"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 26 de julho de 2014

O que dizer do empresariado do "Forró Eletrônico"?

Essa ligação da arte com a Indústria Capitalista moderna parece ser incompatível, na realidade a mercadoria passa a ocupar o lugar da arte, esta desaparece no seu sentido mais puro; no entanto não morre, apenas os meios a tem jogado para último plano; a arte se torna resistência e pode se utilizar da força dos meios para fazer sua crítica.

Na sociedade de massas houve essa compatibilidade, ou talvez tenha sido um primeiro estágio antes daquilo que ocorrera nos anos 1990, por exemplo, com o jazz e com a Bossa Nova; esses tipos de música não eram feitas para serem mera brevidade vendável, mas ocupavam as mídias, muitas vezes cumprindo com mais vigor um papel político-social. No Brasil os festivais de música da TV Record trouxeram a cena aquela Geração de Chico Buarque, Geraldo Vandré e tantos outros.

No Nordeste de Hoje o circuito do Forró Eletrônico é um lobby empresarial diferenciado. Gonzaga vendia, já fora um artista com gravadoras, mas sobressaía o artista, a criação importava, o clima era outro. O típico empresário atual desse ramo é um sujeito que ostenta, próximo dos fabricantes e distribuidores de bebidas alcoólicas; repare a ligação íntima entre a Bandas e as gírias disseminadas acerca do consumo de álcool, existem expresões repetidas nesse circuito de produtos como: "Vodka Slova - Mistura que eu gosto", Pitú - Mania de Brasileiro",  etc. Esses sujeitos se tornam "barões" de bandas e eventos com uma linguagem típica, arte aqui não tem interesse algum.

Esses "mecenas" dominam o senso comum. São pessoas com poder de mídia, muitas vezes têm programas nas rádios ou financiam a programação, a TV Diário de Fortaleza tem uma programação recheada com essas bandas; outros são aliados de ou até mesmo "políticos" que usam as prefeituras para realizarem eventos, as festas de padroeiro, vaquejadas se tornam um circuito permanente de shows, nas cidades a passagem de ônibus estilizados é rotineira. Existe uma formação permanente de novos grupos, todos com o mesmo "roteiro", não precisa criar nada. Os "sucessos" são instantâneos, é preciso "criar" interminavelmente, o que não é difícil em vista de não precisar profundidade criativa.

Uma mistura de libido, álcool, e dominação midiática. Não se pode esquecer dos acidentes vitimando principalmente jovens motociclistas que se deslocam para os shows frequentemente. Chamar de forró é contestado por muitos, evidentemente que as raízes estão lá mesmo, mas é preciso entender os processos pelos quias passara a sociedade rural e cultural para uma sociedade urbana, com influência global; a música "influente" no Mundo Ocidental todo se degenerara de forma inimaginável a partir da década de 1990, se fazendo pensar que é o que resta, mas a arte precisa ser reinventada sempre.

Morre uma criança por hora em Gaza, denuncia a ONG Save The Children



A organização não governamental "Save the Children Fund" alertou que, nos últimos dois dias, uma criança palestina morre por hora em Gaza. Em comunicado, a ONG pediu à comunidade internacional uma "resposta inequívoca para deter este derramamento de sangue".


Duas semanas depois do começo da ofensiva militar israelita, pelo menos 70.000 crianças da Faixa de Gaza viram-se obrigadas a abandonar as suas habitações com as famílias, assegurou a ONG, citada pela Europa Press.
Além disso, a Save de Children Fund indicou que 116.000 é o número de crianças que necessita de "apoio psicossocial especializado imediato" na Faixa de Gaza. Em Israel, as crianças também sofrem com as consequências desta situação "enfrentando, no dia a dia, o terror do lançamento de rockets".
A equipa da Save the Children em Gaza está a trabalhar nas zonas mais castigadas pelos ataques com o objetivo de proporcionar ajuda médica e ajudar as famílias deslocadas com colchões, materiais para proteção, kits de higiene e materiais para o cuidado dos bebés, advertindo que "o nível de necessidades é assustador".
São já 121 as crianças mortas, em Gaza, pela ofensiva israelita.A ONG informou que os recém nascidos são um setor muito vulnerável e assegura que a comida para os bebês é "extremamente escassa", o que coloca as mães numa situação de enorme stress.
Os médicos alertaram que os partos prematuros estão a duplicar, assinalou a ONG. "Vimos muitos partos prematuros como resultado do medo e dos problemas psicológicos causados pela ofensiva militar" (israelita), explicou o Dr. Yousif Al Swaiti, diretor do hospital Al Awda com o qual trabalha a Save the Children.
"O número de partos prematuros duplicou, comparado com os que havia antes da escalada de violência", esclareceu o médico. "Perdem-se anos de trabalho com cada explosão", assegurou um dos ativistas da Save the Children, David Hassell. "Nunca existirá justificação para o ataque a escolas e hospitais, quando muitos civis não têm para onde ir. Nenhuma das partes deveria usar estas instalações para fins militares", disse.
A ONG pediu à comunidade internacional que "responda a esta guerra contra as crianças exercendo toda a sua influência diplomática para pôr fim imediato ao derramamento de sangue". "Se a comunidade internacional não atua já, a guerra contra as crianças, em Gaza, pesará sobre as nossas consciências para sempre", concluiu.
Artigo publicado no Clarín.
* Leia mais em:
Tradução: António José André - Esquerda.net

Por que os movimentos sociais precisam da imaginação radical

«A imaginação radical surge, na maioria das vezes, de forma mais brilhante em quem encontra a maior ou a mais aguda opressão e exploração, e muitas vezes é atrofiada e diluída em quem goza de maiores privilégios.»
Este é um trecho editado a partir deA Imaginação Radical: Investigação sobre Movimentos Sociais na Era da Austeridade, publicada pela Zed Books junho 2014. Neste livro, tentamos entender melhor de que maneira a imaginação anima os movimentos de mudança social hoje. Com base nesse entendimento queremos reenquadrar os propósitos da investigação dos movimentos sociais.
A imaginação radical é sobre (re)desenhar o passado, contando histórias diferentes sobre como o mundo se tornou naquilo que é, lembrando o poder e a importância das lutas de ontem, e honrando a forma como elas continuam vivas no presente.
Na sua forma mais superficial, a imaginação radical é a capacidade de imaginar o mundo, a vida, e as instituições sociais, não como elas são, mas como eles poderiam ser. É a coragem e a inteligência de reconhecer que o mundo pode e deve ser mudado. A imaginação radical não é apenas o sonhar com futuros diferentes. É sobre trazer essas possibilidades de volta, resgatando-as ao futuro para o nosso trabalho no presente, para inspirar a ação e novas formas de solidariedade, hoje.
Da mesma forma, a imaginação radical é sobre (re)desenhar o passado, contando histórias diferentes sobre como o mundo se tornou naquilo que é, lembrando o poder e a importância das lutas de ontem, e honrando a forma como elas continuam vivas no presente.
A imaginação radical representa também a nossa capacidade de imaginar e transformar em causa comuns as experiências de outras pessoas. Fortalecendo a nossa capacidade de construir  solidariedade entre limites e fronteiras, reais ou imaginárias. Neste sentido, ela é a base da solidariedade e da luta contra a opressão, que são fundamentais para a construção de movimentos robustos, resilientes e capacitados. Sem a imaginação radical somos deixados apenas com os sonhos residuais dos poderosos e, para a grande maioria, eles são vividos não como sonhos mas como pesadelos de insegurança, precariedade, violência e desesperança. Sem a imaginação radical, estamos perdidos.
Abordamos a imaginação radical não como uma coisa que as pessoas possuem em quantidades maiores ou menores, mas como um processo coletivo, algo que os grupos fazem conjuntamente através de experiências compartilhadas, línguas, histórias, ideias, arte e teoria. Colaborando com os que nos rodeiam, criámos múltiplas, sobrepostas, contraditórias e coexistentes paisagens imaginárias, horizontes de possibilidades comuns e entendimentos partilhados. Estas paisagens compartilhadas são moldadas  e moldam também as imaginações e as ações dos indivíduos que nelas participam.
O conceito de "radical" herda o seu significado mais forte da palavra latina "raiz", no sentido de que as ideias radicais, ideologias ou perspetivas são informadas pelo entendimento de que os problemas sociais, políticos, económicos e culturais são resultado de antagonismos sistémicos, de contradições, desequilíbrios de poder e formas de opressão e exploração, profundamente enraizados.
Como resultado, o radicalismo não descreve tanto um certo conjunto de táticas, estratégias, ou crenças. Pelo contrário, dirige-se a um entendimento geral de que, mesmo se o sistema como um todo pudesse ser alterado por meio de reformas institucionais graduais, essas reformas devem ser baseadas e destinadas a uma transformação das qualidades fundamentais e dos princípios do próprio sistema. A ideia de radicalismo não pode ser monopolizado por qualquer ponto no espectro político: fundamentalistas, milícias de extrema-direita, neoconservadores, e outros também apresentam elementos de radicalismo, tanto quanto (e às vezes mais do que) os  anarquistas, ativistas anti-racistas, ativistas feministas, ou jornalistas independentes, académicos e escritores que compõem o elenco de personagens neste livro.
Com base nesta abordagem, entendemos que os movimentos sociais são convocações da imaginação radical: eles são convocados (coletivamente chamados à existência) por indivíduos que compartilham alguma compreensão e imaginação do mundo, num sentido radical. Ou seja, eles veem os problemas que enfrentamos profundamente enraizados nas instituições sociais e sistemas de poder e, mais importante, acreditam que essas instituições e os sistemas podem e devem ser transformados. Enquanto os movimentos sociais podem ser muitas coisas e assumir muitas formas, sugerimos que pelo menos uma dimensão que os une é (às vezes incidental às vezes intencional), o cultivo de paisagens imaginárias comuns, algo que é um processo ativo, não um estado estacionário.
Assim, podemos dizer que os movimentos sociais são animados pela imaginação radical. Isso não quer dizer que todos os membros partilham paisagens imaginárias idênticas; a dinâmica de condução dos movimentos sociais são as tensões e conflitos e diálogos entre atores imaginativos. A imaginação radical não é uma coisa estática a ser estudada sob o microscópio ou medida através da análises quantitativas. Deve antes ser observada como "faíscas" resultantes do atrito entre indivíduos, grupos, ideias, estratégias e táticas. Na verdade, a imaginação radical emerge dos conflitos e tensões relevantes para a experiência de um mundo altamente desigual. E por essa razão, a imaginação radical surge, na maioria das vezes, de forma mais brilhante em quem encontra a maior ou a mais aguda opressão e exploração. E em geral é atrofiada e diluída entre  quem goza dos maiores privilégios.
A dupla crise dos movimentos sociais
O capitalismo, o neocolonialismo, o patriarcado e a supremacia-branca, são sistemas de poder que são reproduzidos pelas ações e relações entre as pessoas, mas também reproduzem pessoas e relacionamentos. Nós, como indivíduos, reproduzimos-nos dentro das nossas comunidades, mas também reproduzimos as nossas comunidades, incluindo os seus defeitos.
Entendemos que os movimentos sociais e a imaginação radical estão hoje presos numa contradição que identificamos como uma "dupla crise" da reprodução social. Reprodução social refere-se aqui à densa rede de relações e formas de trabalho que reproduzem a vida social, e, inversamente, ao conjunto de forças necessárias para reproduzir essas relações e formas de trabalho. O capitalismo, o neocolonialismo, o patriarcado e a supremacia-branca, são sistemas de poder que são reproduzidos pelas ações e relações entre as pessoas, mas também reproduzem pessoas e relacionamentos. Nós, como indivíduos, reproduzimos-nos dentro das nossas comunidades, mas também reproduzimos as nossas comunidades, incluindo os seus defeitos.
Por um lado, os movimentos sociais, inerentemente, imaginam e tentam provocar uma mudança radical na forma como a sociedade se reproduz. Se procuram alterar a política governamental, os sistemas institucionais e organizacionais ou normas culturais, é porque os movimentos não querem que a sociedade seja reproduzida na sua forma atual. Este é especialmente, mas não exclusivamente, o caso dos movimentos sociais radicais que veem os problemas que enfrentam como profundamente enraizados na ordem social, e reconhecem que uma mudança radical é necessária para que a ordem, nas suas próprias raízes, possa ser alterada e os problemas possam ser resolvidos.
Por outro lado, intencionalmente ou não, os movimentos sociais também se tornam esferas de reprodução social alternativa para os seus participantes: espaços de formação identitária, de amizade, de sentido, de cuidado e de possibilidade, embora, como veremos, eles nunca sejam utopias não-problemáticas (longe disso). Muitas vezes procuram criar, dentro das suas formas ou normas organizacionais, uma alternativa paradigmática para a sociedade que procuram mudar. Uma tendência que se tornou muito mais consciente e comum desde os anos 1960 com o surgimento de "novos movimentos sociais" e, especialmente, desde a "viragem anarquista" (anarchist turn) na década de 1990.
Estamos atentos a essa tensão, porque na realidade a crise de reprodução social na sociedade capitalista global está a intensificar-se em pelo menos três frentes. Primeiro, a exponenciação do neoliberalismo, que na forma de um regime de austeridade orgulhosa e cruel  tem sido acompanhada  pela subjugação dos governos à vontade do capital e pela delapidação do que resta do Estado-social. Em segundo lugar, a "Guerra ao Terror" continua a justificar a ampliação da repressão, da vigilância, da guerra e do policiamento em todo o mundo, bem como vem fortalecendo uma cultura de medo apoiada por fantasias racistas e ambições neocolonialistas. Em terceiro lugar, o aprofundamento da crise ecológica, nomeadamente o aumento da toxicidade do meio ambiente e do caos climático desencadeado pelo aquecimento global, que ameaça produzir terrores ainda inimagináveis sobre as populações do mundo, terrores que provavelmente serão sofridos e suportados enquanto os governos e as comunidades continuam a ser desmantelados, ao mesmo tempo que  a impunidade capitalista é consagrada.
A soma desses fatores é uma crise global da reprodução social, onde a própria vida social é realizada para pagar o custo da reprodução de um renegado e canceroso sistema capitalista. Esta crise manifesta-se como a intensificação dos fundamentalismos, preconceitos e ódios, bem como um avanço ainda maior em direção ao individualismo competitivo e ao consumismo.
Nestes tempos, quando a maioria de nós vive uma vida cada vez mais isolada, os movimentos sociais não são apenas importantes como veículos para uma efetiva e necessária mudança social. Eles tornam-se ilhas de refúgio num mundo indiferente. Por um lado, nas suas formas de organização e nas normas do grupo, muitas vezes se esforçam para "prefigurar" o mundo em que gostariam de viver: uma vida que valorize a individualidade e comunidade, a democracia radical e a solidariedade, a igualdade e aceitação, a paixão e a razão, a esperança e o amor.  Os movimentos muitas vezes servem como espaços de amizade, comunidade, romance, e capacitação. Isso é verdade mesmo nas organizações e grupos mais severos e formais, que intencionalmente pretendem repudiar as suas dimensões sociais.
Mas, ao mesmo tempo, nós e outros temos observado que os movimentos e ativistas, em diversas ocasiões, são vítimas de crises de reprodução dentro das suas próprias organizações. Às vezes isso manifesta-se em conflitos abertos em torno das estratégias e das táticas. Outras vezes (na verdade, nós sugeriríamos, usualmente) manifesta-se -pelo menos na superfície- enquanto conflitos de personalidade ou tensões sociais. Frequentemente, ambos são o resultado da forma como o movimento ou grupo em questão continua a reproduzir os comportamentos opressivos ou padrões que herdou da sociedade de que é parte, nomeadamente as tensões em relação ao comportamento machista, à política sexual e à desvalorização continuada de pessoas de cor e de outras pessoas marginalizadas.
Neste livro, queríamos imaginar e experimentar o que uma pesquisa "pré-figurativa" pode parecer, uma forma de pesquisa tomada de empréstimo a um futuro pós-revolucionário que só podemos vislumbrar. Queríamos imaginar uma forma de pesquisa comum, para além dos gabinetes. Assim, esperávamos fazer justiça à imaginação radical ajudando a criar as condições para a sua emergência e florescimento.

Publicado originalmente em Opendemocracy.net. Tradução de Rui Matoso.
Sobre os autores

:
Max Haiven ensina economia política e estudos culturais na Nova Scotia College of Art e Design, em Halifax e é autor de Crises of Imagination, Crises of Power: Capitalism, Creativity and the Commons. Juntos coordenam o Projeto Imaginação Radical baseada em Halifax na Costa Leste do Canadá.
Alex Khasnabish ensina sobre os movimentos , a mudança social, e contratou a pesquisa em Mount Saint Vincent University , é o coeditor de Insurgent Encounters: Transnational Activism, Ethnography, and the Political, e é o autor de Zapatistas: Rebellion from the Grassroots to the Global and Zapatismo Beyond Borders.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Vicenç Navarro: O que não foi dito sobre o novo banco dos países emergentes

Artigo publicado por Vicenç Navarro na coluna "Pensamiento Critico" no diário PÚBLICO da Espanha, 25 de julho de 2014.

A história dos desastres (e não há outra maneira de definir as consequências da implementação de suas políticas) criados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) é longa. Esta instituição, que, em sua configuração atual tem como objetivo defender os interesses do capital financeiro (ou seja, dos bancos), em detrimento dos interesses dos Estados supostamente ajudados por ele, tem uma longa lista de danos para as populações dos Estados "ajudados" (e, em particular, as suas classes populares) por causa das políticas impostas a seu povo (ver Los amos del mundo. Las armas del terrorismo financiero, Vicenç Navarro y Juan Torres, 2012). 


Um caso claro ocorreu em 1997, quando vários países asiáticos afetados por uma crise financeira causada pela especulação constante nos mercados financeiros, tentou estabelecer seu próprio banco alternativo ao FMI, provisoriamente chamado Fundo Monetário Asiático. Esta tentativa foi imediatamente vetada pelo governo federal dos EUA, especificamente, pelo Ministro das Finanças (Secretário do Tesouro), intimamente ligado a Wall Street, o centro de bancário dos Estados Unidos. Como resultado, eles tiveram que seguir as políticas impostas pelo FMI, as clássicas e previsíveis políticas neoliberais, as reformas que afetaram profundamente o bem-estar do povo dos Estados "assistidos",  políticas que, como também ocorre agora na zona do euro, foram ineficazes na resolução da enorme crise econômica e financeira. Na verdade, piorou, como também aconteceu na zona euro.


Como consequência, surgiu com maior intensidade a demanda desses países e outros que sofreram as mesmas políticas, para sair do FMI e estabelecer um fundo alternativo. Esses países concluíram que era praticamente impossível mudar o FMI, controlado por interesses financeiros norte-americanos e seus aliados europeus, interesses que, aliás, também afetaram negativamente o bem-estar da população da Europa e da América do Norte. Não era, como sempre tentou apresentar  a grande mídia, um conflito entre os EUA e a Europa contra o resto do mundo, mas os interesses financeiros das instituições bancárias - que beneficiam setores minoritários nesses países - frente à maioria das populações dos países com diferentes níveis de desenvolvimento econômico. O que as políticas impostas pelo FMI mostraram foi que os interesses particulares das instituições bancárias não eram os mesmas, nem tampouco eram compatíveis com os interesses das classes populares dos países desenvolvidos, nem com os interesses das dos países emergentes. Como mostra a enorme crise financeira que os EUA e a União Europeia estão a sofrer, a realidade é que o enorme controle pelas instituições bancárias pelo FMI, pelo Banco Mundial e pelo Banco Central Europeu (BCE), está a beneficiar interesses particulares, diferentes, e de fato contrário aos interesses gerais da maioria da população (que são as suas classes populares) dos países, tanto economicamente avançados e os menos desenvolvidos. Novamente, o que está a acontecer na zona euro (e, em particular, na sua periferia) é um exemplo claro.

A situação na Ucrânia e 31 países "ajudados" pelo FMI 

Surpreenderá-se o leitor que apareça de pronto neste artigo uma referência à Ucrânia, um país que está passando por um conflito bélico de enormes conseqüências. Mas a situação de guerra, a guerra civil naquele país, está escondendo apenas mais um desastre criado pelo FMI. Naquele país, as políticas neoliberais impostas pelo FMI e seu aliado, o BCE, estão causando uma recessão enorme, uma queda de nada menos do que 5% do PIB, e um grande aumento do desemprego. De fato, dos 41 países que receberam "ajuda" do FMI, 31 sofreram uma recessão enorme causada pelas políticas de austeridade impostas pelo FMI e do BCE (ver o excelente artigo de Mark Weisbrot, “BRICS’ New Financial Institutions Could Break a Long-Standing and Harmful Monopoly”, en Center for Economic and Policy Research, 18.07.14)). 

Daí a urgência e a necessidade de criar instituições alternativas, como a criada pelos países emergentes BRICS  (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), aberta a outros países. A mídia, influenciada pelo capital financeiro americano e europeu, tentou minimizar a importância deste desenvolvimento, considerando-o implausível. Sua credibilidade como instituição financeira alternativa, no entanto, é suportada porque todos esses países têm um sistema bancário público. Na verdade, um fato que não é do conhecimento geral é que os países que tiveram grande crise financeira têm sido aqueles em que, em seu sistema bancário, o setor privado predomina. Os casos mais claros são os EUA e a zona do euro, ainda mais acentuada da zona do euro, porque nesta área, o BCE não é um banco central, mas um lobby da Banca do banco (ver o meu artigo "“El BCE, el lobby de la banca”, Público, 08.12.11). Isso deixa os Estados em uma situação muito vulnerável, obrigando-os a pagar juros excessivos sobre a sua dívida. Daí o surgimento de um fundo alternativo ao FMI pode significar um avanço considerável na tentativa de quebrar a mordaça representada pelo FMI para todos os países, tanto aos emergentes quanto aos países ditos desenvolvidos.

Edição especial da Science alerta para 6º Grande Extinção

Em uma coletânea de estudos sobre a crise e os desafios do imenso número de extinções causadas pelos humanos, revista ressalta as implicações da 'defaunação' dos ecossistemas

Autor: Fernanda B. Müller   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil




A triste conclusão de que as nossas florestas, além de estarem em um processo contínuo de desmatamento, estão vazias, cada vez mais depauperadas da vida que as constitui, é o foco de uma série especial da revista Science

A publicação chama a atenção para um termo que deve se tornar cada vez mais conhecido, a ‘defaunação’: a atual biodiversidade animal, produto de 3,5 bilhões de anos de evolução, apesar da extrema riqueza, está decaindo em níveis que podem estar alcançando um ponto sem volta.

Segundo cientistas, tal perda parece estar contribuindo com o que classificam como o início do sexto evento de extinção biológica em massa – ao contrário dos outros, que tiveram causas naturais, nós seríamos os culpados, devido às chamadas atividades antrópicas.

“Muito permanece desconhecido sobre a 'defaunação do antropoceno'; essas brechas no conhecimento prejudicam a nossa capacidade de prever e limitar os seus impactos. Porém, claramente, a defaunação é tanto um componente perverso da sexta extinção em massa do planeta quanto uma grande causadora da mudança ecológica global”, concluíram pesquisadores no artigo 'Defaunação no Antropoceno'. 

Na abertura da revista, um dos editores, Sacha Vignieri, lembra que, há alguns milhares de anos, o planeta servia de lar para espetaculares animais de grande porte, como mamutes, tartarugas gigantes, tigres-dente-de-sabre, entre outros.

Porém, evidências apontam o ser humano como o grande culpado pelo desaparecimento desses animais, afirma o editor.

E infelizmente, a tendência parece longe de mudar, e com ela, toda uma série de funções dos ecossistemas, das quais depende a nossa vida, são alteradas de formas dramáticas.

Como mostram os artigos na Science, os impactos da perda da fauna vão desde o empobrecimento da cobertura vegetal até a redução na produção agrícola devido à falta de polinizadores, passando pelo aumento de doenças, a erosão do solo, os impactos na qualidade da água, entre outros. Ou seja, os efeitos da perda de uma única espécie são sistêmicos.

Números

De acordo com o estudo 'Defaunação no Antropoceno', as populações de vertebrados declinaram em uma média de mais de um quarto nos últimos quarenta anos. Isso fica extremamente evidente quando qualquer um de nós caminha nos remanescentes de Mata Atlântica: é realmente muito difícil encontrar animais de médio e grande portes.

Pelo menos 322 espécies de vertebrados foram extintas desde 1500, e esse número só não é maior porque não conhecemos todas as espécies que já habitaram ou ainda residem em nossas florestas.

Se a situação é complicada para os vertebrados, que são muito mais conhecidos, é angustiante imaginar o tamanho da crise para os invertebrados, como os insetos, muito menos estudados.

"Apesar de menos de 1% das 1,4 milhão de espécies de invertebrados descritas terem sido avaliadas quanto à ameaça pela IUCN, das analisadas, cerca de 40% são consideradas ameaçadas”, afirma o estudo.

Solução?

Certamente, a resolução dessa crise do Antropoceno não é simples.

As causas dessas perdas são bem conhecidas – caça, fragmentação dos habitats, uso de agrotóxicos, poluição, etc. –, e as tentativas para reverter essas tendências estão aumentando, como a reintrodução da fauna.

No artigo ‘Revertendo a defaunação: restaurando espécies em um mundo mutante’, pesquisadores revisam uma série de translocações conservacionistas, como o reforço, a reintrodução e métodos mais controversos que buscam restaurar populações fora do seu habitat natural ou substituir espécies extintas. 

Os autores escrevem que a meta mais tradicional, de ter populações selvagens autossustentadas em paisagens pristinas intocadas pela influência humana, é “cada vez mais inalcançável”. Assim, eles sugerem que criar a “selva”, em vez de restaurá-la, é o caminho mais prático para avançar. 

Entretanto, os desafios para reverter as extinções estão se mostrando muito desafiadores, e as pesquisas atuais mostram que, “se não conseguirmos acabar ou reverter as taxas dessas perdas, significará mais para o nosso futuro do apenas que corações desiludidos ou uma floresta vazia”, disse Vignieri, o editor do especial na Science.

Rodolfo Dirzo, professor da Universidade de Stanford – um dos autores de Defaunação no Antropoceno –, argumenta que reduzir imediatamente as taxas de alteração dos habitats e a sobre-exploração ajudaria, mas que isso precisaria ser feito de acordo com as características de cada região e situação.  

Ele espera que a sensibilização sobre a atual extinção em massa e suas consequências ajude a desencadear mudanças.

“Os animais importam para as pessoas, mas no equilíbrio, eles importam menos do que a alimentação, emprego, energia, dinheiro e desenvolvimento. Enquanto continuarmos a enxergar os animais nos ecossistemas como tão irrelevantes para essas necessidades básicas, os animais perderão”, disseram Joshua Tewksbury e Haldre Rogers no artigo “Um futuro rico em animais”. 

Crédito das imagens: Revista Science; Fabricio Basilio

Palestinos fazem maior manifestação em décadas

Mais de 20 mil palestinos da Cisjordânia foram atacados pela polícia de choque israelita no chekpoint de Qalandia, que matou dois ativistas e feriu 200. Líderes convocaram “Dia de Fúria” esta sexta em solidariedade com os irmãos de Gaza.

Mais de 20 mil palestinos (dados do The Guardian) manifestaram-se na noite desta quinta-feira em Ramallah, na Cisjordânia, em solidariedade com os seus irmãos de Gaza. O cortejo pacífico dirigiu-se a Jerusalém e foi atacado pelas tropas de choque de Israel nocheckpoint de Qalandia. A polícia abriu fogo com balas reais e matou pelo menos dois palestinianos, ferindo cerca de 200, nos confrontos que se seguiram. Fontes palestinianas afirmaram que a manifestação foi a maior já realizada em décadas.
Também houve protestos em Jerusalém, onde a polícia impediu o acesso à mesquita de al-Aqsa a todos os homens com menos de 50 anos. Pelo menos 20 manifestantes foram presos.
Até ao ataque da polícia de choque, a manifestação era pacífica
Convocada pelo Facebook
A manifestação foi convocada por um grupo de jovens através do Facebook, entre eles o filho do importante dirigente da Fatah Marwan Barghouti, preso nas cadeias de Israel. O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, apelou aos palestinianos para ampliarem os protestos, e líderes da Cisjordânia convocaram um “Dia de Fúria” para esta sexta-feira.

Estudo identifica fatores da má gestão de recursos da saúde repassados pela União aos municípios

Má gestão de recursos da saúde municipal gera desperdícios

Má administração, não pagamento de tributos pelo município, fraca fiscalização do Conselho Municipal de Saúde e processo licitatório irregular são alguns dos principais fatores que geram ineficiência (desperdício passivo) relacionada à aplicação de recursos da saúde repassados pela União aos municípios. A conclusão é do estudo Fatores Associados ao Desperdício de Recursos da Saúde Repassados pela União aos Municípios Auditados pela Controladoria Geral da União, publicado na Revista Contabilidade & Finanças, do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, tendo como autores Lidiane Nazaré da Silva Dias, José Matias-Pereira, Manoel Raimundo Santana Farias e Vanessa Mayara Souza Pamplona.
Os reflexos da ineficiência da gestão dos recursos públicos na área da saúde são bastante conhecidos. Obras que perduram por meses a mais do que o planejado, remédios comprados e não distribuídos antes do vencimento, ausência de efetiva utilização dos equipamentos recebidos, etc. Esse tipo de desperdício não recebe tanta atenção da mídia, ou mesmo em trabalhos acadêmicos, como ocorre com a corrupção (desperdício ativo). Mas estudos realizados no exterior indicam que os gastos desnecessários gerados pela má gestão pública podem representar até quatro vezes mais que os recursos relacionados ao desperdício ativo. Os autores da pesquisa citam, como exemplo, um estudo realizado por Bandiera, Prat, e Valletti (2009), evidenciando que, na Itália, esses gastos representam 83% do total de desperdício de dinheiro público na aquisição de bens.
Principal contribuição da pesquisa é chamar atenção para o desperdício passivo
A principal contribuição da pesquisa é chamar a atenção da academia, do governo e da sociedade para a existência de desperdício passivo, ou má gestão como é mais conhecido, que afeta a qualidade dos serviços prestados à população e provoca prejuízo aos cofres públicos. “Estes achados contribuem para a melhoria na gestão dos recursos da saúde à medida que chamam a atenção para a existência do desperdício passivo (ineficiência) e as principais formas com que ele acontece, identificando-se a necessidade de se aprofundar as discussões sobre o tema”, analisa um dos pesquisadores, a professora Lidiane Nazaré da Silva Dias, da Faculdade de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Pará.
O trabalho procurou identificar os fatores tanto de desperdício passivo quanto de desperdício ativo que melhor explicassem as irregularidades na gestão dos recursos públicos municipais repassados pela União para a área da saúde. O primeiro ocorre quando há um gasto desnecessário para a entidade pública, mas o servidor ou gestor não obtém vantagem financeira para si. Já o segundo é a corrupção propriamente dita, em que o indivíduo obtém benefício privado. Lidiane Dias ressalta que, em alguns casos, o desperdício passivo existe para tentar camuflar o desperdício ativo.
Para a identificação do desperdício ativo e passivo nos gastos com saúde, os autores da pesquisa analisaram os relatórios de auditoria da Controladoria Geral da União (CGU), do Programa de Fiscalização por Sorteios Públicos, elaborados no ano de 2010, referentes a 102 municípios brasileiros fiscalizados. Os autores ressaltam que, apesar dos relatórios da CGU representarem uma fonte de dados técnica (não científica), eles têm sido utilizados em trabalhos científicos para a construção de base de dados de pesquisas que versam sobre corrupção e/ou ineficiência.
Fatores associados à ineficiência
O estudo utilizou a técnica multivariada de análise fatorial, que examina relações de dependência e/ou interdependência entre as variáveis. Para identificar o desperdício ativo foram observadas 3 variáveis e para o passivo, 17 variáveis, identificadas a priori no trabalho de Ferraz e Finan (2007). Os dados relativos às variáveis foram submetidos a uma análise fatorial para agrupá-los em fatores associados estatisticamente com as irregularidades na gestão dos recursos destinados à saúde pública dos municípios auditados. Os resultados não mostraram nível adequado de significância estatística para o desperdício ativo, ou seja, com base nos dados analisados não foi possível apresentar dentro do rigor científico um fator que melhor o defina. Quanto ao desperdício passivo, foram encontrados três fatores que mais se associaram com as irregularidades.

O Fator 1 foi denominado “Inadequabilidade Administrativa”, o qual agrupou as seguintes variáveis: não pagamento de tributos pelo município, não ocorrência de contrapartida do município e má administração. O Fator 2, denominado “Fraca Fiscalização”, agrupou as variáveis: inexistência ou fraca atuação do conselho municipal de saúde e licitação fracionamento (quando o município tem a necessidade de realizar uma compra grande mas opta, irregularmente, por fazer várias compras pequenas – limitadas a R$ 8 mil, valor que dispensa o processo licitatório – o que pode ocasionar o pagamento de um valor maior pelo produto ou mesmo a contratação direcionada de alguma empresa). Já o Fator 3 chamado de “Baixo nível de Compliance” reuniu as variáveis: processo licitatório irregular e irregularidade não relacionada ao Prefeito.
As variáveis agrupadas no Fator 1 tipificam a negligência na gestão da saúde, pois a verba estava disponível para a utilização e, mesmo assim, a prefeitura deixou de pagar o tributo, de aplicar a contrapartida ou de atender aos fatores necessários à boa gestão. No caso da não contrapartida, a professora Lidiane Dias exemplifica: “O município fez um convênio com a União (Ministério da Saúde) para a construção de um hospital e ficou responsável por arcar com 10% do total da obra e não o fez. Devido a isto, o município poderá sofrer uma série de sanções, como ficar impedido de celebrar novos convênios”.
As variáveis do Fator 2 são justificadas pelo fato de que, com a inexistência ou fraca atuação do Conselho Municipal de Saúde, as chances de irregularidades relacionadas à gestão ocorrerem passam a ser maiores, uma vez que o Conselho tem como responsabilidade participar do planejamento dos gastos e fiscalizar a sua execução. O Fator 3, por sua vez, relaciona-se com o não atendimento de leis e regulamentos que respaldam o funcionamento e os processos na administração pública.
A governança corporativa aplicada à área pública foi apontada como uma possível forma de reduzir o desperdício passivo. Entre as ações sugeridas pelo estudo, estão o aumento das fiscalizações; uma maior transparência das informações relacionadas aos programas de governo (funcionamento e execução) de forma a tornar a informação efetivamente acessível e compreensível ao cidadão; a implantação de programas de capacitação e motivação do servidor e gestor público, fazendo com que internalizem a importância de sua adequada atuação profissional, buscando paralelamente criar uma cultura de denúncia de irregularidades praticadas no serviço público; a realização de uma análise para verificar se o serviço deve ser mesmo prestado pelo Estado ou terceirizado; e a implantação de novos mecanismos de governança e fortalecimento dos já existentes, como a auditoria da CGU.
Foto: Divulgação / HRAC
Fonte: FEAUSP/Agência USP de Notícias

Terras indígenas brasileiras são exemplo no combate a mudanças climáticas

Áreas protegidas

Fortalecer os direitos florestais comunitários é uma estratégia essencial para reduzir bilhões de toneladas de emissões de carbono, sendo uma maneira efetiva para os governos cumprirem com as metas climáticas, proteger as florestas e proteger a subsistência de seus cidadãos.” Esse é o resultado de um estudo publicado pelo World Resources Institue (WRI) em parceria com o Rights and Resources Initiative (RRI), que coloca gestão das terras indígenas brasileiras como modelo de sucesso.
O relatório Garantindo Direitos, Combatendo a Mudança Climática: como Fortalecer os Direitos Florestais Comunitários Reduz a Mudança Climática aponta que as florestas brasileiras possuem cerca de 63 bilhões de toneladas de carbono armazenado e que parte desse carbono está em reservas indígenas legalmente reconhecidas.
Por outro lado, o estudo também indica que o Brasil é um dos maiores emissores de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento no mundo e também quem mais desmata a Amazônia, o que poderia ser pior se as comunidades indígenas não tivessem direitos legais sobre a floresta e proteção do governo, aponta.
Embora a demarcação e o processo de registro sejam lentos, de 1980 a 2007, cerca de 300 terras indígenas foram reconhecidas no Brasil, diz o relatório. Nesses casos, os recursos florestais podem ser utilizados para fins comerciais sujeitos a um plano de sustentabilidade, mas o corte de árvores para a venda requer a aprovação do Congresso Nacional.
Uma análise do WRI para o desmatamento na Amazônia brasileira mostra que, de 2000 a 2012, a perda de florestas foi 0,6% dentro de terras indígenas em comparação a 7% fora dessas áreas. Assim, as reservas indígenas possuem 36% mais carbono por hectare do que as demais áreas de florestas da região.
A perda florestal de 22,5 milhões de hectares na Amazônia brasileira fora dos territórios indígenas resultou em 8,7 bilhões de toneladas de gás carbônico emitidos. Já em terras indígenas, foram produzidos 311 milhões de toneladas de gás carbônico, no mesmo período, a partir do desmatamento de cerca de 677 mil hectares de florestas, ou seja, 27 vezes menos emissões de gases do efeito estufa.
“O governo brasileiro geralmente protege os direitos dos povos indígenas da floresta, mas os povos indígenas, muitas vezes defendem à força a sua própria floresta de madeireiros, fazendeiros, grileiros e outros intrusos”, alertam os autores do relatório.
A conclusão para o Brasil é que a garantia de direitos indígenas mais consistentes poderia impedir o desmatamento de 27.2 milhões de hectares até 2050, ou seja, 12 bilhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono seriam evitadas – equivalente a três anos de emissões em todos os países da América Latina e do Caribe.
“Outros países de média e baixa renda densamente florestados podem proteger suas florestas, reduzir as suas emissões de gás carbônico e proporcionar outros benefícios para as comunidades, seguindo a abordagem do Brasil”, sugere o relatório.
Em todo o mundo, 513 milhões de hectares de florestas são reservadas às comunidades tradicionais e indígenas e contém 37,7 bilhões de toneladas de carbono armazenado – o equivalente a 29 vezes as emissões anuais de todos os usuários de veículos no mundo. O desmatamento e outros usos da terra representam 11% das emissões mundiais de dióxido de carbono, sendo que 13 milhões de hectares de floresta são desmatados todos os anos, um desmatamento de 50 hectares por minuto.
Diante dos dados, “a fraca proteção legal para as comunidades da floresta não é apenas um problema de terras ou acesso a direitos, é um problema da mudança climática. Impedir ações que comprometam os direitos florestal comunitários é parte da solução”, diz o relatório, que objetiva incentivar a comunidade internacional a dar prioridade às comunidades florestais no mundo em desenvolvimento como uma defesa contra o aumento da temperatura global.
O estudo quantificou o carbono em 14 países com grandes áreas de florestas tropicais na América Latina, África e Ásia e reforça também que a maioria das reservas florestais comunitárias estão em países de média e baixa renda, com fortes pressões por desmatamento.
O relatório destaca países que servem como exemplos de locais onde o manejo florestal comunitário e a garantia de direitos à terra ajudaram a proteger as florestas como México, Tanzânia e Nepal; além de países onde isso não ocorre, seja devido à falta de direitos, com na Indonésia, ou onde os direitos são mal aplicados, como no Peru. Ele também aponta as forças contra as quais as comunidades têm que lutar – como madeireiros ilegais, traficantes de droga e produtores de óleo de palma – na tentativa de preservar as florestas de onde tiram seu sustento.
O relatório faz cinco recomendações principais aos governos para maximizar o potencial de mitigação climática das florestas comunitárias: fornecer às comunidades o reconhecimento legal de direitos florestais; impor esses direitos, como o mapeamento de fronteiras e a expulsão de invasores; fornecer assistência técnica e treinamento para que as comunidades melhorem o uso sustentável das florestas e o acesso ao mercado; envolver as comunidades na tomada de decisões em relação a investimentos que afetem suas florestas; e compensar financeiramente as comunidades pelos benefícios climáticos e outros benefícios fornecidos pelas florestas.
Por Andreia Verdélio, da Agência Brasil.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Liberalismo puro

O Jurista Ruy Barbosa era um liberal convicto, ao ser Ministro da Fazenda no primeiro governo da República, o governo provisório do Merechal Deodoro da Fonseca, quis industrializar o Brasil; claro, Ruy era um intelectual brilhante e conhecedor das peculiaridades do país; para tanto intentou que era preciso fazer isso a partir do mercado cambial. Funcionaria da forma como havia sido na Inglaterra, França, Alemanha ou Japão, onde a emissão de debêntures (Títulos Públicos) por parte do próprio Estado em alguns casos, em outros a venda de ações, fazia com que houvesse capital suficiente para empreendimentos industrializantes.

No entanto Ruy não atentara para uma peculiaridade, é que os defensores supremos do liberalismo naquele final de século XIX, Inglaterra principalmente, somente defendiam o liberalismo depois de terem alcançado alto grau de industrialização e amadurecimento capitalista da sua economia; isso é o que nos diz o importante economista político Webberiano, morto ano passado, David Landes.

Ruy Barbosa quis aplicar o liberalismo genuíno em um país cheio de peculiaridades, sem o "espírito capitalista, e sob o domínio do seu patriciado rural, o que desbancou na figura histórica do "Encilhamento", em virtude da elevadíssima presença de debêntures "sem fundos" emitidas por quem queria levantar dinheiro mas não investir em nada.

Agora surge o chamado Partido Novo pregando uma volta ao liberalismo, acreditando nas forças ocultas do mercado para fazer o Brasil seguir um rumo de progresso. Nos anos da Ditadura Militar, segundo estudos de Eric Toussanint, houve uma forte intervenção da Escola de Chicago nos rumos econômicos do país e até hoje estamos no atraso.

O livro mais comentado no Momento, de Thomas Piketty, trata justamente de informar a concentração de renda que passou a aumentar nas últimas décadas  em virtude da virada neoliberal. O Economista político espanhol Vicenç Navarro acredita que a falta de investimento público no seu país e a queda dos impostos sobre rendimentos dos ricos foram a causa da profunda crise na economia espanhola. Para Navarro os cortes feitos pela Troika são uma contradição, para ele a crise deve-se ao crescimento dos rendimentos do capital em decorrência da queda das rendas do mundo do trabalho, ou seja, nada a ver com os gasto sociais dos governos.

Sertão: O Mundo de Ariano Suassuna




Ariano Vilar Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa (PB), em 16 de junho de 1927, filho de Cássia Villar e João Suassuna. No ano seguinte, seu pai deixa o governo da Paraíba e a família passa a morar no sertão, na Fazenda Acauhan.

Com a Revolução de 30, seu pai foi assassinado por motivos políticos no Rio de Janeiro e a família mudou-se para Taperoá, onde morou de 1933 a 1937. Nessa cidade, Ariano fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral.

A partir de 1942 passou a viver no Recife, onde terminou, em 1945, os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Osvaldo Cruz. No ano seguinte iniciou a Faculdade de Direito, onde conheceu Hermilo Borba Filho. E, junto com ele, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu sua primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol. Em 1948, sua peça Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa) foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Os Homens de Barro foi montada no ano seguinte.

Em 1950, formou-se na Faculdade de Direito e recebeu o Prêmio Martins Pena pelo Auto de João da Cruz. Para curar-se de doença pulmonar, viu-se obrigado a mudar-se de novo para Taperoá. Lá escreveu e montou a peça Torturas de um Coração em 1951. Em 1952, volta a residir em Recife. Deste ano a 1956, dedicou-se à advocacia, sem abandonar, porém, a atividade teatral. São desta época O Castigo da Soberba (1953), O Rico Avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955), peça que o projetou em todo o país e que seria considerada, em 1962, por Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.

Em 1956, abandonou a advocacia para tornar-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. No ano seguinte foi encenada a sua peça O Casamento Suspeitoso, em São Paulo, pela Cia. Sérgio Cardoso, e O Santo e a Porca; em 1958, foi encenada a sua peça O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna; em 1959, A Pena e a Lei, premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro.
Em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste, que montou em seguida a Farsa da Boa Preguiça (1960) e A Caseira e a Catarina (1962). No início dos anos 60, interrompeu sua bem-sucedida carreira de dramaturgo para dedicar-se às aulas de Estética na UFPe. Ali, em 1976, defende a tese de livre-docência A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira. Aposenta-se como professor em 1994.

Membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967); nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPe (1969). Ligado diretamente à cultura, iniciou em 1970, em Recife, o “Movimento Armorial”, interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Convocou nomes expressivos da música para procurarem uma música erudita nordestina que viesse juntar-se ao movimento, lançado em Recife, em 18 de outubro de 1970, com o concerto “Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial” e com uma exposição de gravura, pintura e escultura. Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, no Governo Miguel Arraes (1994-1998).

Entre 1958-79, dedicou-se também à prosa de ficção, publicando o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) e História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana (1976), classificados por ele de “romance armorial-popular brasileiro”.

Ariano Suassuna construiu em São José do Belmonte (PE), onde ocorre a cavalgada inspirada no Romance d’A Pedra do Reino, um santuário ao ar livre, constituído de 16 esculturas de pedra, com 3,50 m de altura cada, dispostas em círculo, representando o sagrado e o profano. As três primeiras são imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora e São José, o padroeiro do município.

Membro da Academia Paraibana de Letras e Doutor Honoris Causa da Faculdade Federal do Rio Grande do Norte (2000).


O GÊNIO MÁXIMO DA HUMANIDADE
Aquilo também me interessava profundamente, pelo que, sem querer; dei uma esporeada no vazio de "Pedra Lispe", que deu uma poupa. Reequilibrei-me e falei:
- Como é? E o cargo de "Gênio Máximo da Humanidade" também ainda está vago? Pergunto, porque, no "Seminário da Paraíba", a gente estudava Retórica num livro do Doutor Amorim Carvalho, as Postilas de Retórica e Gramática. Esse Doutor era "Retórico do Imperador Pedro II", de modo que sua palavra não é brincadeira, e ele afirma que, de todos os Poetas, "o primeiro, no tempo e na glória, é Homero"!
- Discordo inteiramente, porque está absolutamente errado! - disse Clemente. Essa idéia da autoria individual das obras é reacionária e está ultrapassada! Hoje, está provado que Homero nunca existiu! Os dois poemas que são a "obra da raça grega" foram compostos aos poucos, pelo Povo, e reunidos depois pelos eruditos!
- A autoria da obra é sempre trabalho de um homem só! - disse Samuel, já se irritando. - Homero não foi o "Gênio Máximo da Humanidade", mas o motivo principal disso foi a vulgaridade, a grosseria que o levou a lançar mão daquelas horríveis histórias populares!
Eu procurei, de novo, desviar a briga. Interrompi:
- Bem, o importante é que já estão demonstradas três teses! Primeiro, que o "Gênio da Raça" é um escritor. Segundo, que o cargo de "Gênio da Raça Brasileira" está ainda vago. E terceiro, que ainda está vago, também, o de "Gênio Máxima da Humanidade", porque o único candidato apontado até agora, Homero, além de não existir, era grosseiro e vulgar! Tudo isso constará da nossa ata, recebendo, assim, o selo oficial e acadêmico que lhe dará certeza! Mas existe ainda um problema importante: qual deve ser o assunto da Obra nacional da Raça Brasileira ?
***
Meu plano era obter aos poucos, deles, sem que nenhum dos dois pressentisse, a receita da Obra da Raça, para que eu mesmo a escrevesse, passando a perna em ambos. Eles me olharam um momento, em silêncio, entreolharam-se, e então Samuel falou:
- Bem, é difícil dizer assim, depressa! Mas acho que o assunto da Obra da nossa Raça tem que ser o Brasil!
- O Brasil? - indaguei, perplexo. - Mas o Brasil, como? - O Brasil, o Brasil! - repetiu Samuel, impaciente. - Que assunto melhor do que o feito dos nossos antepassados, os Conquistadores, a "raça de gigantes ibéricos" que forjou o Brasil, introduzindo-nos na Cultura mediterrânea e católica?
Clemente zangou-se e vociferou, de lá:
- Esta é a idéia sua e dos seus amigos, patrioteiros e nacionalistas! De fato, a Obra da nossa Raça deve ter como assunto o Brasil! Mas que "cultura" foi essa que os Portugueses e Espanhóis nos trouxeram? A cultura renascentista da Europa em decadência, a supremacia da raça branca e o culto da propriedade privada! Enquanto isso, a Mitologia negro-tapuia mantinha, aqui, uma visão mítica do mundo, fecundíssima, como ponto de partida para uma Filosofia, e profundamente revolucionária do ponto de vista social pois incluía a abolição da propriedade privada! É por isso que, a meu ver, a Obra da Raça Brasileira, será uma Obra de pensamento, uma obra que, partindo dos mitos negros e tapuias, forje uma "visão de conhecimento": uma visão do mundo; uma visão do homem; uma visão do homem no mundo; e uma visão do homem a braços com o próprio homem!
- É visagem demais para um livro só! - disse eu.
- Alto lá, Quaderna! - falou Clemente, sobranceiro. - Não me venha, agora, com suas "tiradas de almanaque" não, porque isso é coisa muito séria, é o cerne da minha "Filosofia do Penetral"!

A FILOSOFIA DO PENETRAL
Há muito tempo que eu desejava me instruir sobre aquela profunda Filosofia clementina, para me ajudar em meus logogrifos. Por isso, avancei:
- Clemente, esse nome de "penetral" é uma beleza! É bonito, difícil, esquisito, e, só por ele, a gente vê logo como sua Filosofia é profunda e importante! O que é que quer dizer "penetral", hein?
Clemente, às vezes, deixava escapar "vulgaridades e plebeísmos" quando falava, segundo sublinhava Samuel. Naquele dia, indagado assim, respondeu:
- Olhe, Quaderna, o "penetral" é de lascar! Ou você tem "a intuição do penetral" ou não tem intuição de nada! Basta que eu lhe diga que "o penetral" é "a união do faraute com o insólito regalo", motivo pelo qual abarca o faraute, a quadra do deferido, o trebelho da justa, o rodopelo, o torvo torvelim e a subjunção da relápsia!
- Danou-se! - exclamei, entusiasmado. - O penetral é tudo isso, Clemente? -Tudo isso e muito mais, Quaderna, porque o penetral é o "único-amplo"! Você sabe como é que "a centúria dos íncolas primeiros", isto é, os homens, sai da "desconhecença" para a "sabença"?
- Sei não, Clemente! - confessei, envergonhado.
- Bem, então, para ir conhecendo logo o processo gavínico de conhecimento penetrálico, feche os olhos!
- Fechei! - disse eu, obedecendo.
- Agora, pense no mundo, no mundo que nos cerca!
- O mundo, o mundo... Pronto, pensei!
- Em que é que você está pensando?
- Estou pensando numa estrada, numas pedras, num bode, num pé de catingueira, numa Onça, numa mulher nua, num pé de coroa-de-frade, no vento, na poeira, no cheiro do cumaru e num jumento trepando uma jumenta!
- Basta, pode abrir os olhos! Agora me diga uma coisa: o que é isto que você pensou?
- É o mundo!
- É não, é somente uma parte dele! É "a quadra do deferido", aquilo que foi deferido a você, como "íncola"! É "o insólito regalo"! É "o côisico", dividido em duas partes: a "confraria da incessância" e "a força da malacacheta", representada, aí no que você pensou, pelas pedras. Agora pergunto: tudo isso pertence ou não pertence ao penetral?
- Não sei não, Clemente, mas pela cara que você esta fazendo, parece que pertence.
- Claro que pertence, Quaderna! Tudo pertence ao penetral! Tudo se inclui no penetral! Entretanto, para completar "o túdico" você, na sua enumeração do mundo, deixou de se referir a um elemento fundamental, a um elemento que estava presente e que você omitiu! Que elemento foi esse, Quaderna?
- Sei não, Clemente!
- Foi você mesmo, "o faraute"!
O Faraute não, o Quaderna! - disse eu logo, cioso da minha identidade.
- O Quaderna é um faraute! - insistiu Clemente.
Como aquilo podia ser alguma safadeza, reagi:
- Epa, Clemente, vá pra lá com suas molecagens! Faraute o quê? Faraute uma porra! Faraute é você! Não é besta não?
- Espere, não se afobe não, homem! Faraute não é insulto nenhum! Eu sou um faraute, você é um faraute, todo homem é um faraute!
- Bem, se é assim, está certo, vá lá! E o que é um faraute, Clemente?
- Ora, Quaderna, você, leitor assíduo daquele Dicionário Prático Ilustrado que herdou de seu Pai, perguntar isso? Vá lá, no seu querido livro de figuras, que encontra! "Faraute" significa "intérprete, língua, medianeiro"! O curioso é que "a quadra do deferido" e o "rodopelo" pertencem ao penetral, mas o faraute, seja "nauta-arremessado" ou "tapuia-errante", também pertence! Não é formidável ? É daí que se origina "o horrífico desmaio", o "tonteio da mente abrasada"! Inda agora, quando pensou no mundo, você não sentiu uma vertigem não?
- Acho que não, Clemente!
- Sentiu, sentiu! É porque você não se lembra! Quer ver uma coisa? Feche os olhos de novo! Isto! Agora, cruze as mãos atrás da nuca! Muito bem! Pense de novo naquele trecho do insólito regalo em que pensou há pouco! Está pensando?
- Estou!
- Agora, me diga: você não está sentindo uma espécie de tontura não?
Eu, que sou impressionável demais, comecei a oscilar, sentindo uma tonteira danada, na cabeça. Pedi permissão a Clemente para abrir os olhos, porque já estava a ponto de cair da sela. O Filósofo, triunfante, concedeu:
- Abra, abra os olhos! Como é? Sentiu ou não sentiu a vertigem? Sabe o que é isso? É a "oura da folia", início da "sabença", da "conhecença"! A oura causa o "horrífico desmaio". Este, leva ao "abismo da dúvida", também conhecido como "a boca hiante do contempto". O abismo comunica ao faraute a existência do "pacto" e da "ruptura". A ruptura conduz à "balda do labéu". E é então que o nauta-arremessado e tapuia-errante torna-se único-faraute. Isto é, o faraute é, ao mesmo tempo, faraute do insólito-regalo, faraute do rodopelo e faraute do faraute! Está vendo? O que é que você acha do penetral, Quaderna?
- Acho de uma profundeza de lascar, Clemente! Para ser franco, entendi pouca coisa, mas já basta para me mostrar que sua Filosofia é foda! Mas o que é, mesmo, penetral?
- Vá de novo ao "pai-dos-burros"! "Penetral" é "a parte mais recôndita e interior de um objeto". Mas, na minha Filosofia, essa noção é ampliada, porque além de abranger a quadra do deferido e o rodopelo, o penetral abrange também o faraute, através da subjunção da relápsia! Mas, no momento em que se fala friamente do penetral, tentando capturá-lo em categorias de uma lógica sem gavionice negro-tapuia, ele deixa de ser apreendido! Faça apelo aos gaviônicos restos de sangue Negro e Tapuia que você tem, Quaderna, e entenda que o penetral "é o penetral", que o penetral "é"! O côisico, coisica: os cavalos cavalam, as árvores arvoram, os jumentos jumentam, as pedras pedram, os móveis movelam, as cadeiras cadeiram, e o faráutico, machendo e feminando, é que consegue gentere farauticar! É assim que o túdico tudica e que o penetral penetrala - e esta, Quaderna, é a realidade fundamental!
- Arra diabo! - disse eu, de novo embasbacado. - E tudo isso já estava na Mitologia Negro-Tapuia, Clemente?
- Estava, estava! Aliás, está, ainda! É por isso que o "Gênio da Raça Brasileira" será um homem do Povo, um descendente dos Negros e Tapuias, que, baseado nas lutas e nos mitos de seu Povo, faça disso o grande assunto nacional, tema da Obra da Raça!
Claro que era em si mesmo que Clemente estava pensando. Mas Samuel contestou logo:
- Nada disso, Quaderna! O "Gênio da Raça Brasileira" deverá ser um Fidalgo dos engenhos pernambucanos! Um homem que tenha nas veias o sangue dos Conquistadores ibéricos que fundaram, com a América Latina como base, o grande Império que foi o orgulho da Latinidade católica! Portugal e a Espanha não tinham dimensões para realizar aquilo que, neles, foi somente uma aspiração! Mas o Brasil é um dos sete Países perigosos do mundo! Por isso, cabe a nós instaurar, aqui, esse Império glorioso que Portugal e a Espanha não puderam realizar!
- Mas como deverá ser escrita a Obra da Raça Brasileira? - perguntei. - Em verso ou em prosa ?
- A meu ver, em prosa! - disse Clemente. - E é assunto decidido, porque o filósofo Artur Orlando disse que "em prosa escrevem-se hoje as grandes sínteses intelectuais e emocionais da humanidade"!
Samuel discordou:
- Como é que pode ser isso, se todas as "obras das raças" dos Países estrangeiros são chamadas de "poemas nacionais"?
- O Almanaque Charadístico diz, num artigo, que os Poetas nacionais são, sempre, autores de Epopeias! - tive eu a ingenuidade de dizer.
Os dois começaram a rir ao mesmo tempo:
- Uma Epopeia! Era o que faltava! - zombou Samuel. - Vá ver que Quaderna anda pelos cantos é conspirando, para fazer uma! Sobre o quê, meu Deus? Será sobre essas bárbaras lutas sertanejas em que ele andou metido? Não se meta nisso não, Quaderna! Não existe coisa de gosto pior do que aquelas estiradas homéricas, cheias heróis cabeludos e cabreiros fedorentos, trocando de golpes, montados em cavalos empastados de suor e poeira, a ponto de a gente sentir, na leitura, a catinga insuportável de tudo!
Clemente uniu-se ao rival, se bem que por outro caminho. Disse:
- Além disso, a glorificação do Herói individual, objetivo fundamental das Epopéias, é uma atitude superada e obscurantista! E se você quer uma autoridade, Carlos Dias Fernandes também já demonstrou, de modo lapidar, que, nos tempos de hoje, a Epopéia foi substituída pelo Romance!
(Romance d'A Pedra do Reino, 1971.)