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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

As teorias conspiranoicas de Washington e da Arabia Saudita para baixar o preço do petróleo e afundar a Rúsia e o Irã

Por Marco Antonio Moreno em El Blog Salmón
Oil Price 2012 2014

O preço do petróleo continua em queda e chegou a US$ 53 por barril. Enquanto muitos atribuem este declínio ao simples resultado de oferta e demanda para o petróleo, há outros, como Larry Elliott, do The Guardian, que atribuem o declínio a uma manipulação grosseira de política norte-americana. Para Elliott, se a Arábia Saudita foi capaz de quadruplicar o preço do petróleo na década de 70 para punir os Estados Unidos por seu apoio a Israel, e depois afundar o preço nos 80 para desestabilizar o regime de Saddam Hussein, agora tem mais motivos para baixar o preço pela metade e eliminar os inimigos número um dos Estados Unidos, que são a Síria, a Rússia e o Irã. De acordo com Larry Elliott, Washington tem convencido os sauditas que devem inundar o mercado com petróleo barato a preços mais baixos e, portanto, dizimar a economia da Rússia e do Irã. Com isso reduziria a resistência de Moscou para a expansão do cerco da OTAN e o aumento das bases militares dos EUA na Ásia Central. De acordo com esta teoria, o plano EUA-Arábia Saudita reduziu os preços do petróleo em 50 por cento de suas elevações recentes, há seis meses, criando grande turbulência nos mercados com um verdadeira "golpe petroleiro". Outro autor que confirma a "conspiração" dos EUA é F.William Engdahl, que em O segredo estúpido entre os EUA e a Arábia Saudita sobre a distribuição da Síria diz:
"Os detalhes entre um novo acordo secreto e muito estúpido, entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos contra a Síria e os chamados países do bloco IS está surgindo... Isto implica no controle do petróleo e do gás em toda a região e a inundação de petróleo barato pela Arábia Saudita para o enfraquecimento da Rússia e do Irã. Esses detalhes foram acordados na reunião de 11 de Setembro entre o secretário de Estado, John Kerry e o rei saudita... Desde então, o reino da Arábia Saudita tem inundado o mercado com petróleo barato, desencadeando uma guerra de preços dentro da Opep... os sauditas estão alvejando as vendas para a Ásia e, em particular, o seu principal cliente asiático, a China, onde começaram a oferecer o crude por apenas US$ 50 o barril em vez do preço anterior de US$ 100 o barril. Esta operação de desconto financeiro saudita tem todas as luzes de constituir uma guerra financeira dos EUA contra a Rússia, através do Gabinete de Terrorismo e inteligência Financeira ancorado em Wall Street, onde o comércio de produtos de petróleo é controlado. O resultado de tudo isso tem sido um pânico cobrando força diariamente e a que alguns mercados, como a China, estão muito felizes de comprar petróleo barato, apesar de que seus aliados mais próximos, Rússia e Irã estão sendo severamente espancados...
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O que se busca, de acordo com esta teoria "conspiranoica", é desestabilizando a região asiática, oferecendo petróleo barato que os faça romper seus laços com a Rússia, o fornecedor oficial de que resultaria cobrando preços "abusivos". Na verdade, a Arábia Saudita está a vender petróleo à China por US$ 50 o barril, muito menos do que o $110 que estava há seis meses.

Petróleo barato para afundar a Rússia

Para Abanmy Rashid, presidente da política do petróleo da Arábia Saudita, com sede em Riad, o colapso dos preços está sendo deliberadamente provocado pelos sauditas. A razão dada pela Arábia é ganhar novos mercados ante um enfraquecimento global da demanda por petróleo. Mas a verdadeira razão, de acordo com Abanmy é para pressionar o Irã sobre seu programa nuclear, e fazer a Rússia acabar com o seu apoio a Bashar al-Assad, na Síria. Mais de 50% das receitas do Estado russo vem de sua venda das exportações de petróleo e gás. A manipulação dos preços do petróleo entre Estados Unidos e Arábia visa desestabilizar os adversários máximos de políticas expansionistas dos EUA que estão agora a um passo de seu final com o acordo de livre comércio entre a Europa e os Estados Unidos que não só dá mais benefícios para as megacorporações americanas mas de acordo com um relatório independente geraria a perda de 600 mil postos de trabalho na Europa.
Enquanto as "teorias da conspiração" que expõem esses autores têm uma base sólida como é a manipulação de preços  feita pela Arábia Saudita, há outros elementos que mostram que a questão é mais complexa por pressões geopolíticas que pesam no Oriente Médio.

Em primeiro lugar, é verdade que a Arábia Saudita tem manipulado o preço do petróleo. Em 1973, o presidente egípcio Anwar Sadat convenceu o rei Faisal da Arábia Saudita para reduzir a produção e aumentar os preços, em seguida, ir mais longe e aproveitar as exportações de petróleo. Tudo isso a fim de punir os EUA por seu apoio a Israel em sua luta contra os países árabes. A punição funcionou e os preços quadruplicaram, passando de US$ 3 a US$ 12 por barril. Além disso, esse fato permitiu a elaboração de um acordo que previa a proteção militar dos Estados Unidos para a Arábia Saudita e que deu início aos petrodólares.

Em 1986, 1990 e 1998, os sauditas voltaram a manipular os preços para faz~e-los despencar como uma maneira de afundar a Rússia. Em 1998 tiveram um grande sucesso quando conseguiram reduzir o preço de mais de 50 por cento (US$ 25 para US$ 12 o barril). Depois disso, a Rússia decretou moratória de sua dívida e entrou em uma grave crise econômica. A conhecida crise de 1998, que se somou à crise asiática, que começou em julho de 1997,  levou ao colapso do Long Term Capital Management, a falência da Enron e a crise da puntocom.

Geopolítica e "guerra de preços"

Sem embargo, a teoria da conspiração entre Washington e Arábia Saudita desmorona se considerarmos que esta "guerra de preços" destrói a indústria do Oil Shale, incubada nos Estados Unidos e responsável para reduzir o desemprego e aumentar o crescimento de forma muito significativa . Pode querer, os Estados Unidos, destruir as suas fontes de emprego e de riqueza por uma guerra geopolítica com a Rússia? A análise não é facilmente atribuível a teoria conspiranoica uma vez que é mais complexo.

Ao baicar o preço do petróleo a Arábia Saudita dá um golpe no seu principal inimigo na região que é o Irã, que possui armas nucleares e que por sua vez é o principal apoio do governo da Síria na região. Com a sua estratégia de redução de preços, Abdullah dá um duro golpe na Síria e no Irã. O conflito é uma guerra de poder entre Irã e Arábia Saudita, que atravessa o Líbano, a Síria e o Iraque. Os sauditas sabem que o Irã é vulnerável aos preços do petróleo dado que precisa de US$ 130 por barril para equilibrar o seu orçamento. Com o petróleo em US$ 50 sacode o Irã, e o aiatolá Ali Khamenei  pode tornar-se mais flexível as pressões do Ocidente para conter suas ambições nucleares. O presidente iraniano, Hassan Rouhani disse que a queda acentuada dos preços do petróleo foi "uma conspiração contra os interesses da região, contra o povo muçulmano e contra o mundo muçulmano." O declínio dos preços do petróleo afeta todos os países produtores. As necessidades orçamentais da Rússia e da Arábia Saudita estão quase no mesmo nível de acordo com a tabela Deutsche Bank e do FMI. Mas  Venezuela, Nigéria, Argélia, Irã e Líbia deslizam para a asfixia financeira da guerra de preços travada pela Arábia Saudita.



O principal objectivo para os sauditas é se livrar de Bashar al-Assad para quebrar o acordo entre a Síria, o Irã e o Iraque e a construção do gasoduto a partir do porto iraniano Assalouyeh e a cidade síria de Damasco através do Iraque. Esse projeto de 10 bilhões de dólares levaria três anos para ser concluído e se alimentaria do gás dos campos de South Pars que o Irã comparte com o Qatar. As autoridades iranianas anunciaram a intenção de estender o gasoduto para o Mediterrâneo para o fornecimento de gás para a Europa. O temor de que este cordão umbilical econômico consolide um eixo predominantemente xiita nos temores na região sobra dos medos do Ocidente. É o medo que espalha os Estados Unidos para promover uma guerra estratégica para deter a Rússia e a China e evitar a criação de um eixo Euro-asiático que coloque em apuros a ordem mundial que controla os Estados Unidos.

Fonte: FT

Sem embargo, a guerra de preços está longe de afundar a Rússia e mais perto de minar o progresso do emprego do  crescimento dos EUA nos últimos anos. A Rússia tem reservas de mais de 500 bilhões de dólares até o que a coloca muito longe de um colapso embora caía em uma profunda recessão. Após a crise de 1998 a Rússia aprendeu a lição (como os países asiáticos após a crise de 1997) e tem acumulado uma grande quantidade de reservas. Além disso, a dívida pública da Rússia chega a 14 por cento do PIB, que coloca esse país em uma posição única frente aos Estados Unidos e aos países europeus onde a dívida pública é superior a 100 por cento do PIB. A ameaça da Rússia, bem como países da Europa, é a enorme dívida do setor privado, que chega a 700 bilhões de dólares.

Os fatores que não levam em conta as teorias conspiranoicas em torno do preço do petróleo é o maior perdedor de um preço de US$ 53 por barril. Como mostra o gráfico abaixo, os países da OPEP têm um custo médio de US$ 37 o barril, enquanto a Rússia tem um custo de US$ 44 o barril. Mesmo em US$ 50 o barril, a Rússia (e de fato os países da OPEP) tem uma margem, ainda que pequena, para o lucro. Não é assim em os EUA, onde o gás de xisto, o principal produto dos EUA nestes seis anos de crise, vai custar US$ 75 por barril.



A queda acentuada dos preços do petróleo afeta, de sobremaneira, os Estados Unidos e a indústria de fracking está se dirigindo para o seu colapso. A Bolha do fracking foi responsável pelo aumento da produção de petróleo e diminuição do desemprego nos Estados Unidos. O reverso que começou a sofrer esta indústria ameaça  voltar a disparar o desemprego nos Estados Unidos e devolvê-lo ao epicentro da crise. Uma vez que se esgotem os estoques o petróleo voltará novamente a subir e pode retornar sem problemas o preço de US$ 145 o barril de julho de 2008. E nesta nova explosão dos preços também terá muito a fazer a Arábia Saudita, o principal manipulador do preço do petróleo.

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