"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Bósnia em revolta contra a miséria e o desemprego

Nos últimos dias explodiu uma revolta por toda a Bósnia-Herzegovina, com múltiplas ações de protesto, choques violentos entre manifestantes e polícia e vários edifícios governamentais em chamas depois de terem sido assaltados. Os protestos começaram na cidade de Tuzla, com uma manifestação contra o desemprego e o encerramento de empresas outrora estatais e entretanto privatizadas. Na origem dos protestos estão a miséria e o desemprego, que ultrapassa os 40%.
Protesto em Tuzla

Tuzla, manifestação contra o desemprego
Segundo o site “Le Courrier des Balkans”, a uma convocatória no facebook, “50.000 pessoas nas ruas por um futuro melhor”, milhares de pessoas manifestaram-se na passada quarta-feira 5 de fevereiro em Tuzla. Na quinta-feira as manifestações estenderam-se a outras cidades da Bósnia, nomeadamente Sarajevo, Zenica, Bihac e Prijedor e na sexta-feira os protestos ampliaram-se para outra cidades, incluindo da República Sérvia da Bósnia, aumentando os confrontos com a polícia.
Outro grupo do facebook (UDAR) também convocou as manifestações, nomeadamente em Tuzla, onde a organização sindical de quatro empresas antes públicas, depois privatizadas e agora encerradas (Konjuh, Polihem, Dita e Resod-Guming) teve um papel chave na mobilização e no protesto.
Em Tuzla, os manifestantes concentraram-se junto ao edifício de governo do cantão, exigindo medidas contra o desemprego e o encerramento das quatro empresas. Face à recusa do primeiro-ministro do cantão de se encontrar com os manifestantes, estes começaram a atirar pedras e ovos contra o edifício e tentaram forçar a barreira policial. Em comunicado oficial, o governo local disse que não podia fazer nada, porque as empresas que encerraram são privadas. Os confrontos entre manifestantes e polícia prolongaram-se na quarta-feira por mais de quatro horas nas ruas da cidade.
Tuzla desenvolveu-se como um centro industrial e cultural importante durante a época de Tito. Entre 2000 e 2010, as antigas empresas públicas que empregavam a maioria da população foram privatizadas pelas autoridades locais, sob controlo da agência cantonal para as privatizações.
Segundo o “Courrier des Balkans”, a empresa Dita de detergentes empregava 750 pessoas e foi privatizada em 2007, comprometendo-se o novo proprietário da empresa a manter os postos de trabalho durante três anos e a produção durante cinco. Porém, a empresa deixou de fazer descontos para a segurança social. As pessoas que trabalhavam na Dita ficaram sem emprego, sem direitos sociais e impossibilitados de pedir a reforma por não terem os descontos suficientes. Em 2010, um inquérito da polícia provou os atos criminosos do novo proprietário, mas o processo ficou bloqueado na procuradoria de Tuzla. Os trabalhadores lutam há anos pelos seus direitos, no entanto o primeiro ministro do cantão diz que o assunto não lhe diz respeito, porque se trata de uma empresa privada. A situação é semelhante nas outras três empresas.

O fundador do grupo do Facebook UDAR e um dos convocadores da manifestação em Tuzla, Aldin Širanović, foi preso na quinta-feira pela polícia e mais tarde libertado, tendo denunciado que foi espancado pela polícia. O presidente do sindicato da empresa Konjuh de Tuzla, Mevludin Trakić, foi preso no protesto de quarta-feira e declarou após a sua libertação: “Não viemos aqui para vandalizar. Há quatro anos que pedimos o reconhecimento dos nossos direitos mas, acreditem-me, ontem fomos surpreendidos quando fomos algemados e presos pelas forças especiais. Fomos libertados às 21.30h e multados em 300 marcos (150 euros), que certamente não poderemos pagar com os miseráveis 40 marcos (20 euros) por mês que temos para viver. Nos últimos dias, eu vi jovens de 15 anos serem espancados pela polícia especial. A polícia ataca pessoas indefesas, mas se for preciso, nós podemos armar-nos. Repito, não viemos aqui para isso, mas se nos obrigarem fá-lo-emos”.
Protestos na Federação da Bósnia e na República Sérvia da Bósnia
Protesto em Bihac

Depois da guerra dos Balcãs nos anos 90, a Bósnia-Herzegovina tornou-se um Estado composto por duas entidades: a Federação da Bósnia e Herzegovina, onde predominam bósnios e croatas, e a República Srpska, sérvia. A presidência do Estado é rotativa, por períodos de 8 meses, entre um bósnio, um croata e um sérvio, escolhidos por mandatos de 4 anos.
Nesta sexta-feira, 7 de fevereiro, as manifestações ultrapassaram as divisões étnicas e realizaram-se não só na área da federação, mas também na República Sérvia, verificando-se ações de protesto em Sarajevo (a capital), Tuzla, Zenica, Kakanj, Mostar, Prijedor e Bihac, mas também Banja Luka, Travnik, Donji Vakuf, Jajce, Kljuc, Cazin, Visoko, Zepce e Zavidovici.
No decurso destes protestos demitiram-se os governos cantonais de Tuzla e Zenica. Na cidade de Mostar os manifestantes largaram fogo às sedes dos partidos nacionalistas HDZ e SDA.
O povo protesta “pela desgraça, miséria e injustiça que os oprime com persistência", diz presidente da Bósnia-Herzegovina
Sarajevo, junto ao edifício da presidência

Nos confrontos nas várias cidades da Bósnia ficaram feridas muitas dezenas de pessoas. Em Sarajevo terão ficado feridas mais de 100 pessoas, em Zenica 50 e em Tuzla pelo menos 11.
Edifícios governamentais arderam em Tuzla e em Sarajevo a presidência e o edifício do governo ficaram em chamas.
O presidente da Bósnia-Herzegovina em exercício, o croata Zeljko Komsic, declarou: "É tudo por culpa nossa. Não sei se o poder estatal poderá funcionar, mas deveria fazê-lo. O poder deve funcionar sempre, este ou outro. Porque não vem nada de bom da anarquia".
"O povo não começou a protestar por odiar alguém ou pela orientação política, ou pelo nome de alguém, mas sim pela desgraça, miséria e injustiça que os oprime com persistência", acrescentou Komsic em declarações a uma televisão local. O presidente considerou também que "caso se tivesse dialogado com as pessoas no primeiro dia não existiriam as imagens que há agora por toda a Bósnia-Herzegovina".
Por sua vez, o ministro do Interior da Bósnia, Fahrudin Radoncic, considerou os protestos como "um tsunami dos cidadãos roubados" contra a corrupção e criticou os governos cantonais de "falta de sensibilidade" face aos anseios das populações.
Radoncic disse ainda: "A privatização saqueadora foi horrível. Ainda pior, temos um sistema policial em que, de facto, os primeiros-ministros locais ordenam que se maltrate o seu povo, algo inaceitável".
Protesto em Mostar

A Bósnia-Herzegovina tem 3,8 milhões de habitantes. A taxa de desemprego ultrapassa os 44% e 20% da população vive abaixo do limiar de pobreza. O salário médio mensal ronda os 420 euros.
O “Courrier des Balkans”salienta: “Enquanto os planos de austeridade, as privatizações e os ataques ao direito do trabalho se sucedem em todos os países dos Balcãs, a agitação social amplifica-se. De facto, as medidas de “flexibilização do mercado de trabalho”, impostas pelo FMI vêm juntar-se a uma situação social muito deprimida: baixos salários, reformas indecentes e desemprego sempre massivo”.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Indígenas peruanos contaminados por exploração de petroleiras

Há 43 anos, as comunidades indígenas que moram nas proximidades das bacias dos rios Pastaza, Corrientes, Tigre e Marañón, no distrito de Andoas, Loreto, no Peru, enfrentam uma realidade de total descaso, pois são obrigadas a conviver com os efeitos devastadores da exploração petrolífera praticada pela Occidental Petroleum Corporation of Perú (Oxy) e pela argentina Pluspetrol. Apesar dos apelos feitos a diversas instâncias governamentais e da contínua luta por reparação, os indígenas Achuar, Quechua, Kichwa e Urarina estão vendo seus filhos adoecerem e a região em que vivem ser totalmente contaminada sem que nada seja feito.

Três (Pastaza, Corrientes e Tigre) das quatro bacias já foram declaradas em estado de emergência ambiental. É visível a quantidade de petróleo cru nas águas, que também estão contaminadas por metais pesados e hidrocarburetos totais de petróleo (TPH). Essa situação já foi confirmada por organismos estatais, como a Autoridade Nacional da Água (ANA), o Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental (Oefa) e a Direção Geral de Saúde Ambiental (Digesa). Além disso, informes foram publicados confirmando a elevada situação de risco a que os indígenas estão expostos, pois eles se banham com a água contaminada e consomem os poucos peixes que conseguem pescar. Os danos à saúde provocados são de pele, no sangue, nos rins e fígado. Os compostos também podem provocar câncer e levar à morte.

Uma das provas de que nada está sendo feito para reparar os danos às comunidades é que, em novembro de 2013, a Oefa multou a Pluspetrol, que explora a região desde o ano 2000, em mais de 20 milhões de nuevos soles por haver contaminado e feito desaparecer a lagoa Shanshococha. A empresa também deveria gerar medidas corretivas, como providenciar uma nova lagoa ou água de qualidade para a população, mas, até agora, nada foi concretizado. Da mesma forma, a Oxy já fez diversas promessas de reparação que nunca saíram do papel.

Mais uma vez, na tentativa de serem ouvidas, as comunidades indígenas locais se uniram em torno da campanha (http://consultape.com/) que reivindica a realização de uma consulta prévia no país. A campanha quer contribuir com análises e debate técnico para assim se chegar à realização de uma consulta prévia. No vídeo, publicado nesta quarta-feira, 05 de fevereiro, é possível ter noção da situação no local.

No próximo ano vence a concessão que a Pluspetrol tem sobre a região. Diante disso, a população indígena e suas organizações estão mobilizadas para exigir cinco demandas mínimas além da consulta prévia. São elas: indenização por danos sociais e ambientais produzidos; compensação pelo uso de suas terras; remediação de passivos ambientais; elaboração de diagnósticos integrais para solucionar a problemática da zona; e a titulação de suas terras. Além do que exigem que o Estado cumpra com as medidas imediatas do Plano de Declaração de Emergência, que consiste na doação de alimentos e água tratada.

Matéria de ADITAL

Transposição do rio São Francisco, um projeto dos tempos do Império

Por Marcia Dementshuk, em A Pública.

Transposição do rio São Francisco, um projeto dos tempos do Império
Existem registros de ocorrência de secas no nordeste do país desde o século 17, e desde o século seguinte o poder central português já planejava meios de combatê-la, como registrou o pesquisador Francisco Jácome Sarmento.  “A primeira aprovação de verbas para combater consequências de secas deu-se pós-independência (1822), resultante da grande estiagem de 1824-35. (…) Antes registrou-se a gênese das frentes de emergência (no período seco 1721-25), quando navios trouxeram mantimentos para os que aceitassem trabalhar em obras públicas nas novas vilas”, escreveu na obra “Transposição do Rio São Francisco – realidade e obra a construir”.
Uma história que João Ferreira Filho, tenente-coronel da reserva do Exército Brasileiro conhece muito bem. Engenheiro especialista em obras na área hídrica, Ferreira Filho conta que os dois anos de estiagem que o Nordeste enfrentou no tempo do Império – de 1844 a 1845 – motivaram o intendente da comarca do Crato, no Ceará, Marcos Antônio de Macedo, a propor um projeto para trazer água do São Francisco para o seu estado. O canal partiria de Cabrobó, em Pernambuco, para abastecer o rio Jaguaribe, um dos principais do Ceará. Foi o primeiro projeto de transposição das águas do rio São Francisco, elaborado em 1847.
Trinta anos se passaram sem que o imperador Dom Pedro II tomasse conhecimento do ousado plano, até que o Nordeste enfrentou outro período de secas, entre 1877 e 1879. Desistiu de retomá-lo, porém, porque estudos feitos pelo Barão de Capanema demonstraram não haver recursos técnicos para fazer com que as águas transpusessem a Chapada do Araripe, localizada na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco.
Por isso, a primeira ação de combate a secas acabou sendo a construção do açude do Cedro, em Quixadá, no Ceará, vinte anos depois.
Em 1909, o governo republicano de Afonso Pena criou a Inspetoria de Obras Contra a Seca (embrião do atual Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Dnocs). A transposição chegou então a ser cogitada pelo seu primeiro presidente, Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa mas, em agosto de 1913, ele desistiu de implementá-la novamente por causa da elevação de 160 metros na área da Chapada do Araripe, que interromperia o curso das águas.
Miguel Arrojado defendia que o problema do Nordeste era educação, conforme proferiu em conferência no dia 23 de agosto de 1913, no clube de Engenharia do Rio de Janeiro, conforme consta no arquivo do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e da Biblioteca Nacional: “Chegamos, assim, ao mais grave de todos os problemas: o da educação! Só ela, unicamente ela, permitirá que o povo goze de sã higiene, aprenda e aperfeiçoe a irrigação, promova a indústria compatível com a ambiência, adote a fenação e use o silo, não abandone o gado e melhore-lhe a raça, facilite-lhe a água não contaminada, devolva as culturas nas grandes várzeas irrigadas, abra por si poços, faça pequenos açudes, compreenda, enfim, a importância deste grande esforço que está sendo empregado em prol do seu bem-estar”.

Nos tempos de Epitácio Pessoa

Em viagem à Europa, Epitácio Pessoa, presidente entre 1919 e 1922, encontrou a solução para o problema da elevação da chapada junto ao engenheiro português Fonseca Rodrigues: se houvesse uma queda d’água na  jusante de Cabrobó, em Pernambuco, então seria possível gerar a energia hidráulica e mecânica para transpor a Chapada do Araripe.
Quando assumiu a presidência, Epitácio Pessoa inseriu a Transposição da Chapada do Araripe e a implantação de açudes entre suas ações prioritárias. Ele deu ordens para a construção de 205 grandes açudes – a maioria abastecida pelas águas do São Francisco –, 220 poços profundos e cerca de 500 km de ferrovias.
Mais uma vez, porém, essas obras foram interrompidas: uma fiscalização chefiada por Cândido Mariano da Silva Rondon constatou desvios de recursos, o famoso “Relatório Rondon”, de 1922.

A seca, um segredo do governo militar

O tenente-coronel João Ferreira Filho, que acompanha de perto os projetos de combate à seca desde os anos 80, relembra outro projeto de transposição: “Em 1982 eu estava no 1º Grupamento de Engenharia, sediado em João Pessoa (PB), e recebi a missão de acompanhar o projeto do coronel Mário Andreazza para a execução da transposição do São Francisco”. O projeto era abrangente: envolvia os rios São Francisco, Parnaíba e Tocantins, com previsão para ser realizado em 40 anos. Seriam redirecionados, ao final, 330 metros cúbicos por segundo do Rio São Francisco e 300 do Rio Tocantins, a um custo estimado em US$ 3,3 bilhões. “O farto e chuvoso inverno em 1984 e também questões políticas paralisaram a execução do projeto”, lamenta o coronel Ferreira.
Nesse período, a população brasileira acompanhava pela mídia o sofrimento do povo nordestino na seca que durou de 1979 a 1983. O fato de as secas nordestinas serem cíclicas já havia sido preconizado em 1977 pelos pesquisadores Carlos Girardi e Luiz Teixeira, do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP). Mas a informação era mantida em segredo pelo governo militar. Os pesquisadores previram secas com duração de cinco anos a cada 26 anos, e secas de menor intensidade, com duração de três anos, a cada 13 anos. “Como eu estava no ITA (Instituto de Tecnologia da Aeronáutica), naquela época, tive acesso a esta pesquisa. O argumento para o sigilo era o pavor e o descontrole que iria gerar na população”, lembra o coronel Ferreira.

Itamar Franco também tentou

A seca de 1991 a 1993 foi menos intensa, mas foi ampla, atingindo também Fortaleza, no Ceará, e Campina Grande, na Paraíba. Ciro Gomes, então o governador do Ceará, construiu o Canal do Trabalhador em apenas 90 dias para abastecer Fortaleza, trazendo águas do Rio Jaguaribe. Na Paraíba, o governador na época, Cícero Lucena, pleiteou sem sucesso recursos federais para construir a adutora de Moxotó para abastecer Campina Grande com águas do Rio São Francisco.
Em âmbito nacional, o ministro da Administração e da Integração Regional do governo Itamar Franco, Aluízio Alves, apresentou um projeto semelhante ao de Mario Andreazza, mas prevendo a retirada de apenas 150 metros cúbicos do Rio São Francisco, a ser realizado em 180 dias em caráter emergencial.  A seca terminou em 1994 e o projeto não chegou a sair do papel.

Fernando Henrique Cardoso

De acordo com o coronel Ferreira, a seca de 1997 a 1999 foi ainda mais abrangente. Desta vez, entraram em colapso os sistemas de abastecimento de água de Fortaleza, do Recife, Caruaru (PE), Campina Grande (PB) e de João Pessoa. “O Recife era abastecido por água que vinha de navio, da Bahia. Na Paraíba o transporte de água até o município de Soledade era feito de trem e chegava ao preço de um grama de ouro o metro cúbico”, conta.
Assim, mais uma vez, a ideia da transposição de águas do Rio São Francisco voltou à pauta. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso determinou a elaboração de um projeto de transposição inicialmente com um eixo, de Cabrobó ao Ceará. O então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, demandou que o governo federal ampliasse o projeto, incluindo o que é hoje o Eixo Leste. Seriam retirados 28 metros cúbicos por segundo pelo Eixo Leste, sendo 10 metros cúbicos para a Paraíba e 18 para Pernambuco. Pelo Eixo Norte, seriam retirados 99 metros cúbicos por segundo, sendo 10 para Pernambuco, 10 para a Paraíba, 37 para o Rio Grande do Norte e 42 para o Ceará. Ou seja: um total de 127 metros cúbicos por segundo de retirada de água, que beneficiaria 188 cidades. O custo estimado era de R$ 2.689.340.791,32.
Contudo, um grupo de empresas, entre elas a Odebrecht e a OAS Engenharia, havia obtido uma outorga pela Agência Nacional de Águas para usar 300 metros cúbicos por segundo para um mega projeto de irrigação, e assim não seria possível captar mais água sem comprometer o funcionamento da Hidrelétrica de Sobradinho. A polêmica durou até o final do governo Fernando Henrique. A solução foi reduzir a vazão de água na captação do Projeto de Integração do Rio Francisco.

A vez de Lula

Luís Inácio Lula da Silva, chegando à presidência, deparou com problemas em licitações, liberações ambientais e protestos populares contra a execução da obra, como a do bispo baiano Luiz Flávio Cappio, que impetrou uma greve de fome de 10 dias em protesto apoiado por ambientalistas de todo o país. Em agosto de 2007, foram iniciadas as obras dos canais de aproximação no Reservatório de Itaparica (Eixo Leste) e em Cabrobó (Eixo Norte) – veja o mapa.
É o mesmo local de onde, um século e meio antes, o governo imperial pretendia captar água.
A Pública, Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Vicenç Navarro: Os erros das teses do decrescimento econômico


Neste artigo Navarro critica os supostos malthusianos que configuram grande parte do pensamento conservador que existe em alguns movimentos ecologistas.

Publicado por Vicenç Navarro na coluna “Dominio Público” no diário PÚBLICO, da Espanha

Uma característica dos movimentos ecologistas na Europa é sua enorme diversidade ideológica, o qual se considera como una de suas fortalezas, quando, a meu entender, poderia ser uma de suas debilidades. Um número considerável deles mostra uma sensibilidade malthusiana, que assume que os recursos naturais, como por exemplo, os recursos energéticos, são fixos, constantes e limitados, concluindo com isso que o crescimento econômico é intrinsicamente negativo, pois consume os recursos limitados que se irão esgotando com o tempo, criando uma crise global. Estes movimentos têm sido muito influenciados por Paul Ehrlich, o fundador do ecologismo conservador.

Na Europa, sem embargo, parece desconhecer-se o movimento ecologista de claras raízes socialistas (que liderou Barry Commoner, ao que considero um dos personagens mais lúcidos que já teve no movimento ecologista a nível mundial). Barry Commoner alertou das consequências reacionárias que o malthusianismo pode ter. E uma delas é o movimento a favor do recessão, ainda quando, inclusive aqui, depende do que se utilize para definir decrescimento. O decrescimento não é um conceito que possa definir-se sem conhecer que é o que está crescendo ou decrescendo. Não é o mesmo, por exemplo, crescer a base do consumo de energia não renovável, do que crescer a base do consumo de energia renovável. E não é o mesmo crescer produzindo armas que crescer produzindo os remédios que curam o câncer. O feito de que haja uma ou outra forma de crescimento é uma variável política , é dizer, depende das relações de poder existentes em um país e de que classes e grupos sociais controlem a produção e distribuição de, por exemplo, a energia. Barry Commoner somente mostrava como em Estados dos EUA nos quais tinha havido grande consumo de energia contaminante não renovável, este consumo havia variado a consumo de energia renovável, criando com isso inclusive mais crescimento econômico. O ponto de debate não é, pois, crescimento o não crescimento, sim que tipo de crescimento, o que é consequência de quem controla tal crescimento. Este é o ponto chave. Como assinalou Commoner, as fontes de energia têm ido variando historicamente e isso não tem sido resultado de mudanças tecnológicas (como por regra geral se explica), sim de mudanças políticas. Utilizar uma forma outra de energia é um processo determinado politicamente.

O desconhecimento da história do socialismo

Esta é a realidade ignorada pelos malthusianos, que desconhecem também o enorme debate que há tido lugar sobre este tema na história do socialismo. Nos primeiros albores das revoluções socialistas, se criou que o socialismo era a luta pela distribuição da riqueza criada pelos meios de produção, aos quais se os supunha intrinsicamente positivos, meros instrumentos do progresso. Foi mais tarde que se questionou este suposto (que alcançou seu máximo exponente na União Soviética), pois estes meios de produção refletiam também os valores dos que os haviam desenhado. Uma fábrica de automóveis, por exemplo, reflete uns valores que determinam como, quando e onde se realiza la produção de bens e serviços nessa empresa. E estes valores eram os dominantes na sociedade capitalista que havia criado ditos meios. O protesto frente a esta interpretação do socialismo caiu expressada no famoso slogan de que “o socialismo não é capitalismo melhor distribuído”. Meu livro (conhecido no mundo anglo-saxão) crítico do produtivismo na União Soviética, Social Security in the USSR, Lexington Books, 1977, critico este produtivismo, predizendo, por certo, o colapso do sistema soviético. O livro foi proibido na União Soviética, considerando-me como persona non grata.

Um dos pontos que destaquei naquele livro era que o socialismo tinha que mudar não somente a distribuição dos recursos, sim a forma e tipo de produção. E para que isso ocorresse era fundamental mudar as relações de poder no mundo da  produção (com a democratização da produção, que é distinto à sua estatização) e mudar o motor do sistema, de maneira que o afã de lucro se substitua pelo afã de serviço às necessidades humanas, definidos democraticamente. Este foi um dos debates mais vivos que já houve dentro da sensibilidade transformadora socialista. Os debates sobre o significado da revolução cultural chinesa, por exemplo, com a vitória naquele país dos setores capitalistas dentro do Estado chinês, conduziram a China atual, onde o afã de lucro e o tipo de produção que condiciona tem dominado aquele processo, criando unas enormes desigualdades e crises ecológicas.

É obvio que um grande número de proponentes das teorias da recessão desconhecem esta historia. Assim, quando Florent Marcellesi (“La crisis económica es también una crisis ecológica”, Público, 09.10.13) assinala que o  socialismo e o capitalismo são iguais na insensibilidade à necessidade de mudar o tipo de produção e consumo, está ignorando estas discussões dentro do socialismo. E mais, me põe a etiqueta errônea, estereotipando o que segundo ele um sistema socialista é e/ou pensa. Critica-me por pertencer à visão produtivista do socialismo, visão que precisamente tenho criticado muito antes e mais intensamente que ele. Marcellesi escreve  “Vicenç Navarro afirma por exemplo que ‘se os salários foram mais altos, se a carga impositiva fora mais progressiva, se os recursos públicos foram mais extensos e se o capital estivera em mãos mais públicas (de tipo cooperativo) em lugar de privadas com afã de lucro, tais crises social e ecológica (e econômica e financeira) não existiriam’”. Esta frase está extraída de um artigo meu que assinalava como sair da crise. Florent Marcellesi indica que isso não é suficiente para prevenir o suposto esgotamento energético, e portanto as crises econômicas e ecológicas, pois adverte que “inclusive se redistribuíssemos de forma equitativa as rendas entre capital e trabalho, e todos os meios de produção estivessem em mãos dos trabalhadores, a humanidade seguiria necessitando os 1,5 planetas que consume hoje dia”.

Para chegar a esta conclusão (de que a mudança do projeto capitalista a um socialista não resolve o problema, pois os dois, o capitalismo e o socialismo, creem no crescimento econômico que esgotará os recursos), Marcellesi assume erroneamente que eu estou reduzindo o projeto transformador (minha proposta de como sair da crise) a uma mera redistribuição dos recursos, sem mudar nem o tipo nem a forma dos meios de produção, ignorando não só meus escritos, sim também a extensa bibliografia científica sobre a transformação do capitalismo ao socialismo, coisa que ocorre com grande frequência entre ecologistas conservadores que, como eu disse antes, desconhecem os intensos debates sobre os temas tratados derivados de outras sensibilidades políticas e de outros tempos. É óbvio que Florent Marcellesi desconhece a historia do socialismo, e me põe no lugar errado (na casa produtivista, a fim de poder chegar a suas conclusões). Como tenho indicado, e sido uma das vozes mais insistentes em mudar o tipo de produção no  projeto de transformação socialista, e não se dá conta de que a frase à cual me faz referência, sintetizando minha postura, tem os dois elementos –democracia e mudança do motor do sistema- que rompem com o determinismo produtivista que erroneamente me atribui. Não é meu objetivo polemizar com tal autor e agora figura política, sim responder a críticas ao socialismo baseadas em um desconhecimento de sua história.

O determinismo energético não pode substituir ao determinismo político

Outro ponto que eu acho  importante esclarecer em que as mudanças de produção  podem ocorrer dentro do capitalismo. O socialismo não é um sistema econômico e político que tem lugar no ano A, dia D, com a captura do Palácio de Inverno, mas faz e quebra diária e capitalismo. E é aí em que todo o movimento a favor do decrescimento parece  um feito bastante elementar, e, como indiquei acima, o problema não é o crescimento, mas o tipo de crescimento. Mais uma vez, Barry Commoner mostrou como o uso de novas tecnologias (de produção também determinam o crescimento econômico) permitiu aos EUA  usar os rios que antes eram completamente inabitáveis. E, mais uma vez, Barry Commoner  também mostra quantas formas de energia que são renováveis​​, substituem as mais tradicionais, não renováveis, e também determinam o crescimento. O problema não é que existam formas alternativas de energia , mas estas serem controladas pelos mesmos proprietários das não-renováveis. Em um momento de enorme crise com quase zero de crescimento, que é a criação de um grande drama humano, as vozes a favor do decrescimento parecem anunciar que é bom, assim, para salvar o planeta. Eles não percebem que eles estão fazendo o jogo do mundo do capital responsável pela crise econômica e ecológica.

Finalmente, vários esclarecimentos a muitas afirmações surpreendentes que estão sendo feitas por porta-vozes malthusianos, sem qualquer evidência de que apoie-as. Não é certo que o aumento do preço do petróleo e matérias-primas, se devam à sua escassez. Também não é verdade que a crise das hipotecas foi devido ao crescimento dos preços do petróleo. A crise financeira tem sido muito estudada e não pode atribuí-la ao aumento dos preços do petróleo e à inflação que criou. Também não é verdade que a profunda crise nos países do sul da Europa, seja devido à falta de energia. Esse determinismo energético (que é a energia que determina todo o resto) sabe que as relações de poder são derivadas da propriedade de produção e distribuição de bens e serviços, que formam a atual crise. O fato de que esses países estão em crise devido ao enorme poder que o capital tem sobre eles, em detrimento do mundo do trabalho, o poder se manifesta no tipo de produção (incluindo o uso de energia e consumir). A solução é uma mudança nessas relações de poder, com a democratização do Estado, o que resultaria em não apenas uma nova redistribuição mas nova produção. E é nesta estratégia, onde o socialismo e o movimento ambiental progressista podem se aliar e até convergirem. É uma pena que os escritos de Paul Ehrlich, refletindo a visão conservadora malthusiana do ambientalismo (e paradoxalmente recebeu um prêmio da Generalitat de Catalunya durante o tempo da tripartite) sejam conhecidos, enquanto Barry Commoner, o fundador do movimento ambiental progressiista nos EUA, apenas seja conhecido na Espanha. É mais um indício do conservadorismo que existe na vida intelectual e política do país (Espanha).

UMA VIAGEM AO CANTEIRO DE OBRAS DA TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

Entenda como está sendo construído o maior empreendimento de infraestrutura hídrica do Brasil
Por Marcia Dementshuk - Agência Pública

Obras no Ramal das Vertentes Litorâneas, Acauã-Araçagi, na Paraíba, estão concentra (Foto: Mano de Carvalho)
O Projeto de Integração do Rio São Francisco terá aproximadamente 620 quilômetros de extensão (quase a distância entre Recife e Salvador), com construções que chegam a ter a altura de um edifício de mais de 10 andares, pontes, passarelas, estações de bombeamento, de controle, túneis, aquedutos, canais, barragens e reservatórios. De acordo com o Ministério da Integração, 8,7 mil trabalhadores atuam em 113 frentes de serviço, onde operam quase duas mil máquinas, e está prevista a contratação de mais mil novos postos de trabalho até março de 2014.
Conforme o Ministério, no segundo semestre de 2014 a obra já terá água em alguns trechos de canais.
Para o início da construção, em 2007, a obra foi dividida em 14 lotes, mais dois canais de aproximação – concluídos pelo Exército Brasileiro. Havia nada menos que 80 empresas envolvidas nas atividades de engenharia civil, eletromecânica, ambiental, gerenciamento e supervisão, segundo informações do Ministério da Integração – o que provocava inúmeros problemas de gerenciamento.
Por isso, em 2010 a obra parecia ter perdido o fôlego; houve, inclusive, notícias sobre paralisação, em meados daquele ano. Segundo o Ministério do Planejamento, a obra atrasou também pela complexidade e necessidade de executar serviços não contemplados nos contratos de então, exigidos pela distância entre canais, pela diversidade de tipos litológicos (terrenos arenosos, pedregosos), e pelos mais variados estágios de intemperismos (alternância de secas e períodos chuvosos em sete anos de obras). “O grau de certeza dos materiais geológicos a serem enfrentados só pode ser efetivamente conhecido ao decorrer da execução das obras, fazendo-se necessários alguns ajustes”, foi o relato ministerial. Ironicamente, a falta de água nos últimos anos também atrapalhou, já que para fazer o concreto nas estações de bombeamento, de controle e nos canais teve que ser trazida de caminhão, do mesmo rio São Francisco.
Mesmo com a demora, em janeiro de 2012 havia mais de três mil trabalhadores em campo. Naquele ano, o Ministério da Integração abriu uma nova rodada de licitações, e foram retomadas as atividades na obra, a um custo previsto de quase 8,2 bilhões de reais – o dobro do previsto na licitação original.
Posteriormente, a fim de agilizar a retomada dos trabalhos, a obra foi dividida em três metas para cada Eixo (veja o mapa abaixo). No Eixo Leste, o Consórcio São Francisco Leste, formado pelas empresas da S.A. Paulista e Somague, ficou responsável pelas metas 1 Leste e 2 Leste. O Consórcio Bacia do São Francisco, formado pelas empresas S.A. Paulista e FBS Construtora, assumiu a Meta 3 Leste. E as empresas EMSA e Mendes Júnior, remanescentes dos contratos anteriores, estão trabalhando no antigo Lote 10, (Meta 2L) um trecho de 40 km com conclusão prevista para 2014. A supervisora do Eixo Leste é o Consórcio Ecoplan/Techne/Skill.
No Eixo Norte a construtora Mendes Júnior executa a Meta 1 Norte. A Serveng AS ficou encarregada de concluir a Meta 2 Norte. A Meta 3 Norte está à cargo da Queiroz Galvão. O Consórcio Águas do São Francisco, formado pelas empresas SA Paulista, Carioca, Serveng-Civilsan, permanecem com os antigos lotes 1 e 2 (Meta 1N, no Eixo Norte) até a conclusão. E a Construcap, Toniollo e Busnello e Ferreira Guedes com o antigo lote 14 (Meta 3N). As supervisoras do Eixo Norte permanecem nas novas licitações: Engevix e Quanta Engenharia; e Magna Engenharia.
Conforme explica o engenheiro da empresa supervisora Ecoplan, Eduardo Melloni, a vazão média de água no Eixo Leste trabalhada é de 16 metros cúbicos por segundo, e a do Norte é de 19 metros cúbicos por segundo. Os canais estão projetados para transportar capacidade máxima de 99 metros cúbicos no Norte e 28 metros cúbicos no Eixo Leste. O regime de quantidade de água irá variar de acordo com as necessidades das bacias.

VISITANDO O CANTEIRO DE OBRAS

No Lote 10, construtora termina trechos do canal referente às primeiras licitações, de 2007 (Foto: Mano de Carvalho)
No Lote 10, construtora termina trechos do canal referente às primeiras licitações, de 2007 (Foto: Mano de Carvalho)
A reportagem viajou ao longo da obra no Eixo Leste em dezembro de 2013. Vários trechos estavam com os canais escavados, mas ainda sem a colocação do concreto poroso, da manta e do concreto de proteção sobre o qual, finalmente, correrá a água.  “Este foi um trecho que teve escavação terceirizada, e o resultado final dessa escavação não ficou bom”, explica o analista de infraestrutura Marcílio Lira de Araújo, do Ministério do Planejamento, para explicar porque foi necessária uma nova rodada de licitações. “A construtora que estava com esse lote, a EMSA, pediu um serviço novo, com novo preço, para fazer a conformação da calha, ou seja, um serviço adicional para fazer a regularização da escavação. Mas o preço dado foi muito alto e o Ministério decidiu suprimir esses trechos de canal do contrato dela e licitar, no caso, como obras remanescentes”.
O Ministério da Integração informou que está investigando os contratos anteriores de obras do empreendimento. Caso as inconformidades não sejam corrigidas, os valores referentes a esses serviços terão que ser devolvidos ou haverá desconto dos saldos a receber das empresas. Os serviços que não forem executados serão realizados pelos novos contratos, com recursos devolvidos a União.
Os mais de 1.230 trabalhadores do Eixo Leste enfrentam muita poeira e temperaturas que chegam aos 40°C no sol da caatinga nos caminhões que os levam aos seis canteiros de obra ao longo de 217 km de extensão, jogando água nas estradas para controlar a poeira. Eles trabalham pesado no revestimento de concreto no primeiro trecho, antes da barragem Cacimba Nova, em Pernambuco (Meta 3L). Seguindo o canal há outro trecho, onde está sendo feita a mureta de proteção, e adiante o reservatório e o dique Bagres, além do reservatório Copiti, onde termina o antigo lote 10 (Meta 3L).
Durante as folgas, eles fazem as refeições nas frentes de trabalho, debaixo de tendas. A estrutura conta ainda com banheiros químicos e itens de segurança como placas de avisos, cercas e corrimãos. Conversam pouco; a energia de cada um é lançada nas picaretas, na condução das máquinas, no manuseio das motosserras, enfim, na construção da via expressa por onde percorrerá a água.
A maioria dos trabalhadores do lote 9 são de Petrolândia (PE), município próximo à EBV1 (Foto: Mano de Carvalho)
A maioria dos trabalhadores do lote 9 são de Petrolândia (PE), município próximo à EBV1 (Foto: Mano de Carvalho)
Na Estação de Bombeamento 1 do Eixo Leste, localizada na tomada de água do reservatório de Itaparica, na Bacia do São Francisco, os operários finalizam a  estrutura que irá bombear uma quantidade de água que ocuparia o equivalente a um prédio de 10 andares. “Todo o pessoal aqui é de Petrolândia, em Pernambuco. A empresa contratou dando prioridade à cidade mais próxima do canteiro de obras”, diz José dos Santos Morais, coordenador administrativo da obra. “A turma arrumou emprego fácil”. A estação de bombeamento funciona como uma turbina hidrelétrica ao contrário: a água entra pelos vãos embaixo, e é elevada para o canal que dá continuidade à transposição.
O encarregado de almoxarifado Alan Gomes da Silva trabalha no local desde 2007. “Em 2009 deu uma parada, quer dizer, parar, não parou. Tinha gente trabalhando, assentando as pedras. Mas era pouco. Ano passado que voltou com força”, lembra.
Embora os prazos finais divulgados pelo Ministério da integração sejam para fins de dezembro de 2015, o fiscal Marcílio Lira de Araújo acredita que as águas deverão alcançar o reservatório Poções, em Monteiro, Paraíba, apenas no primeiro trimestre de 2016. “Isto, considerando o andamento atual da obra. Temos o túnel de Sertânia para Monteiro, que ainda está na fase de supressão vegetal e deverá tomar algum tempo de execução”, pondera.
Já o Ministério da Integração garante o reforço nas frentes de trabalho com a contratação de cerca de 800 novos trabalhadores para atuar no Eixo Leste do empreendimento.

A ÁGUA PROMETIDA, SÓ EM 2025

A obra inteira, com todos os ramais, deve estar pronta em 2025.“Os estados estão comprometidos em melhorar as condições de esgotamento sanitário dos municípios e com a execução dos ramais que darão continuidade à distribuição das águas em cada território”, garante João Azevedo, secretário estadual de Recursos Hídricos, Ciência e Tecnologia da Paraíba.
 Obras no Ramal das Vertentes Litorâneas, Acauã-Araçagi, na Paraíba, estão concentra (Foto: Mano de Carvalho)
Obras no Ramal das Vertentes Litorâneas, Acauã-Araçagi, na Paraíba, estão concentra (Foto: Mano de Carvalho)
O Eixo Leste terá dois grandes ramais. O Ramal do Agreste, em Pernambuco, com 71 km de extensão, sai do reservatório Barro Branco, na altura do município de Sertânia, e vai até os reservatórios Negros e Ipojuca; de lá, o projeto prevê uma série de adutoras que abastecerão a região do agreste pernambucano. Outro é o Ramal das Vertentes Litorâneas, conhecido também como Acauã-Araçagi, na Paraíba, com 112 km; do reservatório Acauã, as águas serão conduzidas para o reservatório Araçagi, abastecendo o Agreste paraibano, , região que concentra em torno de um terço da população do estado, a cerca de 100 km do litoral. No reservatório Copiti (no Lote 10, Meta 3L) foi dimensionado um volume de água para abastecer o Açude público Poço da Cruz, reservatório importante em Ibimirim, em Pernambuco.
Outros cinco Eixos Associados sairão a partir do Eixo Norte, chegando até o Entremontes, Oeste pernambucano, a Juazeiro do Norte e ao Crato, no Ceará, a Cajazeiras na Paraíba, em direção ao rio Jaguaribe, no Ceará, e a Sudoeste do Rio Grande do Norte, além do litoral do Ceará.
Esses ramais serão executados em outras etapas, contando com recursos do governo federal, (PACs I e II), e serão de responsabilidade dos estados.
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Impactos e Compensação socioambiental
A atual obra de Transposição do São Francisco foi o primeiro projeto de transposição do rio a ter um Estudo de Impacto Ambiental (EIA); o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) foi publicado em julho de 2004. Os estudos identificaram 44 impactos, sendo 23 de maior relevância, 11 positivos e 12 negativos, estipulando 38 medidas mitigatórias (para amenizar ou compensar os impactos negativos). Essa medidas – estudadas desde 2008 – foram divididas em quatro grupos: Gestão (comunicação social); Meio Biótico (fauna e flora); Meio Físico (impactos diretamente nas obras); Meio Antrópico (junto às comunidades e vilas rurais).
Na Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), parceira do projeto, a verba de mitigação foi usada para criar o Centro Especializado de Manejo de Animais da Caatinga (Cema Fauna Caatinga/Cetas), o Núcleo de Ecologia Molecular (Necmol), e laboratórios de ecologia, genética, microbiologia e bioquímica. Um estudo com a flora da Caatinga, coordenado pelo professor e pesquisador José Alves Siqueira Filho, resultou no livro “Floras das Caatingas do Rio São Francisco”, publicado em 2012 e agraciado com o Prêmio Jabuti em 2013.
No início das escavações, foi encontrada uma espécie nova da família Lythraceae, uma flor tropical usada para ornamentação, que está em processo de aprovação pela comunidade botânica internacional. A espécie é considerada endêmica: só foi encontrada em uma área da cidade de Salgueiro, em Pernambuco.
Durante supressão vegetal por motosserra em área com cerca de 30m² foram encontradas seis colmeias (Foto: Mano de Carvalho)
Durante supressão vegetal por motosserra em área com cerca de 30m² foram encontradas seis colmeias (Foto: Mano de Carvalho)
Na fase de supressão vegetal inicial, os arbustos e pequenas árvores típicas da caatinga são cortados; pouco depois entram os tratores e escavadeiras, fazendo a terraplanagem do terreno. “A gente monitora a fauna antes, durante e depois do empreendimento pra entender o fluxo dos animais ao longo da obra. Nesta fase atual os animais costumam correr por causa do barulho das motosserras. Ainda assim, encontramos muitos lagartos, ninhos de pássaros e enxames de abelhas”, explicou a formanda em Ciências Biológicas pela Univasf, Elen Ataíde, que faz o acompanhamento ambiental da área onde será construído o túnel entre Sertânia e Monteiro.
Estudos feitos pelo Cema apontaram registros de ampliação de distribuição de espécies animais, principalmente de lagartos e pássaros que não eram naturais da caatinga, migraram para o bioma por algum motivo, e se adaptaram. Animais que habitavam somente um estado também estão sendo encontrados em outros. “A partir dos investimentos feitos pelo projeto da transposição a gente conseguiu estudar e ter outra visão da caatinga. A obra não deixa de ser um impacto, mas tem uma compensação enorme do ponto de vista científico, econômico e social”, diz a estudante.
Além disso, ao longo das prospecções que são realizadas antes da supressão vegetal, foram descobertos 225 sítios arqueológicos na área de abrangência do empreendimento, inclusive a ossada petrificada de uma preguiça gigante pré-histórica, revelando a existência desses animais nessa região – fato até então desconhecido. “É um achado incrível para a composição da história do período cretáceo no Brasil”, diz o paleontólogo Leandro Lima, do Instituto Nacional de Arqueologia e Paleontologia e Ambiente do Semiárido.
Leandro Lima, do Inapas, acompanha escavações nos lotes 11 e 12 avaliando a provável existência de fósseis ou materiais arqueológicos. (Foto: Mano de Carvalho)
Leandro Lima, do Inapas, acompanha escavações nos lotes 11 e 12 avaliando a provável existência de fósseis ou materiais arqueológicos. (Foto: Mano de Carvalho)

"É necessário desideologizar."


"Se, para manter divididos os oprimidos se faz indispensável uma ideologia da opressão, para a sua união é imprescindível uma forma de ação cultural através da qual conheçam o porque e o como de sua "aderência" à realidade que lhes dá um conhecimento falso de si mesmos e dela. É necessário desideologizar."

(Paulo Freire - Pedagogia do Oprimido)

E temos mais uma geração imersa na divisão dos oprimidos, na incompreensão do estado de desregramento social que mutila, exclui e joga milhões na pior das violências, capazes de crueldades que não são possíveis de adjetivação. A o invés de nos unirmos, 99% de oprimidos, ficamos na divisão de que gosta o opressor.

Como dizia Paulo Freire a Educação Bancária, aquela em que um que sabe muito "ensina" aos que não sabem de nada, joga os oprimidos do lado dos opressores. Joga-os contra os direitos humanos em um fanatismo que é uma cegueira branca de Saramago, joga-os na tela diante do apresentador do Programa Policial, um cego, cegando outros. 

Onde estão os líderes revolucionários, que não sejam ensinadores-adestradores e sim questionadores?

Bandido bom é bandido... Oi?

Quando a violência urbana chega ao limite do tolerável, ecoa em alguns setores da sociedade o grito histérico da ignorância, que contribui para gerar ainda mais brutalidade

Bruno Garcia - Revista de História

“Educação é aquilo que a maioria das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem” (Karl Kraus)

Foto: Yvonne Bezerra de Melo
Foto: Yvonne Bezerra de Melo
Existem dois tipos de estúpidos, de acordo com o filósofo esloveno Slavoj Žižek. O primeiro é o sujeito superinteligente que simplesmente não compreende muito bem a realidade para além da obviedade literal. Ele consegue entender a situação do ponto de vista lógico, simplesmente ignora a existência de regras sociais implícitas num certo jogo linguístico. Suponham, para ilustrar a ideia, alguém respondendo com sinceridade a pergunta: tudo bem?  O segundo tipo é aquele perfeitamente capaz de se identificar com o senso comum. Alguém que encontra a correspondência absoluta entre um dado de identificação social e si mesmo. Trata-se do sujeito que, sem qualquer constrangimento, absorve discursos, vocabulários, títulos e funções terceirizados, e passa a reproduzi-los como opiniões autenticamente próprias. O perfeito burocrata, por exemplo. Algo muito próximo do que Sartre chamou de má fé. A fuga para o “em si”, ou melhor, uma estratégia frustrada de fugir da angustia da decisão recolhendo-se na insignificância de uma vivencia terceirizada. 

Se você não se enquadra em nenhuma das duas categorias, provavelmente já percebeu onde quero chegar. Não se sabe ao certo o autor ou mesmo quando começou a circular a popular expressão “bandido bom é bandido morto”. Lembro ter escutado a primeira vez no começo dos anos 90. Naquela altura, ela já era repetida pelo mesmo perfil dos que hoje gostam de repeti-la: sujeitos com muita pose e alguma limitação cognitiva. Ela foi francamente proclamada em todas as ocasiões onde a violência urbana pareceu ter chegado ao limite do tolerável.
Nessa semana, graças à divulgação de boçalidades na internet (principalmente nas redes sociais), a frase voltou, acompanhada dos muitos elogios ao grupo de “motoqueiros” que resolveu fazer justiça” ao prender um “pivete” pelo pescoço em um poste no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O adolescente de 15 anos cometia crimes na região – ele tinha ficha na polícia, já havia praticado dois furtos e sido autuado também por agressão. Na última segunda (3), o rapaz foi surpreendido por um grupo de, segundo ele, 30 homens musculosos, quando andava por uma das ruas do bairro. Ele e um amigo foram espancados pelo grupo e acabou preso, nu, pelo pescoço, em um poste, por uma tranca de bicicleta.

Violência por violência
A grande maioria dos defensores dos “justiceiros de moto” -- como teriam se intitulado na noite da agressão -- afirma que chegou a hora de fazer justiça, que a ineficiência secular da policia em coibir esse tipo de delito, ou o aparecimento desses assaltantes, é tão flagrante que a única saída é maior rigor. Sugerem, entre outras coisas, que as leis sejam mais duras e que a maioridade penal seja reduzida. Normalmente é prudente evitar generalizações, mas nesse caso é impossível. Estamos tratando de um conjunto de indivíduos arrebanhados por um mesmo discurso superficial, felizes por encherem o peito e repetirem a fatídica sentença como se isso os dignificasse pro si só como autoridades capazes de discernir entre bandidos e gente do bem. Gente que, de fato, está convencida de que complexas relações sociais possam ser reduzidas a essa dicotomia simplista.  
Não bastasse o orgulho ingênuo de se sentir grandioso por repetir frases de efeito, a premissa é absolutamente equivocada. Em primeiro lugar, a grande maioria dos gênios que assim “pensam” se coloca contra os bandidos em oposição a uma esquerda multiculturalista que abraça o criminoso. Como se a dialética da violência fosse resumida por uma dualidade de tal natureza. Como lembra Žižek, não existem apenas respostas erradas para os problemas, mas perguntas erradas. E quando colocado de forma equivocada, o problema jamais encontrará qualquer resposta coerente. Acho que não preciso perder meu tempo aqui explicando porque a escolha nessa história não é atacar ou defender algum delinquente. Se alguém te disser algo como: tem pena? Leva pra casa – não diga nada, não alimente o animal. Apenas saiba que está falando com alguém com problemas de natureza moral e cognitiva.
Em segundo lugar, convém lembrar os mais entusiasmados que protelar tolerância zero não corresponde ao que fizeram os países tomados como exemplares por essa turma. Holanda ou Suécia, que sistematicamente vêm reduzindo sua população carcerária, jamais adotaram medidas de tal natureza. Eu duvido que os defensores de leis mais rígidas no Brasil sejam capazes de citar um único país cuja violência fora resolvida pela reação enérgica da polícia e de suas leis. Os Estados Unidos, que tomaram esse caminho, hoje contam com a maior população carcerária do planeta. Além disso – sejamos honestos - bandido bom é bandido morto já foi incorporado como diretriz informal da policia há muito tempo. A polícia americana pode ser bastante truculenta, mas não é páreo para a paulista, que mata mais e com uma população oito vezes menor. A PMERJ não fica atrás. Em 2013 a OAB/RJ lançou a campanha “Desaparecidos da Democracia” no qual mostram que mais de dez mil pessoas foram mortas sob suspeita de confronto com a polícia entre 2001 e 2011. Vale lembrar que oconceito de confrontopara a PM é bastante amplo. A opção por mais truculência, mais violência e intolerância não tem ajudado nem os próprios policiais, já que, em média, a chance de um policial morrer no Brasil é três vezes maior que em outros países. Ou seja, essa estratégia de fazer e acontecer pelas armas talvez tenha um grande impacto na boca de políticos que fingem estar fazendo alguma coisa quando mandam a policia subir o morro para matar pobre ou de machões justiceiros que tentam convencer seu nicho da própria masculinidade, mas certamente não anda protegendo nem cidadão, nem o policial.
           
O prefeito Eduardo Paes e a vereadora Leila do Flamengo / Reprodução
O prefeito Eduardo Paes e a vereadora Leila do Flamengo / Reprodução
Facebook e os reprodutores do senso comum

Jacob Burckhardt, historiador suíço do século XIX, dizia que um dos problemas da modernidade era que “enquanto as condições materiais da sociedade ficam mais complexas, suas relações sociais se tornam mais cruas”. Um dos sintomas do que ele chamou de brutal simplificação social dizia respeito ao fato das pessoas se projetarem categoricamente em identidades fixas. Não surpreende que um sujeito autoproclamado de bem, se sinta não apenas superior, mas também incumbido da tarefa de limpar a sociedade daquilo que julga ser o problema.
Na plateia, enfileirados, estão os reprodutores do senso comuns, prontos para proclamarem corajosas palavras de ordem no seu Facebook (!). O clima parece entusiasmar a cooperação prática, e todos então se sentem seduzidos a oferecerem suas sugestões logo após proclamarem seu mantra: bandido bom é bandido morto. O que se segue é um conjunto de frases rabiscadas pelo contrassenso e apresentadas como prognóstico de solução. “Não é a melhor justiça, mas é melhor do que justiça nenhuma!”, “é porque não foi contigo! Quando for, você vai querer fazer o mesmo com eles”.... Como se não bastasse a ignorância ao admitir publicamente um jargão protofascista como sua própria opinião, o discurso machão não se caracteriza como um erro de cálculo, mas como cálculo nenhum. A reprodução automática endossa passivamente um comportamento mais do que praticado, mas que salta aos olhos de um ignorante dessa natureza como uma ilusão de retribuição pelas injustiças que testemunha diariamente. Trata-se, portanto, de um delírio de vingança traduzido por um entendimento rasteiro sobre interações sociais.
Como gostava de lembrar George Orwell, “a vingança é um ato que se quer cometer quando se está impotente e porque se está impotente”. Nesse caso, uma dupla impotência. A primeira, assumida, diz respeito à constatação de que existe injustiça. Em outras palavras, que de fato estamos cercados de uma estrutura social nociva que normaliza patologicamente um sentimento perene de injustiça. A segunda se refere precisamente à impossibilidade desse tipo de discurso oferecer qualquer diagnóstico coerente. Ele é perfeitamente capaz de identificar a violência mais óbvia, aquela que se manifesta como perturbação da ordem, mas falha miseravelmente em perceber que a própria ordem depende de muita violência para se impor. Pense quanta violência é necessária para manter estável e constante a grosseira distribuição de renda no Brasil.
Para que esse (des) equilíbrio absurdo se mantenha, também é necessário sujeitos brilhantes como esses que repetem o jargão e discutem soluções para o Brasil em redes sociais. Na topologia do óbvio, criam a sensação de movimento, de que algo precisa ser feito, de preferencia algo muito radical. Na escola do bom senso, onde juram ter se formado, são sabedores de verdades sociológicas de bem. No fim, a ilusão de movimento sustenta um status quo ad aeternum.
No país com a segunda pior distribuição de renda do mundo, ninguém sabe o que são direitos humanos – já que nossos gênios sugerem que eles existem exclusivamente para proteger criminosos – mas todo mundo conhece o código de defesa do consumidor e onde fica o PROCON mais próximo. Todos aprenderam a comprar conscientemente assistindo ao Fantástico. O não consumidor é também o não cidadão. Chegamos ao ponto de termos esse ponto de vista abertamente defendido no legislativo pela fabulosa Leila do Flamengo, que não tem qualquer constrangimento em admitir: “Defendo as famílias e os moradores, não os desocupados”, ao lembrar seus eleitores que mendigos não são cidadãos.
Ao querer acertar as contas com seus criminosos, escapa ao cálculo dos defensores passivos da máxima bandido bom é bandido morto que também são eles, os bandidos, resultado direto de uma estrutura social covarde e abjeta, montada historicamente por tipos sociais obcecados por uma ilusão de ordem. Falta, portanto, clareza e abstração suficiente para que o sujeito se de conta de que mais de que não apenas está defendendo como novidade algo que há muito ocorre, como está brigando de forma quixotesca pela manutenção da mesma estrutura que supõe condenar. Os vigilantes do bairro do flamengo nada mais são do que a repetição trágica de formas análogas de polícia privada, como as milícias que há um tempo circulam no imaginário urbano carioca.  Justiça, a quem interessar, é algo bem diferente disso tudo.

Enquanto a temperatura da Terra aumenta, a cobertura da mudança climática diminui

Os cientistas emitem alertas sobre as mudanças climáticas. O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki Moon, o chama de "o maior desafio que a humanidade enfrenta".

Por - Jessica Weiss

Mas ao ler um dos principais jornais dos Estados Unidos, o país que mais contribui para o aquecimento global, se pode pensar que a mudança climática não é uma questão que gera uma grande notícia.

O professor Max Boykoff, da Universidade de Colorado, vem acompanhando a cobertura climática nos principais jornais dos Estados Unidos, The Wall Street Journal , The New York Times, USA Today,  Los Angeles Times e The Washington Post - desde 2000. Ele observou que as notas de pesquisa diminuiu durante 2013. O The New York Times reduziu os artigos do tema de forma mais drástica. O número de relatos em que as palavras "aquecimento global " ou " mudança climática " aparecem diminuiu mais de 40% em relação ao ano anterior.

Foi a mesma coisa no noticiário da televisão. O Professor de sociologia da Universidade de Drexel, Robert Brulle, constatou que a cobertura da televisão dos EUA sobre mudanças climáticas (nos principais programas de notícias da noite) em 2013 era quase o mesmo que o de 2012. A cobertura global dá preferência a política, não a ciência, é o que uma equipe de pesquisadores das universidades de Hamburgo e Zurique observaram. Sua pesquisa abordou a cobertura da mudança climática através da análise da quantidade de notícias dedicado ao assunto, em relação a outros grandes meios de comunicação. Foram analisados ​​jornais de 27 países de todos os continentes, incluindo países industrializados, economias emergentes e países em desenvolvimento.

"No geral, os resultados sugerem que a cobertura da mudança climática é sobre política e não sobre o clima ou fatores climáticos, não é a produção de conhecimento sobre o clima", disse o Observatório Europeu de Jornalismo em seu relatório .

A mudança climática está no topo da lista dos  "itens esquecidos" . "Precisamos nos concentrar mais sobre as mudanças climáticas e, talvez, isso possa ajudar a pressionar o nosso sistema político a tomar medidas de proteção para reduzir a ameaça de o único planeta que temos."

Qual é o status de cobertura da mudança climática em seu país? Você acha que os meios de comunicação escrevem bastante sobre o aquecimento global? É muito público ou não, é uma questão muito relevante na agenda nacional ? Digite os seus comentários .

* Jessica Weiss é um jornalista freelance baseado em Buenos Aires. Texto traduzido do Inglês para o espanhol por Andrea Arzaba .