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sexta-feira, 27 de junho de 2014

O sectarismo no Iraque

O Iraque caminha na direção de uma guerra civil sectária. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), grupo sunita, considera os xiitas hereges que traíram a fé e merecem a morte. Artigo de Patrick Cockburn, do Independent, reproduzido pela Carta Maior.

O secretário de Estado John Kerry parecia animado depois de uma reunião de 90 minutos com o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki. “A reunião foi boa”, disse o norte-americano. Mas se Kerry está otimista sobre a situação, então ele é a única pessoa em Bagdá a sentir-se assim depois das notícias de vitórias dos rebeldes e de massacres sectários. O Iraque está a começar a parecer-se com a Índia na época da sua partição, em 1947, quando massacres propagaram mudanças demográficas.
O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) espalhou-se pela gigantesca província de Anbar, a oeste de Bagdá, sem encontrar muita resistência. O exército iraquiano abandonou a fronteira com a Jordânia, onde tribos sunitas tomaram um posto de fronteira em Turaibal, na autoestrada construída por Saddam Hussein para ser uma rota crucial de mantimentos durante a guerra Irã-Iraque. Tribos estão a negociar para entregar Turaibal ao EIIL, que capturou os dois principais postos de fronteira com a Síria no fim de semana. Um líder tribal declarou que estava a mediar a situação com o EIIL numa tentativa de “poupar sangue e tornar a situação mais segura para os funcionários dos postos”, e que estavam a receber “uma mensagem positiva dos militantes”.
O exército jordano diz que as suas tropas foram colocadas em estado de alerta ao longo dos 180km da sua fronteira com o Iraque, para repelir “qualquer ameaça potencial à segurança” nesta região inabitada e deserta. O porta-voz do exército iraquiano declarou que as tropas deixaram algumas cidades em Anbar por “razões táticas”.
Obama e John Kerry apelaram a um governo genuinamente inclusivo onde os líderes sunitas, assim como com os xiitas e os curdos, tenham uma fatia do poder. Os dois insinuaram que, para que tal governo seja criado, Maliki não se pode manter no poder. Mas pode ser tarde demais para solucionar o problema dividindo o poder, uma vez que os sunitas já tiraram o lugar do governo enquanto autoridade principal nas províncias onde eles são maioria. Os políticos sunitas que se encontraram com Kerry - o porta-voz do parlamento, Osama al-Nujafi e o vice-primeiro-ministro Saleh al-Mutlaq - possuem pouquíssima autoridade nas suas próprias províncias. Os eventos ultrapassaram-nos e é improvável que haja um papel principal para políticos sunitas num momento de revolta.
Oficiais iraquianos declararam que Maliki pediu aos EUA que promovessem ataques aéreos contra as posições do EIIL no Iraque e na Síria, tendo campos de treino e comboios como alvo. Kerry respondeu que seria necessário tomar cuidado com vítimas civis. Obama disse que Maliki e as lideranças iraquianas enfrentam um teste para provar se “são capazes de colocar de lado as suas desconfianças e preferências sectárias para o bem comum”.
Esperanças de um governo plural parecem anacrônicas enquanto o EIIL se aproxima da capital e deixou claro que não quer conversar com os xiitas, mas matá-los ou expulsá-los do Iraque. O EIIL considera os xiitas apóstatas ou hereges que traíram a fé e merecem a morte. Onde os xiitas não se podem defender, fugiram. Em lugares como Tal Afar, com uma população de 300.000 xiitas turcomanos a oeste de Mossul, a luta ainda está a acontecer. O EIIL é um movimento anti-xiita no Iraque e na Síria, o seu sectarismo violento é tão extremo que esta foi uma das razões pelas quais foram criticados pela Al-Qaeda. Há relatos de que alguns xiitas que vivem em Mossul receberam um ultimato de se converterem em sunitas em 24h ou seriam mortos.
Nas últimas duas semanas, o Iraque percorreu um longo caminho em direção a uma guerra civil sectária entre sunitas e xiitas Na província de Salahuddin, insurgentes ajudados por grupos sunitas locais conseguiram expulsar milhares de xiitas turcomanos de três povoados. “Não pode imaginar o que aconteceu, só quem viu pode acreditar,” foi o que contou à AP Hassan Ali, um fazendeiro de 52 anos, enquanto estava sentado na mesquita xiita de al-Zahra, que é usada para distribuir ajuda em Kirkuk. “Atingiram-nos com morteiros, as famílias fugiam e eles continuavam a atirar,” disse o fazendeiro.
Os ataques ocorreram dia 16 de junho nos povoados vizinhos de Chardaghli, Brawchi e Karanaz e também noutra vila, Beshir, 45km ao norte, como contaram refugiados à agência. O objetivo parece ser criar zonas livres de xiitas, onde o EIIL possa estabelecer o seu califado sunita fundamentalista. Entre 15 e 35 aldeões foram mortos e tos seus corpos foram lançados na estrada para que fossem recolhidos. “Ligaram-nos e disseram ‘mandem alguém para buscar os seus cães’,” contou um polícia do povoado. Sobreviventes disseram que as mesquitas xiitas foram destruídas, as suas casas queimadas e os rebanhos roubados.
Diferente de outros massacres do EIIL, este último teve os seus autores reconhecidos. Os aldeões xiitas dizem que os seus vizinhos sunitas também participaram nos ataques. Os sunitas que vivem em povoados próximos estão a fugir, pois esperam uma vingança dos xiitas.
 
Tradução de Roberto Brilhante

Artigo publicado na Carta Maior.

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