"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 2 de agosto de 2014

Pentágono investiga controle de protestos sociais

Em paralelo à espionagem da NSA, militares norte-americanos estimulam e financiam investigações sobre lógica da mobilização social, e como detê-la. Artigo de Nafeez Ahmed, publicado em The Guardian.

Um programa de investigação do Departamento de Defesa dos EUA – o Pentágono – está a financiar universidades para mapear a dinâmica, riscos e pontos críticos de agitação civil em grande escala por todo o mundo, sob a supervisão de várias agências militares norte-americanas. O programa de milhões de dólares é projetado para desenvolver “estratégias relevantes de batalha” a curto e médio prazo para oficiais superiores e responsáveis pelas decisões de uma “comunidade política de defesa”, bem como para informar as políticas implementadas por “comandos de combatente”.
Lançada em 2008 – o ano da crise bancária global – a “Iniciativa de Investigação Minerva” do Pentágono faz parcerias com as universidades para “melhorar a compreensão básica do Departamento de Defesa a respeito das forças sociais, culturais, comportamentais e políticas que configuram regiões do mundo de importância estratégica para o EUA”.
Entre os projetos premiados para o período 2014-2017 encontra-se um estudo liderado pela Universidade de Cornell e gerido pelo Serviço de Investigação Científica da Força Aérea dos EUA, que tem por objetivo desenvolver um modelo empírico “da dinâmica de mobilização do movimento social e contágios”. O projeto vai determinar “a massa crítica (o ponto de inflexão)” de contágio social, estudando os seus “rastos digitais” nos casos da “Revolução Egípcia de 2011, das eleições da Duma na Rússia em 2011, da crise nigeriana de subsídio aos combustíveis de 2012 e 2013 e dos protestos no Parque Gezi na Turquia”.
Posts no Twitter e conversas serão examinadas “para identificar indivíduos mobilizados por contágio social e quando eles começaram a se movimentar”.
Outro projeto premiado este ano na Universidade de Washington “pretende descobrir as condições em que se originam os movimentos sociais que visam a mudança política e econômica em grande escala”, juntamente com as suas “características e consequências”. O projeto, gerido pelo Serviço de Investigações do Exército dos EUA, concentra-se em “movimentos em grande escala, envolvendo mais de 1.000 participantes em atividade permanente”, e irá abranger 58 países no total.
No ano passado, a Iniciativa Minerva do Pentágono financiou um projeto para determinar “quem não se torna um terrorista, e por quê?” que, no entanto, confunde ativistas pacíficos com os “partidários da violência política”, diferenciando-os de terroristas apenas na medida em que não embarcam na “militância armada” por si mesma. O projeto aventa estudar explicitamente os ativistas não violentos:
“Em cada contexto, encontramos muitas pessoas que compartilham o mesmo pano de fundo demográfico, familiar, cultural e/ou nível socioeconómico daqueles que decidiram se empenhar em terrorismo, mas se abstiveram de assumir a militância armada, mesmo que fossem simpáticos aos objetivos finais de grupos armados. O campo de estudos sobre o terrorismo não tem, até recentemente, lançado olhar para este grupo de controle. Esse projeto não é sobre os terroristas, mas acerca dos apoiantes da violência política”.
Os 14 estudos de caso do projeto “envolvem extensas entrevistas com dez ou mais ativistas e militantes de partidos ou de ONGs que, apesar de simpáticos a causas radicais, escolheram um caminho de não-violência”.
Entrei em contacto com a investigadora principal do projeto, Profª. Maria Rasmussen da Pós-graduação da Escola Naval dos EUA, perguntando por que os ativistas não violentos que trabalham para ONGs devem ser equiparados aos partidários da violência política – e quais “os partidos e ONGs” que estavam a ser investigados –, mas não recebi resposta.
Da mesma forma, a equipa do programa Minerva recusou-se a responder a uma série de perguntas semelhantes que lhes fiz, inclusive indagando como “causas radicais” promovidas por ONGs pacíficas podem constituir uma potencial ameaça para a segurança nacional e do interesse do Pentágono.
Entre as minhas questões, eu perguntei:
Minerva é um excelente exemplo da natureza profundamente tacanha e auto-destrutiva da ideologia militar. Pior ainda, a falta de vontade dos funcionários do Departamento de Defesa para responder às perguntas mais básicas é sintoma de um facto simples. Na sua missão inabalável de defender um sistema global cada vez mais impopular e servir os interesses de uma pequena minoria, as agências de segurança não têm escrúpulos em pintar o resto de nós todos como potenciais terroristas
O Departamento de Defesa dos EUA, vê os movimentos de protesto e ativismo social em diferentes partes do mundo como uma ameaça à segurança nacional dos EUA, e em caso afirmativo, porquê? Será que o Departamento de Defesa dos EUA considera movimentos sociais, com o objetivo de mudança política e económica em grande escala, como uma questão de segurança nacional, em caso afirmativo, porquê? Ativismo, protesto, “movimentos políticos” e, claro, as ONGs, são um elemento vital de uma sociedade civil saudável e democracia – então por que é que o Pentágono está a financiar projetos para investigar essas questões?
O diretor do programa de Minerva, Dr. Erin Fitzgerald, disse: “Eu aprecio as suas preocupações e estou contente que você estendeu a mão para nos dar a oportunidade de esclarecer”, antes de prometer uma resposta mais detalhada. Em vez disso, recebi a seguinte declaração insonsa da assessoria de imprensa do Pentágono:
O Departamento de Defesa leva a sério o seu papel na segurança dos Estados Unidos, os seus cidadãos, aliados e parceiros dos EUA. Embora nem todos os desafios de segurança causem conflito, e nem todos os conflitos envolvam os militares dos EUA, o Minerva ajuda a financiar investigação de base das ciências sociais que ajude a ampliar a compreensão do Departamento de Defesa sobre o que causa instabilidade e insegurança em todo o mundo. Através de uma melhor compreensão destes conflitos e suas causas de antemão, o Departamento de Defesa pode se preparar melhor para o dinâmico ambiente de segurança do futuro.
Em 2013, o Minerva financiou um projeto da Universidade de Maryland, em colaboração com o Departamento de Energia do Laboratório Nacional do Noroeste Pacífico dos EUA, para avaliar o risco de distúrbios civis, devido às mudanças climáticas. Nos três anos do projeto, 1,9 milhões de dólares são empregados no desenvolvimento de modelos para prever o que poderia acontecer às sociedades sob uma gama de potenciais cenários de mudanças climáticas.
Desde o início, o programa Minerva foi projetado para oferecer até 75 milhões de dólares em cinco anos para investigação em ciências sociais e comportamentais. Só este ano, o Congresso dos EUA atribuiu um orçamento total de 17,8 milhões de dólares para o Minerva.
Uma comunicação por e-mails pessoais internos do Minerva, referenciado numa dissertação de mestrado 2012, revela que o programa é voltado para a produção de resultados rápidos, que são diretamente aplicáveis às operações de campo. A dissertação foi parte de um projeto financiado pela Minerva sobre “o discurso muçulmano anti-radical radicais” da Universidade Estadual do Arizona.
O e-mail interno do Prof. Steve Corman, o investigador principal do projeto, descreve uma reunião organizada pelo Programa de Modelagem do Comportamento Humano e Social do Pentágono (HSCB, em inglês), em que altos funcionários do Pentágono disseram que a sua prioridade era “desenvolver capacidades que se tornam rapidamente disponíveis ” na forma de “modelos e ferramentas que podem ser integrados com as operações”.
Embora o supervisor do Escritório de Investigação Naval, Dr. Harold Hawkins, tenha assegurado aos investigadores da universidade desde o início que o projeto era apenas “um esforço de investigação básica, por isso não deve preocupar-se em fazer coisas aplicáveis”, a reunião de facto mostrou que Pentágono está à procura de “fomentar resultados” em “aplicações”, disse Corman no email. Ele aconselhou os seus investigadores a “pensar sobre a formatação dos resultados, relatórios, etc, para que eles [Departamento de Defesa] possam ver claramente a sua aplicação para as ferramentas que poderão ser utilizadas em campo”.
Muitos estudiosos independentes criticam o que veem como os esforços do governo dos EUA para militarizar as ciências sociais e colocá-las ao serviço da guerra. Em maio de 2008, a Associação Americana de Antropologia (AAA) escreveu ao governo norte-americano notificando que o Pentágono não tem “o tipo de infraestrutura para a avaliação antropológica [e de outras ciências sociais] de investigação” de uma forma que envolve a “revisão rigorosa, equilibrada e objetiva dos seus pares”, apelando, assim, para que esse tipo de investigação venha ser gerida por agências civis como a Fundação Nacional de Ciência (NSF).
No mês seguinte, o Departamento de Defesa assinou um memorando de entendimento (MoU) com a NSF para que esta coopere na gestão da Minerva. Em resposta, o AAA alertou que, apesar das propostas de investigação passarem a ser agora avaliadas por painéis de revisão por mérito da NSF, “funcionários do Pentágono ainda teriam o poder de decisão para escolher quem fica nos painéis”:
…ainda existem preocupações, na disciplina, de que investigações que só serão financiadas quando apoiarem a agenda do Pentágono. Outros críticos do programa, incluindo a Rede de Interesses de Antropólogos, levantaram preocupações de que o programa iria desencorajar a investigação noutras áreas importantes, prejudicando o papel da universidade como um lugar para a discussão independente e crítica dos militares.
Segundo o professor David Price, um antropólogo cultural na Universidade de St Martin, em Washington DC e autor de Weaponizing Anthropology: Social Science in Service of the Militarized State [Antropologia Armada: Ciências Sociais ao Serviço do Estado militarizado], “quando você olha para as partes específicas de muitos desses projetos, elas parecem normais, ciências sociais, análise textual, investigação histórica, e assim por diante. Mas quando você soma estas partes, todas eles compartilharam temas de legibilidade, com todas as distorções oriundas da simplificação excessiva.
O professor Price já havia explicado como o programa de Sistemas de Terreno Humano (HTS) do Pentágono – projetado para incorporar os cientistas sociais em operações militares de campo – rotineiramente conduz cenários de treino em regiões “dentro dos Estados Unidos”.
Citando uma crítica resumida do programa enviada para os diretores do HTS por um ex-empregado, Price informou que os cenários de treino HTS “adaptaram COIN [contra-insurgência] do Afeganistão e Iraque” para situações internas “nos EUA, onde a população local foi vista a partir da perspetiva militar, enquanto ameaça ao equilíbrio estabelecido de poder e influência, bem como desafiando a lei e a ordem”.
Num jogo de guerra, disse Price, estavam envolvidos ativistas ambientais protestando contra a poluição de uma central a carvão perto de Missouri, alguns dos quais eram membros da conhecida ONG ambientalista Sierra Club. Os participantes foram incumbidos de “identificar aqueles que eram ‘solucionadores de problemas’ e aqueles que eram ‘causadores de problemas’, bem como o resto da população. Esta seria o alvo das operações de informação, voltadas a mover o centro de gravidade dos cidadãos em direção ao conjunto de pontos de vista e valores que era o ‘estágio final desejado’ da estratégia dos militares”.
Tais jogos de guerra estão de acordo com uma série de documentos de planeamento do Pentágono que sugerem que a vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional (NSA) é parcialmente motivada para se preparar para o impacto desestabilizador da vinda de choques ambientais, energéticos e económicos.
James Petras, Professor de Sociologia na Universidade de Binghamton, em Nova York, concorda com as preocupações de Price. Os cientistas sociais financiados pela Minerva e vinculados à operações de contra-insurreição do Pentágono, estão envolvidos no “estudo das emoções alimentadas ou reprimidas por movimentos ideologicamente conduzidos”, disse ele, incluindo como “neutralizar movimentos de base”.
Minerva é um excelente exemplo da natureza profundamente tacanha e auto-destrutiva da ideologia militar. Pior ainda, a falta de vontade dos funcionários do Departamento de Defesa para responder às perguntas mais básicas é sintoma de um facto simples. Na sua missão inabalável de defender um sistema global cada vez mais impopular e servir os interesses de uma pequena minoria, as agências de segurança não têm escrúpulos em pintar o resto de nós todos como potenciais terroristas.
Artigo de Nafeez Ahmed*, publicado em The Guardian. Tradução de Pedro Lucas Dulci paraOutras Palavras.

* Dr. Nafeez Ahmed é um jornalista de segurança internacional e académico. Ele é o autor de A User’s Guide to the Crisis of Civilization: And How to Save It [Guia do Utilizador para a Crise de Civilização: e como salvá-la], e o próximo thriller de ficção científica, Zero Point [Ponto Zero].

Gaza: 90 minutos para vislumbrar semanas de massacre

De repente escutam-se os gritos de um homem: “acaba de ser morto agora mesmo por um franco-atirador”. Volta a soar a artilharia israelita. Toda a gente começa a correr. A trégua colapsou. Por Alberto Sicilia em Gaza

Foto de Alberto Sicilia
A última explosão foi escutada dois minutos antes das 8 da manhã. As avenidas de Gaza, desertas durante dias, encheram-se num instante. Uma trégua anunciada para 3 dias acabava de começar.
Milhares de pessoas refugiadas no centro da cidade empreendiam o caminho para o oeste da Faixa, zona proibida até então pelo exército israelita. Táxis repletos de famílias, com os mais jovens sentados nas malas, enchiam completamente a estrada que conduz a Khan Younis.
O fedor de corpos em decomposição assinala a direção do bairro de Khuzaa.
Mohammad, um jovem de 20 anos que vem para tentar recolher o que resta em sua casa, posa a mochila, vira a cabeça e começa a vomitar.
Caminhamos pelo que foi a avenida principal de Khuzaa. À nossa direita alguns edifícios continuam em pé, com fachadas consumidas pelos buracos pelos tiros da artilharia. Do lado esquerdo só escombros até onde a vista alcança.
Espalhados ao longo da avenida, grupos de jovens desenterram cadáveres. O cheiro a morte é tão intenso que a tarefa se realiza por turnos, para apanhar uma golfada de ar.
De repente escutam-se os gritos de um homem: “acaba de ser morto agora mesmo por um franco-atirador”. Volta a soar a artilharia israelita. Toda a gente começa a correr. A trégua colapsou.
Foram apenas 90 minutos para vislumbrar um massacre que dura há semanas.
Artigo de Alberto Sicilia em Gaza, publicado em Principia Marsupia. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Quando a decadência estraga o queijo

Quando um povo vive na decadência ele aceita ser loteado por aduladores demagogos ou por falsos profetas. Quando falamos insistentemente das possibilidades de fazer do semi-árido nordestino uma região equilibrada, produzindo produtos sustentáveis a partir de técnicas simples de convivência com a aridez do clima esta não é nenhuma utopia. Mas nunca se pode deixar de lado essa fraqueza que saboreia a miséria conveniente.

Um produto da região é o queijo, seja de manteiga ou seja de coalho; produtos fundamentais para que se crie uma economia interessante com produtos de qualidade. No entanto, na boca de demagogos tudo já está perfeito, mas não conseguimos equilibrar a situação. É que existem as adulterações do produto ou a falta de higiene; se você quer tornar famoso um produto dando-lhe um mercado de respeito, a Rússia divulgou que vai iniciar a importação de queijo e manteiga do Brasil, têm-se que prezar pela qualidade. A adulteração consiste em adicionar produtos como farinha de trigo ou óleo de soja na composição do queijo para aumentar a quantidade o lucro iminente e desprestigiar o produto. A falta de higiene é outro grave problema, falta de uso de luvas por quem manipula o produto, proximidade do local onde se faz o queijo com chiqueiros de porcos, ambientes inapropriados, armazenamento irregular.

Com relação ao outro produto importante, a carne, existe a imundície dos abatedouros, onde a falta de higiene é completa e ainda há a contaminação dos rios e açudes da região com dejetos; então, pela nossa fraqueza fazemos com que não mereçamos o prestígio que seria devido e preferimos ser adulados do que transformar de fato a região do semi-árido.

A violência nas ruas e o fim do capital por David Harvey

Neste trecho do seu livro “17 contradições e o fim do capitalismo”, David Harvey afirma: O privilégio e o poder oligárquicos da classe capitalista estão a levar o mundo numa direção semelhante em quase toda a parte. O poder político está a ser usado para atacar o bem-estar de populações inteiras tidas como dispensáveis.

David Harvey

O artigo a seguir é um trecho editado do mais recente livro de David Harvey, “17 contradições e o fim do capitalismo”, em que o geógrafo britânico identifica e disseca didaticamente todas as contradições do capital segundo a análise feita por Marx – para ele, seriam exatamente dezeassete. Neste trecho, que a Boitempo antecipa com exclusividade no seu blogue, Harvey procura tecer os fios de um novo humanismo revolucionário, entre a contraditória proliferação de ONGs e as explosões violentas nas ruas, no Brasil e no mundo.

9 de junho de 2014, foto de Mídia NINJA
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Em poucas palavras, o problema com a tradição humanista é que ela não internaliza uma boa compreensão de suas próprias e inescapáveis contradições internas – algo mais claramente evidenciado no caso da contradição entre liberdade e dominação. O resultado é o que Frantz Fanon caracterizou como “humanitarismo insípido”. Há evidências suficientes disso em seu revival recente. A tradição burguesa e liberal de humanismo secular acaba formando uma base ética piegas para uma moralização ineficaz sobre o triste estado do mundo e para a construção de campanhas, igualmente ineficazes, contra os males da pobreza crônica e da degradação ambiental.
É provavelmente por essa razão que o filósofo francês Louis Althusser lançou a sua ferrenha e influente campanha na década de 1960 para extirpar do marxismo todo o falatório sobre socialismo humanista e alienação. O humanismo do jovem Marx, conforme expresso nos “Manuscritos econômico-filosóficos de 1844”, insistia Althusser, estaria separado do Marx científico d’O capital por uma “ruptura epistemológica” – algo que estaríamos ignorando a prejuízo próprio. O humanismo marxista, escrevia ele, é pura ideologia, teoricamente vazio e politicamente enganoso – se não mesmo perigoso. A devoção de um dedicado marxista como Antonio Gramsci ao “humanismo absoluto da história humana” era, na visão de Althusser, completamente deslocada.
Fanon, é claro, choca muitos humanistas liberais com o seu endosso de uma violência necessária e a sua rejeição da via conciliatória. Como, ele pergunta, a não-violência é possível numa situação estruturada pela violência sistemática exercida pelos colonizadores? Que sentido tem uma população faminta declarar greve de fome? Porque, como Herbert Marcuse perguntava, deveríamos ser persuadidos pelas virtudes de tolerância para com o intolerável? Num mundo dividido, onde o poder colonial define os colonizados como sub-humanos e malvados por natureza, a conciliação é impossível. O enorme aumento e a natureza das atividades compactualizantes das ONGs humanistas ao longo das últimas décadas parece sustentar as críticas de Althusser. O crescimento do complexo “caridoso-industrial” reflete principalmente a necessidade de aumentar a “lavagem de consciência” para uma oligarquia mundial que vem dobrando a sua riqueza e poder de anos em anos em meio à estagnação econômica. O seu trabalho tem feito muito pouco ou quase nada para lidar com a degradação e despossessão humana, ou com a degradação ambiental que se alastra. Isto se dá, estruturalmente, porque as organizações anti-pobreza precisam operar sem jamais intervir na continuada acumulação de riqueza, de onde tiram o seu próprio sustento. Se todos que trabalhassem numa organização anti-pobreza passassem, da noite para o dia, a promover políticas anti-riqueza, logo nos veríamos vivendo num mundo bem diferente. Pouquíssimos doadores caridosos – nem mesmo Peter Buffett, suspeito eu – iriam financiar uma coisa dessas. E as ONGs, que agora estão no centro do problema, não iriam de todo modo querer isso (apesar de haver muitos indivíduos no interior do mundo das ONGs que estariam dispostos a tal, mas que simplesmente não podem).
Mas a ordem social do capital é essencialmente muito diferente de suas manifestações coloniais? Aquela ordem certamente buscou se distanciar, em casa, do cálculo cruel da violência colonial (algo como um mal necessário a ser aplicado sobre os outros, incivilizados, ‘de lá’ para seu próprio bem). Ela teve de disfarçar, em casa, a inumanidade descarada que demonstrava no exterior. ‘Do lado de lá’ as coisas poderiam ser deslocadas para fora de nosso campo de visão e de audição. Só agora, por exemplo, a violência cruel da supressão britânica do movimento Mau Mau no Quênia na década de 1960 está a ser completamente reconhecida. Não levanto a questão da violência aqui, tampouco o fez o próprio Fanon, porque sou ou ele era favorável a ela. Ele a sublinhou porque a lógica das situações humanas tão frequentemente se deteriora a ponto de não restar nenhuma outra opção. Até Ghandi reconheceu isso.
Quando o capital passa perto de tal inumanidade em casa ele tipicamente elicia uma resposta semelhante àquela dos colonizados. Na medida em que ele abraçou a violência racial em casa, como o fez nos Estados Unidos, produziu movimentos como os Panteras Negras e a Nação do Islão com os seus lideres como Malcom X e, nos seus últimos dias, Martin Luther King, que viu a ligação entre raça e classe e sofreu as consequências decorrentes. Mas o capital aprendeu uma lição. O quanto mais raça e classe se entrelaçam, mais rápido o pavio revolucionário queima.
O privilégio e o poder oligárquicos da classe capitalista estão a levar o mundo numa direção semelhante em quase toda a parte. O poder político – sustentado por uma vigilância, um policiamento e uma violência militarizada intensificantes – está a ser usado para atacar o bem-estar de populações inteiras tidas como dispensáveis. Diariamente testemunhamos a desumanização sistemática de povos descartáveis. Implacável, o poder oligárquico está agora a ser exercido por uma democracia totalitária destinada a interromper, fragmentar e suprimir qualquer movimento político coerente organizado contra a riqueza (como o occupy, por exemplo). A arrogância e o desprezo com que os influentes agora veem os menos abastados – mesmo quando (particularmente quando) em disputa uns com os outros por trás de portas fechadas para mostrar quem pode ser o mais caridoso de todos – são factos notáveis da nossa atual condição.Mas o que Marx deixa tão claro em “O capital” é a violência diária constituída na dominação do capital sobre o trabalho no mercado e no ato de produção, bem como no terreno da vida diária. Quão fácil não é pegar descrições das condições de trabalho contemporâneas, por exemplo, nas fábricas de eletrônicos de Shenzhen, nas fábricas de roupas em Bangladesh ou nas confecções clandestinas de Los Angeles, e encaixá-las, sem prejuízo, no clássico capítulo de Marx sobre a jornada de trabalho n’O capital? Quão surpreendentemente fácil não é pegar as condições de vida das classes trabalhadoras, dos marginalizados e desempregados em Lisboa, São Paulo e Jacarta, e as justaporem à clássica descrição de Engels em 1844 em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra?
É num clima político como este que as erupções violentas e imprevisíveis que estão a ocorrer por todo o mundo episodicamente (da Turquia e do Egito ao Brasil e à Suécia só em 2013) parecem mais e mais como tremores prévios de um terremoto vindouro que fará das lutas revolucionárias pós-coloniais da década de 1960 parecerem brincadeira de criança. Se há um fim do capital, então isto é certamente de onde ele virá e as suas consequências imediatas dificilmente se provarão felizes para qualquer um. Isso é o que Fanon tão claramente nos ensina. A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto é imensa, e não pára de crescer. Os oligarcas confundem rendimento superior com valor humano superior e consideram o seu sucesso econômico como evidência do seu conhecimento superior do mundo (ao invés de produto de seu controle superior sobre as artimanhas da contabilidade e sobre determinadas ferramentas legais). Eles não sabem ouvir o sofrimento do mundo porque não podem e não vão deliberadamente confrontar o seu papel na construção dessa situação. Eles não veem e não podem ver as suas próprias contradições. Os bilionários irmãos Koch doam caridosamente a uma universidade como a MIT ao ponto de construírem uma linda creche para o corpo docente merecedor de lá enquanto simultaneamente esbanjam incontáveis milhões de dólares em apoio financeiro a um movimento político (liderado pela facção do Tea Party) no congresso norte-americano que corta subsídios sociais e nega bem-estar, suplementos nutricionais e creches para milhões vivendo na ou perto da miséria absoluta.
A única esperança é que a massa da humanidade verá o perigo antes que a podridão vá longe demais e o dano humano e ambiental se torne grande demais para consertar. Diante do que o Papa Francisco com razão chama de “globalização da indiferença”, é imperativo que as massas globais, como Fanon bem disse, “resolvam despertar, sacudir o cérebro e cessar de tomar parte no jogo irresponsável da bela adormecida no bosque.” (Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p.85). Se a bela adormecida despertar a tempo, então talvez possamos esperar um final mais com cara de conto de fadas. O “humanismo absoluto da história humana”, escreveu Gramsci, “não visa a resolução pacifica das contradições existentes na história e na sociedade mas, ao contrário, é a própria teoria dessas contradições”. A esperança está latente nelas, disse Bertolt Brecht. Existem suficientes – dezessete – cativantes contradições no interior no domínio do capital para semear o solo da esperança.
Este artigo é um trecho editado do livro “17 contradições e o fim do capitalismo” (Boitempo, no prelo). A tradução é de Artur Renzo, para o Blogue da Boitempo.

Autor:

      David Harvey
      Geógrafo, professor emérito do Graduate Center da City University of New York.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Vicenç Navarro: O contexto político da música

Artigo publicado por Vicenç Navarro na columna “Dominio Público” no Jornal  PÚBLICO da Espanha

Em artigos anteriores tenho acentuado a surpresa que me faz a falta de músicas nas manifestações que há na Espanha contra as políticas impopulares impostas pelos partidos no poder. Ao longo da minha vida eu tive que viver em vários países (Suécia, Reino Unido e EUA), frequentemente participei de manifestações exigindo direitos sociais, políticos e trabalhistas. Em todas, os participantes cantavam canções celebrando situações ou eventos que inspiraram as lutas anteriores, estabelecendo assim uma linha de continuidade com as causas anteriores. Além disso, ao cantar juntos, a multidão estabelecia um sentimento de solidariedade e sentimento coletivo, irmanando-se através da emoção. Na Espanha, no entanto, não há canções nas manifestações. Em vez disso, há sinais sonoros e assobios que parecem ser projetados para fazer barulho, alguns francamente desagradável até mesmo aos próprios manifestantes. 

Estas notas introdutórias servem como um prólogo para comentários que me sugere o livro Venceremos, escrito por Gabriel San Roman, sobre a música como uma arma política, referindo-se a experiência chilena. Um dos maiores privilégios que tive na minha vida foi o de aconselhar (nas suas reformas de saúde) para o governo da Unidade Popular liderado pelo presidente Allende. Por isso, sempre teve uma atenção especial para o que aconteceu naquele país. 

A experiencia da Nova Canção Chilena 

No livro, San Román observa a importância que as canções populares tiveram em manter uma cultura de compromisso e militância que levou à vitória da Unidade Popular. Na verdade, a Canção Nova, enraizada na velha canção chilena, teve um grande impacto, não só no Chile, mas em toda a América Latina. Esta Canção Nova  foi inicialmente cantada por cantores como Violeta Parra (1917-1967), que viajou por todo o Chile, incluindo as partes mais remotas do país, coletando canções folclóricas resultado das lutas constantes dos camponeses e do movimento da classe trabalhadora contra a opressão. Essas canções reflete um sentimento de dedicação e empenho, como parte de um sonho que as pessoas queriam, lutando para tornar realidade. Eram canções sobre amor, esperança, solidariedade e liberdade. 

Esta busca e processamento de músicas enraizadas na cultura popular ocorreu na década de 50 e 60, estimulada nesta última década, pelo desejo de combater a invasão de Elvis Presley e os Beatles na América Latina, precedentes dos EUA e da Europa. Era necessário e urgente - diz San Román - que se desenvolvesse uma canção de identidade que iria contrariar a invasão anglo. Assim surgiram Quilapayún e Inti-Illimani, que se espalhou por toda a América Latina e para o mundo. Ela era uma música revolucionária e comprometida, não só no estilo, mas no conteúdo e no contexto. 

A importância de desenvolver a sua própria cultura musical e alternativa 

Foi na década de setenta, quando a Canção Nova tornou-se o elo que uniu socialistas, comunistas e cristãos de esquerda no Chile, uma aliança que desempenhou um papel fundamental na vitória do governo da Unidade Popular. Victor Jara foi o seu principal compositor. E o governo se sentiu completamente identificado com esta cultura. Na verdade, era um produto dele. Aulas de Fortalecimento representava uma grande ameaça para as forças reacionárias que controlavam o país. E a Canção Nova era claramente seu inimigo. Daí a sua repressão brutal, o assassinato de seus expoentes, como o próprio Victor Jara. E a ditadura começou com sua campanha brutal e sangrenta de tentativa de remoção, como ocorreu em Espanha, das forças de esquerda e progressistas. 

O que é interessante é que esta nova canção tornou-se, mais uma vez, em uma tentativa de recuperar a memória histórica, de uma maneira espontânea, a nível popular, que apareceu sem o apoio do governo, quando a ditadura terminou. Na Espanha, os governos democráticos também abandonaram qualquer tentativa de recuperar a cultura republicana e a cultura popular, que também existiu durante a resistência anti-fascista. Desinteresse nesta recuperação por vários governos, incluindo os seus Ministros da Cultura (Jorge Sempriin inclusive), é ultrajante. E assim somos. Em marchas de protesto, bipes e sinais sonoros, e nenhuma canção. Na verdade, essa cultura é menosprezada, vendo como "política" e/ou "ideológica". E enquanto as músicas de distração e irrelevância dominam o cenário musical do país.

Homens ganham em média 64% a mais que mulheres no Brasil, diz Pnud

Dados estão em novo Índice de Desenvolvimento de Gênero lançado este ano. Em apenas 16 países IDH para as mulheres é igual ou maior ao dos homens. Nenhum país de língua portuguesa está nesta lista

A edição de 2014 do relatório sobre Índice de Desenvolvimento Humano, IDH, lançado há uma semana trouxe como novidade o Índice de Desenvolvimento de Gênero.

A nova medida, publicada no documento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, indica diferenças entre homens e mulheres em três áreas: saúde, expectativa de vida, educação e acesso a recursos econômicos.
Disparidade
Em entrevista à Rádio ONU, em Nova York, a assessora de Comunicação do Pnud para a América Latina e Caribe, Carolina Azevedo, falou sobre o Índice.
"Em praticamente todos os casos, há diferença. Em geral o IDH, o bem-estar, vamos dizer, das mulheres é inferior ao IDH o dos homens. Na média, o IDH feminino é 8% menor que o IDH masculino.
Carolina Azevedo explicou ainda que na América Latina o IDH feminino é 6% inferior ao masculino. Este índice mais que dobra, de forma desvantajosa, na África Subsaariana, onde estão cinco países de língua portuguesa. Ali, o IDH das mulheres é quase 13% inferior ao dos homens.
Renda
Em apenas 16 países, entre eles a Argentina e o Uruguai, o índice de Desenvolvimento de Gênero das mulheres é igual ou maior que o dos homens.
 "Muito impressionante mesmo é o acesso a recursos econômicos. O rendimento estimado comparado entre homens e mulheres é bem diferente. Os homens ganham em média 64% a mais que as mulheres no Brasil. Em todos os países, é bom lembrar, os homens ganham muito mais que as mulheres. A média global é que os homens ganhem o dobro que as mulheres".
Num outro país de língua portuguesa, Portugal, os homens ganham 73% a mais que as mulheres, diferença superior àquela do Brasil, na Guiné-Bissau e em Angola, por exemplo.
A medida foi calculada para 148 países. Segundo o escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano, o índice não foi medido para o Brasil "por falta de dados relevantes".
Desigualdade
A assessora do Pnud disse que o novo índice é diferente daquele da Desigualdade de Gênero, que já existia no relatório, mas segundo ela, eles se complementam.
O Índice de Desigualdade de Gênero têm indicadores específicos para mulheres como taxa de mortalidade materna, taxa de fertilidade adolescente, proporção de mulheres no Parlamento, e participação no mercado de trabalho e população com educação secundária, comparando homens e mulheres.
"A mais alta taxa de fertilidade adolescente entre os países de língua portuguesa fica com Angola que tem 170 nascimento por mil mulheres entre 15 e 19 anos. A proporção de mulheres no Parlamento no Brasil, por exemplo, é a mais baixa entre todos os países de língua portuguesa."
Segundo a assessora, a proporção de 9,6% de mulheres no Parlamento no Brasil fica abaixo da média global de quase 22%. Em Angola, esta proporção é de 34% e em Moçambique, quase 40%.
Ela disse ainda que a América Latina e o Caribe em geral ficam acima da média mundial em grande parte porque muitos países adotaram cotas nos Parlamentos e partidos políticos "para promover a participação de mulheres na tomada de decisão e nas políticas públicas".
De Nova York, da Rádio ONU, Laura Gelbert