"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 13 de setembro de 2014

Eleições ou bacanais? Não tem cidade

A cidade precisa economizar água, e qual o pensamento da cidade brasileira: Economizo da caixa d`água de minha residência, a água da rua (Nunca vi rua abastecer nada) pode-se derramar à vontade, tendo em vista que é a água da cidade, e a cidade no Brasil pode ser tratada sem escrúpulos. No Brasil as pessoas não portadoras de deficiência não podem andar pelas calçadas, porque cada um toma para si em se apropria das calçadas de modo a não existir uniformidade.

E o povo que não vive em cidade mas se amontoa em uma concentração urbana vota, e é votando que entregam a cidade para aquele que tenha esse mesmo tipo de "amor" pela cidade, na verdade não digo que a cidade precise de amor, seria exagero, mas sim que os cidadãos precisam viver em cidade, só isso; no Brasil há tudo para que se odeie eleições, um bacanal sem futuro, gostam de eletrizar e levar para as pessoas para urna, sempre com o mesmo palavreado de dizer o que se quer e se pode ouvir e sem jamais ter em conta o que é a cidade.

Poucos são os que não se degeneram, os que "combatem" as oligarquias em poucos anos estão cometendo os mesmos vícios, dizendo que o Instituto Federal de educação foi "feito por mim", é a saída do legislativo No Brasil:  ser executivo.

Mas não estou falando de candidatos e sim da cidade, por a cidade não existir a eleição se torna esses bacanais.

A cultura em si, catolicismo cultural, não propicia o desenvolvimento da cidade, mas o que tem perpetuado o dilema é a falta de educação. O catolicismo cultural é bem demonstrado com os técnicos de futebol, como no futebol são vários envolvidos o mais fácil de tornar culpado é o técnico, evidentemente que o mesmo ocorre com o juiz; o catolicismo cultural é a eterna negação de tudo.

Mas o sistema econômico, como adiantara Max Weber, não depende mais da cultura para existir, tem sua autonomia. Agora, a grande questão é como se fazer com que o país tenha uma revolução cultural feita pela educação se quem "aplica" as verbas são eleitos por bacanas e há a rápida degeneração dos que se misturam.

A transformação primeira tem que dar nos sujeitos, alguns a passam para as escolas, para os bairros e para a cidade. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A destruição dos Budas gigantes pelo Talibã - cegueira x cegueira

Quem tem adoração pelo patrimônio histórico e cultural da humanidade lembra com muita dor e tristeza a destruição dos Budas Gigantes pelos fundamentalistas do Talibã em 2001. Os  Budas de Bamiyan estavam localizados no Afeganistão, na chamada Rota da Seda, era a marca deixada pelo Reino da Báctria, dos séculos I a XIII, nomeadamente da corrente Gandara da arte budista. Se pode dizer que seria esta uma intolerância do islã, mas não é bem assim.


Antes (Esquerda) e Depois (Direita) da destruição

Os  budas são mais antigos do que o próprio islã, datado da século VII da era cristã. e viram o emergir da religião e conviveu com a mesma por mais de mil anos, para em segundos serem feitas escombros e memórias pelo fundamentalismo que nasce em todas as culturas, fruto da cegueira do conhecimento absoluto.

Vídeo: Budas Gigantes destruídos pelo Talibã em 2001 no Afeganistão:


Da mesma forma que os cristãos europeus destruíram a imagens dos ídolos Incas, Aztecas e Maias, caíram esses monumentos da história. A própria humanidade considera ela mesma como possuída pelo erro. Imaginemos o que passava pelas mentas dos destruidores no momento do ato.

Não tratemos o islã como fundamentalismo, é uma imagem cega, o islã tem o mesmo valor que todas as outras culturas na terra. O segredo em direção à consciência planetária passa por saber enxergar o melhor de cada cultura.

Não sabemos como lidar com intolerantes?

A casa da torcedora gremista vista a proferir injúrias raciais contra o goleiro do Santos Futebol Clube, Aranha, teve sua residência incendiada em Porto Alegre. A pergunta que fica é: a exibição maciça da torcedora, que não foi a única a cometer o crime de injúria, pela mídia fortalece a vontade de repressão particularizada?

É sempre uma questão o comportamento da mídia nesses casos, exibir para que facilite até mesmo a autuação do Estado e  para que, com a exposição, se torne como digna de alto repúdio; por outro lado se argumenta fornecer essa exposição os "subsídios" para a vingança privada do praticante do ato preconceituoso, a mídia teria um elevado poder de particularizar "bodes expiatórios".

No mesmo Rio Grande do Sul um espaço que celebraria casamentos homoafetivos fora incendiado; em Goiás jovem gay foi assassinado e na sua boca colocada mensagem extremista. Esses casos são praticados por mentes intolerantes, agora, sendo identificados  praticantes de atos assim, que reposta deve receber?


Zygmunt Bauman “A educação e a cultura são tratadas como mercadorias”

O sociólogo polonês garante que as rachaduras provocadas pela crise econômica permitiram aos partidos neo-nazistas chegar ao poder. Testemunho em primeira mão das mudanças experimentadas pela sociedade europeia e prestes a completar 90 anos, Zygmunt Bauman ainda não deixa descansar seu braço e o seu cérebro e continua a escrever e refletir sobre a realidade política global.
Zygmunt Bauman La educación y la cultura son tratadas como mercancías Zygmunt Bauman La educación y la cultura son tratadas como mercancías
Para Bauman, um dos pensadores mais importantes da atualidade por sua teorização da realidade contemporânea sob o conceito de "modernidade líquida", que reflete, entre outras coisas, a fragilidade dos laços sociais e emocionais, a incerteza sobre o futuro e as mudanças que a globalização trouxe ao poder do estado-nação, indica como a cultura, a saúde e a educação foram reduzidos a meras mercadorias.
Com a crise econômica na Europa, é possível a existência de uma "cidadania global"?
É possível, mas não no futuro próximo. "Cidadania" é um conceito que nasceu e se desenvolveu no curso da construção do Estado-nação moderno, promovendo e sacudindo a soberania territorial prática. As instituições políticas concebidas e estabelecidas neste processo foram criados para servir ao projeto de independência; No entanto, a globalização tem realmente criado interdependência global, uma realidade na qual as instituições políticas herdadas e preservadas do Estado-nação não são funcionais.
Então, o que seria necessário para a cidadania global?
Para aumentar a integração humana, desde o nível de divisões nacionais e passar para uma humanidade unificada, essas instituições precisam ser substituídas por uma rede de instituições alternativas, superando as limitações impostas pelas barreiras dos Estados territoriais e cortando sua soberania. A unificação da humanidade, chamando à prática política e pensando em reconhecer a globalização existente de interdependência humana, não poderia ser feito por meio da globalização, mas com a abolição da cidadania local, superando, assim, os direitos humanos da competência territorial .
É um cenário complexo, nenhum Estado estaria disposto a abdicar da sua soberania ...
Como Benjamin Barber recentemente resumiu a situação: "Por natureza, muito propensos à rivalidade e exclusão mútua, eles (Estados nacionais) parecem essencialmente indispostos à cooperação e incapazes de estabelecer bens globais comuns". Mas ele acrescenta: "Hoje, embora seja claro que os estados não podem mais proteger seus cidadãos e devem considerar ceder parte de sua soberania, não há alternativa clara e, portanto, recusam-se a fazê-lo." Pessoalmente, eu chamo esta situação interregno, o que significa que as velhas formas de fazer as coisas não funcionam mais, mas novas formas ainda não foram inventadas e postas em prática.
Por que a cultura, a arte e a educação são os setores que mais foram golpeados com a redução dos gastos públicos pelos governos da UE para superar a crise?
A cultura é o maior patrimônio da humanidade, a arte, a arte, a vanguarda da peregrinação histórica humana explorando novas e desconhecidas terras e estilos de vida e a educação  que torna disponíveis a toda a humanidade os seus resultados, eles têm sido, no entanto, reduzidos à qualidade de produtos no mercado, comercializados como outros bens e, ao contrário de sua natureza, medida pelo critério dos benefícios imediatos. Investir em cultura, arte e educação, por muito grandes grandes que possam ser os benefícios no futuro, é considerado, portanto, imprudente e inútil a curto prazo. Essa miopia  sacrifica a qualidade de vida das gerações futuras aos caprichos efêmeros e confortos do presente.
Então o que você sugere?
A renegociação do nosso atual modo de se relacionar com o mundo se torna cada vez mais necessário e urgente em vista do planeta, nossa casa comum, está à beira da insustentabilidade, graças ao esgotamento progressivo dos recursos do planeta e à crescente impotência dos instrumentos antigos de ação coletiva para resolver os problemas que surgem a partir de nossa cada vez mais íntima interdependência física, social e espiritual.
Vamos falar sobre de um dos efeitos do mundo em rede. Novas formas de controle social foram promovidos nas últimas décadas, incluindo câmeras de vigilância em cada esquina, que você descreve em seu livro "Vigilância líquida". A liberdade está em risco de se perder com essa vigilância constante?
A cada dia aumenta enormemente o conteúdo dos bancos de dados que são uma reminiscência de campos minados, eriçados de explosivos ocultos dos quais sabemos que eles têm que explodir, embora não se possa dizer quando e onde. Estes são utilizados diariamente por empresas comerciais para reforçar a sua influência sobre as escolhas e comportamentos dos consumidores. Eles (bancos de dados) facilitam muito a coerção de cima e pode servir as agências de políticos com inclinações ditatoriais autoritárias e intenções ditatoriais.
O que é mais preocupante da vigilância contemporânea?
O aspecto mais perturbador da vigilância contemporânea e coleta de dados é que se leva a cabo com nossa aprovação maciça, entusiástica,  despreocupada e alegre. Nós não nos importamos até que o desastre bata ... E assim o processo não é tão flexível e potencialmente controlável, uma vez que seria limitado, como no passado, para lidar com a inteligência especializada e agências de policiamento.
Você acha que, no meio da crise econômica  alguns dos partidos declarados neo-nazistas podem chegar ao poder em uma cena de confusão como esta?
Precisamos voltar para a raiz da sua primeira pergunta. Estes dois problemas estão intimamente ligados. A discrepância entre os instrumentos disponíveis e os verdadeiros poderes que decidem as possibilidades e perspectivas de nossas vidas e a de nossas crianças- a discrepância causada e diariamente agravada pela globalização descontrolada e à ajustada interdependência - provocará que um número crescente de pessoas que procurem alternativas a política visivelmente lenta e ineficaz para coordenar as políticas com as preferências e desejos populares, falando espetacularmente na possibilidade de gerar emprego. Os jovens são os mais afetados, engrossando a maior banda do número de desempregados, o que contribui para a deficiência de participar na vida pública e do Estado, na reforma dos mesmos.
Então, o que está acontecendo com os sistemas democráticos?
A confiança na capacidade da democracia está desaparecendo, resultando em uma situação excepcionalmente fértil para cultivar as sementes de ressentimento e florescem sentimentos totalitários. A complexidade das causas da pobreza, além de ser enganosa e incapaz de mostrar, em princípio, o sentido humilhante, a crescente demanda por "líderes fortes" capaz de fornecer fórmulas simples que oferecem e prometem soluções simples, fazendo uma oferta tentadora para aliviar seus seguidores em troca de sua obediência intransigente, o peso da responsabilidade por suas vidas demasiado pesadas para eles e que carecem de recursos necessário para sobrelevá-las.
O que deveriam fazer os cidadãos?
Infelizmente, não existem atalhos para uma solução radical. No curto prazo, somente são possíveis paliativos temporários e transitórios. Prevenção de desastres semelhantes requerem chamadas para repensar e reformar a nossa filosofia de vida e nossa maneira de viver, de fato, uma espécie de revolução cultural, e como já referido, a mudança cultural leva tempo e foge de exigências de gestão. As raízes das crises econômicas periódicas e a incapacidade de controlá-las e evitá-las, estão profundamente enraizadas em nosso modo de ser: o conceito de crescimento econômico sem fim como um remédio universal para todos os males sociais, o hábito de buscar a felicidade através da compra (para saquear o mundo, em vez de contribuir para isso), promove a concorrência sobre a solidariedade, a individualidade na bolsa, e o aumento imparável na tolerância da desigualdade social, que atingiu níveis tão altos que faz tempo era inconcebível que isso acontecesse.
Entrevistado por Steven Navarrete Cardona em elespectador

Ramonet: Por que o Médio Oriente está em chamas

Temos a impressão de que aquilo que está a acontecer em Gaza não tem nada a ver com os acontecimentos na Síria, e que eles são independentes das hostilidades no Iraque ou as negociações com o Irã. Na realidade, é uma falsa impressão, uma vez que todos os acontecimentos são articulados entre si. 

Artigo de Ignacio Ramonet, publicado em Outras Palavras

Com a Síria, o Iraque e os confrontos entre Israel e os palestinos na Faixa de Gaza, há agora três guerras abertas a ocorrer simultaneamente no Médio Oriente. A estas hostilidades militares, é preciso acrescentar as tensões com o Irã, envolvendo o seu programa de energia nuclear, e as rivalidades diplomáticas entre diversas potências regionais, como a Arábia Saudita e o Egito. Tudo confirma: a região é o “barril de pólvora” do planeta e a “antessala da confusão” no mundo.
Uma primeira pergunta vem à mente: qual a razão desse acirramento repentino? As causas locais são múltiplas, devido à própria diversidade dos atores envolvidos e dos seus motivos (religiosos, étnicos, territoriais, políticos, petrolíferos, etc). Mas um fato geopolítico parece ser determinante: a decisão dos Estados Unidos de reduzir o seu envolvimento militar no teatro do Médio Oriente e se focar no leste da Ásia. Após os belicosos anos Bush, o governo Obama parece ter chegado a duas conclusões estratégicas: primeiro, um poderoso aparato militar não pode fazer tudo; e o país, atingido pela crise, já não tem os meios para exercer uma hegemonia absoluta.
Resultado: os Estados Unidos estão a retirar-se do Médio Oriente. Sobretudo, desde que o argumento principal para a sua presença na região, o petróleo, tem vindo a perder a cada dia um pouco mais de importância, na medida em que o gás ou petróleo de xisto, no subsolo americano, substituem gradualmente as importações de hidrocarbonetos do Médio Oriente.
É este o momento geopolítico preciso que a região atravessa: uma potência hegemônica, os EUA, retiram-se progressivamente; e outras potências e outras forças locais confrontam-se para ocupar o espaço político abandonado. Os acontecimentos parecem acelerar-se repentinamente, como se todas as partes envolvidas começassem a pressentir a aproximação de um acontecimento decisivo, onde novas cartas serão colocadas na mesa. Isto dá espaço para os conflitos atuais, num contexto regional sacudido pelo crescimento do conflito entre sunitas e xiitas que incendeiam toda a região do Crescente Fértil, de Gaza ao Golfo Pérsico.
Uma leitura fragmentada – a que os jornais diários oferecem  – não captura o movimento geral, no cenário de operações. Temos a impressão de que aquilo que está a acontecer em Gaza não tem nada a ver com os acontecimentos na Síria, e que eles são independentes das hostilidades no Iraque ou as negociações com o Irã. Na realidade, é uma falsa impressão, uma vez que todos os acontecimentos são articulados entre si.
Começamos por Gaza. Por que a ofensiva atual de Telavive? Aparentemente as coisas são simples: tudo começou em 12 de junho, quando três jovens israelitas foram sequestrados na Cisjordânia. O governo de Israel acusou imediatamente o Hamas (que governa Gaza) de estar por trás do sequestro e, nos seus esforços para tentar encontrar os jovens, multiplicou as detenções arbitrárias. O Hamas nega qualquer responsabilidade no sequestro dos três jovens. Mas isso não impede que as autoridades israelitas prendam quatrocentos palestinianos supostamente próximos do Hamas. Outros são mortos. Casas e apartamentos pertencentes a suspeitos são destruídos. Em retaliação, rockets são disparados de Gaza contra Israel. Em 30 de junho, os corpos dos três jovens desaparecidos são encontrados: foram assassinados perto de Halhoul, na Cisjordânia. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu afirmou: “O Hamas é responsável; o Hamas pagará”. Nada, nenhuma evidência do envolvimento do Hamas no sequestro e assassinato hediondo dos três jovens israelitas. No entanto, nada impediu, alguns dias depois, a “punição” militar lançada contra Gaza.
Qual é a verdadeira razão? É preciso voltar a 29 de março. Naquele dia, Israel recusou-se a libertar, conforme acordado, um último grupo de prisioneiros palestinianos, exigindo uma extensão das negociações de paz para além do prazo previsto de 29 de abril. É preciso dizer que o governo de Netanyahu – o mais a direita na história de Israel – não demonstrou vontade real em negociar com a Autoridade Palestiniana e em abandonar a sua política de colonização, conforme demonstrou a iniciativa natimorta do secretário de Estado norte-americano John Kerry, lançada no ano passado.
O presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, declarou-se disposto a prolongar as discussões, com a condição de que Israel libertasse os prisioneiros, congelasse os colonatos e aceitasse discutir a demarcação das fronteiras do futuro Estado palestiniano. O governo de Telavive rejeitou as reivindicações. E a partir desse momento, as hostilidades entre israelitas e palestinianos aumentaram.
Neste contexto, no momento em que o processo de paz encontra-se totalmente atolado, uma sucessão de eventos ocorre: os palestinianos assinam, em 23 de abril, um acordo de reconciliação entre o Fatah — que governa a Cisjordânia — e o movimento islâmico Hamas, no poder em Gaza. Juntos, decidem formar um governo de “consenso nacional”. Liderado pelo primeiro ministro Rami Hamdallah, e composto por tecnocratas. O mesmo não conta com nenhum membro filiado no Hamas. Os líderes israelitas ficam furiosos, e acusam o presidente palestiniano Abbas de ter escolhido “o Hamas, e não a paz”.
A fim de tranquilizar os israelitas e a comunidade internacional, o presidente Abbas prometeu que o novo governo da unidade nacional rejeitará a violência, reconhecerá Israel e respeitará os compromissos internacionais. Por sua vez, Washington anunciou a sua intenção de colaborar com o novo governo palestiniano e acrescentou que manterá a sua ajuda financeira à Autoridade Palestiniana. A União Europeia também declarou apoio ao novo gabinete palestiniano.
Mas o primeiro-ministro israelita, Bejamin Netanyahu, afirma: “O Hamas é uma organização terrorista que visa a liquidação de Israel; esta aliança é inaceitável”. Logo após, ocorre o sequestro dos três jovens israelitas. E como os acontecimentos estão ligados, fornecem o pretexto para o governo israelita “destruir o Hamas”.
Na verdade, as coisas são ainda mais complexas. Pois, de facto, o Hamas tem vindo a sofrer as consequências de uma reversão de alianças feitas recentemente. Lembremos que, sob a influência de dois Estados próximos da Irmandade Muçulmana, Turquia e Qatar, o Hamas – que é uma ramificação da Irmandade – mudou a sua diplomacia regional no ano passado e fez escolhas geopolíticas que se mostraram desastrosas: afastou-se do presidente sírio, Bashar Al-Assad (e, portanto, do Irão) em plena guerra civil na Síria, pensando forjar uma nova aliança com a Irmandade Muçulmana no Egito, que poderia ajudar o Hamas em Gaza.
Foi um grande erro: todas as previsões fracassaram. A Irmandade Muçulmana, que a Arábia Saudita também combate, foi derrubada no Egito — onde o general Al-Sissi assumiu o poder e não está, obviamente, ansioso por ajudar o Hamas — ligado à mesma Irmandade Muçulmana que ele persegue sem tréguas no seu solo. Em troca, o Cairo tem restaurado a cooperação de segurança com Israel, em prejuízo de Gaza, onde as condições de vida estão degradadas e os cidadãos estão a culpabilizar os dirigentes islâmicos.
Sem o poder necessário, o Hamas não conseguiu melhorar a vida dos dois milhões de habitantes de Gaza. O movimento islâmico permanece sujeito à escalada local de grupos radicais, como a Jihad Islâmica, responsável pelo disparo contínuo de rockets contra o território israelita. Assim, num ano, o Hamas perdeu os seus principais aliados — a Síria, o Irão e o Egito. Constrangido, aproximou-se do Fatah e da Autoridade Palestiniana. Atraindo ainda mais a ira do governo de Israel…
Além disso, Bashar el-Assad continua no poder na Síria, apoiado pela Rússia, Irão e o Hezbollah libanês. Embora a guerra no seu país esteja longe de acabar, está claro que as autoridades em Damasco marcaram pontos e, agora, retomaram a iniciativa na guerra.
É neste contexto regional que se desenvolvem os recentes acontecimentos no Iraque. Em especial a tomada, por um grupo de jihadistas sunitas, da importante região de Mossul — não só rica em petróleo, mas também território que concentra os Curdos. Este acontecimento inesperado ocorre no momento preciso em que as negociações entre o Irão e as potências ocidentais, sobre o programa nuclear, estão mais próximas que nunca de chegar a um acordo, em que a Arábia Saudita perde a sua aposta na Síria.
O reino saudita, ligado a uma vertente radical do islamismo — o wahhabismo — investiu pesadamente na luta para derrubar o presidente Assad. Durante três anos, cerca de 45 mil combatentes estrangeiros, financiados pela Arábia Saudita, foram enviados para o território sírio para lutar contra as autoridades de Damasco. Eles chegaram a oferecer, para engrossar o efetivo dos grupos islâmicos, prisioneiros já condenados à morte, acenando com a possibilidade de se redimirem, caso fizessem a guerra santa (jihad) na Síria. O reino não só abriu os seus depósitos de armas para a oposição, como teria comprado fábricas de armas na Ucrânia, cuja produção era enviada diretamente para os combatentes na Síria, através da Jordânia. Apesar desta impressionante manobra, as autoridades de Damasco conseguiram manter o equilíbrio de forças no terreno.
É por isso que a resposta chegou no Iraque. Rejeitados na Síria, os jihadistas sunitas juntaram-se ao grupo islâmico EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante, em inglês) para lançar uma ofensiva-relâmpago em junho, ameaçando Bagdade. Grupos sunitas armados, menos radicais, aderiram ao movimento com o propósito de criar um califado através das fronteiras entre Síria e Iraque.
Os curdos aproveitaram a oportunidade para apoderarem-se de outra cidade, Kirkuk, rica em petróleo, cujo controlo disputaram, durante vários anos, com o governo de Bagdade. A incompetência do governo central e a sua política favorável aos xiitas criaram as condições perfeitas para a insurgência sunita. Em todo caso, o golpe de força dos jihadistas do EILL coloca em dificuldades o primeiro ministro iraquiano (xiita) Nouri al-Maliki, aliado do Teerão.
Este embaralhamento de cartas deve resultar no retorno da Arábia Saudita às negociações no Iraque. E ao mesmo tempo, esse novo contexto permite, sobretudo, que o Irão volte a ser uma potência regional decisiva. Porque compartilha alguns interesses-chave com os ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Os americanos têm em comum com o Irão xiita o mesmo inimigo: o jihadismo sunita, e particularmente o seu grupo atual mais ativo, o EIIL, financiado pela Arábia Saudita, oficialmente um aliado de Washington…
Como podemos ver, num Oriente Médio em chamas em plena recomposição, a grande questão estratégica atual é o confronto entre Arábia Saudita e Irão — travado, “por procuração”, por meio de aliados locais destes dois países. O Estado-tampão que constituía o Iraque é agora disputado abertamente por ambos os lados. Com o pano de fundo do conflito na Síria e no Iraque, e a continuação do confronto entre o exército israelita contra o Hamas na Faixa de Gaza, a região vive uma virada geopolítica. A diplomacia parece paralisada, interrompida, o governo norte-americano e os europeus estão cada vez mais convencidos de que a estabilidade no Médio Oriente não pode ser alcançada sem a contribuição do Irão. Este quer ser reconhecido como potência (inclusive, no desenvolvimento de um programa nuclear civil). Não será algo que a Arábia Saudita engolirá com facilidade. E ela ainda não pronunciou a sua última palavra.

Tradução de Cauê Seignemartin Ameni.
Artigo publicado em Outras Palavras.

Sobre o/a autor(a)

 
  Ignacio Ramonet
 Jornalista. Diretor da edição espanhola do Le Monde Diplomatique. Foi diretor da edição  francesa entre 1990 e 2008.

Os ditadores caem pela economia mais que pela mobilização social

As crises econômicas são a principal causa de deterioração da estabilidade de regimes autocráticos. Um estudo estatístico de 137 países mostra como a legitimação, a cooptação e a repressão ajudam as ditaduras a manterem-se.

James Carville, estrategista da campanha que levou Bill Clinton a vencer George Bush contra previsão nas eleições americanas de 1992 criou o slogan "a economia, estúpido". Com Bush saindo triunfante da Guerra Fria e da primeira Guerra do Golfo, apenas a ênfase sobre a crise econômica levou o democrata a vitória. Um grande estudo agora mostra como as democracias e as ditaduras vivem e morrem pela economia. Só que nestas, não há eleições que permitam alterar um ditador por outro.
 Los dictadores caen por la economía más que por la movilización social
O ditador sírio Bachar El Asad saúda ao então presidente da Rússia, Dimitri Mevdèved, em maio de 2010.
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Pesquisadores norte-americanos e alemães estão coletando informações de 160 regimes autoritários em 137 países ao longo dos últimos 60 anos e estão colocando em estatísticas. Embora ainda não terminado o seu trabalho, os resultados preliminares mostram que a economia é a chave tanto para a manutenção do regime como para sua queda, quando as coisas estão ruins. Buscando uma correlação, colocaram em uma mesma matriz dados da base política global Política Global, Political Regimes e a econômica Penn World.

"Uma crise econômica tem se mostrado como o melhor preditor para a mudança de regime" 

CHRISTOPH STEFES

Pesquisador do Centro de Pesquisa em Ciências Sociais (WZB) Berlim
"As dificuldades econômicas são apenas uma das razões por que as pessoas tomam as ruas. Há outros, como a corrupção, a fraude eleitoral maciça, a derrota na guerra ou violações dos direitos humanos. Mas a crise econômica tem provado ser o melhor preditor para a mudança de regime", diz o especialista do Centro de Pesquisa em Ciências Sociais (WZB) Berlin Christoph Stefes. 

Há exemplos de livro. Caindo como um dominó de ditaduras latino-americanas na década de 70, o colapso do bloco soviético nos anos 80, a onda de democratização no Sul da Ásia nos anos 90 e agora a Primavera Árabe ocorreu em um contexto de profunda crise econômica nacional ou global. 

Mas os dados mostram que a queda de uma ditadura é raro. Computado cada país e os anos que duraram ou duram um ditador no posto, apenas 5% das ditaduras falham. Além disso, a queda de um regime ditatorial "raramente resulta em uma transição para a democracia", escrevem eles na primeira versão de seu estudo, publicado em Contemporary Política. 

"Para nós, era importante verificar como as ditaduras podem lidar com uma crise econômica", lembra Stefes. Embora possa parecer que a vara é a chave, mais uma vez a economia é mais importante. Quase não existem exemplos de revoltas em massa contra um regime ditatorial em que a economia está indo bem. O Chile de Pinochet é o caso que melhor se adapta a esta realidade. Eles podem fazer regimes autocráticos assim no Golfo. "Provavelmente. No entanto, não podemos esquecer que eles também são monarquias e esta é uma outra fonte de legitimidade", lembra o pesquisador alemão. 

E, quando a economia começa a dar errado, os ditadores têm ainda suas armas de manter, e o mais eficaz não é a repressão. Os pesquisadores descobriram que a legitimidade de origem ou de exercício, cooptação e repressão funcionam melhor do que colocar tanques nas ruas. E se os três são combinados, é melhor.
Só 5% das ditaduras falham, e raramente resultam em uma transição à democracia
Cuba, Coreia do Norte ou o Irã sofreram ou estão sofrendo graves crises econômicas e seus regimes continuam. Todos os três são países onde as ditaduras têm sua origem legitimadora (revolução ou guerra) reforçado com uma legitimação ideológica. "O problema é que não podemos medir o grau de apoio difuso ao regime que emerge de ideologias como o nacionalismo, o comunismo ... poderia acrescentar Laos e até a China, em certa medida à lista de regimes ideológicos. O verdadeiro teste para a China seria, claro, uma forte desaceleração econômica. No entanto, acreditamos que a legitimidade supera o crescimento econômico e os programas sociais", diz Stefes.

A repressão não funciona

Os pesquisadores também queriam ver a associação popular, entre a ditadura e a repressão. Mesmo nos tempos de bonança econômica, a economia torna desnecessário a repressão, com as crises, os ditadores recorrem a ela para ficar no poder. Mas a chave aqui é no grau. Usando dados CIRI Projeto Direitos Humanos, classificou os vários esquemas em uma tabela 0-8, na ausência de repressão ao mais agressivo, o que compromete a segurança e a vida de pessoas. Eles descobriram que, enquanto as limitações de liberdades políticas, censura ou repressão seletiva servem para sustentar o regime, a repressão extrema na forma de tortura ou de eliminação física da oposição, é um bom indicador da queda de um regime ditatorial. 

No entanto os ditadores ou regimes mais inteligentes escolhem pela cooptação. A integração no sistema como possível representação de diferentes setores sociais é uma vacina contra a mobilização. Isso explicaria o porque de 75% das ditaduras terem um parlamento com mais de um partido. Mas cooptação funciona em booms econômicos do que durante a crise econômica. Isto poderia ser porque é preciso tempo para integrar no sistema aqueles que estão fora dele e a economia não espera.
“A verdadeira proba para China seria uma forte desaceleração econômica”
Questionado hoje em regiões como a Síria, adverte Stefes que não são especialistas na região, mas também acrescenta: "Acreditamos que a Síria tem uma infra-estrutura desenvolvida, nomeadamente no que se refere ao aparato de segurança. Sua exposição ao Ocidente, é também muito menor do que em outros países da Primavera Árabe, como Tunísia. "Ele é expert nos nos países da ex-União Soviética e é ali onde eles estão reunindo os melhores resultados de seu estudo. 

Na Bielorrússia, Uzbequistão e Rússia, diz: "cooptação e repressão são muito bem desenvolvidos, e muito ajudado por uma economia controlada principalmente pelo Estado, permitindo aos líderes a capacidade de controlar as massas com pau e cenoura econômica ".
Artigo de ,publicado em esmateria.es

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Nem direita, nem esquerda: Fascismo

O Nazismo era vindo do marxismo ou era a mais pura das direitas? Isso são acusações trocadas . Na verdade, o nazismo está a parte de qualquer classificação desse tipo, mas não significando que tenha surgido isolado; o nazismo reúne a máquina totalitária soviética com o conservadorismo do grande capital e das classes médias, além do nacionalismo.

Umberto Eco escreve caracterizando o que denomina Ur-fascismo (Fascismo eterno) e uma das características colocadas é o fechamento para os argumentos (Rejeição do Pensamento Crítico). Em um trecho do livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota de Olavo de Carvalho, chamado como conversar com esquerdistas fica caracterizado um papo entre fascistas.

O método é dessa maneira: não argumente para o esquerdista, diga-o de sua maldade (Do esquerdista), em um regime de exceção isso imediatamente passa para a agressão física (Barbárie).

Ah, mais e o esquerdista, sai como anjo? Se se fala de esquerdismo da forma "pejorativa", do cego, que enxerga a verdade eterna, os opostos são iguais; basta que esse esquerdista esteja em um regime totalitário da sua "convicção" e se tornará um "chefete", os sujeitos que nesses regimes atuam como cães de guarda, também impedindo os argumentos.

Pelo que nos ensina a complexidade é provável que mesmo os argumentos contenham cegueiras e sejam usados pelas cegueiras, mas são elementos de liberdade, sem dúvidas.

Então, o fascismo eterno de Umberto Eco é a descrição primaz para dizer-nos que ele, o fascismo, foi realidade histórica brutal como regime, mas está sempre ali na esquina.

O impacto negativo da desigualdade no desenvolvimento econômico

Artigo de Vicenç Navarro publicado na coluna “Pensamiento Crítico” no diário PÚBLICO da Espanha, 9 de setembro de 2014.
Este artigo aponta que, ao contrário das alegações da tese neoliberal, as desigualdades, tanto de riqueza quanto de renda, são um impedimento para o crescimento econômico. A atual recessão, causada pelo grande aumento da desigualdade, assim o mostra.

Uma abordagem comum no dogma neoliberal é que as desigualdades de renda e riqueza em um país é um incentivo para o bom desempenho da economia. Ou seja, eles são necessários e bons para o desenvolvimento econômico. Esta posição salienta que, por exemplo, há uma minoria com um monte de dinheiro e riqueza, muito acima de todos os outros, incentiva aos demais - os demais- a tentar pertencer a essa minoria no topo. Outra forma de expressar esta opinião é salientando a necessidade de um gradiente acentuado de riqueza e renda, bem como, todas as pessoas a este nível quer atingir um nível mais elevado, motivando as pessoas a querer cada vez mais chegar a mais e muito mais. Note-se que esta é a forma como o sistema econômico e financeiro trabalha com o princípio de que cada indivíduo quer atingir aqueles que estão acima dele ou dela. Assim, considera-se que quanto maior a desigualdade em um país, maior será o incentivo para subir na escala social, trabalhando mais e mais, o que afeta ainda mais o crescimento econômico. Este pressuposto neoliberal concluí que qualquer intervenção pública voltada para a redistribuição da riqueza e da renda é negativo, ele diminui e reduz o crescimento econômico. 

Há um outro argumento na ideologia neoliberal que também tenta justificar a concentração de riqueza e renda, dizendo que é bom para o desenvolvimento econômico que tenha pessoas muito ricas, eles são os super-ricos que estão a poupar mais, tornando disponível mais dinheiro para investir e estimular o crescimento econômico. Isto estabelece um enredo que pressupõe que quanto maior a concentração de renda e riqueza, maior poupança, o que leva a um maior investimento e maior crescimento econômico. Este enredo conclui-se que políticas públicas que favoreçam essa concentração são necessários, uma vez que está promovendo assim o crescimento econômico. Todas as reformas fiscais atual Governo espanhol, liderado por Rajoy, para favorecer os rendimentos mais elevados, são justificados nestes termos. 

Que evidência existe para apoiar estas teses neoliberais? 

Vamos primeiro examinar a prova existente referente ao primeiro postulado, que afirma que as desigualdades incentivam as pessoas a trabalhar mais, aumentando assim a produtividade, como resultado do aumento do esforço de intensidade de trabalho. Bem, as evidências apontam exatamente na direção oposta. O trabalho dos professores William Easterly da Universidade de Nova York e Gary Campos na Universidade de Cornell mostram que, em geral, os países e regiões dentro dos países que têm menos desigualdade de renda crescem mais rapidamente do que aqueles com mais desigualdade. Igualmente importante é que, quando a qualidade do crescimento econômico é analisado (tendo em conta o tipo de crescimento e seu impacto sobre o meio ambiente), os países e regiões têm um crescimento menos desigual de qualidade superior aos mais desiguais. 

O mesmo é verdadeiro quando se considera a riqueza, ou seja, a propriedade dos meios que geram renda, como a terra. Já existem muitos estudos que mostram que, em países onde a terra é menos concentrada, a sua produtividade agrícola é maior do que nos países onde existem grandes propriedades. E o que é ainda mais importante é o aumento da produtividade que é alcançado quando os agricultores trabalham cooperativamente em tipos de parceria de trabalho em cooperativas agrícolas. Nos EUA, a maior produtividade agrícola não ocorre em grandes fazendas, mas nas pequenas, com relações de cooperação, como entre fazendas dos grupos religiosos Menonitas na Pensilvânia. Outro exemplo é o que aconteceu no Japão. O grande avivamento da economia japonesa após a Segunda Guerra Mundial foi um resultado da reforma agrária imposta pelos Aliados para o Japão, como um meio de quebrar a oligarquia japonesa baseada nas grandes famílias terratenentes. 

Por que os baixos salários não são bons para o desenvolvimento econômico 

Outra mostra de erra da teoria dos chamados incentivos é a baixa produtividade causada pelas desigualdades, a Espanha é um exemplo. Os baixos salários em Espanha são uma das causas da baixa produtividade. Se os salários fossem mais elevados, forçaria os empregadores a investir mais, a fim de aumentar a produtividade de cada trabalhador. Não é, como eles sempre dizem e escrevem, a baixa produtividade determina os salários baixos, mas, pelo contrário, os baixos salários são os fatores determinantes da baixa produtividade. Se o proprietário das vinhas de Tarragona tem uma abundância de pessoas para trabalhar nas vinhas, provavelmente  vai  pagar muito pouco. Se o fizesse, teria de investir mais para aumentar sua produtividade. Aumentar os salários em um país é uma ferramenta essencial para aumentar a produtividade, uma realidade ignorada, se não oculta, no nosso país, onde a empresa tem um enorme poder e os sindicatos têm pouca medida. De fato, a evidência mostra que quanto maior a força dos sindicatos de classe, os salários mais altos e maior produtividade de um país. Acrescento a classe dos sindicatos, como os sindicatos corporativos (que em Inglês é chamado business unions), com suas demandas, pode aumentar as desigualdades no local de trabalho. Até o New Deal, a sindicalização da força de trabalho nas indústrias americanas nos anos trinta e quarenta (estimulada: Como Chris Tilly aponta em seu excelente artigo  “Geese, Golden Eggs, and Traps: Why Inequality is Bad for the Economy”) desempenhou um papel fundamental no aumento da produtividade. 

Na verdade, as desigualdades têm sido a causa da crise 

Nos anos cinquenta havia uma teoria fortemente promovida pelos estamentos do grande poder econômico (que refletem o ponto de vista dos super-ricos), que postulou que a melhor maneira de reduzir as desigualdades era o crescimento econômico. O autor mais conhecido, promotor deste ponto de vista,  foi o economista ganhador do Prêmio Nobel Simon Kuznets. Seu argumento parecia lógico e razoável. À medida que a população ativa vai trabalhar na agricultura (que tem salários baixos) à indústria (que tem altos salários), há menos desigualdade. Na realidade, contudo, é diferente. As maiores disparidades não ocorrem na força de trabalho, mas entre aqueles que obtêm o seu rendimento de capital (capitalistas, um termo não utilizado agora acreditam erroneamente que é um termo ultrapassado), e que derivam do trabalho (trabalhadores, hoje que a grande maioria da população). A distribuição de renda é determinada principalmente pela política, não econômicas. Quanto maior o poder dos donos do capital (riqueza e renda concentradas) as desigualdades são maiores e quanto maior for a potência dos assalariados menor as desigualdades. E é aí que está a raiz do problema da desigualdade. A grande potência do mundo do trabalho que foi dada nos dois lados do Atlântico Norte no período 1945-1980 foi a principal causa do crescimento da economia e da queda na desigualdade. Essa queda foi revertida com a mudança política na década de oitenta, com as políticas públicas neoliberais do presidente Reagan e da senhora Thatcher, dase que mais tarde se apropriam as esquerdas governantes, que passaram de social-democracia para o socioliberalismo. Depois disso, os rendimentos do capital aumentaram enormemente, de modo que, em muitos países, como a Espanha, essas receitas representam uma percentagem do PIB ainda maior do que a renda do trabalho. Esta enorme concentração de renda e riqueza e empobrecimento dos trabalhadores causas (silenciadas e ignoradas) da grande recessão e do baixo crescimento, como demonstrei amplamente no meu trabalho. É interessante que até mesmo a OCDE acaba de reconhecer este fato. O maior problema da economia europeia, incluindo a espanhola, é a falta de demanda, o que está a prejudicar a economia desses países. Não é por acaso que, na UE-15 os países com uma grande recessão foram aqueles com as maiores desigualdades. A Espanha é um exemplo claro.

Estado Islâmico, um monstro providencial

Emergindo num  Oriente Médio cada vez mais caótico, o Estado Islâmico está a lucrar com o sectarismo crescente na região, com o vazio político e com a ambivalência do Ocidente. 

Por Peter Harling.

O Estado Islâmico, movimento jihadista que controla grande parte do nordeste da Síria e noroeste do Iraque, parece tão determinado e confiante quanto a região que o circunda é confusa. Ele não constitui em nada um novo Estado, uma vez que rejeita a noção de fronteira e prescinde largamente de instituições. Em compensação, diz-nos muito sobre a situação no Médio Oriente, sobretudo a dos Estados da região, sem falar das políticas externas ocidentais.
Este movimento expansionista tem uma identidade espantosamente clara, considerando a sua composição – voluntários vindos de toda parte – e as suas origens. A história começa no Iraque, quando, após a invasão norte-americana de 2003, um punhado de ex-mujahedins da guerra do Afeganistão cria uma célula local da Al-Qaeda. Muito rapidamente, a sua doutrina dissocia-se daquela da organização que lhe deu origem: ele prioriza o inimigo próximo, em vez do adversário distante representado por Estados Unidos e Israel. Ignorando cada vez mais o ocupante norte-americano, inicia uma guerra religiosa entre sunitas e xiitas, depois entra numa lógica fratricida. A sua ultra-violência volta-se contra os supostos traidores e apóstatas sunitas, ou seja, contra o seu próprio lado. A destruição que se seguiu, entre 2007 e 2008, reduziu o movimento a alguns radicais entrincheirados nos confins do deserto iraquiano.
Se o Estado Islâmico faz um retorno espetacular à cena, apenas uma pequena parte do mérito é sua. Os seus inimigos declarados – cuja lista, impressionante, compõe uma espécie de “quem é quem” no cenário estratégico regional – abriram-lhe um largo caminho. Em primeiro lugar, os regimes do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e do presidente sírio, Bashar al-Assad, que usaram todos os meios possíveis e imagináveis – e mesmo inimagináveis, no caso das armas químicas na Síria – para combater, em nome de uma pretensa “guerra contra o terrorismo”, a oposição sunita que eles próprios se esforçaram para radicalizar. Depois, os parceiros de ocasião desses regimes – Washington num caso e Moscou no outro – incentivaram-nos. O Irã foi além da oferta de apoio incondicional: no mundo árabe, Teerã segue uma política externa que se resume cada vez mais à manutenção de bolsas de milícias xiitas, o que contribui para a polarização religiosa.
Não esqueçamos as monarquias do Golfo, cujos petrodólares, lançados aos quatro ventos, financiam uma economia islamita parcialmente oculta. A Turquia abriu por muito tempo a sua fronteira com a Síria para os jihadistas vindos da França, de Navarra e até da Austrália. Os Estados Unidos, por fim, devem ser julgados à revelia: depois de uma década de agitação sem sentido sob a liderança do presidente George W. Bush, Barack Obama optou pela postura inversa, ou seja, um laissez-faire fleumático e altivo, quando regimes em decadência, na Síria e no Iraque, são claramente um viveiro de jihadistas. Em dois anos, não apenas o Estado Islâmico floresceu, mas foi sendo pouco a pouco transplantado, até invadir grandes cidades como Raqqa, Fallujah e Mossul. Fato importante: é o primeiro movimento, no mundo árabe, a tirar o jihadismo das margens.
Parte do sucesso reside na estratégia do movimento, que pode ser resumida pelo conceito de consolidação. Ela ambiciona menos “conquistar o mundo”, como sugerem tanto propagandistas quanto detratores, do que ancorar-se firmemente nos espaços ocupados – o que conduz a mais pragmatismo do que podemos imaginar. Os seus combatentes capturam e negoceiam prisioneiros ocidentais, quando outras gerações de jihadistas os teriam degolado para chamar a atenção. Dedicam-se com especial energia a conquistar poços de petróleo que lhes garantam uma boa autonomia financeira. Atacam prontamente os frágeis rivais sunitas, nas suas zonas de conforto, mas o entusiasmo diminui em confrontos muito difíceis com adversários mais sérios: participam pouco da luta contra o regime sírio, evitam enfrentar as milícias xiitas iraquianas e moderam seu antagonismo para com as facções curdas.
No entanto, o Estado Islâmico tem pouco a oferecer, o que é amplamente ilustrado pela situação desastrosa em Mossul. Os seus recursos, consideráveis, não bastam para alguma forma de redistribuição. Os seus princípios de governo são anacrônicos: uma ressurreição das práticas do profeta do islã, o que seria desconfortável mesmo que elas fossem bem compreendidas. Para além dessa utopia mal acabada, o governo paradoxalmente não assenta em nenhuma teoria do Estado Islâmico – uma lacuna no mundo sunita em geral, em contraste com o xiismo da Revolução Iraniana. Na melhor das hipóteses, põe em prática uma visão mais codificada da guerra, o que lhe confere uma vantagem em relação aos grupos armados que se entregam à criminalidade pura e simples. Essa codificação reforça a sua coesão de conjunto, por meio de práticas e de um discurso que, embora violentos, são relativamente elaborados.
Entre os sunitas, um sentimento de injustiça
No fundo, o Estado Islâmico contenta-se sobretudo em preencher um vazio. Ele ocupa o nordeste da Síria porque o regime oficial praticamente abandonou a região, enquanto a oposição que poderia vir a preencher o seu lugar foi abandonada à sua própria sorte pelos seus supostos padrinhos, especialmente os Estados Unidos. Além disso, penetrou em cidades como Fallujah e Mossul porque o governo central, em Bagdade, não se importava com elas: a sua presença ali era corrupta, repressiva e precária. A rápida expansão nas áreas controladas por forças curdas, porém habitadas por minorias cristãs e iazidis, no norte do Iraque, explica-se pela falta de interesse para com as vítimas por parte dos seus supostos defensores, os curdos, que preferiram voltar-se para seu território natural.
Também conhecido como “Daesh”, o seu acrónimo árabe de conotação pejorativa, o Estado Islâmico preenche ainda um vazio num nível mais abstrato. Simplificando, o mundo sunita tem dificuldade tanto em explicar o seu passado como em imaginar o seu futuro. Um século XX fragmentário, que se seguiu a uma longa ocupação otomana vista por muito tempo como um período de declínio, teve como saldo uma série de fracassos: anti-imperialismo, pan-arabismo, nacionalismos, socialismo, várias formas de islamismo, capitalismo – todos levaram a experiências ambíguas e amargas. Com exceção da Tunísia, as esperanças nascidas com os levantamentos de 2011 transformaram-se, pelo menos até agora, em desastre. Para onde olhar em busca de uma fonte de inspiração, autoconfiança e orgulho? Para os reacionários do Golfo e do Egito? Para a Irmandade Muçulmana, hoje arrasada? Para o Hamas palestiniano, preso na armadilha do eterno impasse da sua resistência a Israel?
Enquanto isso, o mundo xiita obtém êxitos, ainda que parciais: o Irão tornou-se um interlocutor incontornável para o Ocidente e pretende ter um papel cada vez maior no mundo árabe; o Hezbollah dita a sua lei no Líbano, e um eixo religioso ligando Beirute, Damasco, Bagdade e Teerão consolida-se. O resultado é um fenómeno novo e alarmante: a maioria sunita na região desenvolve um complexo de minoria – um sentimento vago, mas poderoso, de marginalização, expropriação, humilhação. Os sunitas que se creem e se dizem perseguidos e privados dos seus direitos elementares são cada vez mais numerosos e estão em cada vez mais lugares.
Salvo algumas louváveis expressões, as minorias (xiita, cristã, alauita, curda etc.), que cultivam todas a sua identidade de vítima, mostram-se na melhor das hipóteses indiferentes ao destino da maioria, quando não cúmplices. O Ocidente não é exceção. Se o destino dos iazidis, que morreram de fome após uma fuga frenética pelas montanhas de Sinjar, preocupa ao mais alto grau as chancelarias do Ocidente, o dos habitantes dos bairros sitiados de Damasco, onde um número maior de sunitas morre de fome por causa do regime oficial, não causa nenhuma reação.
Talvez o mais preocupante seja o facto de o Estado Islâmico se ter tornado o meio de esconder um vazio político generalizado. Todos aqueles que abominavam a “guerra contra o terrorismo” de Bush, vendo nela uma ideia ingénua de bombeiro pirómano ou a persistência aberrante de uma lógica imperial, agora entoam esse cântico, porque ele evita refletir sobre os reais dilemas da região. O Daesh serve de justificação para tudo: os excessos do avanço iraniano em direção a um sectarismo xiita cada vez maior, como resposta ao seu equivalente sunita; as ambivalências de um Ocidente que não sabe mais nem por onde começar; as concessões de grande parte das elites do mundo árabe numa orgia de violência contra-revolucionária; e, ainda, a alienação crescente das minorias em relação à situação que vivem – uma dinâmica da qual são vítimas, mas também atores, pois se apegam a formas de repressão que agravam o problema.
Segue-se uma série de aforismos, uns mais absurdos que os outros. O Irão para o Ocidente: abracem-nos, pois o Daesh ameaça-nos. Os regimes árabes para os seus povos: não cederemos em nada, pois o Daesh ameaça-nos. A oposição síria: salvem-nos de nós mesmos, pois o Daesh ameaça-nos. O Hezbollah para os libaneses: vale tudo, pois o Daesh ameaça-nos. Os Estados Unidos: não interviremos na Síria, pois o Daesh ameaça-nos, mas batemos no Iraque, pois... o Daesh ameaça-nos.
O retrocesso dá-se em todas as direções. Tira-se a “guerra contra o terrorismo” da lata do lixo da história das relações internacionais; desenterra-se a “proteção das minorias”, no modo colonial de um bombardeamento da maioria agitada. Os poucos alvos atingidos no Iraque por aviões e drones norte-americanos são um ato de libertação não para os iazidis, cujo futuro depende de muitos outros fatores, mas para a consciência de uma administração Obama que, nos últimos três anos, diante de todos os tipos de violência, virou as costas e olhou para o lado.
Os Estados Unidos acabaram por reagir no Iraque, pois podiam fazê-lo sem problemas: não há risco de escalada com o Estado Islâmico, que não tem condições imediatas de retaliação. Não há clamores da opinião pública norte-americana e mundial, que apoia largamente a causa. Também não há complicações diplomáticas, já que existe consenso quanto ao Daesh dentro do governo iraquiano e da liderança curda, bem como entre os vizinhos Irão, Turquia e Arábia Saudita.
Esses ataques não são neutros. Pelo contrário, vistos da região, eles fazem muito sentido. Por um acaso do calendário macabro das matanças no Médio Oriente, eles ocorrem após um mês de desinteresse furioso de Washington para com a sorte dos civis bombardeados em Gaza. Eles também enviam uma mensagem muito clara aos atores da região: a dose certa de “guerra contra o terrorismo” e “proteção das minorias” pode servir para captar e mobilizar o poder norte-americano. Massoud Barzani, presidente do governo regional do Curdistão, entendeu isso muito bem, lançando um pedido de socorro mobilizador no The Washington Post.1 Os outros políticos em redor também entenderam; no final das contas, eles só ficam surdos aos apelos para uma mudança positiva.
Despertar libanês
Foi necessário que o Estado Islâmico aparecesse no Líbano para sacudir a paralisia que assola esse país tão frágil. Mas o avanço é também um passo atrás: a classe política e os seus patrocinadores estrangeiros exageram no apoio ao Exército, que se alinha amplamente na caça aos islamitas sunitas, ignorando cuidadosamente a delicada questão do Hezbollah, o qual fica livre para lutar ao lado dos regimes odiados na Síria e no Iraque. Na verdade, todos os fatores estruturais de instabilidade são, como aliás no resto da região, considerados secundários em relação à urgência de enfrentar o Daesh. No meio sunita, o sentimento de ser posto à parte, evidentemente, só faz crescer.
O Estado Islâmico tem, portanto, um futuro brilhante pela frente se os jogadores principais continuarem a explorar a sua presença para se esquivarem dos seus erros. Os islamitas xiitas, os meios seculares e os governos ocidentais redefinem parcialmente as suas relações com base numa espécie de guerra santa que se torna num fim em si mesma. Gaza, Iémen, Sinai, Líbia e Tunísia, todos são terrenos férteis para a sua expansão, numa parte do mundo que conhece uma forte integração regional, ao mesmo tempo para além das fronteiras e para dentro de cada país: por força do êxodo rural, as franjas territoriais estão bem conectadas aos bairros informais das grandes cidades.
Também existem fortes ligações com as sociedades ocidentais remodeladas pelos fluxos migratórios e as novas tecnologias de informação, que produzem uma nova geração de candidatos à jihad. Eles facilmente vão para a Síria ou o Iraque, de onde comunicam e valorizam a sua experiência, disparando rajadas tanto de tweets como de balas.
Pouco representativo em si mesmo, o Estado Islâmico é alimentado por um efeito sistémico. Ele pode ao mesmo tempo ser uma forma de redenção padrão, um aliado de circunstância, um trampolim social ou uma identidade pronta para usar nos meios sunitas que passam por uma crise profunda. Ele serve de elemento de contraste ou como uma distração útil para os seus detratores mais cínicos e de espantalho que concentra os temores mais ou menos racionais de atores confrontados com os seus próprios fracassos. Essa polissemia, na confusão que caracteriza esta era de mudanças caóticas, é o que faz o seu sucesso.
Artigo de Peter Harling*, publicado em “Le Monde Diplomatique Brasil”.

1 Massoud Barzani, “Kurds need more US to defeat Islamic State” [Curdos precisam de mais EUA para derrotar o Estado Islâmico], The Washington Post, 10 ago. 2014.

Ucrânia: Uma guerra sem nome e perguntas sem respostas claras

Contrariamente aos argumentos dos que apoiam a Rússia contra o “campo imperialista”, a política de Moscou não faz mais que reforçar o pedido da Ucrânia de adesão à OTAN.

Catherine Samary

Perguntas sem respostas claras
O que põe a nu e que consequências terá o envio de reforços russos “não nucleares”, mas efetivos (“voluntários” que vão combater durante as suas “férias”, como os apresentou o dirigente secessionista de Donetsk; tanques russos que cruzam a fronteira “por engano”, como se diz em Moscou sem se rirem, ou inclusive “brigadistas” estrangeiros, de extrema direita ou esquerda, que vão defender a “Nova Rússia” pintada de branco ou de vermelho)? A “ofensiva antiterrorista” lançada pelo poder de Kiev combateu eficazmente o risco de desmembramento da Ucrânia ou teve o efeito contrário? São reais as deserções do exército ucraniano que são mencionadas frequentemente? Qual é a composição e a percepção popular dos “batalhões” de voluntários, patriotas de todos os matizes, ucranianos ou estrangeiros? A coligação “pós-Maidán” rompeu-se e o presidente Poroshenko dissolveu a Rada e anunciou eleições legislativas para 25 de outubro. No entanto, as populações do leste da Ucrânia só poderão votar se cessar a violência, e em tal caso, qual será o seu voto?
A constituição ucraniana não deve ser redigida nem em Moscovo nem em Bruxelas (nem em Dayton, como o foi a da Bósnia...). E a integridade ucraniana tem de ser confirmada (ou contestada) politicamente por um ato de autodeterminação de todas as populações ucranianas, sem qualquer coação armada
A propaganda russa, como a do poder ucraniano desde a anexação da Crimeia, censura a crítica e dificulta a verificação da informação. De um lado e outro, os movimentos ou forças que protestam são tratados como quintas colunas financiadas pelo estrangeiro. As políticas antissociais são legitimadas por um patriotismo (anti-ocidental e contrário às sanções na Rússia, ou anti-russo na Ucrânia). No entanto, a presença de forças de extrema direita entre os voluntários de ambos os lados e o aparecimento de frentes “vermelho-castanhas” (ou brancas) que se reclamam em uníssono do “antifascismo” e do “anti-imperialismo” nos dois lados, agravam ainda mais o estado de confusão.
Contrariamente aos argumentos dos que apoiam a Rússia contra o “campo imperialista”, a política de Moscou não faz mais que reforçar o pedido da Ucrânia de adesão à OTAN, pedido que obterá um apoio mais entusiasta por parte da Polônia e das repúblicas bálticas que das grandes potências imperialistas. Quanto ao combate pela integridade da Ucrânia, perde eficácia se aceitar a proibição das críticas ao governo de Kiev, à sua “operação antiterrorista” ou às políticas sociais impostas depois do pedido de “ajuda” ao FMI.
Ucrânia “una e dividida” e neocolonizada como a Bósnia?
Os discursos e as operações da Rússia – que pretende não ser mais do que “solidária com as populações russas” e que faz frente às potências imperialistas ocidentais indecisas – consolidam a curto prazo o regime de Putin (80% de popularidade). Se abandonasse os secessionistas seria criticado, mas após o envio de comboios humanitários para tratar de conquistar os corações e os espíritos, a afirmação de um projeto de Estado da “Nova Rússia” é um sinal de força ou de fraqueza? Reflete uma mudança da população local a favor da ruptura com a Ucrânia ou pressupõe, pelo contrário, um parto a ferros de uma “entidade estatal” com dinâmica separatista e de união com o “grande irmão” vizinho, mas sem uma mobilização popular ativa na guerra ou em apoio à mesma? Do mesmo modo que para construir militarmente a “entidade sérvia” da Bósnia, a chamada Republika Srpska, fará falta dotar a proclamada “Nova Rússia” de certa continuidade territorial, concretamente a extensão até à Crimeia e à Transnístria, por muito que esta “entidade” estatal permaneça inicialmente dentro de uma Ucrânia “soberana” e dividida.
Quem deve decidir? A constituição ucraniana não deve ser redigida nem em Moscou nem em Bruxelas (nem em Dayton, como o foi a da Bósnia...). E a integridade ucraniana tem de ser confirmada (ou contestada) politicamente por um ato de autodeterminação de todas as populações ucranianas, sem qualquer coação armada. Como disse recentemente um amigo da Oposição de Esquerda Ucraniana, a guerra não é nem puramente civil nem unicamente de agressão externa, mas sim “híbrida” e em grande parte incontrolada.
Contra esta guerra, é à população ucraniana, com todas as suas componentes, que cabe a resposta e com o apoio de movimentos internacionalistas na Rússia, na Ucrânia e na UE.
Artigo de Catherine Samary, publicado em Hebdo L’Anticapitaliste do NPA e disponível emeurope-solidaire.org. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
Catherine Samary
Investigadora e professora na universidade Paris-Dauphine (aposentada).

Documentos indicam envolvimento de empresas com a ditadura militar no Brasil

Adital


Toshiba, Brastemp, Ford, Volkswagen e Mercedes Benz. Estas são empresas privadas supostamente envolvidas com a ditadura militar brasileira (1964-1985), de acordo com documentos apresentados esta semana pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).A violação dos direitos da classe trabalhadora está sendo alvo de estudos por parte da CNV. Membros e assessores da CNV que integram o grupo de trabalho "Ditadura e Repressão aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical" estão discutiram métodos para alcançar resultados positivos na pesquisa e investigação da repressão aos trabalhadores.


Durante entrevista coletiva realizada em São Paulo nesta semana, Rosa Cardoso, membro da CNV que coordena o GT, Sebastião Neto, secretário executivo do GT, e Victoria Basualdo, pesquisadora argentina que analisou o processo de investigação e de judicialização de crimes cometidos durante a ditadura em seu país, em especial, apresentaram documentos que indicam o envolvimento de empresas brasileiras e estrangeiras com a ditadura militar.

Um questionário será enviado nos próximos dias às empresas mencionadas nos documentos localizados pelo GT Trabalhadores. No questionário, a CNV pedirá esclarecimentos sobre a participação delas em ações repressivas contra trabalhadores e sindicatos.

Em um dos documentos, datado de 24 de janeiro de 1981, do Departamento de Ordem Política e Social, aparecem os nomes de mais de 400 funcionários de grandes empresas como Toshiba, Brastemp, Ford e Mercedes Benz. Nas nove páginas constam também o endereço residencial e o setor onde trabalhavam cada um dos funcionários. A CNV está, agora, investigando o motivo pelo qual o Dops recebeu o documento.

Um relatório confidencial da seção de informações do Ministério da Aeronáutica, também, foi apresentado. Nesse documento fica claro que o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva foi monitorado pela Volkswagen quando era um proeminente líder sindical do ABC Paulista. Veja aqui o documento.

O documento, de 18 de julho de 1983, encontrado nas investigações feitas no Vale do Paraíba, contém um anexo com "lembretes" que descrevem várias atividades sindicais. Uma dessas notas detalha como foi a assembleia dos mutuários de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, realizada em 19 de junho daquele ano. Horário de início e de término, local, quantidade de pessoas presentes, nome completo e função dos oradores e até mesmo o que foi dito na assembleia constam no relatório. Segundo o documento, os mutuários criticavam o aumento de 130% na prestação da casa própria e Lula afirmava que a única maneira dos mutuários acabarem com "essa pouca vergonha do governo" era não pagar mais as prestações do Banco Nacional da Habitação (BNH).

Um outro relatório, desta vez redigido pela Polícia Civil paulista, mostra a preocupação das empresas em evitar greve dos funcionários. O documento, de 27 de junho de 1978, informa que a indústria Resil SA, de Diadema, ABC paulista, "introduziu entre seus empregados três elementos com a finalidade de informá-los e de ajuda-los na localização dos possíveis mentores do movimento grevista naquela indústria". O relatório continha ainda a ficha funcional completa de um dos funcionários, que de acordo com o documento pretendia parar as atividades dos operários da fábrica.

Segundo Rosa Cardoso, "o monitoramento por parte das empresas era uma prática generalizada, era o uso de uma prática policial que foi utilizada pela polícia política no contexto da ditadura do Estado Novo. Em 64, na preparação do golpe e depois na ditadura sucessiva ela teve o uso ampliado por militares e por empresários".

Após o trabalho de pesquisa e investigação da CNV, todo o material levantado ficará a disposição da sociedade e poderá ser usado pelo Ministério Público e pelas vítimas em ações judiciais nas esferas penal e cível.

O Neoconservadorismo Evangélico: uma avaliação da entrevista do Pastor Silas Malafaia ao jornal O Globo

"O conservadorismo evangélico explícito dos anos 2010 parece estar dentro de um contexto de fortalecimento de posturas conservadoras na esfera pública brasileira. Um desdobramento dos dados de pesquisa eleitoral realizada pelo Datafolha em outubro de 2013 revelou que a maior parte dos brasileiros se identifica com valores de direita", escreve Magali do Nascimento Cunha, jornalista, doutora em Ciências da Comunicação, professora da Universidade Metodista de São Paulo e autora do livro A Explosão Gospel. Um Olhar das Ciências Humanas sobre o cenário evangélico contemporâneo (Ed. Mauad)

Artigo publicado por IHU on line

A entrevista do líder da Assembleia de Deus em Cristo Silas Malafaia ao jornal O Globo em 1 de setembro é o retrato do pastor e do lugar que ele ocupa no quadro do neoconservadorismo predominante no cenário evangélico. O termo conservadorismo é usado aqui no sentido da ciência política referente a posições alinhadas com a manutenção (contrária a mudanças) de determinada ordem sociopolítica, econômica, institucional, ou de crenças, usos e costumes de uma sociedade.

O conservadorismo dos evangélicos no Brasil não é dado novo, diante da formação deste segmento cristão no século XIX baseada no fundamentalismo bíblico, no puritanismo e no sectarismo. Muito se transformou nestas bases ao longo do século XX, emergiram grupos abertos à atuação social, ao ecumenismo, mas o conservadorismo sempre foi predominante entre os evangélicos. Foi ele que provocou a omissão das igrejas frente à implantação da ditadura militar no Brasil (1964-1985) e também tornou possível o alinhamento de boa parte das lideranças evangélicas com o governo de exceção.

Nos anos 2000 temos uma nova face do conservadorismo religioso, um neoconservadorismo, que emerge como reação a transformações socioculturais que o Brasil tem experimentado, em especial a partir dos anos 2002, com a abertura e a potencialização de políticas do governo federal voltadas para direitos humanos e gênero. O "neo" se deve à visibilidade mais intensa de lideranças evangélicas que se apresentam como pertencentes aos novos tempos, em que a religião tem como aliados o mercado e as tecnologias, mas que se revelam defensoras de posturas de um conservadorismo explícito.

Lideranças midiáticas se fortalecem na esfera pública, como o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, o pastor do Ministério Tempo do Avivamento (Assembleia de Deus) deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), o senador sem-igreja Magno Malta, cantores gospel e novas celebridades religiosas. Além da visibilidade midiática que as transforma em autoridades/referências religiosas que ultrapassam até mesmo os arraiais evangélicos, essas pessoas têm em comum, discursos de rigidez moral e de conquista de poder na esfera pública.

O conservadorismo evangélico explícito dos anos 2010 parece estar dentro de um contexto de fortalecimento de posturas conservadoras na esfera pública brasileira. Um desdobramento dos dados de pesquisa eleitoral realizada pelo Datafolha em outubro de 2013 revelou que a maior parte dos brasileiros se identifica com valores de direita. A separação foi feita com base nas respostas dos entrevistados a perguntas sobre questões sociais, culturais e políticas, como a pena de morte e o papel dos sindicatos na sociedade. Dos entrevistados, 38% foram classificados como de centro-direita, 26% de centro-esquerda, 22% de centro, 11% de direita e 4% de esquerda.

Em acordo com o que o Datafolha indica vários analistas sociais têm sugerido que uma tendência política tradicionalista em questões morais e sociais, defensora da liberdade individual e do livre mercado está em ascensão no Brasil. O sucesso de políticos como os deputados Marco Feliciano e não-religioso Jair Bolsonaro, de partidos como o Social Cristão (PSC), que lançou candidato o Pastor Everaldo (Assembleia de Deus) à presidência da República, e de celebridades religiosas como o pastor Silas Malafaia é elemento emblemático. Com discursos dentro do ideário da moral cristã (contra o aborto e o controle da natalidade e pelo tratamento psicológico a homossexuais) e de princípios caros ao liberalismo na política e na economia (Estado mínimo e elogios ao livre mercado), essas personagens têm captado apoios para além do círculo religioso com o mote “é preciso salvar a família”.

Na visão destas lideranças a família está sob a ameaça dos movimentos civis por direitos sexuais e enfrentamento da violência sexual, reforçados pelas ações do governo federal, desde que o Partido dos Trabalhadores (PT) assumiu em 2002 com abertura de mais espaços para legislação que responda a essas demandas. Alguns apelos ainda tomam como ingrediente uma possível ameaça de o comunismo tomar conta do Brasil. Segundo esses discursos, este seria o verdadeiro propósito do governo do PT em nível nacional.

Todo este processo tem a mediação das mídias, que historicamente têm um alinhamento com valores e políticas conservadoras, dado o perfil dos seus proprietários, e que, pelo menos na última década, em especial na cobertura noticiosa, tem dado amplo espaço para analistas e comentaristas defenderem abertamente essas perspectivas, como é o exemplo de Arnaldo Jabor, Alexandre Garcia e Merval Pereira, nas Organizações Globo; Reinaldo Azevedo, na revista Veja; José Luiz Datena e Boris Casoy, no Grupo Bandeirantes; Marcelo Rezende, na Rede Record; Luiz Pondé, a TV Cultura; e mais recentemente, Rachel Sheherazade, no SBT. Soma-se neste quadro elemento significativo: a identificação de não poucos casos de racismo em estádios de futebol e em inúmeras postagens em redes digitas. São movimentos da dinâmica sociopolítica e religiosa que vão marcar novas tendências e merecem ser acompanhados nos tempos por vir.

A entrevista do pastor Silas Malafaia em O Globo ainda tem um elemento que vale a pena destacar. O líder religioso ganha espaço também jogando forte com um discurso enganoso e as mídias caem na armadilha. Segundo o pastor Malafaia nos registros do IBGE, 25-27% de evangélicos mais 20% de católicos praticantes apoiam as posições conservadoras defendidas por ele, e por tabela, pela candidata do PSB à Presidência da República Marina Silva, a quem ele registra apoio num eventual segundo turno. O engano é tratar os evangélicos como um grupo monolítico: não são conservadores na totalidade, bem como não votam com Marina Silva na totalidade. Retórica enganosa que as mídias repetem sem correção.