"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Chomsky descreve política interna dos EUA como “pura selvageria”

Intelectual e ativista diz que os cortes aos programas alimentares para os mais pobres e o fim do auxílio especial aos desempregados é pura loucura e afirma que a desigualdade, hoje, está num nível nunca antes visto, pelo menos, desde 1920. Por Jacob Chamberlain, do CommonDreams.com
Os EUA são um país de um partido, o Partido dos Negócios, diz Chomsky. Foto de tr.robinson / FlickR, licença Creative Commons
Enquanto o Congresso dos Estados Unidos decide, esta semana, se vai manter um subsídio de desemprego de emergência a milhões de americanos ou se vai aprovar as negociações de uma lei agrícola que cortaria milhares de milhões dos programas de vale-refeição, o prestigiado ativista e intelectual Noam Chomsky resumiu, numa entrevista, o ponto a que chegou a política interna dos EUA com apenas duas palavras: ‘pura selvageria.’
“A recusa de proporcionar um padrão de vida muito mínimo às pessoas que foram apanhadas por esta monstruosidade – é pura selvageria”, disse Chomsky durante uma entrevista à HuffPost Live. “Não há outra forma de dizer.”
Washington Post relatou que as atuais negociações da lei agrícola podem levar, na próxima década, à eliminação de 9 bilhões de dólares no fundo para os selos de comida (food stamps) distribuídos pelo Programa de Assistência Suplementar Nutricional (SNAP), “de acordo com diversos assessores que estão familiarizados com as negociações e que não são autorizados a falar publicamente sobre os detalhes.”
As mudanças iriam diminuir os auxílios para, no mínimo, 800 mil famílias, com cortes de até 90 dólares por mês. “Essa é a última semana de mercearia do mês”, disse a senadora Kirsten Gillibrand ao Washington Post.
O Congresso, controlado pelos republicanos tinha, originalmente, proposto cortes de 40 bilhões de dólares e o Senado, de maioria democrata, propôs cortes de 4 bilhões de dólares. A negociação, que tem uma conclusão esperada para a próxima semana, realiza-se dois meses depois de os deputados norte-americanos terem deixado que chegasse ao fim um outro estímulo da SNAP, cortando fundos universais de 5 bilhões de dólares no financiamento, que acabou com a assistência alimentar de 47 milhões de dólares a beneficiários dos selos de comida, sendo 49% deles crianças.
Fim do subsídio de desemprego de emergência
Se isso não fosse pouco, no mês passado, o Congresso acabou com o subsídio de desemprego de emergência de longo prazo para 1,3 milhões de americanos, uma “linha de vida” para muitos que estavam à procura de empregos há um longo período de tempo e dependiam desses benefícios para sobreviver.
Na terça, o Senado aprovou por pequena margem uma resolução para fazer avançar a lei que irá reinstaurar esses subsídios de desemprego. Mas mesmo que essa lei acabe por ser aprovada pelo Senado, irá enfrentar forte oposição quando chegar à câmara dos representantes dominada pelos republicanos.
“A desigualdade tem sido um sério problema por muito tempo,” disse Chomsky. “Mas a desigualdade, agora, está num nível nunca antes visto, pelo menos, desde 1920... ou até antes. Isso é muito grave.”
Qualquer crescimento nos últimos anos foi para os 2% mais ricos da população, disse Chomsky, acrescentando que uma grande parte da população está a viver abaixo da linha da pobreza, enquanto que no topo da sociedade, os lucros estão a crescer para os ricos.
Contudo, os bloqueios impostos aos programas públicos, que muitos dizem ser essenciais para os pobres dos Estados Unidos, não têm “nada a ver com maçãs podres no Congresso,” disse Chomsky ao HuffPost Live. “São problemas estruturais que tem ligação ao assalto neoliberal à população, não só americana mas mundial, que ocorreu nas gerações passadas. Algumas áreas conseguiram escapar a ele, mas o assalto espalhou-se.”
O partido dos negócios
Chomsky disse ainda: “Anos atrás era costume dizer que os Estados Unidos são um país de um partido – o partido dos negócios – com duas facções, Democratas e Republicanos. Isso já não é verdade. Ainda é um país de um partido – o partido dos negócios – mas só com uma facção. E não é a democrata, são os republicanos moderados. Os chamados Novos Democratas, que são a força dominante no partido Democrático, são o que eram os Republicanos Moderados décadas atrás. E o resto do partido Republicano só tem flutuado para fora espectro.
Publicado na Carta Maior. Tradução de Isabela Palhares

Medidas de Obama para a NSA são “relações públicas”, denunciam ativistas

Reforma anunciada sexta-feira pouco ou nada limita a espionagem em massa levada a cabo pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, dizem as organizações de direitos civis. Empresas como Google ou Microsoft também não ficaram contentes com o discurso de Obama.
Obama anunciou medidas que pouco alteram a espionagem em massa de emails e chamadas telefónicas em todo o mundo
Nem os ativistas das organizações que defendem a privacidade dos cidadãos nem os líderes das principais empresas da área digital dos Estados Unidos demonstraram grande contentamento com o discurso do presidente Barack Obama, na sexta-feira 17, que anunciou um decreto com as novas regras que delimitam a ação da Agência de Segurança Nacional (NSA) no país e no exterior.
Para Steven Hawkins, da Amnistia Internacional dos EUA, o que ficou do discurso de sexta-feira do presidente foi que “o direito à privacidade permanece sob graves ameaças tanto aqui quanto em todo o mundo”. O diretor executivo da organização admite que é significativo que Obama reconheça a necessidade de salvaguardar a privacidade, mas “insuficiente para pôr fim à séria preocupação global sobre a vigilância em massa, que constitui uma violação pela sua própria natureza”.
Já o jornalista Glenn Greenwald, que publicou as primeiras notícias sobre a espionagem dos EUA, a partir de revelações feitas por Edward Snowden, defendeu que as medidas anunciadas são apenas "um gesto de relações públicas para acalmar o público e fazê-lo acreditar que existe uma mudança, quando na realidade nada vai mudar".
Espionagem em massa continua
A verdade é que as mudanças anunciadas por Obama são muito poucas. Os EUA vão continuar a recolher e armazenar dados de emails, chamadas telefónicas e quaisquer outras formas de comunicação num gigantesco banco de dados instalado num data center avaliado em 1500 milhões e inaugurado em novembro, tal como fizeram até agora e foi denunciado por Edward Snowden.
O novo decreto estabelece que a NSA continuará a recolher os metadados telefónicos, mas não terá livre acesso a eles. Quando houver alguma suspeita, os analistas da NSA terão de obter a aprovação da Foreign Intelligence Surveillance Court, um tribunal cujas audiências são fechadas ao público.
Com essa autorização, a NSA fazia antes o mapa dos contactos do número original e de mais três camadas de todos os contactos encontrados. Com as mudanças, só pode fazer o mapa de duas camadas.
Obama anunciou também que os EUA vão repassar a terceiros a administração deste banco de dados – sem especificar a quem. E, finalmente, garantiu que líderes de países aliados não serão espionados “sem motivo” (?). "Serei claro: a menos que nossa segurança nacional esteja em jogo, não espionaremos a comunicação de nossos aliados próximos e amigos", disse Obama.
Empresas americanas não ficaram contentes
As gigantes americanas do mundo digital, como a Google, Yahoo, Apple ou Microsoft, por seu lado, não obtiveram as garantias que consideram necessárias para defender a sua credibilidade. A Google, por exemplo, que chegou a encarar a possibilidade de retirar os seus servers dos Estados Unidos, não ouviu quaisquer garantias de que NSA deixará de entrar nos seus computadores e retirar de lá os dados que bem entender.
A Microsoft gostaria de ouvir garantias de que os agentes da NSA vão deixar de listar todas as vulnerabilidades do Windows para as aproveitar como portas de entrada nos computadores de milhões de pessoas que usam o seu sistema operativo.
Mas nada disso foi dito, porque a administração Obama continua a considerar que "poder examinar os contactos telefónicos para estabelecer a existência de uma rede é essencial". E acrescentou: "Os americanos devem saber que os seus direitos serão protegidos, mesmo se os serviços secretos e a polícia vão manter os instrumentos necessários para garantir nossa segurança", acrescentou, sem se referir aos não-americanos que são espiados à vontade.
“O direito humano à privacidade é universal”, afirmou Brett Solomon, da ONG Access, recordando que “os direitos das pessoas fora dos Estados Unidos são tão fundamentais quanto os dos cidadãos dos EUA. Porém, a defesa do presidente da continuidade dos programas de recolha de informações no exterior garante que os cidadãos de todo o mundo continuarão a ser o alvo da vigilância em massa”.
Quanto a Snowden, que não foi mencionado diretamente, Obama fez ouvidos de mercador aos pedidos de que ele seja perdoado, como foi defendido pelo The New York Times ou o The Guardian.

Reino Unido tem 13 milhões na pobreza

Em 2011-2012, 128.697 pessoas recorreram a bancos de alimentos. Em 2012-2013, a cifra quase triplicou: 346.992. Já há mais de 400 bancos alimentares no país. Por Marcelo Justo, Carta Maior.
 “Nós intervimos nestes momentos de emergência e se for necessário ampliamos a nossa assistência. Mas o que é preciso é uma política social para o emprego, a habitação, salários dignos e estímulos ao crescimento", diz o responsável pelo banco alimentar
“Nós intervimos nestes momentos de emergência e se for necessário ampliamos a nossa assistência. Mas o que é preciso é uma política social para o emprego, a habitação, salários dignos e estímulos ao crescimento", diz o responsável pelo banco alimentar
Londres - É a sexta economia mundial, origem da revolução industrial, ex-império que dominou o mundo tem cerca de 13 milhões de pessoas a viver abaixo da linha de pobreza. Com um duro plano de austeridade que está socavando lentamente o Estado de Bem estar, salários estagnados, explosão do emprego temporário e de meio-turno, muitos têm de recorrer aos bancos de alimentos das ONGs no Reino Unido.
A Fundação Trussell Trust tem mais de 400 bancos de alimentos em todo o país. O impacto do programa de austeridade aplicado pela coligação de conservadores e liberais democratas desde 2010 é claro. Em 2011-2012, 128.697 pessoas recorreram a estes bancos. Em 2012-2013, a cifra quase triplicou: 346.992. “Há muita gente que come uma vez ao dia ou tem de escolher entre comer e acionar a calefação em pleno inverno”, disse à Carta Maior o diretor da Trussel Trust Chris Mould.
Os especialistas medem a pobreza em termos absolutos (virtual incapacidade de sobrevivência) e relativos (em relação à renda média e às expectativas de uma época). Hoje em dia não ter uma frigorífico é um indicador de pobreza; em 1913, data de invenção do frigorífico doméstico, era um luxo. Segundo o Trussel Trust, um de cada cinco britânicos encontram-se hoje em situação de pobreza relativa ou absoluta. “É fácil esquecer que se pode cair muito rapidamente nesta situação. Um despedimento, uma conta muito alta de eletricidade, uma redução dos benefícios sociais, um drama familiar e essas pessoas ficam sem nada”, explica Mould.
Esta pobreza estende-se para além do desemprego. A atual taxa de desocupação de 7,7% (2,5 milhões de pessoas) encobre um panorama social complexo. Quase um milhão e meio de pessoas tem trabalhos de meio turno e com salários baixíssimos que geraram o movimento pelo chamado “living wage” (salário digno).
O percentual de subempregados (que desejariam trabalhar mais se pudessem) aumentou de 6,2% em 2008 para 9,9% hoje. “A maioria da ajuda estatal não vai para os desempregados, mas sim para pessoas que estão subempregadas ou têm salários muito baixos. Muitas vezes pela própria instabilidade destes trabalhos as pessoas entram e saem de situações de extrema necessidade”, diz Mould.
A esta pobreza de receita somam-se outras formas no Reino Unido, como a chamada “pobreza energética” dificilmente visualizada na América Latina seja pela diferença climática ou porque ainda não foi conceitualizada. Este nível de pobreza afeta cerca de 3,4 milhões de pessoas (cerca de 6% da população) que tem de gastar mais de 10% de suas receitas para “manter um nível adequado de calefação” durante os cinco meses ou mais de duração do inverno britânico. Muitos não têm escolha e deixam o aquecimento desligado porque não podem pagar as contas.
Um caso particular
Uma britânica que não pode ligar o aquecimento no inverno é Geraldine Pool, de Salisbury, sudoeste da Inglaterra, diagnosticada com depressão, divorciada, com um filho e sem trabalho. ACarta Maior conversou com Pool, um caso típico do impacto devastador que a austeridade está a ter em muitas vidas. “Em 2011 perdi o meu trabalho numa biblioteca pública pelos cortes do governo. Desde então, procurei trabalho em administração, supermercados, seja o que for, mas é muito difícil para alguém com mais de 50 anos porque sempre preferem os mais jovens”, disse Pool.
O Estado paga-lhe 61 libras semanais (99 dólares) a título de subsídio de desemprego e fornece assistência habitacional. “Não é suficiente. Se uso o aquecimento, as contas sobem para quase 300 libras semanais”. Neste momento não tenho água quente. Tenho de aquecer a água para me lavar”, explica Pool.
Pool tinha ouvido falar dos bancos de alimentos, mais foi por causa da sua médica do Sistema Nacional de Saúde que acabou por ir a um. “Não queria recorrer a isso. Mas foi fundamental. Com os “vouchers” (vales) deram-me latas de carne, peixe, massa, leite, açúcar. Umas seis semanas depois, no último Natal, tive um segundo pacote muito completo de alimentos”, assinalou à Carta Maior.
Os Bancos de Alimentos procuram trabalhar muito perto da comunidade e funcionam com as contribuições voluntárias da população e, em muito menor medida, de supermercados ou fazendeiros. “Cerca de 95% dos alimentos que temos vem das pessoas a quem pedimos que adquiram dois itens adicionais num supermercado que sirvam para uma nutrição balanceada”, informa Mould.
Os bancos ligam-se a figuras chave da comunidade em consultórios médicos, hospitais, serviços sociais, igrejas e, nalguns casos, da polícia que identificam as pessoas que podem necessitar estes vales para ter acesso a um pacote de alimentos. Num caso raro de sensibilidade social, a polícia de Islington, no norte de Londres, não prendeu um jovem que havia tentado roubar pão e ovos de um mercado, após passar dias sem se alimentar. Quando a pessoa em questão, Adam, relatou o seu drama, levaram-no ao banco de alimentos onde, segundo o testemunho dos próprios policiais, começou a chorar.
A Trussell Trust calcula que necessitará de uns “mais uns 200 ou 300 bancos de alimentos” para cobrir todo o Reino Unido, mas é consciente de que, com toda a sua boa vontade, funciona como um paliativo: necessário, muito útil, mas insuficiente. “Nós intervimos nestes momentos de emergência e se for necessário ampliamos a nossa assistência. Mas o que é preciso é uma política social para o emprego, a habitação, salários dignos e estímulos ao crescimento. Devido a todos os cortes que ocorreram, estamos inundados de trabalho”, apontou Mould à Carta Maior.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer para a Carta Maior

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O que é um "bandido"?

Talvez uma das tarefas mais complexas e que provoca discussões quando nos debruçamos no estudo da violência de elevados números de homicídios e assaltos na realidade atual do Brasil, seja tentar explicar o que é o que se espalha como "bandido".

Não se trata de mera violência resultado da pulsão agressiva do Homo, e sim uma "Violência Social", em um grande "sistema" de delinquência, degradação, exclusão, e um uso mal racionalizado dessa capacidade agressiva.

Quem vem a ser o "bandido" que figura nos noticiários policiais. Há os que dizem que são vagabundos desocupados, não querem trabalhar e por isso se tornam marginais, ligação entre não trabalho e marginalidade, hipótese de há muito discutida na sociologia.  Há outros, mas próximos de "explicações" metafísico-religiosas que tratam como encarnação do mal concreto e, para um terceiro grupo a questão da criminalidade em escala endêmica seria fruto somente de exclusão social e baixa ou nenhuma escolaridade.
A primeira hipótese levantada tem por seu inverso o trabalho, se trabalhar seguirá os "ditames ou a cartilha do jogo da boa conduta social, já que segundo os defensores desta perspectiva, roubam aqueles que não trabalham, esses são favoráveis a repressão violenta do delinquente, pena de morte, tortura etc; quem ouvir um programa policial no Brasil logo verá isto sendo dito e gesticulado na TV.

A questão do trabalho como disciplinador já fora intensamente discutido pelas ciências sociais, Michel Foucault, verifica como a sociedade burguesa usa a prisão para absorver uma "mão-de-obra não disciplinada e, Bauman, mais recentemente na obra Trabalho, consumismo e novos pobres volta a esta mesma discussão para dizer que há  uma "ética" do trabalho, em resumo, o trabalho passa a ter um caráter moralístico na sociedade industrial e pós-industrial.

"A ética do trabalho afirmava a superioridade moral de qualquer tipo de vida (Sem importar o quão miserável que fosse), contanto que se sustentasse com o  salário do próprio trabalho". (Bauman)

O segundo ponto, se direciona para a existência de um mal ou de pessoas essencialmente más, seriam pessoas inatamente inaptas para o convívio social. Argumento não aceito pela ciência, já que é apenas retórico, não se pode dizer o que seria um mal absoluto.

Por fim, o último argumento, vai para o lado econômico-político da sociedade, sem acreditar a completa eliminação do crime, já que isso seria utópico, mas apenas tratando da uma grande violência, como dito, endêmica. Fala-se muito do uso da educação para retirar da sociedade essas mazelas, mas o conceito de educação é relativo, até poucas décadas atrás o número de pessoas iletradas ficava em torno dos 70% mas talvez fosse melhor educadas do que agora, quando se diz, números do IBGE, que o número de analfabetos é de 8% apenas. Até 1970 os números de homicídios eram incomparáveis com o que ocorre agora, e a miséria era muito maior.

O que mudara? Não queremos idealizar um passado, mas é que a própria sociedade, evidentemente, mudou. Os números dos homicídios se elevam junto com a urbanização, lembre-se de que até a segunda metade do século XX a maioria da população brasileira era rural. O viver urbano, globalizado, consumista, é diverso, e ele é responsável pela criação dessa forma de marginalização.

Sobre educação, o Instituto Avante Brasil desconsidera os números do IBGE e eleva para 75% a população analfabeta do país, ou seja, muda de saber  usar palavras para escrever, por exemplo, o nome, e requer uma condição de escrever textos mais elaborados e compreender informações escritas, muitos chamam de analfabetismo funcional.

De todas as três hipóteses a última tem maior fundamento, precisamos refletir bastante sobre o que é educação, sua a função além de números; Rousseau escreveu sobre educação sem falar de ciência ou filosofia; precisamos falar de democracia, não a vertical Estado-povo, mas sim a Democracia Horizontal Cidadãos-Cidadãos-Estado.

Por fim, claro que não respondemos a pergunta do título deste artigo, mas é esta a finalidade, não deixemos que nos enfiem na cabeça falsas ideias grosseiras, que só atrapalham que discutamos questões sérias que envolvem pessoas.

Autor

Luiz Rodrigues Junior

MP pede inspeção extraordinária nas contas do governo do RN

O Ministério Público de Contas solicitou na manhã de hoje (16) através de Representação que o Pleno do TCE determine a realização de inspeção nas contas no Governo do Estado, notadamente nas Secretarias de Planejamento, Tributação e Administração e Recursos Humanos. Na Representação, o procurador geral Luciano Ramos enumera dezessete itens que deverão ser analisados,  entre eles,  a verificação das razões que levaram o governo  a atrasar o pagamento dos funcionalismo no segundo semestre de 2013. A representação do procurador também pede para apurar o impacto da opção de construção da Arena das Dunas via Parceria Público-Privada no endividamento do Estado, bem como observância da LRF no planejamento desta despesa.

Luciano Ramos questiona ainda se houve utilização de empréstimos e receitas extraordinárias no pagamento de despesas pertinentes à folha de pessoal, como também pede a que seja apurada a responsabilidade dos gestores, inclusive a Governadora do Estado, por ação ou omissão pertinente aos atos apontados,  verificando se houve ocorrência de ato doloso de improbidade administrativa, nos termos da LC nº 135/2010.

Cabe ao presidente do TCE, Paulo Roberto Alves, designar o relator para acompanhar a  inspeção, embora o procurador geral sugira que o conselheiro Poti Junior, que irá relatar as contas anuais do governo em 2014, seja também o responsável pela condução dessa inspeção. 

Fonte: TCE-RN

‘A sociedade em seu conjunto terá de mudar, porque é ela quem autoriza, hoje, a barbárie policial’, entrevista com Luiz Eduardo Soares

A desmilitarização da polícia, uma das bandeiras das jornadas de junho, sempre foi uma das principais de Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública, professor da UERJ e antropólogo. Nesta entrevista, o autor de mais de 20 
livros, entre eles Tudo ou Nada, Elite da Tropa e Cabeça de Porco, explica o motivo de sua defesa, e aponta que este é apenas o primeiro passo para o caminho árduo de construção de uma sociedade “efetivamente democrática e comprometida com o respeito aos direitos humanos”. Luiz Eduardo foi um dos principais elaboradores da PEC-51 – recentemente apresentada pelo senador Lindbergh Farias (PT/RJ) – que visa, segundo ele, reformar o modelo policial.

Nós temos uma polícia e um corpo de bombeiros que é militar. Você há muito tempo defende a desmilitarização. Por quê?

Considero a desmilitarização das polícias indispensável e a dos bombeiros absolutamente conveniente, ainda que essa mudança não seja suficiente. Mesmo porque nossas polícias civis não têm menos problemas do que as militares. Em primeiro lugar, é preciso saber o que significa, para uma polícia, ser militar. No artigo 144 da Constituição, significa obrigá-la a copiar a organização do exército, do qual ela é considerada força reserva. O melhor formato organizacional é aquele que melhor permite à instituição cumprir suas finalidades. Finalidades diferentes requerem estruturas organizacionais distintas. Portanto, só faria sentido reproduzir na polícia o formato do exército se as finalidades de ambas as instituições fossem as mesmas. Não é o que diz a Constituição. O objetivo do exército é defender o território e a soberania nacionais. Para cumprir essa função, tem de organizar-se para realizar o pronto emprego, ou seja, mobilizar grandes contingentes humanos e materiais com máxima celeridade e rigorosa observância das ordens proferidas pelo comando. Precisa preparar-se para, no limite, fazer a guerra. Pronto emprego exige centralização decisória, hierarquia rígida e estrutura fortemente verticalizada. Nada disso se aplica à polícia militar. Seu papel é garantir os direitos dos cidadãos, prevenindo e reprimindo violações, recorrendo ao uso comedido e proporcional da força. Segurança é um bem público que deve ser provido universalmente e com equidade pelos profissionais incumbidos de prestar esse serviço à cidadania. Os confrontos armados são as únicas situações em que alguma semelhança poderia haver com o exército, ainda que mesmo nesses casos as diferenças sejam marcantes. Mas eles correspondem a menos de 1% das atividades que envolvem as PMs. A imensa maioria dos desafios enfrentados pela polícia ostensiva são melhor resolvidos com a adoção de estratégias incompatíveis com a estrutura organizacional militar. Refiro-me ao policiamento comunitário, os nomes variam conforme o país.
E em que sentido o policiamento comunitário distingue-se das ações militares? 
Essa metodologia é inteiramente distinta do “pronto emprego” e implica o seguinte: o ou a policial na rua não se limita a cumprir ordens, fazendo ronda de vigilância ou patrulhamento ditado pelo estado-maior da corporação, em busca de prisões em flagrante. Ele ou ela é a profissional responsável por agir como gestora local da segurança pública, o que significa, graças a uma educação interdisciplinar e altamente qualificada: diagnosticar os problemas e identificar as prioridades, em diálogo com a comunidade, mas sem reproduzir seus preconceitos; planejar ações, mobilizando iniciativas multissetoriais do poder público, na perspectiva de prevenir e contando com o auxílio da comunidade, o que se obtém respeitando-a.

Para que haja esse tipo de atuação, é imprescindível valorizar quem atua na ponta, dotando essa pessoa dos meios de comunicação para convocar apoio e de autoridade para decidir. Há sempre supervisão e interconexão, mas é preciso que haja, sobretudo, autonomia para a criatividade e a adaptação plástica a circunstâncias que tendem a ser específicas aos locais e aos momentos. Qualquer profissional que atua na ponta, sensível à complexidade da segurança pública, ao caráter multidimensional dos problemas e das soluções, ou seja, qualquer policial que atue como gestor ou gestora local da segurança pública, deve dialogar, evitar a judicialização sempre que possível, mediar conflitos, orientar-se pela prevenção e buscar acima de tudo garantir os direitos dos cidadãos. Dependendo do tipo de problema, mais importante do que uma prisão e uma abordagem posterior ao evento problemático, pode ser muito mais efetivo iluminar e limpar uma praça, e estimular sua ocupação pela comunidade e pelo poder público, via secretarias de cultura e esportes. Os exemplos são inúmeros e cotidianos. Esse é o espírito do trabalho preventivo a serviço dos cidadãos, garantindo direitos. Esse é o método que já se provou superior. Mas tudo isso requer uma organização horizontal, descentralizada e flexível. Justamente o inverso da estrutura militar. ‘E o controle interno?’, alguém arguiria. Engana-se quem supõe que a adoção de um regimento disciplinar draconiano e inconstitucional seja necessária. Se isso funcionasse, nossas polícias seriam campeãs mundiais de honestidade e respeito aos direitos humanos. Eficazes são o sentido de responsabilidade, a qualidade da formação e o orgulho de sentir-se valorizado pela sociedade. Além de tudo, corporações militares tendem a ensejar culturas belicistas, cujo eixo é a ideia de que a luta se dá contra o inimigo. Nas PMs, tende a prosperar a ideia do inimigo interno, não raro projetada sobre a imagem estigmatizada do jovem pobre e negro. Uma polícia ostensiva preventiva para a democracia tem de cultuar a ideia de serviço público com vocação igualitária e radicalmente avessa ao racismo.
A militarização da polícia justifica o seu comportamento? Uma vez desmilitarizada, qual seria o passo seguinte, uma vez que a corporação será a mesma?
Como disse, respondendo à primeira pergunta, desmilitarizar é apenas uma das mudanças indispensáveis. Isolada, cada uma delas será insuficiente. E não nos iludamos: toda reforma institucional da segurança pública será somente um passo numa caminhada mais longa e difícil, rumo à construção de uma sociedade efetivamente democrática e comprometida com o respeito aos direitos humanos, na qual a justiça mereça o nome que tem. A sociedade em seu conjunto terá de mudar, porque é ela quem autoriza, hoje, a barbárie policial, aplaudindo execuções, elegendo políticos que defendem o direito penal máximo e governos que acionam a violência do Estado. As transformações, um dia, terão de incluir a legalização das drogas, que considero uma mudança fundamental. No momento, contudo, o que está em questão, e com máxima urgência, é salvar jovens negros e pobres do genocídio, é acabar com as execuções extra-judiciais, as torturas, a criminalização dos pobres e negros, é reduzir o número inacreditável de crimes letais intencionais, é suspender o processo de encarceramento voraz, que atinge exclusivamente as camadas sociais prejudicadas pelas desigualdades brasileiras, é sustar a aplicação seletiva das leis, que vem se dando em benefício das classes sociais superiores, dos brancos, dos moradores dos bairros afluentes de nossas cidades. Portanto, nada de idealizações ao avaliar as reformas propostas. O que não significa que cada passo não seja de grande relevância e mereça todo empenho de quem se sensibiliza com a tragédia nacional, nessa área, tão decisiva e negligenciada.
Historicamente, tivemos momentos que a luta pela desmilitarização da polícia aparece, como na promulgação da Constituição de 1988. Por que ela não aconteceu?
Não houve comprometimento suficiente das forças mais democráticas, a sociedade não se mobilizou, os lobbies corporativistas das camadas superiores das polícias se mobilizaram, as forças conservadoras se uniram e funcionou a chantagem dos antigos líderes da ditadura, em declínio, mas ainda ativos.
Nas jornadas de junho de 2013, e em seus desdobramentos, a brutalidade policial, que era e continua a ser cotidiana nos territórios populares, chegou à classe média e chocou segmentos da sociedade que antes ignoravam essa realidade ou lhe eram indiferentes. A esperança reside na continuidade dos movimentos sociais, que adquiriram novo ímpeto, e em sua capacidade de pautar esse debate e incluí-lo na agenda política. Não vai ser fácil. Mas tampouco será impossível. Abriu-se para nós, pela primeira vez, uma temporada de frestas.
Existem diversos projetos em tramitação para a desmilitarização da polícia: um proposto pelo senador Blairo Maggi, outro do ex-deputado Celso Russomanno, e o mais recente proposto pelo senador Lindbergh Farias, sob sua consultoria, a chamada PEC-51. No que eles se diferenciam?
Há mais de 170 projetos no Congresso Nacional propondo a reforma do artigo 144 da Constituição. Vários incluem a desmilitarização. Nenhuma proposta de emenda constitucional é tão ousada e completa quanto a PEC-51. Nenhuma incorporou 25 anos de militância, experiência, debate e pesquisas, ouvindo profissionais das polícias e da universidade, operadores da justiça e protagonistas dos movimentos sociais, e buscando o denominador comum. Isso não significa unanimidade. Há interesses contrariados e haverá resistências corporativistas, assim como posições ideológicas em oposição. Entretanto, o envolvimento de muitos movimentos, inclusive de policiais, já indica seu potencial para construir um consenso mínimo e sensibilizar a sociedade. 70% dos profissionais da segurança querem a mudança, como pesquisa de que participei demonstrou, em 2010. Não necessariamente querem a mesma mudança, mas o reconhecimento da falência do modelo atual é, em si mesmo, significativo.
Você ajudou a formular a PEC -51. Como foi isso e quais são as expectativas?
A PEC-51 visa reformar não apenas as PMs, desmilitarizando-as, mas o próprio modelo policial, atualmente baseado na divisão do ciclo do trabalho policial: uma polícia investiga, outra faz o trabalho ostensivo-preventivo. Pretende também instituir carreira única em cada polícia e transferir aos estados o poder de escolher o modelo que melhor atenda suas peculiaridades, desde que as diretrizes gerais sejam respeitadas. Hoje, em cada estado, as duas polícias, civis e militares, na verdade são quatro instituições ou universos sociais e profissionais distintos, porque há a polícia militar dos oficiais e dos não-oficiais (as praças), a polícia civil dos delegados e dos não-delegados como, por exemplo, os agentes, detetives, inspetores, escrivães etc. A PEC propõe que o ciclo de trabalho policial seja respeitado e cumprido em sua integralidade, por toda instituição policial. Ou seja, toda polícia deve investigar e prevenir. Propõe também a carreira única no interior de cada instituição policial. E propõe que toda polícia seja civil. A transição para o novo modelo, caracterizado pelo ciclo completo, a carreira única e a desmilitarização, uma vez aprovada a PEC, dar-se ia ao longo de muitos anos, respeitando-se todo direito adquirido de todos os trabalhadores policiais, inclusive, é claro, dos que hoje são militares. O processo seria conduzido pelos estados, que criariam suas novas polícias de acordo com suas necessidades. A realidade do Acre é diferente de São Paulo, por exemplo. A transição seria negociada e levada a cabo com transparência e acompanhamento da sociedade. As polícias seriam formadas pelo critério territorial ou de tipo criminal, ou por combinações de ambos. Um exemplo poderia ser o seguinte: o estado poderia criar polícias – sempre de ciclo completo, carreira única e civis – municipais nos maiores municípios, as quais focalizariam os crimes de pequeno potencial ofensivo, previstos na Lei 9.099; uma polícia estadual dedicada a prevenir e investigar a criminalidade correspondente aos demais tipos penais, salvo onde não houvesse polícia municipal; e uma polícia estadual destinada a trabalhar exclusivamente contra, por exemplo, os homicídios. Há muitas outras possibilidades autorizadas pela PEC, evidentemente, porque são vários os formatos que derivam da combinação dos critérios referidos.


Por Viviane Tavares (Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz), em janeiro de 2014.
Entrevista socializada pela EPSJV / Fiocruz e reproduzida pelo EcoDebate

Alemanha teve em 2013 o PIB mais baixo dos últimos 4 anos

A economia alemã não conseguiu ganhar impulso no quarto trimestre de 2013 e cresceu apenas 0,25 por cento em relação ao quarto trimestre de 2012, completando assim o nível anual mais baixo desde a recessão de 2009, quando esta economia caiu -5,1 por cento. Por Marco Antonio Moreno
Imagem: PIB da Alemanha 2003-2013
O produto interno bruto da Alemanha (PIB) cresceu 0,4 por cento em 2013, abaixo dos 0,7 por cento de 2012, dos 3,3 por cento de 2011 e dos 4 por cento de 2010. A economia alemã marca assim um profundo retrocesso, principalmente pela queda das exportações e dando conta que a recessão na zona euro persiste. Os dados foram publicadas nesta quarta-feira (15 de janeiro) pelo Instituto Federal de Estatística de Berlim, Destatis.
Isto confirma que a economia da Alemanha se viu fortemente afetada pelos planos de austeridade que têm aprofundado a crise nos países europeus e também pelo lento crescimento que vive a economia global. 2013 foi um ano decepcionante para o comércio internacional e a Alemanha sofreu uma importante queda das exportações. O arrefecimento que atinge o comércio mundial com a desaceleração no ritmo das importações encabeçada pela China está a provocar uma “moderação” não desejada.
As exportações da Alemanha aumentaram apenas 0,6 por cento em 2013, contra o crescimento de 3,2 por cento em 2012, dando conta da deterioração da robusta máquina exportadora germânica. O motor de crescimento da Alemanha foi desta vez o aumento do consumo das famílias de 0,9 por cento e o aumento no consumo final do governo de 1,1 por cento. Mesmo assim, é débil o aumento no consumo para um país que ostenta os melhores índices de emprego na Europa. Isto dá conta que grande parte desse emprego é trabalho precário e mal remunerado.
A Alemanha registou um défice fiscal de 0,1 por cento do PIB em 2013, em contraste com as perspetivas de um orçamento equilibrado. O endividamento líquido situou-se em 22.100 milhões de euros, muito abaixo do nível de endividamento objetivo de 25.100 milhões de euros. A despesa foi menor ao estimado em 2,2 por cento e os rendimentos sofreram uma deterioração de 0,8 por cento.
A balança comercial teve uma contribuição negativa para o PIB. Em termos de preços ajustados, as exportações alemãs de bens e serviços aumentaram 0,6 por cento em relação ao ano anterior, enquanto as importações subiram 1,3 por cento. O investimento reduziu-se em 2013, não só por causa das más perspetivas de negócios na zona euro mas também nos mercados emergentes que sofrerão em 2014 uma descida, produto da queda no valor das matérias primas.
Artigo de Marco Antonio Morenopublicado em El Blog Salmón

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Fórum Econômico Mundial lista 10 riscos para a próxima década

O Fórum Econômico Mundial, fórum dos bilionários, listou 10 riscos para a economia Mundial nas próximas décadas. Entre eles aparecem questões que podem levar a comoções sociais graves.

Crise fiscal em economias-chave
Crises fiscais apresentam como o risco topo neste ano Riscos Globais relatório. As economias avançadas permanecem em perigo, enquanto muitos mercados emergentes têm visto o crescimento do crédito nos últimos anos, o que poderia abastecer crises financeiras. A crise fiscal em qualquer grande economia poderia facilmente ter impactos globais.
Estruturalmente alto desemprego / subemprego
O desemprego aparece em segundo lugar geral, pessoas tanto em economias avançadas como em emergentes lutam para encontrar emprego. Os jovens são particularmente vulneráveis ​​- o desemprego dos jovens é tão alto chegando a 50% em alguns países e o subemprego (com empregos de baixa qualidade) continua a prevalecer, especialmente em mercados emergentes e em desenvolvimento.
Crises de água
Problema ambiental sério.
Desigualdade de renda
Dados mostram que após a crise de 2008 a desigualdade cresceu no Mundo todo.
Fracasso da mitigação e adaptação às alterações climáticas
Mesmo que os governos e corporações sendo chamados a acelerar a redução de gases de efeito estufa, é claro que a corrida é não só para mitigar a mudança climática, mas também para se adaptar. Incapacidade de se adaptar tem o maior efeito sobre os mais vulneráveis, especialmente aqueles em países menos desenvolvidos.
Maior incidência de eventos climáticos extremos (por exemplo, inundações, tempestades, incêndios)
A mudança climática é o principal motor de padrões climáticos incertos e mutáveis, causando um aumento da frequência de eventos climáticos extremos, como inundações e secas.
 Fracasso da governação global
O risco de fracasso da governação global foi vista pelos entrevistados como um dos riscos que está mais ligado aos outros. Instituições globais fracas ou inadequados, acordos ou redes, combinado com concorrentes interesses nacionais e políticos, impedem tentativas de cooperar no tratamento dos riscos globais.
As crises alimentares
Recentemente a ONU mostrou que 1 em cada 8 habitantes da terra passam fome.
A falha de um grande mecanismo financeiro/instituição
Uma crise de um grande Banco pode levar a um impacto generalizado
10. Instabilidade política e social profunda
No número 10 é o risco de que um ou mais países sistematicamente importantes terão erosão significativa de confiança e de obrigações mútuas entre os Estados e os cidadãos. Isto poderia levar ao colapso do Estado, violência interna, a instabilidade regional ou global e, potencialmente, o conflito militar.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Noam Chomsk: Sobre o anarquismo, o leninismo e o capitalismo…

Noam Chomsky
1.“Fui atraído pelo anarquismo logo a partir da adolescência, quando comecei a pensar o mundo para além das coisas pequeninas, e desde então não tive muitas razões para corrigir essa atitude inicial. Penso que, de facto, o que faz sentido é investigar e identificar as estruturas de autoridade, hierarquia e domínio, em todos os aspectos da vida, para depois nos confrontarmos com elas. A menos que tenham uma justificação são ilegítimas e deveriam ser desmanteladas de forma a que a liberdade humana pudesse ser ampliada. Isto inclui o poder político, a propriedade e a administração, as relações entre homens e mulheres, pais e filhos, o nosso controlo sobre o destino das gerações futuras (o imperativo moral básico por trás do movimento para o meio ambiente, segundo penso), e muito mais. Naturalmente isto significa um desafio às poderosas instituições de coerção e controlo: o Estado, as inúmeras tiranias privadas que dominam a maior parte da economia nacional e internacional, etc.. e mais do que isto. Foi tudo isso que sempre entendi ser a essência do anarquismo: a convicção de que o ónus da prova deve ser dado pela própria autoridade, e que ela deve ser desmantelada se não conseguir dar uma resposta positiva. É que, por vezes, essa prova existe. Se eu for dar um passeio com os meus netos e eles se precipitarem para uma rua movimentada, eu usarei não só da minha autoridade mas também da coerção física para os impedir de atravessarem a rua. É um exemplo típico. E existem outros casos; a vida é uma coisa complexa, há muitas coisas que não entendemos sobre o ser humano e a sociedade, e grandes declarações são frequentemente fonte de mais sofrimentos do que de benefícios. Mas penso que a perspectiva é válida e que nos pode levar longe. (…)
2. A crítica à “democracia” entre os anarquistas tem sido frequentemente a crítica à democracia parlamentar, porque ela surgiu em sociedades com características profundamente repressivas. Tomemos os EUA por exemplo, que foram livres desde as suas origens. A democracia americana foi fundada no princípio, sublinhado por James Madison na Convenção Constitucional de 1787, de que a primeira função do governo é “proteger a minoria da maioria.” Deste modo ele argumentava que na Inglaterra, o único modelo quase-democrático da época, se fosse dada palavra à população em geral, nos destinos públicos, ela implementaria uma reforma agrária ou outras atrocidades, e que o sistema americano devia ser cuidadosamente concebido para evitar tais crimes contra “os direitos da propriedade,” os quais devem ser defendidos (de facto, devem prevalecer). A democracia parlamentar dentro deste quadro merece uma crítica aguda pelos libertários genuínos, e deixei de fora muitas outras características que dificilmente se podem considerar subtis – a escravatura, para mencionar apenas uma, ou a escravatura do salário que foi amargamente condenada por gente trabalhadora que nunca ouviu falar de anarquismo ou comunismo durante o século XIX, e para além deste.
Marxismo- Leninismo
3.(…) Se por esquerda é suposto incluir o “bolchevismo”, então eu dissocio-me terminantemente da esquerda. Lenine foi um dos maiores inimigos do socialismo, na minha opinião, pelas razões que temos discutido. Os avisos de Bakunine sobre a “Burocracia Vermelha” que instituiria “o pior de todos os governos despóticos” foram feitos muito antes de Lenine, e eram dirigidos contra os seguidores de Marx. Existiam, de facto, seguidores de muitos tipos diferentes: Pannekoek, Luxembourg, Mattick e outros estão muito distantes de Lenine, e as suas posições convergem frequentemente com elementos do anarco-sindicalismo. Korsch e outros manifestaram  simpatia pela revolução em Espanha..Existe uma relação de continuidade entre Marx e Lenine, mas também existe uma continuidade mesmo até aos marxistas que eram severos críticos de Lenine e do bolchevismo. O trabalho de Teodor Shanin nos últimos anos sobre as atitudes tardias de Marx em relação à revolução camponesa também é relevante. Eu não sou propriamente um estudioso de Marx, e não arriscaria nenhum julgamento sério sobre qual destas continuidades reflecte o “verdadeiro Marx”, mesmo que exista uma resposta a essa questão.(…)
 4.O Marx inicial aproxima-se consideravelmente do meio em que viveu, e encontram-se muitas semelhanças com o pensamento que animou o liberalismo clássico, aspectos do Iluminismo, e do Romantismo francês e germânico. Uma vez mais, não sou um grande estudioso de Marx para pretender dar um julgamento com opinião autorizada. A minha impressão, sem qualquer garantia, é que o Marx inicial era uma figura do Iluminismo tardio, e o Marx posterior era um activista altamente autoritário, e um analista crítico do capitalismo, que tinha pouco a dizer sobre alternativas socialistas. Mas isto são impressões. (…)
5.A minha reacção ao fim da tirania soviética foi semelhante à minha reacção à derrota de Hitler e Mussolini. Em qualquer dos casos foi uma vitória do espírito humano. Devia ter sido particularmente festejada pelos socialistas, uma vez que um grande inimigo do socialismo tinha por fim caído. Tal como você, fiquei admirado ao ver como as pessoas — incluindo gente que se tinha considerado anti-estalinista e anti-leninista — estavam desmoralizadas pelo colapso da tirania. O que revela que elas estavam mais profundamente comprometidas com o leninismo do que acreditavam.
6.Existem, contudo, outras razões a considerar acerca da eliminação deste sistema brutal e tirânico que tinha tanto de “socialista” como de “democrático” (lembre-se que ele se reclamava de ambos, e a última pretensão era ridicularizada no Ocidente, enquanto a primeira era ansiosamente aceite, como uma arma contra o socialismo — um dos muitos exemplos do serviço prestado pelos intelectuais do ocidente ao poder). Uma das razões tem a ver com a natureza da Guerra Fria. Do meu ponto de vista, isto deveu-se, sobretudo ao caso especial do “conflito Norte-Sul,” para usar um eufemismo que descreve a conquista europeia da maior parte do mundo. A Europa Oriental tinha sido o “terceiro mundo” original e a Guerra Fria desde 1917 não tinha a mais ligeira semelhança com a resposta às tentativas de prosseguir um caminho independente desencadeado por outros países do terceiro mundo, embora, neste caso, as diferenças de escala tenham dado ao conflito leste-oeste uma vida própria. Por esta razão, era razoável esperar que a região voltasse ao seu estatuto anterior: para algumas zonas do Ocidente, como a República Checa ou a Polónia Ocidental, existia a expectativa que se voltasse ao espaço europeu,, enquanto outras reverteriam ao tradicional papel de prestadora de serviços, com a ex-Nomenklatura a tornar-se na habitual elite terceiro-mundista (com a aprovação do poder corporativo-estatal do Ocidente, que normalmente os prefere às alternativas). Isto não era uma perspectiva agradável e levou a muito sofrimento.
Outro motivo de preocupação tem a ver com a intimidação e o não-alinhamento. Apesar de grotesco, o império soviético pela sua existência oferecia um certo espaço para o não-alinhamento e, por razões absolutamente cínicas, por vezes oferecia assistência às vítimas dos ataques ocidentais. Essas opções acabaram, e o Sul sofre agora as consequências.
Uma terceira razão tem a ver com aquilo a que a imprensa económica denomina de “trabalhadores ocidentais mal-habituados” com o seu “estilo de vida luxuoso.” Com a maior parte da Europa Oriental a voltar ao rebanho, o patronato e os gestores têm armas novas e poderosas contra as classes trabalhadoras e os pobres dos seus próprios países. A GM e a VW podem não só transferir a sua produção para o México ou para o Brasil (ou pelo menos ameaçar fazê-lo, o que geralmente vai dar no mesmo), mas também para a Polónia e Hungria, onde podem encontrar trabalhadores experientes e qualificados por uma fracção do custo. E, compreensivelmente,  estão a regozijar-se com isso, dados os valores vigentes.
Podemos aprender muito sobre o que significou a Guerra Fria (ou qualquer outro conflito) ao procurar quem lucrou ou quem ficou prejudicado depois dela acabar. Por esse critério, nos vencedores da Guerra Fria incluem-se as elites ocidentais e a ex-Nomenklatura, agora mais ricos do que alguma vez sonharam, e nos derrotados inclui-se uma parte substancial da população do Leste, lado a lado com os trabalhadores e os pobres do Ocidente, bem como sectores populares do Sul que procuraram seguir um caminho independente.

Lenin foi o maior inimigo do socialismo no século XX?

"Se por esquerda é suposto incluir o “bolchevismo”, então eu dissocio-me terminantemente da esquerda. Lenine foi um dos maiores inimigos do socialismo, na minha opinião". (Noam Chomsky)

Chosky diz que descobrira este fato ainda na sua adolescência, Lenin representava o controle totalitário, matra o socialismo ao dizer "todo o poder aos sovietes" enquanto tratava de os destruí-los. Os sovietes que eram autênticas instituições políticas libertárias e democráticas.

Rosa Luxemburg, que para Chomsky estaria em uma "esquerda" dentro da esquerda, já depois de morte teve uma forte pressão sobre seu escrito, "A Revolução Russa" de 1918, por parte de Lenin para que não fosse publicado, neste texto Rosa diz que "liberdade é sempre a liberdade dos que pensam de modo diferente", um ideal para a sociedade do século XXI. Lenin um burocrata intolerante não saberia conviver com o pensamento discordante, um perigo para a humanidade.

Parte da esquerda atual põe a culpa pelo fracasso da União Soviética em Stálin, que fora um dos grandes psicopatas sociais, mas a Revolução Russa, feita pelo povo já havia sido engolida pelos Bolcheviques de Lenin.


Trabalho, Cultura e Exclusão social

O trabalho descreve um conceito físico e intelectual tendente a que o indivíduo garanta sua subsistência transformando o ambiente que habita. Mas o fato do trabalho em si tem outras perspectivas de questões culturais que devem ser consideradas como reflexão e como elemento análise, como parte do fenômeno do desemprego e da mudança social e posição ideológica sobre o que significa ser empregado ou desempregado na sociedade atual.
trabajo, cultura, exclusión social,
O caráter vital do trabalho como pilar e símbolo da moderna sociedade globalizada tem a ver com suas raízes em uma cultura particular, entendendo a cultura  como um sistema de valores, crenças, normas e atitudes que definem o que se entende por certo e errado, por bom e mal e enquadra os limites do comportamento esperado dos componentes do grupo humano. Não é um sistema fechado, os indivíduos imersos nessa cultura, exploram, experimentam e impulsionam processos de mudança que modificam a percepção de certos elementos ao longo do tempo. O poder, a família, o trabalho, a lei ou religião, são, portanto, instituições que estruturam a sociedade e estão sujeitas a mudanças em seus códigos de significado.

A cultura proporciona ao indivíduo uma certa visão de mundo que é compartilhada pela maioria e que é  que versa sobre o significado da vida e da morte, sobre as crenças e o significado do trabalho. Portanto, todas as culturas têm resolvido, ou pelo menos tem tentado responder às grandes questões com que o homem se tem deparado através de sua vida em sociedade. O trabalho, como um elemento que define as idiossincrasias de uma sociedade sofreu mudanças em seu simbolismo e avaliação ao longo da história .
O trabalho desde a Grécia Clássica até a reforma protestante
Voltando no tempo até as origens culturais da nossa sociedade pós-industrial e situando-nos na Grécia clássica, o trabalho foi tomado como um elemento menor, negativo, inferior. O trabalho se valorava como algo que degrada a própria natureza do homem e foi relegado aos escravos como necessário, mas indigno. A dedicação à cultura, estudo ou simples prazer de lazer, estas sociedades escravistas era o caminho da auto-realização do espírito do homem. É possível que esta consideração da práxis do trabalho como algo negativo, impedira à cultura greco-romana destacar-se no desenvolvimento tecnológico, já que à seu grande potencial teórico e cognitivo se opunha uma quase nula experimentação e uma total falta de metodologia prática. Esta ruptura entre teoria e empirismo e seu desprezo pelo trabalho, diminuiu o potencial de sua bagagem cultural, pelo menos na sua vertente mais relacionada aos avanços tecnológicos.

Na cultura judaico-cristã o trabalho se define originalmente  como um negativo, prejudicial ao homem. Possivelmente seguindo os mesmos princípios do mundo grego, do qual os hebreus  bebem em muitos aspectos. Mais tarde, a religião cristã muda a divisão do trabalho como algo mal, fruto do pecado, para conceder um valor de redenção e sacrifício que tem a virtude de retirar o indivíduo das tentações mundanas e dos vícios. Especialmente a partir de Santo Agostinho a religião Católica enfatiza o valor de submissão e obediência ao trabalho como rasgos positivos a destacar na nova cultura do cristianismo.

É com a Reforma Protestante de Lutero quando a cultura ocidental desenvolve os grandes postulados do trabalho como um elemento não já positivo, mas essencial para o desenvolvimento espiritual e social adequado do indivíduo. Com o florescimento da ética protestante o trabalho atinge um alto grau de avaliação, uma vez que considera a prosperidade e a laboriosidade como sinais inequívocos de salvação eterna e um sinal da vontade de Deus através de predestinação. Vocação profissional é colocado no mesmo nível da vocação religiosa. O desenvolvimento da Revolução Industrial e do capitalismo na Europa, nos séculos XVIII e XIX deve muito a essa visão de mundo promovida pela Reforma, embora ambas as situações (crenças e Tecnologia) sejam alimentadas de volta e misturadas com muitos outros processos históricos desenvolvidos naquela época, e  que têm o trabalho, o capital e as massas trabalhadoras como protagonistas importantes.

O sociólogo alemão Max Weber, em sua obra "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", percebe a maneira brilhante e científica de todo o processo histórico e das implicações políticas e econômicas e sociológicas do surgimento do trabalho como um conceito cultural em expansão e um valor básico para transmitir na socialização das novas gerações.
Marx: o homem como ser de Práxis ou o trabalho como alienação
Como consequência não intencional se produz uma situação de turbulência laboral devido à rápida expansão do capitalismo industrial e as deficiências nos processos de adaptação de milhões de novos trabalhadores da fábrica causam o transbordamento das cidades como resultado do afluxo maciço deste exército de trabalhadores provenientes do campo e de áreas menos desenvolvidas .

A partir da análise sociológica e dialética que realiza Marx sobre a questão da alienação, podemos ver que também o trabalho para os marxistas é um fato muito apreciado. O homem tem na auto-realização de seu trabalho uma de suas características. Mas, para Marx a abordagem calamitosa que faz o capitalismo da organização do trabalho e a perda de controle dos trabalhadores do resultado de seu trabalho, lhes faz infelizes, frustra e isola dele dos outros e de si mesmo na medida em que limita o seu verdadeiro potencial como criador e transformador do meio ambiente e da sociedade em que vive. Nas palavras de Marx, o homem é um "ser de práxis", um ser que se desenvolve de forma quase inata habilidades sociais e que transmite no processo de trabalho parte de sua própria essência humana. A importância do trabalho, transcende assim, para além da mera necessidade de subsistência. Trabalho e socialização são inerentes aos seres humanos e da cultura em que está imerso.
O trabalho na cultura pós-industrial: a maldição do desemprego
A opinião de que " você é o que faz " é generalizada e é parte da cultura que emana do século XVIII, mas este axioma aparente está causando estragos nos comportamentos sociais da classe média e trabalhadora do nosso tempo, sobretudo se você considerar que vivemos em um tempo em que o sonho do emprego fixo, estável e regular tornou-se uma quimera. O trabalho, como o núcleo da atividade social do indivíduo, lhe dá valor e reconhecimento a seu grupo de pares, atribuindo um certo status social. A ausência de trabalho supõe a exposição à perda de status que concede o trabalho.

O homem e a mulher da cultura pós-industrial têm sido sujeitos a mais  mudanças sociais em cem anos, do que o resto de seus antepassados ​​nos últimos mil. A transição da família extensa para a família nuclear, a transformação do papel dos pais e sua perda de autoridade ditatorial dentro da família, a libertação das mulheres e a transformação de seu papel em um plano de igualdade dentro e fora da unidade familiar. Ao mesmo tempo, interagem também mudanças na estrutura social causadas, em parte, pelo advento da sociedade de conhecimento e pelos processos de globalização que têm afetado o planejamento dos mercados de trabalho. Todos estes elementos compõem o quadro social, fornecem uma referência para que o indivíduo seja reconhecido em seus múltiplos papéis: famíliar, cidadão, político e também para perceber sua própria condição profissional.

Portanto, o trabalho ainda está instituído como base e motor de nossa vida e de nossa força vital. A tragédia da perda de postos de trabalho, causando um pânico em curto prazo devido às consequências de natureza econômica que envolve a falta de postos de trabalho. De médio e longo prazo, as consequências do desemprego são de desconcerto, apatia, perda de auto-estima e uma diminuição da necessidade de interagir em grupos. Os mesmos critérios culturais, as mesmas condições éticas e morais que fizeram o trabalho uma necessidade e uma virtude a partir da Revolução Industrial, estão agora transformados em símbolos de culpa e frustração para a legião de desempregados na nova sociedade do século XXI .

As tendências futuras sobre as taxas de desemprego que podem suportar o sistema econômico e sua relação com a produtividade e a inflação são os principais assuntos discutidos pelos economistas, sociólogos e outros especialistas, configurando-se como o foco da discussão nos centros de poder. O que parece ter discussão neste momento é que o trabalho se tornou definitivamente um bem escasso, com tudo o que isso implica do ponto de vista cultural. O sistema econômico pode suportar um certo nível de desemprego e crescimento (Keynes), mas talvez seja o indivíduo o que não suporta a função de trabalhador  intermitente e residual, ou pior ainda, o de excluído social.
Trabalho, consumo e exclusão social
A perda de referência representada pela falta de trabalho e a consequente diminuição da capacidade de consumo, cria no indivíduo de hoje uma disfunção que afeta os valores que regem suas vidas, valores que têm sido socializados e normalizados por e para a sociedade de opulência de hoje (Galbraith). As nossas sociedades complexas e organizadas em grandes cidades concentram milhões de pessoas, concentrações humanas onde se gera uma grande interação entre os indivíduos, interação que tem como motores fundamentais o trabalho e o consumo. Ambos agentes que proporcionam orientação e identidade social.

Tomando a premissa afirmada no início desta seção, "você é o que você faz", e invertendo os termos, podemos concluir que "se você não faz, você não é." Isso é como dizer:  Se não trabalhas, não existe, se não consume não conta". É uma forma "moderada e  amável" de exclusão social que está implícita na forma como a sociedade tenta fazer invisível  o infeliz cidadão sem trabalho.

O desempregado, se torna "sutil e delicadamente" apartado da sociedade. Como  não-trabalhador, perde a sua utilidade social e produtiva e como não-consumidor perde sua capacidade de gasto e endividamento; em ambas as situações, o sistema também perde o interesse por um indivíduo que deixou de ter os principais atributos mais valorizados na cultura ocidental: desenvolvimento profissional e um cartão de crédito.
Texto de Guillermo Garoz López* retirado de ssociologos.com. Tradução Luiz Rodrigues.

Licenciado em Sociologia, Mestre em Recursos Humanos e Docente em Formação profissional.

Rosa Luxemburg: Uma vida curta

1871-1919
Uma vida curta, rica em perseguições, perpetuamente vigiada, sempre de volta à clandestinidade, presa, posta em liberdade, encarcerada, vivendo à margem da sociedade: para se naturalizar alemã, um casamento "de fachada", e, por fim, sabendo exatamente o que se anunciava, a marca do martírio - aquela que queria morrer no "seu posto", em pleno combate, caiu, sem que ninguém de seu próprio grupo a tivesse podido acompanhar, vítima de assassinos de uniforme: Lá vem Rosinha puta velha", gritavam os soldados quando a prisioneira entrou no Hotel Éden, para ser maltratada e arrastada por todos os lados. Um dos participantes pôs à venda mais tarde, na cozinha do Hotel Éden, um sapato que ela, ao ser arrastada, havia perdido - numa horrível dança da morte que ela não podia imaginar.

Uma vida curta, mais uma vez rica em perseguições, executada por aqueles que na noite de 15 de janeiro de 1919 se mostraram tais como Rosa Luxemburg os havia descrito: desumanos e cruéis.

Uma vida curta, mas, como mostram as cartas, uma vida moldada também pelo entusiasmo e a inspiração, por grandes triunfos, batalhas ganhas nas fileiras da esquerda socialdemocrata, histórias de amor ousadas, entre êxtase, desavenças, novos entusiasmos, renúncias amargas, reatamentos, namoros com rapazes, e, o mais importante, no final das contas, amizades, que iam e vinham, com mulheres mais velhas - aventuras e escaladas nos limites entre o plano político e o pessoal-privado, entre os grandes amores e a objetividade das pequenas informações.

Walter Jens
Rosa Luxemburg - Nem poeta, nem pétroleuse.


Sobre o uso da violência: "O Estado chama sua própria violência lei, mas a do indivíduo crime."

Em todas as formas de Estado, se define a este como a única entidade autorizada a exercer a violência no território que se formou. Esta teoria tem de contemplar a legitimidade necessária, outorgada logicamente pelos habitantes que fazem parte desse território.

Isto significa que o monopólio da violência se encontra nas mãos do Estado e, portanto, ninguém mais pode fazer uso dela sem ser punido ou criminalizado. A exceção seria a promulgação de leis autorizadas para este fim, ou seja, a capacidade de usar a violência para defender-se ou para defender os seus próprios bens (com o entendimento de que tal autoridade é fornecido, claro, pelo próprio Estado).


Esta construção sociopolítica estende-se a todos de nosso entorno. A questão seria, em primeiro lugar, para determinar onde os limites deste sistema são e, segundo, como notar a falta de legitimidade .

Se algo precisa ser revelado sobre modo do pronunciamento de nossas democracias, é, sem dúvida, o uso excessivo de legislação ad hoc para minimizar a resposta cidadã e, assim, a apropriação por parte dos governos de licenças mais poderosas para consagrar seus modos de articulação do poder. Esta estratégia imediatamente manifesta uma grande ruptura entre as estruturas estatais e a cidadania.

Se levarmos em consideração as diferentes arquiteturas empregadas por diferentes governos, percebemos que estamos diante de modos de organização social dirigidos  magistralmente para que fiquemos incapazes de realizar uma auto-defesa contra os abusos de nossos direitos e liberdades.

O funcionamento dos sistemas partidários, a regulamentação da representatividade política, licenças de comunicação e da liberdade de  rádio e de imprensa, as construções de maiorias irrelevantes com as quais poder governar, a fraude da separação de poderes, ou a criação do medo como um elemento de novos estatutos que nos coage, são apenas algumas das inúmeras perturbações que nos obrigam a submeter "em nome do bem comum." A existência e aplicação dessas medidas excepcionais tem um backup que ajuda a evitar a deterioração. Este apoio, o chamem de lei...

Neste momento, temos os primeiros dois pontos-chave que não devemos esquecer. Os Estados sobrevivem através de mecanismos insuficientes de legitimação. Portanto, ou bem seja feita uma profunda transformação, ou devemos derrubá-los. E a lei não atende aos parâmetros de justiça, mas os interesses manifestos de poder. Quero dizer, um dos maiores males da nossa democracia reside em haver-se implantado a crença de que as leis são a base das causas justas.

Esta análise responde através da Ciência Política  a necessidade de transformar os princípios que regem a nossos estados. Mas, mesmo com todo o exposto, parece-me irrelevante. Resta expor o último ponto, básico e fundamental.

A história é provavelmente a ciência que mais pode ser aprendida, e que recebe menos consideração. Suas obras escondem uma esplêndida biblioteca onde podemos discutir tudo o que aconteceu há milhares de anos. E esses eventos nos dar muitas respostas. Hoje, a resposta torna-se inevitável.

Todas as liberdades, sociais e políticas, todas as melhorias econômicas e todas as mudanças que levaram à derrubada de poderes, elites , impérios, ou governos absolutistas, se tem sempre produzido, seja através de revoluções sociais, ou com a inestimável ajuda de inúmeras revoltas .

Último ponto, e lembrete. Quem nos domina, não nos vai conceder o privilégio de escapar de seus limites. A remoção de opressão e de sequestro, é violenta.

Esta pequena dica pode parecer sem corte, e para muitos, irreverente. Especialmente nestes tempos de indignação das mãos brancas e silêncio cúmplice. Mas a mudança, se necessário, deve ser corroborada pela posição que defende. A transformação é impossível sem a necessidade de uma mudança radical de eventos. Ou o que é o mesmo, não é possível indignar-se para solicitar a mudança, se não contribuir para o colapso do sistema.

O sistema, o Estado, os governos, nossas democracias, são muito bem desenhadas para assustar, para dissuadir, para nos fazer ver o que há para aprender a distinguir entre o mal e a justiça. Todas as ferramentas estão ao seu alcance. Assim, que alguém possa olhar, e declarar antissistema, não é só estranho, mas até mesmo delitivo. Quando realmente, as mesmas palavras nos protegem de nossos pensamentos e atitudes. E lhes temos medo. Medo o significado nu das palavras...

Eleitores, povoadores, habitantes e vizinhos sabem que hão de ser responsáveis, sabem que a política não funciona, que o seu país está se cambaleando, as finanças nos enforcam, as multinacionais nos estupra. Milhões de pessoas sabem que este sistema não só não nos ajuda, mas estrangula , e são contra o mecanismo de sua encenação. Eles sabem que eles precisam ir contra ele, e que devemos derrubar, para construir um novo. E quase ninguém se atreve a se acreditar antissistema...

É como tentar vencer a batalha se refugiando-se na casa do inimigo.

E a consciência do uso da violência  não é a mesma no confronto da luta pela dignidade e direitos. Quando os novos colonos exterminaram os índios , eles precisavam usá-los, para sobreviver nas montanhas. Quando os europeus colonizaram a África, seus escravos usaram armas para evitar o extermínio. Quando os turcos decidiram combater com o povo armênio desarmado, os aniquilaram, e um milhão e meio de habitantes foram forçados a marchas quilométricas, cruzando desertos de morrer de fome, sede, roubo e estupro. Quando o mal te olha de frente, e quer apagar suas pegadas, você pode se rebelar ou não, mas não é ético para apoiar a sua queda, ou a razão que protege ou defende os seus ferimentos. Sem abrigo para a barbárie, e às vezes você tem que fazer frente .

Tem o ameaçado que legitimar o seu direito de? Estamos sob ordens de outras pessoas que degradam a nossa moral e nossa ética. As leis de nossos governos minam a dignidade dos cidadãos, e passamos por dificuldades para que se sobrepõem a nossa vontade. A imoralidade, o engano e perversão são revisores repressivos de Bruxelas .

História. Nós não estamos cobrindo os olhos, mas abrindo os olhos. E deixou escrito um alemão, Max Stirner, muitos anos atrás, " O Estado chama sua própria lei de violência, mas a do indivíduo crime."

Jose luis artigo V. Domenech - Sociólogo, em iniciativadebate.org