"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

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sábado, 23 de novembro de 2013

O direito à cidade, por David Harvey

Examinando as mutações nas dinâmicas de resistência popular – da Comuna de Paris ao ativismo comunitário de Jane Jacobs – o geógrafo britânico David Harvey sublinha a urgência de democratizar a experiência urbana. Este artigo de referência foi publicado em 2008 na New Left Review.
David Harvey. Foto Univ Illinois/Flickr
O geógrafo britânico David Harvey é um dos pensadores mais influentes da atualidade. Unindo geografa urbana, marxismo e filosofia social na compreensão das contradições do mundo contemporâneo, a sua obra é um forte eixo de renovação da tradição crítica e ganha especial relevância num contexto de explosão de movimentos contestatários urbanos no Brasil e no mundo.
Neste artigo clássico publicado originalmente na revista New Left Review em 2008, Harvey inspira-se nas ideias de Henri Lefebvre para analisar a ligação entre urbanização e capitalismo. Traçando paralelos entre o histórico processo de reurbanização de Paris empreendido pelo Barão de Haussmann e o projeto de urbanização de Robert Moses para a Nova Iorque do pós-guerra, ele enfoca o crescimento exponencial das cidades hoje como sintoma de uma crise sistémica da acumulação capitalista. Examinando as mutações nas dinâmicas de resistência popular – da Comuna de Paris ao ativismo comunitário de Jane Jacobs – Harvey sublinha a urgência de democratizar a experiência urbana.
Vivemos numa época em que os ideais de direitos humanos tomaram o centro do palco. Gasta-se muita energia para promover a sua importância para a construção de um mundo melhor. Mas, de modo geral, os conceitos em circulação não desafiam de maneira fundamental a lógica de mercado hegemónica nem os modelos dominantes de legalidade e de ação do Estado. Vivemos, afinal, num mundo em que os direitos da propriedade privada e a taxa de lucro superam todas as outras noções de direito. Quero explorar aqui outro tipo de direito humano: o direito à cidade.
Será que o espantoso ritmo e a escala da urbanização nos últimos 100 anos contribuíram para o bem-estar do homem? A cidade, nas palavras do sociólogo e urbanista Robert Park, é: 
a tentativa mais bem-sucedida do homem de refazer o mundo em que vive mais de acordo com os desejos do seu coração. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é também o mundo onde ele está condenado a viver daqui por diante. Assim, indiretamente, e sem ter nenhuma noção clara da natureza da sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez-se a si mesmo.
Saber que tipo de cidade queremos é uma questão que não pode ser dissociada de saber que tipo de vínculos sociais, relacionamentos com a natureza, estilos de vida, tecnologias e valores estéticos nós desejamos. O direito à cidade é muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. Além disso, é um direito coletivo, e não individual, já que essa transformação depende do exercício de um poder coletivo para remodelar os processos de urbanização. A liberdade de fazer e refazer as nossas cidades, e a nós mesmos, é, a meu ver, um dos nossos direitos humanos mais preciosos e ao mesmo tempo mais negligenciados.
Desde os seus primórdios, as cidades surgiram nos lugares onde existe produção excedente, aquela que vai além das necessidades de subsistência de uma população. A urbanização, portanto, sempre foi um fenómeno de classe, uma vez que o controlo sobre o uso dessa sobreprodução sempre ficou tipicamente na mão de poucos [pense, por exemplo, num senhor feudal]. Sob o capitalismo, emergiu uma conexão íntima entre o desenvolvimento do sistema e a urbanização.
Os capitalistas têm de produzir além de seus custos para ter lucro; este, por seu lado, deve ser reinvestido para gerar mais lucro. A perpétua necessidade de encontrar territórios férteis ​​para a geração do lucro e para seu reinvestimento é o que molda a política do capitalismo. Mas os capitalistas enfrentam uma série de barreiras à expansão contínua e desimpedida. Se a mão de obra é escassa e os salários são altos, a mão de obra existente tem de ser disciplinada, ou então é preciso encontrar mão de obra nova através da imigração e investimentos no exterior. O capitalista também deve descobrir novos recursos naturais, o que exerce uma pressão crescente sobre o meio ambiente.
As leis da competição também levam ao desenvolvimento contínuo de novas tecnologias e formas de organização, que permitem ao capitalista superar os concorrentes que utilizam métodos inferiores. As inovações definem novos desejos e necessidades, reduzem o tempo de giro do capital e a distância que antes limitava o âmbito geográfico onde o capitalista pode procurar outras fontes de mão de obra, matérias-primas, e assim por diante.
Se não houver poder aquisitivo suficiente no mercado, então é preciso encontrar novos mercados, expandindo o comércio exterior, promovendo novos produtos e estilos de vida, criando novos instrumentos de crédito, e financiando os gastos estatais e privados. Se, finalmente, a taxa de lucro for muito baixa, a regulamentação estatal da “concorrência destrutiva”, a criação de monopólios por meio de fusões e aquisições e os investimentos no exterior oferecem saídas.
Se nenhuma das barreiras acima puder ser contornada, o capitalista não conseguirá reinvestir o seu lucro de maneira satisfatória. A acumulação fica bloqueada, deixando-o diante de uma crise em que o seu capital pode se desvalorizar. As mercadorias perdem o valor, enquanto a capacidade produtiva e as máquinas seguem se depreciando e são deixadas sem uso. No final, o próprio dinheiro pode ser desvalorizado pela inflação, e o trabalho pelo desemprego em massa.
De que maneira, então, a necessidade de contornar essas barreiras e expandir o terreno da atividade lucrativa impulsionou a urbanização no capitalismo? Defendo aqui que a urbanização desempenhou um papel especialmente ativo, ao lado de fenómenos como os gastos militares, na absorção da produção excedente que os capitalistas produzem perpetuamente em sua busca por lucros.
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Considere, primeiro, o caso de Paris no Segundo Império. O ano de 1848 trouxe uma das primeiras crises nítidas, e em escala europeia, de capital não reinvestido e de desemprego. O golpe foi especialmente duro em Paris, e provocou uma revolução fracassada de trabalhadores desempregados e de utopistas burgueses. A burguesia republicana reprimiu violentamente os revolucionários, mas não conseguiu resolver a crise. O resultado foi a ascensão ao poder de Luís Napoleão Bonaparte, ou Napoleão III, que arquitetou um golpe de Estado em 1851 e se proclamou imperador no ano seguinte.
Para sobreviver politicamente, ele recorreu à repressão generalizada dos movimentos políticos alternativos. Sua maneira de lidar com a situação económica foi implantar um vasto programa de investimentos em infraestrutura, tanto no país como no exterior. Isso significou a construção de ferrovias em toda a Europa, chegando até o Oriente, bem como apoio para grandes obras, como o Canal de Suez. No âmbito interno, veio a consolidação da rede ferroviária, a construção de portos grandes e pequenos, a drenagem de pântanos. E, acima de tudo, a reconfiguração da infraestrutura urbana de Paris. Em 1853, Napoleão III chamou Georges-Eugène Haussmann para cuidar das obras públicas da cidade.
Haussmann entendeu claramente que sua missão era ajudar a resolver o problema do capital e do desemprego por meio da urbanização. Reconstruir Paris absorveu enormes volumes de dinheiro e mão de obra pelos padrões da época, e, juntamente com a supressão das aspirações dos trabalhadores parisienses, foi um veículo primordial para a estabilização social. Haussmann adotou ideias dos planos que os seguidores dos socialistas utópicos Charles Fourier e Saint-Simon haviam debatido na década de 1840 para remodelar Paris, mas com uma grande diferença: ele transformou a escala em que o processo urbano foi imaginado.
Quando o arquiteto Jacques Ignace Hittorff mostrou a Haussmann seus planos para uma nova avenida, Haussmann os atirou de volta, dizendo: “Não é bastante larga (…). O senhor quer 40 metros de largura, e eu quero 120.” Ele anexou os subúrbios e transformou bairros inteiros, como Les Halles. Para fazer tudo isso, Haussmann precisou de instituições financeiras e de crédito. Ele ajudou a resolver o problema da destinação do capital criando um sistema protokeynesiano de melhorias urbanas de infraestrutura financiadas por títulos de dívida.
O sistema funcionou muito bem por uns quinze anos, e envolveu não só a transformação da infraestrutura urbana como também a construção de um novo modo de vida e uma nova personalidade urbana. Paris tornou-se a Cidade Luz, o grande centro de consumo, turismo e prazer; os cafés, as lojas de departamentos, a indústria da moda, as grandes exposições – tudo isso modificou a vida urbana de modo que ela pudesse absorver o dinheiro e as mercadorias, por meio do consumismo.
Mas foi então que o sistema financeiro especulativo e as instituições de crédito superdimensionadas quebraram, em 1868. Haussmann foi demitido; Napoleão III, em desespero, foi à guerra contra a Alemanha de Bismarck e saiu derrotado. No vácuo que se seguiu surgiu a Comuna de Paris, um dos maiores episódios revolucionários da história do capitalismo urbano – nascida, em parte, de uma nostalgia daquele mundo que Haussmann tinha destruído, e do desejo de retomar a cidade por parte dos que se viram despossuídos pelas obras que ele impôs.
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Saltemos agora para a década de 1940 nos Estados Unidos. A enorme mobilização para o esforço de guerra resolveu temporariamente a questão de como investir o capital excedente, problema que parecera tão intratável na década de 30, e do desemprego que o acompanhava. No entanto, todos temiam o que aconteceria depois da guerra. Politicamente a situação era perigosa: o governo federal adotava, na verdade, uma economia nacionalizada e estava em aliança com a União Soviética comunista, enquanto fortes movimentos sociais com inclinações socialistas haviam surgido na década de 30.
Como na época de Napoleão III, uma boa dose de repressão política foi exigida pelas classes dominantes da época; a história subsequente do macarthismo e da política da Guerra Fria, da qual já havia sinais abundantes no início dos anos 40, é bem conhecida. Na frente económica, restava a questão de saber de que modo o capital poderia ser reinvestido.
Em 1942, uma extensa avaliação dos esforços de Haussmann foi publicada na revista Architectural Forum. A matéria documentava em detalhes o que ele tinha feito e tentava analisar seus erros, mas procurava recuperar sua reputação como um dos maiores urbanistas de todos os tempos. O autor do artigo foi ninguém menos que Robert Moses, que depois da Segunda Guerra Mundial fez com Nova York o que Haussmann tinha feito em Paris. Ou seja, Moses mudou a escala com que se pensava o processo urbano.
Por meio de um sistema de rodovias, transformação da infraestrutura, expansão para os subúrbios e uma reengenharia total, não só da cidade como de toda a região metropolitana, ele ajudou a resolver o problema da aplicação do dinheiro. Para tanto, Moses utilizou novas instituições financeiras e esquemas tributários que liberavam o crédito para financiar a expansão urbana. Levado, em âmbito nacional, a todos os grandes centros metropolitanos do país, esse processo teve papel crucial na estabilização do capitalismo global depois de 1945, período em que os Estados Unidos conseguiram impulsionar toda a economia mundial não comunista acumulando déficits comerciais.
A chamada suburbanização dos Estados Unidos não envolveu apenas a renovação da infraestrutura. Como na Paris do Segundo Império, acarretou uma transformação radical no estilo de vida, trazendo novos produtos, desde casas até geladeiras e aparelhos de ar-condicionado, assim como dois carros na garagem e um enorme aumento no consumo de petróleo. Também alterou o panorama político, pois a casa própria subsidiada para a classe média mudou o foco de ação da comunidade, que passou para a defesa dos valores da propriedade e da identidade individual, inclinando o voto dos subúrbios para o conservadorismo. Dizia-se que os donos da casa própria, sobrecarregados de dívidas, seriam menos propensos a entrar em greve.
Esse projeto conseguiu garantir a estabilidade social, embora ao custo de esvaziar o centro das cidades e gerar conflitos urbanos entre aqueles, sobretudo negros, a quem foi negado o acesso à nova prosperidade.
No fim dos anos 60, outro tipo de crise começou a se desenrolar: Moses, tal como Haussmann, caiu em desgraça, e suas soluções passaram a ser vistas como inapropriadas e inaceitáveis. Os tradicionalistas deram apoio à urbanista e ativista Jane Jacobs, autora de Morte e vida das grandes cidades, e procuraram se contrapor ao modernismo brutal dos projetos de Moses propondo uma estética que voltava a valorizar a vida nos bairros. Mas os subúrbios já tinham sido construídos, e a mudança radical de estilo de vida que estes simbolizavam teve muitas consequências sociais, levando as feministas, por exemplo, a proclamar que o subúrbio era o símbolo de todos os seus descontentamentos básicos.
Se o projeto de Haussmann teve papel importante na dinâmica da Comuna de Paris, a vida sem alma dos subúrbios também teve papel fundamental nos acontecimentos dramáticos de 1968 nos Estados Unidos. Estudantes da classe média branca, insatisfeitos, entraram numa fase de revolta, buscaram alianças com grupos marginalizados que reivindicavam seus direitos civis e uniram a forças contra o imperialismo americano, criando um movimento para construir um mundo diferente – incluindo uma experiência urbana diferente.
Em Paris, a campanha para deter a via expressa na margem esquerda do rio Sena e a destruição de bairros tradicionais por torres e arranha-céus, como a Torre Montparnasse, influenciaram a revolta de 68. Foi nesse contexto que o sociólogo e filósofo marxista Henri Lefebvre escreveu A revolução urbana, que afirmava que a urbanização era essencial para a sobrevivência do capitalismo e, portanto, estava destinada a tornar-se um foco crucial da luta política e de classes; e que a urbanização estava apagando as distinções entre a cidade e o campo, com a produção de espaços integrados em todo o território do país. Para Lefebvre, o direito à cidade tinha de significar o direito de comandar todo o processo urbano, que ia ampliando seu domínio sobre o campo, por meio de fenómenos como o agronegócio, as casas de campo e o turismo rural.
Junto com a revolta de 68 veio a crise das instituições de crédito que tinham alimentado o boom imobiliário nas décadas anteriores. A crise ganhou força no final dos anos 60, até que todo o sistema capitalista entrou em queda, começando com o estouro da bolha imobiliária mundial em 1973, seguido pela falência fiscal da cidade de Nova York em 1975.
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Façamos outro salto adiante, agora para a atualidade. O capitalismo internacional já vinha de uma montanha-russa de quebras regionais – a crise asiática de 1997–98; a russa de 1998; a argentina de 2001 –, mas até recentemente tinha evitado uma quebra global, mesmo diante de uma incapacidade crónica de utilizar o capital excedente.
Qual foi o papel da urbanização para estabilizar essa situação? Nos Estados Unidos, o consenso é que o setor imobiliário foi um importante estabilizador da economia, em especial após o estouro da bolha da alta tecnologia do fim dos anos 90. O mercado imobiliário absorveu diretamente grande volume de dinheiro, através da construção de residências e escritórios no centro das cidades e nos subúrbios; ao mesmo tempo, o aumento do preço dos imóveis – apoiado por uma onda perdulária de refinanciamento de hipotecas a um juro baixo recorde – impulsionou o mercado interno americano de serviços e bens de consumo.
A expansão urbana americana serviu para estabilizar, parcialmente, a economia global, com os Estados Unidos acumulando enormes déficits comerciais em relação ao resto do mundo e tomando emprestado cerca de 2 bilhões de dólares por dia para alimentar seu insaciável consumismo e suas guerras no Afeganistão e no Iraque.
Mas o processo urbano sofreu uma transformação de escala. Em resumo, ele se globalizou. Booms imobiliários na Grã-Bretanha, na Espanha e em muitos outros países ajudaram a alimentar uma dinâmica capitalista muito parecida com a que se desenvolveu nos Estados Unidos.
A urbanização da China nos últimos vinte anos teve um caráter diferente, com foco intenso no desenvolvimento da infraestrutura, mas é ainda mais importante que a dos Estados Unidos. Seu ritmo se acelerou enormemente depois de uma breve recessão em 1997, a tal ponto que a China vem usando quase a metade de todo o cimento mundial desde 2000. Mais de 100 cidades chinesas já ultrapassaram a marca de 1 milhão de moradores nesse período, e lugares que antes eram pequenas aldeias, como Shenzhen, se tornaram grandes metrópoles de 6 a 10 milhões de pessoas. Vastos projetos de infraestrutura, incluindo barragens e autoestradas, estão transformando a paisagem.
A China não passa do epicentro de um processo de urbanização que agora se tornou verdadeiramente global, em parte devido à espantosa integração dos mercados financeiros, que usam sua flexibilidade para financiar o desenvolvimento urbano em todo o mundo. O Banco Central chinês, por exemplo, teve forte atuação no “mercado secundário de hipotecas” nos Estados Unidos, enquanto o banco Goldman Sachs esteve muito envolvido na alta do mercado imobiliário em Mumbai, na Índia, e o capital de Hong Kong vem investindo na cidade americana de Baltimore.
Entre uma enxurrada de imigrantes pobres, a construção civil disparou em Joanesburgo, Taipei e Moscou, assim como em cidades dos países capitalistas centrais, como Londres e Los Angeles. Projetos de megaurbanização espantosos, quando não criminalmente absurdos, surgiram no Oriente Médio, em lugares como Dubai e Abu Dhabi, absorvendo o excesso da riqueza petrolífera com o máximo possível de ostentação, injustiça social e desperdício ambiental.
Essa escala global torna difícil entender que o que está acontecendo é, em princípio, semelhante às transformações que Haussmann comandou em Paris. Pois o boom da urbanização global dependeu, tal como todos os outros antes dele, da construção de novas instituições e arranjos financeiros que organizem o crédito necessário para sustentá-la. As inovações financeiras iniciadas nos anos 80 – como a revenda em todo o mundo de papéis lastreados nas dívidas hipotecárias – tiveram papel crucial. Os seus muitos benefícios incluíam a dispersão do risco, o que não significou eliminá-lo.
Sem controles adequados, essa onda de “financeirização” se transformou na chamada crise das hipotecas podres e do valor dos imóveis. As consequências se concentraram, primeiro, nas cidades americanas e em torno delas, com implicações particularmente graves para os negros de baixa renda e famílias chefiadas por mulheres solteiras. A crise também afetou aqueles que, sem poder pagar os preços exorbitantes da habitação nos centros urbanos, foram forçados a morar nas semiperiferias metropolitanas. Nesses lugares, as pessoas compraram a juros, inicialmente baixos, casas padronizadas em condomínios construídos especulativamente; com a crise, passaram a enfrentar o aumento do custo do transporte para o trabalho e das prestações da hipoteca.
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Como em todas as fases anteriores, a expansão mais recente do processo de urbanização trouxe consigo mudanças incríveis no estilo de vida. A qualidade da vida nas cidades virou uma mercadoria, num mundo onde o consumismo, o turismo e as indústrias culturais e do conhecimento se tornaram aspectos importantes da economia urbana.
A tendência pós-modernista de incentivar a formação de nichos de mercado, nos hábitos de consumo e nas expressões culturais, envolve a experiência urbana contemporânea numa aura de liberdade de escolha – desde que se tenha dinheiro. Proliferam os shopping centers, cinemas multiplex e lojas padronizadas, as lanchonetes e as lojas artesanais. Temos agora, nas palavras da socióloga Sharon Zukin, a “pacificação pelo cappuccino”.
Até os empreendimentos imobiliários monótonos e insípidos dos subúrbios americanos, que continuam a dominar em algumas áreas, agora recebem um antídoto no movimento do “novo urbanismo”, que pretende vender uma réplica customizada da vida nas cidades. É um mundo em que a ética neoliberal de individualismo, acompanhada pela recusa de formas coletivas de ação política, se torna o modelo para a socialização humana.
Vivemos, cada vez mais, em áreas urbanas divididas e propensas a conflitos. Nos últimos trinta anos, a virada neoliberal restaurou o poder de elites ricas. Catorze bilionários surgiram no México desde então, e em 2006 o país ostentava o homem mais rico do planeta, Carlos Slim, ao mesmo tempo em que a renda dos pobres tinha estagnado ou diminuído. Os resultados estão indelevelmente gravados no espaço das nossas cidades, que cada vez mais consistem de fragmentos fortificados, condomínios fechados e espaços públicos privatizados, mantidos sob vigilância constante. Em especial no mundo em desenvolvimento, a cidade, como escreveu o urbanista italiano Marcello Balbo, 
está a partir-se em fragmentos diferentes, com a aparente formação de “microestados”. Bairros ricos dotados de todo tipo de serviços, como escolas exclusivas, campos de golfe, quadras de tênis e segurança particular patrulhando a área 24 horas, convivem com favelas sem saneamento, onde a energia elétrica é pirateada por uns poucos privilegiados, as ruas viram torrentes de lama quando chove, e a norma é a moradia compartilhada. Cada fragmento parece viver e funcionar de forma autónoma, aferrando-se firmemente ao que conseguiu agarrar na luta diária pela sobrevivência.
Nessas condições, os ideais de identidade urbana, cidadania e pertença tornam-se muito mais difíceis de sustentar. A redistribuição privatizada por meio de atividades criminosas ameaça a segurança individual a cada passo, provocando a demanda popular pela repressão policial. Até mesmo a ideia de que a cidade possa funcionar como um corpo político coletivo, um lugar dentro do qual e a partir do qual possam emanar movimentos sociais progressistas, parece implausível. Há, porém, movimentos sociais urbanos tentando superar o isolamento e remodelar a cidade segundo uma imagem diferente daquela apresentada pelas incorporadoras imobiliárias, apoiadas pelos financistas, as grandes corporações e um aparato estatal local com mentalidade cada vez mais influenciada pelos negócios.
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O investimento capitalista na transformação das cidades tem um aspecto ainda mais sinistro. Ele acarretou repetidas ondas de reestruturação urbana através da “destruição criativa”, que quase sempre tem uma dimensão de classe, uma vez que são os pobres, os menos favorecidos e os marginalizados do poder político que sofrem mais com o processo. A violência é necessária para construir o novo mundo urbano sobre os destroços do velho.
Haussmann arrasou os velhos cortiços parisienses, usando o poder de expropriação do Estado em nome do progresso e da renovação cívica. Ele organizou deliberadamente a remoção de grande parte da classe trabalhadora e de outros elementos indisciplinados do Centro da cidade, onde constituíam uma ameaça à ordem pública e ao poder político. Criou um desenho urbano no qual se acreditava – incorretamente, como se viu em 1871 – que haveria um nível de vigilância e controle militar suficiente para garantir que os movimentos revolucionários fossem dominados facilmente. No entanto, como Friedrich Engels apontou em 1872:
Na realidade, a burguesia tem apenas um método de resolver o problema da habitação à sua maneira – isto é, resolvê-lo de tal forma que a solução reproduz, continuamente, o mesmo problema. Esse método se chama “Haussmann” (…) Por mais diferentes que sejam as razões, o resultado é sempre o mesmo; as vielas e becos desaparecem, o que é seguido de pródigos autoelogios da burguesia por esse tremendo sucesso, mas eles aparecem de novo imediatamente em outro lugar (…) A mesma necessidade económica que os produziu vai produzi-los no lugar seguinte.
O aburguesamento do Centro de Paris levou mais de 100 anos para se completar, com as consequências vistas nos últimos anos – revoltas e caos nos subúrbios onde se tenta engaiolar os marginalizados, os imigrantes, os desempregados. O ponto mais triste, claro, é que o processo descrito por Engels se repete ao longo da história. Robert Moses “atacou o Bronx com uma machadinha”, em suas próprias e infames palavras, provocando lamentos de movimentos de bairro.
Nos dois casos, Paris e Nova York, depois que a resistência conseguiu conter as desapropriações promovidas pelo Estado, um processo mais insidioso se instalou por meio da especulação imobiliária e da destinação dos terrenos para os que deles fizessem “maior e melhor uso”. Engels compreendeu muito bem essa sequência:
O crescimento das grandes cidades modernas dá à terra em certas áreas, em particular as de localização central, um valor que aumenta de maneira artificial e colossal; os edifícios já construídos nessas áreas lhes diminuem o valor, em vez de aumentá-lo, porque já não pertencem às novas circunstâncias. Eles são derrubados e substituídos por outros. Isso acontece, sobretudo, com as casas dos trabalhadores que têm uma localização central e cujo aluguel, mesmo com o máximo de superlotação, não poderá jamais, ou apenas muito lentamente, aumentar acima de um certo limite. Elas são derrubadas e no seu lugar são construídas lojas, armazéns e edifícios públicos.
Embora essa descrição seja de 1872, ela se aplica diretamente ao desenvolvimento urbano contemporâneo em boa parte da Ásia – Nova Delhi, Seul, Mumbai – e à gentrificação de Nova York. Um processo de deslocamento, e o que chamo de “acumulação por desapropriação”, está no cerne da urbanização sob o capitalismo. E está originando numerosos conflitos devido à tomada de terras valiosas de populações de baixa renda, que em muitos casos vivem ali há muitos anos.
Considere o caso de Seul nos anos 1990: construtoras e incorporadoras contrataram grupos de capangas para invadir bairros pobres nos morros da cidade. Eles derrubaram a marretadas não só as moradias como todos os bens daqueles que tinham construído suas próprias casas nos anos 50, em terrenos que depois se valorizaram muito. Arranha-céus, que não mostram nenhum vestígio da brutalidade que permitiu a sua construção, agora recobrem a maior parte dessas encostas.
Em Mumbai, 9 milhões de pessoas oficialmente consideradas moradores de favelas estão assentadas em terras sem título legal de propriedade; todos os mapas da cidade deixam esses lugares em branco. No esforço de transformar Mumbai num centro financeiro mundial rivalizando com Xangai, o boom imobiliário acelerou-se e a terra ocupada por esses moradores parece cada vez mais valiosa. Dharavi, uma das maiores favelas de Mumbai, está avaliada em 2 bilhões de dólares. A pressão para limpar o terreno – por motivos ambientais e sociais que mascaram a usurpação das terras – aumenta dia a dia. Poderes financeiros apoiados pelo Estado pressionam pelo despejo forçado das favelas. Desse modo a acumulação de capital pela atividade imobiliária vai ao auge, uma vez que a terra é adquirida a custo quase zero.
Exemplos de desapropriação também podem ser encontrados nos Estados Unidos, embora tendam a ser menos brutais e mais legalistas: o governo abusa do seu direito de desapropriar, deslocando pessoas que moram em habitações razoáveis em favor de um uso da terra mais rentável, com condomínios ou lojas. Quando esse procedimento foi contestado na Suprema Corte americana, os juízes decidiram que era constitucional que os municípios se comportassem dessa maneira, a fim de aumentar a sua receita com os impostos imobiliários.
Na China, milhões de pessoas estão sendo despejadas dos espaços que ocupam há longo tempo – 3 milhões só em Pequim. Como não possuem direitos de propriedade, o Estado pode simplesmente removê-las por decreto, oferecendo um pequeno pagamento para ajudá-las na transição antes de entregar a terra para as construtoras, com grandes lucros. Em alguns casos, as pessoas se mudam de boa vontade, mas também há relatos de resistência generalizada; contra esta, a reação habitual é a repressão brutal do Partido Comunista.
E o que dizer da proposta aparentemente progressista de conceder direitos de propriedade privada a populações de assentamentos informais, fornecendo-lhes recursos que lhes permitam sair da pobreza? Tal sistema está sendo sugerido para as favelas do Rio de Janeiro, por exemplo. O problema é que os pobres, sofrendo com a insegurança de renda e frequentes dificuldades financeiras, podem ser facilmente persuadidos a trocar sua casa por um pagamento relativamente baixo em dinheiro. Os ricos normalmente se recusam a ceder seus ativos a qualquer preço, e é por isso que Moses pôde atacar com sua machadinha o Bronx, uma área de baixa renda, mas não a Park Avenue.
O efeito duradouro da privatização feita por Margaret Thatcher da habitação social na Grã-Bretanha foi criar uma estrutura de renda e de preços em toda a área metropolitana de Londres que impede as pessoas de baixo rendimento, e até mesmo de classe média, de ter acesso à moradia em qualquer lugar perto do centro urbano. Posso apostar que dentro de quinze anos, se as tendências atuais continuarem, todos os morros do Rio agora ocupados por favelas estarão cobertos por prédios altos com uma vista fabulosa, enquanto os antigos moradores das favelas terão sido filtrados, excluídos e estarão morando em alguma periferia remota.
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A urbanização, podemos concluir, vem desempenhando um papel fundamental no reinvestimento dos lucros, a uma escala geográfica crescente, mas ao preço de criar fortes processos de destruição criativa que espoliaram as massas de qualquer direito à cidade. O planeta como canteiro de obras se choca com o “planeta favela”. Periodicamente isso termina em revolta. Se, como parece provável, as dificuldades aumentarem e a fase até agora bem-sucedida, neoliberal, pós-moderna e consumista do investimento na urbanização estiver no fim e uma crise mais ampla se seguir, então surge a pergunta: onde está o nosso 1968, ou, ainda mais dramaticamente, a nossa versão da Comuna de Paris? Tal como acontece com o sistema financeiro, a resposta tende a ser mais complexa porque o processo urbano hoje tem âmbito mundial.
Há sinais de rebelião por toda parte: as agitações na China e na Índia são crónicas, travam-se ferozes guerras civis na África, a América Latina está em efervescência. Qualquer uma dessas revoltas pode se tornar contagiosa. Ao contrário do sistema financeiro, entretanto, os movimentos sociais urbanos e das periferias das cidades não têm em geral conexão uns com os outros. E se, de alguma forma, eles vierem a se unir, o que deveriam exigir?
A resposta a essa pergunta é bastante simples em princípio: um maior controle democrático sobre a produção e a utilização do lucro. E uma vez que o processo urbano é um dos principais canais de uso desse dinheiro, criar uma gestão democrática da sua aplicação constitui o direito à cidade. Ao longo de toda a história do capitalismo, uma parte do lucro foi tributada, e em fases social-democratas a proporção à disposição do Estado aumentou significativamente. O projeto neoliberal dos últimos trinta anos caminhou para privatizar esse controle.
Os dados para todos os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico mostram, porém, que a fatia estatal da produção bruta tem sido mais ou menos constante desde os anos 70. Assim, a principal conquista neoliberal foi evitar que a parcela pública se ampliasse, como ocorreu nos anos 60. O neoliberalismo também criou novos sistemas de governança que integraram os interesses estatais e empresariais, garantindo que os projetos governamentais para as cidades favoreçam as grandes empresas e as classes mais altas. Aumentar a proporção do dinheiro em poder do Estado só terá um impacto positivo se o próprio Estado voltar a ficar sob controle democrático.
A cada mês de janeiro, o Estado de Nova Iorque publica uma estimativa do total de bónus concedidos aos altos executivos pelos bancos e financeiras de Wall Street nos doze meses anteriores. Em 2007, um ano desastroso para os mercados financeiros, os bónus totalizaram 33,2 mil milhões de dólares, apenas 2% menos que no ano anterior. Em meados de 2007, os bancos centrais americano e europeu injetaram bilhões de dólares em créditos de curto prazo no sistema financeiro para garantir a sua estabilidade; em seguida o Banco Central americano reduziu drasticamente as taxas de juros e injetou vastas quantidades de dinheiro no mercado a cada vez que o índice da Bolsa de Valores ameaçava despencar.
Enquanto isso, cerca de 2 milhões de pessoas foram despejadas por não poder mais pagar as prestações de suas casas. Muitos bairros em diversas cidades americanas foram cobertos de tapumes e vandalizados, destruídos pelas práticas predatórias de empréstimos das instituições financeiras. Essa população não recebeu nenhum bónus. Essa assimetria não pode ser interpretada como nada menos que uma forma maciça de confronto de classes.
No entanto, ainda não vimos uma oposição coerente a esses fatos no século XXI. Já existem em muitos países, claro, movimentos sociais focados na questão urbana. Em 2001, o Brasil aprovou o Estatuto da Cidade, depois de anos de pressão de movimentos sociais pelo reconhecimento do direito coletivo à cidade. Mas esses movimentos não convergiram para o objetivo único de ganhar mais controle sobre os usos do dinheiro – e muito menos sobre as condições da sua produção.
Nesse ponto da história, essa tem de ser uma luta global, predominantemente contra o capital financeiro, pois essa é a escala em que ocorrem hoje os processos de urbanização. Sem dúvida, a tarefa política de organizar um tal confronto é difícil, se não desanimadora. Mas as oportunidades são múltiplas, pois, como mostra esta breve história, as crises eclodem repetidas vezes em torno da urbanização e a metrópole é hoje o ponto de confronto – ousaríamos chamar de luta de classes? — a respeito da acumulação de capital pela desapropriação dos menos favorecidos e do tipo de desenvolvimento que procura colonizar espaços para os ricos.
Um passo para a unificação dessas lutas é adotar o direito à cidade, como slogan e como ideal político, precisamente porque ele levanta a questão de quem comanda a relação entre a urbanização e o sistema económico. A democratização desse direito e a construção de um amplo movimento social para fazer valer a sua vontade são imperativas para que os despossuídos possam retomar o controle que por tanto tempo lhes foi negado e instituir novas formas de urbanização. Lefebvre estava certo ao insistir em que a revolução tem de ser urbana, no sentido mais amplo do termo; caso contrário, não será nada.

* Publicado originalmente na New Left Review 53, Set/Out, 2008.
Publicado no blog da Boitempo.

Aumenta feminização da Aids e crescem denúncias de tráfico de mulheres

Adital
Foto: PSTUO Relatório Alternativo da Sociedade Civil a ser enviado ao Comitê das Nações Unidas da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação à Mulher (CEDAW), ainda está em fase final de compilação e estudo dos dados coletados, mas já revela problemas no tocante ao combate ao tráfico de mulheres e ao apoio à saúde das mulheres brasileiras. O documento aponta o aumento da feminização da Aids e o crescimento das denúncias de tráfico de mulheres e meninas, o que pode indicar a ausência do Estado para a prevenção e o enfrentamento do problema, cujas causas são estruturais, como apontam os estudos.

O aumento da feminização da Aids, situação na qual a criança é infectada pelo vírus durante a gestação, parto ou amamentação, é comprovado pela taxa de nascidos com HIV na região sul do Brasil, que é de 5,4 casos a cada mil nascidos vivos, enquanto a média nacional é de 2,3 casos. Quanto aos números de denúncias de tráfico de mulheres e meninas, os números mostram o aumento nas denúncias em 1.517% no primeiro semestre de 2013 em comparação ao mesmo período de 2012. Segundo o balanço divulgado pela SPM/PR, entre os meses de janeiro a junho, o Ligue 180 recebeu 263 denúncias, das quais 173 sobre casos internacionais e 90 no Brasil. Em 34% dos registros, havia risco de morte da vítima.

Um outro fato que também estará presente no relatório é o caso da jovem Alyne da Silva Pimentel Teixeira, que faleceu devido à má qualidade no atendimento prestado pelos serviços de saúde em 2002. Grávida de 27 semanas, ela procurou uma casa de saúde particular com vômitos e fortes dores abdominais e nenhum exame mais detalhado foi prescrito. O feto acabou morrendo, a demora para a cirurgia de retirada da placenta e a falta de cuidados no encaminhamento da paciente para um hospital público acabaram causando o coma e a posterior morte de Alyne.

A proposta preliminar do Relatório Alternativo será feita nos dias 03 e 04 de dezembro durante a 3ª Reunião do Consórcio Nacional do Projeto de Monitoramento da CEDAW, em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, dentro da programação dos 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher .O documento, que vai subsidiar a análise da ONU sobre as ações do governo brasileiro em relação ao tráfico de mulheres e à saúde da mulher, contou com a ajuda de organizações e redes de mulheres do país, além do auxílio da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM/PR). Ele foi produzido a partir da constatação de que faltam políticas públicas eficientes e abrangentes para combater estes problemas.

A produção do relatório foi possível com a formação de um consórcio de especialistas em maio de 2013 para a obtenção de dados, fatos e comprovações das lacunas quanto às leis e políticas públicas. Após essa fase, em outubro, foi aberto um processo de consulta participativa para que todas as pessoas e entidades interessadas pudessem contribuir com a pesquisa através de formulários disponibilizados na página do Proejto de Monitoramentoda CEDAW na internet.

Participam do Comitê Gestor do Projeto as ONG Coletivo Feminino Plural, Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, Comitê da América Latina e do Caribe para os Direitos da Mulher (CLADEM/Brasil) e Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (NIEM/UFRGS).

COP19: Conferência acaba sem expetativas e com frustração

As expetativas para a Conferência da ONU sobre o Clima em Varsóvia já eram reduzidas, mas o resultado ficou aquém disso. Os representantes da sociedade civil abandonaram uma Conferência marcada pela força do lóbi do carvão sobre o governo anfitrião da COP19. Artigo de Bruno Toledo, do Observatório do Clima.
Representantes de ONG presentes em Varsóvia acabaram por abandonar a Conferência, face à falta de vontade dos representantes dos Estados em chegarem a um acordo mínimo para evitar a catástrofe ambiental deste século. Foto PushEurope/Flickr
Há uma palavra que se repete desde meados da semana passada, como se fosse um disco riscado tocando nos altifalantes do Estádio Nacional: frustração. Esse sentimento não está sequer próximo daquilo que muitos sentiram há quatro anos, quando Copenhaga atirou um balde de água gelada aos negociadores e observadores esperançosos. Ao contrário daquela fatídica COP 15, quando muito se esperava e nada se conseguiu, em momento algum Varsóvia chegou a animar as pessoas pela possibilidade de resultados ambiciosos. Pelo contrário, a COP 19 era uma conferência com poucas expetativas, e essas últimas duas semanas conseguiram colocá-la aquém dessas expetativas: o pouco que se esperava de Varsóvia dificilmente será entregue pelos negociadores.
O processo de negociação em Varsóvia deixou claro que falta um elemento fundamental para discussões multilaterais “civilizadas”, no tradicional padrão ONU: confiança. Países como o Canadá, Austrália e Japão não tiveram receio algum de amarrar algumas pedras nas pernas dos negociadores em Varsóvia e afundar com as discussões de temas sensíveis. O anúncio do governo japonês, que reduziu sua ambição num momento em que todos esperavam aumentá-la, é um indicativo de como o processo multilateral de negociação está desacreditado. A Austrália veio a Varsóvia decidida a reafirmar a postura intransigente e irracional que o seu novo governo adotou domesticamente, ao desmontar todas as políticas nacionais em clima. Os países desenvolvidos não quiseram sequer pensar em responsabilidades históricas, não trouxeram compromissos de financiamento, e alguns deles estavam decididos a “rediscutir a Convenção” – o que daria margem para rever alguns princípios fundamentais que os incomodam desde 1992, e que resguardam as nações em desenvolvimento dentro das negociações. A falta de confiança dificulta os entendimentos e gera um sentimento de desilusão com o processo político. Essa desilusão fez com a sociedade civil presente na COP 19 abandonasse uma conferência já tida como perdida.
A verdade é que em momento algum Varsóvia chegou perto de entregar o pouco que prometia. O problema é que esse pouco com toda certeza fará falta no contexto mais amplo das negociações. Ao postergar decisões importantes que poderiam ser tomada hoje, a COP 19 lança mais pressão na agenda de discussões da COP 20 de Lima (2014) e da COP 21 de Paris (2015). O grande temor dos negociadores e da sociedade civil é que a importantíssima Conferência de Paris se transforme numa “Copenhaga II: O fracasso reloaded”. Como disse o representantes francês nesta manhã, depois da oficialização da França como anfitriã da COP 21, se fracassarmos em 2015, descartaremos qualquer possibilidade, mesmo a mais surreal, de impedir o aumento da temperatura global acima dos fatídicos 2ºC, o que lança o planeta num processo de mudanças climáticas difícil de prever e quase irreversível no longo prazo.
E para que esse fracasso monumental não aconteça, a COP 19 reafirma-nos uma lição que o Secretariado da Convenção esqueceu no ano passado: o papel central do país anfitrião nas negociações. Essas duas semanas mostraram que o engajamento do governo polaco nas discussões sempre foi marginal, tendendo a compromissos básicos e mínimos. Já tinha sido assim na Conferência de Doha, no ano passado, quando a Polónia bateu o pé para aproveitar o seu hot air no segundo período de compromisso do Protocolo de Quioto e obstruiu as negociações da época. Este ano, o país conseguiu organizar uma das piores conferências em termos de processo político, confiança e resultados. A COP 19 será marcada como a COP do Carvão: a presença de empresas poluidoras no rol de “parceiros da COP”, a realização da Coal & Climate Summit no meio da Conferência, a demissão do presidente polaco da COP durante as negociações com o motivo de acelerar as operações com gás de xisto na Polónia. Em momento algum o governo polaco sinalizou que a COP 19 era um evento estratégico, o que simplesmente reafirma que o tema das alterações climáticas na Polónia está longe de ser uma preocupação do primeiro-ministro Donald Tusk.
Espera-se que Peru e França sejam mais proativos na liderança das negociações, o que, dependendo da falta de resultados de Varsóvia, pode não ser suficiente para avançar rumo a um acordo climático global amplo e justo. Hoje, os corredores esvaziados, as rodas de conversa pessimistas e os negociadores cansados por discussões prolongadas mostram o tamanho do esforço empreendido e perdido em Varsóvia. Que isto não nos custe caro demais no futuro.

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

90 empresas serão responsáveis por 66% das emissões de gases de efeito de estufa

Um novo estudo aponta que apenas 90 empresas poderão ser responsáveis por causar dois terços das emissões de gases do efeito de estufa, ligadas ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Por Jéssica Lipinski do Instituto CarbonoBrasil
A grande maioria das 90 empresas está em setores ligados à produção de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão
Um novo estudo do Instituto de Responsabilidade Climática do Colorado sugere que apenas 90 empresas são responsáveis por causar dois terços, ou 66%, das emissões de gases do efeito de estufa (GEEs) ligadas ao aquecimento global e às mudanças climáticas recentes.
Segundo o levantamento, publicado no periódico Climatic Change, entre essas companhias estão 50 empresas privadas, como a Chevron, a Exxon e a BP, 31 estatais, como a árabe Saudi Aramco, a russa Gazprom e a norueguesa Statoil, e nove governamentais, localizadas principalmente na China, União Soviética, Coreia do Norte e Polónia.
Os autores afirmam que a grande maioria das companhias presentes nessa lista está em setores ligados à produção de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão. “Há milhares de produtores de petróleo, gás e carvão no mundo. Mas os decisores, os CEOs ou os ministros de carvão e petróleo [...] poderiam todos caber em um autocarro ou dois”, disse Richard Heede, cientista climático e principal autor da investigação, ao jornal “The Guardian”.
De acordo com a análise, muitas das firmas listadas possuem enormes reservas de combustível fóssil que, se consumidas, exporiam o mundo a riscos ainda maiores de mudanças climáticas. O ex-vice-presidente dos EUA e ambientalista Al Gore elogiou o documento.
“Esse estudo é um passo à frente essencial no nosso entendimento da evolução da crise climática. Os setores público e privado devem fazer o que é necessário para parar o aquecimento global. Os que são historicamente responsáveis por poluir a nossa atmosfera têm uma obrigação clara de ser parte da solução”, observou Gore.
A investigação aponta que metade dessas emissões foi produzida desde 1986, isto é, depois que os governos e empresas se tornaram cientes do aumento da libertação de GEEs proveniente da queima de combustíveis fósseis, e de que estes GEEs ajudam a potencializar as mudanças climáticas.
O estudo indica também que as 90 companhias da lista produziram entre 1854 e 2010 cerca de 914 gigatoneladas de emissões de CO2, ou 63% das emissões globais cumulativas de dióxido de carbono industrial e metano . Foram 315 gigatoneladas produzidas pelas empresas privadas, 288 pelas estatais e 312 pelas governamentais. Além disso, 30% de toda a libertação de CO2 foi produzida por apenas 20 das maiores poluidoras.
Os dados mostram que as firmas governamentais de petróleo e carvão na ex-União Soviética produziram mais emissões de gases do efeito de estufa do que as de qualquer outro país, com 8,9%. Em segundo lugar vêm as empresas governamentais da China, com 8,6% da libertação.
Já a Chevron foi a maior emissora no quesito de companhias privadas, com 3,5% da libertação de GEEs, seguida pela Exxon, com 3,2%, e pela BP, com 2,5%. Os dados de emissões históricas foram coletados do Centro de Informação e Análise de Dióxido de Carbono, que leva em conta a libertação de CO2 de toda a cadeia de suprimentos.
Naomi Oreskes, professora de história da ciência de Harvard, comentou que é interessante notar que muitos dos maiores emissores pertencem a movimentos de ceticismo climático. “Para mim, uma das coisas mais interessantes para se pensar é a coincidência entre produtores de grande escala e o financiamento de campanhas de desinformação, e como isso tem atrasado a ação.”
Especialistas acreditam que as descobertas são importantes para identificar de que países vêm as emissões. “Parece que talvez isso possa acabar com o impasse. Há todos os tipos de países que produziram uma grande quantidade de emissões históricas que normalmente não falamos. Normalmente não falamos do México ou Polónia ou Venezuela. Então não é apenas rico versus pobre, é também produtores versus consumidores, e rico em recursos versus pobre em recursos”, acrescentou Oreskes.
Artigo de Jéssica Lipinski do Instituto CarbonoBrasil, com The Guardian/Instituto de Responsabilidade Climática

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quem precisa de Estado?

O Estado para Hegel era um todo ético organizado mas hoje  não há como deixar de ter dúvidas sobre a real necessidade e até mesmo até onde irão os estados, não é uma ideia atual, Marx colocava o estado como um mal não necessário a ser substituído pela sociedade emancipada. Este estado desde Hegel além de poder é um aparato administrativo burocratizado, antes seria formado principalmente pela coincidência de características étnicas e culturais, claro que o estado-nação absorveu estes aspectos, mas mais do que isso ele é  uma espécie de escritório que se torna representação na vida das pessoas.

Parece utópico e absurdo se imaginar um Mundo sem estados mas o oposto disso é imaginar um Mundo com estados. O fator território  tende a ser engolido cada vez mais pelas modernas tecnologias de transporte e de comunicação; a cultura, embora, haja um "instinto de preservação em meio a tudo isso, no mínimo se torna conhecido em qualquer lugar do planeta.

Um outro aspecto levantado por intelectuais, aqui menciono Zigmunt Bauman, visualizam a separação entre poder e política, política aqui entenda-se como a política do estado; os poderes vem de outras "fontes. Por exemplo, para Chomsky os donos do Mundo são hoje organismos e instituições financeiras internacionais. Os estados perdem sua essência, mas por uma via que não é a emancipação de Marx e sim uma fuga que trás mais problemas do que soluções.

Se perguntarmos nas ruas para quê serve o Estado? Dirão-nos facilmente que para fazer cumprir a lei, a ordem, para evitar a guerra de todos contra todos. Mas o nosso Estado Moderno é mais do que isso, se o Homem tende a se organizar politicamente, o Estado Moderno não é somente isso, é uma religião no seu caráter mais característico, diferencia, cria ódios, enfim. Agora é difícil também imaginar um governo único para o Mundo todo, como se fosse um super país global, e se não tivermos nenhum Estado?

Reino Unido tem bomba relógio de 1.430.000.000.000 libras

É esse o valor total da dívida privada, uma média de 54 mil libras (64.500 euros) por família: O valor duplicou numa década, apesar das taxas de juros baixas. Estudo aponta para o perigo de milhares de pessoas perderem a capacidade de pagar as prestações das casas.
Subida das taxas de juro pode ser desastrosa. Foto de Clayton Perry Photoworks
O Centro para a Justiça Social do Reino Unido revelou que mais de 5000 britânicos estão a perder as casas anualmente por deixarem de ter capacidade de pagar as prestações. O estudo mostra que apesar do regresso ao crescimento económico, a dívida das famílias no país totaliza 1,43 bilhão de libras (1,70 bilhão de euros). A média da dívida por lar é de 54 mil libras (64.500 euros), o que representa quase o dobro de há dez anos.
A dívida privada total já representa 94% do Produto Nacional Bruto do país, a segunda maior dos países da Europa, só superada (em percentagem do PNB) pela da Irlanda. O estudo mostra grande preocupação porque mesmo com as taxas de juros a níveis excecionalmente baixos, menos dívida foi paga que em países como os Estados Unidos. Por outras palavras, a bolha pode estourar.
O estudo do CSJ diz que 26 mil famílias já foram classificadas sem-abrigo pelas autoridades locais, um número que pode multiplicar-se se as taxas de juros aumentarem. O CSJ calcula que 3,9 milhões de famílias não têm poupança suficiente para pagar a renda de casa ou a prestação por mais de um mês.

Conta no Twitter classifica nordestinos de vagabundos

Conta do Twitter no nome de Karine Melchior é mais uma das que  propagam na rede social discriminações regionais e de gênero sexual. Na descrição Karine Melchior se diz Estudante de Publicidade e residente em São Paulo.

A conta ainda cita que Jair Bolsonaro, apoiador da ditadura militar, seja o Presidente da República. E pede a morte de José Genuíno. Vários twitter são destinados a discriminações com relação ao homossexualismo, inclusive chega a pedir a separação do Sul e do sudeste do Nordeste por Daniela Mercury ser nordestina.

Em outro Twitter classifica os nordestinos de vagabundos.




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"Saber da viola, da violência"

Assim como o homem odeia, pode ir na hora da solidão a profundidade de um sentimento que muitos idealizam em um Mundo próprio. O ódio, a pulsão-razão de agredir, de se sobrepor sobre um ou mais indivíduos ocupa o raciocinar humano. A ação parte para o físico, pode ser ação precedida de trama psíquica ou ação-reflexo instintual.

É até comum se colocar a violência como um agir desprovido de consciência, mas uma violência-social é uma espécie de condição, simbologia, produto de determinada representação social.

O Raskolnikov de Dostoiévski castiga a si próprio na mesmo campo em que planejara a prática de uma ação violenta; o matador de aluguel ou pistoleiro, carrega no assassínio um símbolo de força ou de prática positiva.

Uma sociedade como a nossa, consumista, hiper-sexualizada (País-puteiro) e produtora de várias exclusões, e que carrega em sua história mais recente um processo de expansão urbana  marcado pela violência-delinquência tende a consumir violência. Trata essa violência como produto de inimigos a serem eliminados e não se elimina algo senão pela supressão desse algo, e nós vendemos e consumimos violência todos os dias, e nem sequer é violência-potência e sim a barbárie mesmo.

Podemos dizer que temos uma máquina econômico-social para a produção de uma modalidade de violência, propagada de várias maneiras, tendo em prática a eliminação do diálogo, em uma entrevista dizia muito acertadamente Edgar Morin: "Só há diálogo se houver igualdade", igualdade aqui, certamente, não significa uma forma forçada, mas sim uma consequência do reconhecimento mútuo de dignidades.





"O Fascismo eterno" de Umberto Eco

O fascismo foi, sem dúvida, uma ditadura, mas não foi totalmente totalitário, não tanto por sua característica, como pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pode pensar, o fascismo italiano não tinha uma  filosofia própria: tinha só uma retórica .

A prioridade histórica não parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra "fascismo" tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto de vários movimentos totalitários. Não vale dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, digamos que  "em estado quintessencial". Pelo contrário, o fascismo não tinha nenhuma quintessência, e nem mesmo uma única essência. O fascismo foi um totalitarismo difuso. Não era uma ideologia monolítica  mas sim uma colagem de diferentes idéias políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições.

O termo fascismo se adapta a tudo, porque é possível remover de um regime fascista um ou mais aspectos, e  sempre podemos reconhecê-lo como fascista. Apesar dessa confusão, eu acho que é possível especificar uma lista de características típicas daquilo que eu gosto de chamar Urfascismo ou Fascismo Eterno. Tais características não podem ser enquadradas em um sistema, muitos se contradizem uns aos outros, e são típicos de outras formas de despotismo ou fanatismo, mas basta que uma delas esteja presente para fazer coagular uma nuvem fascista.

1. Culto da tradição, do conhecimento arcaico, da revelação recebida na aurora da história humana confiada a hieróglifos egípcios, às ruínas celtas, nos textos sagrados, ainda desconhecidos, algumas religiões asiáticas. Cultura sincrética, que deve aceitar todas as contradições. Basta olhar para a cartilha de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A Gnose nazista se alimentava de elementos tradicionalistas, sincretistas, ocultos.

2. Rejeição do Modernismo. O Iluminismo, a Idade da Razão, é visto como o início da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como irracionalismo .

3. Culto de ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Portanto, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas .

4. Rejeição do pensamento crítico. O espírito crítico  ópera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição .

5. O medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista, ou prematuramente fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. Chamamento  às classes médias frustradas. O fascismo em nosso tempo encontra seu público nesta nova maioria.

7. O nacionalismo e a xenofobia. Obcessão pela trama.

8. Inveja e medo do "inimigo".

9. Princípio da guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, o desprezo para os fracos.

11. Heroísmo, culto à morte .

12. Transferência da vontade de poder para questões sexuais. Machismo, o ódio ao sexo não conformista. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. O populismo  qualitativo, oposição aos  governos parlamentares podres. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do parlamento, porque já não representa a voz do povo, podemos perceber cheiro de Ur- Fascismo .

14. Novilíngua. Todos os livros escolares nazistas ou fascistas foram baseados em um vocabulário pobre e em uma sintaxe elementar, a fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Mas devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando assume a inocente forma de um popular reality show.

O Ur- Fascismo pode voltar com as aparências ainda mais inocentes. Nosso dever é desmascará e apontar o índice em cada uma de suas formas novas, todos os dias, em todas as partes do mundo.

Publicado por sociologia crítica

ZYGMUNT BAUMAN: A CULTURA NA ERA DO CONSUMO

Zygmunt Bauman analisa como a economia e o mercado transformaram os bens culturais em objetos de compra e venda. 
Sobre a base de estudos realizados na Gram Bretanha, Chile, Hungria, Israel e Holanda, uma equipe de treze membros dirigido pelo respeitado sociólogo de Oxford John Goldthorpe chegou à conclusão de que já não é possível diferenciar facilmente a elite cultural de outros níveis mais baixos na correspondente hierarquia mediante os signos que outrora eram eficazes: a assistência regular a  ópera e a concertos, o entusiasmo por tudo o que em algum momento se considere “arte elevada” e o hábito de contemplar com desprezo “lo comum, desde as cancões pop até a televisão comercial". Isso não equivale a dizer que já não existam pessoas consideradas - em grande medida por elas mesmas- integrantes de uma elite cultural: verdadeiros amantes da arte, gente que sabe melhor que seus pares não tão cultivados de que se trata a cultura, em que consiste e que se julga comme il faut ou comme il ne faut pas -apropriado ou inapropriado- para um homem ou uma mulher de cultura. Exceto que, a diferença de aquelas elites culturais da modernidade, já não são “connoisseurs” no sentido estrito de menosprezar o gosto do homem comum ou o mal gosto dos ignorantes. Pelo contrário, hoje resulta mai apropriado qualificá-los de “omnívoros”, recorrendo ao termo proferido por Richard A. Peterson, da Vanderbilt University: em seu repertório de consumo cultural há espaço para a ópera e também para o heavy metal, o punk, para a “arte elevada” e também para a televisão comercial, para Samuel Beckett y também para Terry Pratchett. Um Mordisquito disto, um bocado de aquilo, hoje uma coisa, amanhã outra. Uma miscelânia. De acordo com Stephen Fry, autoridade em tendências da moda expert da mais exclusivs sociedade londrinense (assim como estrela de exitosos programas televisivos). Fry admite publicamente:
Uma pessoa pode ser fanática pelo digital a outra vez ler livros; pode ir à ópera, assistir a uma partida de criquet e reservar entradas para um recital de Led Zeppelin sem partir-se em pedaços. Você gosta da  comida tailandesa? O que tem de mal à italiana? Epa, calma. Gosto das duas. Sim, se pode. Eu posso gostar de rugby, de futebol o de  musicais de Stephen Sondheim. O gótico victoriano e d as instalações de Damien Hirst. Herb Alpert & The Tijuana Brass e as obras para piano de Hindemith. Os hinos ingleses e Richard Dawkins. As edições originais de Norman Douglas, e ademais os iPods, o billar inglês, os dardos e o balet.
Então, tal como  enunciou Peterson em 2005 sintetizando vinte anos de investigação: “Observamos um deslizamento na política dos grupos de elite, desde aquela intelectualidade esnobe que desdenha toda la cultura baixa, vulgar ou popular de massas [.] até a intelectualidade omnívora que consume um amplio espectro de formas artísticas populares assim como cultas”. Em outras palavras, nenhuma obra da cultura me é estranha: não me identifico com nenhuma cem por cento, de maneira total e absoluta, e menos ainda o preço de negar-me outros prazeres. Em todas as partes me sinto como em casa, apesar de que (ou quem sabe porque) não há nenhum lugar que possa considerar minha casa. Não se trata tanto da confrontação entre um gosto (refinado) e outro (vulgar), como do omnívoro contra o unívoro, a disposição a consumi-lo todo contra a seletividade melindrosa. A elite cultural está viva e rabeando: hoje está mais ativa e ávida que nunca. porém está tão ocupada seguindo hits e outros eventos culturais célebres que não tem tempo para formular cânones de fé o converter a outros.
Aparte do princípio de “não ser meticuloso, não ser exigente” e “consumir mais”, não tem nada que dizer à  multidão unívora que está na base da hierarquia cultural.
E no entanto , como se ler em una obra de Pierre Bourdieu de  apenas umas décadas, houve um tempo em que cada oferta artística estava dirigida a uma classe social específica, e somente a essa classe, em tanto que era aceitada unicamente -ou primordialmente- por essa classe. O triplo efeito de aquelas ofertas artísticas -definição de classe, segregação de classe e manifestação de pertencimento a uma classe- era, de acordo com Bourdieu, se essencial razão de ser, a mais importante de suas funções sociais, quem sabe inclusive seu objetivo oculto, se não declarado.
Segundo Bourdieu, as obras de arte destinadas ao consumo estético indicavam, assinalavam e protegiam as divisões entre classes, demarcando e fortificando legivelmente as fronteiras que separava, umas de outras. A fim de traçar fronteiras inequívocas e protegê-las com eficácia, todos os objets d’art, ou ao menos uma significativa maioria, deviam estar destinados a conjuntos mutuamente excludentes, cujos conteúdos não correspondia mesclar nem aprovar ou possuir de forma simultânea. O que contava não eram tanto seus conteúdos ou qualidades inatas como suas diferenças, sua intolerância mutua e la proibição de conciliá-las, características erroneamente apresentadas como manifestação de sua resistência inata e imanente às relações morganáticas. Havia gostos das elites - "alta cultura" por natureza-, gostos medíocres ou “filisteus” típicos da classe média e gostos “vulgares”, venerados pelas classes baixas: e mesclar esses gostos era mais difícil que mesclar água com fogo. Talvez a natureza abominara do vazio, porém o induvidoso era que a cultura não tolerava uma mélange. Na distinção, Bourdieu disse que a cultura se manifestava antes de tudo como um instrumento útil concebido na consciência para marcar diferenças de classe e salvaguardá-las: como uma tecnologia inventada para a criação e a proteção de divisões de classe e hierarquias sociais.
Em resumo, a cultura se manifestava tal como a havia descrito Oscar Wilde um século antes: “Quem encontram significados belos nas coisas belas são espíritos cultivados [.]. São os eleitos, e para eles as coisas belas somente significam beleza”. “Os eleitos”, digo, os que cantam louvores e aqueles valores que eles mesmos mantém, ao tempo que se asseguram o triunfo no concurso de canções. É inevitável que encontrem significados belos na beleza, já que são eles quem decidem o que é a beleza; inclusive antes de que começara a busca da beleza, quem se não os eleitos decidiram onde buscá=la (na ópera e não na music hall ou em um posto de férias; n as galerias e não n as paredes da cidade ou n as reproduções baratas que decoram as casas obreiras e campesinas; em volumes com tampas de couro e não na gráfica do periódico ou em outras publicações que se adquirem por centavos). Os eleitos não são eleitos na virtude de sua  percepção do belo, sim mais bem em virtude de que la asserção “isto es belo” é vinculante precisamente porque tem-na pronunciado elos e tem confirmado com sus ações.
Sigmund Freud creia que o saber estético busca em vão a essência, a natureza e as fontes da beleza, suas qualidades imanentes, por assim dizer, e geralmente oculta sua ignorância em uma torrente de pronunciamentos pomposos, presuntuosos e em última instância vazios. “A beleza não tem uma utilidade evidente -decreta Freud-, nem é manifesta sua necessidade cultural, e sem embargo a cultura não poderia viver sem ela.”
Porém por outra parte, tal como sugere Bourdieu, a beleza tem seus benefícios e há uma necessidade de que exista. Ainda que,  os benefícios não são “desinteressados”, como asseverava Kant, são benefícios de todos os  modos, e  a necessidade não é necessariamente cultural, é social; e é muito provável que tanto os benefícios como a necessidade de distinguir entre beleza e feiura, ou entre delicadeza e vulgaridade, perdurem embora existam a necessidade e o desejo de distinguir a alta sociedade da baixa sociedade, assim como o perito de gostos refinados de quem tem mau gosto, das vulgares massas, da plebe e da gentalha…
Em consequência de considerar atentamente estas descrições e interpretações, fica claro que a “cultura” (um conjunto de preferências sugeridas, recomendadas e impostas em virtude de sua correção, excelência ou beleza) era para os autores citados, em primeiro lugar e em definitiva, uma força “socialmente conservadora”. A fim de demostrar sua eficácia nesta função, a cultura tinha que por em prática, com igual tensão, dos atos de subterfúgio aparentemente contraditórios. Tinha que ser tão enfática, severa e inflexível em suas avaliações como em suas censuras, em outorgar como em negar entradas, em autorizar documentos de identidade como em negar direitos de cidadania. Ademais de identificar que era desejável e recomendável por ser “como deve ser” - familiar e acolhedor-, a cultura necessitava significantes para indicar que coisas mereciam desconfiança e deviam ser evitadas a causa de sua baixeza e sua ameaça encoberta; letreiros que advertiram, como mais adiante dos confins de Roma nos mapas antigos, que hic sunt leones: aqui têm  leões. A cultura devia assemelhar-se ao náufrago de aquela parábola inglesa aparentemente irônica porém de intenção moralizante, que a fim de sentir-se como em casa, é dizer, de adquirir una identidade e defendê-la com eficácia, teve que construir três moradas na ilha deserta onde havia naufragado seu barco: a primeira era sua vivenda, a segunda era o clube que frequentava todos os sábados e a terceira cumpria a única função de ser o lugar cujo umbral o náufrago não devia cruzar, e em consequência evitou cruzar assiduamente em todos os largos anos que passou na ilha.
Quando foi publicado há mais de trinta anos, a distinção de Bourdieu pôs patas acima o conceito original de “cultura” nascido com a Ilustração e logo transmitido de geração em geração. O significado de cultura que descobria, definia y documentava Bourdieu estava a uma distância remota do conceito de “cultura” tal como o havia moldado e introduzido na linguagem corrente durante o terceiro quarto do  século XVIII, quase ao mesmo tempo que o conceito inglês de refinement e o alemão de Bildung.
De acordo com seu conceito original, a “cultura” não devia ser uma preservação do statu quo sim um agente de mudança; mais precisamente, um instrumento de navegação para guiar a evolução social tinha uma condição humana universal. O propósito original do conceito de “cultura” não era servir como um registro de descrições, inventários e codificações da situação imperante, sim melhor fixar uma meta e uma direção para as iniciativas futuras. O nome “cultura” foi assimilado à uma missão proselitista que se havia planejado e empreendido como uma série de tentativas cujo objeto era educar as massas e refinar seus costumes, para melhorar assim a sociedade e conduzir o “povo” - é dizer, a quem provinham das “profundidades da sociedade - Tinha suas mais altas cúpulas. A “cultura” se associava a um “raio de luz” que passava “embaixo dos beirais” para ingressar nas moradas do campo e da cidade, Chegando aos escuros esconderijos do prejuízo e da superstição que, como tantos outros vampiros (se creia), não sobreviveriam à luz do dia. De acordo com o apaixonado pronunciamento de Matthew Arnold em seu influente livro com o sugestivo título Cultura e anarquia (1869), a “cultura” “procura suprimir as classes sociais, difundir em todas as partes o melhor que se tenha pensado ou conhecido no mundo, lograr que todos os homens vivam em uma atmosfera de beleza e inteligência”; ademais, de acordo com outra opinião expressada por Arnold em sua introdução à Literature and Dogma (1873), a cultura é a combinação dos sonhos e dos desejos humanos com o esforço de quem quer e pode satisfazê-los: “A cultura é a paixão pela beleza e a inteligência, e (mais ainda) a paixão por fazê-las prevalecer”.
A palavra “cultura” ingressou no vocabulário moderno como uma declaração de intenções, como o nome de uma missão que ainda era preciso empreender. O conceito era tanto um slogan como um chamado à ação. Igual ao conceito que proporcionou a metáfora para descrever esta intenção (o conceito de “agricultura”, que associava os agricultores com os campos que cultivavam), exortava ao lavrador e ao semeador a que araram e semeavam o solo árido para enriquecer a colheita mediante o cultivo (inclusive Cicerón usou esta metáfora ao descrever a educação dos jovens com o término da cultura animi). O conceito suponha uma divisão entre os educadores chamados a cultivar as almas, relativamente escassos, e os numerosos sujeitos que haviam de ser cultivados; os guardiães e os guardados, os supervisores e os supervisados, os educadores e os educandos, os produtores e seus produtos, sujeitos e objetos, assim como o encontro que devia ter lugar entre eles.
Da palavra “cultura” se inferia um acordo planejado e esperado entre quem possuíam  o conhecimento (ou ao menos estavam seguros de possuí-lo) o os incultos (chamados assim por suas entusiastas aspirantes a educadores); um contrato, vale aclarar, previsto de uma só firma, endossado de forma unilateral e posto em marcha baixo a exclusiva direção da flamante “classe instruída”, que reivindicava seu direito a moldear a ordem “nova e melhor” sobre as cinzas do Ancien Régime. A intenção expressa desta nova classe era a educação, a ilustração, a elevação e o enobrecimento do povo, de quem recentemente havian sido investidos no rol de citoyens nos novos état-nations, o aparecimento de uma nação recém formada que se elevava à existência de Estado soberano com o  novo Estado que aspirava a desempenhar o papel de fideicomissário, defensor e guardião da nação.
O “projeto de ilustração” outorgava à cultura (entendida como atividade semelhante ao cultivo da terra) o status de ferramenta básica para a construção de uma nação, um Estado e um Estado nação, uma vez que confiava essa ferramenta às mãos da classe instruída. Entre ambições políticas e deliberações filosóficas, pronto cristalizaram duas metas gêmeas da empresa de ilustração (já se as anunciava abertamente ou se as supusera de forma tácita) o dobre postulado da obediência dos súditos e a solidaridade entre compatriotas.
O crescimento da "população" aumentava a confiança do Estado-nação em formação, pois se acreditava que o aumento do número de potenciais trabalhadores-soldados aumentaria seu poder e garantiria sua segurança. No entanto, uma vez que o esforço conjunto da construção  nacional e o crescimento econômico também resultava em um excedente cada vez maior de indivíduos (em essência, era necessário descartar categorias inteiras da população para levar adiante e fortalecer a ordem desejada e acelerar a criação de riqueza), o novo estado-nação logo enfrentou a necessidade urgente de encontrar novos territórios além de suas fronteiras: territórios com  capacidade de absorver o excesso de população que já não encontrava lugar dentro dos limites do seu.

A perspectiva de colonizar áreas distantes demonstrou ser um poderoso estímulo para a noção iluminista de cultura e dotou a missão proselitista de uma dimensão completamente nova que abarcava em potência o mundo inteiro. Em reflexo exato da ideia de "esclarecimento das pessoas" foi forjado o conceito de "missão homem branco", que constituía-se em "salvar o Selvagem de sua barbárie." Logo esses conceitos seriam dotados de um comentário teórico na forma de uma teoria evolucionista da cultura, o que elevou o mundo "desenvolvido" ao status de perfeição inquestionável, que viria a ser imitado ou desejado pelo resto do planeta. Por causa dessa meta era necessário ajudar ativamente  o resto do mundo, coagindo-o no caso de colocar  resistência. A teoria evolucionista da cultura dava a função à sociedade "desenvolvida" de converter todos os habitantes do planeta. Todas  seus futuros empreendimentos e iniciativas foram reduzidos ao papel que estava destinada a desempenhar a elite educada da metrópole colonial contra a sua própria "população" metropolitana.
Bourdieu concebeu sua investigação, coletou os dados e os interpretou no preciso momento em que estas iniciativas começavam a perder seu ímpeto e seu sentido de direção, e em termos gerais já estavam sem vida, pelo menos n as metrópoles onde se tramavam as visões do futuro esperado e postulado, embora não tanto nas periferias do império, de onde as forças expedicionárias eram chamadas a voltar muito antes de que tivessem logrado elevar a vida dos nativos aos padrões adotados as metrópoles. Em quanto a estas últimas, a já bicentenária declaração de intenções havia logrado estabelecer nelas uma ampla rede de instituições executivas, financiadas e administradas principalmente pelo Estado, com suficiente vigor como para apoiar-se no seu próprio ímpeto, sua rotina arraigada e sua inércia burocrática. Já se havia moldeado o produto desejado (um “populacho” transformado em um corpo cívico) e se havia assegurado a posição das classes educadoras na nova ordem, ou ao menos se havia logrado que fossem aceitas como tais. Longe daquela audaz e arriscada tentativa, cruzada a missão de ano passado, a cultura se assemelhava agora a um mecanismo homeostático: uma espécie de giroscópio que protegia o Estado nação dos ventos de mudança e das contracorrentes, uma vez que o ajudava, apesar das tempestades e os caprichos do tempo instável, a “manter o barco em seu rumo correto” (o ao menos, como diria Talcott Parsons mediante sua expressão até  então em voga, permitir que o “sistema” “recobre seu próprio equilíbrio”).
Em resumo, a “cultura” deixava de ser um estimulante para transformar-se em tranquilizante, deixava de ser o arsenal de uma revolução moderna para transformar-se em um depósito de produtos conservantes. A “cultura” passou a ser o nome das funções adjudicadas a estabilizadores, homeostatos o giroscópios. Quando Bourdieu a captou, imobilizou, registrou y analisou à maneira de uma instantânea na distinção, a cultura se encontrava em pleno cumprimento destas funções (que pronto se revelariam como efêmeras). Bourdieu não logrou separar ao destino da proverbial coruja de Minerva, essa deusa de toda sabedoria: observava uma paisagem iluminada pelo sol poente, cujos contornos haviam adquirido uma nitidez momentânea que pronto se fundiria no iminente crepúsculo. O que captou em sua análise foi a cultura em sua etapa homeostática: a cultura ao serviço do statu quo, da reprodução monótona da sociedade e o mantimento dol equilíbrio do sistema, justo antes da inevitável perda de sua posição, que se aproximava a passo redobrado.
Essa perda de posição foi o resultado de uma série de processos que estavam transformando a modernidade, levando-a de sua fase “sólida” a sus fase “líquida”. Uso aqui o termo “modernidade líquida” para a forma atual da condição moderna, que outros autores denominam “pós-modernidade”, “modernidade tardia”, “segunda” o “hiper” modernidade. Esta modernidade se torna “líquida” no transcurso de uma “modernização” obsessiva e compulsiva que se propulsa e intensifica a si mesma, como resultado da qual, à maneira do líquido - daí a eleição do termo-, nenhuma das etapas consecutivas da vida social pode manter sua forma durante um tempo prolongado. A “dissolução de todo  sólido” ha sido a característica inata e definidora da forma moderna de vida desde o começo, porém hoje, diferente de antes, as formas dissolvidas não hão de ser substituídas -nem são substituídas- por outras sólidas às que se julgue “melhoradas”, no sentido de ser mais sólidas e “permanentes” que as anteriores, e em consequência ainda mais resistentes à dissolução. Em lugar das formas em processo de dissolução, e portanto não permanentes, vem outras que não são menos -si é que não são mais- suscetíveis à dissolução e  igualmente desprovidas de permanência.
Ao menos nessa parte do planeta onde se formulam, se difundem, se leem com fruição y se debatem apaixonadamente as apelações em favor da cultura (a que, recordemos, se havia elevado antes de seu rol de assistente das nações, os Estados e as hierarquias sociais em processo de autodeterminação e auto-confirmação),esta perde rapidamente sua função de serva de uma hierarquia social que se reproduz a si mesma. As tarefas até então encomendadas à cultura foram caindo uma por uma, caíram abandonadas ou passaram a ser cumpridas por outros meios e com diferentes ferramentas. Liberada das obrigações que lhe haviam imposto seus criadores e operadores -obrigações consequentes com o rol primeiro missionário e logo homeostático que cumpria na sociedade -, a cultura pode agora concentrar-se na satisfação e a solução de necessidades e problemas individuais, em pugna com os desafios e as tribulações das vidas pessoais.
Pode-se dizer que a cultura da modernidade líquida (e mais em particular, ainda não de forma exclusiva, sua esfera artística) se corresponde bem com a liberdade individual de eleição, e que sua função consiste em assegurar que a eleição seja e continue sendo uma necessidade e um dever inevitável da vida, em tanto que a responsabilidade pela escolha e suas consequências está onde fica situada a condição humana da modernidade líquida: sobre os ombros dol individuo, agora designado gerente general e único executor de sua “política de vida”.
Não falamos aqui de uma mudança de paradigma nem de sua modificação: resulta mais apropriado falar do começo de uma era “pós-paradigmática” na história da cultura (e não só da cultura). Embora o termo “paradigma” ainda não haja desaparecido do vocabulário cotidiano, se tem adicionado à família das “categorias zumbis” (como dirua Ulrich Beck), que cresce a passo acelerado: categorias que devem ser usadas sous rature [em rascunho] se, em ausência de substitutos adequados, todavia não estamos em condições de renunciar a elas (como preferia dizer Jacques Derrida). A modernidade líquida é uma arena onde se libra uma constante batalha de morte contra todo tipo de paradigmas, e com efeito contra todos os dispositivos homeostáticos que servem à rotina e ao conformismo, é dizer que impõem a monotonia e mantém a previsibilidade. Ele se aplica tanto ao conceito paradigmático herdado de cultura como à cultura em sentido amplo (é dizer, a soma total dos produtos artificiais ou o “excedente da naturaleza” feito pelo ser humano), que aquele conceito intentou captar, assimilar intelectualmente e fazer inteligível.
Hoje a cultura não consiste em proibições sim em ofertas, não consiste em normas sim em propostas. Tal como assinalou antes Bourdieu, a cultura hoje se ocupa de oferecer tentações e estabelecer atrações, com sedução e iscas em lugar de regulamentos, com relações públicas em lugar de supervisão policial: produzindo, semeando e plantando novos desejos e necessidades em lugar de impor o dever. Se há algo em relação com o qual a cultura de hoje cumpre a função de um homeostato, não é a conservação do estado presente se a abrumadora demanda de mudança constante (ainda quando, a diferença da fase iluminista, se trata de uma mudança sem direção, ou bem em uma direção que não se estabelece de antemão). Poderia dizer-se que serve não tanto às estratificações e divisões da sociedade como ao mercado de consumo orientado pela renovação de existências.
A nossa é uma  sociedade de consumo: nela a cultura, da mesma forma que o resto do mundo experimentado pelos consumidores, se manifesta como um depósito de bens concebidos para o consumo, todos eles em competência pela atenção insuportavelmente fugaz e distraída dos potenciais clientes, empenhando-se em captar essa atenção além da palpitação. Tal como assinalamos no  início, a eliminação das normas rígidas e excessivamente meticulosas, a aceitação de todos os gostos com imparcialidade e sem preferência inequívoca, a “flexibilidade” de preferências (no atual nome politicamente correto para o carácter irresoluto), assim como as eleições transitórias e inconsequentes, constituem a estratégia que se recomenda agora como a mais sensata y correta. Hoje a insígnia de pertencimento a uma elite cultural é a máxima tolerância e a  mínima picuinhas. O esnobismo cultural consiste em negar ostentosamente o esnobismo. O princípio do elitismo cultural é a qualidade onívora: sentir-se como em casa em todo entorno cultural, sem considerar nenhum como o próprio, e muito menos o único próprio. Um crítico e crítico de TV da imprensa intelectual britânica elogiou um programa do ano novo 2007-2008 por sua promessa de “brindar um conjunto de entretenimentos musicais para satisfazer o apetite de todos”. “O bom -explicou- é que seu atrativo universal permite a um entrar e sair do show segundo a preferência.” É uma qualidade  digna de elogio e em si admirável d oferta cultural em uma sociedade onde as redes substituem as estruturas, enquanto que um jogo ininterrompido de conexão e desconexão dessas redes, assim como a interminável sequência de conexões y desconexões, substituem à determinação, a fidelidade e a adesão.
Há outro aspecto a destacar nas tendências aqui descritas: uma das consequências de que a arte se remova de cima a carga de cumprir uma função de peso é também a distância, frequentemente irônica ou cínica, que adotam com respeito  tanto a seus criadores como a seus receptores. Hoje o discurso sobre a arte rara vez adquire o tom cerimonioso ou reverencial tão comum no passado. Já não se chega às mãos. Não se levantam barricadas. Não há flashes de punhais. Se se diz algo em relação com a superioridade de uma forma de arte sobre outra, se o expressa sem paixão e sem brio; por outra parte, as visões condenatórias e a difamação são menos frequentes que nunca. Diante deste estado de coisas se esconde uma sensação de vergonha, uma falta de confiança em si mesmo, una sorte de desorientação: se os artistas já não têm a seu cargo tarefas grandiosas e transcendentes, se suas criações não servem a outro propósito que brindar fama e fortuna a uns poucos eleitos, ademais de entreter e comprazer pessoalmente a seus receptores, Como hão de ser julgados se não é pelo sensacionalismo que acaso recebem em um momento dado? Tal como sintetizou habilmente Marshall McLuhan esta situação, “a arte é qualquer coisa que permita a um sair com a sua”. Ou tal como Damien Hirst -atual menino mimado das mais elegantes galerias londrinas e de quem podem dar-se ao luxo de ser seus clientes- admitiu candidamente ao receber o Premio Turner, prestigioso prêmio britânico de arte: “É assombroso o muito que se pode fazer com  um nível médio escolar regular em artes, uma imaginação retorcida e uma serra”.
A forças que impulsam a transformação gradual do concepto de “cultura” em sua encarnação moderna líquida são as mesmas que contribuem a liberar os mercados de suas limitações não econômicas: principalmente sociais, políticas e étnicas. A economia da modernidade líquida, orientada ao consumo, se baseia no excedente e o rápido envelhecimento de suas ofertas, cujos poderes de sedução se murcham de forma prematura. Posto que resulta impossível saber de antemão quais dos bens oferecidos lograrão tentar aos consumidores, e assim despertar seu desejo, só se pode separar a realidade das ilusões multiplicando os intentos e cometendo erros custosos. O fornecimento perpétuo de ofertas sempre novas é imperativo para incrementar a renovação das mercadorias, encurtando os intervalos entre a aquisição e o desejo a fm de substituí-las por bens “novos e melhores”. E também é imperativo para evitar que os reiterados desencantos de bens específicos levem a desencantar por completo essa vida pintada com as cores do frenesi consumista sobre o lenço das redes comerciais.
A cultura se assemelha hoje a uma seção a mais da gigantesca tenda de departamentos em que se há transformado o mundo, com produtos que se oferecem a pessoas que tem sido convertidas em clientes. Tal como ocorre nas outras secções desta megatenda, os estandes repletos de atrações que  mudam  diariamente, e os mostradores estão enfeitados com as últimas promoções, que se  desaparecem de forma instantânea como as novidades envelhecidas que publicitam. Os bens exibidos nos estandes, assim como os anúncios de los mostradores, estão calculados para despertar desejos irreprimíveis, mas momentâneos por natureza (tal como o enunciou George Steiner, “feitos para o máximo impacto e a obsolescência instantânea”). Tanto os comerciantes de bens como os autores de anúncios combinam a arte da sedução com o desejo irreprimível sentido pelos clientes em potencial para despertar a admiração de seus pares e desfrutar de um sentimento de superioridade.
Para resumir, a modernidade de cultura líquida já não tem uma "multidão" que ilustrar e enobrecer, mas clientes para seduzir. Em contraste com a ilustração e o enobrecimento, a sedução não é uma tarefa única, que é realizada de uma vez por todas, mas uma atividade que se prolonga indefinidamente. O papel da cultura não é satisfazer as necessidades existentes, mas  criar novas necessidades, mantendo as já entrincheiradas ou permanentemente insatisfeitas. O principal objetivo da cultura é evitar o sentimento de satisfação em seus antigos súditos e alunos, hoje transformados em clientes, em particular contrariar a sua perfeita, completa e definitiva gratificação, que não deixariam espaços para novos desejos e necessidades que satisfazer.
A cultura no mundo da modernidade líquida
Zygmunt Bauman