"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 10 de maio de 2014

Quando barbárie queria ter olhos azuis

Remoção de testículos, esterilizações em massa, selvageria sobre anões e gêmeos, exposição a temperaturas extremas, asfixia nas câmaras de gás... O horror nazi-fascista não teve misericórdia. A 69 anos de sua derrota não se apagam  o grito de espanto das vítimas

Por - Luis Hernández Serrano e Roberto Regincós Álvarez

Foi por iniciativa do próprio Adolf Hitler que se iniciaram os experimentos nazistas para a aniquilação imediata d e seus presos, especialmente os comunistas, os ciganos, os judeus, com ênfase nos denominados Mischlinge ou pessoas de sangue misto, com pelo menos um avô judeu, e de outras pessoas que eles consideravam que não deveriam viver .

Os médicos Horst Schumann e Carl Clauberg, no campo de concentração de Auschwitz, e Victor Brack em Ravensbrück, lideraram a esterilização de homens, mulheres e crianças por radiação, expondo-os a altas doses de raios-X, causando-lhes queimaduras graves e por conseguinte, a morte .

Posteriormente esses médicos extraíam os testículos dos homens e os enviavam a uma escola em Brelau para exames histopatológicos. Centenas de pessoas de diferentes nacionalidades foram usadas ​​nestas experiências. Então, a maioria deles foram enviados para as câmaras de gás.

A Heinrich Himmler, um dos maiores líderes do nazismo, foi proposto que o método fosse usado em três milhões de judeus (de 11 milhões destinados para o extermínio), desde que estavivessem aptos para o trabalho forçado.

Outras "provas médicas", foram também realizadas pelo Professor Carl Clauberg nos campos de concentração mencionados, para determinar a viabilidade de, supostamente, a esterilização em massa com injeção de produto químico na matriz de milhares de mulheres judias e ciganas na Polônia.

Em 1943, Himmler queria saber o tempo que levaria para esterilizar mil mulheres através de um método eficiente, não-cirúrgico, rápido, barato e sério, a ser amplamente aplicado. Os médicos nazistas inventaram uma forma capaz de esterilizar mil mulheres por dia.

No ano seguinte, em 1944, Dr. Carrl Vaernet em Buchenwald, experimentou em presos uma variante de implante nos testículos de uma " glândula artificial" (um tubo de metal simples) liberando testosterona, capaz de reverter a homossexualidade. Foram utilizados homossexuais e prisioneiros heterossexuais como um grupo de controle, e 50 morreram infectados pelo procedimento.

Experimentos com judeus

Estes experimentos foram realizados em mais de 10.000 seres humanos, contra a sua vontade, cerca de 200 médicos, em coordenação com outros médicos, institutos e universidades na Alemanha e na Áustria.

Havia vários tipos de experimentos: a Luftwaffe (Força Aérea Alemã)  o realizava em Dachau e em outros lugares (sobre sobrevivência e salvamento), incluindo a investigação sobre os efeitos da alta altitude, temperaturas baixas e ingestão de água do mar.

O tratamento médico tinha a ver com pesquisa no cuidado de feridas de guerra, ataques com gás e para o desenvolvimento de agentes imunizantes para tratar doenças transmissíveis e epidemias.

Finalmente foram feitos experimentos "raciais", incluindo a investigação sobre gêmeos e anões, e estudo sexológico e de esqueleto.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou em setembro de 1939, o exército alemão ocupou a metade ocidental da Polônia, onde quase dois milhões de judeus poloneses ficaram sob a esfera de seu poder. Eles foram forçados a se deslocar para guetos cercados por muros e cercas, que logo se tornaram campos de concentração a que eufemisticamente chamados corretivos Campos de trabalho.

Com as sucessivas invasões dos países vizinhos, o de Auschwitz-Birkenau, Bergen-Belsen, Buchenwald, Dachau, Treblinka, Belzec, Semlin, Rosen Gross, Vught e outros foram criados.

Estes pequenos territórios na Alemanha, Polônia e parte do que era então a União Soviética, levou milhões de prisioneiros da Europa ocupada.

As câmaras de gás foram baseadas em monóxido de carbono, cianeto ou um pouco de ácido clorídrico, 'Zyklon B' e outros, sintetizado por químicos alemães para matar 2.000 pessoas, com apenas um litro de pesticida a um custo de meio centavo por vítima.

Em diferentes áreas enormes fornos, crematórios foram construídos para incinerar os corpos das vítimas e apagar os rastros de destruição. Depois destes esgotarem a capacidadede cerca de 5000 corpos por dia, as cremações foram realizadas ao ar livre.

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, cerca de seis milhões de judeus, prisioneiros de guerra soviéticos, eslavos, ciganos,  trabalhadores estrangeiros, partidários, homossexuais, testemunhas de Jeová, dissidentes políticos do Reich, comunistas e outros grupos "indesejáveis" tinham sido mortos: cerca de 3 milhões em centros de extermínio e campos de trabalho, 1,4 milhões em fuzilamentos em massa, e mais de 1,6 milhão nos guetos onde se experimentaram  diferentes modalidades de execução cruelmente.

Uma vez que o Dr. Josef Mengele demonstrou que não tinha parentes  judeus até a quarta geração foi aceito no Schutzstaffel ou SS, criada por Hitler como  unidades defensivas para monitorar e controlar o Partido Nacional-Socialista. Em seguida, solicitou a sua transferência para os campos de concentração, onde ele iria encontrar facilidades para continuar suas pesquisas. Enquanto em 1942 o Rosen Gross na Silésia, dirigia experimentos bacteriológicos com soldados soviéticos.

Este último consistia no congelamento de prisioneiros e sua exposição ao calor. Estas experiências, ordenados por Himmler, foram conduzidas pelo Untersturmführer-SS (Tenente 2) Dr. Sigmund Rascher em Auschwitz, Birkenau e Dachau. O objetivo foi determinar o tempo que levou a parte inferior do corpo para morrer e como reanimá-lo.

Para ele mandavam judeus nus ou russos em tigelas de gelo ou deixados ao ar livre durante os períodos mais frios do inverno. Os sobreviventes pereceram em manobras de descongelamento durante o qual se alimentavam de líquidos quentes por via oral ou retal.

Outros morreram quando eram levados, de repente, do frio intenso para altas temperaturas, ou vice- versa, ou quando submetidos a lâmpadas solares para queimar.

Experimentos com gêmeos

Como um dos principais objetivos do Hitler era obter a pureza da raça nórdica ariana, os indivíduos que foram submetidos a mais testes foram os gêmeos, nos quais foram realizados experimentos macabros como animais de laboratório.

Eles tomaram medidas do corpo centímetro a centímetro e são feitos sem anestesia biópsias de diferentes órgãos, antes e depois de serem colocadas à prova, com agentes psicológicos físicos, químicos.

O conselheiro e amigo de Mengele era o Professor Otmar Freiherr von Verscheur, que correspondia, em seu novo Instituto de Genética, em Berlim. A um ou ambos os gêmeos foram extirpados órgãos ou membros, os castravam e realizavam cirurgias de mudança de sexo.

Como Mengele era fascinado por olhos azuis, constantemente fazia injeção de colorantes nas crianças no olho para mudar sua cor. O interesse deste assassino genótipo humano loiro com olhos azuis é curioso, uma vez que nem ele, nem seus superiores tinham essas características físicas.

Fazia transfusões de sangue entre gêmeos,  injetava nas veias dos pacientes  diferentes extratos com germes letais, ou fenóis, clorofórmio, gasolina, inseticidas, etc. E em outros são as veias das extremidades extirpado.

Um sobrevivente contou como sua irmã gêmea, teve por Mengele quebrada uma de suas mãos. Ele supervisionou a cirurgia em que ambos os gêmeos foram suturados para criar siameses. Eram freqüentes a vivissecção sem anestesia e as pessoas conscientes. Faziam várias operações sobre a coluna vertebral. Obviamente, ninguém sobrevivia a suas cirurgias tenebrosas ou às sequelas.

Cada vez que ensaiava uma nova prova injetava clorofórmio no coração de ambos os gêmeos para assegurar-se de que morreriam ao mesmo tempo. Em seguida, eles faziam uma autópsia para ver os efeitos de seus experimentos genéticos sobre os corpos. Assim, a idéias insanas de Mengele cobraram até 60 vítimas diárias.

Ele era conhecido como o Anjo da Morte. Dos 3.000 gêmeos que passaram por Auschwitz-Birkenau apenas 200 sobreviveram no momento em que receberam a ordem para suspender os experimentos em 26 de novembro de 1944, devido ao avanço do Exército Vermelho da União Soviética, o que levaria a posse do território.

Josef Mengele fugiu para a Itália em 1949, com documentos falsos; logo depois que ele chegou em Buenos Aires, onde encontrava segurança, porque na Argentina houve uma organização secreta conhecida como Odessa, responsável pela concessão de salvo-condutos para ex-oficiais da SS. Em 1960, o país latino-americano teve lugar ao sequestro de Adolf Eichmann a mãos de um comando da polícia secreta de Israel que o levaram para a forca. Isso causou pânico em Mengele, então ele mudou-se para o Paraguai, um país governado pelo general Alfredo Stroessner, um descendente de alemão e admirador dos nazistas. Perseguido pelos israelenses mudou para o Brasil, onde morreu em 1979, afogado no mar enquanto se banhava, como resultado de um ataque cardíaco.

Houveram ainda dúvidas sobre a autenticidade desse corpo, mas o teste de DNA foi realizado por vários governos verificando a identidade do criminoso de guerra mais procurado na Alemanha, nos EUA e em Israel.

Fonte:  El III Reich por dentro, libro inédito de ambos autores.

Lento crescimento dos EUA confirma estancamento secular

Produto Interno Bruto dos EUA cresceu a uma taxa anual de 0,1% no primeiro trimestre, longe do 1,1% que esperava o mercado. Este fato confirma a debilidade que atravessa a economia mundial. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón.

O crescimento dos Estados Unidos estancou nos três primeiros meses do ano demonstrando mais uma vez que a expansão econômica depois da crise 2008/2009 continua a ser a mais fraca da história moderna. O Produto Interno Bruto cresceu a uma taxa anual de 0,1% no primeiro trimestre, longe do 1,1% que esperava o mercado. Este fato confirma a debilidade que atravessa a economia mundial e traz de volta uma antiga preocupação da investigação econômica: o estancamento secular.
Como apontamos noutros posts (ver aqui aqui), o déficit crônico do investimento, impulsionado pela debilidade da procura e do consumo, está a implicar uma desaceleração global da economia. O volume da atividade econômica nos países desenvolvidos continua a ser muito deprimido e o que se observa é um estancamento econômico persistente. Os baixos salários, a alta dívida pública e privada e a queda do investimento – apesar de a taxa de juros estar em mínimos históricos – criam um cenário ao estilo japonês, com uma “década perdida” para o mundo.
Como demonstrou a crise nipônica, não é fácil escapar a uma década perdida. O ocidente minimizou o problema, pensando que se resolvia com uma série de agressivas políticas monetárias e fiscais. E agora, que sofre da mesma doença, tentou aplicar a mesma receita, obtendo o mesmo fracasso macroeconômico. Apesar de os bancos centrais se excederem nas suas funções, os resultados da sua “generosidade” têm sido decepcionantes. As baixas taxas de juros sempre incubaram a crise seguinte e desta vez não há motivo para que seja diferente.
Os bancos centrais, que durante décadas fizeram do controle da inflação o seu único objetivo de política, veem agora com frustração como grande parte da “eficácia” das suas políticas era produto da sustentada redução dos salários e do crescente aumento da desigualdade. A política monetária dos banqueiros centrais e a manipulação da taxa de juros sempre deu benefícios aos donos do capital, porque com preços fixos o capitalista obtém amplas vantagens para a criação de bolhas e a inflação do valor dos ativos.
Esquema “ponzi” permanente
Muito antes da explosão da crise 2008/2009 sabia-se que as bolhas eram a única via para as economias ricas poderem manter o crescimento e o emprego. O estouro das bolhas demonstrou que o capitalismo precisa de crescentes expansões monetárias e daí a elaboração constante de esquemas “ponzi” para se manter à tona. O endividamento privado das famílias e das empresas foi o principal motor da economia nos últimos 60 anos. Este gráfico do endividamento dos lares em comparação ao PIB nos Estados Unidos confirma que o capitalismo precisa sempre de nova dívida para manter uma economia estável.
As áreas cinzentas indicam as recessões dos EUA
As áreas cinzentas indicam as recessões dos EUA
Este gráfico mostra-nos que o endividamento se manteve sempre crescente, apesar dos vai-vens ou choques na taxa de juros da Reserva Federal. A queda de 1981, quando Paul Volcker elevou a taxa de juros para os 20%, foi minúscula em comparação à queda que sofre o nível de endividamento desde que começou a crise 2008/2009. A descida das taxas de juros para 0,25% não significou uma retomada do investimento, dado que os investidores recebem melhores benefícios no casino da bolsa e isso fez disparar as bolhas bolsistas. Para incentivar o investimento produtivo e gerar emprego, as taxas de juros reais deveriam ser negativas, de -2% ou -3%, o que com uma inflação de 0,5% ou 1% se torna inalcançável.
O estancamento secular
A hipótese do estancamento secular foi popularizada pela primeira vez por Alvin Hansen, economista e discípulo de John Maynard Keynes. Em 1938, e depois do fraco reanimamento econômico da crise 1929/1933, Hansen vislumbrou que uma desaceleração do crescimento demográfico e do progresso tecnológico reduziria oportunidades de investimento. O crescimento se desabaria a não ser que os governos pedissem emprestado e passassem a incentivar a procura. Depois da Segunda Guerra Mundial, veio um auge no crescimento demográfico, do crescimento global e os Estados Unidos converteram-se na primeira potência econômica. O interesse nesta hipótese desapareceu.
A hipótese do estancamento secular de Hansen voltou novamente ao debate por causa da queda do investimento, que ocorreu apesar da tendência decrescente das taxas de juros. Desde há mais de uma década, o rendimento dos bônus da dívida soberana caiu e desde a explosão da crise de 2008/2009 o endividamento privado também se contraiu. É isto que explica o alto risco que atravessa a banca, já que as injeções de liquidez derivaram em investimentos especulativos que têm feito crescer as bolhas de ativos, tal como antes da crise.
Uma explicação para o processo de estancamento secular que atinge a economia é a desalavancagem a que recorre grande parte das instituições financeiras e empresas privadas. Todos parecem ter chegado aos seus máximos níveis de endividamento, o que leva a que agora ponderen os riscos de um desmedido crescimento da dívida. Daí também que o estancamento ameace ser um fenômeno prolongado. Uma economia acostumada a crescer pela via do endividamento tem de mudar de paradigma quando os antigos modelos fracassam.
3 de maio de 2014
Tradução de Luis Leiria para a o Esquerda.net

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Brasil sem sentido

Nesta tarde na TV continuo com entusiasmo o show em torno de uma redução da maioridade penal para redimir o país. Uma parte da nação acaba idolatrando esses programas policiais e seus apresentadores, dando confiança a seus "pontos de vista", uma realidade política anêmica e de profunda miséria, mas é puro desconhecimento da realidade social brasileira fazer alarde em torno de uma alteração de texto legislativo, há sempre o risco de se mudar o que está escrito e não se mudar nada.

A impunidade no Brasil não diz tanto respeito ao que está escrito e sim ao que deixa de ser conhecido. 

Reduzir a violência total levará décadas se houver progressos sociais e que trata aqui de dizer que os "bandidos" são coitados vítimas  da sociedade. A sociedade brasileira é toda ela frouxa de solidariedade, isso aliado de estados de misérias cria um sujeito agressivo sem motivos, bárbaro.

O Brasil tem uma "crítica social" extremamente confusa, o que é um discurso progressista em ouro momento se torna completamente reacionário no mesmo sujeito.

Hessel: ''Não basta se indignar. É a política que muda o mundo'

A indignação não é suficiente. Se alguém acredita que, para mudar as coisas, basta manifestar pelas ruas, está errado. É necessário que a indignação se transforme em um verdadeiro compromisso. A mudança requer esforço.

A opinião é do diplomata e embaixador francês Stéphane Hessel (1917-2013), conhecido como o pai intelectual dos "indignados". O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 20-04-2013.

                                                               ***

Eu nunca pensaria que um pequeno livro de 30 páginas como Indignai-vos! pudesse ter tal repercussão e mobilizar tantas pessoas. Mas o que é certo é que o movimento dos jovens espanhóis na primavera de 2011, adotando a indignação como bandeira, foi um claro apelo para todos, um apelo que superou as fronteiras da Espanha.

O movimento dos Indignados, espontâneo e alheio ao mundo dos partidos políticos tradicionais – que hoje suscitam tanta confiança – representou algo novo, a expressão de uma rejeição das manobras de uma oligarquia, não só financeira, que queria sequestrar o poder político. E a manifestação de uma reivindicação sentida por uma verdadeira democracia. Foi também, por parte dos jovens, uma forma de mostrar a sua responsabilidade através de canais diferentes dos estabelecidos.

A força que esse movimento adquiriu em Espanha não deve nos fazer esquecer que essa aspiração a uma autêntica democracia e essa rejeição da oligarquia são comuns aos jovens de muitos outros países. Movimentos semelhantes de protesto se produziram na Europa, especialmente na Grécia e em Portugal, nos Estados Unidos e na América Latina, na China, na Índia... As formas de contestação popular da chamada Primavera Árabe, que ocorreram em 2010 em vários países do Norte de África, da Tunísia ao Egito, fazem parte dessa corrente de fundo.

O problema, tanto para uns como para outros, é como traduzir esse movimento em uma alternativa eficaz para mudar as coisas, para influenciar as escolhas do governo e promover as reformas desejadas pela maior parte dos cidadãos. No caso da Espanha, a trajetória dos Indignados nem sempre foi fácil de decifrar. Em 2011, paradoxalmente, os Indignados derrubaram um governo de esquerda e contribuíram para entregar o poder a um governo de direita muito distante das suas reivindicações.

Eu fui um dos primeiros defensores de José Luis Rodríguez Zapatero: eu pensava que um governo socialista faria a política de que os espanhóis precisavam. O seu fracasso realmente me decepcionou. [...]

Mas a indignação não é suficiente. Se alguém acredita que, para mudar as coisas, basta manifestar pelas ruas, está errado. É necessário que a indignação se transforme em um verdadeiro compromisso. A mudança requer esforço. É muito bom expressar a nossa rejeição da oligarquia, mas, ao mesmo tempo, é preciso propor uma visão ambiciosa da economia e da política, que seja capaz de transformar a condição do nosso país. Não podemos nos limitar ao protesto. É preciso agir. [...]

A situação hoje na Europa, embora não idêntica, lembra um pouco a situação provocada pela grave crise dos anos 1930, que desembocou na Segunda Guerra Mundial. Hoje também nos encontramos diante de riscos semelhantes. A crise atual e o sofrimento que ela gera exacerbam o ódio e o medo. Os extremismos estão à espreita.

Mas o caminho da revolução, das ideologias totalitárias, não leva a lugar nenhum. Revolução e totalitarismo são palavras que levam uma à outra. Eu nasci com a revolução soviética e, talvez, por sua culpa, contraí a alergia à ideia de revolução... A resposta ao sofrimento causado pela crise não me parece que possa ser dada por um Fidel Castro ou um Che Guevara, mas sim por uma aliança das forças democráticas reformistas em defesa dos valores democráticos.

Durante o século XX, muitos europeus – espanhóis, franceses, italianos... – se renderam a movimentos organizados e a ideologias que se apossaram das suas consciências, estabelecendo aquilo que podia ou não podia ser, e que os levaram a perder toda a confiança em si mesmos. O ser humano basta a si mesmo, não precisa de um líder supremo. Por todos esses motivos, eu nunca fui comunista. E nem mesmo anticomunista.

É que eu não acredito que a mudança possa vir de ações revolucionárias ou violentas que destroem a ordem estabelecida. Eu acredito em um trabalho inteligente, de longo prazo, através da ação e da concertação política e da participação democrática. A democracia é o fim, mas também deve ser o meio.

Os Indignados espanhóis foram criticados pela incapacidade de traduzir o seu movimento em uma organização eficaz. De um certo ponto de vista, essa é a sua principal fraqueza. Mas também é a sua grandeza. Um excesso de organização também pode ser um perigo. E, em certo sentido, estou particularmente contente por ver que os Indignados espanhóis foram suficientemente prudentes para evitar a tentação de se colocarem nas mãos de um grande líder incontestável. Não há nenhuma necessidade de uma organização piramidal, onde alguns – os líderes – dão as ordens, e os outros as executam.

Então, como canalizar esse impulso? Como fazê-lo frutificar? Um dos campos em que os jovens que querem mudar as coisas podem mostrar-se úteis é o âmbito da economia social e solidária. O âmbito da defesa da ecologia e do ambiente é outro. São dois lados da mesma moeda. Só nos salvaremos se criarmos um novo modelo de desenvolvimento, socialmente justo e que respeite o planeta.

Além disso, é preciso redescobrir o gosto pela política, porque sem política não pode haver progresso. Há muitos modos de intervir na política, de suscitar o debate, de propor ideias. O escritor Václav Havel, histórico dissidente contra a dominação soviética e defensor dos direitos humanos, que assumiu a presidência da antiga República da Tchecoslováquia depois da queda do Muro de Berlim, disse uma vez: "Cada um de nós pode mudar o mundo. Mesmo que não tenha nenhum poder, mesmo que não tenha a menor importância, cada um de nós pode mudar o mundo". [...]

Os partidos políticos tradicionais se encerraram demais em si mesmos. Estão anquilosados e precisam de uma sacudida. Apesar de tudo, porém, continuam sendo um instrumento essencial da participação política. Eu acredito que também não devemos duvidar da oportunidade de entrar em um partido. Estou totalmente convencido de que devemos utilizar as forças políticas existentes. Melhor ficar dentro do que fora. Aos meus amigos, eu sempre repito a mesma coisa: se vocês querem combater os problemas, se vocês querem que as coisas mudem, nas democracias institucionais em que vivemos, o trabalho deve ser feito com a ajuda dos partidos. Até mesmo com os seus defeitos, as suas imperfeições, as suas insuficiências.

Cada um de nós deve encontrar o partido mais próximo das próprias preocupações, o mais disposto a apoiar as próprias reivindicações e fazer parte dele. Não devemos nos iludir. Vocês nunca encontrarão um, nem mesmo um, que coincida 100% com a sua linha. Mas as coisas são assim, isso faz parte do jogo. Vocês acham que não têm o vigor suficiente? Que não são determinados o suficiente? Não se esqueçam que são vocês que podem lhes infundir esse vigor e essa determinação.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Esquerda contra o jeitinho brasileiro

Como um programa de esquerda adequaria a administração pública em um estado como o Rio Grande do Norte onde ela é  amesquinhada, principalmente nos  pequenos municípios onde o controle é pouco ou inexistente.

Neste ponto a esquerda tem que ser muito mais prática, já que se perde muitas vezes em discursos generalizantes e corre o risco de em chegando o poder ser engolida pelos jeitinhos.

Os municípios são miseráveis e na proporção da miséria vai a precariedade da Administração abrindo os espaços para as trocas de favores.

Esta semana a Vereadora do PSTU em Natal fez um discurso interessante acerca dos concursos públicos e contra o clientelismo, isso significa briga contra o jeitinho.



Quem bate de frente com o jeitinho será mal visto por uma parte e fomentada essa mal visão por parte dos que dela se utilizam, mas a esquerda quem que apostar na juventude rebelde e crítica.

OMS: Apenas 12% da população urbana conta com boa qualidade do ar

Avaliação da Organização Mundial da Saúde em 1600 centros urbanos alerta que a poluição do ar está piorando em todo o planeta; a cidade brasileira mais poluída seria Santa Gertudes, no interior de São Paulo

Autor: Fabiano Ávila   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil



Mais da metade da população mundial está exposta diariamente a uma poluição do ar pelo menos 2,5 vezes acima do nível máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O que explicaria o número absurdo de sete milhões de mortes todos os anos em decorrência de doenças provocadas pela má qualidade do ar, dado divulgado em março pela entidade.


A OMS apresentou nesta quarta-feira (7) um novo relatório sobre a qualidade do ar em 1600 cidades de 91 países, e destacou que apenas 12% das pessoas que vivem em centros urbanos respiram um ar considerado bom pelos critérios da entidade.

O documento compara ainda os dados atuais com os de 2011, e salienta que a qualidade do ar está caindo em todo o planeta.

“Muitos centros urbanos estão tão envoltos em poluição que os seus edifícios são invisíveis. Assim, não é surpresa que o ar seja perigoso de se respirar”, afirmou Flavia Bustreo, diretora-assistente da OMS para Família, Crianças e Mulheres.

A Índia concentra a maior quantidade de cidades poluídas, sendo que a capital Delhi apresenta uma média de 153 microgramas de partículas com um diâmetro menor do que 2,5 micrometros no ar por metro cúbico (PM 2,5), ficando com o título de local com a pior qualidade do ar do mundo.


Estranhamente, a China, notória por suas cidades poluídas, não está tão mal no relatório. Pequim, que com frequência aparece nos noticiários internacionais por seus dias de recorde de poluição, quando de acordo com medições independentes chega a ultrapassar os 400 PM 2,5, está em apenas 77º na lista das mais poluídas da OMS, com 56 PM 2,5.


A OMS esclareceu que compila dados oficiais fornecidos pelos governos nacionais e locais, então existe a possibilidade de que essas informações não sejam inteiramente confiáveis.
Brasil

Quem imaginou que São Paulo seria a cidade brasileira com a maior poluição do ar se enganou, a metrópole aparece com apenas 19 PM 2,5, bem abaixo da “campeã” Santa Gertudes, no interior paulista, com 44 PM 2,5.

O que explicaria a péssima qualidade do ar em Santa Gertudes seria a concentração de fábricas de cerâmica e a poeira das estradas levantada pela passagem constante de caminhões.

Outros destaques negativos na lista da OMS, que traz 40 municípios brasileiros, são o Rio de Janeiro, 36 PM 2,5; Belo Horizonte, 28 PM 2,5; e Rio Claro, 27 PM 2,5.

Os positivos ficam para Salvador, 9 PM 2,5; Marília, 11 PM 2,5; e Presidente Prudente, 12 PM 2,5.
Na média, o Brasil aparece com 22 PM 2,5.

Desafio

A OMS indica que muitos fatores contribuíram para a queda na qualidade do ar, como o aumento da dependência dos países em desenvolvimento dos combustíveis fósseis, a participação excessiva de automóveis particulares na mobilidade urbana e a falta de preocupação com o uso racional da energia.
No entanto, a entidade destaca que muitas cidades estão fazendo melhorias, mas que mais países deveriam encarar o desafio de lidar com esse sério problema.

“As políticas que precisam ser colocadas em prática já são bem conhecidas, mas ainda não são aplicadas na escala necessária”, afirmou Maria Neira, diretora da OMS para Saúde Pública e Meio Ambiente.
Entre essas políticas, a diretora cita o estimulo ao transporte coletivo, o incentivo à redução de consumo de eletricidade, o investimento em fontes limpas de energia e leis de regulamentação de emissões de poluentes para setores industriais.

“Cidades como Copenhague e Bogotá, por exemplo, melhoraram a qualidade de seu ar promovendo o que chamaram de ‘transporte ativo’, priorizando a construção de redes de mobilidade que incentivam a bicicleta, a caminhada ou veículos coletivos”, disse Neira.

“Não podemos comprar um ar limpo em uma garrafa, mas cidades podem adotar medidas que limparão o ar e salvarão a vida das pessoas”, completou Carlos Dora, coordenador do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS.

Os dados de cada cidade e país podem ser conferidos neste documento xls.

Imagens: Poluição do ar na Cidade do México e em Pequim / Wikimedia Commons / Greenpeace

Doadores de campanha em 2010 José Agripino e Henrique Alves

Entre os doadores da campanha do atual presidente da Câmara dos Deputados e provável candidato da oligarquia Alves ao governo do Rio Grande do Norte estão a Gerdau e a empresa de comunicação da própria família do deputado Tribuna do Norte. Na lista ainda se encontram empresas do setor do camarão, de derivados do petróleo, da Indústria Têxtil, que talvez seja a que mais viola as leis trabalhistas no estado,  e também bancos e empresas do setor agropecuário.

Proibidas as doações, não se fechará o ciclo já que depois de nova legislação no Brasil sempre há os escapes, mas a questão é que não tocam nisso na campanha, de que lado estão? O que fazer com as terras da Chapada do Apodi e das terras ocupadas pela empresa Del Monte sediada em um paraíso fiscal e que explora terras na região fruticultora do Vale do Açu?

Pelo contrário, Henrique foi um dos maiores defensores do projeto de irrigação na Chapada do Apodi que destroçaria o modelo de agricultura familiar lá predominante.

Com relação às mídias, a família Alves domina mesmo, além da Tribuna do Norte a família conta com a afiliada à Rede Globo no Estado.

Outro candidato do RN, o Senador José Agripino Maia, recebeu doações da Bunge Fertilizantes, de alguns bancos, entre eles o Itaú e do Grupo Votorantin.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Como os oligarcas tornam uma eleição mesquinha no RN

A "política" do Rio Grande do Norte caminha preferentemente para a hipocrisia, numa eleição, forçada a ser a única "política permitida", são pequenos núcleos frouxos passíveis de demagogias e, existem dois tipos possíveis dessas demagogias frouxas. O primeiro é o de serviços públicos requeridos, é só pautar neles. O outro é por trás dos bastidores, nas facilitações, nas trocas de favores.

Questões econômicas, como a reestruturação da economia agrícola de pequena propriedade não são atrativos por que mais tarde podem servir como esmolas, para os oligarcas é bom o destroçamento para que seja possível continuar na demagogia.

É impressionante como tudo fica superficial para depois existir uma administração medíocre, esfarrapada, sem organização, uma espécie de sistema perito, distante da realidade dos eleitores e, portanto, aberto para a precariedade, é um uso indevido por trás das cortinas. E isso facilita até as trocas de favores, como não se espera algo funcionando adequadamente um favor pode valer na pena.

Geralmente as campanhas descambam para trocas de acusações e autodefesas que se espalham entre o público, ficando por trás tudo o que interessa, mas também se sabe como tornar insignificante o que realmente é útil à discussão. Não se vai falar de formas de melhorar a produtividade de pequenos eleitores, vão somente prometer "esmolas" e depois fazer negociatas com o grande agronegócio, por exemplo.

Por isso que digo sempre, não há nada melhor para o RN do que no momento da Campanha o povo fazer sua própria campanha marchando nas ruas sem ser atrás de trios de algum oligarca potiguar. Aliás, é bom rechaçá-los. 

Amazônia tem 174 pessoas ameaçadas de morte por conflitos no campo, diz CPT

Desde que se viu sem a escolta da Força Nacional de Segurança há sete meses, o pastor evangélico Antônio Vasconcelos, 59, passa a maior parte do tempo refugiado na Reserva Extrativista (Resex) do rio Ituxi, um afluente do Purus, no município de Lábrea, a 702 quilômetros de Manaus (AM). Vasconcelos disse à agência Amazônia Real que teme pela sua vida. Ele afirma que só deixa a reserva em situações excepcionais. Sai, discretamente, para participar de alguma reunião sobre as 14 comunidades rurais da resex que ele ajudou a fundar, em 2007. A criação da Resex do rio Ituxi provocou a ira de grileiros, madeireiros e fazendeiros ilegais, que passaram a persegui-lo e ameaçá-lo.

Pastor Antônio Vasconcelos, liderança extrativista, uma das pessoas ameaçadas de morte. Foto: Elaíze Farias.


A reportagem é de Elaíze Farias e publicado pelo portal Amazônia Real, 06-05-2014.

O pastor Antônio Vasconcelos é uma das 174 lideranças da Amazônia incluídas na lista de pessoas ameaçadas de morte do relatório “Conflitos no Campo Brasil 2013”, lançado na semana passada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). A publicação tem 195 páginas e está disponível na internet.

Na lista das pessoas ameaçadas da CPT estão incluídas outras duas lideranças da Resex Ituxi: Francisco Monteiro Duarte e Silvério Maciel. No entanto, Antônio Vasconcelos era o único do Amazonas que até outubro de 2013 tinha escolta policial diária por determinação da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH).

Segundo o relatório da CPT, o Pará é o Estado que tem o maior número de lideranças ameaçadas de morte em consequência de conflitos de campo. Um total de 46 pessoas, seguido dos Estados do Amazonas, com 40, Maranhão, 40, Mato Grosso, 27, Rondônia, 9, e o Acre com duas lideranças.

A CPT diz que, se for levada em consideração a relação das pessoas envolvidas em conflitos com a população rural de cada estado, a situação é preocupante. “Na Amazônia, quase que numa monótona repetição, se concentram os maiores números da violência  contra a pessoa; 20 dos 34 assassinatos ocorreram na Amazônia Legal (59%); 174 das 241 pessoas ameaçadas de morte vivem na Amazônia (72%). Ali também vivem 63 dos 143 presos ( 44%), e 129 dos 243 agredidos, (53%)”, diz trecho do relatório.

Escolta suspensa

Durante dois anos, Antônio Vasconcelos ficou sob a proteção das guarnições da Força Nacional de Segurança após sofrer diversas ameaças e atentados. Cada passo seu era acompanhado por três ou quatro policiais.

Á frente de uma batalha para a criação da Resex do rio Ituxi, Vasconcelos mexeu com interesses de políticos e fazendeiros que ocupavam irregularmente terras públicas. Com apoio da CPT e outras entidades de direitos humanos, passou a receber escolta policial em 2011. Até que em agosto do ano passado, ele solicitou a suspensão da proteção alegando insatisfação com o tratamento “humilhante e agressivo” que recebia dos policiais.

Diferente de outras lideranças que, de diante da pressão das ameaças preferem ir embora de suas comunidades ou assentamentos agrários, Vasconcelos optou por continuar na Reserva Extrativista que ajudou a fundar e a regularizar.

“Estou há dois meses aqui na comunidade, com minha esposa. Estou dando um tempo para evitar algumas coisas (ameaças). Quando tenho que ir a Lábrea, eu vou, mas fico poucos dias. Tenho receio, pois na cidade eu ando de bicicleta e sempre que vejo uma moto perto de mim já acho que querem fazer alguma coisa”, relatou Vasconcelos, em entrevista exclusiva à agência Amazônia Real, de um orelhão (telefone público) instalado há pouco mais de uma semana na comunidade onde vive atualmente.

Antes do orelhão, a comunicação com Antônio Vasconcelos era possível apenas quando ele estava em Lábrea, por meio de celular. Nas poucas vezes em que esteve na cidade desde que perdeu a escolta, Vasconcelos recebeu diversas ligações de números não identificados em seu aparelho. “Só faziam ligar, mas ninguém falava. Acho que é alguma pessoa que estava me observando e me monitorando”, conta.

O deslocamento da comunidade (o nome não será divulgado nesta matéria por medida de segurança) até Lábrea também ficou mais fácil agora que ele comprou uma voadeira com ajuda do filho. “Eu tinha um barquinho, mas levava três dias para chegar em Lábrea. Agora são oito horas de viagem de ida”, disse.

Mesmo sem escolta, Vasconcelos diz que continua no programa de proteção da SEDH. “O que me falam que eles continuam me acompanhando”, diz.

Sul sobre pressão

O sul do Amazonas é a região do Estado onde se registra o maior índice de conflitos agrários, com forte pressão de grilagem (fazendeiros que ocupam áreas públicas) e pistoleiros contratados para pressionar, ameaçar e até matar extrativistas e assentados da reforma agrária que resistem.

No relatório da CPT, das 40 pessoas ameaçadas em 2013 no Amazonas, 21 estão nos municípios de Canutama, Lábrea e Manicoré, todas localizadas no sul do Estado. Mas há também ameaçados de morte nos municípios de Itacoatiara, Novo Airão e Presidente Figueiredo, além da capital Manaus, os quatro na região central do Estado.

Uma das que permanecem na lista, mesmo já tendo saído de seu antigo assentamento, é a agricultora Nilcilene Miguel de Lima, 47. Há pouco mais de dois anos, Nilcilene também perdeu a escolta da Força Nacional de Segurança e teve que fugir de seu assentamento, localizado na Gleba Gedeão, em Lábrea. Hoje, ela vive em uma área cuja localização não pode ser divulgada.

A agência Amazônia Real conseguiu falar com Nilcilene, que continua acompanhando, mesmo de longe, os acontecimentos de seu antigo assentamento.

“Soube que Gedeão virou fazenda. Não tem mais assentado. Eram mais de 160 famílias que foram expulsas por quem ocupa o local hoje. Não tem mais ninguém dos antigos seringueiros”, contou Nilcilene. Segundo ela, o assentamento Gedeão só existe no papel.

“Esses fazendeiros conseguiram ficar. Só uma pessoa do antigo assentamento permanece, acuada pelos fazendeiros. É uma senhora que é ‘muda’. ‘Muda’ porque ela vê, mas prefere não falar nada para não ser expulsa também”, disse Nilcilene.

Segundo o relatório da CPT, com ligeira redução em relação a 2012 (-11%), os conflitos por terra em 2013 atingiram 35.801 famílias na Amazônia Legal, pressionadas para abandonar suas terras. No Acre e Tocantins, as ocorrências de violência contra a Ocupação e a Posse cresceram. No Acre, o número de famílias envolvidas passou de 3.310 para 5.036 famílias, 53%; no Tocantins de 1.456 para 3.682, 153%.

Para a CPT, “as violências denunciam que muitas áreas da Amazônia continuam sendo terra sem lei, palco habitual de atuação de pistoleiros impondo pela força os interesses dos poderosos”.

Impunidade e omissão

“Enquanto houver impunidade e omissão, os ameaçados têm que fugir e quem ameaça e expulsa permanece”, diz Maria Petronila Neto, coordenadora da CPT em Rondônia. Maria Petronila conhece bem a realidade do sul do Amazonas, tendo em vista que fica na divisa com Rondônia. Ela conta que alguns assentamentos, como o Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê, em Lábrea, estão se esvaziando. A principal liderança, Marlon de Oliveira, passou o ano de 2012 sendo ameaçada, até que em 2013 decidiu ir embora.

O PAF Curuquetê ganhou fama há quase três anos, quando sua principal liderança, Adelino Ramos, o Dinho, ex-integrante do grupo conhecido anos atrás como Movimento Camponês Corumbiara, foi assassinado por pistoleiros.

“O Marlon assumiu a liderança no lugar do Dinho, mas ele não quis arriscar morrer. Teve que abandonar o local e agora mora em uma cidade de Rondônia. Enquanto isso, os ameaçadores continuam sem punição, muitos deles até mesmo com a cumplicidade de policiais. São situações de impunidade que fazem com que as pessoas saem matando por aí”, conta a coordenadora da CPT em Rondônia.

No capítulo “Conflitos e violência na Amazônia Legal” do relatório da CPT, Inaldo Vieira dos Santos, Darlene Braga e Josep Iborra Plansi afirmam que a grilagem é uma das principais causas dos conflitos agrários. “A fronteira agrícola avança pela floresta, puxada principalmente por grileiros e madeireiros, sem respeitar reservas naturais, nem territórios tradicionais, especialmente na região do Sul do Amazonas (Lábrea e Humaitá)”, diz trecho do relatório.

O relatório informa que os Estados onde a área em disputa é maior são Pará (1.651.109 ha), Amazonas (1.107.682 ha) e Mato Grosso (400.885 ha). E que em alguns estados cresce a pressão pela redução de áreas de reserva florestal.

Os autores também criticam duramente o programa de regularização fundiária Terra Legal, do governo federal. “A bandeira da regularização fundiária desenvolvida pelo Programa Terra Legal, que deveria recuperar a iniciativa pública no imenso território amazônico, consagra a pilhagem existente na Amazônia, a grilagem e a corrida por terras nas últimas décadas. Beneficiando alguns pequenos posseiros, a maior parte das áreas cadastradas é de grandes grileiros, que se apossaram da maior parte das Terras da União”, diz outro trecho.

Atualmente, o Ministério Público Federal no Amazonas acompanha, alguns deles com inquérito na Polícia Federal, 25 casos de conflitos agrários e grilagem no Estado.

Regularização fundiária

A agência Amazônia Real procurou o Programa Terra Legal e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para os órgãos comentarem o assunto e responder os questionamentos feitos pelos entrevistados. Até a publicação desta matéria, apenas a assessoria do Terra Legal havia se manifestado. Alguns questionamentos, contudo, foram atribuídos como sendo de competência do Incra.

Leia as respostas enviadas pela assessoria do Terra Legal às perguntas enviadas por email.

De que maneira o Terra Legal vem atuando no sul do Amazonas, especialmente nas áreas de maior pressão?

O Programa Terra Legal atua de forma permanente na regularização fundiária de terras não destinadas da União em toda a Amazônia Legal. O Programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário já concluiu o georreferenciamento da gleba Iquiri e o georreferenciamento de parcelas ocupadas por agricultores dentro da gleba em questão, mas fora do perímetro de assentamentos.

Nas contas do Terra Legal, quantos assentados continuam vivendo no assentamento Gedeão?

Não se aplica. Área de responsabilidade do Incra.

Quando foi a última atuação do Terra Legal naquele assentamento, bem como nos demais da região de Lábrea e outros municípios do sul do AM (Boca do Acre, Humaitá, Manicoré)?

O Terra Legal atua de forma contínua em toda as terras federais não destinadas na Amazônia Legal. Na área em questão, o programa do MDA (Ministério de Desenvolvimento Agrário) está realizando o georreferenciamento de glebas e perímetros de parcelas. Este processo é acompanhando e fiscalizado por servidores do Incra. Também é importante notar que todo o trabalho do Terra Legal é monitorado pela sociedade civil e pelo Ministério Público. Na região já existem mais de 500 peças técnicas (imóveis georreferenciados) e conforme o plano de trabalho aprovado pelo Grupo Executivo Estadual (GEE) e do Grupo de Acompanhamento e Controle Social (GACS) a previsão é que no próximo mês seja feita a instrução processual.

Foi identificada, de fato, a presença de fazendeiros em terra da União em alguma visita de técnicos do Terra Legal naquela área? Quando? Se sim, o que está sendo feito para retirá-los?

Não se aplica. Área de responsabilidade do Incra.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Entrevista com Saskia Sassen: "O capitalismo entrou na lógica da destruição"

saskia sassen capitalismo expulsion
Saskia Sassen

Em seu novo livro, você adianta que a globalização entrou em uma fase de 'expulsão'. O que quer dizer com isso?

Nas últimas duas décadas, um número crescente de pessoas, de empresas e de locais  físicos têm sido "expulsos" da ordem econômica e social. Alguns trabalhadores pobres carecem de qualquer tipo de proteção social. Nove milhões de famílias americanas perderam suas casas após a crise do subprime. Em grandes cidades ao redor do mundo, as "classes médias" são gradualmente expulsas do centro da cidade, que se tornam inacessíveis para o seu bolso. A população carcerária dos EUA aumentou em 600% nos últimos quarenta anos. O fraturamento hidráulico do solo para extrair gás de xisto transformou  ecossistemas em deserto, se contamina o solo e polui a água, como se fosse removida da biosfera fatias da vida. Centenas de milhares de aldeões foram desalojados desde que potências estrangeiras, estatais e privadas, foram adquirindo terras nos quatro cantos do mundo: desde 2006, 220 milhões de hectares foram comprados, principalmente na África.

Todos esses fenômenos, sem ligações explícitas, respondem, em sua opinião, a uma única lógica?

Aparentemente estão desligados um do outro e cada um é explicado separadamente. O destino de um desempregado excluído não tem, obviamente, nada tem a ver com um lago poluído na Rússia ou nos EUA Isso não impede que, na minha opinião, a aplicação de uma nova dinâmica sistêmica, complexa e radical, que exige um quadro de leitura inédito. Eu sinto que nos últimos anos temos cruzados uma linha invisível, como se tivéssemos ido para o outro lado do "algo". Em muitas áreas - economia, finanças, desigualdade, meio ambiente, desastres humanitários - acentuam-se as curvas e a 'expulsão' é acelerada. Suas vítimas desaparecem como quando se afunda navios no mar, sem deixar vestígios, pelo menos na superfície. Sem mais contar.

Qual é a diferença entre um "excluído" e um "expulso"?

O excluído é uma vítima, um mais ou menos marginal infeliz, uma anomalia de certa forma, enquanto o expulso é uma conseqüência direta do funcionamento atual do capitalismo. Ele pode ser uma pessoa ou uma categoria social, como o excluído, mas também um espaço, um ecossistema, uma região inteira. O expulso é o produto das transformações atuais do capitalismo, que entrou, no meu ponto de vista, em lógicas de extração e destruição, seu corolário.

 É isso significa?

Antes, durante os " trinta gloriosos " no Ocidente, mas também no mundo comunista e no Terceiro Mundo, apesar de suas falhas, o crescimento da classes trabalhadora e média formou a base do sistema. Predominava uma lógica distributiva e inclusiva. O sistema, com todos os seus defeitos, funcionou dessa maneira. Não é mais o caso. Essa é a razão pela qual perde pé a pequena burguesia e até mesmo uma parte nada insignificante das classes médias. Seus filhos são as principais vítimas: eles têm respeitado as regras do sistema e tem feito conscientemente tudo o que foi exigido deles - estudos, práticas, muitos sacrifícios - a fim de continuar a ascensão social de seus pais. Eles não falharam, mas sem dúvidaa, o sistema tem expulsado-os, não há espaço suficiente para eles.

Quem são os "expulsadores"?

Sem falar de alguns indivíduos, nem mesmo de obnubiladas multinacionais por seu volume de negócios e sua cotação na Bolsa . Para mim se trata de "formações predatórias': uma combinação heterogênea e geograficamente dispersa de executivos, banqueiros, advogados, contadores, matemáticos, físicos, de élites globalizadas, secundados por  habilidades sistêmicas extremamente poderosas.

- Máquinas, redes tecnológicas ... - que adicionam e manipulam conhecimentos e dados tão compostos, como complexos, extremamente complexos, na verdade. Ninguém controla todo o processo. A desregulamentação das finanças, dos anos 80, tornou possível caminhar estas formações predatórias e a chave são os produtos derivados, funções de funções que multiplicam os lucros, bem como as perdas e permitem essa concentração extrema e sem precedentes de riqueza.

Quais são as conseqüências do paradigma que você descreve?

Amputados de pessoas expulsas - trabalhadores, florestas, geleiras ...-, as economias encolhem e a biosfera se degrada , o aquecimento global e o derretimento do permafrost se aceleram a uma velocidade inesperada. A concentração da riqueza encoraja o processo de expulsão de dois tipos: os mais desfavorecidos e os super-ricos. São abstraídos da sociedade em que vivem fisicamente. Evoluir em um mundo paralelo reservados para castas e não assumem as suas responsabilidades cívicas. Em resumo, o algoritmo do neoliberalismo não funciona mais.

O mundo que você descreve é muito desagradável . Não carrega um pouco de tinta?

Acho que não. Saco a luz  fenômenos subjacentes, mas extremos para alguns. E a lógica que eu relato coexiste com formas de governança mais refinados e sofisticados. Meu objetivo é soar o alarme. Estamos em um momento de balanço. A erosão das "Classes médias", o ator histórico fundamental dos dois séculos anteriores da democracia, especialmente me preocupa. Politicamente, é muito perigoso, é encontrado em todos os lugares a partir de agora.

Como se pode resistir a essas formações predadores?

É difícil, devido à sua natureza complexa, estes amontoados de indivíduos, instituições, redes e máquinas são dificilmente identificáveis ​​e rastreáveis​​. Dito isto, acho que o movimento Occupy e 'indignados' e seus derivados, ou seja, a Primavera Árabe ou as manifestações de Kiev, embora eminentemente diferentes nos contextos sócio-políticos são respostas interessantes. Os expulsos se reaproprian do espaço público. Ancorados em um "buraco" - sempre uma praça principal, um trânsito - e pondo em marcha a sua sociedade hipermediatizada, os expulsos, o território invisível da globalização criam território. Ainda quando não tenham nem reivindicações precisas e nem liderança política, reúnem uma presença em cidades globais, as cidades em que a globalização se encarna e exibe. A falta de apontar  um lugar de autoridade identificado com seus problemas - um palácio real, uma Assembléia Nacional, a sede de uma multinacional, uma produção ... - os expulsos  ocupam um forte espaço indeterminado simbólico da cidade para reivindicar os seus direitos cidadãos oprimidos.

Em que desembocam, na sua opinião?

Se forem considerados como cometas, a sorte está lançada de fato. Eu tenho uma tendência para assimilá-los a um início de carreira, e cada "ocupação" é um seixo. É o embrião de um caminho? Eu não sei. Mas o movimento das nacionalidades no feminismo do século XIX também começou com pequenos toques,  até que as células começaram a realizar o seu conjunto e formam um todo. Esses movimentos, eventualmente, talvez , por incentivar os Estados a lançarem iniciativas globais na área de meio ambiente, acesso a água e comida. 

Que acontecimento poderia acionar o 'conjunto'?

Uma nova crise financeira. Acabará por chegar, eu tenho certeza. Passo as finanças através pela tela durante trinta anos: os mercados estão muito instáveis​​, muitos dados devem ser analisados​​, muitos instrumentos, muito dinheiro, o Ocidente já não é a única regra dos mercados. Não sei quando esta crise vai intervir e qual a sua extensão, mas eu sinto que alguma coisa está fervendo. Na verdade, todos nós temos a impressão de que o sistema é muito frágil.

A entrevista a Olivier Guez para o jornal Le Monde de Paris

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A nossa perversidade

No seu livro "A Riqueza e a Pobreza das Nações" o economista político de Harvard, David Landes diz-nos que a história da humanidade é a história dos horrores, em uma parte do livro onde fala da perversidade de europeus, árabes, americanos e africanos, Landes quer nitidamente repelir o discurso vitimador demonstrando a crueldade dos sacrifícios praticados pelos astecas que por sua vez foram massacrados pelo europeu conquistador, que chegavam a perfurar o ventre de mulheres astecas grávidas em apostas para saberem o sexo do nascituro; menciona a barbaridade dos mesmos europeus na África, mas também o conluio para a escravização dos próprios chefes tribais negros; com relação aos árabes afirma que foram capazes de dominar povos e causar assassinos da mesma forma que os europeus, por aí prossegue...

A par de tudo isso não é simples repaginar a história da forma como ocorrera séculos depois mas os escritos de Landes serve para nos mostrar que independente do continente que sejamos originários somos desta mesma espécie capaz de ser perversa. Por outro lado sempre nos é possível evoluir e buscar a "civilidade.

Com relação ao Brasil lembro que Darcy Ribeiro diz que fomos construídos sob o "gasto" de neros e indígenas, somos aptos a termos o chicote na mãos, isso do lado oposto de todas as outras análises que pairam sobre o chamado "jeitinho" que também é perverso.

Com essa série de "justiciamentos" ocorridos nas ruas do país e no centro do alarde e drama do famigerado noticiário policial, a pior praga fruto da violência urbana brasileira, têm demonstrado como somos péssimos "juízes" quando nos atemos em fazer "justiça".

O caso da vez é de uma mulher morta no Guarujá, em São Paulo, depois de serem divulgados supostos boatos na internet dando conta de que realizava sequestro de crianças para rituais de magia negra, e o que se está dizendo no momento é que a sentenciada pode ser inocente. Já não é o primeiro caso de "erro" nessa sequência de autos.

Não se pode deixar de dizer que o "outro lado" é perverso, os crimes frequentes chocam mas também revelam o que está dentro de nós mesmos. O Brasil, como outros sulamericanos, ostentam índices homicidas impressionantes, são sociedades marcadas pela brutalidade desde o momento original. Em regiões onde prolifera o tráfico de drogas a violência homicida e o roubo explodem. E o noticiário policial está sempre lá piorando ainda mais sobre o pretexto da realidade.

domingo, 4 de maio de 2014

Ucrânia: Governo de Kiev lança guerra contra o leste do país

O governo de Kiev, apoiado pelos EUA e pela UE, lançou o exército numa ofensiva militar contra o leste do país, predominantemente pró-russo, cujas cidades têm sido controladas pelas chamadas “forças de auto-defesa”. O clima é de guerra civil e nos confrontos já morreram muitas dezenas de pessoas, destacando-se o incêndio na sede dos sindicatos em Odessa (veja vídeos na notícia). A Rússia exige aos EUA e à UE que detenha a ofensiva militar. Obama e Merkel fazem frente comum contra a Rússia.

Esquerda.net


Incêndio na sede dos sindicatos de Odessa, em que morreram pelo menos 36 pessoas
Uma guerra real”
A guerra estende-se a todo o leste e sudeste da Ucrânia entre, por um lado, o exército de Kiev e os apoiantes do seu governo e, por outro lado, os manifestantes e as chamadas “forças de auto-defesa” pró-russos, apoiados pela maioria da população local.
O responsável máximo do chamado Centro Anti-Terrorista do governo de Kiev, Vasil Krutov, afirma que é “uma guerra real”.

Mais de 40 mortos em Odessa
Os confrontos mais dramáticos deram-se em Odessa, onde terão morrido mais de 40 pessoas.
Ao longo da tarde de sexta-feira, manifestantes pró-russos e apoiantes do governo de Kiev envolveram-se numa batalha campal, que terá provocado cinco mortos, pelo menos. Depois os pró-russos refugiaram-se na sede dos sindicatos da cidade, que foi cercada por apoiantes do governo de Kiev, que lançaram um ataque com cocktails molotov, e em que usaram também armas de fogo, contra o edifício onde se tinham refugiado centenas de pessoas.
A sede dos sindicatos ficou em chamas, provocando a morte a, pelo menos, 36 pessoas, que morreram sobretudo asfixiadas pelos gases libertados no incêndio. Segundo o “Russia Today”, o assalto dos apoiantes de Kiev terá sido organizado pelas brigadas do agrupamento nazi Setor Direito.
O departamento de Situações de Emergência de Odessa libertou mais de 120 pessoas do edifício, enquanto mais de 200 pessoas conseguiram sair por si próprias e outras dezenas salvaram-se porque fugiram para o telhado do edifício.
Segundo o correspondente do jornal britânico “The Guardian”, cinco pessoas jaziam no solo com ferimentos provocados por balas.
Neste primeiro e curo vídeo pode ver-se a sequência do ataque contra a sede dos sindicatos e o deflagrar do incêndio.


Neste segundo vídeo, com 24 minutos, veem-se episódios do ataque dos apoiantes do governo de Kiev, entre os quais um indivíduo a disparar tiros de pistola contra o edifício.

Três helicópteros derrubados em Slaviansk
A ofensiva do exército de Kiev para tomar de assalto a cidade Slaviansk já provocou, pelo menos, nove mortos, quatro das forças governamentais e cinco de pessoas da região.
Nos confrontos foram derrubados três helicópteros e o presidente em exercício em Kiev reconheceu que a ofensiva está a ser mais complicada do que esperava.
Segundo o publico.es, o presidente da Câmara de Slaviansk disse que das cinco pessoas que morreram, três são membros das forças de autodefesa pró-russas e duas são civis.
Foto que a deputada Lesya Orobets colocou neste sábado no seu facebook. Ela é do partido de Iulia Timoshenko, a que também pertencem os atuais primeiro-ministro e presidente interino da Ucrânia – Recolhida no twitter de Alberto Sicilia
O ministro do Interior de Kiev, Arsén Avakov, disse que as forças armadas do governo controlavam já nove postos de controle antes controlados pelas forças pró-russas locais.
Avakov declarou também que “têm lugar verdadeiros combates com armas pesadas” e afirmou que a “fase ativa da operação anti-terrorista na zona de Slaviansk-Krematorsk começou às 4.30 da madrugada por parte das forças armadas, da guarda nacional e das forças do ministério do Interior".
Ainda segundo o publico.es, o chefe das “forças de auto-defesa pró-russas, Igor Strelkov, disse ao canal Rússia 24: “Todas as estradas estão cortadas e de todas as direções chegam blindados e soldados... Usaram contra nós 20 helicópteros, o inimigo bloqueou a cidade por completo, as entradas e as saídas”.
Tropas de Kiev à beira de tomar o controle de Kramatorsk
Um porta-voz das milícias pró-russas que têm controlado vários edifícios oficiais na cidade que faz parte da região de Donetsk declarou à agência russa RIA-Novósti: “Só resistimos na praça central. O resto foi tomado pela Guarda Nacional e pelo Setor Direito”.
Os insurretos disseram que no ataque das forças de Kiev morreram dez pessoas “todas pacíficos civis que não levavam armas”.
O ministério do Interior de Kiev anunciou, entretanto, que as suas forças tinham tomado o controle da sede das forças de segurança de Kramatorsk, enquanto a televisão ucraniana mostrava imagens de blindados a circular na cidade.
Em Donetsk, manifestantes ocupam sede das forças de segurança
Alberto Sicilia conta no blogue Principia Marsupia, através do twitter, que centenas de pessoas se manifestaram na cidade de Donetsk neste sábado, dirigiram-se à sede das forças de segurança ucranianas (SBU) na cidade e ocuparam o edifício e depois dirigiram-se à empresa do governador de Donetsk, Taruta, um dos mais ricos e principais oligarcas da região e ocuparam também a empresa.
Pro-russos ocuparam a empresa de Taruta, governador de Donetsk – Foto de Alberto Sicilia
Sicilia assinala que os manifestantes gritavam “Rússia, Rússia”, queimaram uma bandeira ucraniana e considera que a ocupação da empresa de Taruta “era impensável há umas semanas”e envia uma mensagem “clara”: “o oligarca nomeado por Kiev como governador perdeu o controle de Donetsk”.
Durante a manifestação algumas das frases mais gritadas foram "Glória à resistência de Slavyansk" e "Nunca esqueceremos Odessa".
Pró-russos de Slaviansk libertam inspetores europeus da OSCE
A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) confirmou neste sábado que os seis inspetores e o intérprete, que tinham sido sequestrados há uma semana, foram libertados. Juntamente com os inspetores foram também libertados cinco oficiais ucranianos que os acompanhavam no momento da captura.
O auto-proclamado presidente da Câmara de Slaviansk, Viacheslav Ponommariov, já tinha anunciado: “Vou libertá-los. São meus convidados e não quero que fiquem feridos”.
O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros agradeceu “do coração” o esforço realizado pelo enviado do presidente russo, Vladimir Lukin, para a libertação dos inspetores.
Os revoltosos pró-russos acusavam os seis inspetores europeus de estarem a fazer espionagem para a NATO. O presidente russo, Vladimir Putin, criticou a atuação dos inspetores militares por não coordenarem a sua chegada à região de Donetsk com as forças de “auto-defesa” da região. O governo russo disse que a sua influência sobre as forças “pró-russas” é muito menor do que se pensa, mas Putin aceitou o pedido alemão e enviou Vladimir Lukin para as negociações que demoraram uma semana até os inspetores serem libertados. Os insurretos já tinham libertado um inspetor sueco, devido ao seu estado de saúde e pelo facto da Suécia não ser membro da NATO.
Rússia exige aos EUA que obrigue o governo de Kiev a parar as ações militares no leste da Ucrânia
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, dirigiu-se neste sábado ao secretário de Estado dos EUA e exigiu-lhe que use a sua influência para parar um “conflito mortal entre irmãos” e acusou o governo de Kiev de instigar o incêndio de Odessa.
Línguas da Ucrânia: a claro predominantemente ucraniano, a escuro predominantemente russo
Segundo as agência russas, Lavrov conversou telefonicamente com Kerry e disse-lhe: “A operação de castigo no sudeste da Ucrânia afundará o país num conflito mortal entre irmãos”.
Lavrov falou também com o presidente em funções da OSCE, Didier Burkhalter, e pediu-lhe para velar pelo cumprimento do acordo de Genebra assinado por Ucrânia, Rússia, EUA e UE.
Segundo o “Russia Today”, Dimitri Peskov, porta-voz do Kremlin, divulgou um comunicado onde afirma: “A tragédia de Odessa foi produto da conivência de aqueles que se consideram autoridade de Kiev, que permitiram que os extremistas e os radicais tenham queimado pessoas vivas, sendo preciso sublinhar, que estavam desarmadas”. Peskov declarou ainda que “as autoridades de Kiev não só são responsáveis diretas, mas também cúmplices destas atividades criminosas”.
Ban Ki-Moon apela ao diálogo
Em comunicado, o porta-voz do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, declarou que “o secretário-geral está profundamente triste pela trágica perda de vidas nos confrontos violentos de ontem na cidade de Odessa” e que apresentou as condolências às famílias.
Ban Ki-Moon pede também uma “investigação rápida e conclusiva” sobre a morte de, pelo menos, 36 pessoas no incêndio de Odessa e voltou a insistir que “a única saída para a crise é uma solução política e diplomática”.
Obama e Merkel juntos contra a Rússia
O presidente norte-americano e a chanceler alemã, nesta sexta-feira num encontro na Casa Branca, voltaram a ameaçar a Rússia com novas sanções se não alterar a sua política sobre a Ucrânia.
Obama e Merkel ocuparam a maior parte do tempo a falar da Ucrânia, tendo a chanceler defendido que a UE atue em conjunto “de forma coordenada” e considerou inevitável a aplicação de novas sanções contra a Rússia se a Ucrânia não estabilizar ou se Moscovo interferir nas eleições de 25 de Maio.
É sinistro que Obama e Merkel se mostrem tão preocupados com eleições num país dividido e em guerra. Tal atitude dos representantes máximos dos EUA e da Alemanha só tem paralelo com o que tem acontecido relativamente ao Iraque e ao Afeganistão.