"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 22 de novembro de 2014

Alain Touraine - Temos que voltar a proteger os direitos básicos

"Uma face da desintegração social causada pela economia, tem de começar a partir do reconhecimento dos direitos universais." Alain Touraine adverte do fim da ordem social, "Eu não sei quem disse que os movimentos sociais salvariam a democracia, mas apenas os indivíduos são quem defendem seus direitos básicos."
Alain Touraine
"O fato de que o poder é absoluto, o movimento de oposição - que pode levar a uma nova vida social e política - deve começar com uma declaração da pessoa na totalidade de seus direitos universais: o direito à liberdade, à igualdade e dignidade. "
Assim, não é só a defesa dos direitos sociais? 
É uma perspectiva de perda. Capital não é mais o centro da batalha. Não podemos mais pensar as categorias tradicionais do passado, agora não funcionam mais. A ameaça hoje pesa mais em geral, ser um "ser humano", precisamos voltar a Hannah Arendt, quando e a diz que o homem tem o direito a ter direitos. Uma fórmula que eu concordo, mas especificando que os direitos - precisamente porque são universais - eles estão acima da lei e da política. Para opor-se à ordem da sociedade e reconstruir uma vida coletiva é necessário ligar o individual e o universal. Resultando movimentos que já não sociais, mas sim éticos e democráticos: Democratas, já que põem em questão toda a ética e a defesa dos seres humanos na realidade mais individual e única.
Isto faz que seja possível recuperar a política e tentar contrastar a aparente onipotência da economia?
Sim. Embora haja uma tradição intelectual que defende a primazia da política, isso é agora desacreditado e impotente. Temos que começar de novo a partir da ética, que está à frente da política, uma vez que é parte de um plano universal, só então poderemos restaurar a democracia e socializar. Quando intenções individuais são carregadas com significados universais, tornam-se agentes de transformação social e democrática. A ação da política democrática nasce de novo por uma classe política, uma política nacionalista, uma política de interesses ou políticas do sagrado privadas. A ação política renasce apenas ethos democrático, o que significa que as leis devem ser subordinados aos direitos. Se assim for, torna-se possível recuperar o controle sobre a economia e parar o desvio de destruição do social.
Qual é o papel da cultura neste contexto? 
É muito importante, porque a luta pela cultura e auto-ajuda culturais para transformar aos indivíduos em sujeitos capazes de serem atores pós-sociais. Diante de uma economia de consumo que reduz a sociedade a um mercado dominado pelo capitalismo financeiro global, o trabalho de reflexão e de desconstrução de padrões de pensamento torna-se crucial. O acesso à cultura é um direito fundamental. E os intelectuais devem encontrar um papel ativo e independente, olhando para o que acontece fora do mundo ocidental, China, Índia, e o mundo árabe. Virá a notícia das próximas décadas.
Tradução do italiano ao espanhol por Santiago Pardilla de repubblica.it. Tradução para o português Blog A CRÍTICA

Caravanas da Indignação reúnem-se em manifestação gigante na Cidade do México

Familiares dos 43 estudantes desaparecidos percorreram o país em três frentes até se concentrarem numa gigantesca manifestação na capital mexicana. Neste dia 20, houve manifestações em muitas cidades do país e do mundo. Está colocada a possibilidade do fim do governo Peña Nieto.

Tomi Mori

A indignação contra os crimes do narco-estado atinge milhões. Foto de Mario Acosta Garcia

Após dias percorrendo uma vasta área do México, as três caravanas dos pais dos 43 estudantes desaparecidos encontraram-se, na Cidade do México, neste dia 20, dia global de solidariedade aos estudantes de Ayotzinapa.
Durante os últimos dias, os familiares dos 43 estudantes, divididos em três frentes, locomoveram-se por uma ampla área do país. Viveram dias em que a dor, a indignação, foram levadas e também manifestadas em todos os locais por onde passaram. Foi memorável a chegada da caravana a Chiapas, no sul do pais, o bastião da rebelião zapatista que dura há muitos anos. Os pais foram recebidos pelos dirigentes zapatistas, entre os quais o Comandante Moisés, que é atualmente o seu principal líder. As caravanas tinham o objetivo não apenas de expressar a sua justificada raiva como também de angariar apoio para uma dura e histórica luta que apenas começou. Os zapatistas prometeram engrossar a luta nacional já que, durante todos estes anos, também foram vítimas de perseguições e mortes.
Desde a manhã ocorreram confrontos, perto do aeroporto internacional, entre manifestantes e a tropa de choque do governo Peña Nieto. Houve manifestações em todo o México. Em Iguala, onde ocorreram as mortes ou desaparições, a população também saiu às ruas em protesto.
Os estudantes universitários realizaram varias greves, como as da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Universidade Autônoma Metropolitana (UAM) e Pedagógica Nacional (UPN). Em Texcoco, a Universidade Autônoma de Chapingo e a Escola Normal de Texcoco também pararam as suas atividades.
Durante a noite, as marchas unificaram-se numa multitudinária manifestação de milhares de pessoas, como podemos ver pelas fotos da imprensa mexicana, mas, até o momento, não foi divulgado o número dos participantes. Durante o protesto foi queimado um gigantesco boneco do presidente Enrique Peña Neto. A palavra-de-ordem “Fora EPN!” tem sido um brado ouvido nas manifestações em todos os cantos do país. A ultima notícia divulgada pelo jornal La jornada, da capital mexicana, mostrava uma foto da tropa de choque atacando violentamente os manifestantes que não paravam de chegar ao Zócalo, mesmo após a manifestação ter sido oficialmente finalizada.
Uma luta abraçada a nível internacional
Manifestação em Madrid de solidariedade aos mexicanos.











Ainda que, como sempre, a imprensa ignore os factos tais como se apresentam, foram realizadas dezenas de manifestações de apoio em todos os continentes. No Japão, nos EUA, em Barcelona, na Europa, em Porto Rico. Particularmente em vários países da América Latina, com protestos diante das embaixadas e consulados mexicanos, onde a indignação dos ativistas políticos se tornou mais acentuada, com esse episódio hediondo de massacre capitalista, realizado diretamente pelo narco-estado mexicano. Cabe lembrar que, infelizmente, devido à fragilidade da esquerda mundial é muito raro vermos ações e mobilizações como as que ocorreram neste dia 20, abrangendo dezenas de países. A mesma solidariedade não tem sido dedicada à luta de dois meses que os estudantes e a população de Hong Kong tem travado pela democracia, contra uma das mais odiosas ditaduras da história humana: a do Partido Comunista Chinês.
O derrube de Enrique Peña Nieto abrirá a longa luta por uma verdadeira democracia
Desde que começou a Primavera Árabe, temos visto as massas a derrubarem vários governos, na Tunísia, na Líbia, Iêmen, Egito e outros. No entanto, é um facto que essas poderosas mobilizações não trouxeram ainda um resultado palpável, onde os povos em luta possam usufruir plenamente dos seus resultados. No caso do Egito, por exemplo, após uma espetacular revolução, vimos os mesmos militares apoderarem-se do poder pelo trágico facto de que a esquerda socialista não conseguiu superar as suas debilidades históricas e tomar as redes do processo histórico.
Também no México, baseado na profundidade desse movimento histórico que envolve as camadas mais oprimidas da população mexicana, é possível crer que no próximo período conseguirão derrubar o governo genocida de Enrique Peña Nieto.
Sem duvida, será um passo colossal e um dos momentos importantes da moderna história da América Latina. No entanto, na ausência de uma poderosa esquerda revolucionária e democrática, é possível imaginar que o derrube desse odioso governo será apenas uma primeira fase de uma luta mais ampla das camadas mais oprimidas do povo mexicano. Não será ainda a luta por uma sociedade socialista, como bem poderia ser nessa altura do desenvolvimento histórico. Mas será um passo nesse caminho.
Além dos 43 desaparecidos, existem centenas de presos políticos
O governo transformou o país não apenas num mar de covas, que vão sendo descobertas durante as buscas dos estudantes desaparecidos, como também num regime policial onde os oposicionistas são metidos na prisão sem nenhum julgamento. Essa é a situação em que se encontram centenas de ativistas, particularmente membros das polícias comunitárias que lutam contra o narcotráfico. Este é o caso da comandante Nestora Salgado, detida na prisão de máxima segurança de Nayarit já por mais de um ano. Também continua detido o principal líder das auto-defesas, o Doutor Mireles, cujo “crime” foi organizar as autodefesas armadas para se defender e defender a população do narcotráfico.
A ampliação da democracia, com a libertação dos presos políticos, a eleição de uma Assembleia Constituinte democrática e soberana, assim como a formação de um governo dos trabalhadores são alguns dos pontos importantes da atual luta democrática no México.

Piketty: Europa está à beira de uma grave crise política, econômica e financeira

Para Thomas Piketty, autor de 'O Capital no Século XXI' a Europa está à beira do abismo de uma grave crise política, econômica e financeira.

Daniel Fuentes Castro, EL DIARIO.es

Arquivo

O economista autor do influente livro "O capital no século XXI" reflete sobre o auge da extrema direita em seu país. "França e Alemanha demonstraram ser egoisticamente míopes em relação à Espanha e à Itália ao renunciar a compartilhar seus tipos de interesse". "É preciso se acostumar a viver com um crescimento fraco". "A ideia segundo a qual é preciso insistir em secar os orçamentos com base em mais austeridade para curar o doente me parece completamente insensata".

Thomas Piketty (Clichy, França, 1971), economista da Paris School of Economics, é especialista no estudo das desigualdades econômicas por uma perspectiva comparada. É autor de "O capital no século XXI", obra que vendeu mais de um milhão de exemplares em todo o mundo e que ao ter sido recentemente editado para espanhol e catalão lhe transformou em um dos economistas mais influentes da atualidade.

A Paris School of Economics, de criação recente, tem sua sede nos locais da École Normal Supérieure (13 prêmios Nobel e 10 medalhas Fields nas costas), no bulevar Jourdan. Não é um dos colossais edifícios do século XIX, de pedra talhada, onde outras instituições como a Sorbonne ou a faculdade de Direito de Panthéon-Assas ainda conservam suas sedes históricas. Trata-se de um conjunto de edifícios relativamente moderno, mas avelhentado. O vinílico desgastado do solo e a cor amarelada de algumas paredes revelam que, se falamos em capital, não é físico, mas sim humano.

Três percevejos da porta do escritório de Piketty seguram uma folha de papel com seu nome. Do quarto só restou a agulha. Seu escritório mede cerca de 15 metros quadrados, 20, se muito, e está cheio de estantes repletas de livros. Não tem assistente pessoal. Não veste terno, nem gravata. Desde o primeiro momento, mostra-se amável, sorridente e natural. Um pouco tímido. Ainda que dê a sensação de não nunca ter quebrado um prato na vida, se expressa sem titubear e com veemência em alguns momentos.

Há quem veja no título “O capital no século XXI” pisca para a obra de Karl Marx “O capital”. Você considera que a confrontação ideológica entre capitalismo e marxismo continua vigente?

A disjuntiva não é capitalismo ou marxismo. Há diferentes maneiras de organizar o capitalismo e há diferentes maneiras de superá-lo. O que meu livro tenta é contribuir com este debate. Quanto ao marxismo, faço parte da primeira geração posterior à Guerra Fria, a primeira geração pós-marxismo. Completei 18 anos com a queda do Muro de Berlim (no dia da entrevista fazia exatamente 25 anos). Li Marx e há ideias interessantes nele, contribuições notórias, mas O capital foi escrito em 1867 e estamos em 2014. O que eu tento é introduzir no século XXI a questão do capital, de seu estudo, isto é, para mim, o que o título do meu livro significa.

Não se pode esquecer que este trabalho teria sido impossível sem as tecnologias da informação, que permitem reunir e tratar dados históricos em uma escala impossível para Marx e até mesmo Kuznets. É fácil criticar os economistas do passado, mas eles trabalhavam na mão. Não contavam com as ferramentas que nós temos e, sobretudo, não tinham a perspectiva histórica que hoje temos e que nos permite contar a história do capital e das desigualdades. Isto é o que meu livro tenta fazer. Não pretende anunciar uma revolução, tenta apenas colocar à disposição dos leitores as pesquisas históricas que pudemos reunir sobre mais de vinte países e que englobam três séculos. O livro é, antes de qualquer coisa, uma história do capital.

Seu livro estuda de maneira empírica, entre outras coisas, a relação entre distribuição de renda do crescimento. Pode-se falar de causalidade direta no sentido de que uma melhor distribuição da renda produzindo uma taxa de crescimento maior como efeito?

A correlação e a causalidade são ambas muito complexas e não vão em um sentido apenas. A desigualdade pode ajudar o crescimento até certo ponto, mas para além de um determinado nível de desigualdade, obtém-se principalmente um efeito negativo que reduz a mobilidade na sociedade e conduz à perpetuação da estratificação social no tempo. Isto tem um impacto negativo sobre o crescimento.
 
O outro efeito negativo se produz através das instituições políticas: uma desigualdade muito forte pode levar ao sequestro das instituições democráticas por parte de uma pequena elite que não vai necessariamente investir na sociedade pensando no conjunto da população. Por isso, o crescimento no século XXI vai depender em grande medida do investimento em educação e formação, e não unicamente para uma pequena elite, mas para uma imensa maioria da população.

Para além das previsões de conjuntura econômica, o que se pode esperar do crescimento nos próximos anos? O que as expressões desenvolvimento sustentável e decrescimento lhe sugerem?

Acredito que tenhamos que nos acostumar a viver de maneira sustentável com um crescimento fraco. O problema é que tanto na França como em outros países europeus continuamos tendo em mente essa espécie de fantasia dos "trinta gloriosos" (expressão que faz referência às três décadas transcorridas entre a Segunda Guerra Mundial e a crise do petróleo em 1973), segundo a qual precisamos de pelo menos três, quatro ou cinco porcento de crescimento para sermos felizes. Isto não tem sentido. Somente nas fases corretivas em que alguns países recuperam os atrasos em relação a outros, ou em fases de reconstrução, acontecem taxas de crescimento tão elevadas.

É preciso colocar na cabeça que uma taxa de crescimento de 1% ou 1,5% ao ano é um crescimento muito rápido, se prolongado no tempo. Com taxas de crescimento assim durante um período de trinta anos, que é o equivalente a uma geração, acontecerá um crescimento da renda que equivale a um terço ou até mesmo à metade do PIB.

Por outro lado, ter que viver de maneira sustentável não é argumento para defender crescimento nulo. Uma taxa de crescimento entre 1% e 1,5% ao ano no longo prazo é fonte de progresso e não é um objetivo impossível. Agora, para alcançar um ritmo de crescimento assim, é preciso abandonar a atual política de austeridade. Isso em primeiro lugar. E sobretudo é preciso investir em ensino superior, em inovação e meio ambiente... Falo de investir em meio ambiente porque é evidente que terá que encontrar novas fontes de energia renováveis, visto que com as fontes atuais não poderemos manter uma taxa de crescimento de 1% ou 1,5% ao ano indefinidamente.

Considerando as últimas previsões da Comissão Europeia, não parece que estejamos perto de alcançar essa velocidade de cruzada. Você acredita que a austeridade seja um mal necessário para retomar o ritmo de crescimento?

A realidade é que caminhamos rumo a uma década imersos em um clima de recessão e de austeridade. Digo isto porque o PIB por habitante estimado para a França em 2014 ou 2015 é inferior ao de 2006 ou 2007. Esta é a situação. Estamos há quase dez anos em estancamento da renda per capita, da riqueza do país, do poder aquisitivo... A partir daqui podemos discutir tudo o que quisermos sobre qual precisa ser a arrecadação do Estado, quanto deve ser o gasto público ou qual deve ser o peso do setor privado na economia, mas o fato é que a riqueza total disponível é inferior à de 2007. Não recuperamos o nível anterior à crise. É normal que, em uma situação como esta, o ambiente seja depressivo.

A ideia segundo a qual é preciso enxugar os orçamentos com base em mais austeridade para curar o paciente me parece completamente insensata. Digo isto pensando na França, mas o mesmo vale para a Itália, com taxas de crescimento negativas em 2013 e em 2014. É verdade que o crescimento na Espanha está um pouco melhor agora, mas não nos esqueçamos que ela ainda sofre um atraso considerável em termos de renda per capita em comparação a outras grandes economias da Europa.

O resultado global das políticas de austeridade nos últimos quatro ou cinco anos é, de maneira objetiva, muito ruim. Os Estados Unidos tinham uma taxa de desemprego muito similar à da zona do euro de alguns anos atrás e atualmente a diferença é enorme. O desemprego diminuiu ali, apesar de o nível da dívida de ambas economias ser muito semelhante na situação de partida. Não há dúvidas sobre quem escolheu a estratégia adequada.

Que outra estratégia a zona do euro deveria ter seguido para sair da crise?

Acredito que seja necessário tornar comum as dívidas públicas e os juros da dívida pública. França e Alemanha forma extremamente egoístas. Demonstraram ser egoisticamente míopes em relação à Espanha e Itália ao renunciar e compartilhar seus juros. Uma moeda única com 18 dívidas públicas e 18 tipos de juros associados a essa dívida não funciona. Os atores financeiros não têm confiança neste sistema. Poderemos sair desta crise somente se criarmos um fundo comum de dívida pública com apenas um tipo de juro. O Banco Central Europeu poderá, então, estabilizar esse tipo de juros com menor dificuldade do que atualmente com 18 diferentes.

Agora, se quisermos gerir a dívida de maneira comum, precisamos também de um Parlamento da zona do euro que tome decisões a este respeito, entre outras coisas, sobre o nível de déficit comum. Isto é o que faltou até agora nas proposições de reorientação da construção europeia que Hollande esboçou na França, e do que também se falou na Espanha e na Itália. Finalmente, isso não se traduziu em uma proposta concreta de união política e, ao mesmo tempo, orçamentária. Ambas são coisas necessárias.

Você fala em reformar o desenho institucional da zona do euro. Que diferenças haveria entre o atual Parlamento Europeu e esse Parlamento orçamentário a que você se refere na última parte de seu livro?

Atualmente, temos um Parlamento Europeu em que estão representados 28 países e, por outro lado, o Conselho Europeu de Chefes de Estado ou de Governo e o Conselho de Assuntos Econômicos e Financeiros (integrados pelos ministros de Economia e Finanças). São vários os problemas desta arquitetura democrática. O primeiro é que nem todos os 28 países representados no Parlamento Europeu querem avançar rumo a uma maior integração política, fiscal e orçamentária. O segundo, que o Parlamento Europeu não representa absolutamente as instituições dos Estado-nação e, concretamente, os parlamentos nacionais.

Por isso, acredito que faz falta, paralelamente ao atual Parlamento Europeu, uma câmara parlamentar da zona do euro ou, em todo caso, uma câmara formada pelos países da zona do euro que queiram avançar em direção a uma união política, orçamentária e fiscal, e que teria que se construir a partir dos diferentes parlamentos nacionais. Cada país estaria representado proporcionalmente à sua população, nem mais, nem menos. O mesmo para Alemanha e França e os demais. A atribuição desta nova Câmara consistiria em votar questões como um imposto comum sobre sociedade ou o nível de déficit comunitário.

Não são poucos os que pensam que, em vez de mais integração, o razoável seria retomar as moedas nacionais.

Não, para mim não é a boa solução. Agora, sem propostas alternativas rápidas, acredito que o retorno às moedas nacionais será um cenário cada vez mais difícil de descartar. Concretamente, a única resposta dada na França aos que querem sair do euro consiste em dizer que é impossível, que está proibido, que agora que entramos não se pode retroceder... Esta resposta é extraordinariamente fraca e não vai durar muito tempo mais.

A saída da crise está em avançar na união dos países da zona do euro. De certa forma, a pior das situações é a atual, porque perdemos a possibilidade de desvalorizar a moeda, perdemos a soberania monetária nacional, em troca teríamos que ganhar novas formas de soberania fiscal e orçamentária, maior capacidade para arrecadar imposta de maneira mais justa, mais capacidade de resistência para proteger frente ao risco de especulação sobre os tipos de juros da dívida pública. Até agora, França e Alemanha ganharam neste jogo, mas a única alternativa para a saída do euro é uma união da dívida, uma união fiscal. Se não nos apressarmos, acredito que as forças políticas a favor da saída do euro vão ganhar a partida.

O que se pode esperar da França na construção desta nova arquitetura institucional Europeia, exatamente agora em que a extrema direita lidera as pesquisas? A Europa deve se preocupar?

É preciso se preocupar, absolutamente. Não acredito que a Frente Nacional chegará ao poder no Eliseu ou à presidência da República, mas pode conseguir a presidência de várias regiões. No próximo ano, há eleições regionais, e dado o modo de distribuição das cadeiras, é perfeitamente possível que duas ou três regionais, ou até mais, caiam do lado da Frente Nacional.

Em um sistema eleitoral como o das eleições presidenciais, estamos acostumados que a Frente Nacional perca, inclusive se for o partido mais votado do primeiro turno. Entretanto, nas regionais, o partido mais votado obtém uma parte equivalente a um quarto das cadeiras (o resto se divide de maneira proporcional). Se a Frente Nacional conseguir 30% ou 35% dos votos em uma região, a direita 25% e a esquerda 20%, por exemplo, a parte do partido mais votado faz com que a Frente Nacional aspire ter maioria absoluta nessa região.

Será um choque enorme na Europa. Até agora, a Frente Nacional ganhou somente em algumas cidades pequenas, mas se regiões inteiras passarem a ser governadas pela extrema direita, a história será outra. Não vai ser uma piada. Vão criar tensões em algumas regiões do país e o resultado pode ser extremamente violento.

Até esse ponto?

Estamos de fato à beira do abismo de uma crise política, econômica e financeira. A crise é responsabilidade de todos os países, mas não entendo como a Alemanha continua pensando que tem interesse em manter esta visão tão rígida da austeridade... Afinal de contas, nem sequer lá o crescimento é elevado. Que consta que a responsabilidade também é da França, por não fazermos verdadeiras propostas progressivas e de refundação democrática da Europa. E continuamos esperando propostas da Espanha e da Itália. Em todo caso, acredito que a situação seja grave e que as eleições regionais na França no próximo ano serão um choque.

 
Muitos eleitores se incomodam porque interpretam seu livro como a evidência de um futuro com menor crescimento e pior distribuição da riqueza. Há argumentos para o otimismo?

Claro que sim. Essa é minha maneira de ser. Sinto muito se alguns chegam a conclusões pessimistas após a leitura do livro! Eu acredito no progresso social, econômico e democrático e no crescimento. Mas é preciso se acostumar a viver com crescimento menor. Insisto em que um crescimento mais fraco, se mantido no tempo, é compatível com o progresso. Há trinta anos, não dispúnhamos das atuais tecnologias da informação, por exemplo. Se nos organizarmos bem, nos dotarmos das instituições adequadas para que todo mundo possa se beneficiar, essas tecnologias serão uma enorme fonte de riquezas.


Acredito no progresso técnico e na mundialização, e o livro não é pessimista em relação ao futuro. Simplesmente, para que estas coisas beneficiem a todos, fazem falta instituições democráticas, sociais, educativas, fiscais e financeiras que funcionam corretamente. O problema é que, depois da queda do Muro de Berlim, nós imaginamos, por um momento, que era suficiente se basear nas forças naturais do mercado para que o processo de globalização e de competitividade beneficiasse a todos. Acredito que o erro esteja aí. É preciso repensar os limites do mercado, do capitalismo, e repensar também as instituições democráticas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

OMS: mais de 30% das mulheres são vítimas de violência do parceiro

Dado consta do estudo publicado na revista especializada The Lancet; documento mostra também que 7% das mulheres vão sofrer violência sexual de um não-parceiro em suas vidas.
Foto: ONU/Martine Perret














Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.

A Organização Mundial da Saúde, OMS, alertou esta sexta-feira que uma em cada 3 mulheres no mundo é vítima de violência física ou sexual cometida pelo seu parceiro, marido ou namorado.
O dado consta do estudo publicado na revista especializada The Lancet e que foi preparado em conjunto por especialistas da OMS, da Escola de Higiene e de Medicina Tropical de Londres e da Universidade George Washington, nos Estados Unidos.
Esforços Inadequados
O documento diz ainda que 7% das mulheres vão sofrer violência sexual em algum momento de suas vidas. Os esforços atuais para evitar a violência contra mulheres e meninas são inadequados.
As especialistas afirmaram que apesar do aumento da atenção global para o problema e os recentes avanços sobre como atacar esses abusos, os níveis de violência contra as mulheres continuam "inaceitavelmente altos".
O estudo cita casos de estupro, mutilação genital, tráfico e casamentos forçados com sérias consequências para a saúde física e mental das vítimas. Os conflitos armados e outras crises humanitárias podem piorar ainda mais essa violência.
Mutilação Genital
Segundo a OMS, entre 100 e 140 milhões de meninas e mulheres sofreram mutilação genital no mundo. Somente na África, mais de 3 milhões de meninas estão sob o risco dessa prática todos os anos.
O estudo mostra também que 70 milhões de meninas no mundo inteiro casaram antes de completar os 18 anos e muitas contra vontade.
As especialistas afirmaram que não estão sendo feitos esforços suficientes para evitar que a violência contra mulheres e crianças ocorra.
Ações
Elas dizem que apesar dos recursos de apoio terem aumentado, como por exemplo acesso à justiça e serviços de emergência, são necessárias cinco ações básicas para combater o problema.
O estudo explica que os governos devem lidar com a violência contra mulheres como uma prioridade. As autoridades devem combater as estruturas de discriminação em leis e políticas que perpetuam a desigualdade entre homens e mulheres e fomentam a violência.
Além disso, os governos devem investir em programas para promover a igualdade, o comportamento não violento e sem estigma de apoio às vítimas.
Outro ponto importante é o fortalecimento dos setores de saúde, segurança, educação e justiça, como também apoiar pesquisas e programas para compreender quais intervenções são eficazes.
Para as especialistas, o trabalho com os responsáveis pela violência, homens e meninos, e as vítimas, mulheres e meninas, será essencial para alcançar uma mudança duradoura na sociedade.

FAO: 37 milhões de pessoas ainda vivem com fome na América Latina e Caribe

Buscando soluções para os desafios da má nutrição, governos e representantes da região participam da Segunda Conferência Mundial sobre Nutrição, que começa nesta quarta-feira (19) em Roma.

A reportagem foi originalmente publicada pela ONU Brasil, 19-11-2014

Buscando soluções conjuntas para lidar com os desafios da má nutrição na América Latina e no Caribe, governos e representantes da região participarão da Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, que começa nesta quarta-feira (19), na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO) em Roma, na Itália.

A conferência intergovernamental de alto nível, que contará com a participação do ministro da Saúde do Brasil, Arthur Chioro, visa a centrar a atenção na má nutrição em todas as suas formas: subalimentação, deficiências de micronutrientes, sobrepeso e obesidade. Este será o primeiro fórum mundial que aborda estes problemas no século 21.

“A região da América Latina e Caribe foi a única região do mundo que alcançou antecipadamente a meta de combate à fome dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, fruto do compromisso político regional, e é importante que os países compartilhem suas experiências com o mundo para enfrentar os desafios de nutrição do século 21”, disse a representante regional adjunta da FAO para a América Latina e Caribe, Eve Crowley.
Durante a conferência, os países adotarão dois documentos importantes para firmar seu compromisso contra a má nutrição: a Declaração de Roma sobre a Nutrição e o Marco de Ação.

A dupla carga da má nutrição na América Latina e no Caribe

Segundo a FAO, ainda que a região seja considerada como um exemplo para o resto do mundo por adotar de forma pioneira a Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome 2025, a fome ainda afeta a 37 milhões de pessoas na região, enquanto 7,1 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crônica.

A anemia por deficiência de ferro constitui o problema nutricional mais relevante, afetando 44,5% das crianças e 22,5% das mulheres em idade fértil.

A obesidade afeta 23% dos adultos da América Latina e Caribe, enquanto que 3,8 milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de sobrepeso. No Brasil, país que deixou o mapa da fome da FAO, mais da metade da população é obesa, segundo a agência da ONU.

Boaventura de Sousa Santos: "No mundo, a democracia está à beira do caos"

La Republica
17 Oct 2014
José Carlos Díaz Zanelli


O governo de Humala lhe parece de esquerda, direita ou tem alguma outra definição?
É uma grande decepção. Eu me lembro quando se estava preparando este candidato e havia uma excitação nos movimentos sociais que poderiam encontrar um amigo na presidência. Como era Lula no Brasil, onde havia uma grande expectativa de inclusão. O que, como se observa, é que nenhuma expectativa foi realizada.

Disse-o  por Cajamarca?
Falo de Cajamarca e toda a exploração dos recursos naturais. Tem-se uma legislação paralisada. E eu quero dizer para a Aliança do Pacífico. Esta é uma tentativa de neutralizar outro tipo de regionalização nais pós-neoliberal em relação ao que está acontecendo em outros países. Refiro-me ao Brasil, Argentina, Bolívia e Equador.

Pode-se conceber um governo de esquerda com uma política extrativista? Ou são divorciados, por si só?
Este é o dilema. Você vê o extrativista apoiado por governos conservadores e progressistas. Sabemos que o ciclo de crescimento dos recursos naturais não dura mais de 10 anos. O que acontece no continente é que o modelo extrativista coloniza governos conservadores e progressistas, como Colômbia e Brasil.

Lima vai sediar a COP 20 no próximo mês, lhe gera expectativas?
Não.

Por quê?
Porque há uma colonização completa destes processos transnacionais das Nações Unidas. Vimos na Rio + 20, que foi uma grande prova que as transnacionais estão interessadas em relaxar a proteção ambiental. Elas desacreditam os estudos de impacto ambiental. Por exemplo, no Equador o presidente Correa teve de ceder à reserva de Yasuní.

Parece que isso de "ceder" é replicado em vários governos. Mesmo aqueles que entram com uma retórica de "inclusão". Vem-lhe à  mente algum que não conseguiu "ceder"?
(Silêncio). Governos, cedidos ou não depende da resistência popular. Não é o governo que toma a iniciativa de sucesso. As empresas que operam aqui, são os mesmos que operam no Canadá. Mas lá aceitam as regras que não querem aceitar aqui.

Não precisamos de mais leis?
Devemos fortalecer o Estado.

Como podemos fazer isso se temos um ministro que quer desaparecer os EIA em exploração sísmica?
O Peru nesse aspecto está se tornando uma caricatura do que temos no continente. A Fraqueza do Estado aparece quando os estudos ambientais são feitos pelas as próprias empresas.

Pode-se alar sobre  que n América Latina há  um bloco consolidado de governos de esquerda? Porque desde a criação da Unasul tem havido  mais divergências e conflitos que qualquer outra coisa.

Não há um bloco consolidado, mas há uma tradição. Mariátegui foi o primeiro a mencionar que o pecado original da América Latina estava em ser levantada sem índio e contra índio. Mas ele é uma exceção total, inclusive  dentro da esquerda. A esquerda em si é muito racista.

Além das eleições, você acha que a democracia está enraizada na América Latina?
Democracia do mundo está à beira do caos.

Você acha que há democracia na Venezuela?
Essa pergunta é um pouco ...

Vale perguntá-lo?
Absolutamente. Obviamente eu digo que é uma democracia. Maduro foi eleito democraticamente.

E o seu governo tem práticas democráticas?
Eu não tenho nenhuma razão para aplicar à Venezuela um critério mais difícil que outros países. Sabemos que o imperialismo norte-americano não gosta da Venezuela e que desestabilizou-a. Mas é uma democracia, de baixa intensidada, talvez.

Sendo tanto à esquerda, não se vê o mesmo nível de tolerância entre maduro e José Mujica, por exemplo.
Eles são totalmente diferentes. Na Venezuela, veio de um líder carismático.

É a falta de carisma o principal defeito de Maduro?
Chávez estava completando um processo que precisava ficar um pouco mais. Não para sempre, mas o carisma de Chávez era importante.

Qual a importância da democracia para a rotação de poder?
A rotação é extremamente importante. Há muitas coisas que precisam mudar para a democracia. Um deles é o financiamento privado dos partidos políticos. Em muitos países, está destruindo a política.

Será que o governo deveria fazer?
Absolutamente. Esse deve ser o custo da democracia.

Como podemos fazer isso no Peru, se temos 18 partidos nacionais e centenas de movimentos regionais e locais?

Deve-se encontrar uma maneira de evitar a fragmentação. Isso pode acabar beneficiando grandes jogos. Deve-se criar e consolidar maiorias ideologicamente coerentes. Por exemplo, no Brasil, hoje o PT (Partido dos Trabalhadores) está aliado com os partidos conservadores.

Quão importante é para um país uma anti-truste? Isso coloca um limite de monopólios e oligopólios.

É muito importante e o primeiro país que o identificou foi os Estados Unidos. Mas houve tentativas recentes no Equador com a regulação da comunicação, como na Argentina. Há uma crise total destes lobbies políticos, porque houve monopólios que destruíram as possibilidades de defesa da concorrência.

Brasil, China, Índia, África do Sul e Rússia criaram uma alternativa ao Banco Mundial (New -NBD- Banco Nacional de Desenvolvimento). Que expectativas lhes gera isso?
Eu tenho alguma esperança. Não é uma iniciativa para mudar o modelo, mas tem uma virtude. É uma resposta ao declínio do capitalismo ocidental. Até agora, os eixos dominantes têm sido os Estados Unidos e Europa. Ambos estão em declínio acentuado. Eles estão muito preocupados com este NBD, porque isso poderia ter enormes implicações para o dólar. Isso ocorre porque o negócio entre estes países podem ser expressos nas moedas nacionais.

Você quer dizer que o dólar, que há predominado desde os Acordos de Bretton Woods (1944), poderia descer?

Exatamente. O dólar vai deixar de ser a moeda de reserva internacional. Digo-vos que a crise na Europa é uma força do dólar para o euro. A China decidiu colocar suas reservas em euros, Saddam Hussein fez o mesmo com suas reservas de petróleo. Isso é uma grande ameaça para EUA

O que gera reflexão existirá no Peru faculdades com fins lucrativos? Ou seja, aquelas com a pensão de seus alunos.

É uma desgraça na minha opinião. Isso é herança de governos conservadores, Fujimori estava aqui; Henrique Cardoso no Brasil, Pinochet fez em condições de ditadura. Eles queriam desacreditar a universidade pública. Eles procuraram transformar a educação em um negócio.

É sustentável é a universidade pública e gratuita?
Assim deve ser. É sustentável porque os governos dizem que não há dinheiro, mas, por exemplo, no Brasil havia dinheiro para a Copa do Mundo. Houve um estádio em Manaus, onde o time de futebol não levava mais de 800 pessoas, mas eles fizeram um para milhares. Isto é, há dinheiro para uma coisa e não para outra.


Boaventura de Sousa Santos. Doutor em Sociologia na Universidade de Yale. Especialista em direitos humanos e democracia. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

É livre o Tratado de "livre comércio" entre os EUA e a UE?

Artigo publicado por Vicenç Navarro na coluna “Dominio Público” no diário PÚBLICO da Espanha

Este artigo analisa criticamente as propostas do chamado Tratado de Livre Comércio entre EUA e a União Europeia.

Uma das áreas da macroeconomia onde a linguagem mais contradiz as realidades que tenta definir o que é chamado de livre comércio (no qual a proposta de Acordo de Livre Comércio entre os EUA e a UE está incluído). Como em todos os acordos de livre comércio, este tratado é apontado por seus defensores como um tratado que tenta liberalizar o comércio, eliminando as barreiras que dificultam o comércio. Os principais promotores desses acordos são as grandes corporações transnacionais, incorretamente identificadas como multinacionais.

A primeira coisa a esclarecer é que esses acordos de livre comércio têm muito pouco. A situação atual em ambos os lados do Atlântico Norte já permite a livre circulação do comércio, tendo os impostos e deveres que costumavam impedir a livre circulação de bens e serviços praticamente desaparecido. Na verdade, esses tratados têm pouco a ver com a facilitação do comércio livre. O que realmente está por trás desses tratados é proteger os interesses dessas empresas frente  a regulamentos que determinam a tentam proteger os seus cidadãos contra práticas desleais e prejudiciais para a população, afetando a saúde e o bem-estar dos cidadãos, bem como trabalhadores, consumidores ou indivíduos que possam estar sujeitos a crimes ambientais. Assim, um elemento-chave destes acordos tem sido reduzir essas intervenções públicas que existem para defender os cidadãos dos países, e estabelecer tribunais que têm maior autoridade e responsabilidade jurídica que os tribunais de cada Estado. Seu objetivo é, portanto, desenvolver sistemas jurídicos paralelos e com mais poder do que os tribunais nacionais. Assim, quando o governo de um Estado assina um tratado cede soberania a uma autoridade superior. As decisões dos tribunais tornam-se secundárias para um tribunal superior, o Tribunal que estabelece tal Tratado, sempre bem conhecido por suas simpatias com tais transnacionais.

É interessante notar que, como regra geral, os partidos  que mais favorecem estes tratados são conservadores e liberais (direita) que sempre se definem como a maioria das forças "patrióticas", com o qual quase sempre cedem a soberania de seus Estados para corporações transnacionais. O caso espanhol (incluindo o catalão) é um exemplo claro.

Reprodução de práticas monopolistas

Um exemplo claro disso é o que está acontecendo com a indústria farmacêutica altamente monopolizada. A indústria claramente na defensiva nestes dias de crise (causada em parte pelo Ebola, por nunca dar qualquer prioridade ao desenvolvimento de uma vacina contra esta doença), que pretende manter a prestação de monopólios consistentes, permitindo a empresa Gilead Sciences vender seu medicamento para a hepatite C por $ 84.000 (€ 67.000) nos EUA, quando esta droga pode ser alcançada por muito, mas muito mais baixo em outro país (US $ 900, € 700). Parece lógico que um FTA produtores da mesma droga, mas a um preço mais baixo poderia vendê-lo no país onde o preço é muito, muito, muito mais. Bem, a situação é exatamente o oposto. Ele protege as empresas farmacêuticas que vendem a um preço muito mais alto, mantendo seu monopólio no mercado. E chamam isso de livre mercado.

Na verdade, esses TLCs protegem descaradamente empresas que vendem em diversos países,  é por isso que elas são chamados de multinacionais. No entanto, este termo parece indicar que elas são propriedade de um certo número de países, o que não são. As transnacionais são baseadas em um país, através do estado em que se baseiam (tipicamente, um país de economia mais avançada) exercem o seu poder sobre o comércio internacional. E tem a proteção do tribunal que rege todos os acordos de comércio livre em seu benefício. Portanto, não acompanha os acordos de livre comércio sempre têm cláusulas que enfraquecem o trabalho, padrões ambientais e sociais do países signatários do tratado. Legislação que tem sido aprovada pelos parlamentos nacionais resultado da pressão das forças de trabalho, tais como sindicatos ou práticas políticas progressistas e/ou verde, são negligenciados na medida em que limita o poder das corporações transnacionais. E isso, repito, chamado de livre comércio.

Na Europa, este Tratado de Livre Comércio é também uma ameaça aos serviços públicos, tais como o Serviço Nacional de Saúde, que podem considerar que esses serviços violam o livre comércio de serviços, forçando a privatização de tais serviços. Esta tem sido uma das razões que os proponentes do Serviço Nacional de Saúde na Grã-Bretanha denunciaram o tratado. As empresas transnacionais estão plenamente conscientes de que suas ações podem ser impopulares, o que explica a falta de transparência e opacidade dos preparativos para tal tratado. Daí a necessidade urgente de ter uma população informada que possa conter esse tipo de comportamento dos países em questão e na observância do Tratado. Infelizmente, os grandes meios de comunicação e persuasão não têm feito relatórios sobre os preparativos para tal tratado, em parte por causa da grande influência exercida em tais instituições políticas e de mídia transnacionais dos países. E isso, que eles chamam de liberdade de imprensa. É característica do discurso dominante a narrativa em que a palavra liberdade é sempre usada para defender os interesses de uma minoria que dominam as instituições que são apresentadas como os primeiros democratas (política) e, como pluralista e livre, a segunda (a mídia). A liberdade é, portanto, a liberdade de defender seus interesses. Então, claro.

Zygmunt Bauman sobre a educação: Devemos ser constantemente atualizados


"A visão da educação balística, em que o conhecimento do professor é disparado diretamente na cabeça dos estudantes não funciona mais. Definir o que é importante é um desafio difícil, já que a empresa e as suas prioridades estão mudando constantemente. A resposta está em constante atualização (educação continuada) de professores e do sistema educativo "

baumanIsto, em última análise, é o que explica em Florença o sociólogo polonês que inventou o conceito de sociedade líquida, Zygmunt Bauman. "Os programas internacionais que promovem a educação transacional - acrescentou - podem ser o meio para acelerar o progresso em direção a uma sociedade cosmopolita com base na troca e partilha, uma sociedade em que há uma melhor compreensão de onde se está vivendo em uma fusão de horizontes". Bauman deu uma palestra sobre o tema da educação na era da globalização, parte de uma iniciativa organizada em colaboração com a Universidade de Florença.

Em um ponto, o sociólogo disse: "O papel do professor era para orientar a jovens estudantes o caminho a percorrer, e aprender o que fazer. Isso não funciona mais nos tempos modernos. Os esforços do setor da educação aparecem muitas vezes desnecessários para responder à sociedade contemporânea. Todos nós somos viciados em computadores e informações. Por exemplo, tem mais informações em um exemplar do New York Times do que em todos os tipos de professores e filósofos do mundo. O mecanismo de busca do Google fornece bilhões de resultados e informações. Somos inundados com informações que muitas vezes é distribuído sob a forma de "entretenimento" 24 horas por dia, 7 dias por semana, somos bombardeados com informações.

De acordo com Bauman, o problema da educação hoje "é a seleção de informações relevantes, aquelas que podem dissipar a "névoa" de informações verdadeiras e escolher o que é necessário para interpretar a nossa sociedade."

"Nesse sentido, se antes de os professores tiveram um papel de "guardiões" por a sua autoridade, permitiam a seleção de informações, agora encontram-se tendo que lidar com uma nova situação em relação à transmissão do conhecimento, que é chamado de "poder brando" [1] ou o poder de entretenimento, mídia e mídia social, concorrentes dos professores. Os professores perderam o seu papel de "guardiões" da base de autoridade, deve procurar em outra parte. O equilíbrio - concluiu ele - tornou-se muito fino e sistemas tradicionais de educação têm chegado ao fim

[1] O poder suave, o soft power em Inglês, é um termo utilizado nas relações internacionais para descrever a capacidade de um ator político, como um Estado, para influenciar as ações ou interesses de outros atores que utilizam meios culturais e ideológicos, complementada por meios diplomáticos. fonte Wikipedia

Traduzido por James Teal para o espanhol para Ssociólogos de firenze.repubblica.it. Tradução para o português Blog A CRÍTICA

"Ganância é obstáculo na luta contra a fome", afirma Papa Francisco

Aos governos, Papa pede que políticas levem em connta o "sujeito real", aquele que realmente sofre com os efeitos da desnutrição; líder da Igreja Católica discursou na Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, em Roma.
Leda Letra, enviada especial da Rádio ONU a Roma.
Papa Francisco. Foto: FAO.














O líder da Igreja Católica foi recebido por uma centena de pessoas ao chegar à sede da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, esta quinta-feira.
O Papa Francisco era a personalidade mais esperada por representantes de mais de 170 países, que participam da Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição em Roma, na Itália.
Obstáculos
Ao discursar, o Papa afirmou que "dói constatar que a luta contra a fome e a desnutrição tem como obstáculo a prioridade dos mercados e a preeminência da ganância, que reduziram os alimentos a uma mercadoria qualquer".
O Papa Francisco foi aplaudido ao chamar a atenção para "o faminto que está na esquina de uma rua, a pedir que seja considerado em sua condição e receba uma alimentação saudável". Segundo o Papa, o faminto "quer dignidade e não esmola".
Pressões Inaceitáveis
Na conferência internacional, os ministros assinaram um plano de ação para acabar com todas as formas da malnutrição. O líder da Igreja Católica fez um apelo aos governos, para que ao criar políticas, se preocupem com o "sujeito real", aquele que sofre de fome e de desnutrição.
Para o Papa Francisco, qualquer forma de pressão política ou econômica que prejudique a disponibilidade de alimentos é inaceitável. O pontífice terminou seu discurso dizendo que "Deus sempre perdoa as ofensas e os maus tratos, o homem pode perdoar ás vezes, mas a Mãe Terra não perdoa nunca". Por isso, o Papa Francisco pediu que todos cuidem bem do planeta e evitem a destruição de seus recursos naturais.

A Culpa é do Brasil! E o que é o Brasil?

Viram a frase do advogado Mario de Oliveira dizendo que propina no Brasil é tão comum quanto a chuva cair do céu: "Se o empresário não fizer, não saem obras no país".

Esse tipo de defesa é tão comum quanto a afirmativa do advogado, sabendo que fez o delito o sujeito apela para comparações com os demais, se eles fazem posso fazer também, é o princípio pelo qual aquilo que é feito de forma rotineira, mesmo que criminoso, se torna "legal". Há uma comparação disso com os costumes, só que aqui não se trata de costume que se queira tornar lei positiva, e sim uma mera forma de driblar as leis, todos sabem que se trata de prática criminosa, a tentativa é trapacear mesmo, por isso não serve o argumento.

Relativiza a corrupção, portanto, para que se pense em tornar repugnante esse tipo de conduta não se pode ceder a esse tipo de argumento, é preciso que se diga: aos que fizeram serão comparáveis no mesmo patamar da irregularidade. Aí você relativiza pelo avesso e passa a dizer: qualquer um que fizer tal conduta é passível de ser punido.

Sempre que se mostra para alguém no Brasil que uma conduta é qualificada como corrupta ele dirá que isso é feito por todos e em todos  os lugares, se eu não fizer estarei sendo um Mané. Ninguém toma a iniciativa de cortar por que quer, simplesmente, fazer o que os outros fazem e se assim não proceder fica para trás.

"No Brasil é assim mesmo", a culpa é do Brasil que é um negócio longe e sem futuro, e não eu, que apenas faço o que todos fazem.

Há tanto democratas

A impressão que teve George Orwell para que comparasse os homens na política com animais pode ser vista hoje nas figuras de um "marxista ortodoxo" e um "Olavista democrata"; o programa CQC na cobertura humorística (as mais sinceras na política) dos protestos "democráticos" pela intervenção militar em São Paulo demonstrou como a leitura preventiva do Mínimo que Você Precisa para não ser um Idiota pode ser idiotizante.

Uma leitura preventiva, título bombástica, o caba dá só nas canelas dos comunas, como se houvesse algum livro da verdade; mas o sujeito prevenido se torna defensor da democracia sem saber quem é o vice-presidente da República.

O que tem a ver com isso? Tudo ou nada, ou nada e querer ter tudo, posso inventar qualquer coisa, a cabeça é mais frágil do que se possa imaginar, e representar demônios, então qualquer comentário porta a certeza, esse é o idiota.

A prevenção da idiotice pode causar idiotice, esse efeito bumerangue acompanha a humanidade desde sempre; o maior erro é pensar que se sabe demais ,tudo muda, o universo está em expansão.

A brincadeirinha de defender democracia sem qualquer responsabilidade, sem analisar a história, certamente, é o prenúncio de loucuras, o que supera a idiotice.

As semelhanças às quais nos referíamos na primeira linha são robustas, pelo rajado, focinho rosado, cascos dúplices, etc.