"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 8 de março de 2014

As cotas atiçam o racismo?

O discurso acerca das políticas de cotas está polarizado no Brasil, da seguinte maneira: é de esquerda o defende, e quem é direita é contra, não preocupados com racismo, mas apenas com a questão político-eleitoral, como o discurso se blindara politicamente, como diz Touraine populismo de direita sempre existiu, mas pautado, essencialmente,em absurdos moralísticos. Afora essa polarização o que resta saber é omo fica a questão do racismo.

O que se quer visualizar agora, depois de instituídas essas políticas e seus reflexos na sociedade, sabendo que quando uma teoria se torna prática ela pode trilhar caminhos diferentes do esperado, Edgar Morin chama isto de "ecologia da ação".

Nas últimas semanas de forma surpreendente, ou pode ser coincidência, mas houve casos de insultos racistas em partidas de futebol no Rio Grande do Norte, em São Paulo e no Rio Grande do Sul. No Rio Grande do Norte, contra o goleiro do América, Dida; no Rio Grande do Sul contra o árbitro Márcio Chagas da Silva e, em São Paulo contra o jogador Santista, Arouca.

Esse caso do Rio Grande do Norte é o mais expressivo, aqui predomina o racismo "escondido", uma manifestação assim significa uma variação.

Um dos nomes mais conhecidos contra as cotas no Brasil é o do sociólogo Demétrio Magnoli, segundo ele o fato de o indivíduo ter que se definir dentro de determinada "categoria" racial por si só fundamenta a criação de um racismo "cultural".

Do outro lado está o ponto de vista de que o racismo escondido é pior pois tende a manter o statu quo da exclusão. Blindada politicamente surge aí uma querela infindável.

Veja só, se não houvessem "afirmações" para os povos indígenas, uma minoria, certamente, estes já teriam desaparecido do país, e vemos como funciona as demarcações em alguns pontos, como no Xingu, luta de Darcy Ribeiro, Irmãos Vilas-Boas e Cacique Raoni, por exemplo. Em seu livro Uma Gota de Sangue, Magnoli critica a demarcação contínua da terra Raposa Serra-do-Sol em Roraima, dentro do argumento segundo o qual uma demarcação desse tipo segregaria um grupo dentro de multiculturalismo.

Em Tempos de vigilância governamental, qual 'segurança' está em jogo?

Funcionários afirmam que a política de estado atual é necessária para preservar o bem-estar do público.
POR NOAM CHOMSKY
Um princípio orientador da teoria das relações internacionais é que a maior prioridade do Estado é garantir a segurança. Como estrategista da Guerra Fria, George F. Kennan formulou o modo de exibição padrão, o governo é criado "para garantir a ordem e a justiça interna e para prover a defesa comum."
A proposição parece plausível, quase evidente, até que olhamos mais de perto e perguntamos: Segurança para quem? Para a população em geral? Para  só o poder do Estado? Para setores internos dominantes?
Dependendo do que queremos dizer, a credibilidade da proposta varia de pouco desprezível a muito.
Segurança para o poder do Estado está no alto extremo, como ilustram os esforços que os Estados exercem para se proteger do escrutínio de suas próprias populações.
Em uma entrevista na TV alemã, Edward J. Snowden disse que o seu "ponto de ruptura" foi "ver o Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, estar diretamente sob juramento ao Congresso", negando a existência de um programa de espionagem interna conduzida pela National Security Agência .
Snowden pensou, então, que "O público tinha o direito de saber sobre esses programas.O público tinha o direito de saber o que o governo está fazendo em seu nome, e que o governo está fazendo contra o público".
O mesmo poderia ser dito justamente por Daniel Ellsberg, Chelsea Manning e outras figuras corajosas que atuaram no mesmo princípio democrático.
A posição do governo é bem diferente: O público não tem o direito de saber porque a segurança assim é prejudicada severamente, como os funcionários afirmam.
Existem várias boas razões para ser cético sobre tal resposta. O primeiro é que é quase totalmente previsível: Quando atos de um governo são expostos, o governo implora pela segurança. Por conseguinte, a resposta previsível exerce pouca informação.
Uma segunda razão para o ceticismo é a natureza das provas apresentadas. O estudioso de relações internacionais, John Mearsheimer, escreve que "A administração Obama, não surpreendentemente, inicialmente alegou que a espionagem da NSA teve um papel fundamental em frustrar 54 planos terroristas contra os Estados Unidos, o que implica que violou a Quarta Emenda por uma boa razão.
"Esta foi uma mentira, no entanto. O general Keith Alexander, o diretor da NSA, eventualmente admitiu ao Congresso que ele poderia reivindicar apenas um sucesso, e que envolveu a captura de um imigrante somali e três coortes que vivem em San Diego, que tinham enviado $ 8,500 a um grupo terrorista na Somália. "
Uma conclusão similar foi alcançada pela  Privacy and Civil Liberties Oversight Board, criada pelo governo para investigar os programas da NSA e, portanto, concedido amplo acesso a materiais classificados e aos funcionários de segurança. Há, naturalmente, um sentido em que a segurança é ameaçada pela consciência, ou seja pública, a segurança do poder do Estado a partir de exposição.
A visão básica foi expressa bem pelo cientista político Samuel P. Huntington de Harvard: "Os arquitetos do poder nos Estados Unidos, devem criar uma força que possa ser sentida, mas não ser vista. A potência permanece forte quando permanece no escuro; exposta à luz do sol começa a evaporar-se".
Nos Estados Unidos, como em outros lugares, os arquitetos do poder compreendem isso muito bem. Aqueles que trabalharam com a enorme massa de documentos desclassificados em, por exemplo, a história oficial do Departamento de Estado "Relações Exteriores dos Estados Unidos," dificilmente pode deixar de notar a freqüência com que é a segurança do poder do Estado, que é a principal preocupação, não a por parte do público interno, segurança nacional em qualquer sentido.
Muitas vezes, a tentativa de manter o sigilo é motivada pela necessidade de garantir a segurança dos poderosos setores domésticos. Um exemplo é a persistente rotulação de forma errada "acordos de livre comércio", rotuladas de forma errada, porque eles violam os princípios radicalmente do livre comércio e substancialmente não são sobre o comércio de todo, mas sim sobre os direitos dos investidores.
Estes instrumentos são regularmente negociados em segredo, como o atual Trans-Pacific Partnership - não totalmente em segredo, é claro. Eles não são segredos das centenas de lobistas corporativos e advogados que estão escrevendo as disposições detalhadas, com um impacto revelado pelas poucas peças que atingiram o público através de WikiLeaks.
Como o economista Joseph E. Stiglitz razoavelmente conclui, com o representante de Comércio dos EUA, "representando os interesses corporativos", não os do público: "A probabilidade de que o que emerge das próximas palestras servirão a americanos comuns"  é baixa, as perspectivas para os cidadãos comuns em outros países é ainda mais sombrio."
Do setor da segurança corporativa é uma preocupação comum de políticas de governo que não é surpreendente, dado o seu papel na formulação das políticas, em primeiro lugar.
Em contraste, há provas substanciais de que a segurança da população, "segurança nacional", doméstica como o termo é suposto ser entendido - não é uma alta prioridade para a política estadual.
Por exemplo, o programa de assassinato mundial  por Drones do Presidente Obama, de longe, a maior campanha terrorista do mundo, é também uma campanha de terror de geração. O general Stanley A. McChrystal, comandante das forças dos EUA e da OTAN no Afeganistão, até que ele ficou aliviado do dever, falou de "matemática insurgente": Para cada pessoa inocente que você matar, você cria 10 novos inimigos.
Este conceito de "pessoa inocente" diz-nos o quão pouco nós progredimos nos últimos 800 anos, desde a Magna Carta, que estabelece o princípio da presunção de inocência que já foi pensado para ser o fundamento do direito anglo-americano.
Hoje, a palavra "culpado" significa "alvo de assassinato por Obama" e "inocente" significa "ainda não atribuído esse estatuto."
Brookings Institution acaba de publicar “The Thistle and the Drone,”, um estudo antropológico altamente elogiado de sociedades tribais por Akbar Ahmed, com o subtítulo" Como  a Guerra dos EUA contra o terror se tornou uma guerra global contra o Islã Tribal".
Este pressões da guerra global dos governos centrais repressivas para realizar ataques contra os inimigos tribais de Washington. A guerra, Ahmed adverte, pode dirigir algumas tribos "a extinção", com custos graves para as próprias sociedades, como se vê agora no Afeganistão, Paquistão, Somália e Iêmen. E, finalmente, para os americanos.
As culturas tribais, Ahmed aponta, baseiam-se em honra e vingança: "Todo ato de violência nessas sociedades tribais provoca um contra-ataque: Quanto mais difíceis os ataques contra os homens da tribo, mais cruéis e sangrentos os contra-ataques"
A segmentação do terror pode bater em casa. No Jornal britânico r International Affairs, David Hastings Dunn descreve como cada vez mais sofisticados drones são uma arma perfeita para grupos terroristas. Drones são baratos, facilmente adquiridos e "possuem muitas qualidades que, quando combinados, tornam potencialmente o meio ideal para o ataque terrorista no século 21", explica Dunn.
O senador Adlai Stevenson, referindo-se a seus muitos anos de serviço na Comissão de Inteligência do Senado dos EUA , escreve que "a vigilância cibernética e coleta de dados fazem parte da meta de reação contínua a 11/9, com poucos ou nenhuns terroristas para mostrar para ele e perto de condenação universal. Nos EUA é amplamente percebido como uma guerra contra o Islã, contra os xiitas, bem como os sunitas, no chão, com drones, e por procuração, na Palestina, desde o Golfo Pérsico para a Ásia Central. A Alemanha e o Brasil se ressentem com nossas invasões, e o que eles têm feito? "
A resposta é que tem feito crescer a ameaça de terror, bem como o isolamento internacional.
As campanhas zangão de assassinato são um dispositivo pelo qual a política do estado põe em risco a segurança com conhecimento de causa. O mesmo é verdadeiro para as assassinas operações de forças especiais. E, a invasão do Iraque, o que aumentou acentuadamente o terror no Ocidente, confirmando as previsões da inteligência britânica e americana.
Estes atos de agressão foram, mais uma vez, uma questão de pouco interesse para planejadores, que são guiados pelos completamente diferentes conceitos de segurança. Mesmo a destruição instantânea por armas nucleares nunca foi classificada de alta para as autoridades, um estado de tema para discussão na próxima coluna.
NOAM CHOMSKY
Noam Chomsky é professor do Instituto e Professor de Linguística (Emérito), no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e autor de dezenas de livros sobre a política externa dos EUA. Ele escreve uma coluna mensal para The New York Times News Service / Syndicate.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ucrânia: Anti-fascistas europeus, despertem! A peste castanha está de volta!

Desta vez não há dúvida. Monstruosa e horrível, a ameaça fascista está de volta, sem que a nossa Europa se escandalize por aí além. A prova? Nazis “puro-sangue”, que se reivindicam do 3º Reich e das suas divisões SS, perante os quais os brutos da Aurora Dourada grega quase parecem meninos de coro, ocupam os postos mais nevrálgicos (Ordem Pública, Defesa, Justiça) no governo interino ucraniano. Artigo de Yorgos Mitralias.
Foto publicada em Diário Liberdade.
A sua presença nesse governo não choca nada os nossos media, que se apressam a batizá-los de... “nacionalistas”, nem os nossos queridos dirigentes europeus de todas as espécies (social-democratas incluídos), que se apressam a reconhecê-los como parceiros totalmente frequentáveis.
Em suma, é como se o processo de Nuremberg nunca tivesse existido! E não é tudo. O pior é que os acólitos desses fantasmas de um mundo que acreditávamos – erradamente – desaparecido para sempre se contam hoje por milhares, se passeiam armados até aos dentes nas ruas de Kiev e de Lviv e, sobretudo, estão a ganhar a confiança de um grande número dos seus compatriotas. Porque, paradoxo ou não, é infelizmente um facto que essa revolta autenticamente popular que acaba de varrer o regime de Yanoucovitch tem entre os seus dirigentes nostálgicos da colaboração banderista de Svoboda e – sobretudo - os neo-nazis, em plena ascensão, de Praviy Sektor.
Então, se os Svoboda e Praviy Sektor fazem parte do governo ucraniano sem que os nossos dirigentes europeus ou norte-americanos – como aliás os nossos media de grande dimensão e outras instituições internacionais – se perturbem, não nos surpreendamos se todo esse belo mundo neo-liberal aceitar amanhã sem protesto a presença de um partido como o Aurora Dourada num governo grego. Se Dmytro Yarosh, chefe de Praviy Sektor, se torna o segundo de Andriy Parubi (aliás ele próprio fundador do partido nacional-socialista da Ucrânia) à cabeça do Conselho de Segurança Ucraniano, por que não amanhã o führer do Aurora Dourada, N. Mihaloliakos, à frente dos Ministérios da Defesa ou da Ordem Pública gregos? Eis uma razão mais para considerarmos o que se passa atualmente na Ucrania como uma verdadeira viragem na história europeia do pós-guerra, um imenso salto qualitativo da ameaça neo-fascista que pesa agora sobre todos nós.
Mas não se trata apenas disso. Independentemente do caminho que tomem os acontecimentos que vêem afrontar-se no solo ucraniano não só a Rússia e a Ucrânia (igualmente reacionárias e enfeudadas aos oligarcas) mas também as grandes potências imperialistas do nosso tempo, tudo indica que os neo-nazis ucranianos, já poderosos, serão os únicos a aproveitar-se da devastação que não deixarão de provocar tanto as políticas de austeridade do FMI como os ventos guerreiros e nacionalistas que varrem a região. As consequências são previsíveis. Os neo-nazis ucranianos em armas serão provavelmente capazes de estender a sua influência para lá do Leste europeu e gangrenar o conjunto do nosso continente. Como? Primeiro, impondo, no interior do campo da extrema-direita europeia em ascensão, relações de força favoráveis ao neo-nazismo militante. Depois, servindo como modelo de exportação ao menos para os países vizinhos (incluindo a Grécia), já martirizados pelas políticas de austeridade e já contaminados por vírus racistas, homofóbicos, anti-semitas e neo-fascistas. E, evidentemente, sem esquecer o grande “argumento” que constituem os milhares e milhares de armas – incluindo pesadas – na sua posse, que não deixarão de exportar. A conclusão salta à vista. É o conjunto da paisagem, equilíbrios e relações de força na Europa que será inevitavelmente transformado, às custas de sindicatos operários, organizações de esquerda e movimentos sociais. Em palavras simples, já há de que ter pesadelos.
Então, que mais é preciso para que a esquerda europeia saia do seu atual torpor, toque o alarme, se mobilize urgentemente e tome o mais rapidamente possível a única iniciativa capaz de contrariar o tsunami fascista e fascistoide que se aproxima: uma iniciativa que não pode senão visar a criação de um movimento anti-fascista europeu, unitário, democrático, radical, de longa duração e de massas, que combine a luta contra as políticas neo-liberais da austeridade draconiana contra a peste castanha, onde quer que esta se manifeste. A hora não é de tergiversações, nem de ilusões de que tudo se passa longe de nós, nem o álibi da rotina anti-fascista que consiste em lutar no seu bairro ou no seu país, sem ligar ao que se passa do outro lado da fronteira. Em primeiro lugar, porque mesmo antes do alarme anti-nazi ucraniano a situação na Europa ocidental era – e continua a ser – mais do que alarmante, justificando plenamente a mobilização geral contra a subida impetuosa da extrema-direita. E depois, porque, por mais necessárias que sejam, as lutas e as campanhas anti-fascistas nacionais ou regionais não bastam, não estão à altura das circunstâncias actuais, completamente excepcionais e históricas.

Por outras palavras: anti-fascistas da Europa despertem, porque já é quase meia-noite e a história tende a repetir-se tão trágica como no passado.

 


*Yorgos Mitralias é membro do comité grego da iniciativa do Manifesto Anti-fascista Europeu (www.antifascismeuropa-ellada.gr

Entulho racista nos campos de futebol

E essa agora de racismo por toda a parte do país nos campos de futebol?

Da semana passada para cá pude visualizar atos racistas em jogos de futebol aqui no Rio Grande do Norte, contra o goleiro do América, Dida; no Rio Grande do Sul contra o árbitro Márcio Chagas da Silva e, em São Paulo contra o jogador Santista, Arouca.

Isso se chama "racismo cultural", se é que deva ter nome, cultural por que se imagina que não seja fundamentado em  antiguadas teorias racistas, comuns a partir do século XVIII. Sedimentadas em ideais de separação e purificação de raças; no Brasil há um claro preconceito de cor, e essa história de mandar para a África remete, claro à ideia de que negro só pode existir na África ou forma de xingar. Mas, o belo mesmo do Mundo é negro brasileiro, europeu, de todas as partes, e branco africano.

No caso do árbitro colocaram bananas no carro do mesmo para assinalar a relação negro-macaco, entulho das teorias racistas que considerava a 'raça" negra menos evoluída. Eu sou macaco e como banana com gosto, a cor da pele é mera adaptação evolutiva a níveis variados de radiação ultravioleta, pena que a humanidade perca tempo com isso, uma cegueira branca.

Cientificamente teorias racistas não se sustentam, o genoma humano prova que não existem raças.

Guerra Fria de novo

Ontem surgiu a notícia de que a Rússia abrirá três bases militares na América Latina, uma na Venezuela, outra e Cuba e uma terceira na Nicarágua; hoje chegou  a informação de que militares russos oram expulsos do Canadá, e claro a notícia do momento é a questão da Ucrânia. Uma nova Guerra Fria?

Pois é, uma pergunta feita por muitos. Mesmo depois do fim da União Soviética o bloco liderado pelos Estados Unidos não pôs fim a OTAN que seguiu fazendo uma série de intervenções militares pelo Mundo, no que diz respeito à Ucrânia, uma Ucrânia pró-União  Europeia significaria tropas da OTAN muito próximas à fronteira russa, e diz-se na imprensa especializada que os Estados Unidos tem o objetivo de construir bases estratégicas na Crimeia, surge então uma disputa mais de que diplomática, trazendo a Rússia de forma forte para o assunto.

Se falarmos sobre o que isso representa para o Mundo no que diz respeito à paz, talvez nada, havendo inclusive a probabilidade de um conflito na própria Ucrânia neste momento, muitos comemoram o fato de com essa entrada da Rússia impedir, assim, que os Estados Unidos reine sozinho na sua tomada de decisões arbitrárias, mas, sempre na história, no jogo entre potências o que menos interessa é a vida e os países pobres.

Chomsky: Sobre a precarização do trabalho e da educação na universidade

A transformação das universidades em corporações, como tem ocorrido sistematicamente ao longo da última geração, como parte do assalto neoliberal geral sobre a população, veio acompanhada de um modelo de negócios onde o que importa é o lucro no final do balanço.

Sobre o modelo de contratação de professores
Isso faz parte do atual modelo de negócios. É o mesmo que ocorre com a contratação de trabalhadores temporários na indústria ou com o que eles chamam de "associados" na Wal-Mart, funcionários que não tem direito a benefícios. É parte de um modelo de negócios privados projetado para reduzir os custos do trabalho e aumentar o servilismo no trabalho. A transformação das universidades em corporações, como tem ocorrido sistematicamente ao longo da última geração, como parte do assalto neoliberal geral sobre a população, veio acompanhada de um modelo de negócios onde o que importa é o lucro no final do balanço.
Os verdadeiros proprietários são os gerentes (ou legisladores, no caso das universidades estaduais) e eles querem manter os custos baixos e assegurar que o trabalho seja dócil e obediente. A melhor maneira de fazer isso é, fundamentalmente, contratar temporários. Assim como a contratação de temporários foi se disseminando na sociedade no período neoliberal, o mesmo fenómeno ocorreu nas universidades. A ideia é dividir a sociedade em dois grupos. Um grupo é às vezes chamado de “plutonomia” (plutonomy, um termo usado pelo Citibank para aconselhar os seus investidores sobre onde aplicar os seus recursos), o setor top da riqueza, concentrado principalmente nos Estados Unidos. O outro grupo, o restante da população, é um “precariado”, as pessoas que vivem uma existência precária.
Esta ideia, por vezes, torna-se bastante evidente. Quando Alan Greenspan testemunhou perante o Congresso, em 1997, sobre as maravilhas da economia, ele disse diretamente que uma das bases para o seu sucesso económico era o que ele chamou de “maior insegurança dos trabalhadores”. Se os trabalhadores são mais inseguros, isso é muito “saudável” para socieadade, porque eles não ficar perguntando sobre os seus salários, não vão entrar em greve, não vão pedir repartição de lucros, e vão servir os seus patrões de bom grado e de forma passiva. E isso é ótimo para a saúde económica das empresas.
Na época, todos consideraram o comentário de Greenspan muito razoável, a julgar pela falta de reação e pelo grande sucesso que ele gozava. Vamos transferir isso para as universidades: como garantir “maior insegurança dos trabalhadores”? Fundamentalmente, não garantindo o emprego, mantendo as pessoas penduradasnum galho que pode ser serrado a qualquer momento, por forma a que elas saibam que é melhor manter o silêncio, receber pequenos salários, fazer o seu trabalho e se forem agraciados com a autorização para servir em condições miseráveis por mais um ano, devem contentar-se com isso e não pedir nada a mais. Essa é a receita das corporações para manter uma sociedade eficiente e estável. Como as universidades se moveram na direção desse modelo de negócios, a precariedade é exatamente o que está sendo imposto. E nós vamos ver mais e mais do mesmo.
Há outros aspectos que também são bastante conhecidos na indústria privada, como um grande aumento dos níveis de administração e burocracia. Afinal, se necessitamos de controlar as pessoas, é necessário ter uma força administrativa que faça isso. Assim, nas empresas dos EUA, mais do que em outros lugares, há sucessivos níveis de administração, uma forma de desperdício económico, mas útil para o controlo e a dominação. O mesmo ocorre em muitas universidades. Nos últimos 30, 40 anos, houve um aumento muito acentuado da proporção de administradores em relação ao número de professores e alunos. O nível de professores e alunos até aumentou, mas o de administradores subiu mais proporcionalmente.
Há um livro muito bom sobre esse tema, escrito por um conhecido sociólogo, Benjamin Ginsberg, chamado “The Fall of the Faculty: The Rise of the All-Administrative University and Why It Matters” (Oxford University Press, 2011), que descreve em detalhe esse estilo de administração com os seus diversos níveis de administradores que, é claro, são muito bem pagos. Isso inclui os administradores profissionais, como os reitores, por exemplo, que costumavam ser membros do corpo docente que eram deslocados por alguns anos para exercer atividade administrativa e, depois, voltavam para os seus afazeres académicos. Agora, na maioria dos casos, eles são profissionais que contratam sub-reitores e secretários, fazendo proliferar toda uma estrutura administrativa. Esse é outro aspecto importante do atual modelo de negócios.
Mas o uso de mão-de-obra barata e fragilizada no trabalho é uma prática tão antiga quanto a iniciativa privada e os sindicatos surgiram em resposta a ela. Nas universidades, trabalho vulnerável e barato significa professores auxiliares e estudantes de pós-graduação. Alunos de graduação são ainda mais vulneráveis, por razões óbvias. A ideia é transferir as atividades universitárias aos trabalhadores precários, o que melhora a disciplina e o controlo, e também permite a transferência de recursos para outras finalidades que não a educação. Os custos, naturalmente, são arcados pelos estudantes e pelas pessoas que são atraídas para estas ocupações vulneráveis. É uma característica normal dessa sociedade de gestão de negócios transferir os custos para o povo.
Os economistas cooperam com esse esquema. Suponha que encontra um erro na sua conta corrente e liga para o banco para tentar corrigi-lo. Bem, sabe o que acontece. Vai telefonar e ouvirá uma mensagem gravada a dizer: “Nós amamo-o, aqui está um menu de opções”. Talvez esse menu tenha o que está a procurar, talvez não. Se por acaso encontar a opção correta, ouvirá alguma música e, de vez em quando, uma voz dirá: “Aguarde, por favor, enquanto transferimos a sua ligação”. Finalmente, passado algum tempo, até poderá ser atendido por um ser humano a quem poderá fazer uma breve pergunta. Os economistas chamam isso de “eficiência”, um sistema que reduz custos trabalhistas para o banco. É claro que impõe custos para si e esses custos são multiplicados pelo número de utilizadores, que pode ser enorme, mas que não é contado como um custo no cálculo económico.
Se olhar para a forma como a sociedade funciona, verá esse tipo de prática em todo os sítios. Assim, a universidade impõe custos aos alunos e professores que não são apenas temporários, mas colocados num modelo que garante que eles não terão segurança. Tudo isso é perfeitamente normal dentro de modelos de negócios corporativos. É prejudicial para a educação, mas a educação não é o seu objetivo.
Na verdade, se olharmos mais longe, veremos que as raízes desse modelo são mais profundas ainda. Se voltarmos para o início dos anos 1970, quando muitas dessas coisas atuais começaram, havia muita preocupação em praticamente todo o espectro político sobre os temas do ativismo dos anos 1960.
Essa época foi chamada de “era dos problemas”, porque o país estava a ficar civilizado, e isso é perigoso. As pessoas estavam a tornar-se politicamente engajadas e estavam a tentar conquistar direitos para grupos com os chamados “interesses especiais”, como as mulheres, os trabalhadores, os agricultores, os jovens, os idosos, e assim por diante. Isso levou a uma reação grave, o que foi muito evidente.
No final liberal do espectro político, há um livro chamado The Crisis of Democracy: On the Governability of Democracies (New York University Press, 1975 - Crise da Democracia: Sobre a Governabilidade das Democracias), um relatório elaborado por Michel Crozier, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki para a Comissão Trilateral, uma organização de liberais internacionalistas. O governo Carter saiu praticamente todo das suas fileiras. Eles estavam preocupados com o que chamavam de “crise da democracia”. Para eles, o problema é que havia um “excesso de democracia”. Na década de 1960, havia pressões partindo de diversos setores da população, esses “interesses especiais” que referi, para tentar obter direitos na arena política. Para os autores, estava a colocar-se muita pressão sobre o Estado e isso era errado. Havia um “interesse especial” que eles deixaram de fora, que era o do setor empresarial. Mas esse interesse, para eles, confundia-se com o “interesse nacional” de que não seria o caso de falar dele.
Os demais “interesses especiais” estavam a causar problemas e esses autores disseram: “nós temos que ter mais moderação na democracia”, o público tem de voltar a ser passivo e apático. Eles estavam particularmente preocupados com as escolas e as universidades, que não estavam a fazer devidamente o seu trabalho de “doutrinar os jovens”. O ativismo estudantil, a sua participação nos movimentos de direitos civis, anti-guerra, feminista, ambiental, entre outros, mostrava que os jovens não estavam a ser doutrinados corretamente.
Como se doutrina os jovens? Há certo número de maneiras de fazê-lo. Um deles é sobrecarregá-los com uma dívida irremediavelmente pesada. A dívida é uma armadilha, especialmente a dívida do estudante, que é enorme, muito maior do que a dívida do cartão de crédito. É uma armadilha para o resto da vida, porque as leis são projetadas para que não fiquemos de fora. Se uma empresa, por exemplo, fica muito endividada, ela pode declarar falência, mas os indivíduos quase nunca podem aliviar-se de uma dívida por meio da falência. Eles podem até mesmo tirar a sua segurança social se não pagar. Essa é uma técnica disciplinar. Eu não digo que foi conscientemente produzida para ter esse efeito, mas certamente tem esse efeito.
É difícil argumentar que há algum fundamento económico para ele. Basta dar uma vista de olhos pelo mundo: na maioria dos casos, o ensino superior é gratuito. Em países com os mais elevados índices de educação, como a Finlândia, o ensino superior é gratuito. Num país capitalista rico bem sucedido como a Alemanha, é gratuito. No México, um país pobre, com padrões de educação bastante decentes considerando as dificuldades económicas que enfrentam, é gratuito. Agora olhe para os Estados Unidos: se voltarmos para os anos 1940 e 50, veremos que o ensino superior estava muito perto da gratuidade. O GI Bill deu educação gratuita para um grande número de pessoas que, sem isso, nunca teria conseguido ir para a faculdade.
Foi muito bom para eles, para a economia e para a sociedade, sendo uma das razões para a elevada taxa de crescimento económico naquele período. Mesmo em faculdades particulares, a educação era muito perto de ser gratuita. Eu fui para a faculdade, em 1945, numa universidade da Ivy League, a Universidade da Pensilvânia, onde a taxa de matrícula foi de US$ 100. Isso talvez desse US$ 800 dólares hoje. E foi muito fácil obter uma bolsa de estudos. Então era possível morar em casa, trabalhar e ir para a escola sem grandes gastos. Hoje a situação é ultrajante. Tenho netos na faculdade que têm que pagar a sua matrícula e trabalhar, o que é quase impossível. Para os alunos essa é uma técnica disciplinar.
Outra técnica de doutrinação é cortar o contato entre o aluno e o professor. Isso faz-se com turmas grandes, professores temporários que estão sobrecarregados e mal conseguem sobreviver com o seu salário. E uma vez que o professor não tem nenhuma estabilidade no emprego não é possível construir uma carreira. Não pode seguir em frente e planear evoluir na carreira. Estas são todas técnicas de disciplina, doutrinação e controlo.
É muito parecido com o que esperaria encontrar numa fábrica, onde os trabalhadores têm que ser disciplinados para serem odebientes e não, por exemplo, para desempenhar um papel na organização da produção ou do local de trabalho. Essas funções são exclusivas dos gerentes. Pois esse modelo foi transportado para as universidades. E creio que não deve surpreender ninguém, que já teve alguma experiência com a iniciativa privada, a forma como funcionam.
Sobre como o ensino superior deve ser
Antes de tudo, devemos deixar de lado qualquer ideia de que houve algo como uma “idade de ouro”. As coisas eram diferentes e, em certo sentido, melhores no passado, mas longe de serem perfeitas. As universidades tradicionais eram extremamente hierarquizadas, com muito pouca participação democrática na tomada de decisões. Uma parte do ativismo dos anos 1960 queria justamente tentar democratizar as universidades, incluindo, por exemplo, representantes dos estudantes nas comissões do corpo docente. Esses esforços tiveram algum grau de sucesso. A maioria das universidades tem algum grau de participação dos estudantes nas decisões da instituição. Penso que deveríamos mover-nos nesta direção: uma instituição democrática, onde as pessoas envolvidas (professores, alunos e funcionários) participam na definição das políticas da instituição e de como elas são exectutadas. E o mesmo deveria valer para uma fábrica.
Estas não são ideias radicais, devo dizer. Elas vêm diretamente da tradição do liberalismo clássico. Se lermos, por exemplo, John Stuart Mill, uma figura importante dessa tradição, veremos que ele concordava com a ideia de que os locais de trabalho deveriam ser administrados pelas pessoas que trabalham neles. Isso seria sinónimo de liberdade e democracia (ver, por exemplo, de John Stuart Mill, Princípios de Economia Política, livro 4, cap.7)
Podemos encontrar essas mesmas ideias nos Estados Unidos. Tomemos o caso dos Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labor, primeira organização trabalhista nacional importante da história dos EUA, fundada em 1869 - NT). Um dos seus objetivos declarados era “estabelecer instituições cooperativas, que tenderão a substituir o sistema de salários com a intordução de um sistema industrial cooperativado”. Ou ainda em alguém como John Dewey, filósofo “mainstream”do século 20, que defendeu não só uma educação voltada para desenvolver a independência criativa nas escolas, mas também o controlo das indústrias pelos trabalhadores, o que ele chamou de “democracia industrial”.
Para Dewey, enquanto as instituições cruciais da sociedade (como produção, comércio, transporte e media) não estiverem sob o controlo democrático, então a “política (será) a sombra projetada sobre a sociedade pelos grandes negócios” (“A Necessidade de um novo partido”, 1931). Essa ideia quase elementar, que tem raízes profundas na história dos Estados Unidos e no liberalismo clássico, deveria ser uma espécie de segunda natureza para as pessoas que trabalham e ser aplicada igualmente nas universidades.
Há algumas decisões numa universidade onde não é o caso de ter transparência democrática porque, por exemplo, é preciso preservar a privacidade do aluno. Existem vários tipos de questões sensíveis, mas na maioria da atividade normal da universidade não há razão para a democracia direta não ser considerada legítima e útil. No meu departamento, por exemplo, por 40 anos tivemos representantes dos estudantes a participar nas reuniões do departamento.
"Governança compartilhada" e controlo dos trabalhadores
A universidade é, provavelmente, a instituição na nossa sociedade que está mais próxima da ideia de um controlo democrático dos trabalhadores. Dentro de um departamento, por exemplo, é normal que um professor possa determinar uma parte substancial de como será o seu trabalho: o que vai ensinar, quando, como deve ser o currículo. A maioria das decisões sobre o trabalho real do departamento passa pelos professores. Há, é claro, um nível superior de questões que não fica sob seu controlo. Pode indicar-se alguém para lecionar, digamos, e essa recomendação pode ser rejeitada pelos reitores ou administradores. Isso não acontece com muita frequência, mas pode acontecer. E isso sempre tem a ver com questões mais estruturais que, embora sempre tenham existido, representavam um problema menor quando os professores participam da administração.
Sob sistemas representativos, é necessário ter alguém para fazer o trabalho administrativo, mas esses mandatos devem ser revogáveis em algum momento. Isso ocorre cada vez menos. Existem cada vez mais administradores profissionais, em vários níveis, tomando decisões cada vez mais distantes do controlo do corpo docente. Eu mencionei antes o livro “The Fall of the Faculty”, de Benjamin Ginsberg, que entra em muitos detalhes sobre como isso funciona em universidades como John’s Hopkins, Cornell e algumas outras.
Enquanto isso, o corpo docente vê-se cada vez mais reduzido à categoria de trabalhadores temporários que têm a garantia de uma existência precária, sem perspectiva de evoluir na carreira. Eu tenho conhecidos que são efetivamente professores permanentes, mas eles não têm esse status na prática, tendo de se aplicar a cada ano de modo a serem nomeados novamente. Essas coisas não deveriam acontecer. E a situação dos auxiliares foi institucionalizada: eles não fazem parte do corpo de tomada de decisões e não têm segurança no emprego, o que só amplia o problema. Esse pessoal também deveria ser integrado ao processo de tomada de decisões, uma vez que fazem parte da universidade.
Portanto, há muito o que fazer, mas podemos entender facilmente porque essas tendências estão a desenvolver-se. Isso tem a ver com a imposição de um modelo de negócio em quase todos os aspectos da vida. É a ideologia neoliberal sob a qual a maior parte do mundo tem vivido há 40 anos. Ela é muito prejudicial para as pessoas e não encontra resistência na maioria dos casos. Só duas regiões conseguiram escapar dela: a Ásia Oriental, onde ela nunca predominou, e a América do Sul, nos últimos 15 anos.
Sobre a alegada necessidade de “flexibilidade”
“Flexibilidade” é um termo que é muito familiar para os trabalhadores na indústria. Parte daquilo que costuma ser chamado de “reforma trabalhista” consiste em fazer o trabalho mais “flexível”, ou seja, fazer com que seja mais fácil contratar e demitir pessoas. É, mais uma vez, uma forma de garantir a maximização de lucro e de controlo. “Flexibilidade”, supostamente, é uma coisa boa, assim como a “maior insegurança dos trabalhadores”. Deixando de lado a indústria, onde é exatamente isso o que ocorre mesmo, mas universidades não há justificativa para esse tipo de prática.
Consideremos o caso de um curso com baixo número de matriculados. Isso não é um grande problema. Uma de minhas filhas ensina numa universidade e disse-me que a sua carga horária sofrerá alteração porque um dos cursos que estava a ser oferecido teve poucos matriculados. Ok, o mundo não acaba por causa disso. O professor ou professora pode dar um curso com uma metodologia diferente ouprocurar outra alternativa. As pessoas não têm que ser jogadas fora ou ficar inseguras por causa da variação do número de alunos matriculados num curso. Há várias possibilidades de ajuste para essa situação. A ideia de que o trabalho deve atender às condições de “flexibilidade” é apenas mais uma técnica padrão de controlo e dominação. Por que não dizer que os administradores devem ser jogados fora se não há nada para se fazer naquele semestre? A mesma situação aplica-se aos altos executivos das indústrias: se o trabalho tem que ser flexível, o que dizer da gestão? A maioria deles é bastante inútil ou até prejudicial. Então vamos-nos livrar deles.
Para tomar uma notícia dos últimos dias, que tal Jamie Dimon, CEO do banco JP Morgan Chase? Ele teve um aumento bastante substancial, quase o dobro do seu salário, por gratidão por ter salvo o banco de acusações criminais que teriam levado os seus executivos para a cadeia. Conseguiram escapar com apenas US$ 20 mil milhões em multas por atividades criminosas. Bem, eu posso imaginar que livrar mo-nos de alguém assim pode ser útil para a economia. Mas não é disso que as pessoas estão a falar quando falam sobre a “reforma trabalhista”. São as pessoas que trabalham que devem sofrer. Devem sofrer por ter um trabalho inseguro, por não terem certeza sobre de onde sairá o pão de amanhã. Por isso, devem ser disciplinadas e obedientes e não fazer perguntas ou pedir pelos seus direitos. Essa é a maneira pela qual os sistemas tirânicos operam. E o mundo dos negócios é um sistema tirânico. Quando essa lógica é imposta às universidades, ela refletirá as mesmas ideiais. Isso não é nenhum segredo.
Sobre a finalidade da educação
Estes debates remontam ao Iluminismo, quando as questões de ensino superior e educação de massa estavam a ser levantadas, e não mais apenas a educação para o clero e a da aristocracia. Havia basicamente dois modelos discutidos nos séculos 18 e 19, e foram discutidos com imagens bastante sugestivas. Uma imagem da educação dizia que ela deve ser vista como um vaso que deve ser preenchido com água. Isso é o que chamamos hoje em dia de “ensinar para testar”: derrama água dentro do vaso e, em seguida, ele devolve a água. Mas é um vaso muito permeável, como muitos de nós que passamos pela experiência da escola podemos constatar, já que podemos memorizar algo para um exame pelo qual não tínhamos muito interesse e, uma semana depois, não nos lembrarmos mais do que se tratava. O modelo do vaso nos dias de hoje é chamado de “nenhuma criança deixada para trás”, “ensinando para testar”, “corrida para o topo” e outras coisas semelhantes nas universidades. Os pensadores ilumistas eram contrários a esse modelo.
O outro modelo foi descrito pela imagem de uma corda estendida ao longo da qual o aluno progride no seu próprio caminho, sob a sua própria iniciativa, talvez seguindo a corda, talvez decidindo ir para outro lugar, talvez levantando questões. Seguir a corda significa impor algum grau de estrutura. Assim, um programa de educação, seja ela qual for, um curso sobre física ou algo assim, não será um vale tudo, terá certa estrutura. Mas o seu objetivo é que o aluno adquira a capacidade de investigar, de criar, inovar e desafiar – isso é que é a educação. Um físico mundialmente famoso, foi questionado uma vez por um aluno sobre qual seria o conteúdo do curso no semestre. A sua resposta foi: “não importa o que vamos tratar, mas sim o que você vai descobrir”. O aluno ganha capacidade e auto-confiança para desafiar e criar. Dessa forma, internaliza o tema do estudo e pode ir em frente. Não é uma questão de acumular uma quantidade fixa de factos que, em seguida, o aluno pode descrever numa prova e amanhã esquecer.
Estes são dois modelos bem distintos de educação. O ideal iluminista foi o segundo e eu acho que é isso que devemos esforçar-nos em alcançar. Essa é a verdadeira educação, do jardim de infância à pós-graduação. Na verdade, existem programas desse tipo, muito bons, para o jardim de infância.
Sobre o amor de ensinar
Nós certamente queremos que as pessoas, tanto professores como alunos, se envolvam em atividades que sejam gratificantes, agradáveis, estimulantes e excitantes. Eu realmente não acho que isso seja difícil. As crianças são criativas, curiosas, querem saber coisas, querem entender as coisas, e, a menos que sejam submetidas a um processo, essas coisas ficam com elas o resto da sua vida. Se temos oportunidade de seguir esse compromisso, é uma das coisas mais gratificantes da vida. Isso é verdade se somos um físico pesquisador ou um carpinteiro. Se estamos a tentar criar algo de valor, lidando com um problema difícil e tentando resolvê-lo. Acho que isso é o que faz funcionar o tipo de coisa que queremos fazer.
Numa universidade que funciona razoavelmente, encontramos pessoas que trabalham o tempo todo porque elas adoram o que estão a fazer. É o que elas querem fazer. Elas receberam a oportunidade, têm os recursos e são encorajadas a serem livres, independentes e criativos. O que poderia ser melhor? É o que elas gostam de fazer. E isso, repito, pode ser feito em qualquer nível.
Vale a pena pensar sobre alguns dos programas educacionais imaginativos e criativos que estão a ser desenvolvidos em diferentes níveis. Alguém me descreveu, dias atrás, um programa de ciência que está a usar em escolas de ensino médio, por meio do qual os alunos são provocados por uma pergunta interessante: "Como pode um mosquito voar na chuva?" Essa é uma pergunta difícil quando pensamos sobre isso. Se algo batesse num ser humano com a força com que um pingo de chuva bate num mosquito ele seria achatado imediatamente. Então como é que o mosquito não é esmagado instantaneamente? E como pode o mosquito continuar a voar? Responder a essa pergunta é um trabalho muito difícil que envolve entrar em questões de matemática, física e biologia, questões suficientemente desafiadoras para alguém querer encontrar uma resposta para elas.
Isso é o que a educação deve ser em todos os níveis, desde o jardim de infância. Existem programas de jardim de infância em que, por exemplo, é dada uma coleção de pequenos objetos para cada criança: seixos, conchas, sementes, e coisas assim. Em seguida, a classe recebe a tarefa de descobrir quais são as sementes. O processo começa com o que chamam de uma "conferência científica": as crianças conversam entre si e tentam descobrir quais são as sementes. Há alguma orientação de professores, é claro, mas a idéia é fazer com que as crianças pensem sobre o tema. Depois de um tempo, são feitas várias experiências para tentar descobrir quais são as sementes. Nesse ponto, cada criança recebe uma lupa e, com a ajuda do professor, olham para dentro das rachaduras da semente e encontram o embrião que faz a semente crescer. Estas crianças aprendem algo, realmente, não apenas sobre sementes e o que faz com que as coisas cresçam, mas também sobre como descobrir. Eles estão a aprender a alegria da descoberta e da criação, e é isso o que carregamos de forma independente, para fora da sala de aula, para além de qualquer curso.
O mesmo vale para toda a educação, até a pós-graduação. Num seminário de pós-graduação razoável, não podemos esperar que os alunos baixem a cabeça para copiar e depois repetir o que dizemos. Esperamos que eles nos digam quando estamos errados ou que cheguem a novas idéias, para desafiar, para perseguir algum sentido que não tinha sido pensado antes. Isso é o que a verdadeira educação é em todos os níveis, e é isso o que deve ser incentivado. Esse deveria ser o propósito da educação. Não é para despejar informações na cabeça de alguém, que depois vai “vazar” esse conteúdo, mas para permitir que eles se tornem pessoas criativas, independentes, capazes de encontrar emoção na descoberta e criação e criatividade em qualquer nível ou em qualquer domínio dos seus interesses.
Sobre o uso da retórica corporativa contra as corporações
Isso é como perguntar como devemos justificar, perante o proprietário de escravos, que as pessoas não devem ser escravos. Estamos num nível de investigação moral onde provavelmente é muito difícil encontrar respostas. Somos seres humanos com direitos humanos. É bom para o indivíduo, é bom para a sociedade e mesmo para a economia, em sentido estrito, que as pessoas sejam criativas, independentes e livres. Todos se beneficiam se as pessoas são capazes de participar, de controlar o seu destino, de trabalhar uns com os outros. Isso pode não maximizar o lucro e dominação, mas por que deveríamos perseguir esses valores?
Conselhos para um professor temporário organizar sindicatos
Sabe melhor do que eu o que tem que ser feito, o tipo de problemas que enfrenta . Então, vá em frente e faça o que tem que ser feito. Não se deixe intimidar , não se assuste, e reconheça que o futuro pode estar nas nossas mãos, se estamos dispostos a compreendê-lo.
Tradução: Louise Antonia León


* Este artigo é uma transcrição editada de observações feitas por Noam Chomsky via Skype, no dia 4 de fevereiro de 2014, a membros e apoiadores da Adjunct Faculty Association [NT] do Sindicato dos Metalúrgicos, em Pittsburgh. As observações de Chomsky foram provocadas por perguntas feitas por Robin Clarke, Adam Davis, David Hoinski, Maria Somma, Robin J. Sowards, Matthew Ussia e Josué Zelesnick. A transcrição ficou a cargo de Robin J. Sowards e foi editada pelo próprio Chomsky.

[NT] A expressão “Adjunct Faculty” utilizada por Chomsky no texto original designa, nos Estados Unidos, os professores universitários contratados em regime temporário para dar um curso durante um semestre ou um ano, não possuindo qualquer estabilidade de emprego.


Entrevista com Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo 25 anos depois

As mulheres de direta não querem a revolução. São mães, esposas, devotas a seus homens. E quando são agitadoras, o que elas querem é um pedaço maior da torta. Querem soldos maiores, eleger mulheres nos parlamentos, ver uma mulher ser presidenta.
Gerassi – Já passaram 25 anos desde que O Segundo Sexo foi publicado. Muitas pessoas, principalmente nos Estados Unidos, o consideram o início do movimento feminista contemporâneo, ¿Você oque diz?
Beauvoir – Penso que não. O movimento feminista atual, que começou faz unos cinco ou seis anos, não conhecia realmente o livro. Posteriormente, com o crescimento do movimento, algumas das líderes tomaram parte de seus fundamentos teóricos, porém não foi Ol Segundo Sexo que desencadeou o movimento. A maior parte das mulheres que se tornaram ativas no movimento eram muito jovens quando o livro foi lançado, em 1949-50, para ser influenciadas por ele. O que eu acho, claro, foi que elas o haviam descoberto mais tarde. Certamente algumas mulheres mais velhas – Betty Friedan, por exemplo, que me dedicou The Feminine Mystique (A Mística Feminina) – o haviam lido e talvez hajam sido influenciadas por ele de algum modo. Porém, as outras, de nenhuma forma. Kate Millet, por exemplo, não me cita nem una vez em seu trabalho.
Puede ser que ellas se hayan vuelto feministas por las razones que yo explico en El Segundo Sexo; pero ellas descubrieron esas razones en sus experiencias de vida, no en mi libro.
Gerassi – Você disse  que sua própria consciência feminista surgiu da experiência de escrever O Segundo Sexo. Como você ver o amadurecimento do movimento depois da publicação de seu livro em termos de sua própria trajetória?
Beauvoir – Ao escrever Segundo Sexo tomei consciência, pela primeira vez, de que eu mesma estava levando uma  vida falsa, ou melhor, estava me beneficiando desta sociedade patriarcal sem perceber. Sucede que por muito tempo em minha vida aceitei os valores masculinos y comecei a viver de acordo com eles. Claro, me foi muito bom e isso reforçou em mim a crença de que homens e mulheres poderiam ser iguais si as mulheres quisessem essa igualdade. Em outros termos, eu era uma intelectual. Tive a sorte de pertencer a uma família burguesa, que, ademais de financiar meus estudos nas melhores escolas, também me permitiu jogar com as ideias. Por isso, consegui entrar no mundo dos homens sem muitas dificuldades. Mostrei que podia discutir filosofia, arte, literatura, etc., ao mesmo “nível dos homens”. Eu conservava tudo o que era próprio da condição feminina para mim. Meu êxito me motivou a continuar, e ao fazê-lo vi que podia sustentar-me financeiramente, como qualquer intelectual do sexo masculino, e que me levavam a serio tanto como a qualquer de meus colegas de sexo masculino.
Sendo quem eu era,  descobri que eu poderia viajar sozinha se quisesse, sentar nos cafés e escrever, e ser respeitada como qualquer escritor do sexo masculino, e assim por diante. Cada estágio reforçou minha sensação de independência e igualdade. Portanto, tornou-se muito fácil para mim esquecer que uma secretária nunca poderia desfrutar desses mesmos privilégios. Ela não podia se sentar em um café e ler um livro sem ser perturbada. Raramente ela seria convidada para festas por seus "dotes intelectuais." Ela não podia obter um empréstimo ou comprar um imóvel. Eu tenho. Na verdade, eu costumava desprezar o tipo de mulher que se sentia incapaz, financeiramente ou espiritualmente, mostrando a sua dependência dos homens. Na verdade, eu pensei comigo mesmo: "Se eu posso, elas também podem." Pesquisando e escrevendo O Segundo Sexo foi que percebi que meus privilégios resultaram de ter abdicado em alguns aspectos cruciais, pelo menos, a minha feminilidade. Se colocarmos o que estou dizendo em termos de classe econômica, pode ser mais fácil de entender, eu havia me tornado uma classe colaboracionista.

Através de o Segundo Sexo tomei consciência da necessidade de lutar. Eu percebi que a grande maioria das mulheres simplesmente não tinha a escolha que eu tinha, de que as mulheres são, de fato, definidas e tratadas como segundo sexo por uma sociedade patriarcal, a estrutura entraria em colapso se esses valores fossem  destruídos. Quanto aos povos dominados econômica e politicamente, o desenvolvimento da revolução é muito difícil e muito lento. Primeiro, as mulheres tem que estar cientes da dominação. Então eles têm que acreditar em sua própria capacidade de mudar a situação. Aquelas que se beneficiaram com a sua "colaboração" tem que entender a natureza da sua traição. E, finalmente, aquelas que têm mais a perder por tomar posição, quero dizer, mulheres como eu, buscavam  uma situação confortável ou uma carreira de sucesso, têm que estarem dispostas a arriscar sua segurança - e mesmo ser exposta ao ridículo - para alcançar auto-respeito. Elas devem entender que suas irmãs, as mais exploradas, serão as últimas a se juntar a elas.


A esposa de um trabalhador, por exemplo, é menos livre para se juntar ao movimento. Ela sabe que o marido é mais explorado do que a maioria das líderes feministas e que ela depende de seu papel de mãe/amor de  casa para sobreviver. No entanto, por todas essas razões, as mulheres não foram mobilizadas. Havia alguns muito interessantes, muito inteligentes pequenos movimentos que lutaram por promoções políticas, para a participação das mulheres na política, no governo. Refiro-me a estes grupos. Então veio 1968 e tudo mudou. Eu sei que alguns eventos importantes  aconteceram antes disso. O livro de Betty Friedan, por exemplo, foi publicado antes de 1968. Na verdade, as mulheres americanas já foram mobilizados na época. Elas, mais do que ninguém, e por razões óbvias, estavam cientes das contradições entre as novas tecnologias e o papel conservador de manter as mulheres na cozinha. Com o desenvolvimento da tecnologia, como o poder do cérebro e não do músculo - lógica masculina que as mulheres são o sexo frágil e, portanto, deve representar um papel menor não pode ser sustentado ao longo do tempo. Como as inovações tecnológicas eram muito difundidas nos Estados Unidos, as mulheres americanas não escaparam das contradições .


Por isso, era natural que o movimento feminista tivesse seu maior impulso no coração do capitalismo imperial, apesar de que teria sido o impulso estritamente econômico, ou seja, o pedido de pagamento igual, trabalho igual. Mas foi no movimento anti-imperialista onde a verdadeira consciência feminista se desenrolava. Tanto no movimento contra a Guerra do Vietnã, nos EUA, logo após a rebelião de 1968 na França e em outros países europeus, as mulheres começaram a sentir o seu poder. Ao compreender que o capitalismo leva necessariamente a dominação de pessoas pobres em todo o mundo , milhares de mulheres começaram a juntar-se à luta de classes - quando não aceitou o termo " luta de classes ".


Eles se tornaram ativistas. Juntaram-se as marchas, manifestações, campanhas, grupos clandestinos, a militância de esquerda. Eles lutaram em pé de igualdade com qualquer homem para um futuro sem exploração, sem alienação. Mas o que aconteceu? Em grupos ou organizações a que aderiram, descobriram que, assim como na sociedade que tentaram lutar, elas também foram tratadas como o segundo sexo. Aqui na França, corro o risco de também não falar sobre os EUA, tornaram-se conscientes de que os líderes eram sempre homens. As mulheres sempre foram os datilógrafos e servir café nos grupos pseudo-revolucionários. Bem, talvez eu não deveria dizer pseudo, muitos participantes desses movimentos eram revolucionários genuínos. Mas eles eram treinados, educados e moldados em uma sociedade patriarcal, estes revolucionários trouxeram esses valores para dentro do movimento. Compreensivelmente, esses homens não iam deixar ir de seus privilégios voluntariamente e valores, bem como a burguesia não deixaria seu poder pseudo voluntariamente. Assim, são os pobres e assumir os ricos, também se encaixa mulheres tomam o poder dos homens.


Isso não significa que as mulheres devem dominar os homens. Isso significa estabelecer a igualdade e verdadeiro socialismo, estabelece igualdade econômica entre todos os povos, aprendi que o movimento feminista teria de estabelecer a igualdade de gênero através da remoção do poder da classe que liderou o movimento, isto é, os homens. Colocá-lo em outras palavras: uma vez dentro da luta de classes, as mulheres perceberam que não era automaticamente eliminado da batalha dos sexos. Foi aí que eu percebi que o que eu disse. Antes disso, ela estava convencida de que a igualdade entre homens e mulheres só era possível com a destruição do capitalismo ().


Igualdade entre homens e mulheres é impossível sob o capitalismo. Se todas as mulheres trabalham tanto quanto os homens, o que aconteceria com as instituições de que o capitalismo depende: como igrejas, casamento, militar e os milhões de fábricas, empresas, etc. trabalho a tempo parcial dependente e mão de obra barata? Não é verdade que a revolução socialista, necessariamente, estabelece a igualdade entre homens e mulheres. Veja o que aconteceu na União Soviética ou na Tchecoslováquia, (mesmo que estávamos dispostos a chamar esses países como "socialista"), onde há profunda confusão entre emancipação do proletariado e do empoderamento das mulheres. De alguma forma, o proletariado sempre acaba sendo composto por homens. Valores patriarcais permaneceram intactos, tanto lá quanto aqui. E isso - essa consciência entre as mulheres que a luta de classes não cobre a batalha dos sexos - é novo. A maioria das mulheres sabe  agora. Essa é a maior conquista do movimento feminista , que vai mudar a história nos próximos anos .
Gerassi – Mas essa consciência está limitada às mulheres que são de esquerda, mulheres comprometidas com a reestruturação de toda a sociedade.
Beauvoir – Bem, é claro , já que as outras são conservadoras, ou seja, elas querem preservar o que foi ou o que é.  As mulheres de direita não querem revolução. Elas são mães, esposas, dedicadas a seus homens. E quando são agitadoras, o que elas querem é um pedaço maior do bolo. Elas querem salários mais altos, escolher  mulheres nos parlamentos, ver uma mulher ser presidente.

Fundamentalmente, elas acreditam na desigualdade, com a diferença que quer estar no topo e não por baixo. Mas se acomodam bem ao sistema com pequenas alterações para melhor acomodar suas demandas. O capitalismo certamente pode dar ao luxo de permitir que as mulheres  sirvam no exército ou juntar-se à polícia. O capitalismo é inteligente o suficiente para deixar mais mulheres participarem no governo. O pseudo-socialismo pode permitir que uma mulher ser secretária-geral do seu partido novamente. Esta é uma pequena reforma social, como o seguro social ou de férias pagas. Será que a institucionalização da férias pagas mudou a desigualdade do capitalismo? O direito das mulheres a trabalhar em fábricas com salários iguais aos homens mudou os valores masculinos da sociedade Tcheca? Mas mudar todo o sistema de valores de qualquer sociedade, destruindo o conceito de maternidade: isso é revolucionário.

A feminista, se autodenomine de esquerda ou não, é de esquerda por definição. Ela está lutando por igualdade plena, pelo direito de ser tão importante, tão relevante, como qualquer homem. Então, incorporada em sua revolta pela igualdade de gênero está a alegação para as classes iguais.

Em uma sociedade em que o homem pode ser  mãe, para colocá-lo em termos de valores e ser claro, a "intuição feminina" é tão importante quanto o "conhecimento masculino" - para usar o vernáculo, apesar do absurdo - que ser gentil ou delicado  é melhor do que ser durão, em outras palavras, uma sociedade na qual a experiência de cada pessoa é equivalente a qualquer outra, é definida automaticamente a igualdade, o que significa igualdade econômica e política, entre outras coisas. Assim, a batalha dos sexos inclui a luta de classes, luta de classes, mas não inclui a batalha dos sexos. As feministas são, portanto, esquerdistas genuínas. De fato, elas estão à esquerda do que tradicionalmente chama-se de esquerda.
Gerassi – Mas isso é real? Por exemplo, eu aprendi a não usar a palavra “bonita”, a prestar atenção às mulheres em qualquer discussão de grupo, a lavar os pratos, ordenar a casa, fazer as compras. Porém, será que sou menos sexista em meus pensamentos? Será, por minhas atitudes que me despojei realmente de meus valores masculinos?
Beauvoir - Você quer dizer eu mais íntimo? Para ser sincera, a quem  importa? Pense um pouco. Você conhece uma pessoa do sul racista, sabe que é racista porque conhece desde o nascimento, mas ela nunca diz "crioulo". Escuta todas as reivindicações dos negros e dá o seu melhor para lidar com eles. Combate outros racistas, insiste em uma educação acima do comum para crianças negras, quer compensar os anos, quando eles perderam  escola. Ele dá recomendações para os homens negros obter empréstimos bancários. Ele dá suporte para candidatos negros em seu distrito através de apoio financeiro e com seu voto se acha que se preocupa com o povo negro. Alguém se importa que ele ainda pense assim suas atitudes como racista quando suas atitudes não são? Essencialmente, a exploração é hábito. Se você obter o controle,fazer que seja "natural" ter hábitos opostos, é um grande passo. Se você lava a louça, ordena a casa e toma atitudes que não o fazem sentir-se menos "homem" por fazê-lo, você vai ajudar a estabelecer novos hábitos. Duas gerações que sintam que têm de aparecer não racista o tempo todo, a terceira já nascerá não racista.

Então, finja ser não-sexista, e continue fingindo. Pense nisso como um jogo. Em seus pensamentos mais íntimos, você pode continuar pensando que você é superior às mulheres. Como você continuar a representar de forma convincente - lavando pratos, fazer as compras, ordenando a casa, cuidar das crianças - vai abrir mais cedo, especialmente para homens como você, que têm uma certa pose de "macho". A questão é que eu não acredito nisso. Eu não acho que você realmente faça o que  diz, uma coisa é lavar os pratos, mas mudar fraldas dia e  noite, é outra.

Trecho de entrevista feita por   John Gerassi, visto en www.lahaine.org. 1976. Extraído (y traduzida) de Languages at Southampton University por Mariana Pessah a partir de la página http://www.simonebeauvoir.kit.net/artigos_p02.htm

França: Agrava-se perseguição a ciganos

As condições de vida nos bidonvilles franceses continuam a deteriorar-se com a eleição de François Hollande e a formação de um governo do PS e o ambiente de eleições locais piorou a situação, que é de "um ambiente nauseabundo", de acordo com a rede associativa Romeurope, que defende os interesses das comunidades agregadas no conceito Roma.
Claire Sabah, da organização Socorro Católico, denunciou numa conferência de imprensa em Paris que a proximidade de eleições municipais tem vindo a transformar as comunidades roma em "bodes expiatórios". Como exemplo citou o facto de Paul-Marie Coûteaux, cabeça de lista da Frente Nacional neofascista na VI circunscrição de Paris, ter declarado que os ciganos fizeram "uma invasão" que é um atentado à "ordem estética" do seu bairro, pelo que a solução será "concentrá-los em campos".
Declarações como esta não provocaram reações, nem mesmo de Anne Hidalgo, a candidata do PS. O ataque às comunidades roma foi lançado em 2010 pelo discurso de Grenoble do então presidente Nicolas Sarkozy e teve seguimento desde que Manuel Valls tomou conta da pasta do Interior no governo da administração Hollande.
Segundo a Liga dos Direitos Humanos (LDH) e o Centro Europeu para os Direitos dos Roma (CEDR), cerca de 20 mil pessoas foram atingidas pelo desmantelamento de acampamentos em 2013. Mais vinte expulsões de campos foram registadas desde o início de 2014, já como sinal de aproximação das eleições locais e as " limpezas"» que os autarcas consideram necessárias.
A organização Romeurope considera que "o governo e as autoridades locais se fecham numa política de aparente firmeza cuja ineficácia é flagrante e o custo considerável (ainda que guardado em segredo), além de uma desumanidade reconhecida por todos. Mais grave ainda, quando existe uma vontade local de tentar outras soluções mais respeitadoras da dignidade das pessoas, mais solidária e duradoura, logo é reduzida a nada pelos despejos repetidos exigidos pelo Ministério do Interior e que têm a concordância do presidente da República".
Vários foram os exemplos de discriminação contra os roma e imigrantes denunciados na conferência de imprensa em Paris, designadamente a recusa de acessos de habitantes de acampamentos a pontos de água comunitários e preços exorbitantes exigidos a crianças dos acampamentos para terem refeições nas cantinas das escolas que frequentam : 14 euros por refeição e por dia contra 99 cêntimos para a maior parte dos outros alunos.