"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 5 de julho de 2014

O Oligarquismo que mata o RN

Dinarte Mariz foi aquilo que podemos chamar de coronel completo, fazendeiro da região do Seridó do Rio Grande do Norte e "líder" político local; conseguiu chegar ao cargo de governador do estado e consequentemente senador biônico pela ARENA. Dinarte é dos coronéis do Seridó que desbancam do poder a oligarquia Maranhão. É é aí que surge a divisão entre verdes (bacuraus) e vermelhos (bicudos) mais robusta; Aluísio Alves rompe com o grupo de Dinarte, o primeiro passa a representar os verdes. Nessa época incrementa-se o eleitorado.

O herdeiro da influência de Dinarte foi Tarcísio Maia, "líder" dos Maias, que entre 1975 e 1986, mantiveram no poder três governadores, Tarcísio, Lavoisier e José Agripino Maia. No Seridó esse grupo passou a contar com o demagógico Vivaldo Costa, "médico", que se roga sucessor de Dinarte, e o pior, como se suceder um coronel fosse algo bom.

O Clã dos Alves foi fazendo um patriciado familiar de profissionais políticos, Aluísio, Garibaldi "Pai", Agnelo Alves, Henrique Eduardo Alves (Candidato a governador pelo PMDB este  ano),Garibaldi Alves Filho, Walter Alves (Filho de Garibaldi) etc, etc...Falar de oligarquias do RN dá nó na cabeça.

Ma, retornando para Dinarte, há verdadeiros "causos" acerca de sua conduta: como o do sujeito que vai conduzindo um caminhão carregado de melancias quando é barrado por guardas de trânsito sem carteira de habilitação, para se livrar de problemas com a justiça o sujeito diz que ia para a Fazenda de Dinarte e é imediatamente "liberado". Em outro, uma mulher vai até Dinarte à procura de emprego, ele oferece uma vaga como professora, a mesma diz que sequer sabe ler, então Dinarte diz "aposenta".

Esses "causos" explicam a conduta dos oligarcas e da "consciência" brasileira para com os chefes do executivo, eles têm que ser "messiânicos"; o legislativo é meramente para "arrumar coisas", pedir esmolas; o executivo é somente o que se pode ter como governo.

Esse oligarquismo perdura no RN porque a população, grande percentual de analfabetismo ou analfabetismo funcional, talvez mais de 80% não consegue distinguir. Este ano houve a volta ao ponto original, já cansadas os maias (representando Dinarte) e os Alves se reuniram como havia sido no início, agora sobre o rótulo da união pelo Rio Grande do Norte, inclusive, a chapa adversária com Robinson Faria e José Dias é aparentada dos membros da chapa encabeçada por Henrique, são duas chapas, mas na verdade é uma só.

Outro dia eu ia caminhando nas ruas de Caicó visualizei uma criança voltando para casa pois não tinha aula, os professores iniciavam greve, uma senhora falou: "essas pragas que têm salário e fazem greve e imagine eu que não tenho"; que situação, falou o que podia falar, como aceitar quem não tem salário nenhum que quem o tem faça greve? Por outro lado, essas pessoas não conseguem fortalecer socialmente a escola, esta se torna quarto de despejo, como seus problemas girando no tempo.

Sociedade pirata

Diz-se que o que é proibido é melhor, e isso reflete na característica brasileira do jeitinho; na Zona Rural do Rio Grande do Norte, em áreas preservadas por parte do IBAMA, se torna aventura capturar animais silvestres, e nhá ainda o transportar para as cidades. A lei do Estado não é tratada com afronta política, mas encarada como algo a ser superado, passado a perna.

O moralismo forte também na nossa sociedade cria aqueles que põem sempre a culpa no longe, no Brasil; afastando assim a possibilidade de influir na realidade e não fazer meras retaliações sem fundamento, há os que usam isso tudo para conformar aos outros e enganarem a si próprios, "isso é Brasil". Mas a política eleitoral medíocre, dos vendedores de emendas, é secundária por um lado, o da sua aceitação, e primária por outro, quando os oligarcas lutam pela manutenção do status quo.

População e IDH na América Latina e Caribe, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

população da américa latina e caribe

A população da América Latina e Caribe (ALC) era de 167,9 milhões de habitantes em 1950 e passou para 596,2 milhões de habitantes em 2010. Segundo projeções da Divisão de População da ONU, a população da ALC, na hipótese média, deverá alcançar 781,6 milhões de habitantes em 2050 e atingir o pico máximo de 791,6 milhões em 2062, para em seguida iniciar um processo de ligeiro decrescimento, até atingir 736,2 milhões de habitantes em 2100.
Na hipótese alta da projeção (que supõe a manutenção das atuais taxas de fecundidade), a população da ALC continuaria crescendo continuamente durante todo o século XXI e atingiria 1,215 bilhão em 2100. Na hipótese baixa da projeção (o que supõe uma queda mais rápida das taxas globais de fecundidade), a população da América Latina e Caribe atingiria um pico de 684,8 milhões em 2040, para em seguida encolher até atingir 420,3 milhões de habitantes em 2100.
Portanto, a população da América Latina e Caribe, no final do século XXI, pode atingir um máximo de 1,2 bilhão de habitantes ou um mínimo de 420,3 milhões de habitantes. Mas a hipótese mais provável seria um montante de 736,2 milhões de habitantes em 2100.
A despeito das oscilações conjunturais, das variações dos ciclos econômicos e do crescimento demográfico, a América Latina e o Caribe apresentaram ganhos constantes no IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. O IDH da ALC estava em 0,574 em 1980 e passou para 0,741 em 2012. O Brasil tinha um IDH mais baixo em 1980, 0,522 mas avançou mais do que a média da região e atingiu 0,73 em 2012. A Argentina que tinha um IDH mais alto, teve ganhos menores no período, mas manteve a dianteira e atingiu 0,811 em 2012. Portanto, embora os países da América Latina tenham passado por várias crises econômicas e sociais nos últimos 25 anos o IDH – que é um índice sintético que reflete as condições de renda, educação e esperança de vida – apresentou ganhos constantes.

IDH América Latina

Se as tendências do IDH mantiverem o ritmo de crescimento nos próximos 20 anos, a ALC pode entrar no clube dos países com alto Índice de Desenvolvimento Humano. Contudo, a desaceleração econômica de 2013 e 2014 pode se transformar em crise econômica nos próximos anos impedindo que a região mantenha suas conquistas recentes.
Para mais informações, visite:
WONG, L.R., ALVES, JED, RODRÍGUEZ, JV, TURRA, CM (Orgs). “Cairo+20: perspectivas de la agenda de población y desarrollo sostenible después de 2014“, Rio de Janeiro, ALAP, abril de 2014

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Os drones levam os EUA à guerra sem fim

Um relatório liderado por John Abizaid, o general que sucedeu a Tommy Franks no comando das tropas estadunidenses no Iraque, reconhece que não há nenhuma indicação que o uso de drones tenha travado o crescimento de grupos extremistas islâmicos. Artigo de Lauren McCauley, Common Dreams.

Recommendations and Report of the Task Force on United States Drone Policy é um documento resultante de um estudo feito por peritos militares e dos setores de inteligência e política externa, reunidos pelo Stimson Center.
As principais conclusões do relatório foram as de que os drones assassinos, enquanto “pilares da estratégia americana contra o terrorismo”, permitiram políticas que “não teriam sido adotadas na ausência de veículos aéreos não-tripulados," particularmente a interpretação “extraordinariamente ampla” da Autorização para o Uso de Força Militar.
Ecoando as preocupações de muitos grupos anti-guerra, o relatório nota que o aumento do uso de drones letais “pode ser um caminho sem retorno para guerras contínuas e mais violentas”.


O relatório continua:
As missões aparentemente de baixo risco e baixo custo permitidas pela tecnologia dos veículos aéreos não-tripulados podem encorajar os EUA a executá-las mais frequentemente, perseguindo alvos que poderiam não ser considerados suficientemente importantes se aeronaves tripuladas ou forças de operações especiais tivessem de ser colocadas em risco.
Os drones também criaram uma espécie de escala de risco mais maleável, na medida em que podem entrar em combate mesmo sem nenhuma expectativa de resultado satisfatório.
O relatório argumenta que o uso de drones numa “guerra sem precedentes e em expansão” faz crescer as questões estratégicas, legais e éticas.
Entre os riscos estratégicos, o grupo argumenta que a morte de civis pode “aumentar o sentimento anti-americano e tornar-se uma ferramenta potente no recrutamento das organizações terroristas.”
Mais além, o relatório diz que o facto dos EUA estarem a criar alvos individuais dentro de estados soberanos “pode encorajar que outros estados sigam esta estratégia nas suas plataformas militares ou entidades comerciais.”
Citando o fracasso por parte do governo norte-americano em executar uma análise pesando os custos e benefícios de continuar a sua guerra de drones, o relatório admite que “não há nenhuma indicação de que a estratégia norte-americana para destruir a Al Qaeda tenha refreado o crescimento de grupos extremistas islâmicos sunitas, dissuadido grupos xiitas extremistas ou avançado em direção de um plano de longo prazo dos interesses de segurança dos EUA.”
Apesar das críticas feitas à falta de transparência do governo americano em relação aos riscos inerentes ao uso dos drones, a conclusão do relatório é de que os drones continuarão a ser uma ferramenta fundamental nas operações militares.
O grupo de estudiosos elaborou uma lista de recomendações, colocada à parte do relatório, para dar formar e guiar os EUA em sua política de drones:
— Realizar uma revisão estratégica do papel dos drones em ataques contra o terrorismo;
— Aumentar a transparência sobre os alvos dos ataques de drones;
— Transferir da CIA para os militares a responsabilidade geral por ataques letais de drones;
— Desenvolver um mecanismo de fiscalização e controlo para ataques fora de campos de batalha;
— Fomentar o desenvolvimento de normas internacionais para o uso de força letal fora dos campos de batalha tradicionais;
— Avaliar os desenvolvimentos tecnológicos relacionados aos drones e criar uma agência de investigação e desenvolvimento voltada para os interesses de segurança nacional de maneira consistente com os valores norte-americanos;
— Reverr e mudar as regras da FAA (Administração Federal de Aviação) e do controlo de exportação de artigos relacionados com drones, com o intuito de minimizar os encargos regulatórios no desenvolvimento da indústria norte-americana, salvaguardando os interesses da segurança nacional e assegurando o desenvolvimento e uso responsável das aeronaves não-tripuladas;
— Acelerar o processo para alcançar os requisitos da FAA
Em resposta ao lançamento do relatório, Steve Vladeck, co-editor do blog Just Security, e também parte de um dos “grupos de trabalho” que deram assessoria informal à equipa que o redigiu, afirmou: “Eles não concordarão necessariamente com todas as recomendações (ou vão achar que elas vão longe demais), mas dado o bipartidarismo e o alto nível de sua composição, correrão um risco enorme se as ignorarem”. 
Tradução de Roberto Brilhante. Publicado no portal Carta Maior

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Da "política da miséria"

Victor Nunes Leal observou na década de 1940 em seu livro "Coronelismo: Enxada e voto" que "melhorias" nas cidades tinham dono, era a política da miséria, e como nas cidades faltava tudo, ele sempre fala neste livro de "amesquinhamento das municipalidades", as tais "melhorias" rendiam votos. E rendem, até hoje aqui no interior, nos sertões, do país nós vemos inaugurações de simples praças.

“A falta de espírito público, tantas vezes irrogada ao chefe político local, é desmentida, com freqüência, por seu desvelo pelo progresso do distrito ou município. É ao seu interesse e à sua instância que se devem os principais melhoramentos do lugar. A escola, a estrada, o correio, o telégrafo, a ferrovia, a igreja, o posto de saúde, o hospital, o clube, o campo de football, a linha de tiro, a luz elétrica, a rede de esgotos, a água encanada -, tudo exige o seu esforço, às vezes um penoso esforço, esforço que chega ao heroísmo. E com essas realizações de utilidade pública, algumas das quais dependem só de seu empenho e prestígio político, enquanto outras podem requerer contribuições pessoais suas e de seus amigos, é com elas que, em grande parte, o chefe municipal constrói ou conserva sua posição de liderança" (Victor Nunes Leal).

E sempre tem o dono de equipamentos públicos, não sabemos o esforço deles para não colocarem o nome nas paredes; aqui em Caicó-Rn um candidato a Deputado se tornara logo responsável pela abertura da Liga Norterriograndense contra o Câncer na cidade.

Mas como me referi acima esta é a "política da miséria", ela só é possível quanto falta tudo nas cidades, são amesquinhadas, e do outro lado compensa a debilidade política da população; na medida em que a inclusão cresce nós passamos da política da miséria para a política dos direitos, uma cobrança incessante por direitos, sem serem tidos como esmola, em cima dos oligarcas e eles se desesperam.

A inauguração é um ato de amostragem para que babões saíam dizendo quem é o "pai da praça", no sectarismo bestial de bacuraus e bicudos é inclusive frequente as perturbações do tipo: "Não vá naquele hospital não que lá é dos bicudos ou dos bacuraus etc"... Essa é a "política da miséria", que só chamamos política por conveniência.

E nem queiram imaginar a compra de votos com exames, e a venda passiva de muita ente até hoje; em todo caso, como dissemos, a exigência de direitos cresceu muito nos últimos anos, e isso é sempre um alento...

Snowden provocou uma reviravolta no mundo americano

Um tanto ou quanto esquecida devido aos acontecimentos no Iraque e na Ucrânia, à Copa do Mundo de Futebol, a história das denúncias de Snowden volta às primeiras páginas.

Por Roman Mamonov

Snowden, espionagem
Foto: AP/Richard Drew

The Washington Post publicou mais um lote de denúncias. Constatou-se que, em 2010, o Tribunal Secreto para os assuntos da espionagem estrangeira sancionou que a ANS podia fazer escutas em relação a 193 países (quase todo o mundo!) e a duas dezenas de organizações internacionais: ONU, UE, Banco Mundial, FMI, etc. A decisão do tribunal não significava que a ANS iria escutá-los a todos, mas que podia fazer isso a qualquer momento.

As novas denúncias voltaram a atiçar o fogo. O "amigo americano" mostrou ser inimigo da Europa, Ásia e América do Sul. No centro do escândalo viu-se também a China: há muito que Washington e China se acusam mutuamente de espionagem informática.

Nas suas denúncias, Snowden falou dos ataques de hackers dos serviços secretos dos EUA contra computadores de instituições chinesas. E isso, considera o politólogo Yuri Tavrovsky, deu a Pequim numerosos trunfos no confronto com Washington:

“Claro que para a China não era segredo que a América realiza atividade de espionagem contra ela. Mas as denúncias de Snowden foram para ela como maná do céu. Nesse período, há um ano atrás, foi desencadeada uma campanha muito ativa na imprensa americana e mundial sobre a espionagem eletrônica dos chineses. Possivelmente, para os chineses, essas denúncias revelaram os pontos fracos no sistema americano de espionagem global”.

Um dos golpes mais sérios foi desferido na cooperação entre Washington e Berlim. Nos documentos revelados por Snowden fala-se diretamente da espionagem realizada por serviços secretos americanos contra as grandes empresas e políticos alemães, incluindo Merkel. Por isso, agora, são precisamente os deputados alemães que querem ouvir declarações de Snowden. A atividade das unidades dos serviços secretos americanos no território da Alemanha corre perigo e a oposição do país exige de Angela Merkel rigidez no diálogo com Washington. Eis o que declarou, numa entrevista à Voz da Rússia, Gregor Gysi, dirigente do grupo parlamentar da esquerda no parlamento alemão:

“Trata-se de espionagem econômica. E isso é um crime. Senhora chanceler federal, você esteve em Washington, você falou com Obama e outros. Regressou sem acordo sobre a proibição de espionagem mútua. Eu digo-lhe: você é hipócrita perante a administração dos EUA. Você baseia isso na amizade. Eu digo-lhe que a hipocrisia é conseguida com o desprezo, mas não com a amizade”.

Por enquanto, as tentativas dos políticos alemães de chamarem os EUA à pedra não tiveram êxito. É verdade que a Alemanha e o Brasil conseguiram que fosse aprovada, na Assembleia Geral da ONU, uma resolução sobre a defesa da vida privada na época das tecnologias informáticas. Mas esse documento não é de cumprimento obrigatório. O único resultado foi a promessa de Obama pôr fim à espionagem dos chefes de estado aliados.

A propósito do Brasil. Aí o desenvolvimento do escândalo com Snowden é seguido com redobrada atenção. Primeiro, o jornalista Glenn Greenwald, que publicou documento sensacionais, vive nesse país. Segundo, o informático fugitivo declarou que os americanos infiltraram-se ativamente nas redes informáticas de empresas brasileiras (nomeadamente, da petrolífera Petrobras), do governo. E espionaram pessoalmente a presidente Dilma Rousseff. Por causa disso, a última passou um raspanete a Obama antes da sua intervenção na abertura da Assembleia Geral da ONU em Outubro de 2013. E depois disso, as autoridades do Brasil recusaram-se a comprar caças Boeing.

Mas as denúncias não terminaram aí. E embora Snowden tenha afirmado que não tem consigo quaisquer documentos secretos, a publicação de materiais sensacionais continua. O amigo de Snowden, Glenn Greenwald, promete um novo lote de denúncias já para julho.

Os documentos ficarão acessíveis, tais como no sítio WikiLeaks. Por isso, os serviços secretos da América devem preparar-se para o pior. A data provável da publicação é 18-20 de julho, quando em Nova York tiver lugar uma conferência de hackers.

Por que Israel ataca novamente

Garotos mortos são pretexto infame. Onda de brutalidade visa sabotar unidade palestina e mergulhar a população judaica em redemoinho de ódio e vingança. Por Susan Abulhawa 

   Fogo destrói casa palestiniana atingida por míssil israelita. Em dois dias, 34 ataques
                                semelhantes foram feitos por Telavive, que também ampliou os sequestros
e a invasão de organizações da sociedade civil

Os corpos de três colonos israelitas que desapareceram em 12 de junho foram encontrados há dias, numa cova rasa cavada à pressa em Halhul, norte de Hebron.
Desde que os jovens desapareceram em Gush Etzion, colônia exclusiva de judeus na Cisjordânia, Israel passou a perseguir os 4 milhões de palestinianos que já vivem sob o seu domínio. Atacou cidades, saqueou casas e instituições civis, realizou incursões noturnas nos refúgios de famílias, roubando propriedades, sequestrando, ferindo e matando. Aviões de guerra passaram a bombardear Gaza, de novo e repetidamente, destruindo mais casas e instituições, e cometeram-se execuções extrajudiciais. Até agora, mais de 570 palestinos foram sequestrados e presos – o mais notável deles, Samer Issawi, o palestino que fez greve de fome durante 266 dias em protesto por prisão arbitrária anterior.
Pelo menos 10 palestinos foram mortos, inclusive três crianças, uma mulher grávida e um homem com problemas mentais. Centenas foram feridos, milhares aterrorizados. Universidades e organismos de assistência social foram saqueados, fechados; os seus computadores e equipamentos destruídos ou roubados e documentos, tanto públicos quanto privados, confiscados de instituições civis. Este banditismo é a política oficial de Estado conduzida por militares e não inclui a violência contra pessoas e propriedades perpetrada por colonos israelitas paramilitares, cujos constantes ataques contra civis palestinos se intensificaram nas últimas semanas. E agora que foi confirmada a morte dos colonos, Israel jurou vingar-se à altura. Naftali Bennet, ministro da Economia, disse: “Não há misericórdia para assassinos de crianças. Esta é hora de ação, não de palavras.”
Menino no meio dos escombros da casa explodida pelo exército israelita em Hebron
Embora nenhuma organização palestina tenha assumido a responsabilidade pelo sequestro e – mais que isso – tenham negado qualquer envolvimento, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, está inflexível quanto à culpa do Hamas. A ONU pediu que Israel forneça evidências que apoiem a sua acusação. Nada foi apresentado, o que lança dúvidas sobre as afirmações de Israel, particularmente à luz da sua ira pública pela recente unificação das facções palestinas e a aceitação da nova unidade palestina pelo presidente Obama.
Nos Estados Unidos e Europa, os jornais estampam fotos dos três colonos israelitas adolescentes e tratam os atos de terror de Israel à Palestina como simples “caçada humana” e “limpeza militar”. Fotos dos jovens israelitas inocentes são estampadas nas bancas de revista e as vozes dos seus parentes, no auge da angústia, destacadas. Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, ONU, Canadá e Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) condenaram o sequestro e pediram a libertação imediata e incondicional das vítimas. Após a descoberta dos corpos, houve uma onda de condenação e condolências.
O presidente Obama afirmou: “Como pai, não posso imaginar a dor indescritível que os pais desses garotos adolescentes estão sentindo. Os Estados Unidos condenam nos termos mais fortes possíveis esse ato de terror sem sentido contra jovens inocentes.”
Pouco antes do desaparecimento dos jovens colonos israelitas, o assassinato de dois adolescentes palestinos foi apanhado em flagrante por uma câmara de vigilância local. Amplas evidências, incluindo as balas encontradas e uma câmara da CNN que filmou um atirador israelita puxando o gatilho no momento preciso em que um dos rapazes foi baleado, indicaram que foram mortos a sangue frio por soldados israelitas. Não houve condenação ou clamor por justiça para esses adolescentes por parte de governantes ou instituições internacionais, nem solidariedade com os seus pais de luto – sem falar das mais de 250 crianças palestinianas sequestradas das suas casas ou a caminho da escola, que são mantidas definhando em prisões israelitas sem acusação ou julgamento, torturadas física e psicologicamente. Além do bárbaro cerco a Gaza, ou décadas de espoliação contínua, remoções, confisco de terras, demolição de casas, sistema de acesso codificado por cores, prisões arbitrárias, restrições à mobilidade, checkpoints, execuções extrajudiciais, tortura e confinamento de palestinos em guetos isolados.Embora centenas de crianças palestinianas sejam sequestradas, brutalizadas ou assassinadas por Israel – várias, inclusive, nas duas últimas semanas –, raramente, ou nunca, se vê essa reação no Ocidente.
Nada disso parece importar.
Não importa que ninguém saiba quem matou os adolescentes israelitas. Parece que o país inteiro está a clamar por sangue palestino, uma reminiscência das marchas por linchamento dos sulistas norte-americanos, que perseguiam negros sempre que um branco aparecia morto. Nem que esses jovens israelitas fossem colonos que viviam em assentamentos ilegais exclusivos de judeus, construídos em terras roubadas pelo Estado, a maioria de proprietários palestinos da aldeia de Al-Khader. Grande parte dos colonos ali são norte-americanos, principalmente de Nova York, como um dos adolescentes assassinados, enquanto os palestinianos, nativos, apodrecem em campos de refugiados, guetos ocupados ou exílio sem fronteiras.
Nenhuma mãe deveria viver o assassinato de um filho. Nenhuma mãe ou pai. Isso não deveria ser um privilégios de pais judeus. As vidas dos nossos filhos não são menos preciosas, e a sua perda não é menos dilacerante, ou desconcertante. Mas há uma disparidade terrível no valor das vidas, aos olhos do Estado e do mundo. As vidas palestinas são baratas e descartáveis; as judaicas, sacrossantas.Crianças palestinas são agredidas ou assassinadas todos os dias sem registro quase nenhum das suas vidas na imprensa ocidental. Enquanto as mães palestinas são frequentemente culpabilizadas por Israel matar os seus filhos, acusadas de mandá-los para a morte ou de não os manter em casa, longe de franco-atiradores israelitas, ninguém questiona Rachel Frankel, mãe de um dos colonos assassinados. Ninguém questiona por que ela se mudou com a família, deixando os Estados Unidos para viver numa colônia segregada, marcada pelo sentimento de superioridade, estabelecida em terra confiscada de proprietários nativos não-judeus. Certamente, ninguém ousa acusá-la de expor os seus filhos a situações perigosas.
A crença no excepcionalismo e supremacia da vida judaica é uma base fundamental do Estado de Israel. Ela permeia cada lei e regra e só é igualada pelo aparente desprezo à vida palestina. Por meio de leis que privilegiam judeus nas ofertas de trabalho e oportunidades educacionais; de outras, que impedem não-judeus de comprar ou alugar de judeus; de ordens militares sem fim, que limitam os movimentos, o consumo de água, o acesso à comida, à educação, possibilidades de casamento e de independência económica. A vida dos não-judeus, em última instância, está subordinada ao decreto religioso emitido por Dov Lior, rabino-chefe de Hebron e Kiryat Arba. O texto afirma que “mil vidas não-judaicas não valem a unha de um judeu”.
Muhammad al-Fasih e Usama al-Hassumi, mortos por drones israelitas em junho
A violência de Israel nas últimas semanas é geralmente aceita e esperada. E o terror que, sabemos, será desencadeado sobre a população, é disfarçado pela legitimidade dos uniformes e das máquinas tecnológicas de guerra. A violência israelita, não importa quão vulgar ela seja, é inevitavelmente amortecida como se fosse heroica – violência que os média ocidentais caracterizam de “resposta”, como se a resistência palestiniana não fosse, ela mesma, uma resposta à opressão israelita. Quando se pediu ao Comité da Cruz Vermelha que emitisse um apelo semelhante, pela libertação imediata e incondicional de centenas de crianças palestinianas confinadas em prisões israelitas (em completo desrespeito das leis humanitárias internacionais), o órgão recusou, sustentando que haveria uma diferença entre o sequestro isolado de garotos israelitas e o sequestro, tortura, encarceramento e isolamento rotineiros de crianças palestinianas.
Quando os nossos meninos atiram pedras a tanques israelitas fortemente armados, e a jipes que invadem as nossas ruas, somos pais descuidados, que deveriam arcar com a responsabilidade do assassinato dos seus filhos, atingidos pelos tiros dos soldados ou colonos de Israel. Quando nos recusamos à completa capitulação, é que não somos “parceiros para a paz”, e merecemos que novas terras sejam confiscadas para uso exclusivo de judeus. Quando alguns reagem e sequestram um soldado, são extremistas do terror, os únicos culpados por Israel adotar punição coletiva contra a população palestina. Quando nos lançamos a protestos pacíficos, somos amotinados que merecemos ser alvo de balas. Quando debatemos, escrevemos e boicotamos, somos anti-semitas que precisam ser silenciados, deportados, marginalizados, perseguidos.
Rachel Frankel, a mãe de um dos garotos sequestrados, foi à ONU pedir apoio, dizendo que “é errado usar meninos e meninas inocentes como instrumentos de qualquer luta. É cruel… Toda a criança não tem o direito de voltar a salvo da escola?” Mas estes sentimentos não valeriam, também, para as crianças palestinas? Aquiaquiaquiaquiaqui e aqui há vídeos registrando o sequestro de crianças palestinas, levadas à noite das suas casas ou no caminho para a escola.Que deveríamos fazer. A Palestina está a ser apagada do mapa quase literalmente, por um Estado que sustenta, abertamente, a supremacia e o privilégio judaicos. A população continua a ter as suas casas e heranças roubadas, a ser empurrada para a margem da humanidade e culpabilizada pela sua sorte miserável. Somos uma sociedade traumatizada, maioritariamente desarmada, que está a serdestruída por um dos exércitos mais poderosos do mundo.
Nada disso importa. Apenas, que três garotos israelitas foram mortos. E não interessa quem os matou, ou em que circunstâncias. Toda a população palestina será obrigada a sofrer – mais do que já sofre, normalmente, sob ocupação.
Artigo de Susan Abulhawa*publicado em “The Hindu”, traduzido por Inês Castilho para OutrasPalavras

* Susan Abulhawa é uma escritora palestino-americana e ativista dos direitos humanos

Mapa da Violência 2014: Jovem, homem, negro é o perfil dos que mais morrem de forma violenta no país

Em média, 100 a cada 100 mil jovens com idade entre 19 e 26 anos morreram de forma violenta no Brasil em 2012, mostra o Mapa da Violência 2014, que considera morte violenta a resultante de homicídios, suicídios ou acidentes de transporte (que incluem aviões e barcos, além dos que ocorrem nas vias terrestres de circulação).

O estudo mostra que, nos anos 1980, a taxa de mortalidade juvenil era 146 mortes por 100 mil jovens, e passou para 149, em 2012. Se a média geral não mudou significativamente com o passar do tempo e o aumento populacional, a causa, sim.  Naquela década, as causas externas, que independem do organismo, eram responsáveis pela metade do total de mortes dos jovens.

Já em 2012, dos 77.805 óbitos juvenis registrados pelo Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, 55.291 tiveram sua origem nas causas externas. Mais de 71% do total. Os homicídios e os acidentes de transporte são os dois principais responsáveis por essas mortes, segundo o relatório.

A diferença também é diagnosticada quando comparados homens e mulheres. Entre 1980 e 2012, no total das mulheres, as taxas passam de 2,3 para 4,8 homicídios por 100 mil. Um crescimento de 111%. Entre os homens, a taxa passa de 21,2 para 54,3. Um aumento de 156%.

No caso dos suicídios, a pesquisa revela mortalidade três a quatro vezes maior no caso dos homens, no Brasil. Entre as décadas citadas, as taxas masculinas cresceram 84,9%. Já as femininas, 15,8%.

Uma terceira variável chama a atenção na pesquisa: a vitimização dos negros é bem maior que a de brancos. Morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil, em 2012. Considerando a década entre 2002 e 2012, a vitimização negra, isso é, a comparação da taxa de morte desse segmento com a da população branca, mais que duplicou.

Segundo o responsável pela análise, Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências, o recorte racial ajuda a explicar o fato de não ter se verificado na pesquisa grandes mudanças nas taxas globais de homicídios, embora o número registrado a cada ano tenha aumentado. Os brancos têm morrido menos. Os negros, mais. Entre 2002 e 2012, por exemplo, o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3% e o dos jovens negros aumentou 32,4%.

De acordo com Jacobo, essa seletividade foi construída por diversos mecanismos, entre os quais o desenvolvimento de políticas públicas de enfrentamento à violência em áreas onde havia mais população branca do que negra, bem como o acesso, por parte dos brancos, à segurança privada. Assim, os negros são excluídos duplamente – pelo Estado e por causa do poder aquisitivo. “Isso faz com que seja mais difícil a morte de um branco do que a de um negro”, destaca o sociólogo.

Ele alerta que essa situação não pode ser encarada com naturalidade pela população brasileira. “Não pode haver a culpabilização da vítima”, diz Jacobo, para quem o preconceito acaba justificando a violência contra setores vulneráveis. O sociólogo, que em 2013 recebeu o Prêmio Nacional de Segurança Pública e Direitos Humanos da Presidência da República, defende o estabelecimento de políticas de proteção específicas, que respeitem os direitos dos diferentes grupos e busquem garantir a vida da população.

Por Helena Martins, da Agência Brasil.

Mapa da Violência 2014 mostra aumento e disseminação da violência no Brasil

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No total, 56.337 foram vítimas de homicídio. Arquivo/Agência Brasil 
Em 2012, 112.709 pessoas morreram em situações de violência no país, segundo o Mapa da Violência 2014, divulgado ontem (2). O número equivale a 58,1 habitantes a cada grupo de 100 mil, e é o maior da série histórica do estudo, divulgado a cada dois anos. Desse total, 56.337 foram vítimas de homicídio, 46.051, de acidentes de transporte (que incluem aviões e barcos, além dos que ocorrem nas vias terrestres), e 10.321, de suicídios.
Entre 2002 e 2012, o número total de homicídios registrados pelo Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, passou de 49.695 para 56.337, também o maior número registrado. Os jovens foram as vítimas em 53,4% dos casos, o que mostra outra tendência diagnosticada pelo estudo: a maior vitimização de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. As taxas de homicídio nessa faixa passaram de 19,6 em 1980, para 57,6 em 2012, a cada 100 mil jovens.
Segundo o responsável pela análise, Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, ainda não é possível saber “se o que ocorreu em 2012 foi um surto que vai terminar rapidamente ou se realmente está sendo inaugurado novo ciclo ou nova tendência”. Ele lista situações que podem ter gerado o aumento, como greves de agentes das forças de segurança ou ataques de grupos criminosos organizados.
Uma tendência já confirmada é a disseminação da violência nas diferentes regiões e cidades. Entre 2002 e 2012, os quantitativos só não cresceram no Sudeste. As regiões Norte e Nordeste experimentaram aumento exponencial da violência. No Norte, por exemplo, foram registrados 6.098 homicídios em 2012, mais que o dobro dos 2.937 verificados em 2002. O Amazonas, Pará e Tocantins tiveram o dobro de assassinatos registrados no mesmo intervalo de tempo. No Nordeste, o Maranhão, a Bahia e o Rio Grande do Norte mais que triplicaram os homicídios.
Na década, o Sul e o Centro-Oeste tiveram incrementos percentuais de 41,2% e 49,8%, respectivamente. No Sudeste, a situação foi mais variada, com diminuição significativa em estados importantes, como o Rio de Janeiro e São Paulo.  Já em Minas Gerais, os homicídios cresceram 52,3% entre 2002 e 2012.
As desigualdades são vivenciadas entre as regiões e também dentro dos estados. Nenhuma capital, em 2012, teve taxa de homicídio abaixo do nível epidêmico, segundo o Mapa da Violência. Todas as capitais do Nordeste registraram mais de 100 homicídios por 100 mil jovens. Maceió, a mais violenta, passou dos 200 homicídios. No outro extremo, São Paulo, com a menor taxa entre as capitais, ainda assim registra o número de 28,7 jovens assassinados por 100 mil.
O balanço da década mostra, contudo, que não é possível afirmar que há tendência comum de crescimento. Entre 2002 e 2012, as capitais evidenciaram queda de 15,4%, com destaque para meados dos anos 2000, quando a redução foi mais expressiva, o que, segundo o organizador, comprova que a situação pode ser enfrentada com políticas públicas efetivas.
Capa da publicação do Mapa da Violência 2014
Capa da publicação do Mapa da Violência 2014. Arquivo/Agência Brasil 
Em cidades do interior, o número tem crescido. Jocobo disse que são especialmente os municípios de pequeno e de médio porte os que têm sofrido com a nova situação. Ele cita dois possíveis motivos para isso: por um lado, o investimento financeiro em políticas públicas nos grandes centros urbanos, como Rio e São Paulo, ajudaram a diminuir a violência. Por outro, houve o desenvolvimento de novos polos econômicos no interior, que atraíram investimentos e também criminalidade, “sem a proteção do Estado como nas outras cidades”.
Se o país precisará esperar alguns anos para verificar o comportamento das taxas de homicídios, no caso dos acidentes de transporte há pouca ou quase nenhuma dúvida, dado o crescimento dos registros, à revelia das leis de trânsito que, na década de 1980, foram responsáveis pela redução desses acidentes.
As principais vítimas, segundo o estudo, são os motociclistas. Em 1996, foram 1.421 óbitos. Em 2012, 16.223. A diferença representa cerca de 1.041% de crescimento. Há “uma linha reta desde o ano de 1998, com um crescimento sistemático de 15% ao ano”, conforme a pesquisa.
Segundo o sociólogo responsável pela publicação, a situação é fruto “de um esquema ideológico que apresentou a motocicleta como carro do povo, por ser econômica, de fácil manutenção”. Assim, “em vez de se investir em transporte público, o trabalhador pagaria sua própria mobilidade”. E mais, fez dela o seu trabalho, seja como motoboy, entregador ou mototaxista, “em situação de escassa educação no trânsito, pouca capacidade de fiscalização e baixa legislação”, avalia Julio Jacobo Waiselfisz.
Ao todo, foram registradas 46.051 mortes por acidentes de transporte em 2012,  2,4% a mais que em 2011. Os dados oficiais reunidos para o estudo mostram que ocorreram, naquele ano, 426 mil acidentes com vítimas, que devem ter ocasionado lesões em 601 mil pessoas. A situação “é muito séria e grave”, alerta o autor do trabalho, que destaca que é preciso lembrar que “o cidadão tem o direito a uma mobilidade segura e é obrigação do Estado oferecê-la”.
O suicídio também teve aumento na taxa de crescimento. Diferentemente das outras situações, a elevação vem se dando desde os anos 1980. Conforme o relatório, o aumento foi 2,7% entre 1980 e 1990; 18,8%, entre 1990 e 2000; e 33,3%, entre 2000 e 2012. Nesse caso, a idade das pessoas envolvidas é também menos precisa. Tanto jovens quanto idosos têm sido vítimas.
Com a publicação do estudo, feito com o apoio da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da Secretaria Nacional de Juventude e da Secretaria-Geral da Presidência da República, espera-se, conforme o texto, “fornecer subsídios para que as diversas instâncias da sociedade civil e do aparelho governamental aprofundem sua leitura de uma realidade que, como os próprios dados evidenciam, é altamente preocupante”.
Por Helena Martins, da Agência Brasil

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Bacurau e bicudo pra Gota Serena

Os termos que tornam a política um jogo de azar impondo um fanatismo de grupo nos sujeitos é antigo no Brasil, e sempre de uma forma medonha. Todos já ouviram falar de Bacuraus e Bicudos, tem ainda o termo gabirus datado do império, é lá também, no Império, que existia a rivalidade entre Luzias e Saquaremas, alcunhas dadas aos membros dos partidos Conservador e Liberal, respectivamente. Dizia-se naquela época que não havia nada mais parecido com um Luzia do que um Saquarema, e isso é fundamental para se compreender o cerne dessa divisões, internalizar nas pessoas conceitos que fiquem por baixo das discussões políticas, você prende o eleitor fazendo-o mero torcedor e fanático em alguns casos. Digo fanáticos porque são frequentes até hoje em cidades do interior brigas envolvendo os dois lados após os pleitos eleitorais; comemorações com zombarias do time perdedor, brasa nas ruas no caso dos bacuraus, fazer perturbação na casa dos conhecidos seguidores que tiveram seus candidatos derrotados. No interior do Rio Grande do Norte as campanhas são como "festas", e a cidade morre, a educação fica na UTI e o espírito do povo amofina.
Miséria política em Umarizal-RN
E ainda há o perigo de se desviar por uma terceira via que longe de representar a "nova política" como gostam de dizer, aliás nova somente no momento temporal de entrada nas disputas, continuam de forma mascarada as mesmas práticas do Verde-Vermelho, bacuraus-bicudos, adota-se um candidato para brincar nas ruas usando conceitos repetidos de mudanças sociais. 

As pessoas precisam entender que o fundamento da política é atuar, no nosso caso abandonar o "espírito do esmolismo", as escolas precisam se encaixar na realidade e porem por terra a fraqueza do seguidorismo às novas gerações. No caso potiguar saber do que se trata os oligarcas, os que se criaram com a indústria da seca, com as esmolas das "emergências e que estão todos aí, que jamais se preocuparam com desenvolvimento sustentável do semi-árido, que mantiveram as escolas na lama, pior ainda as escolas rurais sem qualquer ligação com a construção do desenvolvimento social na agricultura familiar; no nosso caso é fácil, eles envelheceram mas são o mesmos, e os jovens de idade (Alves, Mais, Rosados etc) são velhos. Como eles dizem "A política passa", porque somente se referem a eleições, gostam do joguinho e que você trate política somente como eleição.

O cidadão formal numérico precisa aprender a ser cidadão político, amigo da sua pólis, aqui exigir os serviços públicos de qualidade, verificar e estar presente nas escolas, enfim, precisamos ser mais cidadãos e menos babões.

O impacto da produção agro-industrial sobre o direito à alimentação


Hoje, o mundo produz mais do que suficiente para alimentar toda a população, no entanto, um em cada sete pessoas sofre de fome crônica. Em 2009, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) anunciou a cifra vergonhosa de 1 bilhão e 20 milhões de famintos. 80% deles vivem em áreas rurais: são agricultores, pequenos agricultores, trabalhadores sem terra, as pessoas que vivem da pesca tradicional, caça e pastoreio |1|.

por Micòl Savia

A fome, como todos sabemos, não é um desastre natural, mas o resultado de políticas econômicas deliberadas promovidas pelos países capitalistas avançados e suas instituições financeiras (Banco Mundial, OMC e o FMI, ou "Cavaleiros do Apocalipse", como  chama Jean Ziegler |2|) e de que apenas um punhado de grandes corporações, se beneficiam à custa dos direitos humanos de grandes segmentos da população mundial.

A industrialização progressiva, privatização e liberalização da indústria de alimentos, e o aumento da concentração da cadeia alimentar nas mãos de poucas empresas privadas que buscam o único propósito de maximizar seus lucros, estão peremptoriamente destruindo o meio ambiente, ao mesmo tempo que condena à morte milhões de cidadãos. Os camponeses, privados dos recursos produtivos básicos, tais como terra, água e sementes não conseguem sequer produzir o suficiente para sobreviver. E, claro, eles não podem alimentar o resto do mundo, o que, consequentemente, está à mercê das multinacionais.

Em 2012, o Relator Especial da ONU sobre o Direito à Alimentação, Olivier De Schutter, apresentou ao Conselho de Direitos Humanos um relatório |3| em que ele denunciou os sistemas alimentares atuais, que não só não conseguiram acabar com a fome, mas também promoveram dietas pouco saudáveis ​​que geram excesso de peso e obesidade, dois fenômenos que causam mais mortes no mundo do que um peso abaixo do normal.

Os dados são alarmantes: "Hoje, mais de 1. bilhões de pessoas no mundo estão com sobrepeso e pelo menos 300 milhões são obesos. O sobrepeso e a obesidade causam 2,8 milhões de mortes a cada ano, de modo que, no momento, 65% da população mundial vive em países (todos os países de alta renda e os países de renda média) em sobrepeso e obesidade causam mais mortes do que o peso abaixo do normal". Isto significa que, por exemplo, em um país como os Estados Unidos, pela primeira vez, as crianças podem ter expectativas de vida mais baixas do que a dos pais.

O aumento da doença cardiovascular, diabetes, cânceres gastrointestinais e relacionados a doenças de desnutrição, muitas vezes atribuídos a um "estilo de vida escolhido", ou seja, a decisão de exercer menos e comer mais fast food. Mas, adverte De Shutter, não é assim, "este é um problema sistêmico. Temos criado ambientes geradores de obesidade e temos projetado sistemas alimentares, que muitas vezes se opõem a estilos de vida mais saudáveis​​, em vez de facilitá-los."

Os gigantes do agronegócio, após removerem da terra os camponeses do Sul, inundaram os supermercados dos países do Norte com alimentos altamente processados​​, calóricos, ricos em sal, açúcar e gorduras saturadas chamada junk food ou junk. A distribuição capilar e a preço barato desses produtos gerou uma mudança nutricional em nossas dietas.

Obesidade: a nova ameaça

Hoje, nos países ricos, uma dieta saudável, que inclui uma grande variedade de frutas e verduras é mais cara do que uma dieta rica em óleos, açúcares e gorduras. Este é definitivamente um dos fatores responsáveis ​​pelo aumento do excesso de peso e obesidade, o que de fato afeta de maneira desproporcionada os mais pobres. Estudos científicos mostram uma estreita relação entre baixos níveis de educação e renda e maiores taxas de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas.

Sem embargo, a obesidade e as doenças não-transmissíveis associadas à alimentação não saudável já não são exclusivas dos países ricos. Os países em desenvolvimento estão experimentando uma rápida mudança no consumo de alimentos processados​​, que tendem a ser importados, e o abandono de dietas tradicionais. A comida de alta qualidade, especialmente hortaliças e frutas tropicais são exportados no exterior, enquanto se importa grãos refinados. Além disso, o maior investimento estrangeiro direto na indústria de transformação e da existência de mais supermercados causa um aumento nestas doenças. "Por exemplo, após a entrada em vigor do Acordo de Livre Comércio da América do Norte, as empresas americanas aumentaram maciçamente seus investimentos no México na indústria de processamento de alimentos (210 bilhões de dólares em 1987-530 bilhões em 1999) e as vendas de comida processada no México subiu a uma taxa anual de 5% a 10% entre 1995 e 2003. O consequente aumento no consumo de refrigerantes e lanches entre as crianças mexicanas é a causa das altas taxas de obesidade infantil no país", diz De Shutter.

As conseqüências são inexoráveis​​. Estima-se que em 2030, nos países pobres, 5,1 milhões de pessoas morrem prematuramente a cada ano devido a doenças relacionadas com a má nutrição. Para as sociedades o custo destas doenças é imenso, tanto os custos diretos (cuidados de saúde) e custos indiretos (perda de produtividade). Mesmo agora, na América Latina e no Caribe o custo da saúde dos casos de diabetes foi de 65 bilhões de dólares por ano, ou entre 2% e 4% do PIB | 4 |.

No seu relatório, Olivier De Schutter recomenda aos Estados várias medidas para promover dietas saudáveis​​, por exemplo, a tributação de refrigerantes e alimentos ricos em gordura, açúcar e sal ou rever o atual sistema de subsídios agrícolas. E foi muito claro em seu diagnóstico: "Apenas se conseguirá uma transição no sentido de dietas sustentáveis ​​apoiado-se diferentes sistemas de produção para garantir a todos o acesso a dietas adequadas, apoiando os meios de vida dos agricultores pobres e que sejam sustentáveis ​​do ponto de vista ecológico."

A mesma conclusão a que  outras agências internacionais, como a FAO e a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou. Todos concordam: a mudança de rumo é urgente. A comida não é uma mercadoria, mas uma fonte de vida.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU está discutindo um projeto de declaração sobre os direitos dos agricultores e outras pessoas que vivem em áreas rurais. A discussão é complicada. Estados ocidentais, apesar das repetidas advertências do Relator Especial sobre o Direito à Alimentação e outros especialistas se opõem ao projeto com força. No entanto, os agricultores lutam com determinação. Sua luta pela terra, água, sementes, meios de produção, a biodiversidade, etc, é a nossa luta. Sem eles não podemos sobreviver.

Este texto faz parte da revista América Latina en Movimiento, n º, 496 Junho de 2014, que trata do tema "políticas alternativas na agricultura e no ano da agricultura familiar" - http://www.alainet .org/publica/496.phtml


Notas
|1| Estudio definitivo del Comité Asesor del Consejo de Derechos Humanos sobre la discriminación en el contexto del derecho a la alimentación (A/HRC/16/40)

|2| Jean Ziegler, Destrucción masiva, la Geopolítica del hambre, Península, 2012.

|3| Informe A/HRC/19/59, 2012

|4| Informe del Secretario General de las Naciones Unidas (A/66/83)

Chomsky: O Governo dos EUA é capaz de criar uma catástrofe total para a humanidade

O analista político Noam Chomsky acredita que o próximo século pode ser o último a civilização humana se as atuais políticas dos EUA persistirem,  que  cada vez mais se regem por preocupações de poucos, a custos terríveis para todos. 

Segundo o especialista, as políticas dos EUA representam uma ameaça para a humanidade, pois a segurança da população "é uma preocupação marginal dos decisores políticos", enquanto que as principais preocupações são a proteção do poder do Estado e o poder privado concentrado, que "em grande parte determinam como política de Estado", diz ao site da TomDispatch. Essa política, continua o cientista político, que se vê claramente na forma como aborda os EUA os problemas do aquecimento global e as armas nucleares, ilustra o cálculo moral do capitalismo de Estado anglo-americano contemporâneo, "o destino dos nossos netos não vonta nada em comparação com o imperativo de maiores benefícios amanhã". 

Estes resultados, de acordo com Chomsky, são enriquecidos pelo sistema de propaganda que existe nos EUA Falando do caso do aquecimento global, há uma enorme campanha de relações públicas nos EUA, organizado pela Companhia de Energia Big e pelo mundo dos negócios, tentando convencer o público de que o aquecimento global, uma séria ameaça à a humanidade não é real ou que não é um resultado da atividade humana. 

O caso das armas nucleares não é menos assustador, "revela muito claramente que desde os primeiros dias, a segurança da população era uma "não questão", e continua a ser assim." Chomsky cita o general Lee Butler, que acredita que temos sobrevivido até agora  uma era nuclear "por alguma combinação de habilidade, sorte e intervenção divina." No entanto, Chomsky afirma que "não podemos contar com a intervenção divina como os políticos jogam na roleta  com o destino das espécies na busca de fatores motores na formação de políticas." 

Chomsky enfatiza que hoje há muitos problemas que devem ser abordados, mas dois são mais importantes: a destruição ambiental e a guerra nuclear. "É imperativo para varrer as 'nuvens ideológicas" e lidar de forma honesta e realista, a questão de como as decisões políticas são feitas", exorta. Aprofundar a história dos EUA, o especialista sugere que essas políticas não são só realizadas atualmente, sim que são próprias do Estado voltando a eventos  como a guerra do Vietnã, a independência de Cuba e a Guerra Fria. 


Texto emo em: http://actualidad.rt.com/actualidad/view/132717-chomsky-gobierno-eeuu-catastrofe-humanidad

Devemos acabar com a impunidade dos bancos

Por Eric Toussaint

Conhecemos a máxima: "Too big to fail" (demasiado grandes para falir). Os governos dos países mais industrializados gestionaram a crise causada pelos bancos adotando uma nova doutrina,  que poderia ser resumida como "grandes demais para serem condenados", ou "grandes demais para ir para a cadeia", se se traduz literalmente o termo nascido nos EUA e Reino Unido



Enquanto a justiça dos Estados Unidos e Europa se vê confrontada com as infracções graves e crimes cometidos pelos maiores bancos, nenhum deles  viu como retirar a licença bancária. No entanto, a lista de seus crimes é considerável: fraude em bando organizada contra os clientes , os (pequenos) acionistas e os acionistas públicos; lavagem de dinheiro pelo crime organizado; organização sistemática de fraude fiscal em grande escala; manipulação em quadrilha organizada das taxas de juros (Libor, Euribor...), dos mercados de câmbio, assim como dos mercados de ouro e prata; falsificação, tráfico de influência; destruição de provas; enriquecimento abusivo; manipulação em quadrilha organizada do mercado de CDS; manipulação do mercado de commodities físicas e do mercado de futuros de commodities; cumplicidade em crimes de guerra. | 1 | A lista não é exaustiva. 

Eric Holder, procurador-geral dos Estados Unidos, interrogado em junho de 2013 por uma comissão do Senado de seu país, delineou claramente o fundamento da doutrina "grande demais para ser condenado": "Essas instituições são tão grandes que é difícil trazê-las para justiça e, se isso acontecer, vamos perceber que, de fato culpá-las por suas atividades criminosas pode ter repercussões negativas para a economia nacional. Mesmo do mundo. "| 2 | 

As implicações dessa posição são claras. O fato de que a especulação e os crimes financeiros causaram a pior crise econômica desde o século passado pesam pouco na balança da justiça. Embora tais excessos estejam associados com uma epidemia de fraude e crime, em todos os níveis das operações de grandes bancos, essas instituições estão autorizadas a continuar suas operações. É-lhes suficiente concordar com a lei e pagar uma multa para evitar condenação. 

Nesta série "Os Bancos e doutrina grande demais para ser condenado", analisa os sete exemplos que atestam a gravidade da situação atual: 

  1. Os acordos entre os bancos dos EUA e as diferentes autoridades do país, a fim de evitar uma condenação no caso dos empréstimos hipotecários abusivos e as execuções ilegais de habitações (foreclosures). 
  2. O HSBC (maior banco britânico) condenado a pagar multas nos EUA por lavagem de dinheiro dos cartéis  Mexicanos e Colombianos das drogas. 
  3. O HSBC e a evasão fiscal em grande escala. 
  4. A manipulação das taxas interbancárias e os tipos de derivados, conhecidos como caso Libor. 
  5. O escândalo dos "empréstimos tóxicos" na França. 
  6. A evasão fiscal sistematicamente organizada pelo Union Bank of Switzerland. 
  7. As atividades ilegais de Dexia nos territórios palestinos ocupados por Israel. 


Analisamos também a manipulação dos preços das matérias-primas e dos alimentos | 3 | e a manipulação das taxas de câmbio. | 4 | Para completar esta série, nós adicionamos alguns exemplos de delitos e crimes cometidos por bancos e oferecemos uma alternativa.

Outros affaires em que os grandes bancos estão envolvidos?

BNP Paribas (maior banco francês): As autoridades de supervisão dos Estados Unidos estão se preparando para exigir que o banco pague uma multa de 10.000 milhões de dólares em transações envolvendo países, pessoas e entidades que podem ser economicamente punidas de acordo com a lei dos EUA. 

Além disso, o procurador-geral de Mônaco, Jean-Pierre Dréno, abriu uma investigação judicial contra X, em 19 de fevereiro de 2014 para os líderes da lavagem, cumplicidade em lavagem, ocultação de lavagem e omissão de declarações suspeitas. A associação Serpa lhe tinha enviado uma questão de dinheiro como parte de uma mudança de controle de fraude envolvendo BNP Paribas Wealth Management Mônaco. | 5 | Um relatório interno da Inspeção-Geral do BNP Paribas, de 25 de outubro de 2011 explicou que entre 2008 e 2011, o BNP Paribas Wealth Management Mônaco | 6 | tinha recebido e descontou várias dezenas de milhares de cheques de quatro países africanos (Gabão, Senegal, Burkina Faso e Madagascar). A investigação preliminar mostrou que, de fato, 21 países africanos estavam envolvidos. Os cheques emitidos por residentes franceses, foram transferidos sem o seu conhecimento em conta em Mônaco. O objetivo desta manobra era para contornar controles de câmbio e do Tesouro, e também pode ter ajudado a lavar dinheiro para o crime organizado. "Foi uma surpresa feliz como eu tinha enviado vários e-mails para o procurador-geral de Mônaco, em abril de 2013, e tinha começado a pensar que o procurador permanecia em ação', se alegrava Sophia Lakhdar, presidente da ONG de combate à corrupção Serpa. Uma questão que deve ser monitorada. 

Na França, em 3 de março de 2014, 400 clientes denunciaram ante o civil uma filial do BNP Paribas que lhes tinha concedido crédito imobiliário em francos suíços que o reembolso em euros tinha aumentado pela desvalorização da moeda europeia. Os autores estão exigindo 40.000.000 € em indenizações e juros. 

Deutsche Bank (Maior banco da Alemanha) é objeto de multas e de profundas investigações sobre várias questões a ponto de terminar ou ainda estão em andamento: a manipulação do preço de mercado de energia elétrica na Califórnia (DB pagou uma multa) | 7 | 2009-2010 envolvimento em uma venda fraudulenta de certificados de CO2 (dióxido de carbono) de fixação no quadro de uma vasta rede de evasão fiscal, | 8 | uma perda dissimulada de 12 bilhões de dólares em 2009 no trading de derivativos, | 9 | manipulação da Libor (DB foi multado pela Comissão Europeia, e também alcançá-lo multas nos EUA e no Reino Unido, neste caso), manipulação do mercado de câmbio (investigação em andamento), | 10 | manipulando o preço do ouro e da prata (arquivo em análise), | 11 | as vendas abusivas de produtos hipotecários estruturados (Mortgage Backed Securities) sobre as agências federais imobiliárias Fannie Mae e Freddy Mac nos EUA (Processo continua naquele país), um caso judicial com o grupo privado Kirch que controlava um grande setor de mídia e acusa o DB de ter causado a sua falência em 2002 (edição atual) | 12 | Corrupção de clientes representantes de fundos de pensão japoneses por DB Japão entre 2010 e 2013. Como parte deste caso, um executivo do DB  no Japão foi preso em dezembro de 2013, em Tóquio. | 13 | O Deutsche Bank também foi acusado pelas autoridades do controle de Dubai de lavagem de dinheiro. | 14 | Salienta-se que o Deutsche Bank também tem envolvimentos em Las Vegas, onde possui o casino banking de 3.000 quartos, o Cosmopolitan. | 15 | Em Hong Kong, em dezembro de 2013, o ex-diretor da subsidiária do Deutsche Bank naquela cidade foi condenado a sete anos de prisão por corrupção. Ele embolsou à custa de comissões bancárias sobre a venda de bônus de subscrição, que são contratos de derivativos que permitem a compra de ações a um preço previamente fixado. Ele foi condenado a indenizar o Deutsche Bank. | 16 | Neste caso, vemos mais uma vez que, em vez de condenar o banco se condena a um ex-executivo enquanto o banco é apresentado como uma vítima. 

Royal Bank of Scotland (terceiro maior banco britânico), nacionalizado pelo governo britânico em 2008, mo início de 2014, o Estado continua a deter 81% de suas ações, a fim de evitar a falência, foi acusado de levar à bancarrota a PYME viáveis ​​para recuperar seus ativos a um bom preço. | 17 | Lawrence Tomlinson, ministro britânico do Ministério do Comércio, adotou um tom acusatório, disse: "Há muitos exemplos preocupantes de empresas sãs que foram destruídas pela RBS e o impacto devastador que poderia ter sobre a vida dos empresários." Sua acusações foram direcionadas para a divisão do banco responsável pela reestruturação de empresas em dificuldade, com o nome "Global Restructuring Group" ou grc. 

Pequenas e médias empresas sem problemas reais foram artificialmente capturadas na armadilha do GRC sob vários pretextos, como o de haver  infringido algumas de suas cláusulas menores nos seus termos de crédito. Estas empresas foram então submetidas a multas exorbitantes e custos, até centenas de milhares de libras, que regularmente levaram a baixar cortina. Outra subsidiária do RBS aproveitava para comprar a bom preço ativos baratos, especialmente nas posições de liquidação imobiliária. Outra autoridade britânica de supervisão enfrenta praticamente rejeição do RBS para aumentar os empréstimos para pequenas empresas, apesar de receber ajuda financeira, que tem principalmente, o objetivo créditos de relançar os créditos pra as PYME e as famílias. Lembre-se, além disso, que o RBS também foi multado por assuntos do Libor em 2013-2014 tendo  pago multas nos Estados Unidos, Reino Unido e na Comissão Europeia. Em 2014, o RBS foi envolvido na manipulação dos mercados de câmbio, embora em 2007-2008 tenha vendido produtos tóxicos no mercado subprime nos Estados Unidos. 

As provisões que o RBS decidiu tomar para responder a futuras multas aumentaram suas perdas e fazem seus próprios ativos tenha proporção/fundo  inferior a 50% do nível que o banco se comprometeu a atingir até 2016. 

Na França, em 28 de janeiro de 2014, o Tribunal de Paris Superior ordenou que o Royal Bank of Scotland, relatado pelo estabelecimento público de Intercommunal Cooperação (EPCI), Lille Métropole Comunidade Urbana (LMCU), em relação a um litígio relativo três contratos de swap. O TGI de Paris considerou que RBS tinha falhado em seu dever de informação e de seu dever de aconselhamento. 

Crédit Suisse (segundo maior suíço) e outros q 13 bancos suíços , incluindo UBS e HSBC Suíça, estiveram envolvidos na organização de uma fraude fiscal destinada às grandes fortunas dos Estados Unidos. Estes 14 bancos estão em conversações com as autoridades americanas para resolver litígios pendentes e começar de novo em uma nova base. O Credit Suisse estava no início de 2014, em plenas negociações; seu presidente pretende que um pequeno grupo de banqueiros privados com sede na Suíça teve um mau comportamento, mas estavam por trás da hierarquia. A Administração do Banco diz: "No entanto, assumimos a responsabilidade por essas ações que surgiram a partir de alguns funcionários e lamentamos profundamente." | 18 | Finalmente em maio de 2014, o Credit Suisse admitiu culpa e aceitou, a fim de escapar da condenação, pagar as autoridades de Washington multa de 2.6 bilhões. | 19 | Além disso, o Credit Suisse pagou pelo o mesmo tipo de crime, uma multa de 149 milhões de euros, para as autoridades alemãs a fim de escapar convicção. 

Barclays (segundo maior banco britânico) está envolvido no escândalo da Libor, na venda abusiva de produtos hipotecários estruturados nos EUA, na manipulação do mercado de energia elétrica na Califórnia, na manipulação de mercado de câmbio, na manipulação do mercado de ouro - teve que pagar uma multa de 26 milhões de libras esterlinas em maio de 2014 por esta matéria- | 20 | no manuseio físico de matérias-primas | 21 | na venda abusiva e fraudulenta de produtos de seguros para particulares e a PYME no Reino Unido, na lavagem de dinheiro negro - pagou uma multa de 298,000 mil dólares às autoridades americanas. A Barclays também se instrui uma causa no Reino Unido por transações ilegais com um fundo Catari em 2008. Em fevereiro 2014, o Barclays anunciou um bônus de 10% para seus gerentes e corretores, e uma redução adicional de 10.000 a 12.000 empregos. 

Bank of America (segundo maior banco dos EUA) está envolvido na venda abusiva de produtos estruturados nas execuções ilegais de hipotecas ... Foi o banco até o final de 2013 pagou para os Estados Unidos a maior soma de penalidades: 44 bilhões dólares para o período 2010-2013. 

Goldman Sachs (quinto maior banco dos EUA) está envolvido em muitos aspectos: manipulação física das commodities (matérias-primas do mercado e Alimentação) na venda abusiva de produtos hipotecários estruturados, nas execuções ilegais de habitações em produtos, na maquiagem das contas da Grécia no momento da sua entrada na zona do euro ... Também está denunciado por fraude em 2014 pela SEC (a autoridade de supervisão dos mercados financeiros nos Estados Unidos) respeito a Abacus 2007- ACI -um produto sintético estruturado comercializado pela Goldman Sachs em 2007 -. De acordo com a SEC, o Goldman Sachs mentiu para os compradores desse produto sobre o papel no fundo de hedge Paulson & Co. O banco afirmou que esse hedge fund tinha o mesmo comprador, quando, na verdade, este último estava apostando contra o banco. As perdas dos compradores foram substanciais em linha com os enormes lucros do Goldman Sachs e Paulson & Co. | 22 | Goldman Sachs é bem conhecido, principalmente por sua capacidade de se infiltrar nos mais altos níveis de governos e estados, tanto nos EUA, Europa e outros lugares. 

JP Morgan (Maior banco dos Estados Unidos) em janeiro de 2014 pagou uma multa de $2.6 bilhões para evitar a condenação no caso Bernard Madoff. Lembre-se que esse canalha de Wall Street tinha conseguido enganar clientes ricos por mais de 50 bilhões, e foi condenado a 150 anos de prisão em 2009. As autoridades têm a prova de que o JP Morgan tinha sérias dúvidas sobre a honestidade de Madoff de 1994. estava acusando o banco de não informar as autoridades e ter deixado Madoff agir como se o banco não sacasse qualquer benefício dele. Cabe esclarecer que o banco cobrava comissões sobre transações realizadas por Madoff, que foi um dos seus clientes, mas, no entanto, recusou-se a investir seus fundos próprios em negócios de Madoff. JP Morgan apenas relataou às autoridades dúvidas sobre Madoff depois de sua prisão. | 23 | JP Morgan também pagou uma multa de 500 milhões de libras para as autoridades britânicas para evitar a condenação em caso de evasão fiscal passando pela ilha de Jersey. Ele também é acusado de venda de derivativos tóxicos ao banco italiano Monte dei Paschi em 2008. Isto produzirá a perdas enormes do banco italiano, por isso teve que ser resgatado pelo governo no final de 2012 - início de 2013. Além disso, JP Morgan foi quem inventou, em 1994, os primeiros produtos estruturados ligados ao mercado de hipotecas. O banco concordou finalmente em 2013 a pagar uma multa de mais de 18 bilhões de dólares para várias autoridades norte-americanas. JP Morgan também é acusado de manipular CDS e outros derivados no mercado de Londres, em 2012. Mas não é só isso, ele também está implicado no escândalo da LIBOR, a manipulação do mercado de commodities físicas em despejos ilegais habitação... 

Devemos acabar com a impunidade para os bancos 

Claramente, vemos que os grandes bancos e outras grandes instituições financeiras de dimensão mundial agem com frequência como uma quadrilha organizada em cartel, mostrando um nível, pouco observado, de cinismo e abuso de poder. Atualmente, depois que os EUA colocaram dinheiro público disponível para as instituições financeiras nas quais a aposta especulativa não se saiu bem, os magistrados encarregados de aplicar a legislação se dedicam  a proteger os responsáveis destas entidades, banalizando assim, e mesmo justificando a posteriori, a conduta ilegal ou criminal de que são culpados. 

Tal contexto onde a impunidade prevalece, incentiva os gestores de empresas financeiras a fazerem mais abusos e assumir mais riscos. Os bancos, como instituições, não são condenados, e o mais frequentemente é que não sejam sequer convocados para o tribunal. 

Esses bancos descarregam toda a responsabilidade nos corredores, como Jérôme Kerviel, a quem fazem condenar por danos causados ​​a eles. 

A situação dos principais executivos dos bancos é muito diferente: a quantidade de seus bônus aumenta de acordo com o aumento de renda da entidade, e não é raro ver os bônus aumentem embora a rentabilidade dos bancos cai - independentemente da fonte ilegal dos recursos ou do fato que provenham de atividades financeiras especulativas extremamente arriscadas. No pior dos casos, se são descobertos, calmamente abandonam a instituição (muitas vezes com uma aposentadoria de ouro), porque eles sabem que não serão levados a julgamento e conservam em suas contas bancárias todos os benefícios obtidos. 

Embora este tipo de dispositivo perverso se mantenha, o abuso e a pilhagem dos recursos públicos pelo sistema financeiro será estendido no tempo. 

Além dos altos financeiros, deve-se notar a impunidade para os próprios bancos aos quais as autoridades aplicam a doutrina "Too big to jail". Trata-se sobretudo da demonstração da estreita sobreposição entre as direções dos bancos existentes, grandes acionistas, governos e diversos órgãos vitais dos Estados. 

Nós mostramos a ponta do iceberg que veio à luz graças aos escândalos e multas pagas pelos bancos para evitar condenações. Uma parte não desprezível das multas não foi comunicada ao público por parte das autoridades. 

Em caso de infrações graves, é necessário implementar soluções radicais: retirar a licença bancária dos bancos culpados em crimes, banir definitivamente algumas de suas atividades, instruir processos contra diretores e principais acionistas, o que também exige reparos. 

Finalmente, é urgente dividir cada um dos principais bancos em várias entidades, a fim de limitar os riscos, para socializar estes bancos colocando-os sob o controle dos cidadãos, e criando, desta forma, um banco que priorize o serviço público para a satisfação de necessidades sociais e de proteção da natureza. 


Notas

|1| Véase: Robin Delobel, Éric Toussaint, Renaud Vivien, «Dexia complice de violations très graves des droits humains dans les territoires occupés par Israël», publicado el 29 de mayo de 2014, http://cadtm.org/Dexia-complice-de-gravisimas
|2| Huffingtonpost, «Holder admits some Banks too big to jail», disponible enhttp://www.huffingtonpost.com/2013/.... En esta web se puede ver y escuchar la parte del testimonio del procurador general de Estados Unidos donde declara: «I am concerned that the size of some of these institutions becomes so large that it does become difficult for us to prosecute them when we are hit with indications that if you do prosecute, if you do bring a criminal charge, it will have a negative impact on the national economy, perhaps even the world economy,…». Dura 57 segundos y vale la pena verlo.
|3| Éric Toussaint, "Los bancos especulan con las materias primas y los alimentos", publicado el 10 de febrero de 2014, http://cadtm.org/Los-bancos-especul...
|4| Éric Toussaint, "Cómo los grandes bancos manipulan el mercado de divisas", publicado el 19 marzo de 2014, http://cadtm.org/Como-los-grandes-bancos
|6| Web oficial del banco: https://www.wealthmanagement.bnppar...
|7The Wall Street Journal, «US Fines Deutsche over Energy Trades», 23 de enero de 2013.
|8Financial Times, «Six jailed for tax evasion in emissions trades probe», 22 de diciembre de 2011.
|9Financial Times, «D Bank in new probe over crisis accounting», 4 de abril de 2013.
|10Financial Times, «Deutsche Bank suspends traders amid forex probe», 18-19 de enero de 2014.
|11Financial Times, «Big Deutsche Bank losses test nerves over multibillion-euro litigation risks», 21 de enero de 2014. Mientras que el affaire no había acabado, el Deutsche Bank anunció que se retiraba del quinteto de bancos internacionales que fijan en Londres el precio del oro. Los otros bancos son: Barclays, HSBC, Société Générale (France) y Scotiabank. Véase el FT del 24-25 marzo de 2014.
|12Financial Times, «DB co-chief named as probe suspect», 6 de noviembre de 2013. Véase también Le Monde, «La Deutsche Bank n’arrive pas à sortir de la spirale des affaires et des scandales», 11 de abril de 2013.
|13Financial Times, «DB employee arrested. Bribery allegation in Tokyo.», 6 de diciembre de 2013.
|14Financial Times, «Deutsche Bank agrees to give client details to Dubai», 10 de febrero de 2014.
|15Financial Times, «Deutsche Bank’s exposure to Las Vegas casinos hits $4.9bn», 17 de octubre de 2011.
|16Financial Times, «Ex-Deutsche Bank HK chief jailed for bribery», 10 de diciembre de 2013.
|17Le Soir, «Royal Bank of Scotland poussait les PME à la faillite», 26 de noviembre de 2013. Véase también: Le Monde, «La banque britannique RBS accusée d’avoir poussé des entreprises à la faillite», 25 de noviembre de 2013.
|18Le Figaro, «USA: Credit Suisse reconnaît la fraude fiscale», 26 de febrero de 2014,http://www.lefigaro.fr/flash-eco/20....
|19Financial Times, «Credit Suisse fined $2.6bn for helping US tax evaders», 24-25 de mayo de 2014.
|20| Entre los delitos que fueron claramente identificados en materia de manipulación de la cotización del oro, se puede decir que Barclays hizo bajar, un día de 2012, el precio del oro, con el fin de evitar la indemnización de un cliente por un monto de £2,3 millones. Eso pasó al día siguiente del anuncio del pago por Barclays de una multa de £ 290 millones a las autoridades del RU y de Estados-Unidos en el affaire de la manipulación del Libor. Financial Times, «Barclays fined £26m for trader’s gold rigging», 24-25 mayo de 2014.
|21Financial Times, «Barclays misused client information, court told», 24 de julio de 2013.
|22| Frank Partnoy, «Prends garde Wall Street! Les juristes arrivent!», 31 de enero de 2014, http://dfcg-news.com/prends-garde-w...
|23Financial Times, «JPMorgan had Madoff fears in 1998», 8 de enero de 2014.

Éric Toussaint é professor na Universidade de Liège (Bélgica), presidente do CADTM Bélgica e membro do Conselho Científico da ATTAC França. Autor de livros como  "Um olhar sobre o neoliberalismo espelho desde as suas origens até o presente."