"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 12 de abril de 2014

Brasil: 50 anos depois da derrubada de Joao Goulart, não devemos olvidar o apoio de Washington aos golpistas

por Eric Toussaint

50 anos após o golpe dos militares, o 2 de abril de 1964, e a derrubada do presidente João Goulart, não há dúvida do apoio ativo do governo dos EUA, o FMI e o Banco Mundial. Em 02 de abril de 2014, uma organização não-governamental nos Estados Unidos, o National Security Archive (NSA!) lançou uma impressionante série de documentos oficiais desclassificados mostrando a cumplicidade de Washington com os militares brasileiros que derrubou há 50 anos o regime democrático de João Goulart. 


Na tese de doutorado defendida em 2004 na Universidade Paria VIII e Liège |1|, abordei o apoio prestado por Washington, o Banco Mundial e o FMI para os militares brasileiros. Neste quinquagésimo aniversário reproduzo um trecho desta tese.
Apoio à junta militar do Brasil que derrubou o presidente João Goulart

O regime democrático do presidente João Goulart foi deposto pelos militares em abril de 1964 . Os empréstimos do Banco e do FMI, que haviam sido suspensos por três anos, recomeçaram pouco depois | 2 |.

Vamos fazer um breve resumo dos acontecimentos: em 1958, o presidente brasileiro Kubitschek teve de entrar em negociações com o FMI para receber um empréstimo dos EUA de $300 milhões. Finalmente, Kubitschek rejeitou as condições impostas pelo FMI e ignorou o empréstimo. Isso lhe rendeu grande popularidade.


Seu sucessor, João Goulart anunciou que iria implementar uma reforma agrária radical e que ele iria prosseguir com a nacionalização das refinarias de petróleo: os militares o derrubaram. No dia seguinte ao golpe, os Estados Unidos reconheceram o regime militar. Pouco depois, o Banco Mundial e o FMI retomaram a política de empréstimos suspensa. Por sua parte, o regime militar aboliu as medidas econômicas criticados pelos EUA e pelo FMI. Ressalta-se que as instituições financeiras internacionais consideraram que o regime militar estava tomando medidas econômicas sanas (sound economic measures) |3|, embora o PIB tenha caído 7% em 1965 e milhares de empresas foram à falência. O regime organizou uma forte repressão, as greves proibidas, causou um acentuado declínio nos salários reais, aboliu as eleições diretas, ordenou a dissolução dos sindicatos e regularmente recorreram à tortura.

Gráfico 1. Brasil: desembolsos do Banco Mundial

Fonte: Banco Mundial, CD-Rom GDF. 2001

Desde a sua primeira viagem, feita em maio de 1968, Robert McNamara mudou-se regularmente ao Brasil, onde continuou a se reunir com o governo militar. Os relatórios públicos do Banco de forma consistente elogiam a política de ditadura que diz respeito à redução da desigualdade |4|. No entanto, em discussões privadas poderiam se tornar amargo. Quando o vice-diretor do Departamento de Projetos, Bernard Chadenet afirmou que a imagem do Banco seria degradada como resultado do apoio oferecido ao regime repressivo brasileiro, Robert McNamara admitiu que houve uma muito forte ("uma quantidade enorme de repressão') repressão. Mas ele acrescentou: "Não é necessariamente muito diferente do que acontece em governos anteriores e isso não parece muito pior do que em outros países membros do Banco. É que o Brasil é pior do que a Tailândia? » |5|. Poucos dias depois, McNarama insistiu: "Não parece haverr uma possibilidade de alternativa viável para o governo dos generais" |6|. O Banco Mundial realmente entendeu que as desigualdades não diminuíram e que os seus empréstimos à agricultura reforçou os grandes proprietários de terras. De qualquer forma decidi continuar pagando, porque era absolutamente o que eu queria manter a influência sobre o governo. No entanto, a este nível, teve uma falha de patente: o goveerno militar mostrou uma profunda desconfiança em relação à vontade do Banco de aumentar sua presença. Finalmente, no final dos anos 70, aproveitaram a profusão de empréstimos concedidos por bancos privados internacionais com uma menor taxa de juros do que o Banco Mundial. Finalmente, no final dos anos 70 beneficiaram-se de uma profusão de empréstimos de bancos privados internacionais a taxas de juros abaixo das do Banco Mundial e tomaram alguma distância do Banco Mundial que lhes era menos útil.

A política de empréstimos do Banco Mundial está influenciada por considerações políticas e geoestratégicas
Artigo IV, Seção 10 estipula: "O Banco e seus administradores não devem interferir nos assuntos políticos de qualquer membro e eles são proibidos de serem influenciados em suas decisões pelo caráter político do membro ou membros em questão. Somente as considerações econômicas deverão ser relevantes para as suas decisões, as quais devem ser consideradas, sem preconceito, a fim de atingir os objetivos [definidos pelo Banco], conforme previsto no artigoI."

Apesar disso, a interdição de ter em conta considerações "políticas" e " não-econômicas" em operações do Banco, um dos requisitos mais importantes de seus estatutos, é sistematicamente desrespeitado. E isso, desde o início de sua existência. O Banco se recusou a emprestar para a França depois da libertação, enquanto os comunistas tinham em seu governo (poucos dias depois da saída destes do governo em maio de 1947, o empréstimo bloqueado  foi acordado).

O Banco atua repetidamente violando o artigo IV da sua constituição. Na verdade, faz regularmente decisões com base em considerações políticas. A qualidade das políticas econômicas seguidas não é o fator determinante em suas decisões. O Banco empresta dinheiro, muitas vezes as autoridades de um país, apesar da má qualidade da política econômica e um alto nível de corrupção: Indonésia e Zaire são dois casos paradigmáticos. Precisamente, as opções do Banco relacionadas com países constituem um fator político importante, na opinião de seus maiores acionistas, estão geralmente relacionadas aos interesses e orientação destes, começando com os Estados Unidos.

As decisões do Banco e seu gêmeo, o FMI, de 1947 até o colapso do bloco soviético |7|, tenha sido determinado, principalmente, pelos seguintes critérios :

- Evitar que se mantenham governos autocentrados;

- Financeiramente apoiar grandes projetos (Banco Mundial) ou políticas para aumentar as exportações dos principais países industrializados (FMI);

- Negar ajuda a regimes considerados uma ameaça pelo governo dos EUA e de outras partes interessadas;

- Tente mudar as políticas de certos governos chamados países socialistas, a fim de enfraquecer a coesão do bloco soviético. Com esse objetivo deu apoio financeiro para a Iugoslávia, que havia se retirado do bloco de Moscou em 1948, e da Romênia, a partir dos anos 70, quando Ceausescu expressava suas chances se restringir a Comecon e o Pacto de Varsóvia :

- Apoiar aliados estratégicos do bloco capitalista ocidental, os EUA em particular (por exemplo, na Indonésia, de 1965 até o presente, Zaire de Mobutu 1965-1997, nas Filipinas sob Marcos, a ditadura no Brasil desde 1964, a de Somoza na Nicarágua, o apartheid na África do Sul);

- Tente evitar ou limitar, na medida do possível, uma abordagem dos governos dos países em desenvolvimento para o bloco soviético ou da China: por exemplo, tentar Índia e Indonésia de Sukarno  para ficar longe da URSS;

- Tentar, desde os anos  1980, integrar a China no jogo de alianças dos EUA.

Para seguir esta política, o Banco Mundial e o FMI aplicam uma tática generalizada: eles são mais flexíveis com um governo de direita (menos exigente em termos de medidas de austeridade antipopular) se este enfrenta uma forte oposição do que um governo de esquerda com um a forte oposição de direita. Especificamente, isso significa que essas instituições irão tornar a vida difícil para um governo de esquerda acossado por uma oposição de direita, para enfraquecer e promover o acesso da direita ao poder. Seguindo a mesma lógica, será menos exigente com um governo de direita assolado por uma oposição de esquerda para impedir o acesso desta ao poder. A ortodoxia monetária é de geometria variável: as variações dependem de fatores políticos e geoestratégicos .

O FMI e o Banco Mundial e outras potências capitalistas não hesitam em apoiar uma ditadura quando bem entenderem. Os autores do Relatório de Desenvolvimento Humano mundial pelo PNUD (edição de 1994) diz claramente: "Na verdade, a ajuda prestada pelos Estados Unidos durante a década de 80 é inversamente proporcional ao respeito pelos direitos humanos. Os doadores multilaterais parecem não estar preocupados com tais considerações. Eles parecem realmente a preferir regimes autoritários, porque consideravam sem pestanejar que estes favorecem a estabilidade política e são mais capazes de gerir a economia. Quando Bangladesh e as Filipinas terminaram a lei marcial, sua participação no total de empréstimos do Banco Mundial diminuiu" | 8 | .

Notas

|1| Eric Toussaint, “Enjeux politiques de l’action de la Banque mondiale et du Fonds monétaire international envers le tiers-monde”, tesis doctoral en ciencias políticas presentada en 2004 en las universidades de Liège y París VIII, http://cadtm.org/Enjeux-politiques-... parte de la tesis está incluida en el libro de Eric Toussaint, Banco Mundial: el golpe de Estado permanente. La agenda escondida del Consenso de Washington, Syllepse-CADTM, 2006, capítulo 6.
|2| Se encuentra un análisis de los hechos resumidos aquí en: Payer, Cheryl. 1974. The Debt Trap: The International Monetary Fund and the Third World, Monthly Review Press, New York and London, p. 143-165.
|3| En 1965, Brasil firmó un acuerdo con el FMI, recibió nuevos créditos y vio su deuda exterior reestructurada por Estados Unidos, varios países acreedores de Europa y Japón. Tras el golpe militar, los préstamos pasaron de cero a una media de 73 millones de sólares anuales para el resto de los años 60 y llegaron a casi 500 millones de dólares anuales a mediados de los años 70.
|4| Detalles en Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 1, p. 274-282.
|5| World Bank, “Notes on Brazil Country Program Review, December 2, 1971” en Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 1, p. 276.
|6| Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 1, p. 276.
|7| Esto coincide con el período de la Guerra Fría.
|8| PNUD, 1994, p.81
Eric Toussaint, mestre de conferências da Universidade de Liège, preside o CADTM Bélgica e é membro do conselho científico da ATTAC France. É autor, dos livros Procès d’un homme exemplaire. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui , Le Cerisier, Mons, 2010.

RICHARD SENNET: “O SISTEMA NÃO TEM MUDADO, HAVERÁ OUTRO COLAPSO ECONÔMICO DENTRO DE TRÊS OU QUATRO ANOS”

O sociólogo Richard Sennett (Chicago, 1943) reúne méritos profissionais suficientes para ser um dos vencedores na última sexta-feira do prêmio "Príncipe das Astúrias" no teatro Campoamor, em Oviedo. No entanto, desta vez, foi no papel de acompanhar sua esposa, também socióloga, Saskia Sassen, vencedor das Ciências Sociais. Eles dividem o seu tempo entre os Estados Unidos ea Grã-Bretanha. Sennett é professor emérito de sociologia na London School of Economics e também leciona na Universidade de Nova York.
Richard Sennett, a la entrada del teatro Campoamor de Oviedo. | nacho orejas
Autor de livros como " A Corrosão do Caráter" e "O Artesão", é um analista da forma como a economia e o trabalho configuram as pessoas e as relações sociais. Trabalha a partir da perspectiva de uma corrente puramente anglo -saxônica como é o pragmatismo, "a busca pelos problemas filosóficos insertos na vida cotidiana", segundo sua própria definição. Este observador nada complacente no mundo que nos condenou o  capitalismo financeiro alerta para a possibilidade de uma nova crise com a percepção de que a atual não foi capaz de superar os males que minam o sistema. Com uma contenção verbal contrasta com a dureza de seu diagnóstico e previsões, Richard Sennett está preocupado com o desemprego dos jovens, que, em sua opinião, deve ser uma prioridade na agenda política, no entanto, tem tornado-se uma questão secundária, enquanto os fundos públicos para a criação de postos de trabalho são usados para o resgate dos bancos.
-Você que explora como o trabalho nos molda como pessoas, há alguma maneira de desassociar o que somos do que fazemos  para evitar, por exemplo, que a perda de emprego nos deixe sem discurso vital?

Eu sou um protestante e acho que isso é verdade. Essa crise é agora para os jovens. Se não encontramos uma maneira de proporcioná-los empregos, então faltará algo, terão uma carência psicológica e isso é algo que não se pode reparar facilmente. Quando um país tem 50% de desemprego entre os jovens, tem uma geração danificada. Mas isso não é algo que pareça preocupar muito aos políticos. Eles estão preocupados, mas não o suficiente, como se não fosse um evento crítico contra o qual temos de reagir, parece quase normal, como se fosse simplesmente uma consequência da situação econômica e do mercado. De minha perspectiva como um estudante do mundo do trabalho, o desemprego dos jovens é muito mais importante do que pagar as dívidas do Goldman Sachs. Estou muito frustrado com essa situação, que o desemprego é considerado como um resultado de uma outra coisa que se há de resolver antes. Não é assim.
-Você pertence ao grupo daqueles que acreditam que esta catástrofe econômica era previsível ou ao dos surpresos com a quebra do sistema? 

Eu acho que se podia ter previsto isso. A ganância cegou pessoas. Meu grupo de pesquisa publicou algo sobre isso em 2005. Acho que as pessoas não querem ver a realidade.
-Há cinco anos, quando ocorre o colapso, inclusive pessoas nada radicais consideraram necessário mudar as bases do sistema. No entanto, agora parece ter o neoliberalismo saído reforçado. 

Efetivamente isso é verdade, mas eu não diria que o neoliberalismo seja mais forte do que nunca. As condições que levaram ao colapso estão se reinstalando, restabelecendo-se novamente. Tivemos um reforço do antigo regime, mas estão se reconstruindo suas fraquezas. Persiste a financeirização do risco de maneira altamente volátil, que foi o que dominou a economia desde o início de 2000. Não gosto de usar a palavra crise, quando eu falo disso porque uma crise assume que algo quebra ou para de funcionar e se corrige. Eu acho que o fato de que o neoliberalismo se veja  reforçado indica que haverá um outro colapso econômico dentro de três ou quatro anos. Estou muito pessimista.
-Embora não goste do termo, mas para entendermos, esta é uma crise que vai além até mesmo aqueles que deveriam considerá-la uma oportunidade de mudar as coisas. Você está sentindo falta de uma crítica mais radical da esquerda, por exemplo?

É surpreendente que a esquerda tenha sido tão passiva. No Reino Unido, por exemplo, o Partido Trabalhista tentou distanciar-se de qualquer desafio ou desafio radical ao capitalismo financeiro. O mesmo acontece na Alemanha, apesar de serem os dois mais fortes partidos de esquerda e os menos corruptos,  não como o francês ou os italianos. O que eu acho que vai acontecer é que vai haver uma nova crise e uma geração de jovens com pouca esperança para o futuro. Algo decisivo acontece dentro de três ou quatro anos, quando essas duas forças se encontram. A segunda vez que ocorre a crise se verá que existe  um mal sistêmico e que requer intervenção radical, se não queremos que as pessoas tenham diminuído muito a vida por um longo tempo. Entristece-me que a esquerda não esteja muito mais envolvida com a crise, mas eu acho que estará no futuro. Para fazer essa confluência de um novo colapso financeiro com o mal-estar dos jovens, que com vinte ou trinta anos saberão que não pode continuar. Essa é a minha opinião pessoal.
-Como enfrentar um mundo em que tudo se tornou mais incerto?

Talvez a Europa seja uma economia muito menor. Haverá uma reconfiguração e as pessoas vão começar a pensar mais como  fazem na Áustria ou na Suécia, isto é, não ser um centro financeiro global, mas algo mais local e regional. Mas é muito difícil de prever. Eu sei que se pode fazer coisas para gerar empregos para os jovens e não estamos a fazê-los. Nos estamos nos concentrando tanto nos problemas financeiros que não existem programas públicos cujo objetivo principal seja a criação de empregos. Tem-se salvo  os grandes bancos, esse tem  sido o foco principal à data. Mas isso é uma decisão ideológica, uma falha ideológica que tem sido considerada como uma criação de emprego secundário. Meu ponto de vista é o contrário: você gasta todo o dinheiro disponível para promover o trabalho, mas depois não há violação das dívidas nacionais. Então, eu estou entre aqueles que argumentam que eles deveriam ter deixado a Grécia  cumprir as suas obrigações de pagamento. Essa é uma opinião muito impopular.
-Que futuro tem um sistema que valoriza tão pouco o trabalho bem feito e a experiência? 
  
O bom trabalho tem futuro. Mas o problema é criar empregos. Por exemplo, os holandeses têm um programa para compartilhar postos de trabalho, um trabalho para duas ou três pessoas a tempo parcial cujos rendimentos são complementadas por benefícios estatais. Colocar o trabalho como prioridade é muito caro, mas evita toda uma geração desesperada. Em Espanha, Grécia ou mesmo na Itália, o trabalho não tem essa prioridade. Há algo fundamental para os seres humanos e eles estão satisfeitos se eles trabalham e fazê-lo bem. As pessoas querem empregos, toda a pesquisa que fiz sugere que o assunto, não quero ser vaga, ou ficar entediado ou ser medíocre. O trabalho faz as pessoas se sentirem bem consigo mesmas.
Entrevista de Andrés Montes, publicado en lne.es

As causas do enorme desemprego na União Europeia

Este artigo analisa algumas das causas mais importantes do enorme desemprego e baixo nível de emprego na UE. Publicado no diário digital Nova Tribuna.

Vicenç Navarro

Um dos fatos que está a ocorrer na União Europeia é (além do muito preocupante elevado desemprego) a queda do emprego, isto é, do número e percentagem de pessoas que trabalham. Este problema atinge a sua máxima expressão nos países chamados periféricos da eurozona, tais como Espanha, Portugal, Irlanda, e Grécia, mas não se limita a eles. Na maioria de países da eurozona, o sistema econômico não produz suficientes postos de trabalho. E esta é a principal causa de existirem nada menos que 27 milhões de desempregados na União Europeia em 2013.

Especial menção deveria ser feita à ajuda à banca, que tem tido um efeito muito negativo para a criação de emprego. Esta ajuda teria que ter servido para oferecer crédito às pequenas e médias empresas e às famílias. Mas não serviu para esse fim, e sim para aumentar os benefícios da banca, benefícios que conseguiram à base de comprar dívida pública que lhes pagou juros elevadíssimos (que subtraíram aos Estados fundos para criar emprego) e também de fazer investimentos financeiros em fusões de grandes empresas (que têm como consequência a destruição de emprego) e outras atividades especulativas, que reduzem, em vez de aumentar postos de trabalho. Na verdade, há uma relação direta entre o tamanho do setor financeiro, a atividade especulativa na economia e a limitada criação de postos de trabalho (ver Frank Roels “What Hope Is There For The 27 Million Unemployed in Europe?”, em Social Europe Journal, 27.03.14).O maior problema, no entanto, é que este elevado desemprego e a falta de criação de emprego são, em grande parte, resultado direto das intervenções promovidas pelo Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, conjunto conhecido como a Troika. As políticas de austeridade, com cortes da despesa e do emprego públicos, a desregulamentação do mercado orientada para reduzir os salários, e a ajuda destas instituições ao capital financeiro, que quer dizer predominantemente à banca, têm cumprido um papel-chave na redução do nível de vida das classes populares. Limitou a sua capacidade aquisitiva, diminuindo a procura e reduzindo a atividade econômica e a produção de emprego, além de aumentar a pobreza e a miséria.

Foto de Ana Rey
Há uma relação direta entre o tamanho do sector financeiro, a atividade especulativa na economia e a limitada criação de postos de trabalho. Foto de Ana Rey
Frente a esta situação, a proposta avançada sobretudo por economistas liberais de que a principal necessidade neste momento é a de investir em educação e formação é dramaticamente insuficiente. Numa das suas apresentações semanais na Catalunya Ràdio, no programa de Mònica Terribas, o “economista da casa”, como o chama TV3, o Sr. Sala i Martín, sublinhava que a solução era uma nova educação na qual se desse ênfase à cultura empreendedora entre a juventude. Independentemente da necessidade de promover este tipo de cultura, o fato é que, seja qual for a cultura, o seu impacto será muito menor na criação de emprego, pois esta postura assume que o desemprego se deve à falta de adaptação da pessoa aos supostamente abundantes postos de trabalho. E isso não é assim. Na realidade, na União Europeia há só dois milhões de postos de trabalho que estão vagos, o que representa uma cifra mínima do número de postos de trabalho que seriam necessários para que deixasse de haver desemprego (27 milhões).
O comportamento ilegal da Comissão Europeia e do BCE
Isso não implica que não se deva fazer uma reforma profunda no sistema educativo, ainda que não acho que o ponto central deva ser a necessidade de estimular o que se chama a atividade empreendedora, que quer dizer, regra geral, empresarial. A função da educação deveria ser, não criar empresários, mas sim cidadãos. O que a Comissão deveria fazer, como a Confederação Europeia de Sindicatos tem defendido, era investir em massa para criar emprego em áreas importantes, que vão desde a infraestrutura humana à física, cultural e ambiental, com uma grande expansão dos investimentos no cuidado e atenção às pessoas e à população. Mas isso não vai acontecer a não ser que haja uma mudança política muito significativa no sistema de governo da UE e da eurozona.


Em defesa dos sindicatos  

Hoje, o governo da UE e da eurozona estão dominados por instrumentos políticos próximos, sobretudo, ao capital financeiro. Daí o protagonismo do BCE, que, como lóbi da banca, interviu em áreas que não são certamente da sua competência, promovendo as políticas de austeridade. Por fim, o Parlamento Europeu (PE) questionou e denunciou o BCE por intervir em áreas alheias à sua função. Mas, mais importante ainda, é o relatório Andreas Fischer-Lescano, professor de Direito e Políticas Europeias da Universidade de Bremen (relatório que foi contratado pela Confederação Europeia de Sindicatos), no qual detalha como a Comissão Europeia e o BCE violaram sistematicamente a legislação vigente na União Europeia, incluindo a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, um texto legal que se deve respeitar – e que não é respeitado pela Comissão Europeia e pelo BCE. O que está a ocorrer com a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia é o mesmo que ocorre com a Constituição Espanhola, que é constantemente usada para impor sacrifícios em defesa da propriedade, esquecendo outros dispositivos que, supostamente, garantem direitos sociais e laborais, e que não passam de letra morta.
Uma última observação. Existe hoje na União Europeia uma mobilização antissindical patrocinada e promovida pela banca e o grande patronato em cada país da UE e a nível do establishmenteuropeu (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Conselho Europeu), altamente influenciada pelo capital financeiro. Esta avalanche atinge a sua máxima expressão nos países chamados “periféricos”, tais como Espanha, Grécia e Portugal, onde o ataque antissindical é massivo. Hoje estamos a assistir a uma demonização dos sindicatos, que são apresentados como responsáveis por toda uma série de estragos, incluído o elevado desemprego. Argumenta-se que a sua defesa dos contratos fixos está a dificultar a contratação de novos trabalhadores, seguindo as teorias insiders versus outsiders que critiquei extensamente nos meus trabalhos, mostrando a falta de provas científicas que as apoiem. Mas ultimamente esta demonização incluiu uma campanha de desprestígio, tentando mostrar os sindicatos de classe como corruptos, resultado de avaliações altamente politizadas que têm como objetivo destruí-los. E os meios de comunicação, na sua grande maioria de orientação conservadora e neoliberal (altamente dependentes da banca para o seu financiamento), cumprem um papel-chave nesta promoção, ignorando que, em termos comparativos, os dados mostram que os sindicatos de classe são muito menos corruptos que o grande patronato, os partidos políticos, a banca ou as grandes famílias e/ou fortunas.


Esta campanha chega ao nível de ataques pessoais como, por exemplo, contra Cándido Méndez, o secretário-geral da UGT (uma das vozes mais combativas e contundentes no mundo sindical), ataques que atingiram níveis muito baixos e aos quais sectores de algumas esquerdas sectárias juntaram a sua voz. A causa real deste ataque feroz contra os sindicatos foi e continua a ser a sua defesa dos trabalhadores e o seu excelente trabalho em defesa do Estado do Bem-Estar de todos os espanhóis. O grande capital, com a ajuda dos média, é consciente de que, para conseguir o que deseja, precisa enfraquecer e mesmo destruir o movimento sindical. E estão a tentar fazê-lo com a ajuda de grande parte dos média, financiados por empréstimos da banca. Tão claro quanto isto.


Tradução de Luís Leiria para o Esquerda.net

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Greve Geral na Argentina

Greve geral de 24 horas parou Buenos Aires. A convocação foi de três centrais sindicais e teve elevada adesão nos serviços públicos.

Uma greve geral de 24 horas convocada por três centrais sindicais, de setores de oposição de esquerda do sindicalismo argentino, paralisou totalmente os serviços de transporte público - comboios, autocarros e metro - e a recolha do lixo desde as zero horas desta quinta-feira (10/04) nas principais cidades argentinas. O protesto foi convocado contra "o ajustamento, a inflação, a insegurança". É a segunda greve geral em cinco anos do governo de Cristina Kirchner.
Os trabalhadores nucleados nas centrais opositoras CGT (Confederação Geral do Trabalho) – Azopardo, CGT - Azul e Branca e CTA (Central de Trabalhadores da Argentina) Nacional cruzaram os braços, mas não convocaram manifestações. No entanto, sindicatos ligados à oposição de esquerda mobilizaram para o corte de ruas e estradas em Buenos Aires e noutros pontos do país.
A greve acontece no momento em que estão a ser negociados acordos salariais coletivos, supervisionados pelo Ministério de Trabalho. As centrais sindicais acusam o governo de estabelecer um teto aos acordos.
A primeira negociação, feita com professores da província de Buenos Aires - governada pelo kirchnerista Daniel Scioli –, terminou com um acordo de aumento médio de 30%, com variações de até 38% para alguns cargos, depois de 17 dias de greve. As negociações dos docentes costumam marcar tendência nas negociações coletivas, que começam em março na Argentina.
Clima de domingo
Em dia de greve geral, transportes públicos param em Buenos Aires. O serviço foi interrompido em todas as linhas de metro – Foto de Aline Gatto Boueri/Opera Mundi
Em dia de greve geral, transportes públicos param em Buenos Aires. O serviço foi interrompido em todas as linhas de metro – Foto de Aline Gatto Boueri/Opera Mundi
Em Buenos Aires, muitas lojas de comércio optaram por fechar as portas, apesar dos patrões do setor não terem aderido à greve.
A paralisação dos trabalhadores de transportes públicos e de caminhões, agrupados na CGT – Azopardo, do líder camionista Hugo Moyano, afetou a distribuição de combustíveis, a recolha de lixo e o transporte de valores para agências bancárias. No entanto, os bancos estiveram abertos, ainda que com pouco movimento. Moyano, que foi aliado dos governos de Néstor e Cristina Kirchner, rompeu com o kirchnerismo em 2011.
Na última terça-feira (08/04) a presidente afirmou que “todos têm direito à greve” durante um ato do governo transmitido em cadeia nacional por rádio e televisão. Na manhã desta quinta-feira, o chefe de gabinete da presidência, Jorge Capitanich, acusou as centrais sindicais em greve de querer “sitiar as cidades como na Idade Média” e criticou a paralisação nos transportes.
Já os sindicalistas afirmam que o transporte público não é serviço essencial e se amparam em tratados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) para defender o direitos à greve aos trabalhadores do setor.
Notícia elaborada com base no artigo de Aline Gatto Boueri, publicado em Opera Mundi

Que está a ocorrer no leste da Ucrânia?

Manifestantes pró-russos tomaram edifícios do governo em Donetsk, Kharkov e Lugansk, as principais cidades do leste da Ucrânia. Que pedem os manifestantes? Poderá acontecer algo semelhante ao que ocorreu na Crimeia? O que está a ocorrer é só um conflito entre a Rússia e o Ocidente? Por Alberto Sicília em Donetsk, publicado no blogue Principia Marsupia

Desde o domingo passado, manifestantes pró-russos tomaram edifícios do governo em Donetsk, Kharkov e Lugansk, as principais cidades do leste da Ucrânia.
A polícia de Kiev conseguiu desalojar os manifestantes de Kharkov, mas em Donetsk os manifestantes proclamaram uma “república independente” e em Lugansk continuam a controlar a sede da Agência de Segurança Ucraniana.
Que pedem os manifestantes?
Um referendo para decidir o futuro da região.
Os manifestantes não detalharam o que seria votado exatamente mas, segundo o que escutamos por aqui, estas poderiam ser alguma das opções:
1) Federalização da Ucrânia para que cada região eleja o seu governo. Até agora Kiev elege os governadores das regiões.
2) Independência do leste da Ucrânia.
3) Anexação à Rússia.
Poderá acontecer algo semelhante ao que ocorreu na Crimeia?
Parece difícil, pois há importantes diferenças entre a Crimeia e o leste da Ucrânia:
1) O referendo da Crimeia realizou-se quando a península já estava sob controle militar russo. É difícil imaginar Putin a dar a ordem de “meter tanques no continente”.
2) Na Crimeia a maioria da população era de origem russa. No leste da Ucrânia a população está bem mais dividida entre russos e ucranianos. Reparem por exemplo os dados da imagem sobre o último censo na Região de Kharkov. O russo é a primeira língua nas cidades, mas nas zonas rurais utiliza-se mais o ucraniano.

3) A Crimeia tinha um importante estatuto estratégico e simbólico, mas era pouco relevante em termos econômicos. O leste da Ucrânia é, pelo contrário, o coração industrial e financeiro do país. Na Crimeia, Kiev sabia que não podia enfrentar militarmente a Rússia, mas no leste joga-se a própria existência do país.
Se não há anexação “estilo Crimeia”, então, o que vai acontecer?
Na minha opinião, o mais provável agora é que a Rússia e os EUA negoceiem um acordo sobre a Ucrânia. Esse acordo poderá declarar a federalização da Ucrânia, de maneira que a Rússia tenha - através dos governadores regionais- o “controle efetivo” sobre o sul e o leste e o Ocidente tenha o controle sobre Kiev e as regiões do oeste.
O que está a ocorrer é só um conflito entre a Rússia e o Ocidente?
Em parte é um conflito Rússia - Ocidente, mas junta-se também a outros dois conflitos:
1) Um conflito civil entre cidadãos que se consideram russos e cidadãos que se consideram ucranianos.
2) Um conflito entre oligarcas pelo controle do país. Por exemplo, aqui em Donetsk, Rinat Ajmetov controla tudo: as indústrias, o futebol e a polícia. Se os edifícios continuam ocupados é porque a Ajmetov interessa fazer braço de ferro com Kiev pelo controle da região. A Ajmetov, como bom oligarca, não lhe importa ser pró-Rússia, pró-Europa ou pró-Teruel. O que quer é manter o seu poder em Donetsk.
Artigo de Alberto Sicília em Donetsk, publicado no blogue Principia Marsupia.Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

O Sistema de Dívida e a importância da ferramenta da Auditoria Cidadã

Em 2 de Abril a auditora Fattorelli Maria Lúcia, que participou da auditoria da dívida que fez o Equador em 2007, esteve em Bilbao na conferência "O sistema da dívida e a  auditoria cidadã", organizada pelo sindicato ELA. "O  poder financeiro usa a dívida para saquear recursos públicos. É um ataque aos direitos humanos."


Quando se fala sobre a dívida sempre se supõe que, se há dívida houve uma transferência de recursos, mas nem sempre é assim. Isso é o que busca a auditoria da dívida, ver se realmente por trás de cada dívida tem sou não uma transferência de recursos. Além de tentar compreender a realidade que está por trás das dívidas, a auditoria visa mobilizar os cidadãos, como somos nós os que pagam essas dívidas através de ajustes e cortes, sem receber nada em troca. Portanto, o objetivo da auditoria e geração de conhecimento, buscamos justiça.

O Poder Financeiro


O modelo capitalista Financiado que foi se pôs em marcha, com o fim de paridade dólar-ouro (1971) utilizam um mecanismo antigo para assumir os nossos recursos: dívidas. Ele começou a produzir moeda do nada e oferecer empréstimos baratos para os estados por meio de bancos:  a dívida década aumentou sete vezes.

O imenso poder que isto dá às corporações financeiras se torna claro com um estudo acadêmico (S.Vitali, JB Glattfelder e S. Battiston (2011) A rede global de controle societário), demonstrando que o controle das 43 mil maiores empresas do mundo está nas mãos de 50 grandes empresas financeiras. Além disso, o Departamento de Contabilidade do Governo dos EUA revelou que o Banco Central dos Estados Unidos - FED, Federal Reserve Bank - secretamente deu 16 bilhões de dólares para esses bancos e corporações. Precisamente, essas empresas têm mais subsidiárias em paraísos fiscais.

Claramente, o poder financeiro que controla negociações recebe apoio público massivo, e mantém seus lucros em paraísos fiscais. É esse poder que criou a crise da dívida em seu benefício e em nosso prejuízo.

Fatores que reforçam o poder do setor financeiro e do uso do sistema de dívida

- Criação da Reserva Federal - Fed
-Desregulamentação  Financeira e Crise
- Fim da paridade dólar - ouro
- Instituições Financeiras Internacionais
- Agências qualificadoras de risco
- Criação do Euro e do papel do Banco Central Europeu

O sistema da dívida tem usado a dívida pública  apenas na direção oposta do que deveria, ou seja, tem sido usado para remover recursos públicos ao invés de dar. Isso garantiu a dominação global do sistema financeiro.

Como opera o "sistema da dívida"

- Modelo Econômico e tributário: orientado para a obediência de ajustes fiscais e orçamentais, anti- reformas, controla a inflação, acordos financeiros, entre outras medidas impostas pelas organizações internacionais
- Regras Legais: mudança das leis que garantem poderes para o setor financeiro; prioridade ao pagamento da dívida
- Poder Político: Tecnocracia assume o poder político, financia campanhas eleitorais e mídia
- Corrupção: Usado para desviar o conhecimento do domínio financeiro. Aprovação de mecanismos viáveis ​​anti-sociais
- Mídia Maior: A omissão ou desinformação

Então você começa a dominação financeira tem graves consequências sociais

Essas fases se repetem em todos os estados onde há crise da dívida:

1. Crise financeira causada por grandes bancos privados internacionais
2. Vinculação da Banca Privada com o FMI
3. Declaração do FMI em questões de economia doméstica nacional
4. Negociações que garantiram a transferência de recursos públicos para os mesmos bancos privados que causaram a crise
5. Transformação de dívidas privadas em dívidas públicas
6. Esquemas de contabilidade "criativa" usadas pelos bancos privados "credores"
7. Geração dívidas ilegais e ilegítimas; papéis sem respaldo
8. Reciclagem de papéis, transformando-os em novas dívidas ou outros ativos reais através da privatização
9. Custos sociais profundos e danos
10. Ausencia de transparência e acesso a documentos que revelam a verdade sobre as negociações

A única maneira de parar isso é que as pessoas que sofrem se mobilizem para mudar isso. Para isso serve a auditoria cidadã. Por um lado para conscientizar as pessoas sobre o que está acontecendo com dados, tornar as pessoas conscientes do que acontece, e outra com o documento que revela o que está escondido, para aumentar a mobilização. A auditoria quer descobrir quem se beneficiou com as dívidas, para que foram usadas​​, que acordos foram assinados... é um documento técnico, sim, mas também busca a participação dos cidadãos, uma vez que são as pessoas que pode mudar isso através da mobilização.

Conclusões

- O instrumento de dívida pública tem sido utilizado pelo setor financeiro como um meio de pilhagem dos recursos públicos.
- A gestão e as políticas dos Estados foram guiados por interesses privados.
- Nações submissas aos "mercados"
- Desenvolvimento socioeconômico travado.
- Dívida Sistema campo de jogo nos Estados Unidos, bem como nível nacional e internacional.
- Consequências: Sacrifício Social, exclusão,Pobreza e Violência
Esta é uma clara afronta aos direitos humanos e deve ser interrompida com a seguinte estratégia:
- Conhecimento da realidade financeira.
- A mobilização social consciente
- Ações específicas: participação social efetiva em processos de auditoria pública, democratização do conhecimento da realidade financeira (núcleos), revisão das políticas monetária e fiscal para garantir a distribuição de renda e justiça social, rever a arquitetura financeira global, tirar uma foto humano, a transparência e o acesso à verdade

As experiências de auditoria da dívida deve servir para inspirar outras iniciativas e tempo de corte para as lutas sociais contra a escravidão econômica imposta pelo sistema da dívida .

Adelante !

ONU: Urbanização oferece oportunidades para desenvolvimento verde

Apesar de consumirem 75% dos recursos mundiais e emitirem 75% dos gases do efeito estufa produzidos pelo ser humano, cidades concentram as maiores possibilidades para um futuro mais sustentável e eficiente, diz relatório.

Autor: Jéssica Lipinski   -   Instituto CarbonoBrasil


Atualmente, os centros urbanos ocupam apenas 2% de toda a área terrestre do planeta, mas concentram mais da metade de toda a população mundial. Isso gera o desafio cada vez maior de garantir padrões e qualidade de vida decentes para seus habitantes, apesar da crescente pressão sobre os recursos naturais e ecossistemas.


Para se ter uma ideia, as cidades consomem 75% dos recursos mundiais e emitem 75% dos gases do efeito estufa produzidos pelo ser humano. Assim, pode parecer impossível equilibrar tal consumo e produção com o uso sustentável dos recursos naturais, mas um novo documento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Aliança das Cidades mostra que é possível chegar lá.

O relatório, lançado no Fórum Urbano Mundial 2014, sugere que o atual ritmo rápido de urbanização representa uma oportunidade para criar cidades mais sustentáveis, inovadoras e equitativas, que usem os recursos naturais de forma mais eficiente.

O texto apresenta estratégias para introduzir medidas que possam estimular um crescimento econômico inclusivo e reduzir a pobreza, além de garantir níveis sustentáveis de consumo e produção. Essas estratégias podem parecer pequenas, mas têm o potencial de gerar ecoeficiência e inclusão social.

Entre elas, estão: aumentar a quantia de lixo sólido reciclado, melhorar a eficiência da geração e distribuição de eletricidade, diminuir a quantidade de água desperdiçada na distribuição hídrica, melhorar a eficiência ou mix de combustíveis do transporte público, introduzir informações que possam reduzir a demanda por serviços intensos em recursos, melhorar o fluxo de água para reduzir riscos de enchentes etc.

Alguns exemplos implantados foram: um aterro sanitário com circuito fechado em Durban (África do Sul); um sistema de ônibus movido a biocombustíveis em Linköping (Suécia); um sistema BRT em Lagos (Nigéria); saneamento ecológico comunitário em Lilongué (Malawi); apartamentos eficientes em energia em Sofia (Bulgária); a reciclagem de resíduos em Curitiba; o plano de ação climática em Portland (EUA), entre outros.

“Está claro que as decisões e ações necessárias para levar a sociedade em direção a padrões mais sustentáveis de consumo e produção precisarão se focar e serem realizadas nas cidades. As cidades estão bem posicionadas para terem um papel importante em dissociar o desenvolvimento econômico do uso de recursos e impactos ambientais, enquanto encontram um equilíbrio melhor entre objetivos sociais, ambientais e econômicos”, observou Achim Steiner, subsecretário-geral da ONU e diretor executivo do PNUMA.

O relatório lembra, entretanto, que uma cidade bem urbanizada e que apresenta boas soluções para problemas ambientais não é necessariamente uma cidade sustentável. Isso porque há uma série de fatores que devem ser considerados além dessas soluções, como consumo de recursos, emissões de GEEs, situação geográfica, densidade, tipo de indústria, fonte de eletricidade e outros, que muitas vezes são esquecidos.

Algumas das cidades mais ricas e superficialmente limpas podem concentrar o consumo de bens cuja produção pode ser em outro local, e que implica na poluição e esgotamento de recursos.

Um exemplo é observar as emissões per capita de diversas cidades pelo mundo; embora São Paulo seja, por exemplo, conhecida por ser uma cidade com um ar relativamente poluído e um trânsito caótico, enquanto Helsinki (Finlândia) é notória por suas soluções urbanísticas e ambientais, a primeira apresenta uma emissões de GEEs per capita de 1,4 tonelada de CO2e, enquanto a segunda tem uma emissão per capita de 7,0 toneladas de CO2e.

Por isso, o texto alerta que é preciso abranger o maior número possível de estratégias ambientais no planejamento e gestão urbana para reduzir o impacto que as cidades têm no meio ambiente e melhorar a qualidade de vida da população das cidades.

“É essencial que governos nacionais criem o espaço para as cidades desempenharem um papel muito maior em transformar padrões insustentáveis de desenvolvimento humano. Como testemunhamos em Medellín, ações locais que engajam e beneficiam comunidades podem ser realmente transformadoras. Contudo, as cidades precisam integrar o meio-ambiente em seu planejamento antes, e não depois da urbanização”, concluiu William Cobbett, diretor da Aliança das Cidades.

Todos vigiados, por Ignacio Ramonet

Em termos de potência financeira, face aos mastodontes das telecomunicações, a imprensa escrita (mesmo com os seus sites web), pesa pouco. Cada vez menos. Mas continua a ser um indispensável fator de alerta e de denúncia. Em particular dos abusos que os novos gigantes das telecomunicações cometem quando espiam as nossas comunicações. Por Ignacio Ramonet

Por Ignacio Ramonet

No filme Her1, que acaba de ganhar o Óscar para o melhor guião original e cuja ação decorre num futuro próximo, o personagem principal, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), adquire um sistema operativo informático que funciona como um assistente global, satisfazendo intuitivamente qualquer necessidade ou pedido do utente. Theodore escolhe-o com voz de mulher e mediante o seu telefone inteligente passa horas a conversar com ela até acabar perdidamente apaixonado.
A metáfora de Her é evidente. Sublinha a nossa crescente dependência em relação ao mundo digital, e a nossa imersão cada vez mais profunda num universo desmaterializado. Mas se citamos aqui este filme não é só pela sua moral mas porque as suas personagens vivem, como acontecerá connosco amanhã, numa atmosfera comunicacional ainda mais hiperconetada. Com alta densidade de phablets2smartphonestablets, videojogos de última geração, telas domésticas gigantes e computadores dialogantes ativados por voz...
O pedido de dados e de vídeos atinge efetivamente níveis astronómicos. Porque os utentes estão cada vez mais ligados às redes sociais. O Facebook, por exemplo, já tem mais de 1.300 milhões de utentes ativos no mundo; o Youtube, cerca de 1.000 milhões; o Twitter, 750 milhões; o WhatsApp, 450 milhões...3 Em todo o planeta, os utentes já não se conformam com um só modo de comunicação mas reclamam o “quádruplo play” ou seja o acesso a Internet, televisão digital, telefone fixo e móvel. E para satisfazer essa insaciável procura, são necessárias ligações (de banda ultralarga de muito alta velocidade) capazes de garantir os enormes volumes de informação, expressos em centenas de megabits por segundo. Mas aí surge o problema. Do ponto de vista técnico, as redes ADSL4 atuais - que nos permitem receber Internet de banda larga nos nossos smartphones, habitações ou escritórios - já estão quase saturadas...


Este contexto tecnológico e comercial explica a recente aquisição, em Espanha, da ONO, a maior operadora local de cabo, pela empresa britânica Vodafone5 por 7.200 milhões de euros. A quarta operadora espanhola, ONO, dispõe de 1,1 milhões de linhas móveis e 1,5 milhões de linhas fixas, mas, sobretudo, o que lhe dá valor é a sua extensa rede de cabo que atinge os 7,2 milhões de casas. 60% do capital da ONO já estava nas mãos de fundos internacionais de capital risco sabedores, pelas razões que acabámos de explicar, de que as empresas gigantes de telecomunicações desejam adquirir, a qualquer preço, as operadoras de cabo.Que fazer? A única solução é passar pelas rotas de cabo, seja coaxial ou de fibra ótica. Esta tecnologia garante uma ótima qualidade na transmissão de dados e de vídeos de banda ultralarga, e quase não tem limites de volume. Esteve em voga nos anos 1980. Mas foi preterida porque requer obras de envergadura de alto custo (há que cavar e enterrar os cabos, e levá-los até junto dos edifícios). Só uns quantos operadores de cabo continuaram a apostar nela pela sua fiabilidade, e construíram com paciência uma densa rede de cabo. A maioria dos demais preferiram a técnica ADSL mais barata (basta instalar uma rede de antenas) mas, como dissemos, já está quase saturada. Por isso, neste momento, o movimento geral das grandes empresas de telecomunicações (e também dos especuladores dos fundos de capital de risco) consiste em procurar a todo o custo a fusão com as operadoras de cabo cujas “velhas” redes de fibra representam, paradoxalmente, o futuro das autoestradas da comunicação.

Por todo o lado, os fundos abutre estão a comprar as operadoras de cabo independentes com o propósito de realizar importantes mais-valias ao revendê-las a algum comprador industrial. Por exemplo, em Espanha, as três operadoras de cabo regionais - Euskaltel, Telecable e R - foram alvo de aquisições especulativas. Em 2011, o fundo de capital de risco norte-americano The Carlyle Group comprou 85% do operador de cabo asturiano Telecable.
Em 2012, o fundo italiano Investindustrial e o norte-americano Trilantic Capital Partners ficaram com 48% do operador basco Euskatel. E no mês passado, o fundo britânico CVC Capital Partners6 adquiriu os 30% que lhe faltava da operadora galega R7, que agora controla na totalidade.
Às vezes as fusões fazem-se em sentido inverso: é a operadora de cabo que adquire uma companhia de telecomunicações. Acaba de acontecer isso em França, onde a principal empresa de cabo, Numericable (5 milhões de empresas ou casas ligadas), está a tratar de comprar, por quase 12.000 milhões de euros, à terceira operadora francesa de telefone, SFR, proprietária de uma rede de fibra ótica de 57.000 km...
Outras vezes são duas operadoras de cabo que decidem unir-se. Está a acontecer nos Estados Unidos, onde as duas principais operadoras de cabo, Comcast e Time Warner Cable (TWC), decidiram juntar-se8. Juntos, estes dois titãs têm mais de 30 milhões de utentes registados que procuram serviços de Internet de banda larga e de telefone móvel e fixo. Ambas as empresas, associadas, controlam além disso um terço da televisão paga. A sua megafusão terá a forma de uma compra da TWC pela Comcast pelo colossal preço de 45.000 milhões de dólares (36.000 milhões de euros). E o resultado será um mastodonte mediático com um montante de negócios estimado em cerca de 87.000 milhões de dólares (67.000 milhões de euros).


Em termos de potência financeira, face aos mastodontes das telecomunicações, a imprensa escrita (mesmo com os seus sites web), pesa pouco. Cada vez menos10. Mas continua a ser um indispensável fator de alerta e de denúncia. Em particular dos abusos que os novos gigantes das telecomunicações cometem quando espiam as nossas comunicações. Graças às revelações de Edward Snowden e de Gleen Greenwald, difundidas pelo diário britânico The Guardian, soubemos que a maioria dos colossos da Internet foram - e continuam a ser - cúmplices da National Security Agency (NSA) para a aplicação do seu programa ilegal de espionagem massiva de comunicações e uso de redes sociais.Soma astronómica, como a dos demais gigantes da Internet, em particular se a comparamos com a de alguns grupos mediáticos de imprensa escrita. Por exemplo, o montante de negócios do grupo Prisa, o primeiro grupo de comunicação espanhol, editor do diário El País e com forte presença na América Latina, é de menos de 3.000 milhões de euros9. A do New York Times é inferior a 2.000 milhões de euros. A do grupoLe Monde não passa de 380 milhões de euros, e a do The Guardian nem sequer atinge os 250 milhões de euros.


Não somos inocentes. Qual escravos voluntários, e ainda sabendo que nos observam, continuamos a dopar-nos com droga digital. Sem nos importarmos que quanto mais cresce a nossa dependência mais entregamos a vigilância das nossas vidas aos novos amos das comunicações. Vamos continuar assim? Podemos consentir que estejamos todos sob controle?

Por Ignacio Ramonet, editorial do Le Monde Diplomatique em espanhol abril de 2014. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
1 Diretor: Spike Jonze, 2013. Título em português: “Uma história de amor”
2 Phablets, segundo wikipedia, é um “termo informal criado para designar dispositivos de telas sensíveis ao toque com mais de 5 e menos de 7 polegadas, que reúnem os recursos de um smartphone aos de um tablet — com a integração opcional de uma caneta stylus”.
3 É interessante notar, neste contexto, a recente compra, pela Facebook, da WhatsApp, "o serviço de mensagens mais popular do mundo" (450 milhões de utentes), pela monumental soma de 19.000 milhões de dólares.
4 ADSL: sigla do inglês Asymmetric Digital Subscriber Line (Linha digital assimétrica de subscritores). É uma tecnologia de acesso à Internet de banda larga.
5 Em 2011, a Vodafone comprou a operadora de cabo britânica Cable&Wireless, e em 2012 adquiriu a principal operadora de cabo alemã Kabel Deutschland.
6 CVC Capital Partners já adquiriu, em 2010, a empresa helvética Sunrise, a segunda operadora de telefone na Suíça, que possui mais de 7.500 km de rede de fibra ótica.
7 R Cable y Telecomunicaciones Galicia S. A. fornece serviços de Internet de banda larga, televisão, telefone móvel e fixo a cerca de um milhão de habitações e empresas em 90 localidades galegas.
8 Este projeto de megafusão ainda não tem o visto da Divisão antitrust do Departamento norte-americano da Justiça.
9 Exatamente de 2.726 milhões de euros. A Prisa registou, em 2013, uma perda líquida de 649 milhões de euros, mais do dobro que em 2012.
10 Leia-se Ignacio Ramonet, La explosión del periodismo, Clave Intelectual, Madrid, 2012.
Ignacio Ramonet
Jornalista. Diretor da edição espanhola do Le Monde Diplomatique. Foi diretor da edição francesa entre 1990 e 2008.

O Passado e o Incerto Presente

Por Passarinho*


Em meio às referências e análises sobre os cinquenta anos que nos separam do golpe de estado de 1964, uma verdade parece insofismável: os setores da burguesia brasileira e docapital internacional envolvidos no processo de deposição de Jango continuam a mandar no país.

Sob o ponto de vista econômico, o golpe representou a vitória dos segmentos que, desde os anos 1950, defendiam que o caminho “desenvolvimentista” do Brasil deveria passar por uma crescente integração do país com capitais e a tecnologia que o mundo capitalista desenvolvido, especialmente os Estados Unidos, poderiam nos transferir. Daí o protagonismo que Washington teve na preparação, articulação e apoio político e financeiro aos golpistas.

Contudo, é importante destacar, o mundo de então – dos anos 1960 – era bastante diferente do atual. A hegemonia do capital financeiro não se exercia da forma, por exemplo, com que passou a ser imposta com as políticas liberalizantes dos anos 1980/1990, particularmente nesta parte do mundo capitalista onde nos encontramos, que é a América Latina.

Sem a devida compreensão desse processo histórico, muitas confusões ou equívocos analíticos podem ser feitos. Um deles, por exemplo, pode ser a apologia ou defesa das iniciativas da ditadura no campo da infraestrutura, com os investimentos realizados – através de empresas estatais – nas áreas de energia, transportes e telecomunicações.

Foram iniciativas importantes, mas absolutamente coerentes com os processos de internacionalização da economia brasileira e de estímulos à concentração e centralização de capitais, fortalecendo grupos oligopolistas e monopolistas privados, os grandes beneficiários da intervenção estatal nos setores mencionados. A realidade atual que vivemos no setor bancário ou na área televisiva, por exemplo, não teria sido possível sem este aporte estatal, que criou ótimas condições infraestruturais para grupos privados, como são os casos atuais do Itaú/Unibanco ou das Organizações Globo, exercerem o domínio que hoje dispõem.

Esses grandes projetos da ditadura foram também viabilizados através de financiamentos externos que, especialmente nos anos 1970, os governos da periferia do capitalismo central foram incentivados a assumirem, estimulados pela abundância de recursos disponíveis no mercado financeiro internacional, com taxas de juros muito atrativas. Ao final daquela década, contudo, o banco central dos Estados Unidos eleva substancialmente a sua taxa básica de juros e o cenário do farto e barato financiamento aos países do terceiro mundo se altera por completo. Os contratos de endividamento anteriores se encarecem – por conta das chamadas taxas de juros flutuantes, reajustadas de acordo com as taxas de remuneração vigentes no “mercado” – e os países endividados entram em crise, por conta do impacto que a dívida externa gera, encarecida pelo custo corrente da conta de juros, escancaradamente elevada.

Esse processo nos levou à chamada crise da dívida externa dos países em desenvolvimento, ao longo de toda a década de 1980. Aqui no Brasil, essa crise acelerou o processo de transição da ditadura, abrindo espaço para a redemocratização - “pelo alto” - do país. Mas, acima de tudo, essa crise representou o fim do processo de desenvolvimento que havíamos experimentado até então. O Estado brasileiro entra em crise e o dito modelo de substituição de importações – que, de uma forma genérica, desde os anos 1950, orientava a condução econômica do país – tem o seu fim.

As crises que vivenciamos ao longo dos anos de 1980 e nos primeiros anos da década de 1990 estão relacionadas a esse desarranjo econômico e à falta de um consenso político entre as classes dominantes sobre como superar esse quadro. A “solução”, curiosamente, somente começa a surgir ao fim do processo de renegociação da dívida externa do país – aliás, patrocinada pelo governo dos Estados Unidos - e à adoção, quase que simultaneamente, do programa de reformas liberalizantes, envolvendo amplo programa de privatizações e mudanças legais, incluindo alterações constitucionais, buscando ampliar as aberturas financeira, comercial e produtiva do país.

Entramos, assim, na era neoliberal, com a adoção de uma nova moeda, atrelada ao dólar, e nos integramos financeiramente aos circuitos internacionais das finanças mundiais, com a remoção de todos os instrumentos e medidas que impediam, anteriormente, a livre movimentação de capitais. Na prática, renunciamos, com essas medidas, à necessária autonomia para definir nossa política macroeconômica, de acordo com as nossas necessidades. 

Câmbio valorizado, como instrumento artificial de combate à inflação e aumento da oferta de bens e serviços importados; e juros reais elevados, como consequência desta política cambial – independentemente dos regimes de “âncora cambial” (1994/1998) ou “câmbio flutuante” (1999 até hoje) – passaram a ser características do modelo que nos empurra a uma condição neocolonial, com a política fiscal ficando subordinada aos constrangimentos orçamentários decorrentes do endividamento interno, produzido pelos efeitos deletérios das políticas cambial e monetária.

Para gerar as divisas necessárias ao financiamento de um modelo que nos expõe de sobremaneira aos humores do mercado internacional de capitais, radicalizamos a opção exportadora de commodities agrícolas e minerais, segmentos em que disporíamos de “vantagens comparativas”, concedendo ao setor do agronegócio inúmeras facilidades e incentivos, transformando o latifúndio produtivo em uma tábua de salvação.

Os principais beneficiários deste modelo são os bancos e as multinacionais, justamente os segmentos que igualmente mais se beneficiaram em 1964, com o golpe de estado, com a ditadura e com o “desenvolvimentismo” sob a batuta dos militares.

Agora, entretanto, ao contrário do período da ditadura, o apoio ao modelo antinacional e antipopular possui grande respaldo. A partir de 2003, os governos presididos por Lula operaram a construção de um poderoso pacto social, procurando conceder vantagens aos mais pobres, ao movimento sindical, aos movimentos sociais e suas pautas específicas de reivindicações. Porém, sempre com o cuidado de não colocar em risco nenhuma das premissas de interesse dos bancos, das multinacionais e do latifúndio produtivo, guindado ao posto estratégico de “estrela maior” de uma economia cada vez mais desnacionalizada. É um pacto social em torno do programa ditado pelo setor financeiro.

O dilema de Dilma Rousseff é que, com o tempo avançando, as fissuras do modelo reaparecem. Com FHC, houve aquele fôlego inicial de 1994/1998, com uma popularidade para o seu governo que lhe permitiu a fraude constitucional da emenda da reeleição e a sua própria vitória eleitoral, já no primeiro turno, tanto em 1994, como também em 1998.

Lula, com o céu de brigadeiro da economia internacional entre os anos de 2003 e 2007, reelegeu-se em 2006, soube segurar o tranco da crise mundial de 2008 e garantiu a eleição de Dilma, em 2010. Entretanto, neste momento, o modelo dos bancos e das multinacionais volta a entrar em crise, com a deterioração das contas externas do país, baixo crescimento econômico, gritante degradação dos serviços públicos e a tensão política do ano eleitoral e da polêmica realização da Copa do Mundono Brasil.


03/04/2014

*Economista, servidor público e apresentador do Programa Faixa Livre