"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mídia e segurança pública

Crianças e adolescentes são 70% das vítimas de estupro

Nota Técnica apresentada no Ipea analisou dados do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde



Encerrando o Mês da Mulher, o Ipea realizou nesta quinta-feira, 27, um seminário em Brasília para apresentação de estudos que tratam da violência contra o sexo feminino. Além de uma edição do Sistema de Indicadores de Percepção Social, foi apresentada a Nota Técnica Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde. É a primeira pesquisa a traçar um perfil dos casos de estupro no Brasil a partir de informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan).

Com base nesse sistema, a pesquisa estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. A Nota Técnica é assinada pelo diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia, Daniel Cerqueira, que fez a apresentação, e pelo técnico de Planejamento e Pesquisa Danilo Santa Cruz Coelho.

Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos.

Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. A pesquisa também apresenta os meses, dias da semana e horários em que os ataques costumam ocorrer, de acordo com o perfil da vítima.

Fonte: Ipea

Geração nem-nem e violência contra jovens na América Latina, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou o relatório “Trabalho Decente e Juventude na América Latina: Políticas para Ação”, em fevereiro de 2014, onde mostra que 21,8 milhões dos latino-americanos entre 15 e 24 anos não estudam, nem trabalham, o que representa 20,3% dos jovens. Destes 21,8 milhões denominados “geração nem-nem”, 30% são homens e 70%, mulheres.
Aproximadamente 25% desses jovens (5,25 milhões) buscam trabalho; mas não conseguem, 16,5 milhões não trabalham, nem buscam emprego e cerca de 12 milhões dedicam-se a afazeres domésticos. Mulheres jovens constituem 92% desse grupo. Cerca de 4,6 milhões de jovens são considerados pela OIT o núcleo duro dos excluídos, pois estão sob risco permanente de exclusão social, já que não estudam, não trabalham, não procuram emprego e tampouco se dedicam aos afazeres domésticos.
Os países com maior percentual de jovens nem-nem são Honduras, com 27,5%, Guatemala, com 25,1%, e El Salvador, com 24,2%. Os países com menor percentual são Paraguai, com 16,9%, e Bolívia, com 12,7%. No Brasil, 19% de jovens não trabalham, nem estudam. Em grande parte, as jovens mulheres da geração nem-nem são sobrecarregadas pelo peso da responsabilidade das tarefas reprodutivas, pois é grande o número de maternidade precoce na região.
O relatório do UNFPA “Maternidade Precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência”, de 2013, aborda, entre outras questões, “as implicações da gravidez na adolescência e o que pode ser feito para garantir uma transição saudável e segura para a vida adulta”. As principais causas apontadas para a gravidez precoce são: casamentos muito cedo, pobreza, obstáculos a direitos humanos, violência sexual, restrições a políticas de métodos anticoncepcionais, falta de acesso a educação e serviços de saúde ligados ao tema dos direitos sexuais e reprodutivos.
Por outro lado, os jovens homens da geração nem-nem são, muitas vezes, vítimas de mortes violentas. Os números de homicídios na América Latina são alarmantes. Em apenas um ano, 330 milhões de anos de vida foram perdidos na região. De 2000 a 2010, houve 1 milhão de homicídios. Apesar do crescimento econômico e da redução da pobreza que ocorreu na última década, a América Latina não conseguiu impedir o aumento da criminalidade, que atingiu principalmente os jovens. As taxas específicas de mortalidade mais elevadas ocorrem no grupo etário 15-24 anos.
Em acordo com Waiselfisz (2008), a América Latina e o Caribe (ALC) apresentaram as mais elevadas taxas de óbitos por causas violentas em décadas recentes, quando referentes à população juvenil – com idades entre 15 e 24 anos. Comparando as taxas de mortalidade violenta de 83 países foi observado que entre os dez países com as maiores taxas de mortalidade violenta para a população juvenil, oito eram da região da ALC: El Salvador (1º), Colômbia (2º), Venezuela (3º), Brasil (4º), Guiana (6º), Guatemala (7º), Sta. Lúcia (8º) e Equador (10º). Há um homencídio e um femicídio no continente. Reportagem do jornal O Globo (23/03/2014) mostra que o Brasil tem 16 cidades no grupo das 50 mais violentas do mundo.
Desta forma, a América Latina e o Brasil estão descuidando de uma parcela significativa de seus adolescentes e jovens, sendo que muitas das jovens mulheres são, em geral, vítimas daviolência sexual e da gravidez indesejada e muitos dos jovens homens são vítimas, especialmente, de homicídios e da violência urbana. O futuro nem é bom e nem é promissor para uma região que não consegue oferecer boas perspectivas para as suas jovens gerações.

Referências:
Waiselfisz, JJ. Mapa da Violência, 2008

UNFPA. Maternidade Precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência, 2013

OIT. Trabalho Decente e Juventude na América Latina: Políticas para ação, fevereiro de 2014

ALVES, JED. A geração nem-nem: juventude sem perspectiva? EcoDebate, RJ, 25/11/2013

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Movimentos protestam contra privatização de Usina em SP

Várias organizações protestaram contra o leilão da Usina Hidrelétrica Três Irmãos, realizado nesta manhã na Bolsa de Valores de São Paulo. Consórcio formado por capital privado e empresa estatal ganhou a licitação
de São Paulo

“Vocês querem entrar no leilão de Três Irmãos, ou não?”, indagou Jadir Bonacina, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em São Paulo. Mal esperou a resposta dos presentes e completou: “Mas pra quê vamos participar do leilão se já pagamos por essa usina?”.

Logo em seguida à pergunta, os manifestantes iniciaram uma ‘vaquinha’ para arrecadar dinheiro e entregar simbolicamente como oferta à licitação. “Não precisa de muito não, porque já vai ser mais do que essa entrega do patrimônio do povo brasileiro representada neste leilão”, bradou Bonacina.

A Usina Hidrelétrica de Três Irmãos está situada no rio Tietê, entre os municípios de Pereira Barreto e Andradina, no interior de São Paulo. Com capacidade para gerar 807,5 megawatts de energia elétrica, a usina era controlada até 2011 pela Companhia Energética de São Paulo (CESP), ano do término de seu contrato de concessão.

Desde então, a usina foi repassada à União, porque o governo do Estado de São Paulo não aceitou renovar sua concessão pelos critérios propostos pelo governo federal.

Estes critérios foram estabelecidos no final de 2012, com a Medida Provisória 579, posteriormente transformada na Lei nº 12.783, que antecipou a renovação automática das concessões de hidrelétricas que teriam seus contratos vencidos até 2017.

Como contrapartida, a medida proposta pela presidenta Dilma Rousseff abaixava o valor de venda da energia dessas hidrelétricas para R$ 33,00 por cada mil KWh de energia (a média anterior era de R$ 100,00 por cada mil KWh), para possibilitar a redução de cerca de 20% nas tarifas de energia elétrica.

Isso não agradou os investidores do setor elétrico que temeram a perda de lucros. “Os especuladores do setor elétrico iniciaram um amplo processo de boicote à medida de redução do preço da energia, porque não queriam ver despencar suas altas taxas de lucro”, explicou Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do MAB.

Como resposta, os estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, todos governados pelo PSDB, não aceitaram a renovação por mais 30 anos das hidrelétricas administradas por suas empresas estatais. “Veja, todas estas empresas que teoricamente são públicas, tem a maioria de suas ações privatizadas. A CESP tem 64% das suas ações controladas por capital privado, a Companhia Paranaense de Energia (COPEL) 69% e a Companhia Energética de Minas Gerais 64%”, apontou.

Três irmãos é a primeira de uma série 36 usinas – 12 hidrelétricas e 24 pequenas centrais hidrelétricas – que poderão ser privatizadas nos próximos anos, o que representa aproximadamente 10% de todo o potencial energético brasileiro.

Segundo o presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo, Gentil Freitas, o PSDB está utilizando estas usinas para aplicar um golpe no bolso da população brasileira. “Enquanto as usinas controladas pela Eletrobrás estão cobrando 33 reais pela energia, estas usinas estão cobrando 822 reais, um valor 25 vezes maior”, denunciou.

Apesar dos protestos, que também ocorreram em Brasília em frente ao Ministério de Minas e Energia (MME), a UHE Três Irmãos foi privatizada. O ganhador da licitação foi o consórcio Novo Oriente, formado pela estatal Furnas (49,9%) e pelo fundo de investimento Constantinopla (50,1%).

Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB

quinta-feira, 27 de março de 2014

ULRICH BECK: A POLÍTICA ECONÔMICA DA INSEGURANÇA

A crise da socialdemocracia. Quanto mais se desregulam e flexibilizam as relações trabalhistas, com mais rapidez passamos de uma sociedade do trabalho a outra de riscos incalculáveis.
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A consequência não intencional da utopia neoliberal é uma brasilização do ocidente: são notáveis as ​​semelhanças entre a forma como se está moldado o trabalho remunerado no chamado Primeiro Mundo e como é o do Terceiro Mundo. A temporalidade e a fragilidade laboral, a descontinuidade e a informalidade estão atingindo as sociedades ocidentais até agora baluartes do pleno emprego e do Estado-Providência. Assim, o cerne da estrutura social ocidental está começando a  parecer como uma espécie de colcha de retalhos que define a estrutura do Sul, de modo que o trabalho e a vida das pessoas agora é caracterizada pela diversidade e insegurança.
Em um país semi-industrializado como o Brasil, os que dependem do salário de um emprego a tempo inteiro representam apenas uma pequena parte da força de trabalho, a maioria faz a sua vida em condições precárias. São viajantes do comércio, vendedores ou artesãos de varejo, oferecem todos os tipos de serviços pessoais ou oscilam entre diferentes tipos de atividades, de emprego ou de formação. Com o surgimento de novas realidades nas chamadas economias altamente desenvolvidas, a "multi-atividade" nômade - até o momento quase exclusiva do mercado laboral feminino ocidental - deixa de ser uma relíquia pré-moderna e torna-se uma variante do ambiente de trabalho para das sociedades de trabalho, nas quais estão desaparecendo os postos interessantes, altamente qualificados, com altos salários e em tempo integral.
Talvez neste sentido as tendências na Alemanha, apesar do sucesso atribuído a seu modelo, representem as de outras sociedades ocidentais. Por um lado, a Alemanha goza das melhores condições de negociação que se teve em muitos anos. A principal economia europeia é exemplar para a sua forma de conter a crise: baixas taxas de juros, fluxo de capital sustentado, aumento da demanda mundial por seus produtos, etc. Assim, o desemprego na Alemanha caiu 2,9% e chegou a apenas 6,9% da população ativa.
De outro lado, tem havido um aumento excessivo do emprego precário. Na década de 1960 apenas 10% dos trabalhadores pertenciam a esse grupo, em 1980, tinha ficado em um quarto, e agora é de cerca de um terço do total. Se as mudanças continuarem nesse ritmo, e não há qualquer razão para pensar que não vai acontecer assim, em mais dez anos, apenas metade dos trabalhadores terão empregos de tempo integral de longo prazo, enquanto a outra metade será, por assim dizer, trabalho à brasileira.
Abaixo da superfície da milagrosa expansão alemã se oculta esta expansão da economia política de insegurança, emoldurando uma nova luta pelo poder entre os atores políticos ligados a um território (governos, parlamentos, sindicatos) e agentes econômicos, sem vínculos territoriais (capitais, finanças, os fluxos de comércio) competindo por um novo diferencial de poder. Então se tem a fundada impressão de que os estados só podem escolher entre duas opções: ou pagar, com alto desemprego, níveis de pobreza que não fazem nada mais do que aumentar constantemente, ou aceitar uma grande pobreza (a dos "trabalhadores pobres"), em troca de um pouco menos de desemprego.
O "emprego para a vida toda" se foi. Consequentemente, o aumento do desemprego pode ser explicado não referindo-se a crise econômica cíclica, deve-se, em vez disso, a: 1) o sucesso do capitalismo avançado tecnologicamente, e 2) a exportação de empregos para países de baixa renda. O velho arsenal das políticas econômicas não pode entregar os resultados e, de uma forma ou de outra, em todos os postos de trabalho pesa a ameaça de substituição.
Deste modo, a política econômica da insegurança é um efeito dominó. Fatores que nos bons tempos eram complementares e reforçavam-se mutuamente - o pleno emprego, pensões garantidas, as receitas fiscais mais altas, a liberdade de decidir as políticas públicas - agora enfrentam uma série de perigos em cadeia. O trabalho remunerado está se tornando precário, os fundamentos do colapso do estado de bem-estar; histórias de vida correntes em ruínas, a pobreza dos idosos é agendadas com antecedência e, com os cofres vazios, as autoridades locais não podem cumprir a exigência do reforço da proteção social.
A "flexibilização do mercado de trabalho " é a nova ladainha política, que põe em dúvida as estratégias defensivas clássicas. Por suposto e pede mais " flexibilidade" ou, dito de outro modo, que os empresários podem mais facilmente dispensar os seus trabalhadores. Flexibilidade também significa que o Estado e a economia transferem os riscos para o indivíduo. Agora, os empregos oferecidos são de curta duração e facilmente anuláveis ​​( é dizer, "renováveis"). Finalmente, a flexibilidade também significa: " Anime-se, suas habilidades e competências são obsoletos e ninguém pode dizer o que você precisa aprender para que você precise no futuro. "A posição um tanto contraditória em que os Estados estão localizados quando insistem simultaneamente na competitividade da economia nacional e da globalização neoliberal (ou seja, nacionalismo e globalização) tem politicamente desapontado aqueles que afirmavam o direito de cada cidadão à segurança no trabalho e  dignos serviços sociais.
e tudo isto, resulta que quanto mais se flexibiliza e desregulamentam as relações de trabalho, com mais rapidez passamos de trabalho para outra de riscos incalculáveis​​, tanto do ponto de vista da vida dos indivíduos, do Estado e da política. Em qualquer caso, uma tendência para o futuro é clara: a maioria das pessoas, incluindo a classe média, aparentemente de sucesso,  vai ver que os seus meios de vida e ambiente existencial será marcado por insegurança endêmica. Parte da classe médias foram devoradas pela crise do euro e mais e mais pessoas são forçadas a agir como "Eu e os associados" no mercado de trabalho.
Enquanto o capitalismo global dissolve nos países ocidentais os valores essenciais da sociedade de trabalho, se rompe uma ligação histórica entre o capitalismo, o estado de bem-estar e a democracia. Não se engane: um capitalismo que busca nada mais que lucro, sem levar em conta os trabalhadores, o estado de bem-estar e a democracia, é um capitalismo que renuncia de sua própria legitimidade. A utopia neoliberal é uma espécie de analfabetismo democrático, porque o mercado não é a única justificação, pelo menos no contexto europeu, é um sistema econômico que só é viável em sua interação com a segurança, os direitos sociais, liberdade política e a democracia. Apostar tudo no livre mercado  é destruir, juntamente com a democracia, todo o comportamento econômico. A turbulência provocada pela crise do euro e as fricções financeiras globais são apenas uma amostra do que nos espera: o adversário mais poderoso do capitalismo é precisamente o capitalismo que só olha a rentabilidade.

O que priva de  legitimidade ao capitalismo tecnologicamente avançado não é que derrube barreiras nacionais e produza cada vez mais com menos mão-de-obra, mas que bloqueia as iniciativas políticas conducentes à celebração de um acordo para a formação de um novo modelo social europeu. Qualquer um  que hoje pense no desemprego não deve ficar preso em disputas antigas, tais como as relativas ao "mercado de trabalho secundário" ou "despesas salariais em declínio." O que parece um colapso deve tornar-se  um período de fundação de novas idéias e modelos que cada vez mais abra as portas para o estado transnacional, ao imposto europeu sobre as transações financeiras e à "utopia realista" de uma Europa social para os trabalhadores.
Ulrich Beck é sociólogo, professor emérito da Universidade de Munique e professor da London School of Economics. Fonte: elpais.com

PIERRE BOURDIEU – EXISTIR PARA A VISÃO MASCULINA: A MULHER EXECUTIVA, SECRETÁRIA E SUA SAIA

Enquanto estamos a nos congratular com os inegáveis ​​avanços da condição feminina nos últimos 50 anos, e militamos pela paridade na política e pela divisão das tarefas domésticas, continuamos determinados por uma visão de mundo masculino que faz a diferença entre os sexos. É justamente essa dominação masculina, que a história quis transmitir um caráter natural, uma arbitragem cultural e uma construção sociológica, a que a família, o Estado e a escola insistem em reproduzir hoje. Nós pedimos ao sociólogo Pierre Bourdieu para declinar e ilustrar a sua teoria a partir de alguns personagens (diretora executiva, secretária, enfermeira), e analisar  um objeto emblemático: A saia.
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Costuma-se dizer que uma mulher que obtém uma posição de importância tem que oferecer maiores provas de excelência do que um homem, como se deveria compensar com mil qualidades algum defeito.
Na verdade, as mulheres que alcançam posições de poder são "sobre-selecionadas", se requer mais distinções profissionais para uma mulher do que um homem para um cargo de direção executiva. Também se dá maiores prestações sociais no início para não ter que acumular desvantagens. Assim, quase necessariamente, elas são mais qualificadas do que os homens em cargos semelhantes, e sua origem é mais burguês. O mesmo sucede com os ministros. Isto não deixa, ademais, de causar problemas no debate sobre a paridade na política, uma vez que corre-se o risco de substituir os homens burgueses por mulheres ainda mais burguesas. Não se faz o necessário para que isso realmente mude: por exemplo, um trabalho sistemático, especialmente nas escolas, para proporcionar às mulheres o acesso a instrumentos de discurso público, aos postos de comando. Sem isso, teremos os mesmos dirigentes políticos com apenas uma diferença de gênero.

Para falar da mulher executiva, quais são as estratégias, muitas vezes inconscientes, que são usados ​​para negar legitimidade o seu exercício de poder?
Trata-se de mil pequenos detalhes, tudo com base no pressuposto de que uma mulher no poder, uma mulher que dá ordens, não é óbvio, não é "natural" . Na definição de uma profissão há também  tudo aquilo relacionado com a pessoa que a exerce. Se for feito por um homem com um bigode e chega para exercê-la uma jovem de mini-saia, então, não está certo! Sempre falta o bigode, a voz profunda e sonora condizente com uma pessoa com autoridade", fale alto, eu não posso ouvir!" Que mulher não sofreu esta exclamação em uma oficina? A definição tácita da maioria dos cargos de gestão é uma forma de levantar a cabeça, para modular a voz, a segurança, a facilidade, o " falar sem dizer nada ", e se ela fala mais fortemente da conta, seriamente ou com ansiedade, porque isso é preocupante. Sem analisá-lo sempre, as mulheres se ressentem disso, muitas vezes em seus corpos como uma forma de estresse, tensão, dor, depressão...
E, obviamente, uma mulher com fortes responsabilidades profissionais deve sacrificar algo mais ...
Certo feminismo há encontrado sua crítica no espaço doméstico, como se o fato de o marido lavar pratos fosse suficiente para suprimir a dominação masculina. Muitos fenômenos são compreendidos apenas se compararmos o que acontece no espaço doméstico com o que é dado no espaço público. Diz-se que as mulheres cumprem dois turnos. Essa é a maneira simples de explicar o problema. Na realidade, é mais complicado. No presente estado de coisas, a maioria das conquistas femininas no espaço doméstico devem pagar com sacrifícios no espaço público, na profissão, no trabalho, e vice- versa. Se fazemos economia de analise entre os dois espaços, condenamos-nos a só ter reivindicações parciais, que podem levar a medidas revolucionárias na aparência e na realidade são conservadoras. Todos os movimentos de dominados - a descolonização, os movimentos sociais  - têm tantas obtido assim benefícios, mas com efeitos perversos.
No outro extremo da mulher executiva que tem um "trabalho de homem", falemos da enfermeira. Por que e como este é um "trabalho de mulher"?
Sua pergunta me leva a refleti, esplendidamente tautológica, de uma adolescente que uma vez eu questionava: "Hoje não há muitas mulheres que fazem ofícios de homens!" Os ofícios da mulher se ajustam, por definição, à ideia que temos dela, são os menos "ofícios " de todos os ofícios. E é que os ofícios verdadeiros são ofícios de homem. O ofício de uma mulher é uma profissão feminina, ou seja, subordinado, muitas vezes mal pagos, e é, em última análise uma atividade em que, supostamente, a mulher deve expressar suas disposições "naturais" ou considerados como tais.

Nas estatísticas que nos EUA se classificam as profissões de acordo com o grau de feminização, a enfermeira segurou um topo da lista (a enfermeira de crianças ainda estaria acima). Na verdade, ele preenche todos os requisitos: cuidados,  prestação de cuidados, abnegação, etc. É o trabalho das mulheres por excelência. Especialmente porque ele mantém um ambiente extremamente masculino. Hospitais, especialmente na França, ainda são dominadas por uma visão de mundo militar, um mundo hierárquico... A visita do "patrão" é um ritual em que essa hierarquia é exibida. Assim como um general inspecionando suas tropas. O patrão é este personagem central, total, rodeado de mulheres, como convém às leis de distinção social.
É o mesmo  ser  feminina para uma mulher executiva que para uma secretária?
Nem um pouco. Os limites são ligadas à função. a diretora-executiva deve ser muito menos feminina do que a secretária, ou melhor, deve ser muito diferente. Feminina, mas não muito, para fazer valer a sua autoridade, conservando sua feminilidade, submetendo-se, por exemplo, às obrigações de vestimenta a que também os homens (cortes rígidos, cores sóbrias) são submetidos, mas com uma ligeira suspeita de detalhes femininos ( a saia, a maquiagem, a joia discreta, etcetera). Ecomo  a apresentação é parte de quão profundo é o papel feminino, principalmente sexual, a submissão profissional que é exigida da secretária não apresenta nenhum problema. Muitas vezes isso é acompanhado por finalização ainda mais completamente inconsciente, enquanto se aguarda uma relação quase amorosa (ou materna).
Pierre Bourdieu, para que serve a saia?
É difícil de se comportar corretamente quando se usa uma saia. Se você é um homem, imagine-se em uma saia, bastante curta, e tente agachar, levantar um objeto do chão, sem sair de sua cadeira sem abrir as pernas... A saia é uma chave invisível que impõe nos modais uma atenção e uma retenção, uma maneira de sentar, andar. Finalmente tem a mesma função que a batina. Vestindo uma batina é algo que realmente muda a vida, e não apenas porque a pessoa se torna sacerdote aos olhos dos outros. Você será lembrado constantemente pela sua situação com aquele pedaço de pano que interfere entre as pernas, para não falar que é uma interferência do tipo feminino. Você não pode correr! Eu ainda vi os sacerdotes da minha infância levantar as saias para jogar bola

A saia é uma espécie de lembrete. A maioria dos ditames culturais servem para lembrar o sistema de oposição (masculino/feminino, esquerda/direita, alto/baixo, duro/mole..) em que a ordem social está fundada. Oposições arbitrária que terminam por dispensar apoio e que são registradas como diferenças da natureza. Por exemplo, em "use a faca com a mão direita" toda uma moral da masculinidade é transmitida, e a oposição entre a direita a esquerda, a direita é "naturalmente" o lado da virtude como virtude do homem(Vir) .

Da revista francesa Télérama. Julio-agosto, 1998.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A complexidade e a criatividade transformam os currículos educativos

Qualquer projeto de conhecimento deve ser ao mesmo tempo  projeto de conhecimento do conhecimento, a Complexidade inspira uma série de sugestões  meta-paradigmáticas para orientar o educador-designer de programas educacionais e, conferir marcos ao planejamento de uma estratégia mais flexível e integradora da organização dos conteúdos curriculares. Por Nicolás Malinowski.

Tradicionalmente, e desde a formação inicial até os níveis mais avançados, a questão dos conteúdos educacionais é organizado de uma forma linear: cada semestre ou trimestre representa uma coluna, e o estudante passa assim sucessivamente por uma etapa, através da sanção dos exames, até o final da sua trajetória de estudos.

Esta realidade não é monopólio de nenhuma área disciplinar em particular, mas sim herança de modelos cognoscitivos fundadores do pensamento moderno. O filósofo e sociólogo Auguste Comte, durante a primeira metade do século XIX, forneceu as bases doutrinais do positivismo, entendido como a fé no progresso contínuo da ciência e, conseqüentemente, da humanidade - ao mesmo tempo que a necessidade metodológica de uma disjunção disciplinar pensada como natural: "Uma disciplina se define completamente por seu objeto positivo e seu método de investigação" (1)


A forma de aquisição de conhecimento tem, portanto, evoluído, desde as bases de seu paradigma cartesiano-positivista dominante há mais de dois séculos, e tão intimamente associado com a ciência e a tecnologia baseada na ideia  hiperparcelação dos objetos de estudo.


Os problemas considerados e as soluções propostas são cada vez mais artificialmente simples e, consequentemente, não somos capazes de resolver os problemas mais fundamentais da humanidade, mais complexos e globais, para gerar formas muito perversas de condicionamento intelectual. (2)


Nesta perspectiva clássica, o currículo tende a ser concebido como uma metodologia própria às ciências da educação, contando com um propósito prévio e uma série de passos estruturados, mecânicos para obtê-lo.

La complejidad y la creatividad transforman los currículos educativos

Do planejamento educativo ao desenho estratégico
 

Hoje, se as sociedades parecem incapazes de lidar com problemas globais fundamentais (meio ambiente, Geopolítica, Direitos Humanos ...), é porque um déficit da inteligibilidade aparece claramente em um mundo onde as interdependências de todos os tipos aumentam, induzindo um processo rápido de obsolescência dos nossos quadros de pensamento e nossos conhecimentos técnicos, das nossas instituições e dos nossos métodos de gestão. 

A Transdisciplinaridade induzida pela complexidade, permite teoricamente superar as simplificações de uma ciência muito ainda caracterizada pelo determinismo e pelo positivismo. Postular uma realidade que se impõe aos olhos do pesquisador e observador do mundo ao redor é, provavelmente, o primeiro erro intelectual para a produção e organização do conhecimento. 


Esta realidade só existe no olhar que colocamos sobre ela. Portanto, o conhecimento aparece como um produto objetivado, e tampouco objetivo, entre o que quer conhecer e incluir e o fenômeno observado cuja existência se supõe. A questão da ética do conhecimento torna-se central, liberando-se de marais pragmáticas ou políticas, e reafirmando - triunfalmente - o papel central do ser pensante na construção dos conhecimentos.


A criatividade, bem como a aptidão para encontrar soluções novas relacionando dados conhecidos, revela aqui uma qualidade essencial, mas o mais ambíguo como atributo do planejador educacional que justamente escapa a suas tentativas de racionalização e sistematização.

Mais do que um contra - método curricular verdadeiro - que implicaria a formulação simétrica de um corpus  de regras opostas ao cartesianismo em seus conteúdos, mas convergentes com ele em seu caráter intrisincamente prescritivo - a complexidade  parece mais bem convidar para repensar a noção mesma de prescrição metodológica, a repensar a nossa própria confiança no ideal de certeza e elaborar abordagens científicas como fundamentalmente aventura não-linear. (3)


O poeta espanhol Antonio Machado expressa de maneira inimitável com estes famosos versos, nos quais se hão identificados muitos pensadores da complexidade:


"Caminhante, seus passos são o caminho, e nada mais;caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar.

Ao andar se faz caminho, e ao olhar para trás vê-se o caminho que nunca se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho, mas estrelas no mar." (4)

Como representar graficamente um currículo integrador? 

Nesta óptica e de acordo com Carlos Alberto Botero (2008), a noção de " eixos transversais" consistiriam em pensar temáticas que atravessam, vinculam e conectam várias disciplinas do currículo considerado, convertendo-se em dinâmicas internas de integração curricular.

Simetricamente para nós, se trata, desde uma visão sinóptica do projeto curricular, de permitir a construção destas dinâmicas internas, com um duplo instrumento dos "núcleos programáticos" e das "pontes integradoras".


A escolha e definição das ferramentas transversais é baseada em três dinâmicas, lógica e cronologicamente relacionadas:


• Em primeiro lugar, a assegurar uma boa compreensão e apropriação dos eixos cardeais do modelo educacional vigente na instituição em causa, como uma representação arquetípica do processo de ensino e aprendizagem, o que implica uma concepção subjacente de educação, aprendizagem, do aluno e  da docência mesma.


Esta etapa pode parecer óbvio, é no entanto crucial como bem sugere Ralph Tyler, insistindo que seu famoso Estudo dos Oito Anos, na necessidade de definir metas que sejam bem impregnados em todo o sistema em que está imerso a instituição.


• Em seguida, a análise detalhada e exaustiva dos assuntos abordados pelo currículo considerado, e dos conteúdos bordados contido em cada um, a fim de identificar, a partir de um ponto sistêmico de análise, as conexões temáticas que surgem a priori entre  todos esses assuntos. Graficamente, o primeiro estágio pode então ser resumido como se segue
:

La complejidad y la creatividad transforman los currículos educativos
Esta identificação de unidades temáticas é, por definição, um ato criativo, por sua irredutibilidade à aplicação mecânica de um quadro metodológico pré-definido. Trata-se, concretamente, de uma dinâmica consciente de reapropriação conceitual a partir da qual se lança uma ideia, uma noção, um conceito não diretamente incluído na lista de temas da assinatura considerada, mas que emerge de sua estrutura geral. 

• Com base nisso, um terceiro passo, muito importante, consistirá em dar  volta ao esquema acima para passar de uma definição de temas por cursos para uma definição  de cursos por temas: 


A ponte integradora consiste assim em um núcleo problemático que deixa de ser isolado (e não apenas no nível de  um assunto, mas como uma ocorrência global) a ser proposto como vínculo de conceitual possível entre as diferentes disciplinas curriculares consideradas. 


• Cada par representa uma ponte integradora potencial.

La complejidad y la creatividad transforman los currículos educativos
Esta dinâmica de identificação  dos problemas fundamentais é, por definição, um ato criativo, artístico,  por sua irredutibilidade à aplicação mecânica de um esquema metodológico pré-definido. Neste sentido, é difícil julgar, a priori, a relevância de uma proposta de ponte  integradora, mas podemos no entanto propor dois marcos racionais de base:

- Um tema integrador, primeiro, que reúna todas as disciplinas do currículo, deixa de ser um tema integrador para tornar-se uma característica do modelo educacional.

- Ao contrário de um tema integrador que só consta com uma disciplina imediatamente perde o seu potencial de ligação.

Isto nos convida a conceber as disciplinas,  não da forma tradicionalmente hierárquica,  como poderia definir um Auguste Comte - mas como constelação de pontos, ou arquipélagos temáticos (5), reunidos em função de objetivos pedagógicos transversais. Estes objetivos permitem  não pensar o currículo global como justaposição de nós separados, mas como um sistema de relações entre objetivos fortes, e com um grau crescente de complexidade:
La complejidad y la creatividad transforman los currículos educativos
Conclusão: Algumas pistas de operacionalização

As potenciais vantagens deste modelo de currículo integrador podem ser consideradas a partir de várias perspectivas:

*Orientar de forma mais clara a escolha de especialidades e disciplinas optativas.
* Adquirir habilidades de inteligência estratégica que permitam resolver de maneira eficiente e responsável os desafios complexos.
* Proporcionar ao aluno uma melhor apropriação de sua trajetória de estudos...

Desde a sua fundação em 2004, no México, é uma das linhas de investigação na qual tem trabalhado os membros do grupo de professores e pesquisadores da Multiversidad Edgar Morin para a revisão curricular e o desenho de programas concebidos a partir da perspectiva da transdisciplinaridade.

Em 2008, tivemos a grande honra de sermos convidados pela Secretaria Federal de Segurança Pública (SSP) e de Desenvolvimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento a participar do projeto "Plano Reitor de Profissionalização das Carreiras de Polícia", no México, por um esforço de reorganização curricular como descrito acima, com busca e construção de pontes integradoras.

Independentemente das considerações em termos de contextualização e derivações do projeto, seu ponto de partida como tal, que é o interesse demonstrado pelos responsáveis ​​do Departamento de Formação da SSP com a proposta do pensamento complexo e transdisciplinar, já nos aparece como resultado profundamente estimulante, intelectualmente falando, revelador de mudanças globais e profundos em termos de formas de pensar sobre a atividade humana na sociedade.

Notas

(1) A. Comte (1828): Discours sur l´Esprit Positif, Paris, Edit. PUF.
(2) E. Morin (2011): Las Noches Están Preñadas y Nadie Conoce el Día Que Nacerá, Le Monde - Artículo publicado en la edición de 09.01.11, Paris: "La insolvencia del pensamiento enseñado por doquier, que separa y compartimenta los conocimientos sin poderlos reunir para afrontar los problemas globales fundamentales, se hace sentir, más que en cualquier otro terreno, en la política. De ahí una ceguera generalizada, tanto más cuanto que se cree poder disponer de las ventajas de una “sociedad del conocimiento”.
(3) E. Morin (1994): El Empeño Multidimensional, Sociología, México, Anthropos Editorial, 2003, p 193: “Se trata, en pocas palabras, de encontrar el rigor, no la rigidez, pero dentro de una estrategia de permanente adaptación.”
(4) A. Machado (1917): Poema XXIX de Proverbios y Cantares, Campos de Castilla, Alianza Editorial S.A, 2006.
(5) E. Morin (1999): Los Siete Saberes Necesarios para la Educación del Futuro, Paris, UNESCO, p: “El conocimiento es una navegación en un océano de incertidumbre, a través de archipiélagos de certeza.”

Nicolas Malinowski é Diretor Acadêmico de Multiversidad “Mundo Real” Edgar MorinCoordenador do Diploma em Desenvolvimento de Modelos CurricularesArtigo derivado do libro de E. del Percio (dir) & N. Malinowski (2010): "Prejuicio, Crimen y Castigo", Editorial Sudamericana S.A., Buenos Aires, Argentina.

Retirado de Tendências21.net

Atingidos ocupam ANEEL e protestam em FURNAS

Atingidos protestam na ANEEL e Furnas por política nacional de direitos e contra possíveis aumentos nas contas de luz

Desde o início da manhã quarta-feira (26), atingidos por barragens realizam dois protestos simultâneos, nas cidades do Rio de Janeiro e Brasília, para reivindicar uma política nacional de direitos e denunciar os possíveis aumentos das tarifas de energia elétrica para o próximo ano.

Em Brasília, cerca de 300 atingidos ocuparam, por volta das 07 horas, a frente da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), órgão do governo que regulamenta o setor elétrico nacional, para denunciar os interesses empresariais que dominam a instituição.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a ANEEL serve apenas para criar condições favoráveis aos empresários e, ao mesmo tempo, prejuízos à população.

Também foi entregue uma carta pedindo o cancelamento do leilão da Usina Hidrelétrica de Três Irmãos, localizada em Andradina, no interior de São Paulo. Antes controlada pela estatal Companhia de Energia de São Paulo (Cesp), teve seu contrato de concessão vencido em 2011 e foi devolvida à União.
Entretanto, o governo, através da ANEEL, marcou para a próxima sexta-feira (28) o leilão na bolsa de valores de São Paulo.

No Rio de Janeiro, aproximadamente 200 atingidos vindos da região serrana do estado, além de Minas Gerais e São Paulo, marcham da estação Botafogo em direção ao prédio de Furnas, empresa pública de geração e transmissão de energia, para reivindicar uma política de direitos.

A única lei que versa sobre os atingidos é de 1941 e garante indenização, pela desapropriação de sua terra, apenas aos proprietários. Com isso, são excluídas de qualquer forma de reparação as populações sem a posse legal da terra, como meeiros, arrendatários, ribeirinhos, trabalhadores formais e informais que mantinham vínculos com a região atingida, etc.

O MAB exige a aprovação da proposta, atualmente tramitando na Secretaria Geral da Presidência da República e outros Ministérios do Governo Federal, a aprovação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB).

Os principais pontos da política são a definição de um conceito de atingido, já que até hoje não há nenhuma demarcação jurídica; a definição dos direitos dos atingidos e suas devidas formas de reparação, como indenização, reassentamentos e benfeitorias; a definição de um órgão estatal responsável; e por fim, uma conta PNAB, com a destinação de recursos financeiros do estado para viabilizar a política.

Além disso, o MAB reivindica um Fundo para o pagamento da dívida social com as comunidades já atingidas. No Brasil, pelos cálculos do movimento, mais de um milhão de pessoas já foram atingidas por barragens, mas apenas 30% receberam algum tipo de reparação.

As ações fazem parte da Jornada de Lutas de Março, quando milhares de atingidos saem às ruas em todo o mundo para cobrar seus direitos.

Mais informações:
Assessoria Brasília: Vinicius – (61) 8242 3282
Assessoria Rio de Janeiro: Liciani – 21 96571 9983
Assessoria Nacional: Guilherme – (11) 98241 3171

Por maior participação política, jovens fazem mobilização de duas semanas

Marchas, atos políticos, seminários e um intenso diálogo com a sociedade devem marcar a Jornada Nacional de Lutas da Juventude Brasileira. A pauta da constituinte para uma Reforma Política é um dos temas centrais das atividades organizadas em todo país, entre os dias 26 de março e 9 de abril.
Para Raul Amorim, do coletivo de juventude do MST, as lutas de junho demonstraram a frustração que a juventude tem com o sistema político brasileiro e representam um novo ponto de partida para a busca de mudanças estruturais.
"Em junho do ano passado as juventudes foram às ruas e uma das bandeiras mais destacas foi a falta de participação política da juventude. E mais que isso, o fosso que há entre o povo e as instituições do Estado.”
Para Amorim, as mobilizações apresentaram uma possibilidade de mudança do ânimo de luta da população, sendo porta de passagem para outras grandes transformações.
"Isso tem a ver com a reforma agrária, isso tem muito a ver com a democratização dos meios de comunicação. Enfim, esse debate com a população sobre o que ela acha da política no país. E a constituinte vem nesse processo de politização do povo para entender a política no país e em conjunto transformar."
A jornada Nacional de Lutas da Juventude Brasileira teve início em Brasília, nesta quarta-feira (26), quando milhares de jovens pressionaram o Congresso pela imediata aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE) e pediram a reserva de 10% do PIB para o setor.
Em São Paulo, os jovens debatem a greve das escolas técnicas do Estado (Fatecs e Etecs) e realizam ato político cobrando a instalação da CPI do Transporte Público para investigar irregularidades no Metrô.
De São Paulo, da Radioagência BdF, Leonardo Ferreira.
Foto: Reprodução

“MANIFESTO DA JORNADA DE LUTAS DA JUVENTUDE BRASILEIRA
26 de Março a 9 de Abril
 Unir a Juventude Brasileira: “Se o presente é de luta, o futuro nos pertence”!
Che Guevara
As entidades estudantis, as juventudes do movimento social, dos trabalhadores/as, da cidade, do campo, as feministas, os negros e negras, as juventudes partidárias, religiosas, lgbt, dos coletivos de cultura e das periferias se unem por um ideal: avançar nas mudanças e conquistar mais direitos para juventude.
É preciso denunciar o extermínio da juventude negra e das periferias a quem o Estado só se apresenta através da violência. O mesmo abandono se dá no campo, que alimenta a cidade e segue órfão da reforma agrária e dos investimentos necessários à permanência da juventude no campo, de onde é expulsa devido à concentração de terras, à ausência de políticas de convívio com o semiárido. Já na cidade, a juventude encontra a poluição, a precarização no trabalho, a ausência do direito de organização sindical, os mais baixos salários e alta rotatividade – agravando-se com a terceirização – que se tornam fatores ainda mais graves no que diz respeito às jovens trabalhadoras.
Essa é a dura realidade da maioria da População Economicamente Ativa no país, que querem conquistar mais direitos e mais participação, e não as mentiras da imprensa oligopolizada, que foi parceira da ideologia do milagre brasileiro e cúmplice da ditadura, ao encobrir torturas e assassinatos e sendo beneficiária da monopolização ainda vigente. É coerente que ela se oponha à verdade e à justiça, que se cale ante as torturas e ao extermínio dos pobres e negros dos dias de hoje, que busque confundir e dopar a juventude, envenenando a política, vendendo-nos inutilidades, reproduzindo os valores da violência, da homofobia, do racismo, do machismo e da intolerância religiosa, mas eles não falam mais sozinhos: estamos aqui pra fazer barulho.
Queremos cidades mais humanas em vez de racismo, violência e intolerância. Queremos as garantias de um estado laico, democrático, inclusivo, que respeite os direitos humanos fundamentais, inclusive aos nossos corpos, à liberdade de orientação sexual e à identidade de gênero, num ambiente que assegure a liberdade religiosa. Queremos que a juventude tenha o direito de dar seu rolezinho, e usufruir das cidades e do campo, com garantias de melhoria na mobilidade urbana e rural, com transporte público de qualidade.
Queremos reformas estruturais que garantam um projeto de desenvolvimento social e que abram caminhos ao socialismo.  Lutamos por um desenvolvimento sustentável, solidário, que rompa com os valores do patriarcado, que assegure o direito universal à educação, ao trabalho decente, à liberdade de organização sindical, à terra para quem nela trabalha e o direito à verdade e à justiça para nossos heróis mortos e desaparecidos.
Para continuar avançando é preciso incorporar a juventude ao desenvolvimento do país. Incluir o bônus demográfico atual exige uma política econômica soberana que valorize o trabalho, baseado na produção, no investimento e as políticas sociais, e não a especulação. Esse é o melhor cenário para tornar realidade os direitos que aprovamos no estatuto da juventude.
As manifestações protagonizadas pela juventude em junho de 2013 questionaram as atuais instituições políticas e explicitaram a necessidade de mudanças profundas no sistema político brasileiro. Nesse sentido, o Plebiscito Popular pela Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político apresenta-se para nós como uma oportunidade histórica para dar voz e poder ao povo brasileiro, e avançar nas reformas estruturantes de nosso país. Estaremos construindo o Plebiscito, entendendo-o como um processo de unidade dos movimentos sociais e um momento de amplos debates e mobilizações.
Seguimos em uma caminhada de unidade e luta por reformas estruturais que enterrem o neoliberalismo e resguardem a nossa democracia e nosso direito de manifestação contra leis nas quais o Estado classifica os movimentos sociais nas ruas como terroristas e contra os retrocessos que pretendem impor os monopólios da mídia, ou golpes institucionais dos quais a América Latina frequentemente é alvo.
Unidos e cheios de esperança, convocamos a juventude a tomar em suas mãos o futuro dos avanços no Brasil, na luta pelas seguintes bandeiras consensualmente construídas:
  1. 1.    Educação: financiamento público da educação
1.1  10% PIB para educação pública
1.2  Aprovação imediata do PNE, conforme relatório da Camara.
1.3  2% do pib para ciência, tecnologia e inovação
1.4  Por uma política permanente de valorização das bolsas de pesquisa
1.5  Democratização do acesso e da permanência na universidade
1.6  Pela expansão e a qualidade da educação do campo
1.7  Cotas raciais e sociais nas universidades estaduais
1.8  Curricularização da extensão universitária
1.9  Regulação e ampliação da qualidade, em especial, do setor privado
1.10              Contra o capital estrangeiro nas universidades e escolas
1.11              Estatização das universidades privadas em crise, com garantia dos direitos dos estudantes e trabalhadores e com responsabilização dos empresários pelas dividas e irregularidades;
1.12              2% do orçamento do MEC para Assistência Estudantil
1.13              Criação de mais creches municipais e creches universitária
1.14              Efetivação da Lei 10639 e 11645 do ensino história e cultura Afrobrasileira e Indígena
1.15              Maior articulação das políticas de educação com as políticas de cultura, comunicação, meio ambiente e direitos humanos
2. Trabalho – trabalho decente
2.1  Redução da jornada de trabalho sem redução de salário! 40 horas já!
2.2  Condições dignas de trabalho decente
2.3  Políticas que visem a conciliação entre trabalho, estudos e trabalho doméstico
2.4  Direito de organização sindical no local de trabalho
2.5  Contra a precarização promovida pela terceirização
2.6  Pela igualdade entre homens e mulheres no trabalho e entre negros/as e não negros/as
2.7  Aprovação da PEC do Trabalho Escravo
  1. 3.    Por avanços na democracia brasileira - reforma política  
3.1 Plebiscito Popular pela Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político
3.2 Pelo fim do financiamento de empresas privadas nas eleições
3.3 Combate ás desigualdades sociais e regionais
3.4 Paridade entre mulheres e homens em todos os espaços de representação política
3.5 Contra a judicialização da política e a criminalização dos movimentos sociais
3.6 Pela auditoria da divida publica
3.7 Contra o avanço do capital estrangeiro na aquisição de terras e na educação
3.8 Reforma agrária popular
3.9 Garantia do Estado Laico
3.10             Aprovação do PL 4471/2012
4. Diretos sociais e humanos: violência contra juventude
4.1  Contra o extermínio da juventude negra
4.2  Contra a redução da maioridade penal 
4.3  Garantia do direito à memória, à verdade e à justiça e a punição dos crimes da ditadura
4.4  Garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, como à autonomia sobre o próprio corpo e o combate à sua mercantilização em especial das jovens mulheres
4.5  Pelo fim da violência contra as mulheres
4.6  Pela mobilidade urbana e o direito à cidade
4.7  Pelo direito da juventude à moradia
4.8  Desmilitarização da policia
4.9  Respeito à diversidade sexual, aos nomes sociais e criminalização da homofobia
4.10              Apoio à luta indígena e quilombola e das comunidades tradicionais
4.11              Contra a internação compulsória e pelo tratamento do uso abusivo de substâncias químicas através de uma política de redução de danos
4.12              Pelo direito ao lazer à cultura e ao esporte, inclusive com a promoção de esportes radicais
4.13              Valorização e respeito à diversidade cultural brasileira
4.14              Contra o PL 499/2013 que trata de crimes de “tipificação terrorista”
5. Democratização dos meios de comunicação
5.1. Universalização da internet de banda larga no campo e na cidade
5.2 Políticas públicas para grupos e redes de cultura, comunicação livres e comunitárias
5.3 Políticas públicas para os meios de comunicação da imprensa alternativa
5.4.        Apoio ao movimento de software livre
5.5.        Redistribuição das verbas de publicidade do Governo Federal para mídias e veículos alternativos.  
Assinam este documento: ABGLT, ABEEF; ANPG; Associação Cultural B; Centro de Estudos Barão de Itararé; Circuito Universitário de Cultura e Arte – CUCA; CNAB; CMB;  Coletivo Estopim; Coletivo Quilombo; CONAM, CONEN, Consulta Popular; CONTAG; Ecosurfi; Enegrecer; FEAB; Federação Paulista de Skate; Fora do Eixo; Juventude da CTB; Juventude da CUT; Juventude do PSB; Juventude do PT; Juventude Pátria Livre; JUNTOS; Levante Popular da Juventude; MAB: Marcha Mundial das Mulheres; Movimento de Mulheres Camponesas; MST; Nação Hip Hop Brasil; Pastoral da Juventude, PJMP, PJR; PCR; REJU; Rejuma; UBES; UBM, UJS; UNE; Via Campesina.
Juventude do Brasil é fogo no pavio!”