"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Polícia militar do Camboja dispara sobre trabalhadores durante protesto por melhores salários

Pelo menos 4 pessoas morreram esta sexta feira no parque industrial Canadia, onde estão instaladas várias fábricas que fornecem produtos para marcas como Adidas, Puma e H&M. Os trabalhadores lutam pelo aumento do salário mínimo nas fábricas de 58,7€/mês para 117,4€/mês.
Segundo avançou a agência Reuters, a polícia militar do Camboja, após ter tentado impedir a manifestação, abriu fogo contra os trabalhadores na zona industrial de Phnom Penh, durante o segundo dia de mobilizações dos cerca de 350 mil trabalhadores fabris, que combinam uma paralisação com várias iniciativas de protesto contra os baixos salários praticados na indústria têxtil, que fatura perto de 4 mil milhões de euros por ano no país.
A investida policial terá causado pelo menos quatro mortes e vinte e um feridos, segundo avançam organizações não governamentais.
No início da semana já tinha sido registado outro episódio de violência policial numa fábrica que produz roupa para os grupos norte-americanos GAP e Walmart. Perto de vinte pessoas foram agredidas com bastonadas.
O Ministério do Trabalho do Camboja já veio adiantar que não irá atender às reivindicações dos grevistas e que apenas está disposto a aumentar o salário para 73,35€/mês. “Não haverá mais negociação, uma vez que o ministério decidiu aumentar o salário mínimo para 100 dólares [73,35€] por mês”, afirmou um porta-voz do ministério.
O movimento de oposição Partido Nacional da Salvação do Camboja, que acusa o governo de Hun Sen de ser autoritário e exige a repetição das eleições de julho, e que tem participado nos protestos, já prestou a sua solidariedade e apoio aos trabalhadores. Para este sábado está marcada uma vigília pelos mortos pelas forças armadas.
Várias marcas de roupa ocidentais produzem os seus artigos em fábricas cambojanas, na medida em que o trabalho é mais barato neste país do que na China, Vietname ou Tailândia.

O FASCISMO COMO PRODUTO DO CAPITALISMO – “AURORA DOURADA DEFENDE POLÍTICAS NEOLIBERAIS”

Parte de uma entrevista Publicada na Revista Lucha Internacionalista com Aris Chatzistefanou que comenta a existência do Movimento Fascista Aurora Dourada na Grécia.
Lucha Internacionalista - Depois de  Catastroika e  dividocracia por que um filme sobre o Aurora Dourada?

Aris Chatzistefanou- Na verdade, cada dia percebemos que a coisa mais importante  não é falar do Aurora Dourada como tal, mas como as elites políticas e econômicas sustentam o fascismo em tempos de crise. Temos ido a Itália para explicar como o termo "fascismo" foi concebido na década de 20 pelo  jovem Mussolini, após reunião com a confederação de industriais. O mesmo aconteceu com Hitler na Alemanha, quando ele recebeu a luz verde para ser chanceler após uma reunião em Dusseldorf com os empregadores. É simplista dizer que o fascismo é apenas uma ferramenta das elites que pode ser ativado e desativado, pressionando um botão, mas é um fato que nenhum movimento fascista conseguiu sem a aceitação das elites políticas. Isso não significa que ele é a melhor escolha para os poderosos, mas em tempos como estes, eles não têm escolha.
LI- É isso o que você vê na Grécia?
AC- Aqueles que colaboraram com os nazistas na Segunda Guerra Mundial, ganharam a guerra civil e mais tarde tornaram-se o aparelho do Estado. Isso é muito fácil de entender, na Espanha. Em tempos de bem-estar, essas pessoas vão para grandes  partidos como PASOK e  Nova Democracia, mas em tempos de crise são unificados em torno de um partido fascista: aconteceu na década de 30, após a ditadura, e retorna a acontecer agora. E acima de sua retórica antissemita, o Aurora Dourada atuou por dois anos no Parlamento, como "braço armado" dos neoliberais: os armadores têm apoiado, a privatização, o fechamento da televisão pública ... tudo o que governo queria.
LI-Desdde o governo de Samaras se abre a porta para o fascismo.
AC-claro! Há exemplos óbvios. Pouco antes das eleições, o governo Pasok montou  um circo de mídia com um grupo de mulheres que as acusaram de ser prostitutas estrangeiras e de transmitir a AIDS: As colocaram diante das câmeras! Em seguida, descobriu-se que nem eram estrangeiras nem prostitutas... E não se esqueça que, na Grécia, temos campos de concentração, que a princípio eram para os imigrantes e são agora também para os viciados e moradores de rua. Para mim, isso é chamado de estado nazismo
LI- Para o governo grego o o problema são os extremismos:  SYRIZA  e Aurora Dourada
A C - É a teoria dos dois extremos. Comparam Aurora Dourada com SYRIZA, que para mim é um partido de esquerda moderada, que defende políticas muito semelhantes aos da social-democracia dos anos 80 ou a Democracia Cristã de 70. E se o povo de SYRIZA, com quem vamos a bares ou cinemas, são como os neonazistas... então o que está errado com neonazistas? É uma forma de banalizar a legitimar o fascismo. É neste sentido que o centro político promove o fascismo, que também teve uma forte presença na mídia nos últimos dez anos.
LI- Mas os líderes do Aurora Dourada estão  processados.
AC-Como aconteceu na Turquia, em setembro de 1980, o dia do Golpe de Estado o General Evren ordenou deter líderes sindicais e líderes da extrema direita: eles queriam apresentar como o representante da lei e da ordem, agindo contra "extremos" para salvar o país. Mas destrupiram totalmente  a esquerda e os sindicatos e, em vez disso, nos esgotos de poder era limitado apenas para colocar um pouco de ordem. E eu acho que isso é o que você está fazendo Samaras. Não se esqueça que alguns líderes neonazistas antigos estão em Nova Democracia  e que antes do assassinato do cantor Pavlos Fysas se planejava fazer um acordo de governação. Com o assassinato o Aurora Dourada caiu na pesquisa, mas ainda tem 10%! Agora que todo mundo sabe que eles são assassinos, o problema não há terminado
LI- Mas como chegou um grupo neonazista a ter 10% nas pesquisas? Temos visto distribuir comida nas ruas ou que acompanham as avós ao caixa ..
AC- Walter Benjamin disse que o fascismo é o resultado de uma revolução perdida. E na Grécia, a esquerda perdeu muitas revoluções: tem caído em escritórios ou salas de estar confortáveis ​​em vez de ir para fora. E eu me incluo na autocrítica. Quando em um bairro têm problemas graves e dizem que não podem querer mais imigrantes... não podemos responder que está cheio de fascistas. O que faz Aurora Dourada é um circo, um teatro, mas a aparência é a tentativa de fornecer soluções para os problemas que as pessoas enfrentam... enquanto a esquerda é dedicada apenas a negá-los. Não se esqueça que o EAM (Frente de Libertação Nacional) e da ELAS (Exército Popular de Libertação Nacional)  grupos que lutaram na guerra civil, fizeram um nome com entrega de alimentos sob a ocupação nazista. Estamos demasiado elitista para ir a terra e ajudar as pessoas: Temos grande análise, mas não dar respostas onde pedimos para eles. E não sabemos oferecer alternativas concretas. Se a esquerda estivesse estado na rua, agora seria o governo.
LI- Como se financia o Aurora Dourada

AC-A meta do documentário é revelar os nomes dos armadores gregos que financiam a Aurora Dourada. Talvez não possamos chegar aos grandes magnatas, que sabem como esconder seu negócio, mas queremos dar nomes.

LI- E não tem medo? Na Grécia, há muitas represálias contra jornalistas.
Há deputados  da Nova Democracia que tem me ameaçado na tribuna do Parlamento. Eles tentam nos destruir economicamente: não podemos encontrar trabalho em uma mídia. Atualmente, eu trabalho para os novos meios fundado por jornalistas, e eu tenho um programa de rádio... Na Grécia, você só pode trabalhar cinco vezes para ganhar cinco vezes menos... Mas fazer um nome também é uma forma de se proteger.
LI- Na Grécia está surgindo  muitas mídias alternativas: com a credibilidade dos principais partidos, também se enterra a do sistema de mídia dominada por estes? .
AC- Antes de 2008 a mídia agiu com o duplo papel de sempre: primeiro são as empresas que necessitam de benefícios e outros aparelhos de propaganda dos capitalistas. Desde o início da crise tem esquecido a primeira parte, você tem a aceitação do público. Agora, apenas preocupado com a luta pela sobrevivência do sistema. O sistema de mídia grega é a Coréia do Norte da Europa. TV pública ainda se ressentia dizendo tudo o que o governo queria! Costumávamos brincar que iria acabar com a placa de censura. Mas agora é uma realidade: não que aprendemos dos antifascistas torturados em delegacias de polícia pelos artigos do jornal britânico The Guardian e o escândalo do Piraeus Bank pela Reuters. E os grandes meios gregos diziam uma palavra. Existem meios alternativos, fundados por jornalistas com quem colaboro, mas se não tiver grandes frequências, você não pode chegar à maioria das pessoas  ou a minha avó ou pessoas que chegam em casa exausto depois do trabalho em três sírios e só tem vontade de ver televisão.

LI Você participou da luta contra o encerramento da ERT, a televisão pública.
AC- As pessoas têm vindo a trabalhar  cinco meses sem receber salário. Foi heróico. E então expulsos da polícia e se trancaram simbolicamente na Politécnica, no 40 º aniversário da revolta estudantil e da ditadura ... foi um golpe financeiro.

LI- O que pensas do SYRIZA?
AC - No último discurso de Tsipra na Universidade do Texas deixou muito claro: e Samaras aproveitou a oportunidade para lembrá-lo de que ele não viu diferenças fundamentais em seu projeto para a Europa. Para mim, o principal problema do SYRIZA é que para por em marcha uma alternativa econômica seria necessário um movimento de massas enorme, como vimos há alguns anos na América Latina. Eu não estou totalmente de acordo com Morales e Chávez, mas eles queriam algo quando me moviam milhões. E parece que SYRIZA não se importa muito.

Publicado em Lucha internacionalista núm. 128.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Paulo Passarinho* - 2014

2014 será o último ano de governo do atual mandato de Dilma Rousseff. A atual presidente, tudo indica, será também a candidata do seu partido, o PT, na próxima eleição à presidência da República. Candidata, portanto, à reeleição. Mas, qual será a novidade que Dilma, o seu partido e seus aliados poderão oferecer ao país? Na verdade, nada de novo.

Desde o final do primeiro ano do seu governo, em 2011, Dilma e sua equipe econômica prometem reativar o ritmo do crescimento econômico do país. Os resultados, contudo, não foram nem um pouco animadores. Ao contrário, depois de 2011, com uma taxa de expansão do PIB de 2,7%, os resultados de 2012 (1%) e 2013 (em torno de 2%) foram para lá de decepcionantes.

Além disso, a promessa de governar o país com uma taxa real de juros baixa e câmbio não valorizado, para termos uma “nova matriz econômica”, de acordo com a definição utilizada por Guido Mantega, caiu no vazio. A pressão inflacionária interna e a crise externa, especialmente os receios do ministério da Fazenda com a redução dos estímulos monetários do Banco Central dos Estados Unidos, falaram mais alto e no momento o que assistimos é o retorno do Brasil à condição de país com os juros reais mais elevados do mundo e uma taxa de câmbio muito aquém da desejável.

Inflação, pressão sobre o câmbio, financiamento das contas externas, endividamento financeiro acelerado – puxado pela taxa de juros – são problemas que continuarão a tirar o sono de um governo que, gerenciando um modelo ditado pelos interesses maiores de bancos e multinacionais, acaba por dispor de um limitado repertório, para enfrentar as turbulências de uma economia muito vulnerável aos humores e ondas da economia mundial.

O governo, por sua vez, aposta nas privatizações como solução, ou esperança, de incrementar a taxa de investimento na economia. Sempre de acordo com Guido Mantega, a expectativa é que possamos entrar, na formação bruta de capital, na casa dos 20% em relação ao PIB. Mas, o que é de fato uma vantagem para a política em curso, ainda se encontra na oferta de emprego e no nível de renda que vem sendo possível para os segmentos mais pobres da população.

Este é um dado importante, para um ano eleitoral. Assim como Collor, FHC e Lula, Dilma reproduz uma política que, procurando fortalecer os interesses dos mais ricos, oferece vantagens aos mais pobres. Esta combinação é possível, graças às indecentes desigualdades que marcam o nosso país e que acabam por tornar bastante viável uma política que, ao mesmo tempo em que transfere mais de 40% do Orçamento Geral da União para os rentistas da dívida pública – bancos, grandes empresas, fundos de pensão e fundos de investimento estrangeiros –, mantém uma ativa política de emergência social, voltada para os mais pobres. Programas como o Bolsa Família e reajustes reais para o salário-mínimo, o que também beneficia a maioria dos aposentados e pensionistas do INSS, garantem a popularidade do governo de plantão junto aos mais pobres. E o modelo de subdesenvolvimento gera empregos de baixa qualificação e remuneração, justamente para esses mesmos segmentos.

Collor, com a sua mediática campanha de caça aos marajás, e FHC, com o plano que derrubou a inflação, também se respaldaram no apoio dos mais pobres para ganharem eleições e simpatias populares, embora de forma mais transitória. Os governos do neopetismo foram mais fundo: criaram programas mais consistentes de apoio aos mais pobres, mantendo o que era essencial para as classes dominantes e mais ricas. “Cuidar de pobre é barato”, já sentenciou Lula, cada vez mais envolvido com a promoção dos negócios mundo afora dos seus novos amigos, a oligarquia tupiniquim e suas multinacionais verde-amarelas.
Entretanto - os acontecimentos de 2013 já deram mostras disso -, há vida pulsante e crítica nos quatro cantos do país. A concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos, as dificuldades de uma verdadeira classe média que se ressente de direitos que lhe são negados, e uma gigantesca massa de pobres que vive em condições dificílimas de vida, e que também convive com a falência dos serviços públicos e a tragédia social dos grandes centros urbanos, fazem com que mudanças políticas profundas sejam reivindicadas, cada vez com mais força e contundência.

Esses movimentos, porém, têm se defrontado com a absoluta incapacidade das instituições políticas responderem de forma minimamente adequada a essas pressões. Mais do que isso, o que se vê é uma ofensiva dos setores dominantes em radicalizar os seus próprios interesses, como se nada estivesse ocorrendo. A retomada das privatizações e dos leilões de petróleo, a política de desonerações fiscais às empresas - mantendo-se a iníqua estrutura tributária que afeta aos assalariados e trabalhadores de renda média e baixa -, a paralisia da reforma agrária, a ofensiva do agronegócio contra as demarcações de terras indígenas ou o subfinanciamento das políticas de saúde, educação e transportes urbanos de massa são exemplos da conduta política do governo e da insensibilidade elitista.

Por conta de tudo isso, a variável imponderável da conjuntura estará nas ruas. É muito provável que as gigantescas manifestações de descontentamento, que ocorreram em junho de 2013, voltem a acontecer em 2014, especialmente durante a realização da Copa do Mundo. Os estádios de futebol, construídos agora como “arenas” do esbanjamento e desperdício do dinheiro público, terão os seus exorbitantes custos novamente cobrados pela população.

O ano eleitoral tornará também mais aguda a disputa de interesses, entre os próprios donos do poder econômico e político. As defecções já registradas no amplo leque de alianças original do lulismo, como são os casos do PSB e da Rede de Marina Silva, são exemplos claros desse processo. E na esfera econômica, a possibilidade de um recrudescimento da crise - em termos inflacionários e com relação aos graves desequilíbrios das nossas contas externas - poderá jogar ainda mais lenha na fogueira de um novo ano, que pode se mostrar emblemático da encruzilhada histórica em que nos encontramos.

Afinal, somos um país de milhões de brasileiros, em um território riquíssimo e com potencialidades de natureza ímpar. Contudo, somos também marcados por uma história de infâmias, desigualdades e injustiças gritantes. Com instituições dominadas por uma elite antinacional, e despida de qualquer visão estratégica do país, cada vez mais serão frequentes os momentos em que séculos de espera estarão sendo questionados.

*Economista, servidor público e apresentador do Programa Faixa Livre

Os vampiros formam seus bandos para devorarem o RN

É necessário ao povo  barrar os interesses desses grupos oligárquicos-empresariais que sempre tramam para submeter o Rio Grande do Norte a seus interesses. 

Começam a articular com Fernando Bezerra, parente do Coronel de Santa Cruz, Teodorico Bezerra, e um dos maiores empresários do estado; ainda contam com Wilma de Faria que na década de 1980 já era envolvida no escândalo de compras de votos conhecido como "Rabo de Palha", onde, o então governador e hoje senador José Agripino comprava votos para a dita com feiras e enxovais.

Isso sem falar na escória sebosa que são Vivaldo Costa e Álvaro Dias aqui em Caicó, todos são anacronismos que somente manterão o RN num atraso sem cabimento e assistindo a essa escalada brutal na violência a ouvir programas policiais nas rádios e TV´s dos mesmos oligarcas e a pedir polícia.. 

Ignacio Ramonet: Mais duas horas com Fidel

O antigo diretor do Monde Diplomatique e autor da biografia “Cem Horas com Fidel”, voltou a encontrar-se com Fidel Castro em dezembro.
O encontro entre Ignacio Ramonet e Fidel Castro foi registado pelo filho do líder da revolução cubana, o fotógrafo Alex Castro.
Fazia um dia de primaveral doçura, submergido por essa luz refulgente e esse ar cristalino tão característicos do mágico dezembro cubano. Chegavam cheiros do oceano próximo e se ouviam as verdes palmeiras embaladas por uma lânguida brisa. Num desses «paladares» que abundam agora em La Habana, estava eu almoçando com uma amiga. De repente, tocou o telefone. Era o meu contato: «A pessoa que desejavas ver, está te esperando em meia hora. Apressa-te.» Deixei tudo, despedi-me da amiga e dirigi-me ao lugar indicado. Ali me aguardava um discreto veículo cujo chofer guiou de imediato rumo ao oeste da capital.

Eu tinha chegado a Cuba quatro dias antes. Vinha da Feira de Guadalajara (México) onde estive a apresentar o meu novo livro “Hugo Chávez. Mi primera vida - conversaciones con el líder de la revolución bolivariana”. Em La Habana, se celebrava com imenso êxito, como cada ano por essas datas, o Festival do Novo Cinema Latino-americano. E seu diretor Iván Giroud teve a gentileza de me convidar para a homenagem que o Festival desejava prestar a seu fundador Alfredo Guevara, um autêntico génio criador, o maior impulsionador do cinema cubano, falecido em abril de 2013.

Como sempre, quando pouso em La Habana, havia perguntado por Fidel. E, através de vários amigos comuns, havia transmitido minhas saudações. Fazia mais de um ano que não o via. A última vez tinha sido em 10 de fevereiro de 2012 no marco de um grande encontro «pela Paz e a preservação do Meio Ambiente», organizado à margem da Feira do livro de La Habana, no qual o Comandante da revolução cubana conversou com uma quarentena de intelectuais.

Foram abordados, naquela ocasião, os temas mais diversos, começando pelo «poder mediático e a manipulação das mentes» do qual me tocou falar em um tipo de palestra inaugural. E não me esqueço da pertinente reflexão que Fidel fez ao final de minha exposição: «O problema não está nas mentiras que os meios dominantes dizem. Isso não podemos impedir. O que devemos pensar hoje é como nós dizemos e difundimos a verdade.»

Durante as nove horas que durou essa reunião, o líder cubano impressionou o seu seleto auditório. Demostrou que, já com 85 anos de idade, conservava intacta a sua vivacidade de espírito e sua curiosidade mental. Intercambiou ideias, propôs temas, formulou projetos, projetando-se para o novo, para a mudança, para o futuro. Sensível sempre às transformações em curso do mundo.

Quão diferente o encontraria agora, dezanove meses depois?, perguntava-me a bordo do veículo que me aproximava dele. Fidel tinha feito poucas aparições públicas nas últimas semanas e difundido menos análises ou reflexões que em anos anteriores.

Chegámos. Acompanhado de sua sorridente esposa Dalia Soto del Valle, Fidel me esperava na entrada do salão de sua casa, uma peça ampla e luminosa aberta sobre um ensolarado jardim. Abracei-o com emoção. Aparentava estar em estupenda forma. Com esses olhos brilhantes como estiletes sondando a alma de seu interlocutor. Impaciente já de iniciar o diálogo, como se tratasse, dez anos depois, de prosseguir nossas longas conversações que deram lugar ao livro «Cem horas com Fidel».

“Se ele só tinha amigos, quem então prendeu Mandela?”

Ainda não havíamos sentado e já me formulava uma infinidade de perguntas sobre a situação económica na França e a atitude do governo francês... Durante duas horas e meia, falamos de tudo um pouco, pulando de um tema a outro, como velhos amigos. Obviamente tratava-se de um encontro amistoso, não profissional.

Nem gravei a nossa conversa, nem tomei nenhuma nota durante o transcurso da conversa. E este relato, além de dar a conhecer algumas reflexões atuais do líder cubano, só aspira responder a curiosidade de tantas pessoas que se perguntam, com boas ou más intenções: como está Fidel Castro?

Já disse: estupendamente bem. Perguntei-lhe por que ainda não havia publicado nada sobre Nelson Mandela, falecido havia já mais de uma semana. «Estou trabalhando nisso, declarou, terminando o rascunho de um artigo. Mandela foi um símbolo da dignidade humana e da liberdade. Conheci-o muito bem. Um homem de uma qualidade humana excepcional e de uma nobreza de ideias impressionante. É curioso ver como os que ontem amparavam o Apartheid, hoje se declaram admiradores de Mandela. Que cinismo! A gente se pergunta, se ele só tinha amigos, quem então prendeu Mandela? Como o odioso e criminoso Apartheid pode durar tantos anos? Mas Mandela sabia quem eram seus verdadeiros amigos.

Quando saiu da prisão, uma das primeiras coisas que fez foi vir visitar-nos. Nem sequer era ainda presidente da África do Sul! Porque ele não ignorava que sem a proeza das forças cubanas, que romperam a coluna vertebral da elite do exército racista sul-africano na batalha de Cuito Cuanavale [1988] e favoreceram, assim, a independência da Namíbia, o regime do Apartheid não teria caído e ele teria morrido na prisão. E isso que os sul-africanos possuíam várias bombas nucleares, e estavam dispostos a utilizá-las!»

“Chávez soube formar toda uma geração de jovens dirigentes”
Falamos depois do nosso amigo comum Hugo Chávez. Senti que ainda estava sob a dor da terrível perda. Evocou o Comandante bolivariano quase com lágrimas nos olhos. Me disse que havia lido, «em dois dias», o livro «Hugo Chávez. Mi primera vida». «Agora tens que escrever a segunda parte. Todos queremos ler. Deves isso a Hugo.», completou. Aí interveio Dalia para comentar que esse dia [13 de dezembro], por insólita coincidência, fazia 19 anos do primeiro encontro dos dois Comandantes cubano e venezuelano. Houve um silêncio. Como se essa circunstância lhe conferisse naquele momento uma indefinível solenidade à nossa visita.

Meditando para si mesmo, Fidel pôs-se então a lembrar daquele primeiro encontro com Chávez no dia 13 de dezembro de 1994. «Foi uma pura casualidade, relembrou. Soube que Eusebio Leal tinha convidado ele para dar uma conferência sobre Bolívar. E quis conhecê-lo. Fui esperá-lo ao pé do avião. Coisa que surpreendeu muita gente, incluindo o próprio Chávez. Mas eu estava impaciente por vê-lo. Nós passamos a noite conversando.» «Ele me contou, eu disse, que sentiu que você estava fazendo ele passar por um exame...» Fidel desata a rir:
 «É verdade! Queria saber tudo dele. E me deixou impressionado... Por sua cultura, sua sagacidade, sua inteligência política, sua visão bolivariana, sua gentileza, seu humor... Ele tinha tudo!  Me dei conta que estava em frente a um gigante da talha dos melhores dirigentes da história da América Latina. A sua morte é uma tragédia para nosso continente e uma profunda desdita pessoal para mim, que perdi o melhor amigo...»

«Você vislumbrou, naquela conversa, que Chávez seria o que foi, ou seja, o fundador da revolução bolivariana?» «Ele partia com uma desvantagem: era militar e havia se sublevado contra um presidente socialdemocrata que, na verdade, era um ultraliberal... Num contexto latino-americano com tanto gorila militar no poder, muita gente de esquerda desconfiava de Chávez. Era normal.

Quando eu conversei com ele, faz agora dezanove anos, entendi imediatamente que Chávez reivindicava a grande tradição dos militares de esquerda na América Latina. Começando por Lázaro Cárdenas [1895-1970], o general-presidente mexicano que fez a maior reforma agrária e nacionalizou o petróleo em 1938...»

Fidel fez um amplo desenvolvimento sobre os «militares de esquerda» na América Latina e insistiu sobre a importância, para o comandante bolivariano, do estudo do modelo constituído pelo general peruano Juan Velasco Alvarado. «Chávez o conheceu em 1974, em uma viagem que fez ao Peru sendo ainda cadete. Eu também me encontrei com Velasco uns anos antes, em dezembro de 1971, regressando da minha visita ao Chile da Unidade Popular e de Salvador Allende. Velasco fez reformas importantes, mas cometeu erros. Chávez analisou esses erros e soube evitá-los.»

Entre as muitas qualidades do Comandante venezuelano, Fidel sublinhou uma em particular: «Soube formar toda uma geração de jovens dirigentes; a seu lado adquiriram uma sólida formação política, o que se revelou fundamental depois do falecimento de Chávez, para a continuidade da revolução bolivariana. Aí está, em particular, Nicolás Maduro com sua firmeza e sua lucidez que lhe permitiram ganhar brilhantemente as eleições de 8 de dezembro. Uma vitória capital que o afiança em sua liderança e dá estabilidade ao processo. Mas em torno de Maduro há outras pessoalidades de grande valor como Elías Jaua, Diosdado Cabello, Rafael Ramírez, Jorge Rodríguez... Todos eles formados, às vezes desde muito jovens, por Chávez.»

“Agora que já não estou na política ativa, dou-me conta de que tampouco tenho tempo”

Nesse momento, juntou-se ao encontro o seu filho Alex Castro, fotógrafo, autor de vários livros excecionais . Pôs-se a tirar algumas imagens «para recordação» e eclipsou-se depois discretamente.
Também falamos com Fidel do Irão e do acordo provisório alcançado em Genebra, no último dia 24 de novembro, um tema que o Comandante cubano conhece muito bem e que desenvolveu em detalhe para concluir dizendo: «O Irão tem direito a sua energia nuclear civil.» Para em seguida advertir do perigo nuclear que corre o mundo pela proliferação e pela existência de um excessivo número de bombas atómicas nas mãos de várias potências que «têm o poder de destruir várias vezes nosso planeta».

Preocupa-o, há muito tempo, as alterações climáticas e falou-me do risco que representa a esse respeito o relançamento, em várias regiões do mundo, da exploração do carvão com as suas nefastas consequências em termos de emissão de gases de efeito estufa: «Cada dia, revelou, morrem umas cem pessoas em acidentes de minas de carvão. Uma hecatombe pior que no século XIX...»

Continua a interessar-se por questões de agronomia e botânica. Mostrou-me uns frascos cheios de sementes: «São de amoreira, me disse, uma árvore muito generosa da qual se pode tirar infinitos proveitos e cujas folhas servem de alimento para o bicho da seda... Estou esperando, dentro de um momento, um professor, especialista em amoreiras, para falar deste assunto.»

«Vejo que você não para de estudar», disse-lhe. «Os dirigentes políticos, respondeu-me Fidel, quando estão ativos carecem de tempo. Nem sequer podem ler um livro. Uma tragédia. Mas eu, agora que já não estou na política ativa, dou-me conta de que tampouco tenho tempo. Porque o interesse por um problema leva-te ao interesse por outros temas relacionados. E assim vais acumulando leituras, contactos e, de repente, dás-te conta que te falta o tempo para saber um pouco mais de tantas coisas que gostarias de saber...»

As duas horas e meia passaram a voar. Começava a cair a tarde sem crepúsculo em La Habana e o Comandante ainda tinha outros encontros previstos. Despedi-me com carinho dele e de Dalia. Particularmente feliz por ter constatado que Fidel continua a ter o seu espetacular entusiasmo intelectual.

Degelo na Antártica desencadearia um círculo vicioso que aumentaria o efeito estufa, dizem pesquisadores

A Antártica é a maior reserva de água doce da Terra. Seus 14,2 milhões de quilômetros quadrados – 1,6 vezes a extensão territorial do Brasil – são cobertos por uma capa de gelo de 2 quilômetros de espessura média. Além disso, tem as maiores reservas de gelo (90%) e água doce (70%) do planeta. Em seu estado sólido, essas reservas regulam o clima do Hemisfério Sul e distribuem umidade pelo planeta. Também resfriam a atmosfera e retiram carbono, metano e outros gases que influenciam diretamente no efeito estufa.
O Continente Antártico está situado na Região Polar Austral. Ele é formado por uma massa continental localizada quase inteiramente dentro do círculo polar antártico. É cercado pelo Oceano Antártico, de limites imprecisos, formado pelo encontro das águas dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, a chamada Confluência Antártica.
As temperaturas no verão variam de 0º Celsius (ºC), no litoral, a –32º C no continente e, no inverno, variam de –15º C, no litoral, a –65º C no continente. De acordo com informações de participantes do Seminário Antártica 2048, evento que discutiu a pesquisa na região, a possibilidade de um degelo no continente acionaria um círculo vicioso, de quanto mais degelo, mais carbono e metano seriam jogados na atmosfera e, consequentemente, acarretaria em um maior efeito estufa, temperaturas mais altas e, consequentemente, mais degelo.
Atualmente, 29 países – incluindo o Brasil – mantém bases e desenvolvem pesquisas na Antártica. No verão, essas bases recebem mais de 4 mil pesquisadores, em cooperação científica estabelecida pelo Tratado da Antártica. O tratado de cooperação estabelece uma moratória até 2048 para a exploração de recursos não renováveis na região. O Brasil faz parte deste acordo desde 1975 e deu início ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar), em 1982.
Segundo o glaciologista Jefferson Simões, ainda não existe um policiamento do Tratado da Antártica. Para o pesquisador, a qualidade dos estudos e da ciência feitas na região é que determinam o status de um país no Tratado Antártico.
“O Brasil é líder na pesquisa [sobre o Continente Antártico] da América Latina. Grandes conhecimentos da química e da física são feitos na Antártica. Há organismos que estão em estado dormente há mais de 400 mil anos dentro do gelo na Antártica”, explica Simões.
Outro acordo de cooperação para estabelecer procedimentos na região, o Protocolo de Madri, assinado em 1998, determina regras a serem seguidas na execução de pesquisas científicas e no apoio logístico às estações antárticas. O objetivo é proteger a flora e a fauna da região. Há limitações com a eliminação de resíduos e medidas preventivas contra a poluição marinha.
De acordo com a Marinha do Brasil, em três décadas, o Proantar fará uma média anual de 20 projetos de pesquisas nas áreas de oceanografia, biologia, biologia marinha, glaciologia, geologia, meteorologia e arquitetura. Além de pesquisadores e cientistas, o turismo é uma atividade regular que já leva ao continente mais de 40 mil visitantes por ano.
Edição: Marcos Chagas
Reportagem de Heloisa Cristaldo, da Agência Brasil

Cuba, que planos tens para o Ano Novo?

Apesar dos planeamentos, continua a ser impossível aos cubanos criarem os seus projetos vitais, pois precisam de modificá-los, refazê-los ou esquecê-los, de acordo com o que lhes vai chegando a cada momento das alturas da decisão política. Por Leonardo Padura
Cayo Hueso, Havana. Foto de Miguel Navaza
Depois de três décadas de socialismo supostamente planificado (1960-1990), ao longo das quais o que as estruturas do governo e do Estado “planificavam” era cumprido muitas vezes a meias, perdia-se no esquecimento por falta de controle ou de realismo, ou no melhor dos casos era executado de qualquer forma só para cumprir o plano, nós cubanos acostumámo-nos a viver à espera (ou sem esperar) de que a direção política, financiada pelos potentes subsídios soviéticos, criasse um novo “planejamento”.
Esta reorganização ou projeto entrava nas nossas vidas como uma tromba, mesmo que depois pudesse desaparecer com a velocidade e a consistência do fumo.
Aquele planeamento idealista teve, no entanto, um resultado: as pessoas acostumaram-se a receber ordens e orientações nas quais a sua decisão individual tinha pouco ou nenhum peso. Se tinhas um telefone era porque o Estado to concedia; se viajavas, era porque te permitia…e assim até o infinito.
Nos anos superduros
Os anos mais duros da crise e as carências que se seguiram ao desaparecimento da União Soviética e as suas subvenções, demonstraram quão pouco preparado estava o país para se cuidar de si mesmo, pois tantos planejamentos socialistas mal tinham conseguido dotar a economia nacional de uma estrutura capaz de se sustentar sem apoios externos.
Nos últimos seis, sete anos, o Estado-governo-Partido único, dirigido pelo general Raúl Castro depois da saída do poder efetivo do até então máximo líder Fidel Castro, tentou pôr ordem na estrutura econômica e social com um planeamento mais realista, e referendou-o com a elaboração de umas Linhas Gerais da Política Econômica e Social, aprovadas como instrumento programático no Congresso do Partido Comunista de 2011.
Amparada nessas orientações, a direção tem introduzido numerosos e importantes mudanças na vida econômica e social da nação. Mas entre o programa e a vida real, quotidiana, individual dos moradores desta ilha das Caraíbas, há uma distância stressante que é a do desconhecimento de como, quando, e em que ordem serão concretizadas as “atualizações” planificadas…
Por ocultas razões
Explico-me em duas palavras: apesar dos planejamentos, continua a ser impossível aos cubanos criarem os seus projetos vitais, pois precisam de modificá-los, refazê-los ou esquecê-los, de acordo com o que lhes vai chegando a cada momento das alturas da decisão política, com a forma e a intensidade que os autores da atualização decidam, com a sua visão macroeconômica ou macrossocial, esses planejamentos ou variações que muitas vezes chegam sem que os cidadãos tenham a possibilidade de fazer as suas próprias atualizações e replanificações.
Agora mesmo, os cubanos, que por uma ou outra via conseguiram juntar algum dinheiro, têm muito pouca certeza do que será o futuro monetário do país, pois haverá uma unificação das moedas circulantes, mas sem uma ideia precisa de como nem quando irá ser posta em prática, que valor terá o dinheiro, etc.
Os ainda mais afortunados que, por exemplo, aspiravam a adquirir um automóvel novo ou de segunda mão vendido pelo Estado, agora também não sabem se alguma vez, e como, poderão aceder a esse sonho que, por ocultas razões, continua a ser controlado, limitado ou negado pelo Estado, ainda que a venda de um automóvel em Cuba seja um dos mais lucrativos negócios com que possa sonhar qualquer vendedor do universo (os carros novos estão, ou estavam, sujeitos a 100 por cento de impostos, ou seja, custavam o dobro do seu preço de mercado).
Mas esses afortunados são, como é fácil concluir num país empobrecido, uma percentagem ínfima da população.
Malabarismo e economia doméstica
O maior número de cidadãos vive o quotidiano (ou mais atrás), a fazer malabarismos em economias domésticas de subsistência que se veem alteradas constantemente por um processo de inflação desencadeado na década de 1990 e que não tem feito outra coisa senão aumentar numa proporção inalcançável para os salários recebidos pelos empregados públicos, que são cerca de 80 por cento dos que trabalham em Cuba.
Os artigos de primeira necessidade (alimentos, higiene), além da eletricidade, o transporte e outros serviços ficam constantemente mais caros, segundo o planificado centralmente, e mandam à vida o planeamento com a que a duras penas se foram arranjando centenas de milhares de famílias, milhões de indivíduos.
À medida que se aproxima outro fim de ano, a maioria dos cubanos sabe que nem as crípticas e poéticas previsões que a cada mês de janeiro são tornadas públicas pelos sacerdotes de Ifá (a religião animista e divinatória de origem africana mais praticada em Cuba) lhes poderão dar uma verdadeira luz a respeito do seu futuro mais imediato, aquele que cada um precisa de planificar para viver a sua vida pessoal, a única que a biologia (ou talvez algum deus), lhe concedeu.
Como será o próximo ano para os 11 milhões de cubanos? Acho que nem o oráculo de Ifá o sabe de ciência certa.
12 dezembro, 2013
Leonardo Padura,escritor e jornalista cubano, galardoado com o Prémio Nacional de Literatura 2012. Os seus romances foram traduzidos em mais de 15 idiomas. A sua obra mais conhecida, “O Homem que Gostava de Cães”, tem como personagens centrais Leon Trotsky e o seu assassino Ramón Mercader.
Publicado pela IPS. Retirado do blog café fuerte
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Vicenç Navarro: O contexto político do crescimento da desigualdade

Artigo publicado por Vicente Navarro* na coluna " Domínio Público" no Jornal Público da Espanha

Neste artigo Vicenç Navarro aponta que o crescimento da desigualdade não se deve à lógica dos mercados, mas as decisões políticas tomadas pelos Estados, excessivamente influenciadas pelo mundo do capital em detrimento do mundo do trabalho.


Finalmente, parece haver a preocupação de que a atual crise econômica e financeira (a pior desde a Grande Depressão no início do século XX) está criando enormes desigualdades que estão colocando em risco a ordem social e a estabilidade política dos países onde essas desigualdades estão ocorrendo, que são a grande maioria dos países da OCDE, o grupo de países com o maior nível de desenvolvimento econômico do mundo (ver meu artigo "a revolução democrática global"). É raro hoje em dia que não apareçam nos principais meios de comunicação artigos alertando sobre o enorme crescimento das desigualdades, assinados por alguns economistas considerados como os porta-vozes da sabedoria convencional. Até o Papa Francisco acrescentou sua voz a este coro de vozes. Essas vozes são bem-vindas, embora seja lamentável que tenha demorado tanto tempo a aparecer. Por muitos anos, alguns (ignorados pelos fóruns onde tal sabedoria convencional é omitida), temos vindo a salientar a importância dessas desigualdades e enormes danos gerados no bem-estar das populações desigualadas, ou seja, afetadas por essas desigualdades. Finalmente parece reconhecer que algo está errado nesta frente. O que antes se desmerecia como mensagem radical (alguns porta-vozes do establishment neoliberal usavam adjetivos mais duros  ​​para nos chamar radicais), estão começando agora a ser aceitos. Como eu disse a um dos meus professores, Gunnar Myrdal, ser radical é, em muitos casos,  pensar vários anos antes de todos.

Agora, há uma grande diferença entre a ênfase na questão das desigualdades aparecendo agora, e o que nós realizamos e continuamos a realizar os chamados radicais. Enquanto os novatos falam sobre as consequências negativas dessas desigualdades no bem-estar das pessoas e também a eficiência do sistema econômico, os "radicais" denunciam não só as conseqüências, mas atribuímos o crescimento da desigualdade à crise financeira economia que estamos vivenciando. Ou seja, as desigualdades foram a causa, além do resultado da crise (ver meu artigo "Capital- Trabalho: a origem da crise atual", em Le Monde Diplomatique, julho de 2013).

Esta diferença se torna ainda mais evidente quando se tenta explicar essa desigualdade crescente como resultado de fenômenos econômicos, como a globalização do mundo, a introdução de novas tecnologias e outras intervenções, todos classificados sob o título de "mercados". Dizem-nos que os mercados que, seguindo sua própria lógica, criam essas desigualdades. Por isso sempre terminam seus artigos concluindo que é necessário que os Estados a intervenham para reverter essa desigualdade crescente. Assim, consideram que as políticas públicas são divididas entre aqueles que querem priorizar os mercados (definidos como políticas de direita) e aqueles que querem que o Estado venha a intervir para corrigir as políticas de mercado (supostamente de esquerda).

Não são os mercados são os Estados

Esta dicotomia, no entanto, é profundamente falha, porque o estado sempre desempenhou um papel fundamental no crescimento dessas desigualdades. A questão não é mais ou menos Estado, mas a favor de quem intervém o Estado. O crescimento da desigualdade é devido a razões políticas, e não econômicas. E isso é constantemente ignorado, mesmo agora também quando você "descobre" que a desigualdade cresceu enormemente. Dados constantemente ignorados pela nova sabedoria convencional, mostram claramente que a principal a causa da crescente desigualdade, tanto no início da Grande Depressão como agora no início da Grande Recessão, tem sido o enorme poder político e de mídia do grande capital (em muitos momentos históricos hegemonizados pelo capital financeiro), que tem instrumentalizado o Estado para otimizar seus lucros e interesses à custa do mundo do trabalho. Esta é a raiz do problema, convenientemente esquecido ou marginalizado.

Vamos ver os dados. A globalização do comércio é sempre apresentada como uma das mais importantes causas de desigualdade crescente. Os fluxos de investimentos para os países de mão de obra barata cria desemprego nos países de origem desse capital para mover empregos para países com salários mais baixos. Mas esse fluxo de investimentos é o resultado de decisões políticas que os estados fazem em favor do mundo dos negócios (grandes empresas), em detrimento do mundo do trabalho, dos países onde se origina de investimento. Sua intenção é confrontar os trabalhadores de países com diferentes níveis salariais. Não há nada de "natural" e as suas decisões são políticas. Esta globalização do comércio poderia ocorrer de outra forma para proteger os interesses dos trabalhadores em detrimento dos lucros corporativos .

De fato, a globalização do comércio beneficia mais sistematicamente o mundo dos negócios que o mundo do trabalho (Tanto do país originário como do recipiente. Se você duvida disso, olhe para as condições de trabalho da Apple na China ou trabalhadores têxteis em Bangladesh). Se a China ou Bangladesh tivessem sistemas políticos onde o trabalho dominasse o estado, as condições de trabalho seriam muito melhores do que as que existem hoje. E o mundo dos negócios (ambos dos países "ricos" como dos países "pobres"), que se beneficia com esse comércio.

Na verdade, as soluções são fáceis de ver. As políticas públicas de estados, a norte e a sul , seriam muito diferente se elas fossem influenciadas pelo mundo do trabalho, em vez do mundo do capital. Os estados do norte são os maiores compradores de peças produzidas em fábricas no sul. O governo federal dos EUA é o maior comprador de uniformes do mundo, a maioria produzidos nos países do sul em condições de escravidão virtual.

Outro exemplo de intervenção do Estado é o que está a acontecer na União Europeia, na qual estão sendo impostas políticas de desvalorização doméstica, o que significa queda dos salários. Há mercados, mas os estados, que estão impondo salários em queda, uma das principais causas da crescente desigualdade, porque esta redução salarial é causada pelo aumento dos lucros corporativos. Algo semelhante acontece com a destruição de postos de trabalho resultantes das reformas trabalhistas. Na verdade, os estados têm desempenhado um papel fundamental na criação de desemprego, a fim de disciplinar o mundo do trabalho e conseguir salários mais baixos, a fim de, mais uma vez,  aumentar os lucros. Não são os mercados, mas sim os Estados, que determinam as mudanças que são erroneamente atribuídas ao primeiro.

Outro exemplo das causas políticas do crescimento das desigualdades são reformas fiscais que beneficiaram os rendimentos do capital e rendimentos mais elevados à custa dos rendimentos do trabalho. Sem mencionar as ajudas de beneficência à banca, que têm sido uma das principais causas da desigualdade crescente, pois elas têm ajudado grupos ricos e bancos em detrimento da maioria dos cidadãos, que pagam os impostos de onde os fundos de ajuda e resgate bancário são derivadas.

O Estado tem sido o foco onde se tem cozinhado o grande crescimento das desigualdades. E isto porque o Estado perdeu legitimidade, como já foi visto, com razão, como o instrumento do capital contra a maioria dos cidadãos. As Direitos têm sido tão estatistas como a esquerda. O fato não é, portanto,  Estado ou não Estado, sim, a serviço de quem está esse Estado. Tão claro.

Vicenç Navarro
Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
Foi Catedrático de Economia Aplicada na Universidade de Barcelona. É também professor de Políticas Públicas na Universidade Johns Hopkins (Baltimore, EUA), onde exerceu docência durante 35 anos. Dirige o Programa em Políticas Públicas e Sociais patrocinado conjuntamente pela Universidade Pompeu Fabra e pela Universidade Johns Hopkins. Dirige também o Observatório Social de Espanha.

“New York Times” diz que Snowden prestou um grande serviço aos EUA

Direção editorial do influente jornal defende que Obama deveria oferecer ao ex-agente da CIA um perdão ou alguma forma de clemência que lhe permita regressar a casa.
Jornal defende que Snowden deve poder voltar sem medo ao país. Fotografia de mw238
Em editorial da edição de 1º de janeiro, o The New York Times afirma que Edward Snowden prestou “um grande serviço ao país” por denunciar os abusos e violações da privacidade dos cidadãos cometidos pela Agência Nacional de Informações americana, a NSA. Por isso, defende a direção do influente jornal, Snowden “merece melhor do que uma vida de exílio permanente, medo e fuga”, mesmo que tenha cometido um crime para fazer as revelações. “É tempo de os Estados Unidos oferecerem a Snowden um perdão ou alguma forma de clemência que lhe permita regressar”, escreve.
As revelações de Snowden, recorda a direção do jornal, já levaram dois juízes federais a acusar a NSA de violar a Constituição. Também um painel nomeado pelo próprio Obama tornou pública uma enfática condenação das invasões de privacidade praticadas pela NSA.
O editorial faz uma sucinta lista das principais revelações do ex-agente da CIA:
– A NSA violou leis federais de privacidade milhares de vezes por ano;
– A agência penetrou nos links de comunicação de importantes datacenters em todo o mundo, conseguindo assim espiar milhões de cidadãos que tinham contas aí.
– A NSA procurou sistematicamente minar os sistemas de cifragem, tornando impossível avaliar a segurança de dados sensíveis como as informações bancárias ou médicas.
– Ficou provado que James Clapper Jr., o diretor nacional de informações mentiu ao Congresso ao afirmar que não recolhia dados de milhões de cidadãos.
– O Tribunal de Vigilância e Informações Externas admoestou a NSA por dar-lhe informações incorretas acerca das suas práticas de vigilância.
– Um juiz federal considerou que o programa de recolha de registos telefónicos da NSA violava a Quarta Emenda da Constituição norte-americana e considerou-o “quase orwelliano”.
E o editorial conclui que os críticos de Snowden não apresentaram a mínima prova de que as suas revelações tenham de facto causado prejuízos à segurança do país.
E conclui: “Quando alguém revela que funcionários do governo rotineira e deliberadamente violaram as leis, essa pessoa não deveria enfrentar a prisão perpétua às mãos desse mesmo governo.” Por isso, afirmam os editorialistas do jornal nova-iorquino, o presidente Obama deveria dizer aos seus auxiliares que achassem uma forma de parar os ataques a Snowden e “dar-lhe um incentivo para voltar a casa”.

Ética e psicanálise

O que teria a ver essas duas ciências? A psicanálise vai surgir como uma ruptura no modo de compreender a moral, principalmente  a crença na completa emancipação moral pelo lado não roussoniano do iluminismo. Freud em seu Mal-estar na Civilização compara a mente humana à cidade de Roma, uma cidade que passara por diversas épocas e a Roma do século XX ainda teria em si características de todas as épocas passadas, o mesmo que ocorreria com a psique humana, com o seu inconsciente comportando traços "primitivos".

A ruptura trazida pela psicanálise é que a moral não consegue eliminar o instinto, a moral diz não desejais a mulher do próximo, mas o inconsciente não participa de modo de convivência.

Portanto, a psicanálise inova ao trazer para a filosofia essa ruptura, os filósofos moralistas teriam agora que levar em consideração o componente inconsciente da psique humana.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Democracia - Fabricando o consenso - Por Noam Chomsky

''Parece que a principal tarefa das grandes corporações e seus empregados, (jornalistas, acadêmicos, políticos etc.) é conter a democracia, impedir que haja democracia de fato. E usam a palavra democracia para acabar com ela. 

Afinal, já dizia Guizot que a força da palavra democracia é tal que nenhum partido, nenhum governo ousa viver sem inscrevê-la em sua bandeira. De fato o regime reinante é a plutocracia, o governo dos ricos. Na minha análise vivemos a ditadura do capital. Sob as mais variadas roupagens, seja no Brasil, no Iraque, nos EUA, ou na China.''  João Amado.



Entrevista com Noam Chomsky [fragmento] [IN "America", 1996]


A América foi criada para ser a terra onde o pensamento poderia se expandir ao seu limite máximo. Porém, por um processo sofisticado que o senhor chama de engineering of consent [produção do consentimento], a América parece ter criado uma moldura que impede as pessoas de formular certos pensamentos. O senhor poderia nos explicar como funciona esse sistema de censura?


Em meados do século XIX, quando Alexis de Tocqueville viajou pelos Estados Unidos, já assinalava que nunca vira um país onde o nível de doutrinação fosse tão intenso, onde a subordinação ao pensamento oficial fosse tão extrema e onde o pensamento independente fosse tão raro. Henry David Thoreau escreveu, na mesma época, que não lia os jornais porque não significavam nada. Dizia que não havia sequer uma pessoa em mil que se dispusesse a questionar a doutrina oficial e que o nível de independência era muito baixo. O começo disso é, na verdade, muito anterior à Revolução americana - remonta às origens do impulso democrático moderno, à grande Revolução inglesa do século XVII. Ela assustou terrivelmente as elites, porque continha elementos de democracia radical: a população em geral estava ficando com a impressão de que podia cuidar de seus próprios assuntos e de que era capaz de pensar por sua própria conta. Isso precisava ser combatido e, em torno de 1660, a revolução foi derrotada. Trinta e cinco anos mais tarde, em 1695, a censura governamental foi abandonada, pela simples razão de que não era mais necessária. Àquela altura, o controle sobre o pensamento e a expressão estava nas mãos de grupos da elite que, podia-se ter certeza, praticariam autocensura. John Locke, um dos grandes defensores do liberalismo moderno, escreveu em 1695 que era necessário dizer às pessoas comuns - diaristas, tecelões, artesãos, padeiros, etc. - em que coisas deviam acreditar. Não se pode deixar que resolvam por si mesmas no que vão acreditar, porque acabam cometendo erros. Assim é a democracia. Essa tradição de controle do pensamento se ampliou ao longo da época moderna. Durante a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, a população era muito pacifista - as pessoas em geral são pacifistas, não vêem razão para sair assassinando e morrendo. Assim, precisavam ser levadas a uma histeria guerreira. Woodrow Wilson venceu as eleições de 1916 com uma plataforma de "paz sem vitória". E, é claro, interpretou imediatamente que se tratava de um mandato para obter a vitória sem paz. Seu problema era como obter o apoio da população para a guerra. Nesse momento, os Estados Unidos criaram sua primeira agência de propaganda governamental. Acredito que foi a primeira agência de propaganda estatal de todo o mundo. Seu objetivo era criar um sentimento guerreiro numa população que, de modo geral, não queria guerra. Os intelectuais, especialmente os liberais, aderiram entusiasmados à causa - e na verdade ficaram com o crédito. Isso mostra como a orientação [management] social pode ser conduzida pelos intelectuais, pelas pessoas que chamamos de "comissários" quando falamos de nossos inimigos, embora o fenômeno aqui seja essencialmente o mesmo. Edward Guernays, uma das figuras mais importantes da indústria de relações públicas, talvez sua figura mais importante, fazia parte desse comitê de propaganda governamental e aprendeu bem suas lições. Foi ele que mais tarde criaria a expressão engineering of consent, afirmando que a produção do consentimento é a essência da democracia. A mesma idéia surgiu em meio à comunidade intelectual. Walter Lippmann, o decano dos jornalistas americanos, falou , em 1921, logo após a guerra, e à luz da experiência da guerra, do que chamava de manufacture of consent [fabricação do consentimento]*: a população em geral não entende o que é bom para ela, os únicos que entendem o que é bom para ela são os membros da elite, que, portanto, precisam fabricar o consentimento. A idéia que paira por trás disso, do século XVII aos nossos dias, é que, se o governo é capaz de controlar a população pela força, ele não se importa muito com o que ela venha a pensar, mas se não for capaz de controlá-la pela força, se a voz das pessoas puder se manifestar, é preciso certificar-se de que esta voz estará dizendo as coisas certas. Assim, quanto mais livre for uma sociedade, mais serão necessários a doutrinação e o controle do pensamento. Esta idéia, compreendida conscientemente, pode ser encontrada ao longo de toda a história americana. O fato de nosso sistema de doutrinação ser tão forte e poderoso se deve em grande parte ao fato de o país ser tão livre.


Como se dá isso, objetivamente?


Para dar um exemplo concreto, vamos comparar os Estados Unidos com o Japão, competidores no mercado mundial. Os dois países falam de livre-comércio, mas nenhum dos dois acredita nele - como, na verdade, ninguém jamais acreditou no livre comércio. Ambos contam com sistemas industriais que são coordenados por uma combinação entre o governo e as grandes empresas. Nos Estados Unidos, os únicos setores da economia que são competitivos no cenário internacional são aqueles que recebem subsídios do governo: a agricultura intensiva em capital é fortemente subsidiada pelo governo, e a indústria de alta tecnologia é, na verdade, um apêndice do governo, através do sistema militar, que fornece o mercado para seus produtos e força o público a subsidiar a pesquisa e desenvolvimento. Na indústria de alta tecnologia, os Estados Unidos e o Japão são competidores e obedecem a um planejamento muito semelhante, ou seja, o nexo empresarial do governo segue um planejamento muito semelhante. Eles decidem quais são as tecnologias emergentes, o que será vendável no futuro e dirigem a pesquisa para esses fins. Mas fazem-no de maneiras diferentes, que refletem por sua vez as diferenças que existem entre as duas sociedades. No Japão, o governo e as empresas se reúnem e decidem de que modo os gastos públicos serão dirigidos para a indústria no ano seguinte. Se ordenarem ao público que reduza o consumo em benefício dos investimentos, ele obedece. O Japão tem uma cultura submissa, baseada na obediência e na subordinação, e, na verdade, apresenta características bastante fascistas. Nos Estados Unidos, isto não é possível. Nenhum político pode vir a público e dizer: "Vocês precisam reduzir o seu nível de consumo, para que a IBM produza novos computadores e tenha lucros maiores, e talvez seu filho venha a ter um emprego dentro de vinte anos". O que se diz às pessoas, nos Estados Unidos, é: "Os russos estão chegando". Ou: "os líbios estão chegando". Ou ainda: "Granada vai nos invadir", e coisa assim. "E por isso precisamos ter um sistema militar monstruoso para nos defender da destruição". É claro que o Japão vence essa competição. O desenvolvimento indireto da tecnologia através dos militares implica um imenso desperdício. E por que os Estados Unidos precisam fazê-lo dessa maneira? Porque têm uma sociedade mais livre. As pessoas não concordariam em cortar voluntariamente seu consumo e em trabalhar mais para que a indústria possa ter lucros maiores. Assim, precisam ser forçadas a fazê-lo, o que se dá por meio da doutrinação. E isso requer a existência do sistema militar, da ameaça externa e assim por diante. O Japão pode fazê-lo de maneira direta: simplesmente produz para o mercado comercial, e as pessoas fazem o que lhes mandam.


Qual é o verdadeiro sentido, na América, de expressões como free choice [liberdade de escolha], free press [liberdade de imprensa] e free access to information [liberdade de acesso à informação]. Houve, por exemplo, alguma opção real entre Bush e Dukakis?


A liberdade de escolha existe na medida em que o governo não força ninguém a escolher. Por outro lado, todas as escolhas são restringidas por condições, impostas pela própria distribuição do poder. E sempre foi assim. O sistema constitucional americano não foi concebido para que houvesse participação da população. Era um sistema criado para os homens brancos que tivessem propriedades. E a premissa era de que aquela classe restrita tinha suficientes interesses em comum para lhes permitir administrar o país. Muita gente não se lembra, mas a Constituição americana continha ralmente um dispositivo afirmando que uma parte da humanidade só era 3/5 humana - no caso, os negros. Se algum país do Terceiro Mundo adotasse hoje a Constituição americana, diríamos que se trata de uma reversão ao nazismo, o que, de certa forma, é um sinal positivo, que indica que as coisas progrediram desde então. No sistema industrial moderno, o poder e os privilégios foram ficando cada vez mais concentrados à medida que se desenvolviam as empresas. E são elas que devem governar o país. A história política americana é , no fim das contas, a história de uma seleção entre vários setores da classe empresarial e proprietária. As últimas eleições são um bom exemplo. Faz anos que os Estados Unidos são, essencialmente, um Estado unipartidário. Há duas facções dos conservadores, duas facções da classe empresarial, e elas apresentam seus candidatos. E a população de fato tem a liberdade de escolher entre os dois representantes dos interesses da classe empresarial. Assim, todos compreendem que aquilo que os candidatos dizem não é para ser levado a sério. Os candidatos têm encarregados de fazer pesquisas. Esses pesquisadores determinam que tipo de declarações podem vir a ser populares, e então o candidato produz exatamente essas declarações. Desse modo, o candidato está na verdade respondendo ao que o instituto de pesquisa lhe diz ser capaz de aumentar seu número de votos. E todos aceitam isso. É a política. Ora, isso reflete um desprezo total e completo pela democracia. Significa que tudo o que um candidato diz não passa de uma técnica por meio da qual seus financiadores, um grupo da comunidade empresarial, pretendem assumir o controle do Estado. Nas eleições de 1980, as elites achavam que, para tornar competitivas as empresas americanas num mundo cada vez mais difícil, as margens da lucratividade precisavam ser aumentadas, a violência do Estado precisava crescer, o Estado tinha de se envolver mais fortemente na administração industrial e forçar o público a subsidiar a indústria de alta tecnologia. As poucas medidas de previdência social existentes deveriam ser cortadas. Foi o que aconteceu. O público só tinha uma escolha: entre duas maneiras de levar a efeito o consenso da elite, um consenso a que ele se opunha. Nas eleições de 1984, os republicanos eram o partido do crescimento keynesiano. Propunham despesas deficitárias e eram apoiados pelos segmentos do sistema industrial que queriam justamente isso - que o governo despejasse dinheiro na insdústria avançada, deixando parase preocupar com os efeitos mais tarde. Já os democratas eram o partido dos conservadores fiscais, apoiados pelos bancos e pelas empresas de investimento, e também pelos interesses imobiliários. Assim, o eleitor podia escolher entre o crescimento keynesiano acompanhado de uma retórica ultranacionalista - os republicanos - e o conservadorismo fiscal rabugento - os democratas. Elegeram os republicanos. Numa sociedade livre, não se pode impedir que as pessoas votem. Assim, o que se faz é assegurar que não haja nada em que elas possam votar. O análogo disso no sistema de informações é que não se pode evitar que as pessoas comprem o jornal que quiserem, e também não se pode proibir os jornais de publicarem o que quiserem; assim, é necessário asseguar-se de que os jornais vão publicar as coisas certas. E isso acontece automaticamente, devido à concentração do poder. Os meios de comunicação são grandes empresas. As três redes nacionais de televisão são grandes empresas, controladas por empresas ainda maiores, como a General Electric, a Westinghouse etc. Os grandes jornais são empresas ligadas a bancos e conglomerados financeiros. Nos Estados Unidos, os meios de comunicação são simplesmente empresas que vendem um produto para um mercado. O mercado são os anunciantes, que os sustentam. E o produto é a audiência.


Entrevista com Noam Chomsky [fragmento] [IN "America", 1996]

20 anos depois do levantamento zapatista em Chiapas

Já passaram anos, balas e mortos, prisões e injustiças. Ocorreram críticas e zombarias, mas o Subcomandante Marcos e os zapatistas continuam presentes. Nas vésperas de se completarem as duas décadas, o subcomandante Marcos reapareceu com um novo e extenso comunicado. Artigo de Eduardo Febbro de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, México
1 de janeiro de 2014 faz 20 anos do levantamento zapatista em Chiapas no México - Foto de marcha em 2013

Gaspar Morquecho Escamilla recorda-se como se fosse ontem, na praça central de San Cristóbal de las Casas. Passaram-se 20 anos daquele 1º de janeiro de 1994. A madrugada assomava no céu quando, no meio do entrevero da praça ocupada pelos zapatistas, apareceu o Subcomandante Marcos. Foi o primeiro jornalista que falou com ele naquele nascente ano novo que iria marcar para sempre a história do México e da América Latina.
Já se passaram anos e anos, e também balas e mortos, prisões e injustiças. Ocorreram críticas e zombarias, mas Marcos e os zapatistas continuam aqui, presentes. Há quem diga que estão mortos, esquecidos, caídos no poço da história. Mas não. Felipe Arizmendi Esquivel, bispo da diocese local, diz: “muita gente pergunta se ainda existe o Exército Zapatista de Libertação nacional (EZLN) e eu lhes digo que não só existe, como tem presença, força, planos e projetos, não é algo do passado, nem semi-morto”.
Ocorreram tantas coisas que seria preciso detalhá-las por ordem alfabética. Isso pode ser visto, a céu aberto, de um lado da praça, em frente à catedral. Agora instalaram uma pista para patinar sobre o gelo e um tobogã para deslizar no presente. A rua Real de Guadalupe é uma miniatura da oferta ultraliberal. As marcas internacionais têm o seu lugar, oferece-se “pão europeu”, há bares com nomes em inglês, não menos de quatro restaurantes argentinos e uma infinidade de butiques de luxo que vendem roupa e essa pedra suave como a lua que é o âmbar. “Os indígenas surfam entre essas modernidades”, diz com um tom de lucidez neutra um jovem num dos muitos bares da moda que se esparramam ao longo da Real Guadalupe.
Num mundo muito diferente deste, Gaspar Morquecho Escamilla encontrou-se na praça com o Subcomandante. Este jornalista instalou-se em San Cristóbal e sempre trabalhou com comunidades e povos indígenas “com a pretensão de criar organizações sociais e políticas para fazer a revolução neste país”. E precisamente neste lugar “1994 nos agarrou”’. Gaspar lembra que em 1993 o tema dos movimentos armados em Chiapas era frequente. Em dezembro daquele ano, a agitação tornou-se mais visível, mas ninguém calculou que a ofensiva iria explodir tão rapidamente. Escamilla lembra que uma mulher das comunidades indígenas perguntou-lhe: será que haverá guerra? E houve, apesar das condições adversas que naquele momento predominavam para lançar uma guerra contra o governo do então presidente Carlos Salinas de Gortari.
Chiapas foi e é pobre. Os frutos da reforma agrária aplicada depois da revolução de 1910 não chegaram a estas terras. Marcos e os zapatistas tomaram as ruas para exigir uma repartição mais equitativa das riquezas e a propriedade das terras que nunca esteve nas mãos dos camponeses. Na declaração da Selva de Lancadona (1993), os zapatistas expressaram claramente os objetivos: “luta por trabalho, terra, moradia, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz... conseguir o cumprimentos destas demandas básicas de nosso povo formando um governo de nosso país livre e democrático”.
Em uma carta do Subcomandante de fevereiro de 1994, Marcos ampliou os objetivos com essa poesia e ironia verbal que o caracteriza: “Tomada do poder? Não, apenas algo mais difícil: um mundo novo”. Em dezembro de 1993, o Exército Zapatista de Libertação Nacional apelou ao artigo 39 da Constituição mexicana como argumento para o derrube do presidente Carlos Salinas de Gortari, a quem acusavam de ter vencido as eleições de 1988 com uma “fraude eleitoral de enormes proporções”. Nas primeiras horas de janeiro de 1994, o EZLN ocupou San Cristóbal de las Casas e outros seis municípios. “Nesse momento, eu era o único jornalista na praça”, diz Gaspar.
Em vinte anos, o mundo renovou-se em Chiapas, mas segundo a ordem imposta pelo consumo universal. As estatísticas são uma constante linha para baixo: quase 79% da população vive numa situação de pobreza. A adversidade atinge as etnias tzeltal, tzotzil, tojolabal ou chol, sempre marginalizadas. Os dados não tiram o otimismo de Gaspar Morquecho Escamilla. “Estamos frente a um movimento, o EZLN, que tem 44 anos. Declararam a guerra nas piores condições que podem existir no mundo e localmente enfrentando um cenário adverso para qualquer movimento armado. Mas já levam 20 anos de resistência com uma campanha de contra-insurgência que começou em 1995. E aí estão. É um movimento de resistência com grande capacidade em termos de organização e mobilização, com sistemas de saúde, de transporte, de produção, abastecimento e comunicação”.
Sobre isso não há dúvidas. O EZLN impulsiona há muitos anos um processo que tende a deixar nas mãos do povo a gestão política e as organizações sociais. Assim foram surgindo os municípios autónomos que logo passaram a fazer parte dos cinco caracóis e das cinco juntas de bom governo regidas por sete princípios: 1. Servir e não se servir; 2. Representar e não suplantar; 3. Construir e não destruir; 4. Obedecer e não mandar; 5. Propor e não impor; 6. Convencer e não vencer; 7. Baixar e não subir. “Aqui manda o povo e o governo obedece”, proclama um cartaz de uma zona sob controle zapatista. A utopia tem voz e rosto. E muitas ameaças que a cercam.
Aceda abaixo ao vídeo de documentário de 1999, legendado em português, do levantamento de há 20 anos
Artigo de Eduardo Febbro. Tradução de Marco Aurélio Weissheimer para Carta Maior

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Não se escolhe gostar de Aviões do Forró. Não é problema de simples leitura

O problema cultural envolvendo o chamado novo Forró (eletrônico) não passa por fazer uma correlação como sendo frequentado seus shows por pessoas ignorantes ou "alienadas". Mas foi assim que se referiu a mim uma pessoa que iria ao show de Aviões do Forró e ao rebater uma crítica feita por mim disse que lia acima da média, foi uma fala inclusive carregada de preconceito,  e se fosse apenas composto por pessoas analfabetas não significava que devesse ser lixo o cantado, como era no Nordeste Rural, quando pelo contrário, tínhamos uma música rica de poesia.

O problema passa em visualizar uma "fabricação de  'gosto'", por que produtos  dessa Indústria Cultural poderosa aqui no Nordeste tem os maiores públicos (consumidores)? Por que eles tem todo o espaço na mídia, não há escolha, há, pelo contrário, falta de escolha.