"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

As teorias conspiranoicas de Washington e da Arabia Saudita para baixar o preço do petróleo e afundar a Rúsia e o Irã

Por Marco Antonio Moreno em El Blog Salmón
Oil Price 2012 2014

O preço do petróleo continua em queda e chegou a US$ 53 por barril. Enquanto muitos atribuem este declínio ao simples resultado de oferta e demanda para o petróleo, há outros, como Larry Elliott, do The Guardian, que atribuem o declínio a uma manipulação grosseira de política norte-americana. Para Elliott, se a Arábia Saudita foi capaz de quadruplicar o preço do petróleo na década de 70 para punir os Estados Unidos por seu apoio a Israel, e depois afundar o preço nos 80 para desestabilizar o regime de Saddam Hussein, agora tem mais motivos para baixar o preço pela metade e eliminar os inimigos número um dos Estados Unidos, que são a Síria, a Rússia e o Irã. De acordo com Larry Elliott, Washington tem convencido os sauditas que devem inundar o mercado com petróleo barato a preços mais baixos e, portanto, dizimar a economia da Rússia e do Irã. Com isso reduziria a resistência de Moscou para a expansão do cerco da OTAN e o aumento das bases militares dos EUA na Ásia Central. De acordo com esta teoria, o plano EUA-Arábia Saudita reduziu os preços do petróleo em 50 por cento de suas elevações recentes, há seis meses, criando grande turbulência nos mercados com um verdadeira "golpe petroleiro". Outro autor que confirma a "conspiração" dos EUA é F.William Engdahl, que em O segredo estúpido entre os EUA e a Arábia Saudita sobre a distribuição da Síria diz:
"Os detalhes entre um novo acordo secreto e muito estúpido, entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos contra a Síria e os chamados países do bloco IS está surgindo... Isto implica no controle do petróleo e do gás em toda a região e a inundação de petróleo barato pela Arábia Saudita para o enfraquecimento da Rússia e do Irã. Esses detalhes foram acordados na reunião de 11 de Setembro entre o secretário de Estado, John Kerry e o rei saudita... Desde então, o reino da Arábia Saudita tem inundado o mercado com petróleo barato, desencadeando uma guerra de preços dentro da Opep... os sauditas estão alvejando as vendas para a Ásia e, em particular, o seu principal cliente asiático, a China, onde começaram a oferecer o crude por apenas US$ 50 o barril em vez do preço anterior de US$ 100 o barril. Esta operação de desconto financeiro saudita tem todas as luzes de constituir uma guerra financeira dos EUA contra a Rússia, através do Gabinete de Terrorismo e inteligência Financeira ancorado em Wall Street, onde o comércio de produtos de petróleo é controlado. O resultado de tudo isso tem sido um pânico cobrando força diariamente e a que alguns mercados, como a China, estão muito felizes de comprar petróleo barato, apesar de que seus aliados mais próximos, Rússia e Irã estão sendo severamente espancados...
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O que se busca, de acordo com esta teoria "conspiranoica", é desestabilizando a região asiática, oferecendo petróleo barato que os faça romper seus laços com a Rússia, o fornecedor oficial de que resultaria cobrando preços "abusivos". Na verdade, a Arábia Saudita está a vender petróleo à China por US$ 50 o barril, muito menos do que o $110 que estava há seis meses.

Petróleo barato para afundar a Rússia

Para Abanmy Rashid, presidente da política do petróleo da Arábia Saudita, com sede em Riad, o colapso dos preços está sendo deliberadamente provocado pelos sauditas. A razão dada pela Arábia é ganhar novos mercados ante um enfraquecimento global da demanda por petróleo. Mas a verdadeira razão, de acordo com Abanmy é para pressionar o Irã sobre seu programa nuclear, e fazer a Rússia acabar com o seu apoio a Bashar al-Assad, na Síria. Mais de 50% das receitas do Estado russo vem de sua venda das exportações de petróleo e gás. A manipulação dos preços do petróleo entre Estados Unidos e Arábia visa desestabilizar os adversários máximos de políticas expansionistas dos EUA que estão agora a um passo de seu final com o acordo de livre comércio entre a Europa e os Estados Unidos que não só dá mais benefícios para as megacorporações americanas mas de acordo com um relatório independente geraria a perda de 600 mil postos de trabalho na Europa.
Enquanto as "teorias da conspiração" que expõem esses autores têm uma base sólida como é a manipulação de preços  feita pela Arábia Saudita, há outros elementos que mostram que a questão é mais complexa por pressões geopolíticas que pesam no Oriente Médio.

Em primeiro lugar, é verdade que a Arábia Saudita tem manipulado o preço do petróleo. Em 1973, o presidente egípcio Anwar Sadat convenceu o rei Faisal da Arábia Saudita para reduzir a produção e aumentar os preços, em seguida, ir mais longe e aproveitar as exportações de petróleo. Tudo isso a fim de punir os EUA por seu apoio a Israel em sua luta contra os países árabes. A punição funcionou e os preços quadruplicaram, passando de US$ 3 a US$ 12 por barril. Além disso, esse fato permitiu a elaboração de um acordo que previa a proteção militar dos Estados Unidos para a Arábia Saudita e que deu início aos petrodólares.

Em 1986, 1990 e 1998, os sauditas voltaram a manipular os preços para faz~e-los despencar como uma maneira de afundar a Rússia. Em 1998 tiveram um grande sucesso quando conseguiram reduzir o preço de mais de 50 por cento (US$ 25 para US$ 12 o barril). Depois disso, a Rússia decretou moratória de sua dívida e entrou em uma grave crise econômica. A conhecida crise de 1998, que se somou à crise asiática, que começou em julho de 1997,  levou ao colapso do Long Term Capital Management, a falência da Enron e a crise da puntocom.

Geopolítica e "guerra de preços"

Sem embargo, a teoria da conspiração entre Washington e Arábia Saudita desmorona se considerarmos que esta "guerra de preços" destrói a indústria do Oil Shale, incubada nos Estados Unidos e responsável para reduzir o desemprego e aumentar o crescimento de forma muito significativa . Pode querer, os Estados Unidos, destruir as suas fontes de emprego e de riqueza por uma guerra geopolítica com a Rússia? A análise não é facilmente atribuível a teoria conspiranoica uma vez que é mais complexo.

Ao baicar o preço do petróleo a Arábia Saudita dá um golpe no seu principal inimigo na região que é o Irã, que possui armas nucleares e que por sua vez é o principal apoio do governo da Síria na região. Com a sua estratégia de redução de preços, Abdullah dá um duro golpe na Síria e no Irã. O conflito é uma guerra de poder entre Irã e Arábia Saudita, que atravessa o Líbano, a Síria e o Iraque. Os sauditas sabem que o Irã é vulnerável aos preços do petróleo dado que precisa de US$ 130 por barril para equilibrar o seu orçamento. Com o petróleo em US$ 50 sacode o Irã, e o aiatolá Ali Khamenei  pode tornar-se mais flexível as pressões do Ocidente para conter suas ambições nucleares. O presidente iraniano, Hassan Rouhani disse que a queda acentuada dos preços do petróleo foi "uma conspiração contra os interesses da região, contra o povo muçulmano e contra o mundo muçulmano." O declínio dos preços do petróleo afeta todos os países produtores. As necessidades orçamentais da Rússia e da Arábia Saudita estão quase no mesmo nível de acordo com a tabela Deutsche Bank e do FMI. Mas  Venezuela, Nigéria, Argélia, Irã e Líbia deslizam para a asfixia financeira da guerra de preços travada pela Arábia Saudita.



O principal objectivo para os sauditas é se livrar de Bashar al-Assad para quebrar o acordo entre a Síria, o Irã e o Iraque e a construção do gasoduto a partir do porto iraniano Assalouyeh e a cidade síria de Damasco através do Iraque. Esse projeto de 10 bilhões de dólares levaria três anos para ser concluído e se alimentaria do gás dos campos de South Pars que o Irã comparte com o Qatar. As autoridades iranianas anunciaram a intenção de estender o gasoduto para o Mediterrâneo para o fornecimento de gás para a Europa. O temor de que este cordão umbilical econômico consolide um eixo predominantemente xiita nos temores na região sobra dos medos do Ocidente. É o medo que espalha os Estados Unidos para promover uma guerra estratégica para deter a Rússia e a China e evitar a criação de um eixo Euro-asiático que coloque em apuros a ordem mundial que controla os Estados Unidos.

Fonte: FT

Sem embargo, a guerra de preços está longe de afundar a Rússia e mais perto de minar o progresso do emprego do  crescimento dos EUA nos últimos anos. A Rússia tem reservas de mais de 500 bilhões de dólares até o que a coloca muito longe de um colapso embora caía em uma profunda recessão. Após a crise de 1998 a Rússia aprendeu a lição (como os países asiáticos após a crise de 1997) e tem acumulado uma grande quantidade de reservas. Além disso, a dívida pública da Rússia chega a 14 por cento do PIB, que coloca esse país em uma posição única frente aos Estados Unidos e aos países europeus onde a dívida pública é superior a 100 por cento do PIB. A ameaça da Rússia, bem como países da Europa, é a enorme dívida do setor privado, que chega a 700 bilhões de dólares.

Os fatores que não levam em conta as teorias conspiranoicas em torno do preço do petróleo é o maior perdedor de um preço de US$ 53 por barril. Como mostra o gráfico abaixo, os países da OPEP têm um custo médio de US$ 37 o barril, enquanto a Rússia tem um custo de US$ 44 o barril. Mesmo em US$ 50 o barril, a Rússia (e de fato os países da OPEP) tem uma margem, ainda que pequena, para o lucro. Não é assim em os EUA, onde o gás de xisto, o principal produto dos EUA nestes seis anos de crise, vai custar US$ 75 por barril.



A queda acentuada dos preços do petróleo afeta, de sobremaneira, os Estados Unidos e a indústria de fracking está se dirigindo para o seu colapso. A Bolha do fracking foi responsável pelo aumento da produção de petróleo e diminuição do desemprego nos Estados Unidos. O reverso que começou a sofrer esta indústria ameaça  voltar a disparar o desemprego nos Estados Unidos e devolvê-lo ao epicentro da crise. Uma vez que se esgotem os estoques o petróleo voltará novamente a subir e pode retornar sem problemas o preço de US$ 145 o barril de julho de 2008. E nesta nova explosão dos preços também terá muito a fazer a Arábia Saudita, o principal manipulador do preço do petróleo.

MANUEL CASTELLS - A INTERNET E A SOCIEDADE EM REDE

Palestra proferida por Manuel Castells como lição inaugural do doutorado sobre a sociedade da informação na Universidade Aberta da Catalunha.

Introdução.

A Internet é o tecido de nossas vidas neste momento. Não é futuro. É presente. A Internet é um meio para tudo, que interage com toda a sociedade e, de fato, apesar de ser tão recente, em sua forma societal (embora, como se sabe, Internet foi construída, mais ou menos, nos último trinta e um anos a partir de 1969, embora realmente, como as pessoas entendem agora, é constituída em 1994 a partir da existência de um browser, do world wide web) não há necessidade de explicar, porque sabemos o que é a Internet. Eu apenas lembro, para a coerência da exposição, que é uma rede de redes de computadores capazes de se comunicar. Há algo mais. No entanto, esta tecnologia é muito mais do que uma tecnologia. É um meio de comunicação, interação e organização social. Recentemente, quando a Internet ainda era uma novidade, as pessoas acreditavam que, embora interessante, basicamente era uma minoria, algo para uma elite de internautas, de digerati, como dizem internacionalmente. Isso mudou radicalmente nesse momento. Para lembrar brevemente a progressão, eu vou dizer que o primeiro estudo sério sobre os utilizadores da Internet que eu conheço, de finais de 1995 observou que havia cerca de nove milhões de usuários da Internet. Neste momento, são cerca de 350 milhões de usuários no mundo. Estimativas conservadoras preveem que, até meados de 2001, chegará a 700 milhões, em torno de 2005-2007, pelo menos dois bilhões. É verdade que constitui apenas um terço da população do mundo, mas isso significa que, ponderando em termos de sociedades mais desenvolvidas, que nas sociedades de nosso contexto as taxas de penetração são em torno de 75% ou 80%.

Na verdade, em todo o planeta os núcleos consolidados de gestão econômica, política e cultural também serão integrados na Internet. Isso não resolve muito menos as questões de desigualdade, e eu vou discuti-las mais tarde. Mas, essencialmente, isso significa que a Internet é agora e será ainda mais o meio de comunicação e de relacionamento essencial sobre a qual uma nova forma de sociedade em que já vivemos, que é o que eu chamo a sociedade em rede. Apesar de ser tão importante, a Internet é tão nova que não sabemos muito sobre ela. E nessa situação, quando há um fenômeno cultural de grande relevância social, cultural, política e econômica, mas com um baixo nível de conhecimento, todos os tipos de mitologias, atitudes exageradas são gerados. Eu acho que muitos intelectuais espanhóis e europeus já entenderam, analisaram, criticaram e rejeitaram a Internet, observando, com antecedência, toda a alienação possível que irá gerar. Lembro-me que em 95-97 participei da comissão de especialistas sobre a Sociedade da Informação, que nomeou a Comissão Europeia, e ali, em uma comissão de quinze especialistas, em que eu estava, obviamente, em minoria absoluta, tentando ver como se poderia mitigar os efeitos devastadores que poderiam produzir a Internet na sociedade, política e cultura. Predominava uma reação defensiva. Diante de um fenômeno de importância extraordinária, de que, por outro lado, se tem pouco conhecimento, apareceu uma mitologia extraordinária em torno da Internet. Portanto, eu quero focar minha palestra sobre algo que iria torná-la prática. Vou tentar, embora haja alguns aspectos teóricos, resumir o que sabemos sobre a Internet em termos comparativos, o que sabemos sobre o que é a Internet hoje, a partir de dados empíricos. Eu vou tentar resumi-lo em dez pontos.

1. Lições da historia da Internet.

Quanto ao primeiro ponto, eu quero incluir alguns elementos sobre a história da Internet. Eu não vou contar a história da Internet, que eu acho que é conhecida, ou pode facilmente ser conhecida através da Internet, mas quais são as lições que têm valor analítico, se examinarmos a história da rede ao longo dos anos. A primeira lição sobre a Internet é que ela se desenvolve a partir da interação entre a ciência, entre a investigação universitária básica, programas de investigação militar nos Estados Unidos - uma combinação curiosa - e a contracultura radical libertária. As três coisas ao mesmo tempo. Eu apenas saliento que o programa de Internet nasce como programa de investigação militar, mas, na verdade, nunca teve aplicação militar. Este é um dos maiores mitos que existe. Não houve aplicação militar da Internet; Houve financiamento militar da Internet, o que os cientistas usaram para fazer as coisas, os seus estudos de computadores e de redes tecnológicas. Para eles, foi adicionado a cultura dos movimentos libertários, contestadores, buscando nela um instrumento de libertação e autonomia do Estado e das grandes empresas. A quarta fonte que mais se desenvolveu foi a culturas empreendedora que, vinte e cinco anos depois, se encarregou de dar o salto entre a Internet e a sociedade.

Segunda lição sobre Internet: o mundo da empresa não foi de nenhuma maneira a fonte da Internet, ou seja, a Internet não foi criada como um projeto de lucros corporativos. Há até mesmo uma anedota reveladora: em 1972, a primeira vez que o Pentágono tentou privatizar o que era o antepassado de Internet, Arpanet, ofereceu grátis para a ATT para a assumir e desenvolver. A ATT estudou-a e disse que esse projeto nunca seria rentável e que não viu nenhum interesse em comercializá-lo. Lembre-se, no entanto, que eram mais ou menos os anos em que o presidente da Digital, uma grande empresa de informática, disse que não vê razão para que alguém queira ter um computador em sua casa, ou alguns anos depois de que Watson, presidente da IBM, declarou que, em 2000, no mundo só teria cinco computadores, e que todos seriam, obviamente, IBM Mainframe. Não foi a empresa a fonte da Internet.

Terceira lição: A Internet se desenvolve a partir de uma arquitetura de software aberto e de livre acesso desde o início. Os protocolos centrais da Internet TCP/IP, criados em 1973-1978 são protocolos que são distribuídos gratuitamente e cujo código fonte tem acesso a qualquer pesquisador ou tecnólogo.

Quarta lição: os produtores da tecnologia da Internet foram principalmente seus usuários, ou seja, havia uma relação direta entre a produção da tecnologia pelos inovadores, mas depois houve uma modificação constante de aplicações e novos desenvolvimentos tecnológicos por usuários, em um processo de feed back, de retroação constante, que é a base do desenvolvimento dinâmico da Internet. O exemplo mais claro da principal aplicação da Internet é oferecido pelos cientistas que criaram a Arpanet, a ancestral da Internet, que, na verdade, não sabiam bem o que fazer com a Arpanet. Em princípio, a criaram para a comunicação entre os seus centros de informação, entre os supercomputadores que tinham, mas o haviam feito com a ideia de que ao compartilhar o do computador, eles poderiam obter maior utilização da capacidade dos computadores. Mas descobriram que tinham mais poder de processamento do computador do que precisavam. Diante disso, eles tentaram ver que outras coisas que eles poderiam fazer. Uma das aplicações desenvolvidas quase por acaso, e que se tornou o principal uso da Internet desde 1970, quando foi inventado, é o aplicativo que hoje ainda é o mais utilizado na Internet, o e-mail. Na tentativa de se encontrar outras aplicações se enviaram várias mensagens entre eles e se deram conta de que o que eles estavam tentando buscar tinham encontrado, ou seja, desenvolver o correio eletrônico. Há inúmeros exemplos deste tipo de relacionamento. Então agora os usuários mudam em constante a tecnologia e as aplicações da Internet. Esta é uma velha história da tecnologia. Foi também o caso do telefone: a história social do telefone nos Estados Unidos (em particular investigado por Claude Fischer) mostra que o telefone foi inventado para outras coisas, mas os usuários deram a volta e criaram outras aplicações. Mas com a Internet se tem feito muito mais ainda porque a flexibilidade, maleabilidade desta tecnologia permite que o efeito do feedback seja tempo real.

Quinta lição da história da Internet: contra a opinião generalizada de que a Internet é uma criação americana, a Internet se desenvolve de forma precoce a partir de uma rede internacional de cientistas e técnicos que compartilham e desenvolvem tecnologias na forma de cooperação, incluindo quando a Internet era algo que estava dentro do Departamento de Estado. A chave para a tecnologia da Internet, a comutação de pacotes, el packet switching, foi inventada paralelamente, e sem estabelecer qualquer comunicação por um longo tempo, Paul Baran na Rand Corporation, na Califórnia e Donald Davies no Laboratório Nacional de Física na Grã-Bretanha. Portanto, a tecnologia-chave se desenvolve em paralelo entre a Europa e os Estados Unidos. O desenvolvimento dos protocolos TCP/IP é feito por Vinton Cerf, dos EUA para trabalhar em estreita colaboração com  Gérard Lelan do grupo francês Cyclades. O caso mais interessante é que a world wide web, que é o programa de browser que permite a navegação que hoje praticamos todos os dias, foi criada por Tim Berners-Lee, um britânico, trabalhando em seu tempo livre, sem ser pedido por ninguém, no CERN de Genebra. Por outro lado, o desenvolvimento de redes libertárias baseadas na comunidade Internet, que criou todos os tipos de novas aplicações, tais como palestras ou newsletters ou listas de discussão, não vêm do Departamento de Defesa, saíram de grupos libertários de esquerda que foram organizadas através e em torno das redes de Internet. Esses grupos eram, desde o início, quer dizer, 1978-1980, quando começou a USENET - internacionais e desenvolvidos em uma ainda mais internacional, precisamente na medida em que a Arpanet pertencia ao governo dos EUA. O desenvolvimento do que viria a se tornar a Internet para o seu lado libertário, por seu lado de base tinha de ser muito mais internacional, porque no aspecto mais central da Internet, a Arpanet só poderia ser americana por barreiras governamentais.

Sexta lição: desde o princípio a Internet se autogestiona, de maneira informal, por uma série de personalidades envolvidas com o desenvolvimento da Internet sem que o governo oriente-os também. Ninguém deu muita importância à Internet e se criou uma espécie de aristocracia, clube meritocrático, que, ainda hoje, tem gerado bastante instituições originais. A governança da Internet tem agora uma organização privada apoiada pelo governo dos EUA e governos internacionais, mas que é privada, é chamada ICANN-por certo, em seu comitê executivo têm pessoas de Barcelona, da politécnica, e que tem entre outras coisas, a característica que elege o seu conselho de administração executivo por votação global entre quem quer se apontar para a ICANN via e-mail. No momento, eles estão terminando a votação, na qual 165 mil pessoas de todo o mundo votaram uma lista aberta de candidatos. Essa autoridade é, em princípio, distribuí os domínios, acorda os protocolos, etc.

E, finalmente, o último ponto que gostaria de fazer sobre a história da Internet é que o acesso aos códigos da Internet, o acessos aos códigos de software que governa a Internet é, foi e continua a ser aberto, e isso está na base da capacidade de inovação tecnológica constante que se desenvolveu sobre a Internet. Mencionei anteriormente o TCP/IP, mas também lembro que a UNIX é uma fonte aberta que permitiu o desenvolvimento de USENET News, Internet alternativa, o World Wide Web é aberta. Apache, que é o programa de software que hoje lida com mais de dois terços dos servidores da World Wide Web no mundo, é também um programa de código aberto. E este é, obviamente, o caso do Linux, mas o Linux é principalmente para máquinas UNIX através do qual a Internet funciona.

Estas reflexões sobre a história da Internet me servem para indicar até que ponto é um novo tipo de tecnologia em sua forma de organização. A famosa ideia de que a Internet é algo incontrolável, algo libertário, etc., está na tecnologia, mas é porque esta tecnologia foi concebida ao longo de sua história, com essa intenção. É dizer, é um instrumento de comunicação livre, criada de forma múltiple por pessoas, setores e inovadores que queriam que fosse um instrumento de comunicação livre. Eu acho que, nesse sentido, é preciso considerar que as tecnologias são causados por seu processo histórico de constituição, e não apenas para os desenhos originais de tecnologia.

2. A geografia da Internet.
Agora passemos para o segundo ponto da minha apresentação. Para seguir um modelo clássico de ensino, como eu comecei pela história agora continuo com a geografia. O que é a geografia da Internet? A Internet tem dois tipos de geografia: a dos usuários e a dos provedores de conteúdo.

A geografia dos usuários hoje, é caracterizada por um alto nível de concentração no mundo desenvolvido. Nesse sentido, digamos que as taxas de penetração da Internet se aproxima de 50% da população nos Estados Unidos, Finlândia e Suécia, estão acima de 30-35% na Grã-Bretanha e na faixa de 20-25% na França e na Alemanha. Depois, há a situação espanhola em torno de 14%, 16-17% na Catalunha. Em qualquer caso, na OCDE como um todo, a média dos países ricos, seria, no presente, de 25-30%, enquanto que em todo o planeta é inferior a 3% e, obviamente, se analisarmos situações como a Africana, como o Sul da Ásia, é menos de 1% da população. Em primeiro lugar, existe grande disparidade de penetração no mundo, mas por outro lado, as taxas de crescimento em toda a parte, exceto na África subsariana são muito elevadas, o que significa que os núcleos, também no mundo subdesenvolvido, será conectado dentro de cinco ou sete anos na internet. No entanto, esta geografia diferencial tem implicações para a medida em que chegar mais tarde do que o outro cria uma disparidade de usos, porque como os usuários são os que definem o tipo de aplicações e desenvolvimento da tecnologia, aqueles que chegam mais tarde terão menos que dizer sobre o conteúdo na estrutura e dinâmica da Internet.

No que diz respeito à geografia dos provedores de conteúdo há um fato que merece destaque. Supunha-se que, em princípio, as tecnologias da informação e telecomunicações permitiam que qualquer pessoa poderia encontrar em qualquer lugar e fornecer dali para o mundo. O que se observa empiricamente é o contrário. Há uma concentração muito maior da indústria provedora de conteúdos de internet, assim como da tecnologia de internet, que de qualquer outro tipo de indústria se concentra fundamentalmente nas principais áreas metropolitanas dos principais países do mundo. Um dos meus alunos, Matthew Zook, está terminando sua tese de doutorado, em que apresenta o primeiro mapa global sistemático de empresas de conteúdo da Internet: de acordo com sua análise, essas empresas estão totalmente concentradas em grandes áreas metropolitanas. A razão é simples: precisamente porque a tecnologia permite localizar-se e distribuir-se a partir de qualquer lugar, o essencial para a produção de conteúdo na Internet é ter informação e o conhecimento, o que resulta em pessoas com tais informações e conhecimento, que são na sua maioria concentradas nos grandes centros culturais e grandes áreas metropolitanas do mundo. No caso espanhol, obviamente, Barcelona e Madrid, nesta ordem, representam mais de três quartos das empresas que oferecem conteúdos de Internet que existem em Espanha, e a tendência é crescente.

Também no aspecto propriamente geográfico, recordo a relação entre o desenvolvimento da Internet e as formas interativas de telecomunicações e o desenvolvimento de formas urbanas. Aqui também há um aparente paradoxo: pensava-se que a Internet e as tecnologias de informação poderiam contribuir para o desaparecimento das cidades e ao fato de poder trabalhar todos desde nossas montanhas, de nossos campos, nossas aldeias. Na verdade, estamos no momento de maior taxa de urbanização na história da humanidade. Estamos prestes a atingir 50% da população urbana do planeta, em 2025 estaremos em dois terços, e para o fim do século em torno de três quartos, ou quase 80% da população do planeta será concentrada em áreas urbanas, e que a concentração urbana deve ser especialmente concentração metropolitana em grandes regiões metropolitanas. O que está acontecendo é a concentração da população em grandes centros de atividade e difusão da informação, e dentro desses grandes centros, a difusão interna em uma espécie de processo de extensão espacial, porque a Internet permite, em primeiro lugar, ligar metrópole a metrópole e dentro da metrópole, conectar escritórios, empresas, casas, serviços em uma área muito grande do ponto de vista espacial. Em particular, a ideia de que tudo o que iria trabalhar a partir de casa é refutada empiricamente. O que a internet permite é diferente: permite trabalhar em qualquer lugar, o teletrabalho não é o que está se desenrolando. Para dar dados da Califórnia, o lugar mais avançado nesse sentido, se aplicarmos a definição de teletrabalho operacional, vemos que as pessoas que trabalham pelo menos três dias por semana em casa são menos de 2%, e destes, metade surpreendentemente, não têm computador em casa. Ou seja, que não trabalham na Internet; trabalham por telefone, são os que fazem chamadas que incomodam quando você está jantando. O que é a Internet permite é trabalhar de casa, e o desenvolvimento de Internet móvel, o desenvolvimento da telefonia móvel no momento, permite trabalhar no transporte, durante a viagem, no local de trabalho, etc. O desenvolvimento geográfico que a Internet permite é o escritório móvel, escritório portátil, a circulação do indivíduo sempre conectado à Internet em diferentes pontos físicos no espaço. Isso é o que acontece e não o teletrabalho, uma vez que se desmentem os dos toflerianos pela observação empírica. Então, eu nunca faço previsões, porque sempre nos equivocamos e sempre se equivocam aqueles que as fazem. Eu trabalho com os dados que existem, eles costumam sair do outro lado, precisamente porque a sociedade toma tecnologias e adapta-se ao que a sociedade faz.


3. O  divisor digital

O terceiro ponto da análise que apresento está relacionada com a exclusão digital, ou seja, a ideia de que a Internet é a criação de um mundo dividido entre os que têm e os que não têm Internet. O que sabemos isso? Por um lado, é verdade que existe uma diferença grande de conectividade e observamos que aqueles que não têm acesso à Internet têm uma fraqueza cada vez mais importante no mercado de trabalho. Notamos também que os territórios que não estão ligadas a Internet perdem competitividade econômica internacional e, portanto, são bolhas crescentes de pobreza incapazes de aderir ao novo modelo de desenvolvimento. Por outro lado, também se observa um desenvolvimento considerável de conectividade. Mais uma vez, as taxas de crescimento de Internet em todos os lugares estão subindo, e que hoje é chamado o fosso digital exclusão digital nos Estados Unidos, que é principalmente a falta de conectividade em nosso tipo de sociedade, distinto do Terceiro Mundo já não é um problema. Os dados indicam, por exemplo, nos Estados Unidos, os negros, os latinos e as mulheres usavam muito menos Internet estão mudando radicalmente. Um estudo, que se parece sério, de Júpiter Communications de há três meses indica que sete países altamente desenvolvidos sistematicamente analisados para o desenvolvimento da Internet, entre os quais não está a Espanha - Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Austrália, Canadá, etc., observou que, pela primeira vez no final de maio deste ano, o número de mulheres que usam a rede foi maior do que os homens. O mesmo acontece entre os negros e latinos nos Estados Unidos. Entre os universitários negros e Latinos existe a mesma taxa de penetração da Internet do que os não-negros e estudantes não-hispânicos. Obviamente, há menos negros e latinos na faculdade, mas é uma questão de educação, em vez de um assunto de discriminação sistemática em termos étnicos. Portanto, a conectividade como elemento de divisão social está diminuindo muito rapidamente. Mas o que se observa naquelas pessoas, especialmente estudantes, crianças, que estão ligados a um segundo elemento é muito mais importante de divisão social do que a conectividade técnica aparece a capacidade educacional e cultural de usar a Internet. Uma vez que toda a informação está na rede, uma vez que o conhecimento está na rede, o conhecimento codificado, mas não o conhecimento que é necessário para o que você quer fazer, do que se trata é saber onde está a informação, como procurará-la, como processá-la, como transformá-lo em conhecimento específico para o que você quer fazer. Essa capacidade de aprender a aprender, essa capacidade de saber o que fazer com a qual se aprende, essa capacidade é socialmente desigual e está ligada à origem social, os antecedentes familiares, nível cultural, o nível de educação. Este é o lugar onde está, empiricamente, a exclusão digital no momento.

4. Internet e a nov a economia

O quarto ponto da minha apresentação é examinar a relação entre a Internet e a nova economia. O essencial aqui é que a nova economia é a economia das empresas que produzem ou desenham a Internet, são as empresas que trabalham com e através da Internet. Essa é a nova economia e que é o que está acontecendo em todo o mundo. É verdade que o desenvolvimento dos usos da Internet começa primeiro naquelas empresas de alta tecnologia e empresas de formação de equipes e programas de software que se aplicam para a sua própria organização, mas a partir daí, se espalha muito rapidamente para todos os tipos de empresas, criando um novo modelo de organização empresarial. Fala-se muito do comércio eletrônico. O E-commerce tem interesse, mas cai muito na ideia da venda do e-commerce, o chamado bussines to consumers B2C, a venda ao consumidor. Isto só representa 20% do total de transações eletrônicas comerciais na Internet. 80% são transações de empresas a empresas para relações comerciais entre empresas e isso está aumentando no momento (B2B). Ou seja, o volume aumenta e, portanto, o volume global cresce, o mesmo acontece com o número de transações para os consumidores. O volume que cresce muito mais, em termos absolutos e relativos, é a relação de empresa para empresa. O que está acontecendo? Quase todo o trabalho interno da empresa, relações com fornecedores e relacionamento com clientes está sendo feito pela rede. É o modelo que tenho desenvolvido com o nome de modelo Cisco Systemsl, que é o nome da empresa de produção de 85% dos equipamentos de telecomunicações para o backbone de Internet no mundo de roters e switches (roteadores e switches). 90% das vendas da empresa e suas operações são feitas por meio do relacionamento por meio de sua rede de fornecedores da empresa e os clientes, sem que a empresa faça nada mais do que colocar a engenharia, colocar a web, atualizar a cada hora e garantir a qualidade e organizar a rede de fornecedores. É a maior empresa industrial do mundo, é a segunda maior empresa em valor de mercado no mundo, 400 bilhões de euros, mais de cinco vezes o valor da General Motors, quando na verdade ela tem apenas trinta e cinco mil pessoas e é uma empresa produtora de máquinas, computadores, mas só tem uma fábrica. É uma empresa quase inteiramente virtual, embora tenha escritórios com pessoas que administram a máquina virtual; mas é virtual, não produz nada, mas o que ela faz, produz 85% do equipamento mundial que faz funcionar a  de Internet.

Existem muitos outros exemplos. Se estiver interessado, posso dizer exemplos da maior empresa de construção de edifícios em San Francisco, Webcor, cujo centro é também um site onde os usuários se envolvem com designers, arquitetos, construtores, funcionários municipais. Tudo isso está na web e todos os passos que uma empresa de construção tem que dar para realizar uma construção é feita pela web. Esta tecnologia tem sido capaz de reduzir pela metade o tempo de produção de um edifício, com um terço da gestão, limita os custos em 50%. Como você pode imaginar, outras empresas de construção estão se movendo rapidamente para a rede. Um exemplo mais próximo seria a Zara. Zara é uma empresa de Internet que nesses momentos - estamos falando sobre a mesma Zara, onde você compra suas roupas - tem 2001 lojas em todo o mundo, em trinta e cinco países diferentes. Nestas lojas cada fornecedor carrega uma pequena máquina em que registra cada compra que é feita com uma série de dados, com a qual o diretor de cada loja faz um relatório semanal, o que passa pela sede da rede em La Coruña, onde 200 projetistas processam por computador e determinam as tendências do mercado, diretamente enviados para fábricas de padrões de corte e produzem a roupa. Com este sistema, totalmente baseado na comunicação eletrônica, e processado pela internet a Zara reduziu a duas semanas o tempo necessário para redesenhar um produto a partir do momento em que decide colocá-lo no mercado em qualquer lugar do mundo. O modelo Benetton, que tinha conseguido fazer o ciclo em seis meses, foi encurralado pela GAP, que conseguiu em dois meses, a partir de uma conexão que não era Internet, e a Zara tem feito em duas semanas, e está ganhando participação de mercado rapidamente em todo o mundo e, neste momento, o valor de capitalização da empresa-mãe da Zara, uma empresa familiar de mercado, é de 2 bilhões de euros. Poderíamos continuar dando exemplos, mas eu acho que a ideia tem aqui. Ou seja, a primeira coisa que está fazendo a Internet na economia está transformando o modelo de negócio. O que foi o fordismo, a grande empresa industrial com base no padrão de produção e montagem, é hoje a capacidade de trabalho em rede, a articular diretamente o mercado, suprimentos e fornecedores e organização interna da empresa on-line em todas as tarefas.

A segunda mudança que a Internet produz, ou melhor, a base material em que esta mudança ocorre é a transformação do funcionamento do capital. E também aqui, muito esquematicamente, a primeira transformação é: o centro da economia global são os mercados financeiros globalizados operados por conexões entre computadores. Isto não é tecnicamente a Internet, porque é baseado em protocolos de Internet, mas é uma rede de redes de computadores que está rapidamente convergindo com a Internet. Esta rede é o que subjaz, a articulação, a interdependência e a volatilidade do mercado financeiro global. Em segundo lugar, a Internet permitiu o rápido desenvolvimento da operação financeira eletrônica, o desenvolvimento dos mercados financeiros, os mercados de ações, como a Nasdaq, que são mercados eletrônicos sem uma localização física no espaço; o desenvolvimento do principais mercados do futuro do mundo como é o suíço-alemão Eurex, que é completamente eletrônico, ou Liffe em Londres ou Matif na França; o desenvolvimento de redes de ***brokers, de redes de corretores como Instinet, que, hoje, canaliza algumas das operações mais importantes do mundo; corretores de desenvolvimento empresarial, como Charles Schwab é na maior parte eletrônica. Nestes momentos o NewYork Stock Exchange, a Bolsa de Valores de New York, se planeja a criação de uma bolsa de forma mista, que seja eletrônica, virtual e física. Na Europa, em torno do projeto, agora adiado de fusão entre as bolsas de Frankfurt e Londres, que prenuncia a fusão das principais ações europeias em uma ou duas bolsas de valores, está considerando conectar o Nasdaq americano com um equivalente de Frankfurt e um equivalente japonês, o qual, portanto, criaria uma NASDAQ Global, completamente eletrônico. Ou seja, os valores das nossas empresas, de todas as empresas, tendenciosamente, já estão negociando e vão negociar em termos cada vez mais eletrônicos, puramente eletrônicos, não interações físicas. Isso cria um novo tipo de transação financeira gera uma velocidade, complexidade, uma dimensão muito maior, uma capacidade de reação dos investidores quase instantânea e a dependência dos mecanismos de cálculo, de modelos matemáticos preditivos ativados a velocidade octoeletrônica através de ligações com a Internet. Isso muda os mercados financeiros, muda as finanças globais e, portanto, muda a nossa economia.

Um terceiro elemento que eu queria salientar é que a economia da Internet está mudando os métodos de valoração econômica. O desenvolvimento de empresas da Internet e das que mais inovadoramente se têm lançado por esta via se baseiam especialmente na existência de capital de risco que financia ideias antes de se ter o produto. É assim que funciona o sistema: um inovador tem uma ideia e, geralmente, nos dias de hoje, articulada não na Internet, mas através do que se pode fazer com Internet; Esta ideia é vendida para a empresa de capital de risco que fornece o capital inicial para começar a carregar; com esse capital de risco compra talento e instala Internet; com o que começa a produzir alguma coisa, mas não muito, certamente não o lucro, que ai à oferta pública e o mercado valoriza ou não valoriza. Quando não valoriza, a empresa desaparece e é repetida; quando valoriza, com essa valorização de mercado que não ocorre em torno de benefícios, mas uma promessa, é quando realmente há recursos para passar dessa promessa de inovação a uma inovação material, a uma produção material que chega ao mercado, que gera valor. Ou seja, o valor é criado a partir da inovação com base na valorização das iniciativas desenvolvidas em termos de empresa. Temos passado de uma economia em que a expectativa de geração de lucro através de empresa passa a ter a expectativa de geração de novo valor no mercado financeiro. E isso depende fundamentalmente da capacidade de se relacionar com o cálculo de empresas de Internet. Ou seja, o exemplo da indústria da Internet está a ser seguido em todas as outras indústrias. Isto cria uma grande volatilidade financeira, mas ao mesmo tempo também gera um aumento extraordinário da riqueza e produtividade. Existem empresas supervalorizadas, outros menos, mas, na realidade, a tendência é para cima, os ciclos de negócios continuarão; em qualquer caso, lembre-se que, por muito que hajam caído as ações de tecnologia, a Nasdaq ainda está 35% acima do seu valor de 12 meses atrás, quando Dow Jones, a taxa equivalente da economia tradicional, está a - 1,2% para o mesmo período. Ou seja, a capacidade de criar valor com base em um novo modelo de antecipação de expectativas também saiu da economia da Internet.

5. A sociabilidade na Internet.

Deixe-me mudar rapidamente de terceiros para entrar no quinto ponto da minha palestra, que é o assunto mais ideologicamente carregado da análise de Internet, a questão da sociabilidade na Internet, da interação social ou individual na Internet ou a emissão de comunidades virtuais. Como vocês sabem, este assunto é dominado pelas fantasias de futurólogos e jornalistas desinformados, embora existam jornalistas que conhecem muito bem. Aqui, se tem falado de que Internet aliena, isola, levando à depressão, suicídio, todos os tipos de coisas horríveis, ou, pelo contrário, que a Internet é um mundo extraordinário, de liberdade, de desenvolvimento, em que todo mundo se quer, em que todos estão em comunidade. O que empiricamente se sabe disso? Sabemos muitas coisas. Sabemos, por exemplo, por um estudo recém publicado por British Telecom, um grande estudo observacional realizado durante um ano em uma série de casas em que a Internet é utilizada, que não muda nada. Ou seja, as pessoas que faziam o que faziam, continuavam fazendo com a Internet e aqueles que faziam bem, saíram-se muito melhor, e aqueles que estavam fazendo errado, vão tão ruim quanto; o que tinha amigos, tem também na Internet e quem não tinha, não tem na Internet. É um estudo muito conservador intelectualmente, mas cito e dou-lhe uma referência porque é um estudo muito espetacular. Chamado Nada Acontece Aqui. Mas isso acontece. A Internet é uma ferramenta que desenvolve, mas não muda o comportamentos, mas sim que os comportamento se apropriam da Internet e, portanto, são amplificados e reforçadas a partir do que eles são.

Isso não significa que a Internet não seja importante, isto significa que a Internet está a mudar o comportamento, mas o comportamento está a mudar a Internet. Estudos de tipo painel, realizada pelo investigador principal da sociologia empírica de comunidades da Internet, Barry Wellman, da Universidade de Toronto mostra a realidade da vida social na Internet. Eis aqui o que seus resultados apontam: em primeiro lugar, as comunidades virtuais na Internet também são comunidades, ou seja, geram sociabilidade, criam relações e redes de relacionamento, mas elas não são as mesmos como comunidades físicas. Isto pode parecer um truísmo, mas tem-se que investigá-lo e exibi-lo. As comunidades físicas têm umas determinadas relações e as comunidades virtuais têm outro tipo de lógica e outros relacionamentos. Que tipo de relacionamentos? Qual é a lógica específica de sociabilidade on line? O mais interessante é a ideia de que elas são comunidades pessoais, comunidades de pessoas com base em interesses individuais e afinidades e valores das pessoas. Ou seja, na medida em que se desenvolve em nossas sociedades projetos individuais, projetos para dar sentido à vida a partir do que eu sou e quero ser, a Internet permite essa conexão saltando por cima dos limites físicos do cotidiano, tanto no local de residência como no local de trabalho e, portanto, gera redes de afinidades. Por exemplo, pesquisas no Canadá e nos Estados Unidos mostram que, sem a Internet, as pessoas geralmente tinham, em média, não mais do que seis laços íntimos de relacionamento fora da família e, ao mesmo tempo, centenas de laços fracos. Parece que é uma coisa que nos últimos dez anos tem-se mantido estabelecida. Então, o que acontece é que a Internet é capaz de desenvolver laços fracos, para criar laços fracos, mas não é adequado para criar laços fortes, em média, e é excelente para continuar e reforçar os fortes laços que existem de relacionamento físico. Finalmente, nisto, o que também parece bastante lógico e que importa para mim é que empiricamente é recomendado a síntese dos estudos que têm sido desenvolvidos. Neste sentido, a tendência que está se desenvolvendo é no sentido da diminuição da sociabilidade baseada na comunidade. Há uma tendência para a diminuição da sociabilidade baseada na vizinhança. Há um declínio da vida social dentro do trabalho em geral no mundo. O que está acontecendo é que a sociabilidade está sendo transformada pelo que alguns chamam de privatização da sociabilidade, que é a sociabilidade entre as pessoas que constroem laços eletivos que não estão trabalhando ou vivendo no mesmo lugar, o que coincide fisicamente, mas pessoas que se buscam: eu quero encontrar alguém que gosta de andar de bicicleta comigo, mas deve ser procurado em primeiro lugar. Por exemplo, como você cria um clube de motociclista? ou como você cria um clube de pessoas que estão interessadas em espeleologia? Esta formação de redes pessoais é o que a Internet permite desenvolver mais fortemente.

Quando Wellman tentou medir quanta influência tinha a internet sobre as  outras sociabilidades, encontrou algo que contradiz os mitos sobre a Internet. É o que ele chama de "quanto mais, mais", ou seja, quanto mais rede física se tem mais a internet é usada; quanto mais a Internet é usada mais forte se reforça a rede física que se tem. Ou seja, existem pessoas e grupos de forte sociabilidade em que é correlativa a sociabilidade real e virtual. E há pessoas de sociabilidade fraca, o que também está relacionado a fraca sociabilidade real e virtual. O que acontece é que, em casos de fraca sociabilidade real, há alguns efeitos de compensação através da Internet; a Internet é usada para sair do isolamento relativo. O que alguns estudos fazer é medir essa correlação e acham que eles são pessoas que usam a Internet extensivamente, que estão socialmente isolados, portanto a Internet isola. O processo de causalidade é diferente, a Internet é usada como um meio para aqueles indivíduos isolados, mas fundamentalmente existe um efeito cumulativo entre sociabilidade real e sociabilidade física, porque a sociabilidade virtual é real e virtual. Outra série de estudos como os realizados por Marcia Lipman, de Berkeley, que estudou centenas de comunidades virtuais, diz outra coisa importante, é que as comunidades virtuais são as mais bem-sucedidas e são as mais ligadas a tarefas, de fazer as coisas ou buscar interesses comuns juntos.

A idéia de que a Internet é um lugar onde as pessoas falam sobre qualquer bobagem, fofocas são contadas, etc; é bastante superficial. Isso é extremamente minoritário, muitas pessoas não têm tempo para fazê-lo. O que acontece é que essas histórias de identidades falsas que as pessoas se vestem de qualquer coisa que eles dizem o que são, são o prazer dos sociólogos pós-modernos. É verdade que ela existe, mas ocorre principalmente em adolescentes, e que os adolescentes fazem em geral? Inventam identidades, experimentam identidades, passam momentos de conversa sobre qualquer coisa, sempre que possível, criando uma contracultura própria de experimentação de identidade. E eles fazem isso também na Internet. Mas olhando por toda a sociedade, fora dos mecanismos de adolescentes, o que se observa é, ao invés, que a Internet é instrumental, ou seja, usa-se a Internet para desenvolver tarefas de política ou pessoais ou interesses particulares é o que realmente gera os níveis mais elevados de interação. Portanto, ao invés de ver o surgimento de uma nova sociedade, totalmente on-line, o que vemos é a apropriação da internet por redes sociais, por formas de organização do trabalho, para as tarefas, ao mesmo tempo em que muitos laços fracos, que seriam muito complicados para se manter off line, se pode configurar online. Por exemplo, um dos elementos mais interessantes disto é o desenvolvimento de organizações de inter-ajuda entre os idosos: o SeniorNet nos Estados Unidos é uma das redes mais populares de informação, apoio, solidariedade, de reforço de uma experiência compartilhada etc. Ou redes religiosas para compartilhar informações e valores religiosos. Ou redes de mobilização social.


6. Os movimentos sociais na Internet.

E aqui eu passo ao sexto ponto do que sabemos sobre a Internet: a sua relação com os movimentos sociais. O que sabemos é algo já bem discutido na mídia: a maioria dos movimentos sociais e políticos do mundo de todos os quadrantes usam a Internet como uma forma privilegiada de ação e de organização. Isto significa simplesmente que a Internet é uma ferramenta. Mas o que é específico?, O que dá especificidade a mobilização social a partir do fato de que se faça pela internet? Bem, há três características que são fundamentais na interação entre Internet e movimentos sociais. A primeira é que estamos a assistir na sociedade, ora da internet, a crise das organizações tradicionais estruturadas, consolidadas, tipo partidos, tipo associações de orientação diretamente política, e também se produz o surgimento de atores sociais principalmente a partir de coalizões específicas em objetivos específicos: vamos salvar as baleias, vamos defender esta seção, vamos propor novos direitos humanos no mundo, vamos defender os direitos das mulheres, mas não com uma campanha, mas com campanhas específicas. Isto é, em geral, na sociedade há um salto dos movimentos sociais organizados aos movimentos em rede em coalizões que se formam em torno de valores e projetos. A Internet é a estrutura organizativa e a ferramenta de comunicação que permite a flexibilidade e tempo de mobilização, mas mantendo ao mesmo tempo o caráter de coordenação e uma capacidade de enfoque desta mobilização.

Segunda característica: os movimentos sociais na nossa sociedade são desenvolvidos, cada vez mais, em torno de códigos culturais, valores. Existem movimentos de protesto tradicionais, mas o mais importante os movimentos - meio-ambiente, ecologismo, mulheres, direitos humanos  - são movimentos de valores; portanto, são movimentos que dependem essencialmente da capacidade de comunicação e da capacidade de realizar um recrutamento de apoio e encorajamento pela chamada para os valores, princípios e idéias. São movimentos de idéias e valores. Bem, a Internet é essencial porque se pode enviar a mensagem como esta: "Eu estou aqui, este é o meu manifesto, quem concorda comigo, e o que podemos fazer?" A transmissão instantânea de idéias em um quadro muito amplo permite a coalizão e a agregação em torno de valores. Neste sentido, um dos equívocos sobre a Internet é a ideia do famoso quadrinho publicado no New Yorker há muitos anos atrás de dois cães em um computador em que um diz ao outro: "Veja, na Internet ninguém sabe que você é um cachorro. "Bem, veja, sim. Na Internet ninguém sabe que você é um cão, porque se você quer organizar os cães na internet e se apresenta como um gato, vai organizar gatos. Diante disso, a bandeira da organização, comunicação, afirmando um determinado valor deve ser assinado nos termos do que queremos ser, porque os movimentos sociais são, eles são sobre o que eles dizem que são, não se constituem de forma manipulada, atraindo alguém para o que não é. Isso pode ser uma manipulação, mas em geral, as manipulações frequentemente falham.

A terceira característica específica dos movimentos sociais é que, cada vez mais, o poder funciona em redes globais e as pessoas têm a sua experiência e constroem os seus valores, suas trincheiras de resistência e de alternativa em sociedades locais. O grande problema que se coloca é como, a partir do local, você pode controlar o global, como, a partir de minha experiência e minha relação com o meu mundo local, que é onde eu sou, de onde eu vivo, eu me oponho a globalização, destruição do meio ambiente, o abate do Terceiro Mundo, em termos econômicos. Como se pode fazer isso? Bem, a Internet permite a articulação de projetos alternativos locais com protestos globais, eles pousam em algum lugar, por exemplo, em Seattle, Washington, Praga, etc., mas que constituem, organizam e desenvolvem a partir da conexão com à Internet, ou seja, conexão global, de movimentos locais e experiências locais. A Internet é a conexão global-local, que é a nova forma de controle e mobilização social em nossa sociedade.

7. A relação direta da Internet com a atividade política.

O sétimo ponto da minha palestra: A Internet também tem uma relação direta com a atividade política organizada, tanto a nível de partidos quanto no nível dos governos de diferentes tipos. Aqui há toda classe de projetos, de idéias. Em princípio, a Internet pode ser um instrumento de participação cidadã extraordinária, poderia ser um instrumento de informação de políticos, governos e dos partidos aos cidadãos em seu conjunto e de relação interativo. Poderia ser uma ágora política e sobre isso escrevem todos os futuristas. No entanto, na prática, existem algumas experiências interessantes de democracia local, curiosamente localmente como a Digital City, Cidade Digital de Amsterdam (agora em crise grave), redes comunitárias de Seattle, o programa Iperbole em Bolonha (também em declínio neste momento); mas no geral, o que se observa é que os governos, administrações públicas, partidos políticos têm confundido a Internet com um quadro de avisos. Em geral, limitam a expor informações: aqui estão as nossas informações para torná-lo consciente do que fazemos e, assim, salva-me trabalhar, ou, se quiser, me diga a sua opinião. O que acontece é que não se sabe o que acontece com esse ponto de vista. Em geral, há muito poucos exemplos de prática interativa diária do sistema político com os cidadãos. Portanto, uma das fronteiras da pesquisa que eu gostaria de desenvolver sobre a Internet é como a Internet pode permitir a burocratização da política e superar a crise de legitimidade dos governos que ocorre em todo o mundo, a partir de uma maior participação cidadã, interativa e uma informação constante de duas vias. Na verdade, o que se observa é que isso não ocorre.

Há um interessante livro recém-publicado sobre as relações na internet e mostrando alguns sistemas parlamentares, a partir de estudos empíricos que, na verdade, todos os parlamentos têm sites, todas os partidos têm Internet em todos os países desenvolvidos, mas são vias, insisto, unidirecionais de informação, para capturar a opinião, para converter simplesmente os cidadãos em potenciais eleitores e para os partidos obter informações sobre como ajustar a sua publicidade. Eu diria que, nesse sentido, o problema não é a Internet. O problema é o sistema político e, mais uma vez, temos um leitmotiv da conferência que estou tentando transmitir, que é a ideia de que a sociedade molda a Internet, e não o contrário. Ali onde há uma mobilização social, a Internet torna-se um instrumento dinâmico de mudança social; onde há burocracia política e rigorosa política de comunicação social de representação cidadã, a Internet é simplesmente um quadro de avisos. Temos que mudar a política para mudar a Internet e, em seguida, o uso político da Internet pode reverter-se na própria mudança de política.

8. A privacidade na Internet.

Muitos debates sobre Internet agora levanta a ideia do efeito da Internet sobre a privacidade e a capacidade de controlar nossas vidas intimamente através da Internet. Aqui estão dois elementos: a relação governo-cidadãos e a relação privacidade-internet. Na relação governo-cidadãos, há algo que deixa muito nervosos aos governos e é que realmente não se pode controlar a Internet. Há muitas razões, mas uma muito mais decisiva do que os outras. Podemos discutir se tecnicamente podemos ou não. Parece que não é tão fácil como alguns pensavam e, para provar, sempre cito o caso de Cingapura. Acabei de receber uma apresentação de sociólogos de Cingapura que estudam a Internet mostrando empiricamente a incapacidade do governo de Cingapura em controlar a Internet, neste momento, uma vez que, por razões econômicas e financeiras, tiveram que se abrir para o exterior. Naturalmente, China, Singapura e muitos outros países gostariam de usar a Internet para negócios e não suprimir para a livre  expressão do cidadão. Em Cingapura, parece que já não funciona esse controle. Na China funciona, porque, apesar de não controlar a disseminação de informações sobre a Internet, eles podem olhar para a pessoa que recebeu ou divulgou as informações e levam para a cadeia, que é outra forma de controle. Mas a Internet como tal, parece difícil de se controlar. No entanto, a razão fundamental é não só técnica, mas é institucional: Os EUA não podem fazer, porque há várias decisões dos tribunais federais e, em particular, a que eliminou a Decency Act na comunicação que Clinton introduziu em 1995 para censurar a Internet alegando pornografia infantil.

A Suprema Corte dos Estados Unidos, na verdade, o Tribunal Federal, que mais tarde foi confirmada pelo Supremo Tribunal de Justiça declarou que é certo que na internet existem todos os tipos de problemas, é verdade que na Internet a livre expressão leva a excessos, é verdade que a  Internet é o caos da expressão. Mas, literalmente, acrescenta, "os cidadãos têm o direito constitucional ao caos". Eu acho que a ideia de um direito constitucional de caos é meio profundamente inovador que, depois disso, na medida em que a Internet é uma rede global, não tem controle nos Estados Unidos, se busca qualquer circuito para contornar o obstáculo para se expressar. Lembre-se que a Internet é tecnicamente projetada para interpretar qualquer censura como uma barreira técnica e reconfigurar a via de transmissão. Além do fato de que os governos não controlam a Internet - a única forma seria a de desligar, assim como o Irã, Afeganistão, embora nós vamos ver o que acontece com a Internet mobile - do que as pessoas estão percebendo é que há uma problema muito mais profundo do que o controle do governo sobre a liberdade de expressão, bem como o desaparecimento de privacidade através de um mundo em que vivemos conectados à rede. Scott McNealy, um grande empresário do Vale do Silício,  presidente da Sun Microsystems, no ano passado, para que não o incomodassem mais com este tema, fez uma declaração dramática com que eu e a maioria das pessoas concorda: "Privacidade na Internet? Esqueça. Você já perdeu a sua privacidade para sempre". O que isso significa? Isso significa que tudo o que fazemos na rede pode ser detectado por via eletrônica. O problema é quem está interessado, como, quando, como, como é feito, etc. Mas há uma chance. O FBI pode fazer agora mesmo, tal como se desenvolveu um novo programa, Carnivore, obviamente, com autorização judicial, mas já se sabe. Isto pode fazer qualquer tipo de empresa que tem o famoso bolinho em seu programa; isto é, neste momento, se a pessoa não quiser dar o seu endereço e suas características a empresas que comercializam com esse tema tem que fazer uma verdadeira investigação, fazer todos os tipos de cliques, deixar todos os tipos de serviços, e praticamente se isolar.

Nos Estados Unidos já existem empresas que começam a comercializar a política. Existe uma empresa chamada Aristóteles que desenvolveu este sistema, Aristóteles, para a atual campanha presidencial a paritr de informações em inúmeros bancos de dados comerciais, desenvolveu perfis de personalidades e cruzou os padrões de votação geográficas em níveis muito pequenos, de bairros, e definiu a tendência para o potencial de voto de 156  milhões de cidadãos norte-americanos e está sendo vendido para os vários candidatos. Igualdade de oportunidades. Qualquer um que pagar leva-o. Não é um jogo de espionagem contra o outro, é para o comércio político da privacidade de cada um deles. A União Europeia tem uma política muito mais rigorosa para proteger a privacidade, mas sem entrar em muitos detalhes, as capacidades tecnológicas da legislação europeia é muito fraca. Há muitas maneiras de se livrar dessa legislação. Mas, por exemplo, Yahoo ou America On Line, fora de suas redes europeias, não são controlados pela legislação europeia e, mesmo se você é europeu, está ligado a uma rede global. E se qualquer empresa, qualquer portal, oferece informação, você pode vendê-lo a qualquer empresa européia. Estar em uma rede global significa que não há privacidade. Este é um dos aspectos mais importantes. Eu recomendo a leitura de um livro sobre o assunto de Lessig chamado Code. Lessig, neste livro, tem levantado uma questão fundamental que a privacidade aparece como essencial e é o debate sobre a capacidade de criptografia.

O encriptador permitiria que cada pessoa poderia determinar o seu código. A criptografia é simplesmente um código que autoconstrói e para o qual não há capacidade tecnológica de descriptografia com métodos normais; só podiam fazer os serviços secretos, a trabalhar com computadores por um longo tempo. O que acontece é que a criptografia é proibida por governos, também nos EUA, alegando que os traficantes de drogas e outros desagradáveis que poderiam usar para fazer o seu negócio online. Mas, de qualquer maneira, já fazem seus negócios on-line e se comunicam de mil outras maneiras. Mas esta criptografado realmente seria um sistema que permitiria que as pessoas manteriam suas informações e que não poderia sofrer interferência. A batalha de criptografia é, neste momento, a batalha de privacidade.


9. Internet e os Meios de Comunicação.

Um último ponto, antes de concluir, a relação entre a Internet e a transformação da comunicação através da mídia. A Internet está transformado radicalmente os meios de comunicação, mas não pela convergência da Internet e da televisão no mesmo meio tecnológico, a caixa famosa que você vai ter em cima de sua TV e que atinge tudo, o que é chamado de Web TV. O que realmente existe é um gabinete que fornece Internet e televisão, mas eles são dois sistemas. Embora se possa transmitir televisão pela Internet tecnologicamente, não é muito interessante, não é muito eficaz e, acima de tudo, se alguém quisesse transmitir de verdade a televisão que temos, a massa de TV pela Internet, não haveria banda previsível nos próximos 20 anos para fazê-lo em qualquer país, mesmo nos Estados Unidos. Ou seja, a capacidade de banda para a transmissão do grande volume representaria toda a televisão que vai ao ar hoje, é simplesmente impensável, caro e ineficaz. Quem tem o hábito de receber exatamente através do mesmo canal televisão e Internet? Não faz sentido.

Em vez disso, o que a Internet está fazendo é tornar-se o coração da articulação dos meios de comunicação diversos, de multimídia. Ou seja, de ser o sistema operacional que permite interagir e canalizar a informação que passa, onde passa, o que vemos, o que não podemos ver e ser, portanto, o sistema conector interativo do conjunto do sistema multimídia. Isto é o que a Internet está configurando. Ela também está mudando os meios de comunicação e, em especial, ao contrário da crença popular, os meios de comunicação escritos. Em que sentido? Bem, o modelo futuro está aqui, como quase todos os conhecidos modelos futuros. É o modelo de uso da Internet nos meios de comunicação que é usado no grupo Chicago Tribune, basta comprar o Los Angeles Times. A redação do Chicago Tribune, que está sendo estudada por um dos meus alunos, consiste em uma sala  totalmente integrada com  internet em que os jornalistas processam informações em tempo real e, em seguida, vai para o Chicago Tribune, Los Angeles Times, e outro jornais dos Estados Unidos, e uma série de várias estações de televisão e rádio. O que tem de original  isto? Essa informação vem em tempo real e continua o processamento em tempo real; ou seja, é um meio de comunicação massivo, contínuo e interativo, a que pode acessar diferentes usuários fazendo perguntas, criticando, debatendo.

Todas essas informações atinge os jornalistas, que estão sendo substituídos por outros jornalistas na mesma redação, que continuam o processamento ininterrupto dessa informação. Isso já existe e é o modelo que está sendo rapidamente adotado por grandes grupos de mídia e notícias. Junto com isso, a Internet está revolucionando a comunicação por sua capacidade de curtocircuitar a grande mídia. O fato de ser uma comunicação horizontal, cidadão para cidadão, significa que eu posso criar meu próprio sistema de comunicação on-line, eu posso dizer o que eu quiser, eu posso me comunicar. Pela primeira vez há uma capacidade de comunicação de massa não mediada pelos meios de comunicação de massa. Daí surge o problema da credibilidade. Como então se pode acreditar no que aparece na Internet? No ano passado, no Congresso dos editores de jornais dos EUA ficaram aterrorizados, porque havia um número de empresários do Vale do Silício, que diziam que iriam acabar os jornais: The New York Times desaparece, tudo será online. Minha posição na época era: haverá periódico on line, o mesmo jornal ou qualquer outra coisa on-line, na televisão, no rádio e na mídia impressa, em diferentes formatos para diferentes tempos de uso e diferentes contextos de uso. Mas o problema essencial quando tudo está na Internet, é de credibilidade, e é aí que os meios de comunicação continuam a ser um papel essencial, uma vez que as pessoas tendem a dar mais credibilidade ao La Vanguardia, o New York Times, ao El Pais ou ao El Periódico de Catalunya que é o que Manuel Castells pode colocar na rede a qualquer momento. Nesse sentido, o nome da marca, o rótulo de precisão continua a ser importante, desde que o rótulo seja respeitado, para que a credibilidade de uma mídia se torne seu único meio de sobrevivência em um mundo de interação e informação generalizada.

10. Conclusão: A sociedade rede.

Em conclusão, a Internet é a sociedade, expressa os processos sociais, os interesses sociais, os valores sociais, as instituições sociais. Qual é, então, a especificidade da Internet, se é a sociedade? A especificidade é que ela constitui a base material e tecnológica da sociedade em rede, é a infra-estrutura tecnológica e o ambiente organizacional que permite o desenvolvimento de uma série de novas formas de relações sociais que não têm a sua origem na Internet, que são o resultado de uma série de mudanças históricas, mas não conseguiriam se desenvolver sem a Internet. Essa sociedade em rede é a sociedade que eu analiso como uma sociedade cuja estrutura social é construída em torno de redes de informação a partir da tecnologia da informação microeletrônica estruturada na Internet. Mas a Internet, nesse sentido, não é apenas uma tecnologia; é a forma que constitui a forma de organização das nossas sociedades, é o equivalente ao que era a fábrica na era industrial ou a grande corporação na era industrial. A Internet é o coração de um novo paradigma sócio-técnico que realmente constitui a base material de nossas vidas e nossas formas de relacionamento, de trabalho e de comunicação. O que faz a Internet é processar a virtualidade e transformá-la em nossa realidade, constituindo a sociedade em rede, que é a sociedade em que vivemos.

 
Manuel Castells sociólogo espanhol autor da Trilogia A Erada Informação: Economia, sociedade e cultura

O RN não deve ter um feliz 2015

Certamente a felicidade é constituída apenas por momentos e na vida das pessoas ela ocorrera, mas se aglutinarmos o quadro de um estado como o Rio Grande do Norte e tratarmos como "felicidade" a ocorrência ou não de uma série de fatores estruturais ou estruturantes a tendência é que tenhamos o mesmo quaro complicado configurado nessa fase de urbanização dos poucos mais de três milhões de habitantes.

Os grandes desafios: mau funcionamento das repartições públicas que fornecem atendimento ao público, instituições que sofrem com problemas estruturais e de pessoal, tornando enormes as filas e atendimento inadequado, ou seja,  gestão é precária, quando se procura os gestores eles já sabiam de tudo (de fato) e já estão encaminhando as soluções que nunca chegam; dívidas da administração com instituições que atuam em parcerias, mais um a vez a gestão é fraca, o estado se propõe a muito e faz uma verdadeira "mundiça"; as obras são mal feitas, geralmente com interregnos de abandonos; escolas fechando ou com prédios inadequados; greves; contratos mal feitos.

O jornalismo praticado utiliza uma linguagem aberrante e traz para o público uma forma de explicar as coisas fantasiosas; jornalismo centrado no estardalhaço policial, de forma que gostamos mais de saber de assaltos do que de escolas e o que precisa fazer com relação `criminalidade não entra no discurso, quando entra é como bizarrice. Os presídios são superlotados, imundos, repletos de túneis e a justiça penal opera de forma muito antiquada, em muitos casos sequer há o processo formal, não se sabe como s penas são cumpridas. Os centros de detenção de menores seguem o mesmo "padrão" de precariedade e fugas.

Uma boa notícia em 2014, por exemplo foia a de o estado do Rio Grande do Norte ser o estado brasileiro com o maior parque eólico do país, embora não saibamos se essa energia está sendo utilizada na rede normal de fornecimento.

No esportes temos um excelente quadro paraolímpico e muitas vezes esses atletas enfrentam dificuldades com relação a recursos; o esporte escolar e universitário é deficitário por que falta equipamentos.

Certamente, não é a virada de um ano para outro e nem a passagem de um governo para outro que solucionarão esses desafios. Observemos os fatos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Manuel Castells - Um papa e seu roteiro

O  sociólogo Manuel Castells, considerado um dos mais influentes pensadores do nosso tempo, descreve o estado de espírito de um Papa que está fazendo história e aumenta a esperança em um mundo conturbado em processo de mudança dos tempos.

De repente ele sentiu um novo poder, ele poderia navegar pelo mundo, atingindo a consciência mais íntima e agir sobre elas.

Castlls Papa francisco

O Natal do Papa.

Francisco saiu da casula e ornamentos e sentou-se no sofá estofado na suíte 201 do Casa Santa Marta. Ele decidiu fazer uma pausa antes de ir dormir. Tinha sido um longo dia culminando com a Missa do Galo em que sua homilia foi complicada. Um relatório de atividade e um roteiro para o mundo, que codifica a fala em metáforas evangélicas. Correu tudo bem. Ele gostou da Missa em dó menor de Mozart, quebrando a tradição do canto gregoriano austero. Com um aceno de sua tarefa imediata: soprano israelense Chen Reiss para ver se Netanyahu suavizou.

Permitiu-se ir à cama mais tarde do que o habitual e atrasar o seu despertar habitual até às quatro e meia da manhã. Ele chamou seu secretário, Fabian Perocchio, e pediu seu mate  favorito. Sentiu a necessidade de rever o filme, nos últimos meses, saboreando suas vitórias nas questões de que dependiam o futuro da Igreja. Começando com o banco do Vaticano, instrumento de lavagem de dinheiro das organizações criminosas.

O de Cuba e dos Estados Unidos lhe agradou, foi uma coisa que todos os latino-americana levavam dentro há meio século.

Agora tocava a reconciliação entre israelenses e palestinos, esse foco de dor, ódio e perigo que ameaça a humanidade. A terra sagrada de santidades conflitantes como se o Deus único pudesse cortar e se apropriar elos arrogantes humanos, talvez manipulados pelo Maligno.

Claro que o essencial era restaurar a Igreja na experiência dos fiéis. Uma questão era clara e que sabia fazer: lidar mais com os pobres e marginalizados do que com os ricos e poderosos. Questão de reforma política, removendo a energia e os recursos para a hierarquia e distribuí-lo para os pastores e os fiéis.

Mais complicado era o tema da pedofilia. Mas ele também sabia como corrigi-lo: canalização sexualidade, permitindo o casamento entre religiosos, como em todas as outras religiões. E mesmo tolerando coabitação homossexual. Para isso ainda não tinha energia suficiente. Teria que esperar, mas sentia-se forte e jovem.

Tomou outro gole de mate. E de repente  sentiu um terrível azia. Um incêndio chegando o corpo e tudo em seu caminho, uma sensação de asfixia, sensação de aperto no peito, um desmaio irresistível. Ele tentou tocar a campainha. Mas suas mãos não responderam, seus olhos nublados. E então, como um sonho, ele lembrou a cena de seu filme favorito, O Poderoso Chefão, onde envenenam o Papa como a mais antiga tradição do Vaticano. Ele mal conseguia tornar consciente esse pensamento. De repente, um brilho esbranquiçado e esplendor. E depois nada, o vazio.

O que é que foi isso? Seriam verdadeiras todas as histórias que eles mesmos contavam para depois da morte? Não sabia, mas de repente sentiu um novo poder, ele poderia navegar pelo mundo, atingindo a consciência mais íntima e agir sobre elas.

Ele testou. Ele foi a Gaza para atender Khaled Machal. Ele foi transmutado em Allah (Deus é único), utilizando uma fórmula fornecida pelo seu novo camareiro, especialista no diálogo inter-religioso, e convenceu-o a parar de matar.

Cancelou dívidas dos pobres. Legalizado drogas, deixando sem o negócio os narcos. Regulou as finanças e enviou para o inferno aos financeiros anti-éticos. Expulsou do templo parlamentar a casta de castas comerciantes da política. Erradicou o machismo das consciências. E ...

Não tinha mais tempo para mais. A neblina se tornou mais e mais tênue, até subir ao céu e se misturar com a poeira estelar.

Artigo de Manuel Castells, em La Vanguardia

De Landes a Piketty

Na década de 1990 o grande best seller foi A Riqueza e a Pobreza das nações de David Landes e nesta década temos o sucesso de O Capital no Século XXI do francês Thomas Piketty, de um para o outro o momento histórico torna decisiva a atração, a época de Landes era a da reestruturação dos mercados, da liberalização; já a de Piketty é o momento pós-crise, do desemprego na Europa.

Duas grandes obras, duas grandes pesquisas, mas a essência política de cada uma já foi ou será ultrapassada, não se consegue superar o tempo para além do tempo em que se vive, embora seja uma das marcas dos clássicos serem contemporâneos a todas às épocas.

Mas o político é diferente, é permeado por uma realidade de um tempo, as épocas são malucas, como diria Nietzsche; são egoístas, tendem a pensar que sabem demais. Mas nada nunca é perdido, os debates fazem-nos caminhar por novos desafios e novos rumos.

Landes quis saber por que umas nações são tão ricas e outras tão pobres. dizia que há povos que vivem para trabalhar e povos que trabalham para viver; portanto, a causa número um, para ele, era o fator cultural. Piketty foi buscar respostas concretas do porquê de as desigualdades tomarem um rumo ascendente no mundo.

União Europeia: conquistas democráticas e sociais radicalmente postas em causa

Considerar que a política dos dirigentes europeus é um fracasso, por o crescimento econômico não ter sido retomado, é um engano resultante de má escolha no critério de análise. 

Por Eric Toussaint.

O fracasso dos governos europeus, da Comissão Europeia e do BCE é evidente no que diz respeito à concretização das metas que pretendiam alcançar: reduzir o desemprego, relançar a atividade econômica, sanear fundamentalmente os bancos, estimular e aumentar o crédito às famílias e às pequenas e médias empresas, aumentar o investimento, reduzir a dívida pública. Em todos estes pontos a política europeia é um flagrante fiasco. Mas será que os dirigentes europeus querem mesmo alcançar estes objetivos?
Os grandes meios de comunicação evocam regularmente os perigos de um possível estilhaçar da zona euro, do fracasso das políticas de austeridade em matéria de recuperação econômica, das tensões entre Berlim e Paris ou Roma, ou entre Londres e os membros da zona euro, das contradições no seio do Banco Central Europeu (BCE), das enormes dificuldades para chegar a acordo sobre o orçamento da UE, das crispações de alguns governos europeus em relação ao FMI a propósito da dosagem da austeridade. Estas tensões são reais, mas não devem esconder o essencial.
Os dirigentes europeus dos países mais fortes e os patrões das grandes empresas estão felizes com a existência de uma zona econômica, comercial e política comum, onde as empresas transnacionais europeias e as economias do Centro da zona euro se aproveitam do descalabro da Periferia, para reforçarem os lucros das empresas e marcar pontos na competição com os seus concorrentes norte-americanos e chineses. O seu objetivo, no estado atual da crise, não é o de relançar o crescimento e reduzir as assimetrias entre as economias fortes e fracas da UE.
Os dirigentes europeus esperam por outro lado que o descalabro do Sul se traduzirá em oportunidades para privatizar massivamente as empresas e os bens públicos a preço de saldo. Contam para isso com a intervenção da Troika (BCE, FMI, Comissão Europeia) e a cumplicidade ativa dos governos da Periferia. As classes dominantes dos países da Periferia são favoráveis a estas políticas, pois elas próprias esperam deitar a mão a uma fatia do bolo que ambicionavam há anos. As privatizações na Grécia e em Portugal prefiguram o que irá acontecer em Espanha e na Itália, onde os bens públicos a adquirir são bastante mais valiosos, atendendo às dimensões destas duas economias. Os dirigentes das economias europeias mais fortes contam também realizar uma nova vaga de privatizações nos seus próprios países.
Os estreitos laços entre os governantes e o grande capital já nem são dissimulados. À cabeça de vários governos, nos lugares chave dos ministérios e na presidência do BCE encontramos figuras diretamente saídas do mundo da alta finança,1 a começar pelo banco de investimento Goldman Sachs.2 Certas figuras políticas de primeiro plano são recompensadas com lugares no setor privado quando cumprem as tarefas oficiais encomendadas pelo grande capital.3 Nada disto é novo, mas tornou-se mais evidente e regular que nos 50 anos precedentes. É caso para falarmos de verdadeiros vasos comunicantes e transparentes.
Considerar que a política dos dirigentes europeus é um fracasso, por o crescimento econômico não ter sido retomado, é um engano resultante de má escolha no critério de análise. De fato, os objetivos perseguidos pela direção do BCE, pela Comissão Europeia, pelos governos das economias mais fortes da UE, pelas direções dos bancos e outras grandes empresas privadas, não são nem a retomada rápida do crescimento, nem a correção das assimetrias no seio da zona euro e da UE a fim de construir um conjunto mais coerente e próspero.
Não podemos esquecer um ponto fundamental: a capacidade dos governantes, que se puseram docilmente ao serviço dos interesses das grandes empresas privadas, de gerir uma situação de crise (para não dizer de caos), para agir no sentido encomendado por essas grandes empresas. A crise permite passar ao ataque com o pretexto de aplicar uma terapia de choque justificada pela amplitude dos problemas.
Os direitos econômicos, sociais e culturais são progressivamente postos em causa nos seus próprios fundamentos, para não falar já da ofensiva contra os direitos civis e políticos, como o direito efetivo de eleger os legisladores. De fato, o Parlamento europeu não tem verdadeiro poder legislativo; os parlamentos nacionais dos países submetidos à Troika subscrevem de cruz as leis ditadas por este órgão ad hoc; os outros parlamentos veem a sua soberania e os seus poderes fortemente limitados pelos múltiplos tratados europeus adotados sem consulta democrática, como sucede com o Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e Governação (TECG), que impõe limites orçamentais inaceitáveis. Muitos outros direitos são espezinhados: o exercício real do sufrágio universal direto, o direito de rejeitar tratados, o direito de modificar a constituição através de um processo democrático constituinte, o direito de protestar e de se organizar para que esses protestos resultem. A UE e os seus países membros reforçam a sua deriva autoritária com o regresso ao exercício direto do poder pelos representantes duma oligarquia económica.
Para avançar na maior ofensiva levada a cabo desde a Segunda Guerra Mundial à escala europeia contra os direitos humanos da maioria da população, os governos e o patronato utilizam diversas armas: a dívida pública, o desemprego, o prolongamento da idade de reforma, a exclusão de numerosas pessoas sem emprego do direito ao subsídio de desemprego, a precarização dos contratos de trabalho, o congelamento ou a diminuição dos salários e de vários apoios sociais, a redução de efetivos tanto nas empresas privadas como no sector público, a procura de equilíbrio orçamental como pretexto para reduzir os serviços públicos, a saga do aumento de competitividade dos Estados-membros da UE entre si e contra os concorrentes comerciais doutros continentes.
Para o capital, trata-se de aumentar a precarização dos trabalhadores, de reduzir radicalmente a capacidade destes para se mobilizarem e resistirem, de diminuir os salários e os direitos sociais, mantendo as enormes disparidades entre trabalhadores da UE, a fim de aumentar a competição entre eles e de os precipitar na armadilha da dívida. Por um lado, temos as disparidades entre salários dentro de um país: entre homens e mulheres, entre trabalhadores precários e trabalhadores com direitos, entre trabalhadores a tempo parcial e trabalhadores a tempo inteiro, entre gerações mais velhas que beneficiam do sistema de reformas assente na solidariedade e novas gerações às quais é imposto um sistema cada vez mais individualista e aleatório. Por outro lado temos os trabalhadores sem documentação, sobreexplorados e sem direitos sociais ao nível do trabalho.
Por iniciativa do patronato e com o apoio de sucessivos governantes (entre os quais se contam os partidos socialistas europeus, que desempenharam um papel activo), estas disparidades aumentaram no decurso dos últimos 20 anos. Por exemplo, na Alemanha, 7,5 milhões de assalariados estão confinados a um salário mensal de 400 euros, enquanto o salário mensal médio nas grandes indústrias alemãs ultrapassa claramente os 1500 euros.4
A isto acrescem as disparidades entre trabalhadores dos países do Centro e os dos países da Periferia no seio da UE, que agravam as disparidades dentro das fronteiras nacionais.
Os salários dos trabalhadores do grupo de países mais fortes (Alemanha, França, Países Baixos, Finlândia, Suécia, Áustria, Dinamarca) são o dobro dos trabalhadores da Grécia, Portugal ou Eslovénia. O salário mínimo legal na Bulgária (156 euros brutos mensais em 2013) é 8 a 9 vezes inferior ao de países como a França, a Bélgica ou a Holanda.5
Na América do Sul, embora as diferenças sejam grandes entre as economias mais fortes (Brasil, Argentina, Venezuela) e as mais fracas (Paraguai, Bolívia, Equador, etc.), a diferença entre salários mínimos legais é da ordem de 1 a 4, ou seja, uma disparidade nitidamente mais fraca que no seio da UE. Por isso a concorrência entre trabalhadores europeus é extremamente elevada. As grandes empresas dos países europeus mais fortes no plano econômico tiram enorme partido das disparidades salariais dentro da UE.
As autoridades europeias reforçam também a sua política de fortaleza sitiada, reduzindo os direitos das cidadãs e dos cidadãos não europeus de aceder ao território europeu. Apuram a política criminal nas fronteiras da Europa, provocando a morte de milhares de candidatos a instalarem-se no território da União Europeia. Até o direito de asilo tem sido espezinhado.
Por detrás da cortina de fumaça dos discursos oficiais transparece uma lógica terrível, injusta e mortífera. Há que expô-la à luz do dia, para melhor a defrontar e vencer.
Artigo de Éric Toussaint, publicado em cadtm.org. Tradução para português de Rui Viana Pereira, revisão de Maria da Liberdade

1 Um exemplo recente: Emmanuel Macron, nomeado ministro da Economia e da Indústria pelo presidente François Hollande em finais de agosto-2014, vem do banco Rothschild. Ver:http://fr.wikipedia.org/wiki/Emmanu...
2 Éric Toussaint, “Bancocracia: da República de Veneza a Mario Draghi & Goldman Sachs”, publicado a 10 de Novembro de 2013, http://www.esquerda.net/artigo/bancocracia-da-rep%C3%BAblica-de-veneza-mario-draghi-e-goldman-sachs/30183
3 Ver Éric Toussaint, “DSK, Blair, Geithner, Rubin: da política à finança”,http://www.esquerda.net/artigo/dsk-blair-geithner-rubin-da-politica-financa/35259
4O salário mínimo instaurado recentemente na Alemanha só entrará efetivamente em vigor a partir de 2017, comportando numerosas exceções e não beneficiando duma revalorização regular e automática.
5 Ver http://epp.eurostat.ec.europa.eu/st... com dados até 2013. Ver tambémhttp://www.inegalites.fr/spip.php?a... cujos dados infelizmente apenas vão até 2011.


Eric Toussaint
Politólogo. Presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo