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domingo, 25 de maio de 2014

Tailândia: Ditadura militar veio para ficar?

Prisão dos líderes do governo deposto, de políticos “vermelhos” e mesmo “amarelos” a censura aos meios de comunicação, a proibição de críticas sociais, são apenas o começo de uma ditadura que tudo indica veio para durar.
Por Tomi Mori

Com o golpe militar desferido na terça-feira, dia 20, a partir da ocupação das principais cidades e imposição da lei marcial em todo o país, os militares deram os passos necessários para consolidar o que já é uma ditadura militar, sob o comando do general Prayuth Chan-ocha.
Alegaram não se tratar de um golpe e que o objetivo era apenas pôr ordem no país. O trabalho dos generais tailandeses foi facilitado pela atitude de todos os meios de comunicação do planeta, que se negaram a denunciar, imediatamente, o que acontecia nesse país, que é a segunda economia do sudeste asiático, fazendo coro e reproduzindo a versão dos militares.
Essa estratégia permitiu que os golpistas tomassem as rédeas da situação e prendessem uma grande parte dos líderes do governo de Yingluck Shinawatra, após convocá-los para uma reunião, que ninguém sabe dizer se ocorreu, mas da qual saíram todos detidos, incluída a ex-primeira-ministra. Esta ação impediu que ocorressem explosões de rua, com protestos dos “vermelhos”, que compõem a base política de Yingluck.
Um porta-voz militar informou, cinicamente, que a prisão visava permitir que os detidos pudessem ter um “relax” de alguns dias e que, numa semana, seriam soltos. Bem, acredite quem quiser.

Golpe com apoio da monarquia e amplos setores burguesesO general Prayuth afirmou que, antes da convocação de novas eleições, é necessário realizar amplas reformas económicas, sociais e políticas.
A história das últimas décadas na Tailândia é recheada de golpes militares. O motivo dessa situação é que as classes dirigentes desse país não conseguem governar através de mecanismos democráticos, resolvendo as suas diferenças e crises com a intervenção das baionetas.
O fracasso da democracia burguesa nesse país é tão grande que somente em 1997 com a redação da chamada “Constituição do Povo”, que criou uma legislatura bicameral, as duas câmaras foram eleitas, pela primeira vez na história do pais, por eleições diretas.
Nas eleições de 2001, as primeiras sob a nova constituição, o milionário das telecomunicações Thaksin Shinawatra, do Partido Thai Rak Thai, venceu e pôde completar o seu mandato de quatro anos, dando início à crise política que se arrasta pelos últimos anos.
Foi reeleito, nas eleições de 2005, e derrubado por um golpe militar, em 2006.
Em 2007, o seu partido foi dissolvido pelos militares e realizaram-se “eleições gerais democráticas” em dezembro desse ano.
Samarra Sundaravej, do Partido Poder Popular, governou até setembro de 2008, quando o seu governo foi declarado culpado de conflito de interesses, pelo Tribunal Constitucional da Tailândia, por Sundaravej ter participado de um programa de culinária na televisão. O governo do seu substituto, Somai Washington, também teve vida curta, tendo o Tribunal Constitucional da Tailândia declarado o Partido Poder Popular responsável por fraude eleitoral, o que levou à sua dissolução, de acordo com a lei.
Em 17 de dezembro de 2008, Abhisit Vejjajiva foi nomeado primeiro-ministro. Mas o seu governo deparou-se com protestos, em 2009, organizados pela oposição, os “camisas vermelhas”
No ano seguinte, 2010, as manifestações tornaram-se gigantescas, com os vermelhos ocupando literalmente a capital, Bangkok. Os confrontos, violentos, levaram à morte de 87 manifestantes e mais de um milhar de feridos. Os militares entraram em cena para defender o governo de Abhisit Vejjajiva, acabando os protestos com o emprego de grande violência e derrubando as barricadas, em Bangkok, com os tanques militares.
Mesmo com o fim dos protestos, Yingluck Shinawatra, irmã mais nova do ex-primeiro-ministro, exilado, Thaksin Shinawatra, obteve uma esmagadora vitória, em julho de 2011, com o Partido Pneu Thai vencendo 265 cadeiras das 500 existentes no parlamento.
Em fins de 2013, os “amarelos”, sob a liderança de Suthep Thaugsuban, iniciaram protestos de ruas contra o governo de Yingluck. As manifestações dos “amarelos”, compostas dos setores mais reacionários da sociedade tailandesa, como os monarquistas, prosseguiram durante vários meses, provocando uma crise no gabinete de Yingluck. Este dissolveu o parlamento, em dezembro de 2013, com a proposta de convocar novas eleições, em fevereiro de 2014, que não foram realizadas.
Uma vez dissolvido o parlamento, o governo de Yingluck transformou-se num governo provisório, cujo mandato seria o de realizar novas eleições.
No dia 7 de maio último, o Tribunal Constitucional declarou que Yingluck deveria deixar o governo, sob a acusação de “abuso de poder”. Este “golpe judicial” abriu o caminho para o golpe militar da terça-feira, dia 20.
O derrube de Yingluck foi feito com apoio da monarquia e também de amplos setores burgueses, principalmente dos “amarelos”, que durante os últimos meses realizaram protestos constantes, com o objetivo explicito de obrigá-la a renunciar e tomar o poder, sem a realização de novas eleições.
O problema todo é que tanto a monarquia, quanto os “amarelos” e outros setores que apoiam o golpe atual, não aceitam as eleições como forma de a população de 65 milhões desse país, decidir o seu destino. Sabem perfeitamente que, nos votos, perderiam outra vez para Yingluck.
Essa situação de querer o poder através da força, seja pelo “golpe das ruas” ou através do golpe militar, é que explica a atual situação política tailandesa.
Já que não é possível ganhar nas urnas e tampouco através de um “golpe de rua”, que poderia levar o país à guerra civil, a classe dominante optou pela ditadura militar como o melhor caminho para a manutenção de seus interesses.
A democracia burguesa é, portanto, um instrumento absolutamente secundário, como está a ocorrer em muitos países, na atual conjuntura, que só é utilizada de acordo a interesses momentâneos. Nos últimos anos, com o desenvolvimento da atual crise imperialista, os direitos democráticos têm sido tão atacados que, o regime democrático burguês se tem transformado numa espécie de animal em extinção, na sua forma idealizada.
Um ditadura que veio para ficar
Com base nesta análise, pode-se concluir que, a atual ditadura militar na Tailândia não governará por apenas alguns dias, semanas ou mesmo alguns poucos meses.
Infelizmente, apesar dos pequenos protestos que ocorreram em Bangkok neste final de semana, e outros maiores que possam ocorrer, é difícil acreditar que, com os seus líderes presos, os “vermelhos” conseguirão derrubar a ditadura militar nas próximas horas ou dias. Os trabalhadores não possuem organizações próprias devido à repressão que se abate sobre o movimento há décadas, com a perseguição e assassinato dos ativistas e sindicalistas e a implacável perseguição aos partidos de esquerda.
Tampouco se pode prever, neste momento, quantos anos ficarão. Uma vez levados ao poder pelos monarquistas e amplos setores burgueses, não se sabe se os generais passarão a ter “apetite” próprio para governar pelos seus próprios interesses e não pelos interesses que os levaram ao poder,.
Qualquer que seja a resposta que o tempo dará a essa questão, é possível prever que a estabilização da Tailândia só será possível com o derramamento de muito sangue “vermelho”.
E a prisão de políticos burgueses “vermelhos” e mesmo “amarelos”, a censura aos meios de comunicação, a proibição de criticas sociais, são apenas o começo de uma ditadura que tudo indica será sanguinária.

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