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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Investidores fogem dos mercados emergentes e provocam pânico global

Desde maio-junho do ano passado, os investidores começaram a retirar em massa capitais das divisas emergentes e, à medida que a Reserva Federal foi diminuindo o fluxo de dinheiro para o sistema este começou a ser mais rentável nos Estados Unidos. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón.
A volatilidade voltou a pôr os mercados financeiros nervosos e está a provocar novas tempestades monetárias que ameaçam deitar por terra a morna recuperação econômica. Este cenário parecia impossível em finais do ano passado, mas advertimos aqui eaqui para essa possibilidade. Não só dificulta uma fraca recuperação, como ficam em sério perigo os países que até ao momento tinham evitado discretamente a crise iniciada há seis anos.
Desde meados de janeiro, a tempestade monetária sopra com força sobre os países emergentes, que viram as suas moedas afundarem-se pelos caprichosos resvalos dos mercados de capitais. As moedas da Argentina, Turquia, Rússia, Índia e África do Sul sofreram fortes ataques desvalorizadores. E se até há pouco os países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) eram um refúgio seguro para os investidores internacionais de todo o tipo, os ventos mudaram de direção de maneira notável, deixando a nu a precariedade de todo o sistema. O Índice MSCI Emerging Markets caiu 7 por cento desde o início de janeiro, o dobro da queda dos mercados europeus e dos Estados Unidos.
A causa deste colapso é em grande parte a mesma que tínhamos observado em maio e junho do ano passado (ver gráfico). Desde essa altura, os investidores começaram a retirar em massa capitais das divisas emergentes e, à medida que a Reserva Federal dos EUA foi diminuindo o fluxo de dinheiro para o sistema (10 bilhões de dólares em dezembro e outros 10 bilhões de dólares em janeiro), o dinheiro começa a ser mais rentável nos Estados Unidos. O endurecimento gradual da política monetária nos últimos meses de Bernanke desencadeou o movimento de reação violenta.
Medidas drásticas
Para travar esta queda, os bancos centrais de muitos países emergentes tomaram medidas drásticas para apoiar as suas moedas. Na semana passada, o banco central da Turquia subiu a sua taxa de juros de referência de política monetária de 4,4 por cento para 10 por cento, a Índia subiu-a para 8 por cento enquanto a África do Sul aumentou a sua taxa de política monetária para 5,5 por cento. Por seu lado, o Banco Central da Rússia investiu bilhões de dólares para deter a queda do rublo.
Mas nenhuma destas medidas conseguiu acalmar os investidores que continuam a fugir em debandada dos mercados emergentes e provocaram fortes reações nas bolsas mundiais, como o Ibex e o Dow Jones, que perderam todo o ganho no ano. A ideia que transparece nesta queda não esconde o efeito China e a sua desaceleração econômica. A China deu grande impulso aos países emergentes e é o único dos BRICS que se mantém firme. Mas a desaceleração que provoca a queda da sua atividade econômica torna-se extensível ao resto dos emergentes. A queda do comércio mundial marca um ponto de inflexão na expansão da China, obrigada ao recuo depois do estouro das suas bolhas internas.
A situação torna-se um pouco mais complexa se consideramos os déficits gémeos (déficit público e déficit de conta corrente) da Turquia, Brasil, Indonésia, Índia e África do Sul, junto com a redução das taxas de crescimento e o aumento da inflação. Além disso, a incerteza política que percorre a Turquia, Ucrânia e Tailândia não faz mais do que propagar os desequilíbrios externos e o aumento do risco soberano. Ou a fuga de capitais que sofrem a Indonésia, a Malásia, Taiwan e Tailândia. Todos estes países terão um crescimento menor do que o previsto em dezembro e a China não poderá socorrê-los pela via comercial porque enfrenta a sua própria contração, dado o excessivo endividamento da banca e dos governos locais.
Espiral descendente
Os países emergentes encontram-se numa espiral descendente e com os fluxos de capital em reversão. Os tempos em que as moedas destes países se apreciavam e ganhavam poder aquisitivo para comprar no estrangeiro evaporaram-se. Estes países não terão outra opção senão limitar os fluxos de capital com a ajuda do Fundo Monetário Internacional, à espera de que este os socorra quando começarem a ter necessidades de liquidez.
Se o risco de contágio é mais preocupante hoje do que há seis anos, é porque o peso destes países na economia mundial cresceu. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os países desenvolvidos tinham 60 por cento da produção de riqueza mundial no ano 2000, mas caiu para 51 por cento em 2010, e espera-se que chegue a 43 por cento em 2030.
O Fed não pretende ser o banco central do mundo, mas as suas políticas afetam todo mundo. Raghuram Rajan, presidente do Banco Central da Índia, pediu uma melhor cooperação entre os países desenvolvidos e os emergentes: “Os Estados Unidos deveriam estar mais preocupado com os efeitos da sua política monetária no resto do mundo, e não só com o que é apropriado para a situação no seu próprio país”. A Reserva Federal, na sua reunião de política monetária da semana passada, não disse uma única palavra sobre os mercados emergentes.
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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