"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Vicenç Navarro: O Papa Francisco e o Capitalismo

Artigo publicado por Vicenç Navarro na revista digital SISTEMA 

Quando eu era criança, os meus pais me ensinaram que uma coisa são as religiões (aconselhando a mim e aos meus irmãos a sermos respeitosos com os seus fiéis, como parte do respeito devido a todo o ser humano) e outra coisa são as Igrejas (da cor que forem), que reproduzem e administram as religiões para benefício de seus aparelhos ou hierarquias, o que explica a sua constante identificação com as estruturas de poder às quais servem. Nem é preciso dizer que os meus pais não nos exigiam respeito por essas instituições. Ao contrário, tínhamos que julgá-las pelo servilismo a essas estruturas.
Ao longo da minha vida morei e visitei muitíssimos países. E em todos eles sempre vi que as Igrejas (e muito especialmente a Católica) servem sempre às estruturas de poder, sendo a Espanha o caso mais patente. É, portanto, compreensível o anticlericalismo das classes populares na Espanha, e considero um sintoma de enorme frivolidade trivializar esse anticlericalismo como um sentimento gratuito, resultado de ideologias estrangeiras que manipulam os povos. As classes populares não precisavavam de nenhum estímulo externo para verem e reagirem ao que viam.
Esse conservadorismo da Igreja Católica (uma das religiões mais conservadoras hoje existentes) é, em parte, compreensível, devido ao benefício económico que lhe concede. A base material da sua ideologia – como diriam os materialistas históricos – são as vantagens materiais que derivam do seu servilismo ao poder.
Mas esse mesmo servilismo é o que explica sua postura anticientífica, pois se sente ameaçada pelo conhecimento científico. Não é por casualidade que só em 1992 (sim, 1992) a Igreja Católica se desculpou por haver perseguido, no século XVII, Galileu, que teve a ousadia de afirmar que, contra o que dizia a Igreja, era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário. Em 2008, o Vaticano chegou a pensar em fazer um monumento para ele, mas decidiu atrasá-lo, porque era ainda demasiado cedo. Na Igreja Católica, as coisas de palácio vão um pouquinho devagar.
O que está a acontecer no Vaticano?
É interessante, claro, que no jornal do Vaticano, um historiador alemão, Georg Sans, tenha escrito, em 2009, um artigo a louvar Karl Marx por sua introdução do conceito de alienação originado pelo capitalismo. Georg Sans dizia que “temos que nos perguntar se Marx não tinha razão na sua descrição do capitalismo como gerador de alienação…” (citado em “Is the Pope Getting the Catholics Ready for an Economic Revolution? (Maybe He Read Marx)”, de Lynn Parramore). E as declarações do novo Papa, criticando o capitalismo, estão a criar um grande alvoroço.
Agora, é necessário que se entenda que a Igreja Católica e, mais concretamente o Vaticano, sempre tiveram atitudes críticas aos excessos do capitalismo. Das encíclicas de Leão XIII (1878-1903) até João Paulo II, as críticas do excesso do capitalismo foram constantes e, em geral, mais acentuadas quando outras ideologias contrárias à Igreja (ainda que não contrárias à religião), como o marxismo, adquiriam grande atração nos movimentos operários e intelectuais do mundo ocidental.
Agora, o que é novo no Vaticano é que no documento que o Papa Francisco acaba de publicar sobre a pobreza e a Igreja parece haver um vislumbre de que este Papa queira ir um passo além, pois a sua crítica não se limita aos excessos do capitalismo, mas ao capitalismo em si. Existem partes do documento que parecem aproximar-se dessa postura. Escreve Francisco: “o mandamento Não matarás estabelece um mandato para respeitar a vida humana. Daí que este 'não matar' deve aplicar-se a um sistema económico baseado na desigualdade e na exclusão…” Acrescenta Francisco que “tal economia mata. Daí que até que não acabe o domínio absoluto dos mercados e a sua especulação financeira (que Francisco aponta corretamente como sendo intrínseca ao capitalismo…), e até que não se ataquem as raízes dessas desigualdades, não se encontrará nenhuma solução para os problemas do mundo, ou para nenhum problema”.
Outro parágrafo de Francisco: “algumas pessoas (Francisco poderia ter escrito a maioria dosestablishments económicos, financeiros, políticos e mediáticos europeus e norte-americanos) continuam a defender as teorias do “trickle-down”, que assumem que a concentração da riqueza que se produz no crescimento económico (capitalista) e nos seus mercados inevitavelmente vai trazer maior justiça e inclusão, ao aumentar tal riqueza e melhorar a vida de todos e a coesão social. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos dados, expressa uma ingénua e crua fé na bondade dos que concentram o poder económico e na eficiência sacrossanta do sistema económico existente”. Não vi esse parágrafo citado em nenhum dos meios de comunicação de maior difusão espanhóis, que sistematicamente excluem as vozes críticas ao neoliberalismo dominante.
Como era de esperar, a resposta foi previsivelmente hostil. Nos EUA, um país com uma cultura mediática dominante profundamente conservadora, já apareceram várias manchetes, escritas em tom alarmante, a dizer que “Marx está a inspirar o Papa”.
E Sarah Palin, a dirigente do Tea Party (a seita mais próxima à hierarquia católica espanhola) afirmou o seu choque frente às declarações de Francisco. E mais de um editorial tem dito que da mesma maneira que o Papa João Paulo II contribuiu para o colapso da União Soviética, o Papa Francisco pode ajudar a acabar com o capitalismo.
Parece-me exagerada essa imagem. Mas seria um erro que as forças progressistas ignorassem as mudanças no Vaticano. Entendo e compartilho (como aparece nos meus escritos emwww.vnavarro.org) as reservas e o ceticismo sobre o novo Papa, ceticismo estimulado por casos tão ofensivos e dolorosos para os democratas como o silêncio de Francisco frente à homenagem dos caídos na Cruzada espanhola. Mas considero valioso que aconteçam mudanças na Igreja que diluam a sua enorme oposição às mudanças e ao progresso. E daí a sua enorme importância. Seria um grande erro não ser consciente disso, num país em que a Igreja sempre exerceu um papel negativo na sua defesa da ordem económica estabelecida e contra a expansão dos direitos humanos.

CIA foi decisiva para a prisão de Mandela em 1962

Agente infiltrado no CNA deu todas as informações à polícia sul-africana, segundo o The New York Times. Em 1987, Thatcher afirmava que quem pensasse que Mandela iria governar a África do Sul estava “a viver na terra do faz de conta". E Reagan dizia que o apartheid era essencial para o “mundo livre”.
Mandela passou 27 anos na cadeia, aonde foi parar com ajuda decisiva da CIA
The New York Times revelou em 1990 que a CIA desempenhou um importante papel na prisão de Mandela em 1962. A agência, usando um agente infiltrado no CNA, deu à polícia sul-africana informações precisas sobre as atividades de Mandela. Segundo o diário norte-americano, um agente da CIA relatou: “Entregámos Mandela à segurança da África do Sul. Demos-lhes todos os detalhes, a roupa que ele estaria a usar, o horário, o exato local onde ele estaria”.
Thatcher e a terra do faz de conta
Em 1987, quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva alinhou Portugal à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos num voto contra o fim do apartheid e a libertação de Nelson Mandela, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher dizia: "O CNA - Congresso Nacional Africano, partido de Mandela - é uma típica organização terrorista... Qualquer um que pense que ele vá governar a África do Sul está a viver na terra do faz de conta".
Reagan dizia que apartheid era essencial para o mundo livre
Nos Estados Unidos, a opinião sobre Mandela não era diferente: o presidente Ronald Reagan inscreveu o CNA na lista de organizações terroristas. Em 1981, Reagan disse que o regime sul-africano – o regime do apartheid – era "essencial para o mundo livre". Reagan explicou à rede de TV CBS que o seu apoio ao governo sul-africano se devia a que “é um país que nos apoiou em todas as guerras em que entrámos, um país que, estrategicamente, é essencial ao mundo livre na sua produção de minerais.”
Mandela precisava de autorização especial para entrar nos EUA
Só em 2008, Mandela e o CNA deixaram a lista americana de organizações e terroristas em observação. Até então, Mandela precisava de uma permissão especial para viajar para os EUA.
Outro país que se manteve ligado ao regime segregacionista sul-africano foi Israel. Durante muitos anos, o governo israelita manteve laços económicos e relações estratégicas com o regime do apartheid. Nesta sexta-feira, o governo israelita lamentou a morte de Mandela afirmando que o "mundo perdeu um grande líder que mudou o curso da história" e que ele foi um "apaixonado defensor da democracia".
Eu também era um terrorista ontem”
Em entrevista ao jornalista Larry King em 2000, o próprio Mandela falou sobre esta mudança de tratamento. "É verdade. Ontem, chamavam-me terrorista, mas quando saí da cadeia, muitas pessoas me abraçaram, incluindo os meus inimigos, e é isso que digo habitualmente às outras pessoas que dizem que os que lutam pela libertação dos seus países são terroristas. Digo-lhes que eu também era um terrorista ontem, mas, hoje, sou admirado pelas mesmas pessoas que me chamavam terrorista”.

O Evangelho segundo Mandela

Não podemos nos esquecer que países como Israel, EUA e Inglaterra apoiaram durante décadas o regime do apartheid. Se dependesse deles, Mandela teria morrido na prisão, a África do Sul ficaria afundada no caos e o mundo não teria a oportunidade de fabricar a lenda do novo Messias


por Alain Gresh - Le Monde Diplomatique - 01 de Julho de 2010



Um herói do nosso tempo”, afirmava o Courrier Internacional de junho de 2010. “Ele mudou a história”, valoriza ainda mais a revista Le Nouvel Observateur de maio de 2010. Acompanhadas de fotos de Nelson Mandela sorridente, essas duas capas são o testemunho de uma adoração quase unânime, a qual o filme Invictus, do diretor Clint Eastwood, levou à apoteose. Com a Copa do Mundo de futebol, se intensifica o culto ao profeta visionário que rejeitou a violência e guiou seu povo em direção a uma terra prometida onde vivem, em harmonia, negros, mestiços e brancos. O presídio de Robben Island, onde ele ficou encarcerado por 18 anos, passou a ser lugar de visitação obrigatória para turistas estrangeiros, e lembra um passado um pouco nebuloso, do tempo em que o apartheid desonra e suscita condenação universal, em primeiro lugar, a dos democratas ocidentais.

Cristo foi morto na cruz há aproximadamente dois mil anos. Muitos pesquisadores se perguntam sobre a correspondência entre o Jesus dos Evangelhos e o Jesus histórico. O que conhecemos da vida terrestre do “filho de Deus”? De quais documentos dispomos para definir sua pregação? Os testemunhos resgatados no Novo Testamento são realmente confiáveis?

Diante de tantas questões, podemos presumir que é mais fácil definir o “Mandela histórico”, já que temos um Evangelho escrito por seu próprio punho1, além de várias testemunhas diretas. A lenda Mandela pareceria, então, um tanto quanto distante da realidade, como essa do Jesus dos Evangelhos, uma vez que seria intolerável admitir que o novo messias tivesse sido um “terrorista”, “aliado dos comunistas” e da União Soviética (aquela do “gulag”), um revolucionário determinado.

O Congresso Nacional Africano (CNA), aliado estratégico do partido comunista sul-africano, se lançou na luta armada, em 1960, depois do massacre em Sharpville, que deixou dezenas de mortos entre os negros que protestavam contra o sistema de pass (espécie de passaportes internos do país). Mandela, até então adepto da luta legal, acabou persuadido: jamais a minoria branca renunciaria pacificamente ao seu poder, às suas prerrogativas. Tendo, num primeiro momento, privilegiado as sabotagens, o CNA utilizou também, de maneira limitada, a arma do “terrorismo”, não hesitando em colocar algumas bombas em cafés.

Preso em 1962 e condenado, Mandela rejeitou, a partir de 1985, várias ofertas de libertação em troca da sua renúncia à violência. “Sempre é o opressor, e não o oprimido, quem determina a forma da luta. Se o opressor utiliza a violência, o oprimido não tem outra escolha do que responder com violência”, escreve ele em suas Memórias. E somente a violência, apoiada por mobilizações populares crescentes e sustentada por um sistema internacional de sanções cada vez mais coercitivas, pôde, com o passar do tempo, demonstrar a ineficiência do sistema repressivo e levar o poder branco ao arrependimento moral. Com o princípio “um homem, uma voz”, Mandela e o CNA souberam então mostrar flexibilidade na implementação da “sociedade arco-íris” e nas garantias concedidas à minoria branca.

A estratégia do CNA se beneficiou do apoio material e moral da União Soviética e da “facção socialista”. Vários dos seus dirigentes foram formados e treinados em Moscou e Hanói. O combate se estendeu por toda a África Austral, onde o exército sul-africano tentou estabelecer sua hegemonia. A intervenção das tropas cubanas em Angola, em 1975, e as vitórias que alcançaram, especialmente em Cuito-Cuanavale, em janeiro de 1988, contribuíram para desestabilizar a máquina de guerra do poder branco. A batalha de Cuito-Cuanavale constituiu, segundo Mandela, “um momento decisivo na libertação do nosso continente e do meu povo2”. Anos depois, em 1994, Fidel Castro foi um dos convidados de honra na posse de Mandela na presidência.

No choque entre a maioria da população e o poder branco, os Estados Unidos, o Reino Unido, Israel e a França (esta última até 1981) combateram do “lado errado”, o lado dos defensores do apartheid, em nome da luta contra o perigo comunista. Chester Croker, principal homem da política de “compromisso construtivo” do presidente Ronald Reagan na África Austral, escreveu à época: “Por sua natureza e história, a África do Sul faz parte da experiência ocidental e é parte integrante da economia ocidental”. Washington, que tinha apoiado Pretória em Angola, em 1975, não hesitou em contornar o embargo sobre as armas e colaborar estreitamente com os serviços de informação sul-africanos, rejeitando qualquer medida coercitiva contra o poder branco. Esperando uma evolução gradual, a maioria negra teve que adotar uma postura moderada.

Em 22 de junho de 1988, 18 meses antes da libertação de Mandela e da legalização do CNA, o subsecretário do Departamento de Estado americano, John C. Whitehead, ainda explicou para a comissão do Senado: “Nós devemos reconhecer que a transição para uma democracia não racial na África do Sul tomará inevitavelmente mais tempo do que gostaríamos”. Ele pretendia que as sanções não tivessem nenhum “efeito desmoralizador sobre as elites brancas” e que penalizassem, em primeiro lugar, a população negra.

No último ano do seu mandato, Ronald Reagan tentou uma última vez – e sem sucesso – impedir o Congresso americano de punir o regime do apartheid. Foi na época em que ele celebrava “os combatentes da liberdade” afegãos e nicaraguenses e denunciava o terrorismo do CNA e da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Terroristas?

O Reino Unido não ficou de fora; o governo de Margaret Thatcher recusou qualquer encontro com o CNA até a libertação de Mandela, em fevereiro de 1990. Na reunião internacional do Commonwealth em Vancouver, Canadá, em outubro de 1987, ela se opôs à adoção de sanções. Interrogada sobre as ameaças do CNA em prejudicar os interesses britânicos na África do Sul, respondeu: “Isso mostra o quão banal é esse grupo terrorista [CNA]”. Nesse período, a associação de estudantes conservadores filiados ao seu partido, distribuiu panfletos proclamando: “Enforquem Nelson Mandela e todos os terroristas do CNA! São carniceiros”.

Agora, em 2010, o novo primeiro-ministro conservador, David Cameron, decidiu enfim se desculpar por esse comportamento. Mas, rapidamente, a imprensa britânica refrescou sua memória, lembrando que ele mesmo foi à África do Sul, em 1989, a convite de um lobby antissanções.

Já Israel permaneceu até ao fim como aliado indefectível do regime racista de Pretória, fornecendo-lhe armas e ajudando em seu programa militar nuclear e de mísseis. Em abril de 1975, o atual presidente israelense, Shimon Peres, então ministro da Defesa, assinou um acordo de segurança entre os dois países. Um ano mais tarde, o primeiro-ministro sul-africano, Balthazar J. Vorster, antigo simpatizante nazista, foi recebido com todas as honras em Israel. Os responsáveis pelos dois serviços de informação se reuniam anualmente e coordenavam a luta contra “o terrorismo” do CNA e da OLP.

E a França? Bem, aquela do general De Gaulle e de seus sucessores de direito teceu relações tranquilas com Pretória. Numa entrevista publicada no Nouvel Observateur, Jacques Chirac se glorificava do seu antigo apoio a Mandela. Ele tem, assim como muitos políticos da direita, memória curta. Primeiro-ministro em 1974 e 1976, Chirac sancionou, em junho de 1976, o contrato com a Framatome para a construção da primeira central nuclear na África do Sul. Nessa ocasião, o editorial do Le Monde observou: “A França está em curiosa companhia entre o pequeno pelotão de parceiros julgados ‘de confiança’ por Pretória”. “Viva a França. A África do Sul se torna uma potência atômica”, dizia na ocasião o jornal sul-africano Sunday Times. Se, claramente sob pressão dos países africanos, Paris decidiu, em 1975, não vender mais armas diretamente à África do Sul, a França honrou por muitos anos ainda os contratos em andamento, enquanto seus blindados Panhard e helicópteros Alouette e Puma eram construídos localmente com a devida autorização.

Apesar do discurso oficial de condenação ao apartheid, Paris manteve, até 1981, várias formas de cooperação com o regime racista. Alexandre Marenches, o homem que dirigiu o serviço de documentação exterior e de contraespionagem (SDECE) entre 1970 e 1981, resume a filosofia da direita francesa: “O apartheid é, certamente, um sistema que devemos lastimar, mas é preciso fazê-lo evoluir calmamente”3. Se o CNA tivesse escutado seus conselhos de “moderação” (ou aqueles do presidente Reagan), Mandela teria sido morto na prisão, a África do Sul teria se afundado no caos e o mundo não teria a oportunidade de fabricar a lenda do novo messias.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).

Ilustração: Daniel Kondo


“1Long walk to freedom, Little Brown, Estados Unidos, 1995.

2 Ronnie Kasrils, “Turning point at Cuito Cuanavale”, 23 de março de 2008, www.iol.co.za/.

3 Christine Ockrent, Alexandre de Marenches, Dans le secret des princes (Dentro do segredo dos príncipes), Stock, Paris, 1986.



O que fazer com o noticiário policial?

Como tratam alguns intelectuais, como Bauman, a mídia faz a política do medo e com ela se justifica o Estado penal,o clamor pelo endurecimento de penas e a perca da liberdade em troca de "segurança. Em Caicó bastou uma apreensão de dois homens armados em uma moto que vinham perseguido por policiais em determinada rua e no outro dia o apresentador do programa policial alardar que se tratava de um confronto de gangues e que, vejam só, iria haver uma guerra na cidade as pessoas que antes ficavam nas calçadas trancaram-se dentro de suas casas.

A grande questão é: O que fazer com o noticiário policial que é uma das piores pestes atualmente no Brasil? Proibir por lei seria, talvez, a forma mais direta, mas isso custaria votos, e dificilmente algum partido teria coragem, já que seriam alvo de discursos dos popularíssimos "Datenas" da vida, "querem esconder a realidade", já que sempre se dizem demonstradores da realidade, e proibir sempre traz mais problemas do que soluções. Mas tem que haver uma solução já que o mal é grande e difícil de ser reparado, o noticiário policial cria uma ideologia, uma ideologia de um estado penal-policial e antissocial. O Bandido X matou alguém, então a sociedade toda passa a ser aquele caso, existem esses bandidos do mal que precisam ser eliminados, e o que dizem sobre a extrema desigualdade do Brasil e crescente no Mundo todo? É uma cegueira branca.

Em todas pequenas e médias que possuem emissoras de Rádio e agora todas com Blogs policialescos empurram goela abaixo de todo o povo brasileiro uma forma errada de discutir violência urbana. 

Para o cientista político Carlos Novaes, os jornais estão todos padronizados e com destaque para assuntos policiais: "Isso porque a sociedade brasileira foi convencida pela própria imprensa de que esse é seu problema central". Desta forma, as notícias vendem e se tornam as principais pautas de conversas de boteco: “Alimentar a conversa sobre violência é alimentar uma pauta conservadora, de intolerância. Prestigiar o estado naquilo que ele tem de pior”.

Essa pauta conservadora é o maior perigo. Eu acho, que se pode enfrentar de alguma maneira, sabendo do poderia de grandes oligopólios comerciais de Indústria Cultural, mas a Regulamentação da Mídia, por exemplo, pode haver uma pressão popular. E quantos aos Blogs que fazem espetáculo com a Vioência, talvez um pouco de educação e o enfrentamento na internet possam fazer frente.

Trajetória política e pessoal de Mandela

Nelson Mandela tornou-se presidente da África do Sul em 1994. O primeiro cidadão negro a ser eleito para o cargo máximo do país.
A chegada de Madiba, como era conhecido pelos amigos, ao poder, foi resultado de uma luta dramática contra a segregação racial, o apartheid, que o levou à prisão por 27 anos.
Nelson Rolihlahla Mandela era o mais importante líder da África negra, Prémio Nobel da Paz de 1993, considerado o Pai da moderna nação sul-africana e "um dos maiores líderes morais e políticos do nosso tempo", segundo Ali Abdessalam Treki, Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas em 2010.
Da militância estudantil à luta armada
Como jovem estudante do primeiro ano do curso de Direito na Universidade de Fort Hare, Mandela começou a atividade política no movimento estudantil, num boicote contra as políticas universitárias e foi expulso da universidade.
A partir de então envolveu-se na oposição ao regime do apartheid, entrando no Congresso Nacional Africano em 1942, e fundando, dois anos depois, com Walter Sisulu e Oliver Tambou (um de seus melhores amigos), entre outros, a Liga Jovem do CNA.
Comprometido de início apenas com atos não-violentos, Mandela e seus colegas decidiram recorrer às armas após o massacre de Sharpeville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana disparou sobre manifestantes negros, matando 69 pessoas e ferindo 180. Em 1961 fundou a ala armada do CNA - Umkhonto we Sizwe (a Lança da Nação) para combater a discriminação do apartheid.
27 anos na cadeia
Foi condenado à prisão perpétua em 1964, pela sua luta contra o regime segregacionista do Apartheid, que vigorava na África do Sul.
No julgamento declarou-se inocente das acusações lhe faziam, mas culpado por lutar pelos direitos humanos, por liberdade, por atacar leis injustas e na defesa de seu povo; admitiu ter feito sabotagens - algo que poderia ter omitido - desafiando o governo a enforcá-lo. Falou por quatro horas, concluindo: "Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer". Passou 27 anos na prisão.
Em 1985, não aceitou a liberdade condicional que lhe foi oferecida em troca de não incentivar a luta armada contra o governo. Só seria libertado em 11 de fevereiro de 1990 pelo presidente Frederik Willem de Klerk, que também revogou a proibição do Congresso Nacional Africano (CNA) e de outros movimentos de libertação. Mandela tinha já 71 anos.
Fim do apartheid
Começava assim a transição para a democracia e o fim do apartheid, que culminou com a vitória esmagadora do CNA nas primeiras eleições multirraciais do país, em 1994, com 62% dos votos e 20% do Partido Nacional do ex-presidente Frederik De Klerk. De acordo com a Constituição de transição negociada, Mandela assumiu como presidente, e Thabo Mbeki, do CNA, e De Klerk, do PN, como vice-presidentes, formando um governo de unidade nacional.
Uma nova Constituição seria aprovada em 1995, ano em que foi também formada a Comissão de Verdade e Reconciliação, para investigar os crimes do apartheid.
Reforma
Em 1999, Mbeki foi eleito seu sucessor. Um ano antes, aos 80 anos, Mandela casou-se pela terceira vez com Graça Machel, viúva do ex-presidente moçambicano Samora Machel. O presidente sul-africano tinha-se divorciado de Winnie Mandela em 1996.
Quando deixou a presidência, Mandela declarou que iria partir para uma tranquila reforma, mas continuou a ter um papel internacional de relevo, só se retirando da vida pública efetivamente quando completou 85 anos.
Esquerda.net e Radio Onu

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Chomsky: Primavera Árabe: Em fase de desconstrução?

A Primavera Árabe foi um processo de importância histórica, que ameaçou muitos interesses poderosos. O poder não diz “agradecemos por nos desmantelar” e desaparece calado. Não é um momento brilhante, mas as fagulhas acesas pela Primavera Árabe provavelmente explodirão em chamas novamente. Entrevista a Noam Chomsky conduzida por Michael Bröning/IPG Journal.
Três anos após o início das revoluções árabes, o Oriente Médio testemunhou um caleidoscópio de desdobramentos, que vão de eleições livres à repressão violenta de mudanças. Como descreveria, hoje, a Primavera Árabe?
No passado eu descrevi-a como uma “obra em progresso”. Lamentavelmente, agora a expressão “obra em retrocesso” seria mais apropriada. As ditaduras do petróleo foram capazes de reprimir a maioria das tentativas de fazer até mesmo reformas moderadas. A Síria foi empurrada violentamente para o suicídio e provavelmente a divisão. O Iémen está submetido à campanha terrorista global dos drones. A Tunísia encontra-se numa espécie de limbo. A Líbia carece de um governo capaz de controlar as milícias. No Egito, o maior país do mundo árabe, os militares agiram com extrema brutalidade – com um apoio popular que não deveriam receber, a meu ver – no que parece ser um esforço para restaurar o seu rígido controlo político e manter o seu império económico, ao reverter algumas das conquistas mais significativas do período anterior, tais como a liberdade de imprensa e a independência. Os sinais não parecem bons.
Além disso, o conflito sunita-xiita instigado pela agressão dos Estados Unidos e Reino Unido ao Iraque está a despedaçar o país e a espalhar-se ameaçadoramente por toda a região. Há duas partes do mundo árabe que continuam a ser efetivamente colónias: o Sahara Ocidental, onde as manifestações por democracia no final de 2010 foram duramente reprimidas e a luta da sua população por liberdade foi quase esquecida; e, claro, a Palestina. Lá, as negociações estão em andamento conforme as duas precondições essenciais impostas pelos EUA e Israel: que não haja barreiras à expansão dos assentamentos israelitas ilegais e que as negociações sejam encaminhadas pelos EUA. Ocorre que Washington é parte no conflito (ao lado de Israel) e tem vindo a bloquear um consenso internacional indiscutível sobre um acordo diplomático desde 1976, com raras e temporárias exceções.
Sob tais precondições, as negociações tendem a ser pouco mais do que um disfarce para Israel levar adiante os seus programas de integrar o que considera aproveitável, na Cisjordânia (inclusive alguns poucos árabes, para evitar o “problema demográfico”), e de separar a Cisjordânia de Gaza – o que viola os Acordos de Oslo e mantém um cerco brutal. Não é um momento brilhante, mas as fagulhas acesas pela Primavera Árabe provavelmente explodirão em chamas novamente.
As esperanças iniciais de uma trajetória linear em direção ao empoderamento e à democracia há muito desapareceram. A euforia teria sido um engano? Onde e quando as coisas começaram a correr mal?
Nunca deveria ter havido esperança de uma trajetória linear. A Primavera Árabe foi um processo de importância histórica, que ameaçou muitos interesses poderosos. O poder não diz “agradecemos por nos desmantelar” e desaparece calado.
As reações do Ocidente oscilaram desde a intervenção militar até a indiferença, como vimos nos Estados do Golfo. Identifica algum padrão subjacente?
O padrão implícito é familiar: apoio ao ditador favorito durante o maior tempo possível. Se isso se tornar impossível, porque os militares ou a elite económica se voltaram contra ele por alguma razão, então trate de enviá-lo para algum lugar, faça declarações tocantes sobre o seu amor à democracia, e tente restaurar a velha ordem tanto quanto possível. Acontece repetidas vezes. Para mencionar apenas algumas: Somoza, Ferdinando Marcos, Duvalier, Suharto, Mobutu…
É uma política natural para um poder imperial – logo, completamente familiar. Também é natural que isso seja ocultado. A tarefa da comunidade intelectual é apoiar o poder e justificá-lo, não miná-lo – embora alguns quebrem as regras.
Uma das linhas de clivagem regional parece ser o conflito entre forças seculares e religiosas. De que maneira essa dicotomia pode ser tratada construtivamente? Que papel devem desempenhar os governos ocidentais?
Nem a história, nem a lógica, nem a análise política ou qualquer outra fonte que não a propaganda nos dá razões para esperar que os sistemas de poder desempenhem um papel construtivo, a não ser em seu próprio interesse. Isso vale para os sistemas ocidentais, em especial. No Oriente Médio e Norte da África, os maiores poderes – EUA e Grã Bretanha – têm apoiado de modo bastante consistente o Islão radical contra o nacionalismo secular. O favorito tem sido a Arábia Saudita, o estado islâmico de radicalismo mais extremo, e um estado missionário, que espalha as suas doutrinas wahabistas-salafistas por toda a região.
Há estudos académicos excelentes e detalhados sobre a “promoção da democracia” dos EUA pelos seus mais proeminentes defensores, que admitem, com relutância, que o governo apoia a democracia apenas se e quando ela está de acordo com os interesses económicos e estratégicos – como qualquer pessoa racional poderia prever.
Que papel eles deveriam desempenhar? Isso é fácil. Eles deveriam apoiar a liberdade, a justiça, os direitos humanos, a democracia. Podemos dizer o mesmo sobre a Rússia e a China. Até certo ponto, forças populares organizadas podem pressionar os governos nessa direção, mas há poucos sinais disso, hoje, por várias razões.
Noutro nível, tensões religiosas parecem estar em ascensão. Já em 2004 o rei Abdullah da Jordânia falou de um “Crescente Xiita”. A imagem de uma guerra por procuração entre sunitas e xiitas é apropriada para compreender os atuais conflitos na região?
Uma das consequências mais sombrias da agressão dos EUA e Reino Unido ao Iraque foi acender conflitos entre sunitas e xiitas que já haviam sido controlados, levando a uma história de horror que está a despedaçar o Iraque e a espalhar-se pela região, com efeitos terríveis e ameaçadores.
E a honestidade nos levaria a recordar o julgamento de Nuremberg, um dos fundamentos do direito internacional moderno. Definiu-se que a agressão seria “o supremo crime internacional, diferindo de outros crimes de guerra na medida em que contém, em si, o mal acumulado no todo”. Isso inclui os conflitos sectários, entre muitos outros crimes. A honestidade também nos levaria a recordar a frase que Robert Jackson, um membro da Suprema Corte dos EUA, proferiu no mesmo tribunal: estamos a dar a esses réus “um cálice envenenado”; se cometermos crimes semelhantes, devemos sofrer as mesmas consequências – ou então este Tribunal é uma farsa, não passa de justiça dos vencedores. Uma medida do abismo entre a cultura moral-intelectual do Ocidente e sua civilização é o quão bem estas palavras foram ouvidas…

Tradução de Inês Castilho para o site Outras Palavras.

Os responsáveis das crises europeias estão no Norte, não no Sul

A persistência da crise financeira e econômica europeia deve-se mais ao comportamento dos governos dos países centrais e nórdicos da Europa do que ao dos países periféricos. Dentro das coordenadas de poder na Eurozona, é impossível os países periféricos, como Espanha, saírem da crise.
Os países do Sul da Europa (Grécia, Portugal e Espanha) estão numa situação desesperada, como refletem as suas elevadas taxas de desemprego. E as previsões para que isso melhore não são animadoras. Segundo a Comissão Europeia, o desemprego continuará muito alto durante a próxima década, o que quer dizer que se queimarão várias gerações.
Acontece igualmente quando vemos, em vez do nível de desemprego, o nível salarial. Os salários foram baixando cada vez mais – como parte do que se chama a desvalorização interna – a fim de embaratecer as exportações que, dizem-nos, nos tirarão do buraco, coisa que é obviamente falsa. Na realidade, tal como está estruturada a Zona Euro, é impossível que os países do Sul possam competir com os países do Norte. Vejamos os dados.
Comecemos pela Alemanha. A economia deste país baseia-se numa enorme desvalorização interna (conseguida à custa de, aproximadamente, uma quarta parte da sua força laboral se encontrar em condições de grande precariedade) a fim de conseguir estimular a economia à base de exportações. Isso determina um superavit anual na sua balança por conta corrente (current-account surplus) de nada menos que 125.500 milhões de euros ao ano (média anual, desde que se estabeleceu o euro, em 1999).
É o segundo país em superavit depois da China (algo mais do que 162.000 milhões por ano). Como bem escreve Kemal Dervis no seu artigo “Northern Europe’s Drag on the World Economy” (do qual extraio a maioria dos dados deste artigo), é surpreendente que, enquanto a China está sob uma enorme pressão para que reduza tal superavit, a Alemanha fique tranquila, sem que sofra ameaças de sanções como as que sofre a China.
Nestas circunstâncias, é muito difícil que estes países possam sair da crise à base de exportações, ganhando em competitividade à Alemanha, pois os poderes destes países querem ganhar em competitividade mediante a baixa de salários (que está deprimindo cada vez mais a procura interna).
Mas a situação é, contudo, pior. Não é só a Alemanha que tem um superavit anual na sua balança por conta corrente, mas todos os países do Norte (Suécia, Dinamarca, Noruega e Suíça, que não têm o euro, mas definem o valor da sua moeda em relação ao euro), bem como a Áustria e a Holanda dentro da Zona Euro.
Isso implica que o superavit desta Europa do Norte (cuja moeda, direta ou indiretamente, é o euro) é nada menos do que uns 406.000 milhões de euros (este ano, o da China será de 111.000 milhões), o que é um valor enorme e explica, entre outras razões, a enorme força do euro, a qual prejudica enormemente os países do Sul, pois dificulta as suas exportações.
Perante este panorama tão sombrio só há duas soluções. Ou sair do euro (uma possibilidade que se deveria considerar), ou fazer com que a procura interna dos países do Norte cresça à base do aumento dos salários dos trabalhadores do Norte. Nunca se tinha visto, de maneira tão clara, os interesses dos trabalhadores do Sul e do Norte coincidirem tanto. Mas o facto de esta alternativa não estar a ser considerada deve-se ao grande domínio que o capital financeiro (que beneficia do euro forte) e o industrial (que se centra nas exportações) têm em todos aqueles países e na estrutura de governo do euro.
Daí que a aliança das classes trabalhadoras, a nível europeu, representaria uma grande ameaça aos interesses destes poderes, o que explica o seu apoio a teses racistas e chauvinistas (leia-se, a imprensa alemã e nórdica), que tentam evitar esta aliança, apresentando os trabalhadores alemães, por exemplo, como sujeitos de interesses opostos aos operários espanhóis, gregos e portugueses. Assim, claro!

Tradução: António José André - ESQUERDA.NET

Morador de rua preso em protesto é condenado a cinco anos de prisão

A Justiça do Rio condenou a cinco anos de prisão o morador de rua Rafael Braga Vieira, preso em flagrante na madrugada do dia 21 de junho, após a manifestação que reuniu 300 mil pessoas na Avenida Presidente Vargas. Ele estava com “dois frascos contendo substância inflamável com pedaços de pano presos em seu bocal, conhecidos como coquetel-molotov”, como descreve a sentença do juiz Guilherme Schilling Pollo Duarte.

A reportagem  de Akemi Nitahara publicada pela Agência Brasil.

Rafael foi preso por policiais da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima que o viram entrar com uma mochila em uma loja abandonada em frente à unidade, na Praça 11, e sair com as duas garrafas de plástico na mão. Ele continua preso preventivamente.

Na sentença, o juiz afirma que o réu tinha intenção de provocar um incêndio. “Vale destacar que as circunstâncias em que ocorreu a prisão, ou seja, enquanto ocorria uma enorme manifestação popular, com concentração aproximada de 300 mil pessoas na Avenida Presidente Vargas, conforme amplamente divulgado na mídia, e no mesmo dia em que ocorreu confronto com as forças policiais, deixam claro que o intento do réu não seria outro senão o de proceder ao incêndio de qualquer objeto ou pessoas.”

Naquele dia, a própria delegacia foi atingida por bomba de gás lacrimogêneo lançada pela polícia. O confronto entre policias e manifestantes começou em frente à prefeitura, quando policiais que reforçavam a segurança do prédio começaram a dispersar os manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo. Depois disso, houve depredação na Avenida Presidente Vargas.

O juiz registrou que o réu é reincidente, com duas condenações por roubo. A sentença ainda não foi publicada. A defensora pública Enedir Adalberto dos Santos informou, por meio de nota, que a defensoria e o réu “ainda não foram intimados da sentença” e que, após a intimação, “será avaliada a entrada de recurso com vistas à reforma da decisão”.

Caicó é um puteiro

Sempre soube que as instituições políticas do Rio Grande do Norte são depravadas pelo oligarquismo, com seus mandonismos, assistencialismos e o sentimento de grandeza e de autoritarismo medíocre. Tendo em vista saber algo acerca do Orçamento anual do Município de Caicó, desloquei-me até a Câmara Municipal para assistir à sessão plenária de ontem (Quarta-feira 04/12), em virtude de muito longe de pensarmos em um orçamento participativo termos um orçamento escondido e sem nenhum tipo de discussão. Evidentemente já sabia da baixa qualidade daquele plenário. No entanto o ridículo bateu todos os recordes possíveis; quando convocado um vereador para ler a ata da sessão da anterior outro exclamou: "lascou-se". A leitura dos requerimentos e projetos não passou de congratulações, na Sessão tinham muitos agentes de Saúde em virtude de um projeto que seria votado no interesse dessa categoria, e ninguém sabe do orçamento.

Realmente não serve pra nada, pior ainda são as despesas com os salários de vereadores que só são vereadores devido aos altos salários que recebem, uma inversão da cidadania.

Em Caicó vereador é eleito na "cordialidade", se é "popular" (prestador de favores), se consegue exames, e ficamos na depravação completa. Realmente a cidade é um grande puteiro;

Bauman: A volta à normalidade anuncia a volta a um mau caminho

De acordo com o filósofo, estamos vivendo um " interregno ", uma mudança da velha ordem mundial por outra, cujas características ainda são desconhecidas, mas, certamente, renascerá a relação entre poder e política. Também reflete nesta conversa sobre medos, fraquezas e incertezas desta transição violenta.


How to spend it... Como gastá-lo. Esse é o nome de um suplemento do jornal britânico Financial Times. Ricos e poderosos leem-no para saber o que fazer com o dinheiro que sobra.

Zygmunt BaumanEles são uma pequena parte de um mundo alienado por uma fronteira intransponível. Neste suplemento alguém escreveu que, em um mundo onde "qualquer um" pode comprar um carro de luxo aqueles que miram realmente muito alto "não têm escolha a não ser ir para um melhor.." Essa visão serviu a Zygmunt Bauman para teorizar sobre questões essenciais e de modo a tentar entender esta época. A ideia de felicidade, o mundo que está a emergir depois da crise, segurança versus liberdade, são algumas das preocupações atuais que explica em seu livro: Múltiplas culturas, uma humanidade e The Art of Life. "Não se pode ser verdadeiramente livre se não houver segurança, e a verdadeira segurança por sua vez, implica a liberdade", diz ele da Inglaterra. Bauman se há ocupado dos "diferentes", o "lixo humano",  da globalização: migrantes, refugiados, exilados , pobre todos. Sobre este mundo cruel e desigual versou  esse diálogo.

- Em relação ao título do livro "Várias Culturas, Uma Humanidade"...este conceito é uma visão "otimista" do mundo de hoje?

- Nem otimista nem pessimista ...É apenas uma avaliação sóbria do desafio que enfrentamos no século XXI. Agora estamos todos interligados e interdependentes. O que acontece em uma parte do globo tem um impacto em todos os outros, mas essa condição que partilhamos se reprocessado em milhares de línguas, e estilos culturais, de depósito de memória. É pouco provável que a nossa interdependência resulte numa uniformidade cultural . É por isso que o desafio que enfrentamos é que todos nós estamos, por assim dizer, no mesmo barco, temos um destino comum e nossa sobrevivência depende de se cooperamos ou lutamos entre nós. De qualquer forma, às vezes nós diferimos muito em alguns aspectos vitais. Precisamos desenvolver, aprender e praticar a arte de viver com as diferenças, cooperar sem que os outros perdem a sua identidade, para beneficiar o outro não apesar, mas por causa de nossas diferenças.

- É paradoxal, mas ao mesmo tempo em que se exalta o livre trânsito de mercadorias, se fortalece e constrói fronteiras e muros. Como sobreviver a esta tensão?

- Isso só parece ser um paradoxo. Na verdade, essa contradição era de se esperar em um planeta onde os poderes que moldam nossas vidas, as condições e as perspectivas são globais, podem ignorar as fronteiras e as leis dos estados, enquanto a maioria dos instrumentos seguem sendo locais e de uma completa inadequação para as enormes tarefas a enfrentar. Fortalecer as velhas fronteiras e desenhar novas, tentar separar "nós" do "eles" são reações naturais, embora desesperadas, para a discrepância. Se estas reações são tão eficazes quanto veemente é outra questão. Soberanias locais territoriais vão continuar desgastando-se neste mundo cada vez mais globalizado.

- Há cenas comuns na Cidade do México, São Paulo, Buenos Aires: de um lado moradias miseráveis de outro condomínios fechados. Pobre em um dos lados, ridos do outro. Quem está no meio?

- Por que se limita a cidades latino-americanas? A mesma tendência prevalece em todos os continentes. Esta é mais uma tentativa desesperada de se separar da vida incerta, desigual, difícil e caótica de "fora". Mas os obstáculos têm dois lados. Divida o espaço em um "dentro" e um "fora ", mas o "dentro" para as pessoas que vivem de um lado da cerca é  o "fora" para aqueles do outro lado. Cercar-se em um "condomínio fechado",  também pode significar não excluir todos os outros lugares dignos, agradáveis ​​e seguros, e trancá-los em suas favelas. Nas grandes cidades, o espaço é dividido em "condomínios fechados" (guetos voluntários) e "favelas" (guetos involuntários ). O resto da população é portadora de uma existência inquieta entre esses dois extremos, sonhando acesso a guetos voluntários e temendo cair nos involuntários.

- Por que acredita-se que o mundo hoje tem uma insegurança sem precedentes? Em outras eras se vivia de forma mais segura?

-Cada época e cada tipo de sociedade tem seus próprios problemas e pesadelos específicos, e cria seus próprios esquemas para gerir os seus próprios medos e ansiedades. No nosso tempo, a ansiedade terrível e incapacitante está enraizada na fluidez, fragilidade e incerteza inevitável da posição e perspectivas sociais. Por um lado, proclama o livre acesso a todas as opções imagináveis ​​(daí a depressão e auto-condenação: que deve ter algum problema, se você não fizer o que os outros lograram), por outro lado, tudo o que já se ganhou e se obteve é nosso "até novo aviso" e poderia retirar-se-nos e negar-se-nos a qualquer momento. A angústia resultante  permaneceria conosco apesar da "liquidez" continua a ser propriedade da nossa sociedade. Nossos avós lutaram bravamente pela liberdade. Parece que estamos cada vez mais preocupados com a nossa segurança pessoal... Parece que estamos dispostos a abrir mão de parte da liberdade que tanto custou em troca de uma maior segurança .

- Isso nos leva a outro paradoxo. Como  lida  a sociedade moderna, com a falta de segurança que ela mesma produz?

-Através de todos os tipos de estratagemas, principalmente por meio de substitutos. Um dos mais comuns é o deslocamento transplante do terror à globalização inacessível, caótica, descontrolada e imprevisível para os seus produtos: imigrantes, refugiados, requerentes de asilo. Outra ferramenta é fornecido pelos chamados "condomínios fechados" fortificados contra estranhos, saqueadores e mendigos, embora sejam incapazes de parar ou desviar as forças que são responsáveis ​​pelo enfraquecimento da nossa auto-estima e atitudes sociais que ameaçam destruir. De modo mais geral: os esquemas mais comuns são reduzidos à substituição de preocupações sobre a segurança do corpo e a propriedade por preocupações de segurança individual e coletiva sustentada ou negada em termos sociais.

- Existe  futuro? se pode pensar? Existe na mente dos jovens?

O Filósofo britânico John Gray observou que "os governos dos Estados soberanos não sabem com antecedência como os mercados vão reagir (...) Os governos nacionais em 1990 voam às cegas." Gray não acredita que o futuro envolva uma situação muito diferente. Tal como no passado, podemos esperar "uma sucessão de contingências, desastres e passos ocasionais para a paz e civilização" todos eles, deixe-me acrescentar, inesperados, imprevisíveis e, geralmente, com as vítimas e beneficiários sem consciência ou preparação. Há muitos indícios de que, ao contrário de seus pais e avós, os jovens tendam a deixar a "cíclica " e "linear" concepção de tempo e retornar a um tempo modelo "pontilhista" quebrado em uma série confusa de "momentos" cada um dos quais vive sozinho, tem um valor que pode desaparecer com a chegada do momento seguinte e tem pouca relação com o passado e o futuro. Como a fluidez endêmica de condições tem o mau hábito de mudar sem aviso prévio, a atenção tende a se concentrar em maximizar o momento presente, em vez de se preocupar com as suas consequências a longo prazo. Cada ponto de tempo, no entanto fugaz pode ser outro "big bang", mas não há nenhuma maneira de saber quanto tempo de antecedência, de modo que, no caso, você tem que explorar cada completamente.

"É uma época em que os medos têm um papel importante. Quais são os principais temores que traz este presente?

"Eu acho que as principais características de medos contemporâneos são a sua natureza generalizada, sub-definição e subdeterminação, características que tendem a ocorrer durante os períodos de o que pode ser chamado de "interregno". Antonio Gramsci escreveu em Cadernos do Cárcere da seguinte forma: "A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer:  Neste interregno aparece uma grande variedade de sintomas mórbidos" Gramsci deu ao termo "interregno" significado que abrange um espectro de ordem social, político e legal mais amplo, enquanto aprofundamento da situação sócio-cultural, ou melhor, tomando a memorável definição de Lênin "situação revolucionária", como situação em que os governantes já não podem governar enquanto e que os governados já não querem ser governados, separou a ideia de "interregno" de sua habitual associação com o interlúdio de transmissão (usual) do poder hereditário ou eleito, e o associou a situações extraordinárias em que o quadro jurídico existente da ordem social perde força e não pode mais ser mantido enquanto uma nova estrutura para atender às novas condições que fizeram inútil quadro anterior ainda está em fase de criação, não terminou de se estruturar ou não tem a força suficiente para que se instalado. Proponho-me reconhecer a situação global atual como um caso de interregno. De fato, como Gramsci postulou, " o velho está morrendo." A velha ordem que até recentemente era baseada em um princípio igualmente "trinitário" de território, estado e nação como uma distribuição global fundamental da soberania, e um poder que parecia para sempre ligado à política do Estado-nação territorial como único oficial operando, agora está morrendo. Soberania não é mais ligada aos elementos das entidades e do princípio trinitário; no máximo é vinculado a eles, mas vagamente e em proporções muito menores em tamanho e conteúdo.

A suposta união indissolúvel do poder e da política, por outro lado, está terminando com perspectivas de divórcio. A soberania está sem âncora e em livre flutuação. Os Estados-nação estão em uma posição de compartilhar a companhia aflitiva de aspirantes ou assuntos potenciais e soberanos sempre competindo  com entidades que escapam com sucesso a aplicação do princípio trinitário atribuição até então obrigatório, e muitas vezes ignorando explícita ou sub-repticiamente minando de forma furtiva seus objetos selecionados.

- A "modernidade líquida" como um tempo onde as relações sociais, econômicas,  fluem como um líquido que não pode manter a forma adquirida em todos os momentos. Tem fim?

- É difícil responder a essa pergunta, não só porque o futuro é imprevisível, mas por causa do "interregno" que mencionei anteriormente, um período em que praticamente qualquer coisa pode acontecer, mas nada pode ser feito com segurança e certeza de sucesso. Em nossos tempos, a grande questão não é "o que falta fazer?", Mas  "quem pode fazer?" Hoje há uma separação crescente, que se acerca de forma alarmante ao divórcio entre poder e política, os dois sócio aparentemente inseparáveis ​​que durante os últimos dois séculos residiram ou  acreditaram residir e exigiram residir no estado-nação territorial. Esta separação já derivou no desajuste entre as instituições de poder e política. O poder desapareceu do nível de estado-nação e foi introduzido no "espaço de fluxos" livre de política, deixando a política escondida como antes na morada que compartilhava e agora desceu ao "espaço de lugares ". O  crescente volume de poder que importa já tornou-se global. A política, no entanto, continua a ser tão local quanto antes. Portanto, os poderes mais importantes permanecem fora do alcance das instituições políticas existentes, ao manobrar sob a política interna continua a encolher. A situação planetária enfrenta agora o desafio de assembleias ad hoc de poderes discordantes que o controle político não  limita porque as instituições políticas existentes têm  cada vez menos poder. Estas se veem, portanto, obrigadas a limitar drasticamente as suas ambições e "transferir" ou "terceirizar" o número crescente de funções tradicionalmente confiadas aos governos nacionais a organizações não-políticas.

- Você pensa que esta crise global que estamos vivenciando pode gerar um novo mundo, ou pelo menos um pouco diferente?

- Até agora, a reação à "crise de crédito" , embora impressionante e até mesmo revolucionária, é " mais do mesmo", na vã esperança de que as possibilidades revigorantes de lucro e consumo dessa etapa ainda não estejam totalmente esgotadas: um esforço para recapitalizar a quem empresta dinheiro e fazer com que seus devedores voltem a ser confiáveis ​​para o crédito, de modo tal que o negócio de emprestar e de tomar crédito, de seguir endividando-se a pedir emprestado, possam voltar ao "normal". O estado de bem-estar para os ricos voltou aos salões de exposição, para o qual tomou das dependências de serviço que havia relegado temporariamente seus escritórios para evitar comparações invejosas .

Mas há pessoas que sofrem as consequências desta crise dos quais pouco se fala. Os protagonistas visíveis são os bancos, as empresas...

- O que se esquece alegremente (e estupidamente) desta vez é que a natureza do sofrimento é determinado pela forma como as pessoas vivem. A dor que na atualidade se lamenta, como todos os males sociais, tem raízes profundas no estilo de vida que aprendemos em nosso hábito de buscar crédito para o consumo. Viver do crédito é viciante, mais do que quase todas as drogas, e, sem dúvidas, mais viciante do que outros tranquilizantes oferecidos, e décadas de generosa oferta de uma droga não pode deixar de levar ao choque e pavor quando a provisão se detém ou diminui. Agora nos propõe o caminho aparentemente mais fácil do Shock de que padecem tanto os viciados como os traficantes de drogas: a retomada do fornecimento de medicamentos. Até agora, há poucos indícios de que estamos nos aproximando das raízes do problema. No momento, em que se o deteve já  à beira do precipício mediante a injeção de "dinheiro dos contribuintes", o banco TSB Lloyds  começou a pressionar o Tesouro para que destinasse parte do pacote de poupança aos dividendos dos acionistas. Apesar da indignação oficial, o banco procedeu impassível a pagar bônus cujo quantidade obscena levou ao desastre dos bancos e seus clientes. Impressionante como são as medidas que os governos já tomaram, todos apontam para "recapitalizar" os bancos e permitir-lhes  voltar a "atividade normal": em outras palavras, a que foi o grande responsável pela crise atual. Se os devedores não podiam pagar os juros sobre a orgia de consumo que o banco inspirou e encorajou, talvez se lhes possa induzir/obrigar a fazê-lo por meio de impostos pagos ao Estado.

Ainda não começamos a pensar seriamente sobre a sustentabilidade da nossa sociedade de consumo e de crédito. O "retorno à normalidade", anuncia um retorno para as estradas ruins e sempre perigosas. De todo modo ainda não chegamos ao ponto em que não há como voltar atrás, ainda há tempo (pouco) para refletir e mudar de rumo, ainda podemos converter o shock e a comoção em algo benéfico para nós e para nossos filhos.

Por Hector Pavon

Bancada evangélica tenta ‘matar’ proposta que criminaliza discriminação ou preconceito por orientação sexual

A discussão em torno da proposta que define os crimes de discriminação ou preconceito de orientação sexual (PLC 122/2006) promete travar uma batalha no Congresso entre religiosos e apoiadores do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). A proposta que estava na pauta da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, foi alvo ontem (4) de críticas por representantes da bancada evangélica.

O senador Magno Malta (PR- ES) disse que o relatório que será posto em discussão na CDH, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) não tem consenso. “É uma mula de sete cabeças é um monstrengo, uma anomalia. No texto do senador Paim, se você é hetero (heterossexual) no Brasil você não tem direito a mais nada. No Brasil, para ter direito a alguma coisa você precisa ser negro, velho, índio, portador de deficiência ou homossexual”, criticou.

Uma das preocupações de religiosos é que a nova lei puna criminalmente manifestações de Igrejas contrárias a determinada orientação sexual. Segundo Malta, o artigo incluído na proposta que protege a liberdade de expressão no local do culto não é suficiente, já que os cultos muitas vezes são realizados em locais públicos fora dos templos.

“Nós temos voto para matar (a proposta) em qualquer lugar, em qualquer comissão. Isso não é luta de evangélico contra homossexual, é da sociedade civil”, afirmou Magno Malta.

Para protelar a discussão do assunto, a bancada evangélica, por meio do senador Eduardo Lopes (PRB- RJ), apresentou um requerimento à Mesa Diretora da Casa para que a matéria pare de tramitar separadamente e seja apensada à proposta de reforma do Código Penal. Segundo a presidente da CDH, senadora Ana Rita (PT-ES), para que esse requerimento seja votado no plenário do Senado é preciso que antes a tramitação seja concluída da CDH.

Depois de debates tensos, a leitura e votação do relatório, acabou adiada para a próxima semana, ainda sem dia definido. Apesar da pressão dos evangélicos, o adiamento foi um pedido do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência República, que já tinha marcado a reunião para discutir o projeto a ontem, mas em razão da morte do governador de Sergipe, Marcelo Déda, o encontro não aconteceu.

“A Secretaria-Geral da Presidência pediu, via José Pimentel [líder do governo no Senado], que haja essa chance de construir um entendimento em uma reunião nesta quinta-feira. Esse projeto não é bomba, é um projeto que trata de vidas, de direitos humanos”, disse Paim.

Para evitar polêmicas, o termo homofobia não foi colocado especificamente na proposta. “Nem entra a palavra homofobia. Eu apenas digo que todo crime de ódio, de agressão de violência de desrespeito e quem for discriminado pela sua orientação sexual vai ter direito de recorrer à lei” explicou Paim acrescentando que com ou sem acordo a proposta será votada na semana que vem.

No relatório distribuído nesta quarta-feira, além dos templos religiosos, o relator também diz que as opiniões manifestadas em eventos religiosos ficam resguardadas e portanto não podem ser punidas. Depois de votada na CDH a proposta ainda vai passar pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado e depois pelo plenário da Casa.


Reportagem de Karine Melo, da Agência Brasil

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

ONU afirma que mundo terá de produzir 70% a mais de alimentos até 2050

A ONU alertou que o mundo precisa aumentar em 70% a produção de alimentos para atender a demanda de uma população que pode chegar a 9,6 bilhões de pessoas em 2050.

A conclusão está no relatório "Recursos Mundiais: Criando um Futuro Sustentável Alimentar" preparado por várias agências das Nações Unidas, pelo Banco Mundial e pelo Instituto de Recursos Mundiais, WRI.

O documento diz ainda que será necessário também melhorar a forma como a comida é produzida e consumida.

O presidente do WRI, Andrew Steer, disse que nas próximas décadas o mundo enfrentará grandes desafios e oportunidades em relação à segurança alimentar, o desenvolvimento e o meio ambiente.

O relatório explica que aumentar as colheitas e a produção pecuária nas terras agrícolas atuais será fundamental para salvar as florestas e reduzir as emissões dos gases que causam o efeito estufa.

Os especialistas alertam que o mundo não deve atingir a meta somente através do aumento da produção. Eles recomendam também a redução da perda e do desperdício de alimentos.

Pelas projeções atuais, a ONU diz que a África Subsaariana, por exemplo, vai precisar mais do que triplicar suas plantações até 2050 para fornecer comida suficiente a toda a população.

De Nova York, da Rádio ONU, Edgard Júnior.

Copa do Mundo 2014, Ilegítima: elitista, privatista e anti-popular

Copa do Mundo 2014, Ilegítima: elitista, privatista e anti-popular
Foto em A Pública, Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo


A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT com sede em Curitiba-PR e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.
Sumário:
Uma copa anti-popular
Comitês Populares da Copa: Resistência e potência
Lei Geral da Copa – Cavalo de Tróia
FIFA. Uma grande multinacional despótica
Remoções arbitrárias e o legado oculto
Cidades privatizadas. Sociedade submetida à lógica do capital
Elitização e privatização do futebol


Eis a análise. 
Uma copa anti-popular
Não é exagero afirmar que a realização da Copa do Mundo no Brasil encontra-se ameaçada. Uma pergunta persegue e preocupa o governo, a FIFA e os organizadores do evento: Como serão as manifestações durante Copa do Mundo? Já não há dúvidas de que haverá manifestações durante o Mundial. A dúvida é o tamanho das mesmas, o receio da necessidade de colocar o exército nas ruas, o uso desmedido da ‘mão pesada’ do Estado que pode arruinar a imagem do país lá fora, já agravada pós-Copa das Confederações.
Seis anos atrás quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014, certo ufanismo tomou conta do país. Já faz tempo, porém, que a Copa deixou de ser uma unanimidade e se torna cada vez menos na medida em que se toma conhecimento dos desmandos que a envolvem.
Nesses dias, o acidente com um guindaste na Arena Corinthians e a morte de dois operários maculou ainda mais a realização da Copa do Mundo no Brasil. Às mortes de trabalhadores somam-se uma série de outros problemas: greves, atrasos, remoções, abandono de projetos de mobilidade, gastos exorbitantes, falta de transparência, imposições da FIFA etc.
O sinal de que as coisas não iam bem com a Copa foi dado em junho de 2013 com as grandes manifestações. As multidões sitiaram as arenas de futebol e manifestaram indignação com a exorbitância de gastos, com a falta de transparência, com as imposições da FIFA. As ruas disseram que entre investimentos em estádios e em saúde e educação, ficam com a segunda opção.
Aos poucos foi crescendo a percepção na sociedade de que a Copa não passa de um grande negócio. Um negócio que subordina o Estado brasileiro – a ingerência da FIFA; um negócio que privatiza espaços públicos, que elitiza os estádios, que expulsa milhares de seus locais de moradia, que utiliza dinheiro que falta em áreas mais necessárias.
As manifestações voltarão às ruas por ocasião da Copa do Mundo, ainda mais com os holofotes do mundo todo voltados ao Brasil. Há quem inclusive considere possível até inviabilizar a realização da Copa como o ativista Rodrigo Brizola para quem “não vai ter copa”. Diz ele: “Depende de nós. Vamos resistir, vamos desobedecer. Pra essa Copa já começou a resistência, a palavra de ordem é essa: não vai ter Copa. Se a massa levantar de novo… temos que saber se os movimentos organizados estão com condições de dialogar com essa massa. Se conseguirmos dialogar com a massa, não vai ter Copa”.
Independente do que venha acontecer, quebrou-se o mito do “país do futebol”, o mito de que a Copa do Mundo é sagrada. As ruas mandaram o recado “da Copa eu abro mão, quero mais dinheiro para saúde e educação”.
Quem primeiro levantou a série de equívocos envolvendo a organização do evento foram osComitês Populares da Copa. Na raiz dos cartazes de rua criticando o ‘modelo da Copa’ estão os Comitês Populares que denunciaram a Lei Geral da Copa, as remoções, os gastos absurdos, as imposições da FIFA.
Comitês Populares da Copa: Resistência e potência
Os Comitês Populares da Copa foram o embrião daquilo que depois se viu nas ruas. Foram eles que alertaram para os desmandos na organização do evento. Chamaram a atenção para a ingerência de fora para dentro com a Lei Geral da Copa, as violações de direitos, as remoções indevidas, o uso exorbitante e sem consulta popular do dinheiro público, entre outros.
Em todas as cidades que sediarão os jogos da Copa do Mundo – Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – foram formados Comitês Populares da Copa.
Em junho desse ano, alguns dias antes de explodirem as manifestações de rua, a revista IHU On-Line produziu um número exclusivo sobre a Copa do Mundo. A revista intitulada Copa do Mundo. Para quem e para quê? entrevistou vários estudiosos e integrantes dos Comitês Populares da Copa.
Uma leitura atenta da revista permite a compreensão do que se viu dias depois nas ruas de todo o Brasil. A tarefa dos Comitês, na opinião da arquiteta e urbanista Claudia Favaro, integrante do Comitê Popular de Porto Alegre e entrevistada pela IHU On-Line tem sido a de “monitorar os gastos e ser um agente mobilizador da sociedade para garantir que os direitos humanos não sejam violados”, uma vez que todos os megaeventos trazem “impactos muito característicos que ocorrem em função dessas violações pela necessidade de reestruturação urbana”. Assim, “a proposta do comitê é articular os atingidos, monitorar as violações e dar voz aos mais variados setores, principalmente os mais vulneráveis”. Os Comitês gestaram o início da resistência aos equívocos na organização do Mundial.
Na opinião de Julia Ávila Franzoni, integrante do Comitê de Curitiba, assessora da Organização Terra de Direitos e também entrevistada pela revista IHU On Line, a principal contribuição dos Comitês foi o da “produção de um contradiscurso que discute os megaeventos nos marcos do seu modelo de desenvolvimento violador dos direitos humanos”.
Na origem dos Comitês Populares da Copa e durante sua articulação foi lançado, em 2011 um Dossiê intitulado ‘Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil’. O dossiê foi entregue aos governos e prefeituras das doze cidades-sede da Copa, e para outros órgãos municipais, estaduais, federais e internacionais. Nele estão presentes as denúncias que irão aflorar posteriormente nas manifestações:
- Moradia: despejos arbitrários e remoções inteiras em processos ilegais de desapropriação para as obras da Copa;
- Trabalho: as greves e paralisações são resultados de baixos salários, más-condições de trabalho e superexploração da mão de obra em função de atrasos e cronogramas apertados;
- Acesso à Informação, Participação e Representação Popular: criação de instâncias paralelas de poder, que estão isentas de qualquer controle social;
- Meio ambiente: facilitação de licitações ambientes para obras;
- Mobilidade: expulsão das famílias mais pobres das áreas centrais e valorizadas e investimentos em transporte e mobilidade urbana sem considerar prioritariamente as demandas da população;
- Acesso a Serviços e Bens Públicos: diante da resistência dos moradores, prefeituras cortam serviços públicos de comunidades em processo de remoção;
- Segurança Pública: perspectiva de militarização das cidades durante os megaeventos;
- Elitização, ‘Europeização’ e Privatização do Futebol: fim dos setores populares nos estádios e aumento dos preços dos ingressos;

Lei Geral da Copa – Cavalo de Tróia
Dentre as várias denúncias na preparação da Copa do Mundo, os Comitês destacaram o caráter autoritário, abusivo e de ingerência inscritos na Lei Geral da Copa. Uma legislação imposta de fora para dentro a partir dos interesses da FIFA – um verdadeiro ataque à soberania do país, segundo os Comitês Populares da Copa.
Lei Geral da Copa altera “sumariamente a legislação brasileira, normas amplamente debatidas e, em muitos casos, fruto histórico de pressão e reivindicações dos movimentos sociais para atender a exigências de organismos internacionais como a FIFA e o Comitê Olímpico Internacional – COI” destacavam ainda em março do ano passado, Guilherme Varella, do Instituto de Defesa do Consumidor e Thiago Hoshino, da Organização Terra de Direitos em entrevista ao IHU.
Segundo eles, a FIFA e o COI “são verdadeiras empresas transnacionais, mais preocupadas com o jogo do mercado do que com os jogos esportivos”. De acordo com Guilherme Varella eThiago Hoshino, a Lei Geral da Copa pode ser considerada “um cavalo de troia que abre perigosos precedentes no ordenamento jurídico brasileiro. Ela não é a primeira medida e tudo indica que não será a última a regulamentar ‘o regime de exceção’ para os jogos”.
O advogado Paulo Lemos, presidente do Colégio de Ouvidorias das Defensorias Públicas do Brasil e entrevistado pela revista IHU On-Line considera estranho ver o Brasil fiel aos ditames da FIFA, uma vez que ela “só tem dado ordens, enquanto o pagamento da fatura tem sido feito, cem por cento, com o dinheiro do contribuinte brasileiro, que não poderá assistir aos jogos da copa, presencialmente”.
Diante da abusiva ingerência da FIFA, exigindo, determinando, cobrando, alterando a legislação brasileira, não é surpresa que a mesma tenha se tornado um dos alvos preferidos dos manifestantes.  Dentre os absurdos, um dos que mais gerou indignação está a proibição de vendedores ambulantes comercializar produtos num raio de dois quilômetros dos estádios, ou seja, a FIFA criou um território que é governada por ela e não pelo governo brasileiro.
FIFA. Uma grande multinacional despótica
O presidente da FIFA, Joseph Blatter durante a Copa das Confederações se deu conta da ira dos manifestantes e chegou a fugir do país com medo dos protestos. O jornalista Juca Kfouriconta que “eles [FIFA] ficaram muito assustados, tiveram medo de gente deles morrer, pensaram em suspender a Copa das Confederações”. Segundo ele, “em Salvador, eles tiveram funcionários agredidos, carros depredados”.
Kfouri comenta, “o Blatter foi embora, ele tinha um almoço marcado aquele dia com o Eduardo Campos [governador de Pernambuco] e com o prefeito do Recife e se mandou para a Turquia, pô, que estava pegando fogo, mas ele preferiu a Turquia do que ficar aqui. Aí quando o governo deu a resposta que eles esperavam, com Força Nacional nas ruas e tudo mais, ele veio. Veio e não foi anunciado nem no Mineirão e nem no Maracanã. Passou quase incógnito”. Segundo Juca Kfouri, “a FIFA é uma grande multinacional, que ganha aos tubos, pouco transparente”.
FIFA arranhou tanto a sua imagem com o seu despotismo no Brasil que é uma das concorrentes ao prêmio de “pior corporação do mundo”. A FIFA “contribui para a violação dos direitos humanos, assim como ao direito à moradia, direito de protestar e de trabalhar”, destaca o site promotor do prêmio Public Eye Awards que desde 2000 elege a “pior corporação do mundo” e o parâmetro para que se alcance tal “honraria” é a “prática de negócios irresponsáveis”. Em 2014, a Fifa, é a favorita para ganhar o “prêmio. A indicação da Fifa foi feita pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa.
Remoções arbitrárias e o legado oculto
A realização da Copa do Mundo tem sido perversa para muitas pessoas. Em nome da necessidade de construção das arenas, da reestruturação viária nos seus entorno e até mesmo por higienização e esteticização, milhares estão sendo expulsos do lugar em que vivem há décadas.
De acordo com dados de um mapeamento divulgado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop), em parceria com a ONG Conectas, calcula-se que 250 mil famílias correm o risco de serem despejadas por causa das obras em preparativo para a Copa do Mundo.
Falta de transparência, indenizações insuficientes e reassentamentos inadequados para as famílias removidas são marcas de um modelo de gestão empreendedora neoliberal no interior das cidades-sede da Copa.
Na opinião de Orlando Alves dos Santos Junior, pesquisador da Rede Observatório das Metrópoles do Rio de Janeiro em entrevista à IHU On Line há um legado oculto nesse processo das remoções. Segundo ele, “todas estas grandes obras se dão no marco do neoliberalismo, pois existe a subordinação do poder público aos valores do mercado, que promove a privatização e a mercantilização da cidade na perspectiva de atração de investimentos”.
Nisso tudo, diz o pesquisador, “há um legado oculto que não oferece informações ao cidadão sobre o que, de fato, está ocorrendo na sua cidade, ou seja, trata-se de um processo que não conta com mecanismos de participação nas decisões, sendo que tais decisões estão legitimadas pelos eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas, como se sediar tais coisas justificasse as opções que estão sendo definidas”. Tudo isto produz uma elitização e mercantilização de certas áreas da cidade, destaca.
Nesse mesmo contexto da mercantilização da cidade, a arquiteta e urbanista Claudia Favarotambém entrevista pela IHU On Line, aponta para o fato das populações mais pobres estarem sendo removidas de forma violenta, sem nenhuma alternativa, ocorrendo verdadeiras tentativas de higienização e elitização dos espaços públicos, com a expulsão dos mais pobres de determinadas áreas.
Cidades privatizadas. Sociedade submetida à lógica do capital
Na opinião do urbanista Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, “os megaeventos aparecem como pretexto para a realização de uma série de anseios econômicos, políticos e ideológicos de uma direita conservadora que pretende submeter a sociedade à lógica do grande capital”.
Segundo ele, “para isso é necessário limpar a cidade, retirando os pobres das áreas destinadas a receber investimentos públicos mais expressivos para que os ganhos fundiários resultantes desses investimentos com a valorização imobiliária sejam destinados a quem interessa”.
Para Vainer, as obras de mobilidade urbana incluídas na Matriz de Responsabilidades da Copa refletem isso: “Na maioria das cidades, os investimentos de mobilidade não têm atendido as demandas das camadas populares com transporte público de massa”, opina, exemplificando em seguida: “No Rio de Janeiro, onde 80% da demanda de transporte público de massa está nos subúrbios, na Baixada Fluminense e na grande Niterói, os investimentos estão sendo feitos para áreas em grande parte vazias da Barra da Tijuca e Recreio, onde temos menos de 5% da população da região metropolitana do RJ. Esses investimentos, na verdade, estão é valorizando os grandes latifúndios vazios da Barra da Tijuca e Recreio”, avalia o pesquisador.
Análise semelhante é feita por Paulo Roberto Rodrigues Soares, professor do Departamento de Geografia – UFRGS e membro do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre. Segundo ele, “entendemos que os pontos críticos do novo modelo urbano são as políticas de mobilidade baseadas no transporte individual, a política habitacional regulada exclusivamente pelo capital privado e a atração de megaeventos como alavanca para projetos desenvolvimentistas. Os três entrelaçados estão produzindo cidades mais privadas, mais fragmentadas, menos solidárias e de pior qualidade de vida. Bem ao contrário do que poderíamos esperar de um efetivo programa de reforma social”.
Gastos exorbitantes que não tem fim
Há outro escândalo que cerca a organização do Mundial. Gastos exorbitantes que não tem fim. Não falta dinheiro para as obras da Copa frente às imensas carências de serviços de saúde, educação, saneamento, entre outros. Esse é um dos fatores que constrange a realização da Copa.
O Brasil já bateu a soma do que a África do Sul e a Alemanha desembolsaram para os dois últimos Mundiais. O valor gasto para reforma ou construção dos 12 estádios chega próximo a 8 bilhões de reais segundo dados  do Sindicato Nacional de Arquitetura e da Engenharia –Sinaenco, que conta com correspondentes nas 12 cidades-sedes e realiza acompanhamento mensal de projetos ligados à competição.
O valor total, entretanto, chegará a R$ 28 bilhões. Além de estádios (R$ 7,5 bilhões), obras de mobilidade urbana (R$ 8,9 bilhões), ampliação de aeroportos (R$ 8,4 bilhões) e portos (R$ 675 milhões), gastos com segurança (R$ 1,9 bilhão), telecomunicações (R$ 371 milhões) e infraestrutura de turismo (R$ 212 milhões). Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, os R$ 28 bilhões que serão gastos com a Copa – evento que vai durar um mês – representam em torno de metade do valor destinado para a Educação no Orçamento Geral da União para todo o ano de 2012, que foi de R$ 57 bilhões, e cerca de 40% do destinado para a Saúde, de R$ 71 bilhões.
Os gastos suntuosos revelam ainda outro caráter perverso, o de que tem muita gente ganhando muito dinheiro com a Copa – particularmente as empreiteiras e os consórcios que irão administrar as arenas. Majoritariamente estão sendo construídas com recursos públicos, mas serão privatizadas em suas administrações.
Um seleto grupo de empreiteiras está à frente das obras da Copa, entre elas, Odebrecht – responsável pela obra do Itaquerão onde morreram os operários –, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS e JBS. Essas mesmas empresas também são generosas doadoras de recursos para campanhas eleitorais destaca João Roberto Lopes Pinto, coordenador do Instituto Mais Democracia.
O dinheiro para a construção das arenas vem do BNDES. Comenta João Roberto Lopes Pinto: “É um financiamento subsidiado, porque o BNDES trabalha com uma taxa de juros de longo prazo e tem um percentual de juros abaixo do mercado e um período longo de carência para começar a pagar. Além disso, é dinheiro público oferecido com condicionalidades muito frágeis. Do ponto de vista social e ambiental, não há ação mais efetiva em termos de contrapartidas que os empreendimentos devem observar. Não é a toa que o Eike Batistafalou que o BNDES era uma mãe”, diz.
Aliás, um caso emblemático da farra do dinheiro público com a Copa do Mundo envolve Eike Batista. Segundo coordenador do Instituto Mais Democracia, “o caso do Maracanã é emblemático”. Destaca que “o orçamento final da reforma do estádio superou em quase 70% a previsão inicial, passando de R$ 705 milhões em setembro de 2010 para R$ 1,2 bilhão em julho deste ano. As obras foram tocadas por um consórcio entre a Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta, que abandonou as obras em meio a um escândalo de corrupção. Somados os gastos com a reforma do estádio e do ginásio do Maracanãzinho para os Jogos Panamericanos de 2007, foram gastos R$ 1,5 bilhão em recursos públicos no Maracanã”.
Ainda assim, diz ele, “o governo estadual optou por entregar a administração do Complexo do Maracanã (que além do estádio e do Maracanãzinho, conta ainda com o Parque Aquático Julio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros) para a iniciativa privada, gerando questionamentos do Ministério Público do Rio de Janeiro, que tentou, sem sucesso, impedir a licitação para a concessão do estádio, vencida pelo Consórcio Maracanã S.A, integrado pela Odebrecht, IMX, de Eike Batista, e AEG, que vai administrar o complexo pelos próximos 35 anos”.
Como diz o presidente da Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras Marcos Alvito em entrevista para o IHU, “o Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro”.
Elitização e privatização do futebol
Junto com os exorbitantes gastos nas arenas para cumprira o padrão FIFA vem outra consequência: a elitização do futebol brasileiro.  Cerca de 203 mil pessoas assistiram à final da Copa do Mundo de 1950 no Maracanã, o que representava por volta de 8,5 por cento da população do Rio de Janeiro. As entradas para secções de assentos “geral” e “popular,” de onde pessoas das classes média e trabalhadora assistiram ao jogo, representavam 80 por cento do total de assentos. Boa parte dos espectadores assistiu à partida de pé, num estádio com capacidade para 199 mil pessoas.
Para além da elitização, assiste-se ainda a uma privatização dos espaços públicos. Antes da atual remodelagem muitos estádios eram públicos e agora se tornarão privados. Entre eles, por exemplo, o Maracanã uma “arena multiuso” que albergava, além de eventos desportivos, recitais musicais e espetáculos dos tipos mais diversos. Agora, sobre as arquibancadas foram construídos camarotes com ampla visão do campo, com vidros que separam os espectadoresVIP do resto dos espectadores. Contam com bares, televisão e ar condicionado, costumam ser alugados por empresas que convidam sócios e funcionários que têm o privilégio de chegar diretamente de carro por uma rampa sem o mínimo contato com as ‘massas’.
Nas suítes privativas dos estádios reformados com dinheiro público, milionários e empresas pagam 2,3 milhões de dólares por ingresso vendido por associada da FIFA, comenta Andrew Jennings.
Outro exemplo, entre outros, é a arena das Dunas construída em Natal-RN. A arena foi construída sobre os escombros do antigo Machadão – estádio público. Com a destruição doMachadão se destruiu também o Machadinho – ginásio de esportes que abrigava jogos esportivos da rede pública de ensino. Agora o espaço, anteriormente público, se tornou privado e o Estado não tem mais nenhuma ingerência sobre ele. Tampouco os pobres. Os preços dos ingressos se tornaram proibitivos. Somente entram nas arenas privadas quem ganha muito bem.
O claro caráter anti-popular da Copa do Mundo 2014 ficou evidente na interpelação dos cartazes nas ruas:
“Não queremos estádios – Queremos escolas e hospitais”
“Queremos escolas e hospitais no padrão Fifa” 
“Quando seu filho ficar doente leve-o ao estádio”
“Quantos hospitais cabem em um estádio de futebol?”
“Quantas escolas valem um maracanã?”
“Enquanto a bola rola, falta saúde e escola
“Era uma vez o dinheiro do Brasil, veio a FIFA, ele sumiu”
“Copa é prioridade no Brasil?”
“Eu não votei na FIFA”
 “Go home Blatter”
“Fora FIFA”

publicado pela IHU On-line