"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 19 de abril de 2014

Psicólogo de Guantanamo sai em defesa dos métodos de tortura

James Mitchell, o psicólogo a quem é atribuída a autoria dos métodos de interrogatório e tortura dos presos de Guantanamo, quebrou um silêncio de sete anos para sair em defesa das técnicas visadas pelo relatório da comissão do Senado.

Em entrevista ao Guardian, Mitchell defende o programa de interogatórios e contesta as conclusões da comissão, que acusa a CIA de ter escondido durante anos as técnicas brutais utilizadas em Guantanamo, mas também a sua inutilidade em produzir informação relevante para os norte-americanos.

O psicólogo reformado da força aérea dos EUA foi apontado como o homem que usou a técnica de afogamento (waterboarding) para interrogar Khalid Sheik Mohammed, considerado o cérebro dos atentados de 11 de setembro de 2001. Mitchell defende que “as pessoas no terreno fizeram o melhor que podiam de acordo com a sua leitura da lei vigente a altura”. Contestando as conclusões do relatório, que cita o seu nome, o psicólogo diz não aceitar que se peça a alguém para arriscar a vida e tomar uma decisão, correndo o risco de dez anos depois ver as suas ações dissecadas pela imprensa.

Para James Mitchell, o programa de interrogatórios em Guantanamo foi um sucesso, independentemente das conclusões do Senado que expuseram a brutalidade do tratamento aos detidos. Respondendo aos que defendem que outros métodos de interrogatório até acabaram por fornecer mais informações úteis, Mitchell diz que trabalhou para muitas organizações que se preocupavam sobretudo com os resultados, ou seja, que não seria por maldade que optaram por estes métodos.

Para Steven Kleinman, outro militar reformado da força aérea que participou e depois denunciou técnicas semelhantes nos interrogatórios no Iraque, a defesa dessas técnicas por parte de Mitchel é “incompreensível”. Também citado pelo Guardian, questiona como é possível acreditar que as mesmas técnicas que resultaram em confissões falsas podem também produzir informações confiáveis, precisas e em tempo útil.

Esquerda.net

Índios Guarani são atacados por pistoleiros em plena luz do dia


Mateus Ramos - Adital

Uma gangue de pistoleiros vem aterrorizando uma comunidade guarani no Estado do Mato Grosso do Sul, desde que os índios retornaram à sua terra ancestral. A ação, que foi gravada por um dos índios, foi realizada pela gangue, que se acredita ter sido contratada pelo fazendeiro, que ocupa as terras roubadas dos na década de 1970. As florestas foram destruídas para a construção das fazendas.

Recentemente, os índios da tribo Pyelito Kuê conseguiram retomar uma pequena parte de suas terras ancestrais, forçando o fazendeiro que as tinha tomado e bloqueado suas casas a sair. Porém, desde então, pistoleiros estão ameaçando os indígenas, cercando-os, disparando armas de fogo e impedindo até a entrada de médicos na aldeia. No último ataque, gravado em vídeo, uma pessoa foi ferida e outros obrigados a fugir, conforme informações da organização Survival International.

Veja o vídeo:

Há pouco tempo, a polícia brasileira conseguiu fechar a empresa de segurança Gaspem, acusada de ter matado pelo menos dois líderes Guarani e atacado de forma violenta centenas de outros. Contudo, ainda existem outras empresas que prestam o mesmo tipo de serviço de ‘segurança’ para os fazendeiros, ação facilitada pelo apoio de uma forte bancada ruralista no Congresso Nacional brasileiro. Há, inclusive, alguns que encorajam a ‘defesa armada’, como pode ser visto nesse vídeo.

Foto: Survival

"É chocante ver os riscos que os meus irmãos Guarani estão enfrentando todos os dias. Eles têm o direito de viver em suas terras em paz. Precisamos do apoio de todos para que possamos parar esses fazendeiros e para pressionar o governo a finalmente proteger as terras Guarani.”, declarou Nixiwaka Yawanawá, um índio Yawanawá do Brasil.

Sobre o vídeo da ação dos pistoleiros, o diretor da Survival International, Stephen Corry, afirmou que "é um breve vislumbre do que os Guarani têm que suportar mês após mês – assédio, intimidação e, às vezes, assassinato, apenas por tentar viverem em paz em pequenas pedaços da terra ancestral que foi roubada deles . É demais esperar que as autoridades brasileiras, tendo em conta os bilhões que estão gastando na Copa do Mundo, resolvam o problema de uma vez por todas, ao invés de deixar que essa miséria dos índios continue?”.

Demarcações de terras
Em todo o Brasil, milhares de índios estão protestando contra uma Proposta de Emenda Constitucional que daria ao Congresso brasileiro, que é fortemente influenciado pela bancada ruralista anti-indígena, mais influência na demarcação de terras indígenas. ONGs, incluindo organizações indígenas, publicaram uma carta na semana passada solicitando que o governo não altere o sistema de demarcação, mas que se concentre em demarcar e proteger terras indígenas, conforme previsto na Constituição.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Executivos dos EUA ganham 331 vezes mais que um empregado médio

Esta realidade contrasta drasticamente com a que existia após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 1950, por exemplo, os salários dos diretores das corporações eram 20 vezes maiores que os dos trabalhadores. Por Jim Lobe, IPS

WASHINGTON – Uma sondagem divulgada nesta semana pela maior federação sindical dos Estados Unidos conclui que os diretores executivos das principais empresas do país ganharam 331 vezes mais que o trabalhador médio em 2013.

Segundo o banco de dados 2014 Executive PayWatch, da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO, das suas siglas em inglês), os executivos de 350 empresas do país ganharam uma média de 11,7 milhões de dólares no ano passado, em comparação com o trabalhador médio, que recebeu 35.293 dólares.

Os mesmos chefes obtiveram, em média, um rendimento 774 vezes maior que os trabalhadores que receberam o salário mínimo federal por hora de 7,25 dólares, ou pouco mais de 15.000 dólares ao ano, segundo o banco de dados.

Outra investigação das principais 100 corporações dos EUA, divulgada pelo The New York Times, concluiu que a compensação média de um diretor dessas empresas no ano passado foi ainda superior: 13,9 milhões de dólares.

Esse relatório, o Equilar 100 CEO Pay Study, conclui que, em conjunto, esses altos executivos ganharam 1.500 milhões de dólares em 2013, um pouco mais que no ano anterior.

Como nos últimos anos, quem mais dinheiro recebeu foi Lawrence Ellison, diretor executivo da Oracle: 78,4 milhões de dólares.

Os dois estudos, divulgados na altura em que dezenas de milhões de pessoas apresentam a sua declaração anual de impostos, jogam lenha ao acalorado debate sobre o aumento da desigualdade de rendimentos neste país.

O fenómeno saltou para o primeiro plano com o movimento Ocupy Wall Street de 2011.

O presidente Barack Obama descreveu-o como “o desafio que define o nosso tempo”, quando inicia a campanha pelas eleições de meio do mandato.

O presidente tentou dar-lhe resposta aumentando o salário mínimo e ampliando os benefícios para os desempregados e o pagamento de horas extra aos trabalhadores federais, entre outras medidas.

O facto de Obama mencionar a desigualdade e os perigos que ela acarreta fá-lo ganhar um verdadeiro apoio intelectual, e mesmo teológico, nos últimos meses.

Numa revisão da sua tradicional ortodoxia neoliberal, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou no mês passado um estudo sobre os efeitos negativos da desigualdade no crescimento económico e na estabilidade política.

A diretora gerente do FMI, Christine Lagarde, advertiu que a desigualdade cria “uma economia da exclusão”, que ameaça “o precioso tecido que mantém unida a nossa sociedade”.

O papa Francisco também se pronunciou reiteradamente sobre os perigos que representa a desigualdade económica, por exemplo, numa reunião privada que no mês passado manteve com Obama no Vaticano.

O relatório “Global Risks” do Fórum Económico Mundial, publicado em janeiro, sustenta que a marcada desigualdade de rendimentos será o maior risco para a estabilidade mundial na próxima década.

Entretanto, um novo estudo do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, que compara a desigualdade de hoje com a de finais do século XIX, recebe críticas favoráveis em praticamente todas as principais publicações.

A obra baseia-se em dados de dezenas de países do Ocidente que remontam a dois séculos.

Piketty argumenta que são necessárias medidas radicais de redistribuição, como um “imposto mundial ao capital”, para reverter as atuais tendências para uma maior desigualdade. O autor está nesta semana em Washington para dissertar diante de expoentes de vários centros de pensamento.

A decisão do Supremo Tribunal de Justiça, que no início deste mês ampliou os limites das contribuições que podem fazer os abastados aos partidos políticos e às campanhas eleitorais, faz temer a muitos que a democracia dos EUA vá a caminho de se converter numa plutocracia.

A diferença de 331 a um entre o que recebem os 350 diretores executivos e o trabalhador médio é coerente com a desigualdade salarial característica da última década.

Esta realidade contrasta drasticamente com a que existia após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 1950, por exemplo, os salários dos diretores das corporações eram 20 vezes maiores que os dos trabalhadores.

Em 1980, antes que o governo de Ronald Reagan (1981-1989) começasse a implementar as suas políticas económicas da “magia do mercado”, era preciso multiplicar por 42 o salário de um trabalhador para obter o de um alto executivo, segundo Sarah Anderson, veterana observadora das compensações do Instituto de Estudos Políticos de Washington.

“Não acho que ninguém, exceto talvez Larry Ellison, possa dizer que os gerentes de hoje são uma forma evoluída do homo sapiens em comparação com os seus predecessores de há 30 ou 60 anos”, ironizou Bart Naylor, promotor de políticas financeiras na organização Public Citizen.

“Os que criaram a indústria farmacêutica e a de alta tecnologia… eram altos executivos e não drenavam a economia do modo que o fazem os executivos de hoje”, disse à IPS.

“O mecanismo de recompensas aos executivos está arruinada”, acrescentou.

O que enfurece os sindicalistas é que muitas destas empresas sustentam que não podem se dar o luxo de aumentar os salários aos seus trabalhadores.

“A Pay Watch chama a atenção sobre o enlouquecido nível de compensações dos diretores executivos, enquanto os trabalhadores que criam esses ganhos não conseguem receber o suficiente para cobrir as suas despesas básicas”, disse o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka.

“Vejam os benefícios pela reforma do presidente da Yum Brands, dona da KFC, da Taco Bell e da Pizza Hut: mais de 232 milhões de dólares, com impostos diferidos”, disse Anderson.

“É obsceno para uma corporação que emprega mão de obra barata”, acrescentou.

Atualmente, o Congresso legislativo considera várias medidas para abordar o assunto, ainda que a maioria delas conte com a oposição dos republicanos, que são maioria na Câmara de Representantes.

Não obstante, um projeto tributário apresentado pelo presidente republicano do poderoso Comité de Meios e Arbítrios dessa câmara pode pôr fim a uma clara injustiça, a que exime os executivos de pagar impostos pelos “honorários por desempenho” que recebem quando cumprem certas metas fixadas pela direção da empresa.

Além disso, a Comissão Nacional de Valores começa a aplicar uma norma pendente desde há tempo que exigirá às corporações que cotadas em bolsa que revelem os rendimentos dos seus diretores executivos, comparados aos seus empregados de tempo completo, parcial, temporário, tanto norte-americanos como estrangeiros.

17 de abril de 2014

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Publicado pela IPS

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A luz é como a água - Por Gabriel García Márquez



"(...) mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos  tinham-se perdido na escuridão."



No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação, 

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada - disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não - disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.


Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.

Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiroflutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.


Dezembro de 1978.


Gabriel García Márquez nasceu em 1928 na pequena cidade de Aracataca, na Colômbia. Cresceu ao lado de seu avô materno, um coronel da guerra civil no princípio do século. Estudou num colégio jesuíta e posteriormente iniciou o curso de Direito, logo abandonado em virtude de seu trabalho como jornalista. Em 1954 foi para Roma, como correspondente do jornal onde escrevia, e desde então tem vivido em cidades como Paris, New York, Barcelona e México, em um exílio mais ou menos compulsório. Apesar de seu talento como ficcionista e premiado escritor, continua exercendo a profissão de jornalista.

No dia 21 de outubro de 1982 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, quinze anos depois de ter escrito "Cem Anos de Solidão", seu maior sucesso, traduzido em 35 idiomas e com venda calculada em mais de 30 milhões de exemplares.

Em nossos dias circula pela Internet um texto cuja autoria foi atribuída a García Márquez, um tipo de "carta de despedida", pois estaria o autor prestes a falecer em virtude de um câncer linfático. Segundo a "Crônica do falso adeus" de Orlando Maretti, "Gabriel García Márquez, ou Gabo, para os amigos, ... não apenas negou, pela imprensa, que estivesse em estado terminal como também espinafrou a pieguice do texto e seu autor, identificando-o como um subliterato latino-americano. Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, o escritor colombiano lamenta a repercussão do texto."

Orlando Maretti acrescenta: "...a primeira pista para duvidar da autoria é a insistência na citação vocativa de Deus. Pelo que se sabe, García Márquez é um escritor de esquerda, simpatizante do marxismo, amigo de Fidel Castro, militante de causas sociais. Enfim, um humanista engajado, mas nem de longe seu perfil lembra um religioso."



Texto extraído do livro "Doze contos peregrinos", Editora Record – Rio de Janeiro, 1999, pág. 215, tradução de Eric Nepomuceno.


Morre Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez

O Prêmio Nobel de Literatura,  escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez, morreu aos  idade de 87 na Cidade do México. Foi uma das figuras mais importantes da literatura mundial do século XX.
REUTERS Edgard Garrido
O autor, conhecido no mundo inteiro como o fundador do estilo literário chamado "realismo mágico", está imortalizado nos romances "Cem Anos de Solidão','O coronel não tem quem o escreva',' O Outono do Patriarca", " Amor em Tempos do Cólera" e "Crônica de uma Morte Anunciada", entre outros.

Ele fez uma grande contribuição para o jornalismo contemporâneo ao participar da fundação da agência de notícias cubana Prensa Latina. Este fato em sua biografia é devido a um interesse especial em movimentos de esquerda e simpatia que sempre era mútua. Esta mesma preferência se deve a sua amizade com líderes da Revolução Cubana, Fidel Castro e Ernesto 'Che' Guevara.

Anos mais tarde, em 1994, foi um dos criadores do  Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), que declarou como objectivo ajudar jovens jornalistas aprender a profissão e buscar novas formas de praticar. Desde então, uma bolsa da mesma fundação, batizados em seu nome, estimula os sucessos dos jovens em jornalismo cultural.

Sua primeira história, "A terceira resignação", foi publicada em 1947 em "El Espectador", um jornal liberal, em Bogotá. O sucesso foi garantido a partir de jornalismo do ano seguinte, no mesmo jornal, que também foram publicados dentro de cinco anos catorze histórias de sua autoria. Ele também trabalhou como repórter e colunista do "El Universal " e "El Heraldo". Embora fosse uma faceta desconhecida em seu acadêmica Etapa também abordou a poesia posteriormente, que lembrou em Moscou como parte do "Poesia no Metrô' na capital russa, há dois ano .

A realidade política e social na Colômbia muito inspirou na obra de García Márquez, mas viveu a maior parte de sua idade madura fora do seu país em Havana, Nova York, Paris, Barcelona e Cidade do México.

Depois de uma estadia de vários meses nos Estados Unidos, em 1960, as autoridades de lá recusou-lhe um visto para García Márquez por décadas, até a presidência de  Bill Clinton, acusando-o de ser filiado ao Partido Comunista. Houve uma exceção em 1971, quando na Universidade de Columbia foi agraciado com o título de doutor honoris Causa e visto  condicionado" lhe permitiu entrar no país.

Entre 1961 e 1967 e a partir de 1981 viveu no México, onde não evitou se espionado pelos serviços de segurança nacionais, no âmbito da chamada "guerra suja", como alegado  "agente de propaganda" cubano.

Após o Nobel , o escritor voltou para a Colômbia por um tempo e era parte de uma comissão para elaborar uma estratégia nacional de ciência, pesquisa e cultura. Ao mesmo tempo, ele continuou a apoiar a revolução cubana e as idéias do socialismo como uma opção para o futuro do continente.

Em 2002, Gabriel García Márquez publicou um livro de memórias : "Vivir para contarla", o primeiro de três volumes que haviam sido anunciados.

Sua obra recebeu muitas expressões de louvor desde 1960. Entre eles está o comentário do grande poeta chileno Pablo Neruda no romance "Cem Anos de Solidão", que ele descreveu como "o melhor romance já escrito em castelhano depois de Dom Quixote".

RT

O Espaço Público e seu significado na cidade

A cidade não é apenas um espaço físico, um conjunto de edifícios, estruturas, sistemas, etc.; É também um espaço relacional e, portanto, cultural e simbólico. Por conseguinte, a essência da cidade é o encontro entre os diversos e diferentes; as relações entre eles para formar novas e diferentes ordens dinâmicas. Ordens decorrentes do encontro e da interação entre diferentes.

Por - Marta Domínguez Pérez em Ssociologos.com

Além disso, e de outro ponto de vista, pode-se dizer que a cidade é por um lado uma montagem estrutural de grandes estruturas e sistemas, o supralocal; e, em segundo lugar, estes sistemas são refletidos no espaço do micro, do local. Assim, o espaço público é o espaço local onde refletem e se veem refletidas essas macroestruturas que são as cidades. Como na teoria dos fractais, se reproduz no nível micro o que aparece no nível macro.

Sob essas premissas, pode-se entender que o espaço público na cidade é o espaço do micro onde vemos refletida as macro estruturas, e não um  espaço físico somente, mas um espaço público no sentido mais amplo da palavra, um espaço político também. Assim, para Bohigas, o espaço público é, em última instância da cidade (Bohigas 2004). É , em suma, um indicador de qualidade urbana (Borja & Muxi 2000), uma espécie de termômetro das cidades e sua saúde. Como assinalam Borja e Muxi, o espaço público é o espaço de representação, em que a sociedade se torna visível, o espaço onde as relações sociais são realizadas. É o espaço de expressão coletiva da vida da comunidade, do encontro e do intercâmbio cotidianos (Borja e Muxi 2000). Então, na medida em que as cidades são segregadas em seus espaços, redes, relacionamentos, etc. O espaço público vai ser mais ou menos rico e espaço de encontro e desencontro, do isolamento. Para Bellet Sanfeliu (2010), seria "o espaço do comum, da  cultura e  política comum, espaço de interesse geral ou onde se sucede  e se expressa (se faz público) aquilo que deveria importar a todos."

O espaço público é um "espaço de sociabilidade problemática onde devem coexistir todo um mundo de estranhos" (Lofland 1973). Suas características inerentes são assim o contato e usos múltiplos. (Salcedo hansen 2002). Portanto, na medida em que sejam espaços onde não existe encontro entre diferentes, mas entre iguais, ou não haja encontro, ou então haja monofuncionalidade, ou seja, não há variedade de usos; nessa medida, o espaço público será menos rico e a cidade será menos cidade.

Como o espaço público tende, em princípio, e em essência à mistura social, isto é, fazendo de uso um direito cidadão de primeira ordem, e deve garantir, em termos de igualdade, a apropriação por diferentes grupos sociais e culturais, de gênero e idade. (Borja e Muxi 2000). Todos têm direito de usar o espaço público, a sua apropriação e a ter presença nele. E o direito a isso é, em última instância, o direito de praticar como um cidadão com todos os que vivem e querem viver em cidades (Borja e Muxi, 2000). Por isso,é um conceito ligado à cidadania e ao direito à cidade de Lefebvre. É o principal espaço político na cidade (Bellet Sanfeliu 2010). É, finalmente, o direito de acesso e centralidade simbólica, para sentir orgulho de onde vivemos e para ser reconhecido pelo outro, a visibilidade e identidade, bem como a disponibilidade de instalações e espaços públicos próximos, é uma condição cidadania ( Borja e Muxi 2000) que se torna possível a partir da acessibilidade. Pode-se dizer que todos tenham acesso a ela sem discriminação na vida econômica, origem social, sexo, idade, etnia, etc.

Assim, as dinâmicas privatizadoras do espaço público seriam a negação da cidade por selecionarem seus usuários, aos cidadãos que podem ter acesso a ele e para discriminando entre os cidadãos por razões de capacidade econômica. Por exemplo, quando se discute a implantação de terraços em espaços públicos para "encorajar", "energizar", "regenerar" não se está abrindo o uso do espaço público para todos os cidadãos, mas entregando-os para o uso de usar, os de maior capacidade econômica, à excepção daqueles que "enfeiam" com sua presença o  desfrute deste espaço. Da mesma forma, quando os espaços públicos são habilitados em determinadas áreas residenciais, tais como centros comerciais, onde o acesso é difícil e exclusivo, em vez de espaços públicos tradicionais, estamos seguindo uma lógica semelhante. Além disso, os equipamentos ou clubes de uso privado segregam os usuários por sua capacidade econômica e assim selecionam seu público excluindo outros de seu uso. (Bellet Sanfeliu 2010). Finalmente, é "a cena das manifestações de poder, mas também de expressão e de protesto cidadão com sinais de apoio ou rejeição do que é estabelecido ou incidente. Espaço reivindicativo e da manifestação pública por excelência" (Bellet Sanfeliu 2010), de modo que qualquer tentativa de normativizá-lo desde o poder (proibir manifestações, regular seus espaços ocupados, etc), restringe o potencial da livre expressão da cidadania e a estrangula. A cidade restringe seus espaços,  lhes permitindo uso para alguns e excluindo outros. Assim, a dinâmica de privatização (Sennett, 1978; Arendt, 1993) e de normativização da cidade vai contra a consolidação e expansão do espaço público.

Consequentemente, a cidade,  pode fazer do espaço público um lugar de encontro para todos, de intercâmbio, sendo a essência da cidade; ou, ao selecionar, pode tornar o espaço público seja um lugar de encontro para alguns, não todos, excluindo do mesmo setores indesejáveis ​​ privadas de se encontrar e, portanto, da construção de redes e de relações entre eles, que poderiam permitir a construção de universos relacionais, culturais e simbólicos que permitem sua emergência.

Bibliografia

Arendt, H (1993), La condición humana, Ed. Paidós, Madrid

Bellet Sanfeliu, C. (2010)Reflexiones sobre el espacio publico. El caso de las ciudades intermedias.

Bohigas O (2004). Contra la incontinència urbana. Reconsideració moral de l’arquitectura i la ciutat. Barcelona: Diputació de Barcelona, 2004

Borja, J (2003), La ciudad conquistada, Madrid, Alianza Ensayo

Borja J  y Muxí Z(2000) El espacio público, ciudad y ciudadanía. Barcelona, 2000.

Lofland, L (1973), “A world of strangers. Order and action in urban public space, Prospect Heights (USA), Waveland Press

Sennett, R. (1972), The fall of public man, Norton Home. Traducción al castellano en Peninsula, 1978.



Doutora em Sociologia (Prêmio Especial 2003) e Professora de Sociologia Urbana da UCMadrid. Coordenadora Mestre em Sociologia da População, Território e Migração.

O RN à deriva

É de se refletir quando alguém menciona um fato terrível da situação do Rio Grande do Norte, e agora, menciona "as eleições estão aí". Que estão, estão, agora o que pode ser retirado delas não sobra praticamente nada de útil. As eleições nesses sistemas de oligarquias liberais, no caso do Rio Grande do Norte ainda tacanhas oligarquias anacrônicas, não carregam em si mudança, só a sociedade e o sujeito são criadores, eleições não; ademais, no nosso caso o clima é direcionado muito mais para um pessimismo, a tendência é que tudo se repita, de tão acostumados a cairmos precipício abaixo parece que nos acostumamos com qualquer utensílio que nos alivia as dores da queda incessante.

Se as oligarquias dos partidos, e dos poderes se repetem, o que deve ocorrer, significa perpetuar o processo de mendicância e de agravamento do caos social. Com que clima passar por um processo eleitoral, como dizem os comentaristas esportivos "só pra cumprir tabela", a mesma encenação, os mesmos programas ridículos, vários nomes e números e como aqui o problema e gravíssimo o mesmo nada.

Aprendemos que o que está ruim não deve fazer com que deixemos de exercitar o "inestimável direito do voto", como não seria ativista contra ele, mas até os que nos dizem isso, só fazem repetir o palavreado, por que sequer sabem pensar no que fazer. Em uma realidade de cultura apenas suspirando, tecido social apodrecido por diversas situações locais e globais; crescimento assombroso da criminalidade, fracasso total dos serviços públicos, educação, além das dificuldades estruturais, mera fantasia, encaixotada, impossibilitada de encarar modificações, Universidade débil, enfim, não temos noção de por onde começar.

O que restam são meros "moralismos", de por a sociedade como fardo, apontar culpados, pregar soluções fáceis sem sentido ou se isolar na "cultura" do conformismo. Foi divulgado, inclusive, esta semana, um vídeo na internet onde o filho de um ex-prefeito de um dos maiores municípios do Rio Grande do Norte, ao som do "Forró eletrônico", rasga uma cédula de 100 reais, isso representa um cenário completo de esvaziamento e de fruição de objetos que simbolizam esse "individualismo".

De forma que não estará logo ali no dia de ir às urnas um projeto renovado de Rio Grande do Norte, isso demandará ações dentro da sociedade, nas escolas, podemos disseminar a complexidade, mudar a formação dos professores, parar de perseguir meros números estatísticos e vender na TV pinturas de colégios, na verdade gaiolas, enfim, dentro do que temos não existe saída.



terça-feira, 15 de abril de 2014

IPCC: mitigar as mudanças climáticas custaria menos do que se pensa

Cientistas apontam que ao custo de 0,06% do crescimento econômico anual do planeta seria possível adotar as tecnologias e ações necessárias para limitar o aquecimento global em dois graus Celsius

Autor: Fabiano Ávila   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil
Não será uma tarefa fácil, porém ainda podemos evitar as piores consequências das mudanças climáticas se desde já colocarmos em prática medidas como a expansão do uso de fontes limpas de energia e melhorias nos processos industriais.

Essa é a principal mensagem do relatório 'Mitigação da Mudança Climática', apresentado neste domingo (13) pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Segundo o documento, mesmo com todos os debates climáticos e com o tema do aquecimento global ocupando cada vez mais a agenda dos líderes mundiais, as emissões de gases do efeito estufa aceleraram na última década, aumentando 2,2% por ano entre 2000 e 2010. A velocidade entre 1970 e 2000 era de 1,3% ao ano. 

"Políticas climáticas que pretendam manter o aquecimento em 2oC precisam mirar um corte substancial nas emissões. A mensagem da ciência é clara: para se evitarem interferências perigosas no sistema climático, temos de mudar de abordagem, sair do 'business as usual'", afirmou Ottmar Edenhofer, co-presidente do Grupo de Trabalho III do IPCC, responsável pelo relatório.

'Mitigação da Mudança Climática' foi escrito por 235 autores de 57 países e contou com a colaboração de mais de 38 mil comentários. O trabalho reúne tudo o que foi produzido pela comunidade científica nos últimos anos sobre as maneiras de reduzir os impactos das mudanças climáticas.

Apesar de salientar que as emissões estão crescendo, o relatório traz como boa notícia a constatação de que ainda podemos evitar as piores consequências do aquecimento global e que o custo disso é muito menor do que as pessoas pensam.

De acordo com o IPCC, reduzir as emissões até um nível que limite o aquecimento em 2oC até 2100 custaria ao planeta 0,06% de seu crescimento econômico anual, em um cenário no qual a economia mundial crescesse entre 1,3% a 3% ao ano. 

Esse custo seria proveniente da colocação em prática de medidas como o maior uso de fontes limpas de energia, de melhores tecnologias para a queima de combustíveis fósseis, mudanças nos hábitos das pessoas e de transformações no uso da terra, como políticas para reduzir o desmatamento.

"Muitos caminhos diferentes ainda estão disponíveis para limitar o aquecimento global a 2oC. Mas todos eles precisam de investimentos substanciais, e adiar esses investimentos significa que os custos irão subir (...) Temos uma janela de oportunidade de uma, talvez duas décadas", declarou Edenhofer.

"Nós já temos os recursos financeiros e as tecnologias necessárias para fazer o que é preciso. O desafio é aumentar a velocidade e a escala das ações e utilizar de maneira eficiente as ferramentas de cooperação internacional. Todos que podem fazer a diferença devem se engajar: empresas e investidores, cidades e cidadãos e, é claro, os governos", disse Christiana Figueres, secretária-executiva da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC).

"O que está evidente é que o 'trem da mitigação' deixará a estação muito em breve, e toda a sociedade precisa correr para embarcar", reforçou Rajendra Pachauri, presidente do IPCC. 

Se nada for feito e continuarmos apenas com as políticas climáticas já existentes, o IPCC prevê um aquecimento de 3,7oC a 4,8oC até 2100.

Quinta avaliação

'Mitigação da Mudança Climática' é a terceira e última parte da quinta grande avaliação do IPCC (Fifth Assessment Report – AR5), que deverá ser apresentada oficialmente durante a Conferência do Clima de Lima (COP 20), no Peru, em dezembro.

A primeira parte, 'Base Científica da Mudança Climática', foi publicada em dezembro do ano passado e afirma que é extremamente provável que mais da metade do aumento das temperaturas médias na superfície global entre 1951 a 2010 tenha sido causada pela maior concentração de gases do efeito estufa na atmosfera resultante das atividades humanas. 

A segunda, 'Impactos da Mudança Climática, Adaptação e Vulnerabilidade', foi divulgada em março e destaca que os impactos das mudanças climáticas já afetam agricultura, ecossistemas, recursos hídricos, oceanos, setores econômicos e a saúde humana. 

O IPCC aproveitará os próximos meses para unir esses três documentos no formato da AR5, produzindo tabelas, infográficos e imagens que ajudem no entendimento do seu conteúdo. Assim, a AR5 será a reunião de tudo o que sabemos sobre as mudanças climáticas atualmente.

O IPCC recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007 pela AR4 e pelos seus serviços prestados para a popularização do tema das mudanças climáticas.

Cuba cresce ou não cresce?

Por Leonardo Padura

Os mais recentes vizinhos  estabelecidos no meu bairro são beneficiários de uma das mudanças introduzidas pelo governo de Raul Castro, como parte da "atualização do modelo econômico cubano".

Eles eram uma das famílias que, por uma razão ou outra, viveu por anos em abrigos coletivos e, finalmente, tiveram a sorte de receberem um dos milhares de lugares onde antes havia funcionado um escritório do governo que foram convertidos em residência, como forma de aliviar a carência de casas existentes.

Esses vizinhos, que não pagaram ou não podiam pagar, nada pela propriedade que foi dada a eles,  vivem de um dos comércios mais modestos praticados na ilha: a recolha de resíduos de papel, papelão, vidro e alumínio, em seguida vendidos para os centros de recolha para commodities recicláveis.

Mas seu trabalho não é suficiente para manter, os vizinhos se beneficiaram da concessão de uma moradia digna e livre estão agora dividindo-a para vender uma parte, cobertos de outra das alterações introduzidas pelo governo: a compra e venda livre da propriedade.

Nessas e em muitas outras maneiras  os cubanos buscam melhorar a sua vida, mesmo que, no fundo, eles estejam piorando-a, vendendo o pouco que têm ou fazendo qualquer manejo econômico legal (ou ilegal) que lhes dá dividendos. O resultado mais visível do problema é que os cubanos, especialmente se você trabalha para o Estado, o que ganham não é suficiente para sobreviver.

Portanto, aqueles que não tem família no exterior para ajudá-los com um pouco de prata ou de um membro do clã que de alguma forma tem acesso a ganhos em moeda forte, todos os dias da sua vida deve contar os centavos para atender às necessidades básicas, tais como alimentação e higiene.

Mas a terra em que está a raiz do problema aparente é incorporado na verdade não é na realidade  o valor de câmbio dos salários, ou seja, a sua capacidade de compra.

O mar de undo está na macroeconomia que, apesar das alterações introduzidas, não consegue decolar e mantida em um crescimento anual movendo ligeiramente acima de dois por cento.

É um número que está abaixo do que é esperado para pôr em marcha o sistema econômico cubano estagnado, o que também está abaixo dos níveis capazes de assegurar o crescimento e inverter a situação tensa em que os cidadãos vivem.

Isso posto que nem em quantidade nem em qualidade os salários são suficientes para satisfazer as necessidades básicas... para não mencionar luxos inimagináveis ​​para milhões de cubanos: ir a um restaurante, por exemplo.

A recente abertura da primeira fase da Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, com seus superpetroleiros terminais e recipiente, foi considerado o primeiro passo para começar a sonhar com esse crescimento, segundo os economistas, mesmo que apenas excederá cinco por cento anualmente, sepoderia iniciar uma mudança substancial na situação.

A esperada nova Lei de Investimento Estrangeiro,  pode colocar essas atividades semelhantes às criadas para os níveis de Mariel , também pode contribuir para a melhoria da macroeconomia, com a entrada de capital novo e produtivo para o paí , se as condições de investimento, a segurança e propriedade, entre outros, realmente torná-lo atraente em Cuba para montar qualquer tipo de negócio, algo que não acontece hoje.

Mariel trabalha essencialmente uma zona franca, com acesso ao investimento, tributação, marketing de produto, etc .

Um sinal estranho, de por onde poderiam ir a quantidade e a qualidade dos investimentos estrangeiros em Cuba foi enviado pelo próprio governo, quando em janeiro deste ano decidiu abrir o mercado de vendas de veículos em Cuba, registrando taxas astronômicas e desproporcional ao carros novos e seminovos (ou quarta mão) colocados no mercado.

Modelos Peugeot de 60.000 € tarifados em mais de um quarto de milhão de dólares não é exatamente um sinal de boa vontade para com os potenciais investidores, além de resultar em um sorriso de escárnio aos cubanos (principalmente os profissionais cujo trabalho produzem importante ganhos para o país ), que de uma forma ou outra tinha obtido o capital necessário para comprar carros antes da "abertura" do mercado, já eram caros o suficiente para fixar os preços no resto do mundo.

E  o fato de que apenas se tenha vendido  carros  ou a indignação expressa por muitas pessoas, não mudou os seus preços, como é suposto acontecer em qualquer mercado ou país.

Embora eu não seja economista nem pretenda ser,  acho que as contas econômicas em Cuba são tão escuras que acabam por deixar de ser muito claras: se não se encontram vias  seguras e caminhos de crescimento eficientes, a situação do país e dos seus cidadãos não vai mudar essencialmente.

Ainda quando um pequeno número de cubanos  transformados em microempresários possam estar fazendo algum dinheiro, a prosperidade é relativa e apenas significativa quando comparado com a forma como vivem e resolvem problemas meus vizinhos do bairro e milhares de famílias como eles.

E o problema que se coloca diante do futuro econômico e social do país seria saber como o capital estrangeiro, na verdade, atuaria no desenvolvimento do país e, especialmente, o grande mistério: como os 11 milhões de moradores da ilha podem ser inseridos dentro de uma sociedade mais comercial e competitiva.

Será vendendo tudo o que lhes resta, ou seja, sua força de trabalho, como adverte a filosofia marxista de que a política oficial cubana é baseada? Por enquanto esta perspectiva escura também parece clara.

Leonardo Padura , escritor e jornalista cubano, agraciado com o Prêmio Nacional de Literatura de 2012. Seus romances foram traduzidos para mais de 15 idiomas, e sua obra O homem que amava os cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, ativista stalinista Ramón Mercader catalão. Seu romance mais recente é Hereges.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Aumento acentuado de homicídios por problemas ambientais e defesa do direito de utilização de terras, devido ao aumento de pressão sobre os recursos do planeta – relatório

Aumento acentuado de homicídios por problemas ambientais e defesa do direito de utilização de terras, devido ao aumento de pressão sobre os recursos do planeta – relatório

Produzido por - Global Witness

É necessário tomar medidas urgentes para questionar a impunidade dos responsáveis, proteger os cidadãos e combater as causas de raiz da crise ambiental

As mortes de pessoas que protegem o ambiente e o direito de utilização de terras sofreram um aumento acentuado entre 2002 e 2013, devido à intensificação de disputas por recursos naturais, de acordo com um novo relatório da Global Witness. Durante este período, há conhecimento de 908 mortes, relacionadas com disputas relativas à exploração industrial de florestas, minas e direitos de utilização de terras, como principais fatores. As áreas geográficas mais afetadas são a América Latina e Ásia-Pacífico.

Publicado no 25.º aniversário do assassinato do seringueiro e ativista ambiental brasileiro Chico Mendes, o relatório Deadly Environmentdestaca uma enorme falta de informação e monitorização destes problemas. Isto significa que o número de mortes é provavelmente superior aos números documentados no relatório, mas mesmo com apenas estes dados conhecidos, a violência está ao nível da incidência mais visível de jornalistas mortos no mesmo período (1). Este défice de atenção aos crimes ambientais e contra os defensores dos direitos da terra tem alimentado níveis endômicos de impunidade, sendo que pouco mais de um por cento dos autores dos crimes conhecidos é condenado.

“Isto significa que é da maior importância proteger o ambiente e também que nunca foi tão perigoso fazê-lo.” – Afirma Oliver Courtney da Global Witness. “Poucos serão os sintomas mais graves e mais óbvios da crise ambiental do planeta do que um aumento dramático das mortes de cidadãos comuns que defendem os seus direitos à terra ou ao ambiente. Todavia, este problema que se agrava a cada minuto, passa despercebido à maior parte da população, e os responsáveis quase sempre ficam impunes. Esperamos que as nossas investigações sirvam para despertar a consciência dos governantes de todos os países e da comunidade internacional, algo fundamental para esta questão.”

São estas as principais conclusões do relatório Deadly Environment:

·      Pelo menos 908 pessoas foram assassinadas em 35 países, entre 2002 e 2013, por tentarem proteger os direitos à utilização da terra e ao ambiente. Estes números aumentaram nos últimos quatro anos, com uma média de dois ativistas mortos por semana.
·      2012 foi o pior ano de sempre para os ambientalistas, com 147 mortes – quase três vezes o número de mortes de 2002.
·      A impunidade é a regra para estes crimes: foram condenados apenas 10 criminosos entre 2002 e 2013 – pouco mais de um por cento da incidência geral de homicídios.
·      O problema é particularmente grave na América Latina e no Sudeste Asiático. O Brasil é o lugar mais perigoso para defender o direito de utilização de terras e o ambiente, com 448 assassinatos, seguido das Honduras (109) e das Filipinas (67). 

O problema é agravado pela falta sistemática de monitorização ou informação. Quando os casos são registados, são frequentemente analisados de forma isolada ou tratados como um subconjunto de outros direitos humanos ou questões ambientais. Muitas vezes, as próprias vítimas não conhecem os seus direitos ou não conseguem fazer prevalecer os mesmos, devido à falta de recursos existente nos locais remotos e perigosos onde vivem.

John Knox, especialista independente das Nações Unidas em direitos humanos e ambiente, afirma: “Os direitos humanos só ganham significado se as pessoas forem capazes de exercê-los. Os defensores dos direitos humanos ambientais trabalham para garantir que vivemos em condições que nos permitem desfrutar dos nossos direitos básicos, entre os quais o direito à vida e à saúde. A comunidade internacional terá de fazer mais para proteger essas pessoas da violência e perseguição de que são alvo.”

As comunidades indígenas são as mais afetadas. Em muitos casos, os seus direitos à terra não são reconhecidos pela lei nem na prática, deixando-as expostas à exploração por interesses econômicos poderosos, pelos quais são catalogadas de “antidesenvolvimento”. Em muitos casos, só têm conhecimento de um negócio contra os seus interesses quando as retroescavadoras chegam às respetivas quintas e florestas.

Os direitos à terra constituem o cenário da maior parte das mortes de que temos conhecimento. Empresas e governantes celebram habitualmente negócios secretos para destinar grandes áreas de terra e florestas a culturas de rendimento como borracha, óleo de palma e soja. Pelo menos 661 (mais de dois terços) das mortes ocorrerem no contexto de conflitos relacionados com a propriedade, o controlo e a utilização de terras, em conjunção com outros fatores. O relatório debruça-se em detalhe sobre a situação no Brasil, onde as disputas de terras e a exploração industrial de florestas são as principais causas, e nas Filipinas, onde a violência está sobretudo relacionada com o setor mineiro

“O rápido agravamento da situação parece estar escondido à vista de todos, e este aspeto tem de mudar. 2012, o ano em que foi realizada a última Cimeira do Rio, foi o ano mais mortífero de que há registo. Os participantes que vão reunir este ano nas conferências sobre o clima no Peru devem estar atentos a estes sinais: a proteção do ambiente nos dias de hoje tornou-se no principal campo de batalha pelos direitos humanos. Enquanto os governantes discutem o texto dos novos acordos mundiais, a nível local, um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo arrisca a vida para proteger o ambiente.” – Afirma Andrew Simms, da Global Witness. “A menos que a comunidade internacional tome medidas urgentes, mais pessoas, que devíamos homenagear como heróis, perderão a vida.”

O relatório sublinha também o fato de o aumento do número de vítimas constituir a face mais grave e mensurável de um conjunto de ameaças, entre as quais a intimidação, violência, estigmatização e criminalização. O número de mortes aponta para um nível muito superior de violência não mortal e intimidação, não documentada neste trabalho de investigação, mas que requer medidas urgentes e eficazes.

A Global Witness reclama esforços mais concertados e coordenados no sentido de monitorizar e enfrentar esta crise, começando por uma resolução do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, para enfrentar a crescente ameaça com que se deparam os defensores ambientais e dos direitos de utilização de terra. Da mesma forma, os organismos regionais de direitos humanos e governantes dos diferentes países devem acompanhar de forma adequada os abusos contra os ativistas e os assassinatos, devendo garantir que os responsáveis sejam levados à justiça. As empresas devem monitorizar de forma eficaz as suas operações e cadeias de fornecimento, no sentido de garantir as boas práticas e a ética.
/FIM



Notas às Redações:

(3)  De acordo com o documento Dataset: Journalists killed since 1992, da Comissão de Proteção de Jornalistas (2014), 913 jornalistas foram mortos no exercício da sua profissão durante o mesmo período.Disponível em: https://www.cpj.org/killed/cpj-database.xls
(4)  O relatório, dados e gráficos encontram-se disponíveis emwww.globalwitness.org/deadlyenvironment 


A Global Witness investiga e realiza campanhas para evitar os conflitos e a corrupção relacionados com recursos naturais, bem como contra a violação dos direitos ambientais e direitos humanos.

domingo, 13 de abril de 2014

Quando a catástrofe climática vira produto financeiro

Catástrofes climáticas espalham pelo mundo dramas e imagens espetaculares. E colocam uma questão prosaica: quem pagará os estragos? “Derivados climáticos”, “obrigações de catástrofe”, “bolsa de troca de riscos”… Em torno dos novos desastres naturais surge um universo de oportunidades e acumulação. Artigo de Razmig Keucheyan

Em novembro de 2013, o “supertufão” Haiyan atingiu o arquipélago das Filipinas: mais de 6 mil mortos, 1,5 milhão de lares destruídos ou danificados, 13 mil milhões de dólares de danos materiais. Três meses depois, duas corretoras privadas de seguros, Munich Re e Willis Re, acompanhadas por representantes da Secretaria Internacional de Estratégias para a Redução de Riscos de Desastres das Nações Unidas (UNISDR), apresentavam aos senadores filipinos um novo produto financeiro desenvolvido para cobrir eventuais deficits do Estado em termos de gestão de desastres climáticos: o Philippines Risk and Insurance Scheme for Municipalities (Prism), um tipo de título com altos rendimentos que os municípios ofereceriam, em caso de catástrofe, a investidores privados [1]. Estes últimos beneficiariam de taxas de juros vantajosas subsidiadas pelo Estado, mas, caso houvesse um sinistro de uma força ou desastre predefinidos, perderiam os seus investimentos.
“Derivados climáticos” (weather derivatives), “obrigações de catástrofe” (catastrophe bonds) e outros produtos de seguro climático fazem muito sucesso. Além dos países asiáticos, o México, a Turquia, o Chile e até mesmo o estado norte-americano do Alabama, duramente afetado pelo furacão Katrina em 2005, recorreram a eles de uma forma ou de outra. Para os promotores desses instrumentos, trata-se de confiar ao mercado financeiro os seguros de riscos naturais, inclusive os prêmios; avaliações de ameaças e ressarcimento das vítimas. Mas por que o mercado financeiro cobre danos causados pela natureza justamente agora, que ela mostra sinais cada vez mais claros de desgaste?
Durante muitos séculos, a Terra forneceu ao sistema econômico matérias-primas e recursos naturais a preços baixos. O ecossistema também conseguia absorver os resíduos da produção industrial. Mas essas duas funções já não se realizam tão facilmente. Não só o preço das matérias-primas e da gestão dos resíduos aumenta, como a multiplicação e o agravamento dos desastres naturais fazem subir o custo global dos seguros. Isso exerce uma pressão para diminuir as taxas de lucro dos atores industriais. Desse modo, a crise ecológica não é apenas o reflexo, mas também a provável causadora de uma crise do capitalismo.
Nesse contexto, a “financeirização” parece oferecer uma escapatória: as companhias de seguros e de resseguros colocam em jogo novas formas de dissipar o risco, das quais a principal é a titularização de riscos climáticos − uma transposição para a esfera meteorológica dos mecanismos testados com o sucesso que conhecemos no sistema imobiliário americano…
Entre os produtos mais fascinantes desse novo arsenal financeiro está o cat bond, diminutivo decatastrophe bond, ou seja “obrigação de catástrofe”. Uma obrigação é um título de crédito ou uma fração de dívida liquidável num mercado, e sujeita a uma cotação. A particularidade dos cat bondsé que eles não surgem de uma dívida contraída por um Estado para renovar suas infraestruturas ou por uma empresa para financiar sua inovação, e sim da natureza e dos seus perigos. Eles abrangem uma eventualidade que pode ocorrer, mas sem certeza; sabe-se apenas que ocasionará desgastes materiais e humanos importantes.
A partir daí, trata-se de dispersar os riscos naturais no espaço e no tempo, tornando-os financeiramente insensíveis. Conforme os mercados desdobram-se em escala mundial, esses riscos ficam em evidência máxima.
Esse prodígio da engenharia financeira nasceu em 1994, logo após uma série de desastres com custos fora do normal (o furacão Andrews na Flórida em 1992, o terremoto de Northridge na Califórnia em 1994) obrigar a indústria de seguros a encontrar novos recursos. Desde então, foram emitidos cerca de duzentos cat bonds, 27 apenas em 2007, totalizando 14 mil milhões de dólares.
Furacão nas Caraíbas vs. tsunami na Ásia
Como todo o título financeiro, as obrigações climáticas têm de se submeter ao crivo das agências de classificação de risco – Standard & Poor’s, Fitch e Moody’s –, que geralmente lhes dão a medíocre nota BB, o que significa que possuem risco. O valor de um cat bond flutua no mercado em função da maior ou menor probabilidade do que a ameaça venha a acontecer e em função da oferta e procura do título em questão. Acontece que esses títulos continuam a circular quando uma catástrofe se aproxima e mesmo durante seu desenrolar; por exemplo, durante uma onda de calor na Europa ou de um furacão na Flórida. É o que os traders especialistas chamam de live cat bond trading – comércio ao vivo de títulos [2], o que faz sentido em razão da sua composição característica.
Uma bolsa de valores de títulos chamada Catastrophe Risk Exchange (Catex), localizada em Nova Jersey, surgiu em 1995. Um investidor excessivamente exposto aos tremores de terra californianos poderá diversificar o seu portfólio trocando os seus cat bonds por outros de furacões no Caribe ou de tsunamis no Oceano Índico. A Catex também serve para fornecer base de dados a seus clientes, permitindo a avaliação de riscos.
Protagonistas do dispositivo, as agências de modelização rendem-se ao catastrophe modeling, ou seja, à modelização das catástrofes. O seu objetivo é calcular a natureza e reduzir quanto for possível a incerteza. Existe um pequeno número de agências de modelização de negócios no mundo, a maioria delas norte-americana: Applied Insurance Research (AIR), Eqecat e Risk Management Solutions (RMS). Em função de variáveis como velocidade dos ventos, tamanho dos ciclones, temperaturas e características físicas da zona em questão (material utilizado na construção, tipo de terreno, população), avaliam o custo de uma catástrofe, bem como as indemnizações a serem pagas pelas seguradoras. E, consequentemente, determinam o preço docat bond.
A maioria das obrigações desse tipo emitidas até hoje partiu de seguradoras e resseguradoras. Mas, desde meados dos anos 2000, os próprios países colocam no mercado cat bonds“soberanos” – da mesma forma que se fala em dívida soberana. Essa tendência, lançada pelos teóricos contemporâneos de seguros advindos da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, uma das escolas de comércio mais prestigiadas do mundo, é fortemente encorajada pelo Banco Mundial e pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Este deslocamento ilustra a ligação estreita que se estabelece entre a crise de orçamento dos países (endividamento e queda das suas receitas) e a crise ambiental. Por causa das dificuldades que atravessam, os países mostram-se cada vez menos capazes de assumir o custo dos seguros contra desastres climáticos pelos meios convencionais, ou seja, principalmente por impostos. E essa incapacidade fica a cada dia mais evidenciada conforme aumentam o número e o poder dos cataclismos causados pelas mudanças climáticas. Para governos em apuros, a financeirização dos seguros de riscos climáticos representa um sopro de oxigênio: a titularização como substituto ao imposto e à solidariedade nacional. Esse é um ponto de fusão entre a crise ecológica e a financeira, como mostra o exemplo mexicano.
Furacões no Golfo do México, terremotos, deslocamentos de terra ou erupções do Popocateptl: o México parece cercado por ameaças “naturais”. Segurador em última instância em caso de catástrofes, o Estado indemniza as vítimas com o orçamento federal, ou seja, graças aos impostos, segundo o princípio da solidariedade nacional consubstancial ao Estado-nação moderno. Em 1996, o governo lançou o Fondo de Desastres Naturales (Fonden), destinado na época a fornecer ajuda de urgência aos acidentes e permitir a reconstrução das infraestruturas. Esse dispositivo funcionou até uma série de catástrofes com custo exorbitante se abater sobre o país. Em 2005, o governo federal gastou 800 milhões de dólares para cobrir esses danos, quando só tinha… 50 milhões para gastar. (3)
Critérios muito rigorosos
A ideia de titularizar o seguro de riscos de tremores de terra se concretizou no ano seguinte, com o incentivo do Banco Mundial. Em 2009, o país decidiu incluir no dispositivo os furacões, o que deu origem a um programa “multicat”, que cobria uma multiplicidade de riscos. Estavam presentes na mesa de negociações somente pessoas de alto gabarito: o ministro das Finanças do México, representantes da Goldman Sachs e da resseguradora Swiss Re Capital Markets, encarregados de vender o programa aos investidores. A Munich Re também estava presente, bem como dois grandes escritórios de advocacia norte-americanos, Cadwalader, Wickersham & Taft e White & Case. A Applied Insurance Research (AIR), agência de modelização encarregada de estabelecer os parâmetros para o lançamento da obrigação – o nível de gravidade no qual os investidores perderiam seu dinheiro –, elaborou dois modelos: um para os terremotos e outro para os furacões. Depois de estar registado nas Ilhas Caimão pela Goldman Sachs e pela Swiss Re, o cat bond foi vendido aos investidores em turnês de promoção organizadas pelos bancos.
Cada vez que uma catástrofe abate o México, a agência AIR determina se o acontecimento corresponde aos parâmetros estabelecidos pelos contratantes. Se for o caso, os investidores devem colocar o dinheiro à disposição do Estado do México. Caso contrário, não gastam nada e continuam a lucrar com o seguro.
Em abril de 2010, um terremoto arrasou o estado da Baja Califórnia, mas o seu epicentro encontrava-se a norte da zona delimitada pelo cat bond. Resultado: o dinheiro da obrigação não foi libertado, e o México continuou a pagar juros. Da mesma forma, quando um furacão atingiu o estado de Tamaulipas dois meses depois, sua força foi inferior ao nível predeterminado, e o México não viu a cor dos dólares. Os critérios são tão rigorosos que apenas três dos duzentos cat bonds emitidos em quinze anos foram acionados (The Economist, 5 out. 2013).
No Sudeste Asiático, região particularmente exposta, a introdução de cat bonds soberanos opera segundo modalidades particulares [4]. Na Indonésia, maior país muçulmano do mundo, os princípios de seguros islâmicos, o takaful, aplicam-se. Sem poder ignorar que o setor apresenta após uma década um crescimento anual de 25% (contra os 10% obtidos pelo mercado tradicional de seguros), a resseguradora Swiss Re esforça-se para reforçar sua sharia credibility, segundo a sua própria expressão [5]. Os países em desenvolvimento são com frequência os mais duramente afetados por catástrofes climáticas, tanto por razões geográficas como por não possuírem os mesmos meios para enfrentá-las que os países ocidentais. O aumento do nível do mar atinge tanto a Holanda como Bangladesh, mas é preferível enfrentar as ondas em Amsterdão a encará-las em Munshiganj. [6]
As obrigações de catástrofe – ou, em outro género, os créditos de carbono – não são os únicos produtos financeiros ligados a processos naturais. Os derivados climáticos, por exemplo, propõem aos investidores apostas em relação ao tempo que faz, ou seja, sobre as variações da meteorologia que não representem uma interrupção no curso normal da vida social. Desde eventos desportivos a colheitas, passando pelo granizo, concertos de rock e variações no preço do gás, bem como diversos outros aspetos das sociedades modernas são influenciados pelo tempo. Estima-se que um quarto da riqueza anual produzida pelos países desenvolvidos esteja suscetível a sofrer impactos em relação ao tempo.7 O princípio do derivado climático é quase infantil: uma quantia financeira é libertada para o lucro de quem o adquiriu caso as temperaturas – ou algum outro parâmetro meteorológico – superem, ou não atinjam, um nível predeterminado; por exemplo, se o frio – e, portanto, os gastos com energia – excede certo nível ou se a chuva restringe a frequência de um parque de diversões durante o verão.
No ramo agrícola, alguns derivados têm como subjacente – o ativo real sobre o qual um instrumento financeiro versa – o tempo de germinação das plantas. Um índice como o “grau por dia de crescimento” (growing degree days) mede a diferença entre a temperatura média que uma plantação necessita para amadurecer e a temperatura real, ativando o pagamento de determinada quantia caso seja ultrapassado um nível estabelecido. Em caso de um swap (“troca”), duas empresas afetadas de maneira oposta pelas variações climáticas podem decidir se segurarem mutuamente. Se uma empresa de energia perde dinheiro em caso de um inverno pouco rigoroso e o mesmo ocorre com uma empresa de eventos desportivos em caso de inverno muito rigoroso, cobrem-se com um montante predeterminado conforme o termómetro sobe ou desce.8
Os ancestrais dos derivados climáticos apareceram na agricultura no século XIX, principalmente nos Estados Unidos, no Chicago Board of Trade. Tratavam de matérias-primas como algodão e trigo.9 No momento da libertação e da aglutinação dos mercados financeiros, nos anos 1970, e da proliferação dos derivados, os subjacentes potenciais multiplicaram-se. Pioneiras nesse ramo, as multinacionais de energia, entre elas a Enron, encontraram nos derivados um meio para “suavizar” os seus riscos de perdas.10 Desse modo, após o inverno de 1998-1999, particularmente brando nos Estados Unidos por causa do fenómeno La Niña, algumas termoelétricas decidiram utilizar os derivados para se “cobrir” – para essas empresas, as flutuações de alguns graus implicavam variações financeiras colossais. A partir de 1999, os derivados climáticos passaram a ser trocados no Chicago Mercantil Exchange, historicamente especializado em produtos agrícolas. O surgimento desses produtos financeiros está atrelado ao movimento de privatização dos serviços meteorológicos, principalmente nos países anglo-saxões: são eles que, em última instância, determinam o nível que precisa ser atingido para que um derivado seja acionado.
Num artigo intitulado “Pourquoi l’environnement a besoin de la haute finance” [Por que o meio ambiente precisa da alta finança], três teóricos de seguros sugerem atualmente a implantação do species swap, um tipo de derivado que trata do desaparecimento de espécies.11 A interpenetração das finanças e da natureza assume aí uma de suas formas mais radicais: tornar a preservação das espécies rentável para as empresas, a fim de incentivá-las a tomar conta da biodiversidade. Na verdade, essa missão custosa cabe hoje ao Estado, cujos cofres estão cada dia mais vazios. Ainda nesse tema, o aumento da crise fiscal justifica a financeirização da natureza.
Imaginemos que o estado da Flórida assine um contrato de species swap com uma empresa, tendo como subjacente uma variedade de tartaruga ameaçada que vive nos arredores da contratante. Se o número de espécies aumentar por causa da atenção dedicada pela empresa, o estado paga juros a esta; porém, se as tartarugas rarearem ou se aproximarem da extinção, é a empresa que tem de pagar ao estado, para que este possa iniciar uma operação de salvação.
As “hipotecas ambientais” (environmental mortgages) – tipo de subprime cujo subjacente não é um bem imobiliário, e sim uma parte do meio ambiente –, os títulos garantidos por florestas (forest backed securities) e ainda os mecanismos de compensação de zonas húmidas (wetlands), legalizados nos Estados Unidos pela administração do presidente George H. Bush durante os anos 1990, constituem outros exemplos de produtos financeiros desse tipo.
O capitalismo, segundo o teórico do ecossocialismo James O’Connor, implica “condições de produção”.12 À medida que se desenvolve, enfraquece e até destrói as suas condições de produção. Se o petróleo barato permitiu durante mais de um século o funcionamento daquilo que Timothy Mitchell chama de “democracia do carbono”,13 a sua escassez aumenta consideravelmente os custos da indústria. O capital precisa destas condições de produção, mas não consegue evitar que, por sua ação, as fontes se esgotem. É o que O’Connor chama de “segunda contradição” do sistema: aquela entre o capital e a natureza, ao passo que a primeira opõe o capital e o trabalho.
Essas duas contradições entrelaçam-se: o trabalho humano gera valor transformando a natureza. A primeira contradição conduz a uma baixa tendenciosa da taxa de lucro, ou seja, ao surgimento de crises profundas do sistema. A segunda induz a um encarecimento crescente da manutenção das condições de produção, que pesa igualmente na queda da taxa de lucro, pois volumes crescentes de capitais empregados nessa manutenção – por exemplo, para pesquisas de reservas de petróleo, cujo acesso está cada vez mais difícil – não são transformados em lucro.
Nessa configuração, o Estado moderno tem um papel de interface entre o capital e a natureza: ele regula o uso das condições de produção para que elas possam ser exploradas. O objetivo do ecossocialismo consiste em desfazer o tríptico formado pelo capitalismo, a natureza e o Estado. Trata-se de impedir este último de trabalhar a favor dos interesses do capital e reorientar a sua ação a favor do bem-estar da população e da preservação do equilíbrio natural. A conferência Paris Climat 2015 (COP 21), na qual o governo do presidente François Hollande parece estar depositando grandes esperanças, oferecerá ao movimento global pela justiça climática uma chance de expressar essa reivindicação.
Listas negras
O seguro moderno é indissociável do resseguro – o “seguro das seguradoras” –, que o segue como a sua sombra. Permite às seguradoras se prevenirem contra riscos que julgam importantes, por isso contratam um seguro para seguros. O mecanismo é o mesmo que no grau inferior: a seguradora paga um montante à resseguradora, que lhe pagará indemnizações caso ocorra algum acidente. Esse montante normalmente é reinvestido pela resseguradora em outros títulos financeiros, cujos lucros servem para reembolsar as seguradoras. Sendo assim, as resseguradoras ocupam desde o século XIX a vanguarda da finança internacional. O setor – hoje em dia dominado pelas companhias Munich Re (fundada em 1880) e Swiss Re (criada em 1863) – surgiu após incêndios que devastaram grandes cidades. Em 1842, Hamburgo ardeu em chamas; as seguradoras alemãs entraram em situação de calamidade, e assim nasceu o resseguro.
Diversos tipos de risco reviraram o setor recentemente: terrorismo, riscos tecnológicos e multiplicação de desastres naturais – principalmente por causa das mudanças climáticas – com custos cada vez mais elevados. A Swiss Re produz dados anuais bem completos, compilados em uma revista chamada Sigma, sobre a amplitude dos desastres humanos e seus danos materiais.1 Os números tratam principalmente dos bens assegurados, ou seja, dos totais que as seguradoras e resseguradoras pagaram a seus clientes. Nela é possível constatar que, nos países em desenvolvimento, apenas 3% dos bens perdidos são segurados, contra mais de 40% nos países desenvolvidos.2
Com 75 mil milhões de dólares, o furacão Katrina, que atingiu a região de Nova Orleãs em 2005, é considerado até hoje o episódio mais custoso da história em danos segurados desde 1970 – época na qual esses dados começaram a ser compilados. A conta sobe para até 150 mil milhões de dólares se adicionarmos os bens não assegurados. Aparecem em seguida na lista o terremoto seguido de um tsunami no Japão em 2011 (35 mil milhões) – que provocou a catástrofe nuclear de Fukushima –, o furacão Andrews de 1992 nos Estados Unidos (25 mil milhões) e os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 (24 mil milhões); estes últimos foram os mais custosos na categoria que a Swiss Re chama de “técnicos”, ou seja, sem relação com um fenómeno natural.
Na França, em 2003, ano da onda de calor, o custo agregado dos cataclismos naturais passou de 2 mil milhões de euros, um recorde para o país. Nos últimos vinte anos, o principal risco natural eram as inundações, seguidas pelas secas. Dos 25 desastres mais custosos no período entre 1970 e 2010, mais da metade ocorreu após 2001. O número de furacões de categoria 4 ou 5 dobrou em 35 anos (5 é a força máxima dos ventos).
Este tipo de acontecimento pode ter um custo material elevado e um custo humano baixo, e vice-versa. Os mais mortíferos foram as tempestades e inundações causadas em 1970 pelo ciclone Bhola em Bangladesh (Paquistão Oriental na época) e no estado indiano de Bengala, que fez em torno de 300 mil vítimas. Em terceiro lugar está o tremor de terra no Haiti em 2010, com 222 mil mortos. A onda de calor e a seca europeia em 2003, que provocaram a morte de 35 mil pessoas, ficam em 12º segundo lugar na lista. Aliás, esse é o pior desastre na Europa, que ocupa com os Estados Unidos as mais altas posições do ranking de desastres mais custosos financeiramente. Isso comprova, se necessário, o impacto do desenvolvimento económico sobre a mortalidade nessas situações.
No ano de 2011 – último com números disponíveis –, a Swiss Re contabilizou 325 catástrofes, das quais 175 foram consideradas “naturais” e 150 “técnicas”. A essa segunda categoria, a resseguradora julgou sábio acrescentar… a Primavera Árabe. (R.K.)

Razmig Keucheyan é conferencista de Sociologia na Universidade Paris-Sorbonne e membro do Groupe d'Étude des Méthodes de l'Analyse Sociologique de la Sorbonne (GEMAS).
1 Imelda V. Abano, “Philippines mulls disaster risk insurance for local governments” [Filipinas refletem sobre seguros contra riscos de desastres com governos locais], Thomson Reuters Foundation, Londres, 22 jan. 2014.
2 Cenas burlescas foram descritas por Michael Lewis, “In nature’s casino” [No cassino da natureza], New York Times Magazine,26 ago. 2007.
3 Erwann Michel-Kerjan (org.), “Catastrophe financing for governments: learning from the 2009-2012 Multicat Program in Mexico” [Financiamento de catástrofes pelos governos: aprendendo com o Programa Multicat do México de 2009-2012], OECD Working Papers on Finance, Insurance and Private Pensions, n.9, Paris, 2011. Esse relatório serve de fonte para os dois próximos parágrafos.
4 “Advancing disaster risk financing and insurance in ASEAN countries. Framework and options for implementation” [Avançando sobre financiamento e seguros contra riscos de desastres nos países da Asean. Quadro e opções de aplicação], Banco Mundial, Washington, abr. 2012. Disponível em: .
5 Cf. “Insurance in the emerging markets: overview and prospects for Islamic insurance” [Seguros nos mercados emergentes: visão geral e prospecção para seguros islâmicos], Sigma, n.5, Zurique, 2008.
6 Ler Donatien Garnier, “Au Bangladesh, les premiers réfugiés climatiques” [Em Bangladesh, os primeiros refugiados climáticos], Le Monde Diplomatique, abr. 2007.
7 Frédéric Morlaye, Risk management et assurance [Gerenciamento de riscos e seguro],Economica,Paris, 2006.
8 Melinda Cooper, “Turbulent worlds: financial markets and environmental crisis” [Mundos turbulentos: mercado financeiro e crise ambiental], Theory, Culture & Society, n.27, Londres, 2010.
9 Para uma história desses produtos financeiros, cf. William Cronon, Nature’s metropolis. Chicago and the Great West [Metrópoles da natureza. Chicago e o Grande Oeste], WW Norton, Nova York, 1992, capítulo 3.
10 John E. Thornes, “An introduction to weather and climate derivatives” [Uma introdução para derivativos climáticos e de tempo], Weather, v.58, Reading (Reino Unido), maio 2003; Samuel Randalls, “Weather profits. Weather derivatives and the commercialization of meteorology” [Lucros sobre o clima. Derivativos climáticos e a comercialização da meteorologia], Social Studies of Science, n.40, Kingston, 2010.
11 Cf. James T. Mandel, C. Josh Donlan e Jonathan Armstrong, “A derivative approach to endangered species conservation” [Uma abordagem derivativa para a conservação de espécies ameaçadas], Frontiers in Ecology and the Environment, n.8, Washington, 2010.
12 James O’Connor, Natural causes. Essays in ecological marxism [Causas naturais. Ensaios sobre ecologia marxista], Guilford Press, Nova York, 1997.
13 Timothy Mitchell, Carbon democracy. Le pouvoir politique à l’ère du pétrole [Democracia do carbono. O poder político na era do petróleo], La Découverte, Paris, 2013.
14 Cf. e especialmente “Catastrophes naturelles et techniques en 2011” [Catástrofes naturais e técnicas em 2011], Sigma, n.2, Zurique, 2012. Os dados apresentados provêm desse exemplar.
15 Koko Warner et al., “Adaptation to climate change. Linking disaster risk reduction and insurance” [Adaptação às mudanças climáticas. Ligações entre redução de riscos de desastres e seguros], Secretaria Internacional de Estratégias para a Redução de Riscos de Desastres das Nações Unidas (UNISDR), 2009.
Artigo publicado na edição brasileira do Le Monde Diplomatique