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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Onde falhou o discurso de Obama sobre as classes

A classe molda de maneira básica a nossa trajetória social e económica. Mas por si só não explica como a pobreza, o desemprego e a desigualdade de salários afetam as comunidades Latina e Afro-Americana, nem o papel da discriminação racial na persistência da pobreza. Artigo de Keeanga-Yamahtta Taylor publicado em In this Times.
Obama sentado no lugar que Rosa Parks se recusou a ceder.
No seu discurso de 4 de dezembro de 2013 sobre o crescente fosso entre ricos e pobres nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama foi ao ponto de descrever a desigualdade como “o desafio que define o nosso tempo”. E tem razões para isso: desde que Obama tomou posse, as classes dos pobres aumentaram quase seis milhões, levando a um total de 49.7 milhões de Americanos com um rendimento estacionado abaixo da linha de pobreza federal, à volta duns 23,500 dólares por ano para uma família de quatro.
Mas nos meios de comunicação muitos focaram em cheio um ponto mais restrito que o presidente colocou quando retratou a pobreza como fenómeno que transcende raça e lugar, dizendo, “a disparidade de oportunidades na América tem agora tanto a ver com classe como com raça, e está a aumentar”.
Jamelle Bouie, do The Daily Beast,argumentou que ao lidar com a crença, entre alguns eleitores brancos, de que a política anti-pobreza ajuda “os pobres que não merecem" - isto é os que não são brancos - Obama tentou marcar pontos politicamente. Muitos outros repetiram acriticamente a visão de Obama de que a classe é um determinante da pobreza tão importante como a raça.
A verdade, contudo, é mais complicada. Naturalmente, a classe molda de maneira básica a nossa trajetória social e económica. Mas por si só não explica como a pobreza, o desemprego e a desigualdade de salários afetam as comunidades Latina e Afro-Americana, nem o papel da discriminação racial na persistência da pobreza.
Num aspeto, o reconhecimento da pobreza entre os brancos realça a forma como a pobreza está a consumir porções cada vez maiores da América. Há 19 milhões de pessoas brancas pobres nos Estados Unidos — e o número está a crescer. Uns alarmantes 76% de brancos vão passar por períodos de desemprego, prestações sociais ou pobreza nas suas vidas.
Contudo, mesmo que as fileiras de pobres brancos se tenham avolumado, a América Negra tem estado em queda livre económica. Desde 2000, enquanto que a proporção de Americanos brancos abaixo da linha de pobreza cresceu em cerca de 3%, até aos  12,7%, a percentagem de Americanos Negros que são pobres deu um salto de quase 5%, até aos 27,2%. Entretanto, Latinos e Negros foram atingidos mais duramente pelo declínio na habitação do que os brancos, perdendo muito mais do seu património líquido (44% e 31%, respetivamente, contra 11%). E através de toda a recessão e recuperação, o desemprego Negro manteve-se duas vezes mais alto do que o desemprego branco.
A questão não está apenas em mostrar quem está pior, mas em destacar como a discriminação racial exacerba a pobreza entre Americanos Africanos no emprego, habitação, educação e mais além. Desde Kennedy a Obama, os políticos dos Estados Unidos têm insistido em que “quando a maré sobe levanta todos os barcos”. Contudo os Afro-Americanos têm-se mantido desproporcionalmente  pobres e desempregados durante os últimos 50 anos – incluindo nos pontos altos económicos da expansão do pós-guerra e nos anos 90.
A discriminação racial não transparece apenas na pobreza, no emprego e no património líquido. Afeta também a mobilidade ascendente, determinando o acesso à educação pública de alta qualidade, à universidade e ao tipo de relações sociais que conduzem a empregos bem-pagos, a melhor habitação e a mais alta qualidade de vida. É precisamente por isto que ainda precisamos de ação afirmativa e outros programas dirigidos a remediar sistematicamente a discriminação histórica e atual anti-Negros.
Qualquer movimento pela justiça racial terá de bater-se com a interrogação de porque tantos trabalhadores Negros e de pele escura acabam num beco sem saída, no trabalho mal pago em primeiro lugar. Aqui basicamente é que o discurso de Obama se espalhou ao comprido. Em vez “de virar a página” da raça para nos concentrarmos na classe, devemos compreender como a raça agrava a desigualdade de classe — o que por sua vez requer o reconhecimento de que o racismo está ainda vivo e de boa saúde nos Estados Unidos.
Não podemos conter a respiração e esperar que Obama ataque esses problemas. Ele mostrou pouca vontade de encarar o racismo de frente e, apesar do seu discurso, não ofereceu qualquer programa novo ou mais dinheiro para enfrentar a crise da desigualdade.
Em vez disso, a nossa maior esperança reside nos trabalhadores mal pagos e outros ativistas de anti-pobreza que saíram à rua durante o ano que passou. A gente de cor está sobre-representada nas suas fileiras: 20% de empregados da Walmart são Afro-Americanos, tornando-a a maior empregadora de Afro-Americanos. Os Negros e os Latinos totalizam 40% de todos os trabalhadores mal pagos. O movimento emergente dos trabalhadores mal pagos está a dar um exemplo de como enfrentar a disparidade crescente entre ricos e pobres e tem potencial para tornar-se também um movimento pela justiça racial.

Keeanga-Yamahtta Taylor é escritora, oradora e ativista em Chicago. Escreve sobre questões de política Negra, desigualdade na habitação e questões de raça e classe nos Estados Unidos. Tem artigos publicados em Souls: A Critical Journal of Black Politics, Culture and Society, New Politics, The Black Commentator, Gaper's Block, na magazineMs. Entre outras. Está na direção editorial do International Socialist Review vai ser membro pós-doutoral do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Illinois em Champaign-Urbana durante o ano de 2013-2014. Pode ser seguida no Twitter em KeeangaYamahtta.
Tradução de Paula Sequeiros para esquerda.net
Artigo publicado em In These Times

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