"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Como um Banco Central serve ou prejudica um Estado: O FRB x O BCE

Artigo de Vicenç Navarro, publicado na sua coluna no Diário Publico da Espanha

Jack Rasmus, um dos melhores jornalistas sobre questões econômicas da revista Z Magazine dos EUA, descreveu (“The origins and evolution of the Fed. Bernanke’s Bank–An Assessment”, febrero 2014) os acontecimentos do início do século XX, em comparação com aqueles que ocorrem agora, nos últimos dez anos, e as enormes semelhanças são impressionantes entre o período da Grande Depressão e da Grande Recessão agora. Um dos acontecimentos que narra é a criação do Banco Central dos EUA, o Federal Reserve Board ou FRB (que foi aprovada em 23 de dezembro 1913 pelo governo federal dos EUA, e estabelecido um ano depois). Este banco foi criado precisamente para salvar o sistema bancário, que tinha entrado em uma profunda crise que ameaçava seu colapso. As origens deste colapso são muito semelhantes às origens da crise bancária que temos visto durante esses anos. A enorme concentração de riqueza, resultado do enorme crescimento dos rendimentos do capital em detrimento da renda do trabalho, levou a um grande aumento na atividade especulativa pela minoria da população  titular desta concentração. A queda na demanda causada pela renda do trabalho inferior, deixou pouco espaço na economia produtiva para gerar lucro suficiente para que o dinheiro concentrado nas mãos de poucos. A economia produtiva foi estagnada.

A diferença entre antes e agora é que a atividade especulativa não era focada em imóveis, mas na compra e venda de cobre, um mineral essencial para o sistema de linhas de energia, incluindo os meios elétricos. O banco interveio maciçamente, canalizando o dinheiro possuído pelos grandes fortunas para a compra especulativa de cobre, criando grandes bolhas especulativas na banca de elevados lucros, uma característica típica da economia especulativa. Quando as bolhas explodiram, criou um problema enorme, comparável à criada pela explosão da bolha imobiliária agora, prefácio da Grande Recessão. Este colapso criou um colapso do sistema bancário da atividade econômica. E os banqueiros chamaram imediatamente o Estado, o Ministério das Finanças (Departamento do Tesouro), para ajudá-los, fornecendo-lhes (na verdade, dando-lhes) dinheiro para salvar seus bancos. No entanto, o governo federal se recusou a dar-lhes dinheiro (grandes quantidades devido ao colapso dos bancos), pois isso teria um grande aumento da dívida pública. Por isso, era necessário que um órgão público independente fosse estabelecido, para ser este que lhes empreste dinheiro (a juros ridiculamente baixos) e que este não foi registrado como  dinheiro público através da criação de dívida. E assim nasceu a FRB, que imprime dinheiro e empresta aos bancos (e ao Estado). Esta agência independente do  Estado, mas responsável perante o Estado, ou seja, ela tinha que ser responsável perante o Estado, sendo sua direção nomeada pelo Presidente e aprovados pela liderança do Senado. Foi assim que ele salvou o sistema bancário dos EUA . E foi assim também como a FRB salvou o sistema  bancário dos EUA e mundial da  recente Grande Recessão. Sem o FRB -americano, os bancos europeus (e seguradoras europeias) entrariam em colapso. Desde 2008, a FRB já investiu US$ 1 bilhão na para salvar bancos dos EUA e bancos internacionais (os europeus, incluindo espanhóis, têm sido os mais assistidos, depois dos EUA).

A criação do Banco Central Europeu (BCE)

Foi este o mesmo mecanismo que determinou a criação do Banco Central Europeu, com algumas diferenças notáveis. Uma delas é que o BCE empresta dinheiro, muito dinheiro, às instituições financeiras, também com juros  muito baixos. Mas, ao contrário do FRB, o BCE não se responsabiliza com os Estados, o que os deixa completamente desprotegidos e vulneráveis à especulação bancária. Como regra geral, essa linguagem não é usada porque seria feio e incomodaria os bancos. Diz-se que os Estados têm de estar sujeitos à disciplina dos mercados financeiros (ou seja, bancos). Na verdade, os Estados são a presa dos bancos, que como sanguessugas sugam o sangue de Estado (os bancos detém a grande maioria da dívida pública), ou seja, o estado precisa d gastar dinheiro e tem que pedir emprestado, e não ao BCE , mas aos bancos, que exigem juros elevados. Recebem dinheiro do BCE por menos de 1% e compram títulos a 4% ou 6%, ou, no caso da Grécia, a 13 % (o valor alcançado em 2011). Uma pechincha imbatível.

E para complicar ainda mais, o BCE é totalmente independente. Você pode fazer o que quiser, como regra, é o que pede os bancos. Como eu já disse muitas vezes, o BCE não é um banco central é um lobby bancário. Por certo, me  surpreende que um dos jornalistas de economia que leio com mais interesse (Xavier Vidal- Folch, El País), recentemente apresenta o BCE como o grande salvador do euro e o benfeitor das economias da periferia do euro. O euro, no entanto, nunca esteve em perigo de desaparecer. Na verdade, ele sempre foi muito forte, mais forte do que o dólar. E embora seja verdade que, como Xavier Vidal-Folch indica o BCE impediu a crise da dívida piorasse em países periféricos, como a Espanha, onde seu diretor, Sr. Draghi, manifestou a sua vontade de comprar dívida pública (com apenas uma frase, que resolveu a crise), também é verdade que o BCE era o mesma que criou a crise da dívida pública por tanto tempo. Tal como está desenhado o BCE, é  impossível que a Espanha possa sair da crise da dívida elevada (erroneamente acreditava ser resolvido com base recorte). Uma situação diferente ocorre nos EUA com o FRB. O FRB compra dívida pública do Estado federal. Na verdade, o BCE é o que o Tea Party (a estrema direita americana) deseja que  se torne o FRB.

O estímulo econômico da Grande Depressão e da Grande Recessão

Jack Rasmus mostra uma outra semelhança entre os dois períodos. O uso de incentivos econômicos. No início do século XX, a resolução da crise financeira e emissão, mediante a ajuda aos bancos pelo Estado, impediu o colapso do sistema bancário, mas não resolveu o grave problema do baixo crescimento, o que era devido à consolidação do sistema bancário não ter sido acompanhado de um estímulo econômico. Não foi até os anos 1915-1918 que o governo dos EUA estimulou a economia, devido ao crescimento da despesa pública resultado da Primeira Guerra Mundial.

Algo semelhante já aconteceu nos EUA e na UE, mesmo que o estímulo tenha sido muito mais baixo na UE do que nos EUA. E além de menor, foi mais curto, pois o aumento da despesa pública no período 2009-2010 diminuiu rapidamente depois. Não tão acentuada foi a situação nos EUA. Tudo o que eu estou dizendo é que é impossível que a UE se recupere, a menos que mude a sua política em quase 180 º. E, infelizmente, os fatos me dão razão.

Vicenç Navarro* economista espanhol
Atualmente é Catedrático de Ciências Políticas y Sociais, na Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).

Os bancos especulam com divisas, manipulam o mercado de câmbios e a taxa Tobin está no limbo

Os bancos são os principais atores do mercado de câmbios, mantendo em permanência a instabilidade das taxas de câmbio. Mais de 95% das trocas de moeda são de tipo especulativo. Apenas uma ínfima parte das transações diárias de divisas está relacionada com o investimento, o comércio de bens e serviços da economia real, as remessas de emigrantes...
As transações no mercado de câmbios aumentaram 500 vezes em 40 anos. Foto USAG Yongsan/Flickr

O volume diário das transações no mercado de divisas envolveu, em 2013, cerca de 5,3 bilhões de dólares! Os bancos, como os fundos de investimento mútuo, que possuem muito boa liquidez, usam e abusam das transações no mercado de divisas, empurrando as moedas para cima ou para baixo para obterem ganhos com os diferenciais das taxa de câmbio. Os bancos têm também um papel decisivo em termos de derivados cambiais, podendo provocar perdas significativas, não mencionando já os efeitos nocivos que a instabilidade da moeda provoca em geral na sociedade. A partir de maio de 2013, as moedas dos principais países ditos emergentes (Índia, Brasil, África do Sul, Rússia, Turquia, Argentina e outros ) foram sujeitas a ataques especulativos e perderam nalguns casos até 20% do seu valor |1|. A taxa de câmbio entre o dólar e o euro tem sido também objecto de especulação.
Em quarenta anos, as transações no mercado de câmbios, controladas por alguns grandes bancos, aumentaram quinhentas vezes
O mercado de câmbios constitui a divisão do mercado financeiro global que, ao lado do mercado de derivados, registrou o maior crescimento. Entre 1970 e 2013, o volume de transações em moeda aumentou mais de quinhentas vezes (passando de um pouco mais de 10 bilhões para 5,3 trilhões de dólares por dia). Embora, em teoria, a principal função do mercado de divisas seja facilitar o comércio internacional, em 2013 o montante de transações relacionadas com o comércio de bens não representava nem 2% das transações diárias do mercado de câmbios.
Em 1979, era necessário o equivalente a 200 dias de atividade no mercado cambial para atingir volume anual de exportações mundiais. Em 2013, 3,5 dias de atividade no mercado cambial eram suficientes para atingir o volume anual de exportações mundiais de mercadorias. Isso mostra como as atividades do mercado financeiro estão desligadas da economia produtiva e do comércio de mercadorias.
Em 2013, quatro bancos apenas controlavam 50% do mercado de câmbios (Deutsche Bank, 15,2%; Citigroup, 14,9%; Barclays, 10,2%; UBS, 10,1%). Se juntarmos mais seis outros bancos (HSBC, JPMorgan, Royal Bank of Scotland, Crédit Suisse, Morgan Stanley, Bank of America), ficamos com 80% do mercado |2|. Metade dessas trocas realizam-se no mercado londrino.
Depois do escândalo da Libor, agora o escândalo do mercado de câmbios
Agora que o escândalo da Libor (relativo às taxas de juro impostas pelos bancos ao emprestarem dinheiro) foi quase dado como sanado pelas autoridades de supervisão, um novo escândalo rebentou, em 2013, a propósito da manipulação do mercado de câmbios |3|. As autoridades de supervisão dos mercados financeiros dos Estados Unidos, Reino Unido, UE, Hong Kong e Suíça suspeitam que pelo menos quinze grandes bancos manipularam em conjunto as taxas de câmbio, inclusive o mercado do euro-dólar que, só por si, representa um volume diário de 1,3 trilhões de dólares. Entre os bancos incriminados estão: Barclays, Citigroup, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, JPMorgan, Morgan Stanley, Royal Bank of Scotland, Standard Chartered e UBS. Dezoito traders terão sido suspensos ou despedidos no âmbito deste caso com contornos ainda pouco definidos. As autoridades britânicas de supervisão declararam que a extensão dos danos provocados por essas manipulações é no mínimo igual à extensão dos danos causados pela manipulação da Libor e que levou ao pagamento de multas no valor de 6 bilhões de dólares |4|. A ironia é que as autoridades do Banco de Inglaterra estariam envolvidas na manipulação, como no negócio da Libor. Em abril de 2012, traders especializados no mercado cambial teriam dado conta das suas práticas a altos funcionários do honorável Banco de Inglaterra, que terão deixado passar o assunto |5|. O laissez-faire, a cumplicidade ou a conivência entre os responsáveis dos bancos e os reguladores começaram a ver a luz do dia, mesmo se a conta gotas e sem quase fazerem a capa do jornais.
No âmbito deste caso, vários fundos de pensões dos Estados Unidos avançaram com processos judiciais, em 2013-2014, contra sete bancos (Barclays, Citigroup, Deutsche Bank, HSBC, JPMorgan, Royal Bank of Scotland e UBS), devido a perdas que sofreram na sequência da manipulação do mercado de divisas levada a cabo pelos banqueiros. Fundos de pensões norte-americanos consideram que os bancos devem pagar-lhes 10 bilhões de dólares por danos e juros. Os fundos de pensões da Holanda (inclusive o PGGM, o maior) e de outros países europeus consideram também a possibilidade de avançar com ações judicias |6|.
A taxa Tobin está no limbo
Há mais de quarenta anos, James Tobin, o ex-conselheiro econômico de John F. Kennedy, propôs colocar um grão de areia na engrenagem da especulação internacional de divisas |7|. Apesar dos belos discursos de alguns chefes de Estado, o flagelo da especulação cambial agravou-se. O lobby dos banqueiros e de outros investidores institucionais conseguiu sempre impedir que a sua atividade destinada a criar lucro fosse perturbada. No entanto, observa-se que, desde a época em que James Tobin fez a sua proposta, o volume das transações diárias no mercado cambial aumentou mais de 500 vezes...

A decisão de princípio tomada, em janeiro de 2013 |8|, por onze governos da zona euro |9|, no sentido de impor uma taxa de um milésimo sobre as transações financeiras é completamente insuficiente e não se aplica às divisas e nem sequer é certo que entre rapidamente em vigor. Os bancos exercem uma forte pressão no sentido de evitarem e limitarem ainda mais o alcance da medida |10|. O governo francês, intimamente ligado aos bancos, intervém ativamente a favor das exigências do lobby bancário |11|. Não haverá uma solução justa se continuarmos neste contexto enviesado.
É, por essa razão, chegada a hora de parar a engrenagem da especulação, aplicando uma verdadeira taxa do tipo Tobin, o primeiro passo no sentido de uma proibição completa da especulação sobre as moedas.


Publicado no site do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo. Tradução: Maria da Liberdade. Revisão: Rui Viana Pereira

Notas:
|1| Esses ataques especulativos estão relacionados com retiradas maciças de capital realizadas por investidores institucionais (bancos, fundos mútuos, fundos privados de pensões, hedge funds...).
|2| Ver Georges Ugeux, «Après le Libor, le marché des changes risque-t-il d’imploser?», Le Monde, edição de 1 de dezembro 2013, e Financial Times, «Foreign exhange : The big fix», edição de 13 novembro 2013.
|3| Financial Times, «Forex probe widened at least 15 large banks», edição de 13 novembro 2013.
|4| Financial Times, «Scale of forex fix probe to rival libor», edição de 5 fevereiro 2014.
|5| Financial Times, «Bank of England faces forex probe scrutiny», edições de 8-9 fevereiro 2014, e «BoE calls in lawyers over forex fix claims», edição de 12 fevereiro 2014.
|6| Financial Times, «Banks face forex legal battle. US pension funds seek large damages in class action proceedings», edição de 10 fevereiro 2014. Financial Times, «Banks face fresh forex claims», edição de 13 fevereiro 2014.
|9| Os onze países em questão são a Áustria, a Bélgica, a Espanha, a Estónia, a França, a Grécia, a Itália, Portugal, a Eslováquia e a Eslovénia.
|10| Financial Times, «Eurozone states look to limit financial tax», edição de 12 dezembro 2013.
|11| Ver Grupo de signatários, «Lettre ouverte européenne à François Hollande: ne cédez pas au lobby des banques!», publicado em 12 fevereiro 2014.

Agassiz Almeida: ministro, que justiça é essa

Na salvaguarda dos direitos fundamentais do cidadão, entidades nacionais e internacionais atuam há meses para que o Conselho Nacional de Justiça, do qual Vossa Excelência é presidente, enfrente o desafiador problema do sistema penitenciário do Brasil em que se amontoa um verdadeiro rebanho humano de 500 mil condenados ao inferno, e por cujos labirintos trevosos até os ecos lancinantes de Dante na Divina Comédia se perderiam. A ditadura militar assassinava nos porões dos quartéis, atualmente se degrada nas masmorras das penitenciárias.

Qual a sua posição, senhor ministro, frente a estas tragédias humanas? Total indiferença, como a daquele abutre do Atacama ante os gritos desesperados de milhares de atobás. Envergonha o país perante o mundo coonestar com estas infames misérias morais.

            Numa trombada entre a realidade gritante de um regime penitenciário selvagem e o seu absolutismo togado, Vossa Excelência vai a Paris e lá derrama inconsequente verborreia defendendo as transmissões televisivas das sessões do STF, confundindo publicidade com exposição midiática. Não! O mandatário de um poder não é senhor das circunstâncias, mas o seu arbítrio.

                Na sua volta daquela capital, no aeroporto do Galeão, em face do deputado João Paulo Cunha não ter sido preso, ouviu-se de um verdadeiro Herodes, sátrapa do Império Romano, um berro e este bordão: Dos condenados das galés romanas aos da Papuda todos se equiparam. Assim, certos vultos se transvestem de uma volúpia doentia a provocar terror bestial. Olhemos por trás das luzes da ribalta esta ópera bufa midiática. O que encontramos? Um tragicômico dramalhão. Cinismo deslavado a tripudiar no direito e na vida dos direitos e malbaratar a justiça como uma desassossegada megera.

Indigna-nos a parafernália que este festival de desencontros provoca na nação. Há algo de enigmático nos bastidores deste maquiavélico julgamento. Onde estavam Vossa Excelência e os atores que comandam este novelão quando o fardo da ditadura militar desabou sobre o país? Calados como certos desavergonhados personagens de Rabelais, e alguns até ajoelhados perante a tirania fardada. O todo-poderoso senhor do poder togado desfechou os seus raios fulminantes em direção a este amedrontado Henrique Alves, que nada preside a não ser entregar cabeças de parlamentares na bandeja para serem devoradas por esta fúria negra Quetzalcoatl, deus dos astecas e das almas aterradoras.

Ponha-se de pé, senhor deputado, e repila o chicote.

Contra o caos degradante que assola a nação, antepomos a ideologia dos desafios sob cuja legenda olhamos o mundo. Que vulto se investe como imperioso da lei? Mergulhemos no terrível tribunal da Inquisição do Santo Ofício nos séculos XV e XVI. Lá está possuído de uma alegria macabra e masturbadora o inquisidor-mor Tomás de Torquemada a ouvir sadicamente os enlouquecidos gritos dos condenados na fogueira.
Que personalidade é esta que preside o STF? Um Torquemada carregado de ódio ou um temível soba egresso das sinistras noites africanas como preador de negros para o tráfico nos tumbeiros, e cujos gritos de horror Castro Alves pranteou em imortal poema:

Deus, oh Deus, onde estás que não respondes? Há dois mil anos te mandei meu grito.

A pior tirania é a togada. Em nome da justiça despedaça o direito e a vida dos povos, instrumentalizada na lei renega a verdade e desordena normas processuais. Nesta babel erige um soberbo Catão do moralismo público.

Que justiça é esta que faz de uma corte constitucional um tribunal penal?

Que justiça é esta que renega o princípio da individualidade da pena, já defendida por Cesare Beccaria no século XVIII? Que desconhece os antecedentes dos réus lançando no mesmo processo, resistentes à ditadura militar e larápios de bancos? Enfim, que faz de peças processuais peças teatrais.

Que justiça é esta que, cega de paixão, desconhece os motivos e causas do crime, princípio primário da justiça criminal? Que leva de roldão a competência ratione funcionae e faz rolar no mesmo caldeirão dezenas de acusados?

Que justiça é esta que concede o passaporte da impunidade aos Maluf e aos torturadores e genocidas da ditadura militar, enquanto nos outros países estes tipos de criminosos estão na cadeia?

Que justiça é esta em que o próprio tribunal julgador incita ao linchamento público de réus, quando permite a transmissão ao vivo pela TV das sessões de julgamento? E a defesa dos condenados? Que se dane, assim determina a mídia. Isto violenta o direito natural e a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Cesse este megashow incompatível com o verdadeiro ideal de justiça. Com que se depara a nação? Um festival de ignomínia em que condenados desfilam as suas angústias em milhões de aparelhos televisivos. Isto não é justiça, mas a nau dos destroçados a navegar entre o imponderável e os interesses escusos. O que significa toda esta orquestração cretina da qual irrompem jatos diários de publicidade, frente aos quais a justiça se esfarrapa e um fariseu com a cara de Catilina romano se glorifica? Basta, senhor ministro! Isto não é julgamento, mas linchamento moral.

Ouçamos os sinais do tempo, assim falavam os incas.

Quando cessarem as fanfarras midiáticas e os falastrões de uma justiça rocambolesca se amiserarem e desertarem de cena, que fiquem estas palavras: A história, a verdadeira mater et magistra dos homens e das circunstâncias falará no amanhã dos tempos.
                      

Saudações democráticas
Agassiz Almeida

 Agassiz Almeida é escritor, ativista dos direitos humanos, ex-deputado federal constituinte, autor das obras: ”500 anos do povo brasileiro”, “A república das elites”, “A ditadura dos generais” e lançou recentemente “O fenômeno humano”. É considerado pela crítica como um dos grandes ensaístas do país.

Uê, a surra não serviu para "ressocializar"?

O menor que foi espancado e amarrado em um poste no Rio de Janeiro voltou a cometer furtos um dia após deixar um abrigo para onde tinha sido levado. Uê, a surra não serviu para "ressocializar"?

Muitos estão usando esse fato para dizer que só uma surra não basta, tem mesmo é que aumentar a intensidade ou então executar e ponto.

Mas o que nos interessa é tentar alguma explicação sobre o por que de um jovem como este de 15 anos de idade se encontrar nessa anomia com relação a sociedade como um corpo, relacionando com os estudos de Émile Durkheim, já que deve ter seu núcleo de convivência onde existem "regras", seria como um conflito de sociedades?

Intensificam-se pelo Brasil afora os sentenciamentos de "marginais" pela própria população, incitada há anos por programas policialescos na mídia, em sua maioria detida por oligarcas chefetes eleitorais; ontem em Natal um jovem foi espancado e teve os testículos e o pênis amarrados a um cordão por moradores do bairro Parque do Coqueiro. 

Não há argumentos; ou a sociedade não aguenta mais e tem que partir para essas "medidas", ou se defende bandidos, mas o que faria existir uma proporcionalidade tão grande de assassinos e assaltantes?

Há os que explicam pela "falta de lei", como no Brasil só tem impunidade os marginais fazem o que querem, de fato poucos casos de violência são elucidados no país, mas lei existe, e uma sociedade onde ocorre tantos casos deste tipo ela não é normal, já que a função da sociedade, como dizia Durkheim é que haja cooperação. Por que essa luta entre "sociedades"?

O que choca é que há uma brutalidade impressionante, uma agressividade inimaginável, mas o que pode explicá-la pode ser mesmo o próprio ato dos "justiceiros". Onde eles encontram "forças" para executar sentenças como a de Natal, só pode ser pela violência disseminada em uma sociedade desequilibrada, nela existiriam bolsões de anomia, uma ajuntamento involuntário, que ao mesmo tempo em que serviu para criar uma consciência comum e uma solidariedade,  também foi propícia para gerar exclusões e conflitos dentro dela mesmo, além do conflito de classes.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Corte de R$ 44 bilhões no orçamento é para pagar dívida, diz Auditora Cidadã da Dívida

Reportagem  do Movimento Auditoria Cidadã da Dívida.

Conforme mostra a pág 18 da Apresentação dos Ministros feita nessa quinta-feira, R$ 13,5 bilhões dos cortes serão realizados nas chamadas “despesas obrigatórias” (tais como a Previdência), pois o governo re-estimou para baixo tais gastos.

Os outros R$ 30,5 bilhões foram cortados das chamadas “despesas discricionárias”, ou seja, que o governo não tem a obrigação de gastar. Conforme as págs 20 a 22, serão prejudicadas áreas como Cidades, Cultura, Desenvolvimento Agrário, Esportes, Justiça, Meio Ambiente, Energia, Pesca, Direitos Humanos, Igualdade Racial, Mulheres, Trabalho e  Transportes.

Interessante comentarmos que a previsão de gastos com juros e amortizações da dívida pública federal em 2014 supera os R$ 1 TRILHÃO, ou seja, 23 vezes mais que o corte feito hoje.

Portanto, não há saída dentro desta política, que corta severamente recursos de importantes áreas sociais para viabilizar o pagamento de apenas uma parte dos juros de uma questionável dívida, que deveria ser auditada, conforme manda a Constituição de 1988.

Relator do PLC 99/2013 apresenta parecer contrário à auditoria da dívida de estados e municípios

A Agência Senado mostra que o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 99/2013 pode ser votado dia 26/2 (próxima quarta feira) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Conforme divulgado nos boletins anteriores, o PLC se limita a alterar a taxa de juros das dívidas de estados e municípios com a União, e recalculá-las desde o início com base na aplicação da elevadíssima Taxa Selic. Desta forma, os entes federados continuarão destinando grande parte de seus orçamentos – sacrificando importantes áreas sociais, como saúde e educação – para pagar apenas uma parte dos juros e amortizações à União, para que esta última destine esses recursos para o pagamento da também questionável dívida federal com o setor financeiro.

Em discussão na CCJ, estão as emendas nº 6 e nº 7 do Senador Randolfe Rodrigues (PSOL/AP), que pleiteiam a auditoria dessas dívidas e o recálculo pelo IPCA, sem a cobrança de juros.

Porém, o  relator da matéria, Senador Luiz Henrique (PMDB/SC), já apresentou seu parecer contrário às emendas de Randolfe, se utilizando de argumentos questionáveis.

A Auditoria Cidadã da Dívida analisou o parecer, e elaborou proposta de mensagem (abaixo) aos senadores da CCJ, e pede que todos enviem aos senadores de seu estado (clique aqui para ver os endereços eletrônicos dos senadores da CCJ).

Tá com o povão...Corta pra mim

Quando um apresentador de programa policial se refere à uma  pesquisa e diz que mais de 90% da população brasileira é a favor da maioridade penal, ou  abre os telefones de suas emissoras para opinião ao vivo, eles se consideram com estando "do lado do povo", são ferramentas de justificação, para essa opinião o povo é tudo, para o povo que luta contra os bancos esses são vândalos. Assim ocorre também com os que xingam os ativistas de Direitos Humanos  de "defensores de bandidos". Isola-se, assim, um ponto de vista ideal, o da solução talvez endurecendo leis, apesar de que as existentes sequer serem cumpridas, ou outras ideias frouxas, mas sem dizer quais seriam as soluções. Acresce-se a isso o fato de passarem a ideia que ativistas de direitos humanos desconsideram a violência existente, ora, devem ser os primeiros a conhecerem os dados absurdos da violência urbana do país.

Mas, retornando ao início, será que esse ponto de vista é estar mesmo do lado do povo. Em primeiro lugar se cria uma pauta conservadora por trás disso, como o pensamento é baseado na proteção de uma sociedade "segura" sabe-se onde existente e que "sentem vergonha de serem brasileiros nessas horas", se colocam do "lado do povo" talvez pela caridade para os miseráveis, gritam pela saúde, pela educação, mas se esses miseráveis fizerem um protesto reivindicando moradia serão taxados de baderneiros. Quem cumpre a pauta conservadora a qual me referia no início do parágrafo? Só pode ser setores mais anti-populares.

Acontece o seguinte, não se abre espaço para o debate crítico e polêmico, se fecha nesta pauta e vai ao encontro de um ideal, que só pode ser o de uma sociedade perfeita se se eliminar os "bandidos". Eu sei: seria bom uma edição de "O Povo Brasileiro" de Darcy Ribeiro para cada um, mas acreditar na salvação intelectual tem seus lados complicados também, e a coisa já foi pior, por incrível que pareça, a velha mídia não é mais tão soberana assim, olha, eu escrevo aqui vindo dos sertões do Seridó potiguar, onde antes meu destino seria votar em JáJá, receber uma feirinha, sei lá...

Digo que tínhamos de uma forma não muito científica, quatro classes, a que mandava politicamente no país, ancorada em uma elite jurídica; duas classes médias, uma bem perto do poder e outra conservadora, mantendo um padrão de consumo e no final da nossa pirâmide os mais pobres com suas variações internas, no geral com um consumo restrito e sérias dificuldades de alimentação e vestuário por exemplo. Uma sociedade com sua cordialidade e seu autoritarismo, seu jeitinho de conhecendo o chefe de polícia receber vantagens, um preconceito de cor, educação aos farrapos, não é atoa a receptividade dos programas policiais.

Nos últimos anos melhorou muito o nível de vida da nossa classe baixa, novos trabalhadores empregados, com acesso a produtos tecnológicos modernos, com condições de "criticar" a sociedade no facebook; então melhorou nossa capacidade de propor questionamentos sobre nossa sociedade. A esquerda precisa se reorganizar, chegar junto da população que não acredita em voto, nem em partido, mas há que ser com diz Alain Touraine "uma esquerda "medida do ser humano": "O que define a esquerda, é que ela pensa e age em termos de direitos. O populismo de direita, que lamenta as deploráveis condições da infância, dos pobres, das mulheres e dos presos, sempre existiu. Mas o pensamento e a ação só se tornam de esquerda quando o pensamento se interroga sobre as razões da desigualdade, ou da dependência e da violência, buscando nas vítimas os possíveis protagonistas de vontade e desejo de ação." 

Feiticeiros e chefes messiânicos no Brasil do século XXI

Albert Einstein deixou escrito um artigo onde fala de não precisar existir uma separação entre ciência e religião, para ele à medida que a ciência vai evoluindo sua presença na sociedade e na formação dos indivíduos a religiosidade se torna mais "limpa". Certamente Einstein fazia a crítica da modernidade à superstição, mas já de uma forma mais experimentada.

No Brasil, onde ainda existe uma religiosidade "messiânica" muito forte, basta ver a presença forte na sociedade de pastores eletrônicos com um tipo de "fé" bem aos moldes da crença em um milagreiro. Da mistura de povos, se misturara a fé cristã europeia com religiões indígenas e africanas e daí surgiu desde a crença em feitiçarias à uma pregação fanática da bíblia.

Penetrando-se nos mais diversos lugares do Brasil se erá  essa manifestação de religiosidade repleta de superstições  e agora com esse tipo novo de pastor que vende "curas" pela televisão.

É muito frequente ainda a presença de "curadores" que retiram espíritos do mal, pessoas que têm a certeza de que foram vítimas de "porqueiras".

Por fora disso temos o cristianismo político, que é utilizado como ferramenta conservadora, foi o que ocorrera na Marcha com Deus pela família em 1964.

Alcoolismo lidera afastamentos do trabalho por uso de drogas

O alcoolismo é o principal motivo de pedidos de auxílio-doença por transtornos mentais e comportamentais por uso de substância psicoativa. É o que apontam dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O número de pessoas que precisaram parar de trabalhar e pediram o auxílio-doença devido ao uso abusivo do álcool passou de 12.055 para 14.420 nos últimos quatro anos.

Os dados mostram que os auxílios-doença concedidos a pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de drogas passaram de 143,4 mil.

São Paulo teve o maior número de pedidos em 2013 por uso abusivo do álcool, com 4.375 auxílios-doença concedidos, seguido de Minas Gerais, com 2.333.

A cocaína é a segunda droga responsável pelos auxílios concedidos (8.541), seguido de uso de maconha e haxixe (312) e alucinógenos (165).

Segundo estimativas, cerca de 10% da população brasileira sofre com o alcoolismo. Levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta o alcoolismo como a terceira maior doença no país.

O auxílio-doença é assegurado aos trabalhadores que contribuem com a previdência a pelo menos 12 meses e que comprovem, por meio de perícia médica, a dependência da droga que o impede de trabalhar.

De São Paulo, da Radioagência NP, Leonardo Ferreira.

Foto: Marcelo Camargo/ABr

*Com informações da Agência Brasil

Contribuição do degelo do Ártico para o aquecimento global é maior do que se pensava

A reflexão de luz e calor, que é chamada albedo, estará a reduzir-se devido ao desaparecimento do gelo marinho, causado pelas altas temperaturas. É um ciclo vicioso: sem o gelo, o Ártico absorve mais calor, o que, por sua vez, impede a formação de gelo no ano seguinte. Por Fabiano Ávila
De acordo com o Instituto Scripps de Oceanografia, da Universidade de San Diego nos Estados Unidos, a capacidade do Ártico de refletir luz e calor caiu 4% entre 1979 e 2011.
Pode parecer pouco, mas representa que a região é ainda mais importante para o aquecimento global recente do que se imaginava e também explica por que o Ártico está a apresentar uma elevação de temperaturas muito mais rápida do que outras partes do planeta.
Enquanto a média global de aquecimento desde a Revolução Industrial foi de 0,8ºC, o Ártico teria registado 2ºC de elevação apenas nos últimos 40 anos.
A reflexão de luz e calor, que é chamada albedo, estará a reduzir-se devido ao desaparecimento do gelo marinho, causado pelas altas temperaturas. É, portanto, um ciclo vicioso: sem o gelo, o Ártico absorve mais calor, o que, por sua vez, impede a formação de gelo no ano seguinte.
Degelo do Ártico entre 1979 e 2013 / Organização Meteorológica Mundial
Desde 1970, o volume mínimo anual de gelo marinho no Ártico teria caído 40%.
“É algo intuitivo: ao se trocar o branco e a reflexão do gelo pelo azul escuro da superfície do oceano, é esperado o aumento da absorção de calor. Utilizamos medições de satélites para medir o albedo e a cobertura de gelo da região para confirmar essa noção e para quantificar quanto calor está a ser absorvido devido à perda do gelo”, afirmou Kristina Pistone, uma das autoras do estudo.
Foi a primeira vez que uma investigação usou dados diretos de satélites para medir as mudanças no albedo associadas à retração do gelo marinho. Estudos anteriores baseavam-se em modelos computacionais.
“Considerando os nossos resultados, a diminuição do albedo no Ártico é bastante grande. Se calculada em relação ao globo, vemos que é comparável a um quarto da força radioativa – o efeito do aquecimento sobre o clima – resultante das emissões de CO2 durante o mesmo período. Isso sugere que a diminuição do gelo do Ártico tem sido um importante fator no aquecimento global que observámos nas últimas décadas”, explicou o climatologista Ian Eisenman, do Scripps.
“Assim, apesar de mais trabalho ser necessário, uma implicação possível dos nossos resultados é que as mudanças no gelo do Ártico têm um impacto maior do que o esperado no aquecimento global”, concluiu.
Artigo de Fabiano Ávilado Instituto CarbonoBrasil

6 notas para compreender o que acontece na Ucrânia

Nos últimos 3 dias pelo menos 86 pessoas morreram na praça central de Kiev e nos seus arredores. O que causou este banho de sangue? Artigo de Alberto Sicília em Kiev, publicado no blogue Principia Marsupia
Fotos de Alberto Sicilia
Antes de responder à pergunta, permitam-me retroceder umas semanas para recordar qual era a situação na praça.
No final de novembro, milhares de manifestantes tomaram o centro de Kiev, instalaram um acampamento e protegeram-no com uma espetacular fortificação de barricadas.
Durante dois meses a situação permaneceu“relativamente” estável (comparada com o que ocorreu nas últimas horas). Os polícias anti-motim esperavam no outro lado das barricadas e davam-se confrontos entre os dois lados, mas o território controlado pelos manifestantes e pela polícia permanecia mais ou menos estável.
Quando visitei Kiev há três semanas escrevi um post com o título “O que ocorre na Ucrânia?”Talvez seja útil como complemento a este.
Quando começou a onda de violência sem controle?
Nesta terça-feira, os manifestantes começaram a marchar para o Parlamento, que se encontra a cerca de trezentos metros da sua última barricada.
Os Berkut, as forças especiais da polícia, bloquearam o possível assalto ao Parlamento e lançaram um contra-ataque para tomar o acampamento.
Nessa noite morreram pelo menos 26 pessoas entre manifestantes e polícias.
De manhã, os polícias anti-motim tinham conquistado metade do acampamento.
Aqui têm duas fotografias para compreender qual era a situação antes e depois da noite de batalha.
A) Situação da praça até terça-feira à tarde: ocupada pelos manifestantes como esteve durante os dois meses anteriores. (Fiz a foto há três semanas).

B) Situação da praça na quarta-feira de manhã: a polícia controla metade.
Bom, então na quarta-feira de manhã a polícia tinha controlada metade do acampamento. E depois o que se passou?
Durante a quarta-feira a situação permaneceu estável. Os anti-motim desmontavam as barricadas da zona que tinham conquistado enquanto, a poucos metros, os manifestantes gritavam que não retrocederiam mais.
O inferno aconteceu às dez da manhã de quinta-feira. Em poucos minutos pelo menos 60 pessoas morreram e centenas ficaram feridas.
Os anti-motim tiveram que retroceder e abandonaram as posições que tinham recuperado apenas um dia antes.
3 dias e 86 mortos depois, cada lado voltou às suas posições iniciais. A tragédia e o absurdo.
E aqui quem são os bons e quem são os maus?
Não creio que haja irmãs da caridade em nenhum dos dois lados. Os confrontos (pelo menos os que eu presenciei) foram entre bárbaros e bárbaros: linchamentos, balas reais, franco-atiradores.
Alguns meios de comunicação dizem que todos os manifestantes são de extrema direita, é verdade?
Há muitos militantes de extrema direita. Fotografei vários desses grupos para este outro post. Mas dizer que são a grande maioria parece-me erróneo. Basta descer à praça e falar com as pessoas.
Conheci bastantes manifestantes que estão simplesmente fartos dos partidos políticos, cansados da corrupção e da falta de oportunidades.
É certo que o número de moderados desceu notavelmente nos últimos dias: após verem morrer dezenas de pessoas, muita gente razoável preferiu não arriscar e voltou para casa.
Os que ficam sabem que se estão a arriscar a vida em cada momento. E claro, para isso os extremistas são mais fáceis de convencer. Um deles dizia-me anteontem: “Ou vêm com os tanques e passam-me por cima ou eu não me movo daqui até que Yanoukovich se demita”.
Alguns jovens universitários que conheci na praça há 3 semanas disseram-me que têm demasiado medo e que por isso se foram embora.
Isto é uma batalha entre a Rússia e o Ocidente?
No conflito da Ucrânia sobrepõem-se batalhas a vários níveis:
A) É um conflito entre a Rússia e o Ocidente pela sua influência na Ucrânia.
B) É um conflito nacional entre Yanoukovich e a oposição pelo controle do país.
C) É um conflito social entre os políticos e os cidadãos que não se sentem representados nem pelo presidente nem pela oposição.
D) É um conflito civil entre grupos da extrema direita nacionalista e a população de língua russa da zona leste do país e da região autónoma da Crimeia. (Este ponto está explicado de forma mais extensa no final deste outro post).
Quanto mais tempo passo na praça, quantos mais argumentos escuto, mais complicada me parece esta história.
NOTA: Continuo na praça de Kiev e durante todo o dia vou publicando no Twitter as cenas com que me deparo.

Artigo deAlberto SicíliaemKiev, publicado no blogue Principia MarsupiaTradução de Carlos Santos para esquerda.net

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Para uma educação complexa"

Artigo de Edgard de Assis Carvalho. 

A reforma da educação é prioritária  para o futuro da Humanidade. A aposta de Edgar Morin numa educação complexa enuncia uma agenda de múltiplos princípios dentre os quais  destacam-se: 

1. Pensar a Educação como Atividade humana cercada de  incertezas e indeterminações, mas também comprometida com os destinos humanos e a construção de vias para o futuro; 

2. Praticar uma ética da  Competência que comporte um comprometimento ético com o presente sem esquecer o compromisso com o futuro durável;

3. Buscar as Conexões existentes entre os fenômenos da vida e inseri-los em contextos mais amplos;

4 . Abdicar da ortodoxia de teorias e conceitos e estimular o nomadismo das ideias; 

5 . Exercitar o diálogo entre as várias especialidades; 

6 . Deixar emergir a complementaridade entre a arte, a literatura , a ciência e a  filosofia; 

7. Transformar os ensinamentos em linguagens que ampliem o número de interlocutores da Ciência; 

8. Lutar Pela Construção da antropolítica e da  antropoética como fundamentos de uma política de civilização terrana.

Aceitar o pressuposto de que nenhuma sociedade é capaz de pensar a si mesma com sabedoria e autonomia sem a religação é o ponto de partida de quaisquer políticas educacionais complexas. Desde 1957, Charles Snow já havia enfatizado esse fato em seu polêmico ensaio As duas culturas. Sabemos que essa ideia situa-se no contrafluxo da grande maioria das instituições educacionais que continuam a fortalecer o modelo da fragmentação, da especialização, da disciplinaridade, supondo que apenas as competências tecnocientificas são suficientes para equacionar as contradições do atual mundo globalizado.

As Jornadas Temáticas propostas por Edgar Morin em 1997 para a reforma do ensino médio francês foram problematizadas em torno de oito metatemas: mundo, terra, vida, humanidade, manifestações civilizatórias, culturas adolescentes, historia, conhecimento. Mesmo que não tivessem sido implantadas, as reflexões oriundas do encontro permanecem mais atuais do que nunca. É inegável reconhecer que a religação entre, parte e todo, texto e contexto, local e global é prioritária no século XXI.

Os sete saberes necessários à educação do futuro constituem o pano de fundo ideológico da reforma do ensino. Esse saberes não são disciplinas, ou programas a serem aplicados em nenhum tipo de grade curricular. São idéias-guia, buracos negros, pontos de partida para que a educação dos educadores se efetive. Integrar os erros, pregar o conhecimento pertinente, explicitar o caráter biossocial do humano, assumir a identidade terrena, incorporar as incertezas, estimular a compreensão, preservar o caráter ternário da ética são os comandos cognitivos que regem a criação e a transmissão dos saberes contemporâneos. 

Em setembro de 2010, o encontro de Fortaleza, Ceará – Os sete saberes necessários à educação do presente – reiterou as ideias do texto de 2000, que recebeu uma segunda edição, projetando-as para o futuro imediato. Uma Carta de Fortaleza foi redigida na ocasião composta de dezesseis recomendações que enfatizam a complexidade dos processos educacionais. A Carta exorta estados e governos a privilegiarem em seus projetos a visão dos Sete Saberes em prol da ampliação do diálogo intercultural e de esferas comunicacionais que invistam na liberdade do sujeito, na criatividade, na transgressão das fronteiras disciplinares.

As idéias de Edgar Morin representam um caminho para a esperança, para a imaginação, para a democracia política, para a regeneração permanente. Oriundos de várias áreas do conhecimento, são muitos os pensadores afinados com suas ideias, pressupostos, utopias. Mesmo no contrafluxo de políticas educacionais que privilegiam o cálculo e a repetição, por toda parte do globo suas ideias proliferam e se ampliam. Temos sempre em mente que tudo aquilo que não se regenera, degenera-se. 

Atuamos nas brechas e possibilidades que as próprias instituições nos oferecem. Núcleos de complexidade espalham-se nelas, na A PUC/SP, na UFRN no Brasil, por exemplo. A Multiversidad Mundo Real em Hermosillo, México, demonstra que um conhecimento sistêmico e transdisciplinar é viável para a construção de uma Via para o futuro da humanidade, titulo aliás de um recente livro de Edgar Morin publicado originalmente em 2011 e traduzido em várias partes do mundo.

EDGARD DE ASSIS CARVALHO, coordenador do núcleo de estudos da complexidade, do comitê de ética em pesquisa da PUC de São Paulo. Colaborador de várias instituições brasileiras, tradutor das obras de Edgar Morin. Membro do comitê científico internacional da Multiversidad Mundo Real Edgar Morin.

Natal, fevereiro 2014.

Agronegócio pressiona agricultores a abandonarem a terra, diz pesquisadora

Por Mariano Branco - Da Agência Brasil

Os pequenos agricultores e as comunidades tradicionais brasileiras sofrem constante pressão para abandonar a terra. Isso ocorre porque ela é um bem valioso, disputado com o agronegócio e seus interesses, e ainda, em razão de dificuldades econômicas e falta de políticas públicas que assegurem a permanência no campo, como oferta de saúde e de educação.

A avaliação é da pesquisadora Leonilde Medeiros, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). De acordo com ela, o perfil do campesinato brasileiro é migrante. Diferentemente dos camponeses europeus, mais enraizados, no Brasil, o homem do campo’ precisa esforçar-se para permanecer na terra.

“O [camponês] brasileiro é muito migrante, é constantemente expulso. Aconteceu com posseiros, pequenos proprietários e setores que estão lutando para permanecer em suas terras tradicionais, como índios e quilombolas. [Esses grupos] estão sempre em uma relação muito precária com a terra. [É assim] desde o princípio da colonização. A história do Brasil é uma história de conflito agrário”, destaca Leonilde.

Segundo ela, o avanço do agronegócio criou ainda mais tensões para os pequenos agricultores. “Hoje, no Brasil e na África, a terra é a grande frente do agronegócio. O Brasil é um dos poucos países do mundo que ainda tem algumas terras disponíveis. O perfil na América do Norte e Europa é mais estabilizado”, explica a pesquisadora.

Leonilde Medeiros é uma das palestrantes, que discutem a situação de pequenos agricultores e ocupantes de terras tradicionais no seminário Dinâmicas e Perspectivas do Campesinato no Brasil no Século 21, organizado pelo Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Os debates começaram nesta terça-feira (18) e vão até sexta-feira (21). Segundo a professora, que participará nesta quarta-feira (19) de mesa-redonda sobre contradições sociais no campo, embora o conflito agrário seja o principal fator de pressão para pequenos agricultores, as questões financeiras e a escassez de políticas públicas também devem ser levadas em conta.

“Eu acho que um dos elementos chave [para resolver o problema] é a retomada de um programa amplo de reforma agrária. Sem nenhuma mudança legal, basta obedecer à Constituição, que diz que o campo deve ter função social. A segunda questão é garantir com políticas de crédito, educação e saúde, que os pequenos proprietários permaneçam. Eles [agricultores] têm crédito para produção, mas às vezes têm dificuldade para escoá-la. Também têm uma estrutura muito frágil”, diz.

Anderson Amaro Silva dos Santos, da direção nacional do MPA, confirma que a estrutura para garantir a sobrevivência e desenvolvimento dos assentamentos rurais existentes é precária. “Tem muitos assentamentos, em vários estados, bem estruturados e produzindo.

Mas há famílias assentadas há dez anos sem nenhum tipo de estrutura. [Situações assim] passam de 50% [do total de assentamentos”. Anderson diz ainda que tem havido poucos assentamentos novos nos últimos anos.

O diretor do Núcleo de Estudos Agrários de Desenvolvimento Rural do ministério, Guilherme Abrahão, diz que, apesar das alegações de que ainda falta estrutura, a política agrária tem avançado em questões de seguridade social, educação, crédito e assistência técnica. “Em uma análise, o que nós podemos dizer é que não queremos fazer assentamento pelo assentamento. O acesso [à terra] é importantíssimo, mas só a terra não garante. O que mudamos nesse último período é a configuração para além do acesso à terra. Avançamos na forma de fazer reforma agrária no Brasil”, declarou.

Classe média brasileira tem 108 milhões de pessoas, diz pesquisa

Dados de pesquisa realizada pelo instituto Data Popular em parceria com a Serasa Experian. Constata uma classe C,  compreendida entre os que recebem salários entre 320  e 1.120 reais por mês, composta por 108 milhões de pessoas, sustentando um consumo e egundo a pesquisa se formasse uma nação. sozinha seria o 18º maior consumo do planeta.

Embora o montante seja alto, a comparação precisa levar em conta que a população da Holanda é de pouco mais que 16 milhões de habitantes, que produziram uma renda per capita de pouco mais de 42.000 dólares, ou 101.000 reais. Valor distante dos 22.400 reais gerado por cada brasileiro no mesmo ano, 2012. Já a Suíça, com seus oito milhões de habitantes, registra um PIB per capita de mais de 50.000 dólares.

Essa classe C s gastaria só com alimentação,  gastos calculados em 223 bilhões de reais em 2013, o que equivaleria ao consumo de todas as famílias da Bolívia, Paraguai, El Salvador e Uruguai juntas.

A pesquisa destaca o interesse pelos chamados "produtos de marca". O Presidente do instituto responsável pela pesquisa, Renato Meirelles, afirma: "A classe C está consumindo cada vez mais produtos premium, mas também está cada vez mais pesquisando preços. Basicamente porque o dinheiro está curto".

Meireles destaca que o consumo cresceu de forma tão rápida que houve um impacto na infraestrutura existente. "Ocorre que a democratização do consumo foi mais rápida que a dos espaços do consumo", e continua: "O cara tem dinheiro para a passagem muito antes do aeroporto estar pronto, por exemplo. Com poder de compra, esse jovem se apodera", diz.


A pesquisa dividiu a classe c em quatro grandes grupos: Promissores, Batalhadores, Experientes e Empreendedores.

Os Promissores, ou 19% da classe média, são jovens com idade média de 22 anos, solteiros, com ensino médio completo e trabalham com carteira assinada. Eles consomem 230 bilhões de reais em sua maioria com beleza, automóveis, educação, entretenimento e tecnologia. 42% deles estão na região sudeste do Brasil.

Os Batalhadores representam 39% da classe média, com 30 milhões de pessoas de idade média de 40 anos e 48% têm ensino fundamental completo. A maioria é solteira e 41% têm acesso à internet. Para esse grupo, o estudo é visto como uma oportunidade para ascensão social. Por ser a maior parcela, os Batalhadores são responsáveis pela maior parte do consumo: 389 bilhões de reais, gastos em viagens pelo Brasil, automóveis, imóveis, móveis, eletrodomésticos e seguros.

Os Experientes são compostos por 20 milhões de pessoas ou 26% da classe média. Têm idade média de 65 anos e apenas 7% têm acesso à internet e continua trabalhando mesmo depois de se aposentar, em busca de uma atividade para preservar o padrão de consumo, que é de 274 milhões de reais ao ano. Esse dinheiro é gasto em viagens nacionais, eletrônicos, saúde, móveis e eletrodomésticos.

O último grupo, os Empreendedores, abrangem 16% da classe média, com 11 milhões de pessoas, formando o grupo mais escolarizado: 42% deles estão cursando ou já concluíram o ensino médio e 19%, o ensino superior. Com idade média de 43 anos, 60% têm acesso à internet e 43% trabalham com carteira assinada. Consomem anualmente 276 bilhões de reais em educação, eletrônicos, turismo internacional, tecnologia, automóveis e entretenimento.

Ucrânia: Trégua ignorada

Manifestantes tentaram abrir caminho até o Parlamento e ocuparam vários edifícios. Notícias sobre o reinício da violência são contraditórias. Número de vítimas pode ser maior.
Imagem do feed ao vivo mantido pela Russia Today

Apesar da trégua anunciada pelo presidente Yanukovich na noite de quarta-feira, a violência voltou na manhã desta quinta-feira à praça da Independência em Kiev. Há notícias de que pelo menos 25 pessoas morreram.
Cerca das nove da manhã, os manifestantes, que na quarta-feira tinham perdido o controlo de parte da praça, carregaram sobre a polícia tentando abrir caminho até o Parlamento. A tropa de choque reagiu com mangueiras de água e gás lacrimogéneo, sem sucesso. O Parlamento foi evacuado. Os manifestantes ocuparam os edifícios dos Correios, o do Ministério da Agricultura, e o da Câmara Municipal
As informações em relação às vítimas são contraditórias. O Ministério do Interior afirma que franco-atiradores alvejaram polícias do alto de edifícios. Outros garantem que a violência explodiu quando a polícia tentou desalojar um edifício ocupado.
Também sobre a reunião agendada entre o presidente ucraniano e os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (França, Alemanha e Polónia) as informações são contraditórias, havendo notícias de que esta teria sido cancelada devido à nova explosão de violência.
Trégua pouco durou
Recorde-se que na noite de quarta-feira o presidente da Ucrânia, Victor Yanukóvich, anunciara uma "trégua" e o reinício nesta quinta-feira das negociações com a oposição, "para acabar com o banho de sangue e estabilizar a situação no país para se alcançar a paz social". O anúncio fora precedido por uma reunião de quatro horas com três líderes da oposição.

Quatro empresas que controlam 90% da alimentação mundial

golden spikes with dollar billsCoincidindo com o Dia Mundial da Alimentação, fomos alertados para um nova subida de preços dos alimentos, com repercussões que já são contabilizados nos registros  funerários dos mais vulneráveis ​, em particular nos países do Sahel na África. O argumento generalizado, as más colheitas que teve a agroindústria   no ano passado nos EUA, sabemos que é matade mentirosa, metade incompleta e de as informações se ampliam e as causas reais emergem: o preço das matérias-primas sobe - como nas crises alimentárias anteriores por: (a) as grandes quantidades de grãos são usadas ​​para desenvolver combustíveis (lembre-se seis e sete anos atrás, quando see alertou para os inconvenientes desta nova tecnologia?), (b) pela especulação de que as colheitas futuras se faz em bolsas de valores, e (c), pela cada vez  maior quantidade de terra fértil que está passando das mãos camponesas para o patrimônio de bancos, empresas e fundos de investimento.

Quem está em todos esses negócios de uma só vez? Quem está por trás da carne, pão, massas, leite... e  não sabemos? Quem tem no mesmo lugar, prateleiras cheias de biocombustíveis produzidos a partir de milho,  alimentos de soja para engorda de animais, e um corredor adiante, uma mesa com um gerente que fornece pensões ligadas à compra de hectares na Etiópia ou obrigações financeiras como referências ao preço do trigo? Os quatro 'compro, vendo e especulo' da comida a que me refiro são, nesta ordem: ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus, conhecidas por sua sigla como ABCD da comercialização de matéria-prima. Quatro empresas com sede nos Estados Unidos que, se inicialmente conseguiram dominar e controlar o mercado mundial de grãos básicos, cereais e legumes, têm se expandido nos últimos anos seus negócios para essas novas áreas.

O ABCD do alimento, quatro empresas monstruosas nascidas e crescidas no colo do capitalismo e da desregulamentação, ganham todo o ouro do mundo dizendo que fabricam comida quando realmente lucram com a fome milhões de seres humanos. E eles fazem a partir da invisibilidade.

É muito difícil  mergulhar nas entranhas dessas empresas e suas subsidiárias infinitas, mas há duas coisas óbvias. Em primeiro lugar, se elas quatro controlam, tais como o 90 %! do mercado mundial de grãos, se o mercado não tem regulação (ou tarifas ou cotas de importação/exportação, ou reservas de grãos públicos ou políticas de preços), e se as poucas regras que são ditas são supervisionados pelo próprio ABCD, é fácil deduzir que são essas decisões que verdadeiramente define o preço dessa mercadoria e, portanto, todos os alimentos, incluindo arroz, trigo, milho, etc. Segundo, se as ABCD (junto com algumas instituições financeiras) tem degustado os brutais benefícios especulam que gera-lhes especular com comida e campos agrícolas, como o sangue para  vampiros, continuarão sugando a fome dos outros, se ninguém colocar um fim neles. A Dreyfus, por exemplo, criou o seu próprio veículo de investimento Ltc Calyx Agro, a "lucrar com o crescente setor do agronegócio e do potencial de valorização da terra, aquisição de terras atualmente exploradas com baixa tecnologia ou usada para pastagem'.

As crises recentes têm permitido a sociedade civil conhecê-las e denunciá-las sabia como os alimentos e a terra tornou-se objeto de especulação. O foco tem sido sobre os bancos e suas atividades nos mercados financeiros relacionados com a alimentação, com campanhas publicitárias, tais como "o negócio de alimentar o mundo' que tem merecido toda a rejeição da sociedade. Embora o papel do ABCD seja complexo e distante, deve-se estar ciente de sua importância no preço das matérias-primas. Por parte dos movimentos camponeses, em qualquer caso, a resposta veio clara: a Soberania Alimentar. Também agora há que se responder. Não são regras para o ABCD ganhar menos dinheiro que precisamos, o que é necessário são políticas de soberania alimentar para que a alimentação, que não é uma mercadoria, nos venha  na criação de muitas, pequenas e  médias agriculturas humanas.

De todo  um alfabeto alimentar.

Artigo de Gustavo Duch em www.ecoagricultor.com

Em Caicó uma Rádio para cada chefe - Mudar a consciência

Em Caicó-RN 3 emissoras de Rádio estão diretamente ligadas e chefes de grupos eleitoreiros e que ocupam ou já ocuparam cargos mantendo a concessão dessas emissoras, como todo mundo já ouviu a Constituição veda essa prática mas algo que nunca é retaliado. Esses "democratas" que sempre falam do e para o povo mergulham o direito democrático de liberdade de informação em uma "liberdade" viciada.

Na Rádio Seridó, Rádio Caicó, atualmente fechada por dívidas junto ao ECAD, e 106 FM os principais programas de suas grades é um habitual Programa Policial que abrange comentários, do "super especialista em sociedade", sobre várias outras áreas do cotidiano. O que a população passa a reproduzir como "consciência social" somente serve para esses chefetes e seus bandos. O bombardeio do assunto violência cria um discurso de legitimidade à forma errada de polícia no país e alimente uma pauta conservadora, surgem "mobilizadores de facebook" pregando contra Direitos Humanos, falam tanto de corrupção e não enxergam a corrupção mal-da-casa-grande arraigada na sociedade e só repetem discursos grosseiros partindo às vezes de um ponto de vista ideal.

Aí entra o papel da Internet, também lotado desse lixo, mas que pode ser bem utilizado para por em crítica essa "consciência".

Não só em Caicó, mas em todo o Rio Grande do Norte a mídia é feita assim, de posse de chefetes eleitoreiros, desde as afiliadas às maiores redes de televisão do país a rádios únicas em cidades médias do interior.

Se até recentemente o Rio Grande do Norte contava com essa classe "chefe" da vida "política", os velhos oligarcas Maias, Alves, Rego, Rosado Costa, Bezerra, Queiroz e outros, uma classe média conservadora e do outro lado a classe baixa destituída do mercado de consumo, rural e urbana, vivendo na escassez da tudo, hoje nós temos uma inclusão maciça desse setor afastado e excluído e que agora term acesso à educação, às universidades e à internet; portanto, é preciso que esses novos incluídos se levantem politicamente, critiquem a sociedade; os que serão novos professores têm que substituir a mentalidade "pedagógica" reacionária de uma geração de professores ainda apegados a tradições religiosas e tradicionalistas.