poderá ser muito severo. Mas para destruir uma lei de saúde limitada, a extrema direita republicana, os reacionários, estão dispostos a fazer isso.
No momento, os EUA estão divididos sobre como o tema será resolvido. O ponto principal a observar é a divisão no Partido Republicano. O establishment republicano, junto com Wall Street, os banqueiros, os executivos de corporações não querem isso – de maneira nenhuma. É parte da base que deseja, e tem sido muito difícil controlá-la. Há uma razão para terem um grande grupo de delirantes na sua base. Nos últimos 30 ou 40 anos, ambos os partidos que comandam a política institucional dos EUA inclinaram-se para a direita. Os democratas de hoje são, basicamente, aquilo que se costumava chamar, há tempos, de republicanos moderados. E os republicanos foram tanto para a direita porque simplesmente não conseguem votos, na forma tradicional.
Tornaram-se um partido dedicado aos muito ricos e ao setor empresarial – e simplesmente não se consegue votos dessa maneira. Por isso, têm sido compelidos a mobilizar eleitores que sempre estiveram presentes no sistema político, mas eram marginais. Por exemplo, os extremistas religiosos. Os EUA são um dos expoentes no que se refere ao extremismo religioso no mundo. Mais ou menos metade da população acredita que o mundo foi criado há alguns milhares de anos; dois terços da população está a aguardar a segunda vinda de Cristo. A direita também teve de recorrer aos nativistas. A cultura das armas, que está fora de controlo, é incentivada pelos republicanos. Tenta-se convencer as pessoas de que devem se armar, para nos proteger. Nos proteger de quem? Das Nações Unidas? Do governo? Dos alienígenas?
Uma enorme parcela da sociedade é extremamente irracional e agora foi mobilizada politicamente pelo establishment republicano. Os líderes presumem que podem controlar este setor, mas a tarefa está a mostrar-se difícil. Foi possível perceber isso nas primárias republicanas para a presidência, em 2012. O candidato do establishment era Romney, um advogado e investidor em Wall Street – mas a base não o queria. Toda a vez que a base surgia com um possível candidato, o establishment fazia de tudo para destruí-lo, recorrendo, por exemplo, a ataques maciços de propaganda. Foram muitos, um mais louco que o outro. O establishment republicano não os quer, tem medo deles, conseguiu nomear seu candidato. Mas agora está a perder controlo sobre a base.
Lamento dizer que isso tem algumas analogias históricas. É mais ou menos parecido com o que aconteceu na Alemanha, nos últimos anos da República de Weimar. Os industriais alemães queriam usar os nazis, que eram um grupo relativamente pequeno, como um animal de combate contra o movimento laboral e a esquerda. Acharam que podiam controlá-los, mas descobriram que estavam errados. Não estou a dizer que o fenómeno vai se repetir aqui, é um cenário bem diferente, mas algo similar está a ocorrer. O establishment republicano, o bastião corporativo e financeiro dos ricos, está a chegar a um ponto em que não consegue mais controlar a base que mobilizou.
Na política externa, as notícias sobre a Síria desapareceram dos média convencionais, desde a aprovação do acordo para confiscar as armas químicas do arsenal de Assad. Pode comentar esse silêncio?
Nos EUA, há pouco interesse sobre o que acontece fora das fronteiras. A sociedade é bem insular. A maioria das pessoas sabe bem pouco sobre o que acontece no mundo e não liga tanto para isso. Está preocupada com os seus próprios problemas, não têm o conhecimento ou o compreensão sobre o mundo ou sobre História. Quando algo, no exterior, não é constantemente martelado pelos média, esta maioria simplesmente não sabe nada a respeito.
A Síria vive uma situação muito má, atrocidades realmente terríveis, mas há lugares muito piores no mundo. As maiores atrocidades das últimas décadas têm ocorrido no Congo – na região oriental –, onde mais ou menos 5 milhões de pessoas foram mortas. Nós – os EUA – estamos envolvidos, indiretamente. O principal mineral em seu celular é o coltan, que vem daquela região. Corporações internacionais estão lá, a explorar os ricos recursos naturais Muitas delas financiam milícias, que lutam umas contra as outras pelo controlo dos recursos, ou de parte deles. O governo de Ruanda, que é um cliente dos EUA, está a intervir maciçamente, assim como o Uganda. É praticamente uma guerra mundial na África. Bem, quantas pessoas sabem disso? Mal chega aos média e as pessoas simplesmente não sabem nada a respeito.
Na Síria, o presidente Obama fez um discurso sobre o que chamou de sua “linha vermelha”: não se pode usar armas químicas; pode-se fazer de tudo, exceto utilizar armas químicas. Surgiram relatórios credíveis, afirmando que a Síria utilizou essas armas. Se é verdade, ainda está em aberto, mas muito provavelmente é. Nesse ponto, o que estava em jogo é o que se chama de credibilidade. A liderança política e os comentadores de política externa indicavam, corretamente, que a credibilidade norte-americana estava em jogo. Era preciso fazer algo para mostrar que as nossas ordens não podem ser violadas. Planeou-se um bombardeio, que provavelmente tornaria a situação ainda pior, mas manteria a credibilidade dos EUA.
O que é “credibilidade”? É uma noção bem familiar – basicamente, a noção principal para organizações como a Máfia. Suponha que o Padrinho decida que tem de pagar-lhe para ter proteção. Ele tem de sustentar essa afirmação. Não importa se precisa ou não do dinheiro. Se algum pequeno lojista, em algum lugar, decidir que não vai pagar-lhe, o Padrinho não deixa a ousadia impune. Manda os seus capangas espancá-lo sem piedade, ainda que o dinheiro não signifique nada para ele. É preciso estabelecer credibilidade: do contrário, o cumprimento de suas ordens tenderá a erodir. As relações exteriores funcionam quase da mesma maneira. Os EUA representam o Padrinho, quando dão essas ordens. Os outros que cumpram, ou sofram as consequências. Era isso que o bombardeio na Síria demonstraria.
Obama estava a chegar a um ponto do qual, possivelmente, não seria capaz de escapar. Não havia quase apoio internacional nenhum – sequer da Inglaterra, algo incrível. A Casa Branca estava a perder apoio internamente e foi compelida a colocar o tema em votação no Congresso. Parecia que seria derrotada, num terrível golpe para a presidência de Obama e a sua autoridade. Para a sorte do presidente, os russos apareceram e resgataram-no com a proposta de confiscar as armas químicas, que ele prontamente aceitou. Foi uma saída para a humilhação de encarar uma provável derrota.
Faço um comentário adicional. Você perceberá que este é um ótimo momento para impor a Convenção sobre Proibição de Armas Químicas no Médio Oriente. A verdadeira convenção, não a versão que Obama apresentou no seu discurso, e que os comentadores repetiram. Ele disse o básico, mas poderia ter feito melhor, assim como os comentadores. A Convenção sobre Proibição de Armas Químicas exige que sejam banidas a produção, armazenamento e uso – não apenas o uso. Por que omitir produção e armazenamento? Razão: Israel produz e armazena armas químicas. Consequentemente, os EUA irão evitar que tal convenção seja imposta no Médio Oriente. É um assunto importante: na realidade, as armas químicas da Síria foram desenvolvidas para se contrapor às armas nucleares de Israel, o que também não foi mencionado.
Afirmou recentemente que o poder norte-americano no mundo está em declínio. Para citar a sua frase em Velhas e Novas Ordens Mundiais, de 1994, isso limitará a capacidade dos EUA para “suprimir o desenvolvimento independente” de nações estrangeiras? A Doutrina Monroe está completamente extinta?
Bem, não é uma previsão, isso já aconteceu. E aconteceu nas Américas, muito dramaticamente. O que a Doutrina Monroe dizia, de facto, é que os EUA deviam dominar o continente. No último século isso de facto foi verdade, mas está a declinar – o que é muito significativo. A América do Sul praticamente libertou-se, na última década. Isso é um evento de relevância histórica. A América do Sul simplesmente não segue mais as ordens dos EUA. Não restou uma única base militar norte-americana no continente. A América do Sul caminha por si só, nas relações externas. Ocorreu uma conferência regional, cerca de dois anos atrás, na Colômbia. Não se chegou a um consenso, nenhuma declaração oficial foi feita. Mas nos assuntos cruciais, Canadá e EUA isolaram-se totalmente. Os demais países americanos votaram num sentido e os dois foram contra – por isso, não houve consenso. Os dois temas eram admitir Cuba no sistema americano e caminhar na direção da descriminalização das drogas. Todos os países eram a favor; EUA e Canadá, não.
O mesmo se dá noutros tópicos. Lembre-se de que, há algumas semanas, vários países na Europa, incluindo França e Itália, negaram permissão para sobrevoo do avião presidencial do boliviano Evo Morales. Os países sul-americanos condenaram veementemente essa atitude. A Organização dos Estados Americanos, que costumava ser controlada pelos EUA, redigiu uma condenação ácida, mas com um rodapé: os EUA e o Canadá recusaram-se a subscrever. Estão agora cada vez mais isolados e, mais cedo ou mais tarde, penso que os dois serão, simplesmente, excluídos do continente. É uma brusca mudança em relação ao que ocorria há pouco tempo.
A América Latina é o atual centro da reforma capitalista. Esse movimento poderá ganhar força no Ocidente?
Tem razão. A América Latina foi quem seguiu com maior obediência as políticas neoliberais instituídas pelos EUA, os seus aliados e as instituições financeiras internacionais. Quase todos os países que se orientaram por aquelas regras, incluindo nações ocidentais, sofreram – mas a América Latina padeceu particularmente. Os seus países viveram décadas perdidas, marcadas por inúmeras dificuldades.
Parte do levante da América Latina, particularmente nos últimos dez a quinze anos, é uma reação a isso. Reverteram muitas daquelas medidas e moveram-se para outra direção. Noutra época, os EUA teriam deposto os governos ou, de uma maneira ou de outra, interrompido o seu curso. Agora, não podem fazer isso.
Recentemente, os EUA testemunharam o surgimento dos seus primeiros refugiados climáticos – os esquimós Yup’ ik – na costa sul na ponta do Alaska. Isso coloca em mórbida perspetiva o impacto humano no meio ambiente. Qual é sua posição acerca dos impostos sobre emissões de carbono e quão popular pode ser tal medida nos EUA ou noutro país?
Acho que é basicamente uma boa ideia. Medidas muito urgentes têm de ser tomadas, para travar a contínua destruição do meio ambiente. Um imposto sobre carbono é uma maneira de o fazer. Se isso se tornasse uma proposta séria nos EUA, haveria uma imensa propaganda contrária, desencadeada pelas corporações – as empresas de energia e muitas outras –, para tentar aterrorizar a população. Diriam que, em caso de criação do tributo, todo tipo de coisa terrível aconteceria. Por exemplo, “você não será mais capaz de aquecer sua casa”… Se isso terá sucesso ou não, vai depender da capacidade de organização dos movimentos populares.
Tradução: Vinícius Gomes para o Outras Palavras