"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

“Mude-se o sistema, não o clima!”

Declaração da Rede Internacional Ecossocialista a propósito da COP20, a conferência intergovernamental sobre alterações climáticas que se realiza no próximo mês em Lima, no Peru.

A luta para manter fora das garras das petrolíferas o Parque Yasuní, no Equador, tem motivado protestos contra Rafael Correa. Imagem Telly Gacitua/Flickr










A crise climática iminente com que hoje somos confrontados é uma grave ameaça à preservação da vida no planeta. Muitos trabalhos acadêmicos e políticos confirmaram a fragilidade da vida na terra ante a mudança de temperatura. Basta uns poucos graus para que seja causada - e já está a ser causada - uma catástrofe climática com consequências incalculáveis. O derretimento do gelo, a contaminação da atmosfera, a subida dos níveis de água do mar, a desertificação e a intensidade crescente dos fenômenos meteorológicos são todos a prova disso.
Agora é importante perguntarmo-nos quem e o que está a por detrás destas alterações do clima. Precisamos com urgência de desmascarar as respostas abstratas, que procuram culpar toda a humanidade. Essas respostas abstratas desligam a situação atual das dinâmicas históricas que emergiram da industrialização assente nos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), que provoca aquecimento global, e a lógica do capitalismo, que assenta na apropriação privada da riqueza e na conquista do lucro. O lucro à custa da exploração social e da devastação ecológica: estas são duas caras do mesmo sistema, que é o culpado da catástrofe climática.
Neste panorama, a Conferência das Partes (COP), organizada por vários governos e financiada pelas grandes empresas, confirma a responsabilidade do capitalismo pela crise climática, promovendo acontecimentos  vazios sem quaisquer resoluções eficazes ou capazes de resolver o problema. De facto, estamos a andar para trás, um recuo bem expresso nos ridículos “fundos verdes” que lucram abertamente com a poluição. Infelizmente, esta dinâmica é aprofundada através das atitudes apoiadas por muitos governos - facilitando a poluição e colocando os lucros das empresas acima do bem-estar das pessoas. Isto pode ser visto mais claramente nos países do Sul, e é por isso fundamental entender que a dinâmica deste sistema tende a atirar o fardo da crise ecológica global para cima dos ombros dos oprimidos e explorados da terra.
É vital sublinharmos a importância das diversas lutas sociais e ecológicas por todo o mundo, que propõem parar as alterações climáticas e a crise ecológica através da lógica da solidariedade. É importante ter em conta que muitos destes processos são lançados e liderados por mulheres. Sem dúvida, o cenário da América Latina serve de exemplo a esta mistura de resistência, auto-organização e processos de transformação, baseados em projetos que podem unir novas propostas e cosmovisões ancestrais. Podemos encontrar um exemplo nas lutas corajosas dos povos indígenas e camponeses do Peru, em especial a sua resistência ao megaprojeto mineiro Conga. Também é útil focar a nossa atenção na experiência do Parque Yasuni, que foi iniciativa dos movimentos indígenas e ecologistas para proteger uma grande região da floresta amazônica da exploração petrolífera, em troca de pagamentos dos países ricos ao povo equatoriano. O governo de Rafael Correa aceitou a proposta há vários anos, mas decidiu recentemente abrir o parque às multinacionais do petróleo, provocando enormes protestos. Outro caso é o dos projetos de desenvolvimento que o governo brasileiro tem procurado implementar, e que ameaçam destruir uma boa parte da Amazónia.  
Deste ponto de vista, há muito pouca esperança na COP20 no próximo mês de dezembro em Lima, Peru. Se há alguma porta de saída para as alterações climáticas e a crise ecológica global, ela irá surgir do poder da luta e da organização dos povos explorados e oprimidos, tendo em consideração que a luta por um mundo sem devastação ecológica deve ligar-se à luta por uma sociedade sem opressão ou exploração. Esta mudança deve começar agora, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização; uma nova sociedade em harmonia com a natureza. Esta é a proposta central do ecosocialismo, uma alternativa à nossa atual catástrofe ecológica.
Mude-se o sistema, não o clima!
Assinam:
Argentina: Manuel Ludueña, Paulo Bergel.

Bélgica: Christine Vanden Daelen, Daniel Tanuro.
Brasil: Joao Alfredo de Telles Melo, Marcos Barbosa, José Corrêa, Isabel Loureiro, Renato Roseno, Renato Cinco, Henrique Vieira, Flávio Serafini, Alexandre Araújo, Carlos Bittencourt, Renato Gomes.
Canadá: Jonatas Durand Folco (Quebec), Terisa Turner.
Espanha: Esther Vivas (Cataluña), Jaime Pastor, Justa Montero, Mariano Alfonso, Teresa Rodriguez, Manuel Gari, Jorge Riechmann, Joaquin Vega.
Estados Unidos: Ariel Salleh, Capitalism, Nature and Socialism (Revue, USA), Joel Kovel, Leigh Brownhill, Qunicy Saul , Salvatore Engel Di Mauro, Terran Giacomini.
França: Christine Poupin, Dominique Cellier, Henrik Davi, Mathieu Agostini, Michel Bello, Michael Löwy, Vincent Gay. Laurent Garrouste, Sophie Ozanne
Grécia: Yorgos Mitralias, Panos Totsikas
México : Andrés Lund, Samuel González Contreras. José Efraín Cruz Marín
Noruega: Anders Ekeland.
Perú: Hugo Blanco.
País Basco: Iñigo Antepara, Josu Egireun, Mikel Casado, Sindicato ELA. Ainhara Plazaola.
Suíça: Juan Tortosa, Mirko Locatelli. Anna Spillmann, Félix Dalang


Publicado no portal Ecologist Horizons. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net

Queda na Taxa de Desmatamento na Amazônia: Uma boa notícia?

Taxa de desmatamento amazônico caiu quase 18% entre agosto de 2013 e julho de 2014. No entanto, redução não conseguiu compensar aumento no período anterior (29% em relação a 2012) e indícios apontam para aceleração do desmatamento nos últimos meses
 
OC, 28/11/2014
Bruno Toledo
 
















Na última quarta (26/11), o governo federal anunciou os dados do Programa de Monitoramento da Amazônia por Satélites (PRODES) para o período de agosto de 2013 a julho de 2014. A despeito da grande expectativa de que a taxa de desmatamento amazônico continuasse em alta – conforme apontado pelos dados divulgados anteriormente do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER), do INPE, e do Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD), do Imazon – a notícia foi uma surpresa positiva: de acordo com o PRODES, o desmatamento da Amazônia caiu 17,7% em comparação com o mesmo período entre 2012 e 2013.
De acordo com o PRODES, foram desmatados 4.848 km² entre agosto de 2013 e julho de 2014, contra 5.891 km² no mesmo período anterior. Esta é a segunda menor taxa histórica de desmatamento, acima apenas daquela alcançada entre 2011 e 2012. Qualquer avanço na luta contra o desmatamento é louvável. No entanto, a boa notícia do governo precisa ser tomada com uma boa dose de cautela e, principalmente, com um olhar sobre o que ocorre na Amazônia neste exato momento.
Primeiro, a redução recente no desmatamento não conseguiu compensar o aumento de 29% na taxa de desmatamento entre 2012 e 2013. Continuamos bem acima da menor taxa histórica de desmatamento, obtida entre 2011 e 2012 (4,571 km²). E perder quase 5 mil km2 de florestas só na Amazônia não deve ser motivo de júbilo para qualquer governo.
Segundo, as informações sobre desmatamento do DETER referentes a agosto, setembro e outubro passados continuam desconhecidas. Isso causou bastante alvoroço durante a campanha eleitoral passada, o que levou a então candidata à reeleição, presidente Dilma Rousseff, a antecipar, ainda que em linhas gerais, os resultados do PRODES. Sem os dados do DETER, ferramenta fundamental para diagnóstico rápido de zonas desmatadas, não temos informações oficiais sobre desmatamento a partir de agosto passado, não contidos nas últimas análises do PRODES. 
Mesmo assim, o Imazon, através de seu Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) já mostrou que temos motivo para preocupação atual: o desmatamento teria aumentado 226% no período agosto-outubro de 2014 em comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados do SAD relativos à degradação florestal apontam para outra explosão no mês passado, com um crescimento de 1.070% sobre o mesmo mês em 2013.
O jornal Folha de São Paulo divulgou no último dia 08 que o desmatamento na Amazônia disparou nos meses que antecederam as eleições: 1.626 km² de floresta destruída, crescimento de 122% com relação a agosto e setembro de 2013. 
Na semana passada, o Observatório do Clima divulgou os dados de seu Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), e que apontou um aumento de 7,8% das emissões totais de gases de efeito estufa do Brasil em 2013, em relação a 2012, o que foi muito influenciado pelas emissões associadas à mudança de uso da terra (que engloba desmatamento), que aumentaram 16,4% em 2013 com relação a 2012, reflexo do aumento do desmatamento apontado pelo PRODES entre 2012 e 2013. 
Ou seja, a boa notícia – redução de quase 18% no desmatamento amazônico entre 2013 e 2014 – já pode estar datada. De acordo com esses dados alternativos, podemos estar vivenciando mais uma estação destrutiva de desmatamento na Amazônia, que pode nos conduzir para um aumento na taxa no próximo ano e nas emissões de gases de efeito estufa decorrentes da destruição da floresta.
Isso nos leva a um ponto mais fundamental nessa discussão: como comemorar a destruição de “apenas” 4.848 km² de floresta nativa? Um ponto que o OC e outras organizações da sociedade civil tentaram levantar nas discussões eleitorais desse ano era a necessidade de pensarmos não apenas em reduzir o desmatamento, mas em zerá-lo efetivamente. Essa não é uma pauta irreal: até 2013, mais de 758 mil km² de floresta, cerca de 20% do bioma Amazônia, foram devastados. Qual é o limite “tolerável” para destruir a maior floresta tropical do planeta? 
No caso da Amazônia, reduzir danos já não é mais suficiente: como aponta estudo recente de Antonio Donato Nobre, a destruição definitiva da floresta pode ter consequências seríssimas para a América do Sul, particularmente o interior e o Sudeste brasileiros. Uma dessas consequências é a instabilidade nos regimes de chuva nessas regiões, algo que já está sendo vivido pelos paulistas nos últimos meses. 
Observando as taxas recentes de desmatamento, podemos concluir que atingimos um teto: sem vontade política, sem priorizar o desenvolvimento sustentável e a valorização em definitivo da floresta em pé, dificilmente conseguiremos maiores reduções das taxas de desmatamento. Para proteger, de fato, a floresta, precisamos de novos instrumentos de política pública, de um olhar estratégico sobre a floresta e de uma nova meta – o desmatamento zero.
Imagem: Alexandre Costa/Flickr (Creative Commons)

OIT: 24 cidades brasileiras têm quase 7 milhões de trabalhadores informais

Organização Internacional do Trabalho divulga novo sistema de indicadores sobre trabalho decente no Brasil; Macapá tem a menor taxa de formalidade do emprego, com 53,6%  e Vitória a maior, com 76,8%.
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.  
Foto: Banco Mundial














A Organização Internacional do Trabalho, OIT, divulgou esta sexta-feira um conjunto de dados sobre trabalho decente no Brasil. Os indicadores envolvem os mais de 5,5 mil municípios do país e foram baseados nos resultados do censo de 2010 e em informações do IBGE.
Segundo a OIT, o conceito de trabalho decente envolve oportunidades de emprego produtivo e de qualidade para homens e mulheres, em condições de liberdade, jornada e rendimentos adequados, segurança e conciliação entre trabalho e vida pessoal.
Integração
Em Brasília, a representante da OIT no país, Laís Abramo, falou sobre a importância dos dados.
"Nesta plataforma, poder relacionar quantas crianças estão no trabalho infantil, quantos jovens estão fora da escola e do trabalho, qual é o PIB per capita, qual é a taxa de pobreza e isso vai permitir uma análise bastante integrada. Consideramos que isto é um conhecimento muito importante para avançar o conhecimento no país sobre quais têm sido os progressos e as dificuldades na promoção do trabalho decente em cada uma dessas áreas e uma ferramenta para apoiar o processo das agendas estaduais, municipais e nacional."
Norte e Nordeste
Uma das principais evidências do novo sistema é que 24 municípios brasileiros concentram 6,8 millhões de trabalhadores em situação de informalidade, o correspondente a 20,5% do total nacional. A menor taxa de formalidade foi registrada em Macapá, com 53,6% e o maior índice de emprego formal está em Vitória, com 76,8%.
Entre as cidades que têm taxa de emprego informal acima de 50%, metade está na região Nordeste. Já os maiores índices de desocupação foram observados em Salvador, com 12,9% e Recife, com 12,5% e os menores índices em Curitiba, com 4,7% e Florianópolis, com 4,9%.
Trabalho Escravo
Cerca de 75% do rendimento domiciliar no Brasil é proveniente do trabalho. Outro destaque do relatório é que em 68 municípios, menos de 25% das trabalhadoras domésticas têm carteira assinada.
O trabalho forçado ou escravo foi verificado em 316 cidades, sendo que 62% delas não tinham programas de combate à prática. Já entre mais de 888 mil adolescentes de 15 anos que trabalhavam, apenas 2,7% eram aprendizes.
Em 2010, um em cada cinco jovens entre 15 e 24 anos de idade não trabalhava nem estudava, sendo que entre as mulheres nesta faixa etária, mais de 48% já eram mães.
A OIT considera ainda que incluir pessoas com deficiência no mercado de trabalho é um desafio no Brasil, já que 31,5% dos municípios não tinham nenhuma pessoa nesta condição trabalhando de maneira formal.

Brasil entre 13 países que vão receber prêmio da ONU pelo combate à fome

Progressos feitos pelo país, como a diminuição do número de famintos, serão reconhecidos ao lado de iniciativas da Etiópia, Irã, Malásia e México; cerimônia será na sede da FAO, em Roma, no próximo domingo.

Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 
Foto: Pnud














O Brasil é um dos países que já atingiu o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio de número 1: reduzir pela metade o número de pessoas famintas em seu território até 2015 e reduzir a pobreza extrema.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, o Brasil saiu do mapa da fome: atualmente, são 3,4 milhões de brasileiros que sofrem com a insegurança alimentar, ou seja, não recebem comida suficiente.
Reconhecimentos
Num relatório divulgado pela agência da ONU em setembro, é destacado que a pobreza extrema no país caiu de 14% para 3,5% entre 2001 e 2012 e o número de desnutridos diminuiu para menos de 5%.
Por esses avanços, o Brasil está entre 13 países que vão receber um prêmio da FAO, que está reconhecendo os progressos de combate à fome. A cerimônia será na sede da agência, em Roma, no domingo.
O diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, vai entregar o prêmio para a ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello. Além do Brasil, os outros países que vão ganhar o reconhecimento da agência são: Camarões, Etiópia, Filipinas, Gabão, Gâmbia, Ilhas Maurício, Irã, Kiribati, Malásia, Mauritânia, México e Uruguai.

Plantas adaptadas ao semiárido potiguar podem impulsionar produção de biodiesel, aponta estudo da UFRN

Por Luciano Galvão Filho - Agecom UFRN

Duas espécies de plantas bem adaptadas ao semiárido podem incrementar a produção de biodiesel no estado, segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em estudo conduzido em Apodi, na região Oeste, as culturas do cártamo e da faveleira têm mostrado potencial tanto para serem matérias-primas da extração de óleo, quanto para tornarem-se alternativa de renda para agricultores potiguares.
A ideia é encontrar um cultivo viável para áreas onde a agricultura tradicional enfrenta dificuldades em se estabelecer, devido ao solo empobrecido e ao clima severo da região. Ao mesmo tempo, o projeto quer somar novas variedades de vegetais às matrizes de biocombustíveis brasileiras, com duas novidades: serem espécies apropriadas à lavra no semiárido e que não competem com a plantação de alimentos.


Juliana Espada Lichston, coordenadora do trabalho e professora do Departamento de Botânica e Zoologia da UFRN, explica que as análises avaliam, em detalhes, desde o cultivo das espécies até a capacidade das sementes em serem usadas na produção de biodiesel. Entre outros pormenores, as investigações preocupam-se com fatores como o tempo que as plantas levam para crescer e dar frutos, as características que as tornam mais resistentes às condições extremas, os métodos ideais para armazenar as sementes e a qualidade do óleo extraído.



“Nossa intenção é levar os resultados encontrados para cooperativas, a princípio em Apodi, onde o projeto começou, mas depois para todo o estado”, projeta Juliana Lichston. “Assim conseguiremos alcançar o maior número possível de agricultores familiares, pequenos produtores que hoje desenvolvem outras culturas, algumas delas problemáticas”, afirma.



A pesquisa conta com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os recursos destinados ao projeto são de aproximadamente R$ 500 mil. No estudo, desenvolvido em parceria com o Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia (IFRN), o cártamo e a faveleira são cultivados em uma área de aproximadamente um hectare no município do Oeste Potiguar, onde encontram-se distribuídos em diferentes cenários: plantadas juntas ou separadamente, com ou sem irrigação.



Os dados coletados em campo são complementados com experimentos conduzidos em laboratórios da Universidade e comparados a relatos registrados na literatura científica especializada. Os primeiros resultados aferidos são considerados promissores pelos membros da pesquisa.

Juliana Lichston, coordenadora do trabalho, explica que análises avaliam capacidade das sementes em serem usadas na produção de biodiesel
“São duas espécies de grande potencial para o semiárido. A faveleira é nativa, é uma árvore, perene, que você cultiva, ela cresce e fica a vida toda. Já o cártamo, cultivado tradicionalmente no Sul do Brasil, responde às condições da região acelerando seu ciclo de vida, que passa a ser de dois meses e meio”, comenta Juliana Lichston. “Isso é excelente, porque o produtor consegue rapidamente ter as sementes para a venda ou para a produção de óleo”, avalia.


“Nosso objetivo é aliar as duas plantas, uma de ciclo rápido e uma perene, para ver o quanto elas podem render de fato para os produtores”, continua a coordenadora da iniciativa. “As duas espécies, tanto o cártamo quanto a faveleira, têm um teor altíssimo de óleo, e um óleo muito bom pra biodiesel”, analisa.



Atualmente a participação do cultivo de plantas voltadas à produção de biocombustível na economia do estado “é praticamente zero”, afirma Antônio Carlos Magalhães Alves, coordenador de Agropecuária da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Norte. Segundo o gestor, iniciativas em anos anteriores experimentaram as culturas da mamona e do girassol, mas fracassaram por fatores técnicos e econômicos.



Apesar do cenário pouco desenvolvido, Antônio Carlos acredita que há potencial para crescimento. “A demanda por oleaginosas é grande. Tanto que, hoje, a planta da Petrobras em Guamaré compra soja de outros estados para a extração de biodiesel”, relata.

Transdisciplinaridade


Além de preocupar-se com a aplicação dos estudos na agricultura familiar e na capacidade dos vegetais examinados transformarem-se em fonte de renda sólida para pequenos produtores, as análises desenvolvidas na UFRN também pretendem identificar as características das plantas que as tornam resistentes a condições rigorosas de solo e de clima, assim como entender de que forma elas conseguem produzir boas quantidades de óleo nessas ciscunstâncias.



João Paulo Matos Santos Lima, colaborador do projeto e professor do Departamento de Bioquímica da UFRN, explica que são verificadas sementes em fase inicial. Observam-se genes expressos que apresentem diferenças em relação às espécies atualmente exploradas comercialmente, como a soja e o milho, que possam significar maior resistência à seca, ao solo salino e à alta temperatura.



“A ideia é compreender o metabolismo”, diz João Paulo Lima. “Em etapas posteriores, bem posteriores mesmo, poderemos identificar o potencial desses genes serem inseridos em outras plantas e partir para outra estratégia, voltada à biotecnologia, como, por exemplo, produzir uma soja com melhor rendimento e menor necessidade de água. É um caminho muito longo, mas o pontapé inicial é esse que estamos dando”, comenta.



O pesquisador também avalia a longevidade das sementes em diferentes condições de armazenamento, aquelas normalmente utilizadas por pequenos agricultores. A análise verifica as consequências do envelhecimento das sementes no vigor para germinação e na quantidade de óleo disponível.



Marta Costa, professora do Instituto de Química da UFRN, participa do estudo e relaciona as caracetrísticas do plantio do cártamo e da faveleira com as características químicas do óleo extraído a partir de suas sementes. A quantidade de óleo presente nas plantas, o tempo de vida e a qualidade do combustível produzido são examinados pela cientista, que observou, no óleo retirado do cártamo, propriedades semelhantes às de outros vegetais. “O cártamo é adequado para comercialização, assim como a soja e o girassol, já consolidados no mercado para a produção de biodiesel. Ele é competitivo, com uma grande vantagem: é uma espécie que não concorre com a produção de alimentos”, pondera Marta Costa.

As análises da faveleira, por sua vez, encontram-se em fase inicial, com conclusão prevista para 2015. “Pela primeira vez, teremos resultados que correlacionem o cultivo na região com a qualidade do óleo, e isso é muito interessante”, afirma.
Outros benefícios


Além da viabilidade para cultivo em regiões quentes e secas, a faveleira também é capaz de recuperar nutrientes do solo de ambientes degradados, o que os torna, em parte, mais férteis. De acordo com Juliana Espada Lichston, esse foi um dos motivos que levaram à escolha da espécie para a pesquisa.

Pesquisa analisa a possibilidade do volume de gás carbônico capturado ser convertido em créditos de carbono, que podem agregar rentabilidade à produção


“O semiárido nordestino tem em torno de 60% a 65% de área em processo de desertificação. É uma questão ambiental delicada se pensarmos que há uma grande população que vive naquela região”, diz a cientista. “Plantas que melhorem esse processo, que consigam recuperar em parte esse solo, precisam ser estudadas”, analisa.



Outro aspecto investigado é a capacidade das culturas analisadas de remover gás carbônico da atmosfera, o que é conhecido como sequestro de carbono. A pesquisa liderada por Juliana Lichston avalia a possibilidade do volume de gás carbônico capturado ser convertido em créditos de carbono, que, se negociados no mercado internacional, podem agregar rentabilidade à produção.



“É uma tendência mundial os produtores rurais comercializarem créditos de carbono”, relata a coordenadora. “Existem alguns marcos regulatórios no país sobre como negociar os créditos e a nossa intenção é dar toda a orientação aos produtores”, planeja.

Queda no preço do petróleo deixa descoberto a grave situação da economia mundial

Por Marco Antonio Moreno em El Blog Salmón

Oil Price 11 2014

A queda de 35 por cento no preço do petróleo nos últimos cinco meses, é, sem dúvida, o melhor presente de Natal para muitas pessoas no planeta. Mas o que esconde a queda dos preços do petróleo é motivo de regozijo. Este declínio mostra a velocidade com que os gastos do consumidor está caindo, com o tsunami financeiro que implica a escalada de liquidações assim como a desesperada situação dos países produtores de petróleo, que vêem um terço de sua principal fonte de renda se desvanecido.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep, o cartel do petróleo responsável por 30 por cento da produção mundial de petróleo, decidiu ontem não cortar a produção, apesar de excesso de oferta, uma decisão que vai colocar mais pressão descendente sobre os preços . A produção da OPEP se manterá em 30 milhões de barris por dia até junho de 2015 e só na reunião a ser realizada em Viena, em 05 de junho se deve aplicar um corte na produção.

Agora começamos a ver o duro golpe que causou o desaparecimento do milagre de exportação chinesa e como a sua queda na demanda de recursos alimenta o ciclo recessivo. Ao mesmo tempo, este ano, e graças aos caprichos do fracking, os EUA atingiu o seu nível mais baixo em 30 anos de importações de petróleo da OPEP. A asfixia é sentida plenamente nas redes do sistema financeiro é ameaçada por um colapso descontrolados do esquema ponzi dos preços futuros.

Sob o câncer deflação

Não há um ciclo de sobreinvestimento prolongado tal que ameaça a estabilidade financeira e hoje sofre contração dos preços do petróleo. Os empréstimos que já estão mal tornam-se ainda mais incobráveis com o verdadeiro câncer de deflação. As consequências mais graves atingem os países produtores de petróleo, cuja estabilidade fiscal depende da renda das exportações de petróleo. O rublo russo perdeu 27 por cento de seu valor desde junho, a coroa norueguesa perdeu 12 por cento, enquanto o naira nigeriano está em um recorde de baixa.

Além disso, o valor das companhias de petróleo despencou e açõesda  British Petroleum caíram 17 por cento, a Chevron 12 por cento e Seadrill (o maior proprietário de plataformas de petróleo do mundo) perdeu 23 por por cento.

As perdas também colocam os bancos sob pressão e Barclays, UBS e Wells começaram a vender suas ações a 60 centavos de dólar assumindo uma perda de 40 por cento de ações. No entanto, estima-se que os bancos não vão reavaliar todos os seus ativos e devem absorver enormes perdas sobre os valores de vários bilhões de dólares. O esquema ponzi dos preços futuros que optou sempre pelo aumento do consumo de petróleo que ajudaria  a manter os preços elevados, choca hoje com a realidade brutal e abre um novo surto de conflito na maior crise econômica dos últimos cem anos.

'Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público', diz Piketty

Ruth Costas

Da BBC Brasil em São Paulo

Crédito: Reuters
Para crítico-sensação do capitalismo, políticas para combater desigualdade são essenciais para impulsionar crescimento do país

Para o economista francês Thomas Piketty, o Brasil precisa ampliar os impostos sobre os ricos para ter mais recursos para investir em educação pública – e, com isso, avançar no combate à desigualdade.
Crítico-sensação do capitalismo, Piketty é autor do polêmico best-seller O Capital no Século XXI (Editora Intrínseca) em que defende, a partir da análise de dados inéditos de 20 países, que a desigualdade de renda estaria voltando a aumentar no mundo após décadas em queda.
Ele diz que o próximo passo de seu projeto é estudar países emergentes, entre eles o Brasil, e defende que a desigualdade é um dos fatores que inibe o crescimento brasileiro.
"Se o Brasil quiser crescer no século 21 precisa garantir que amplos grupos da população tenham acesso a educação de qualidade, qualificação e trabalhos que pagam bem", diz.
Em visita ao país, para promover a versão em português do livro, Piketty concedeu a seguinte entrevista à BBC Brasil de um hotel de luxo no centro de São Paulo.
BBC Brasil: Como o Brasil pode reduzir seus níveis de desigualdade?
Piketty: Há uma série de políticas que contribuem para isso. Investir em educação e em instituições sociais, (implementar) um sistema de impostos progressivo, em que os ricos pagam mais que os pobres, (criar) boas políticas para o mercado de trabalho e aumentar o salário mínimo – algo que no Brasil foi importante nos últimos 10, 15 anos. Todas essas políticas são complementares. Não dá para escolher.
Se você só aumenta o salário mínimo, mas não aumenta a qualificação do trabalhador e sua produtividade terá problemas para sustentar isso com o tempo. O investimento em educação – e em especial na educação pública - é absolutamente essencial para se reduzir a desigualdade. E a taxação progressiva de rendas altas e grandes heranças pode ser uma forma de obter recursos para investir no sistema de educação pública.
É claro que é mais fácil taxar os pobres que os ricos. Talvez por isso em muitos países você tenha esse monte de impostos indiretos – como é o caso do Brasil. Mas provavelmente, a falta de progressividade no sistema de impostos é uma das razões pelas quais a desigualdade é tão grande no Brasil.
BBC Brasil: Como assim?
Piketty: A alíquota máxima do imposto de renda – algo em torno de 27%, 30% - é pequena para padrões internacionais. E é aplicada a partir de salários muito baixos. Seria possível ter impostos mais altos para quem ganha R$500 mil, R$1 milhão, R$5 milhões e por aí vai.
Os impostos sobre herança também são particularmente baixos para padrões internacionais e históricos. Se não me engano, aqui é de 4%. Nos EUA, por exemplo, esse imposto pode chegar a 40% para as maiores heranças. Na Alemanha, Grã-Bretanha e França também.
BBC Brasil: Mas a França aumentou a taxação sobre os ricos e há notícias de que alguns milionários teriam mudado de país. Esse risco não existe?
Piketty: Você não vê notícias de que esses países que têm imposto sobre herança de 40% tenham de reduzir suas taxas para o patamar brasileiro, de 4%, para reter milionários. Acho que é perfeitamente possível para o Brasil ter níveis mais altos (de imposto sobre os ricos) sem ter uma fuga massiva de capitais.
No caso da França, eu acho que de fato houve um aumento excessivo dos impostos nos últimos anos. Não tanto para os ricos, mas para a população no geral. O objetivo era reduzir o déficit público mas (a estratégia) foi um desastre. No fim, matou (as perspectivas de) o crescimento, o que dificultou a redução do déficit.
BBC Brasil: Enquanto a Europa acaba de anunciar um pacote de estímulos para reativar a economia de alguns países, no Brasil o governo anunciou o fim dos incentivos e cortes de gastos. Quem vai na direção certa? E quais os riscos a serem evitados no caso brasileiro?
Piketty: Não acredito que o governo brasileiro vá reduzir tanto os gastos totais do governo, nem que essa seria uma boa decisão. Talvez seja bom reformar os gastos e o sistema de impostos - e torná-los mais transparentes. Também fortalecer gastos sociais e reduzir outros gastos que não são tão eficientes. Mas não estou certo de que seria uma decisão inteligente reduzir de forma mais significativa o nível geral de gastos do governo com esse nível de crescimento. Se você tem uma recessão ou quase estagnação, austeridade não é uma boa forma de lidar com isso. E tanto no Brasil como na Europa a prioridade agora é voltar a crescer.
BBC Brasil: Se o Brasil já está conseguindo reduzir a pobreza, por que precisa se importar também com a desigualdade?
Piketty: Porque poderia ter uma redução ainda maior da pobreza e um crescimento maior da economia se tivesse menos desigualdade. É tudo uma questão de grau. Concordo que precisamos de um pouco de desigualdade para continuar crescendo. O problema é quando a desigualdade atinge níveis extremos, muito altos. Aí deixa de ser útil para o crescimento. Passa a se perpetuar por gerações, afeta a questão da mobilidade social. Os níveis de desigualdade no Brasil estão entre os maiores do mundo. Se o Brasil quiser crescer no século 21 precisa garantir que amplos grupos da população tenham acesso à educação de qualidade, qualificação e trabalhos que pagam bem. Para isso é necessário muito investimento social inclusivo.
BBC Brasil: Que tipo de programas sociais são efetivos? No Brasil, apesar de diversos grupos políticos abraçarem o Bolsa Família, por exemplo, o programa ainda causa polêmica. Os críticos dizem que é assistencialista ou populista …
Piketty: A aceitação das transferências para os pobres é um problema em vários países. No Brasil, como em outros países, precisamos abordar a questão das políticas sociais de forma equilibrada. O Bolsa Família e a transferência de recursos para os pobres são importantes. Mas mais investimentos em educação, também. Na realidade, o aumento do salário mínimo tem sido até mais eficiente em reduzir a pobreza que o Bolsa Família. A taxação progressiva também é crucial. Como disse, precisamos de todas essas políticas.

Crédito: Getty
Piketty defende Estado mais eficiente para investir em educação e serviços públicos

BBC Brasil: Não é possível reduzir a desigualdade com um Estado menos inflado?
Piketty: Acho que precisamos de um Estado eficiente para investir em educação e serviços públicos. Não há exemplos no mundo de um país que tenha se desenvolvido com um nível de imposto de 10% ou 20% do PIB. Também sou cético sobre aqueles que dizem que a filantropia privada vai substituir o governo no futuro e que não precisamos de imposto, que só é preciso deixar que os bilionários doem parte de seus recursos para fundações e instituições elegidas por eles.
O Bill Gates (fundador da Microsoft), me disse certa vez que leu meu livro e concordava com tudo - mas que não queria pagar mais imposto. Ele disse que aceitaria um imposto progressivo sobre o consumo de até 90%, mas que não queria pagar sobre o dinheiro que vai para sua fundação. O problema é que se você doa dinheiro para uma fundação da qual você é presidente, sua mulher é copresidente e seus parentes são membros do conselho, trata-se de uma doação desinteressada ou só uma maneira de continuar a ter controle sobre esses recursos?
Às vezes, as pessoas que têm dinheiro fazem boas doações com ele. Outras vezes apenas tentam obter mais influência. Nos EUA, muitos milionários financiam organizações políticas.
Por isso, acho que a filantropia privada é útil, algo que complementa a ação do governo, mas não a substitui.
BBC Brasil: Aqui o problema é que as pessoas pagam impostos, mas não veem o retorno. Todos concordam que o governo deve ser mais eficiente, mas por onde começar?
Piketty: Esse problema não é exclusivo do Brasil. Entendo que esse processo de construção de confiança (no governo) é gradual. E uma maneira de começar é ampliando a transparência sobre a arrecadação e os gastos do governo. É preciso saber quem exatamente está pagando, por faixa de renda, e para onde vão os recursos.
BBC Brasil: A expectativa é que o PIB brasileiro cresça menos de 1% este ano. Como isso pode afetar o combate a pobreza?
Piketty: É muito mais difícil reduzir a pobreza e a desigualdade sem um crescimento econômico vigoroso. O crescimento da economia é algo muito importante, principalmente para países como o Brasil, em que a renda per capita ainda é relativamente baixa. O crescimento deveria ser 3, 4 ou 5%. É esse o crescimento potencial do país. O que temos agora não é satisfatório, por isso entendo a preocupação. Política monetária é importante, o equilíbrio do orçamento também, mas não podemos esquecer que o Brasil precisa crescer mais nos próximos anos para continuar avançando.
BBC Brasil: Quais são seus próximos projetos?
Piketty: Estender meu trabalho a países emergentes, como o Brasil e a China. Também estamos fazendo estudos e coletando dados na África. Queremos ver como a distribuição de renda e riqueza tem mudado nesses países. Graças à publicação do livro, agora é mais fácil acessar os dados de alguns países. No Brasil, parece que vamos conseguir ter acesso às estatísticas de imposto de renda que vínhamos pedindo a autoridades brasileiras há muito tempo. Alguns dados recentes já foram liberados – e o que você pode ver é que a desigualdade é ainda maior do que indicam as estatísticas oficiais (da pesquisa Pnad, do IBGE).

Aquecimento global pode subir de 1,5°C para 4°C até 2100, alerta relatório do Banco Mundial


A publicação mostra como a elevação das temperaturas globais está afetando cada vez mais a saúde e os meios de subsistência das populações mais vulneráveis
Poluição do ar causada por usina a carvão em Kosovo. Foto: Banco Mundial/L. Aliu
O novo relatório “Diminuir o Calor: Confrontando o novo padrão climático“, publicado pelo Banco Mundial no último domingo (23) alerta que se o mundo não agir imediatamente para mitigar o aquecimento global, é provável que até o final deste século o aquecimento suba em relação aos níveis pré-industriais de 1,5°C – segundo a previsão atual – para 4°C.
A publicação mostra como a elevação das temperaturas globais está afetando cada vez mais a saúde e os meios de subsistência das populações mais vulneráveis, ampliando de maneira drástica os problemas que cada região vem enfrentando atualmente.
A zona costeira da América Latina e o Caribe, o Oriente Médio e o Norte da África e algumas partes da Europa e da Ásia Central são as regiões destacadas no relatório a estarem expostas ao mesmo risco: o calor extremo.
Segundo a publicação, em áreas centrais de produção agrícola, à medida que a produtividade agrícola diminui devido à seca, os recursos hídricos se alteram e os meios de subsistência de milhões de pessoas são postos em risco.
Já em áreas costeiras, o derretimento das geleiras pode subir o nível do mar desde o período pré-industrial para mais de 30 cm até 2100 e causar fortes inundações em cidades e comunidades. Além disso, se este “novo padrão climático” persistir, podem surgir alterações irreversíveis e em grande escala.
“Este relatório confirma o que os cientistas já vinham dizendo, que as emissões do passado estabeleceram uma trajetória inevitável rumo ao aquecimento nas próximas duas décadas, o que afetará mais seriamente os mais pobres e os mais vulneráveis do mundo”, afirmou o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, acrescentando que desde os tempos pré-industriais até agora o aquecimento mundial já é 0,8°C mais alto.
“A boa notícia é que podemos tomar medidas para reduzir o ritmo da mudança climática e promover o crescimento econômico, medidas essas que acabarão por interromper essa perigosa trajetória que estamos seguindo”, ressaltou.
Para acessar o relatório, na versão em inglês, clique aqui
Fonte: ONU Brasil

O fim do crescimento econômico e a década perdida 2.0

 Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
“A maior riqueza
do homem
é sua incompletude”
Manoel de Barros

crescimento do PIB real

[EcoDebate] Quando Dilma Rousseff assumiu seu primeiro mandato, em 01/01/2011, como a primeira mulher presidenta do Brasil, havia um sentimento muito positivo, já que a economia tinha crescido 7,5% no ano em 2010 e o país estava reduzindo a pobreza, o desemprego e a desigualdade. O ministério da Fazenda, comandado pelo ministro Guido Mantega, falava do Brasil como 4ª potência mundial (também a revista britânica The Economist) e projetava um crescimento do PIB entre 5 e 6% durante o mandato de 2011 a 2014, impulsionado pelo PAC2. Mas a realidade foi bem diferente e os indicadores econômicos foram péssimos e os indicadores sociais não foram bons no período 2011-14.
O Brasil sofreu com a década perdida 1.0 – que aconteceu de 1981 a 1990 – quando pela primeira vez na história republicana a renda per capita brasileira caiu no espaço de uma década. Entre 1991 e 2010 houve crescimento econômico e avanços nos direitos de cidadania. Mas o Brasil continua um país de renda média, com alta desigualdade social e com sérias carências em termos de bem-estar. As manifestações de junho de 2013 questionaram o rumo do desenvolvimento brasileiro e o grau de representatividade da democracia do país, pedindo novos rumos.
Nos primeiros 80 anos do século XX (de 1901 a 1980) a taxa média geométrica de crescimento do PIB real foi de 5,7% ao ano. O recorde aconteceu nos “30 anos gloriosos” depois da Segunda Guerra Mundial. O crescimento do PIB real foi, na média anual, de 7,4% na década de 1951-60, de 6,2% na década de 1961-70 e de 8,6% na década de 1971-80. Mas nos anos 80, o PIB cresceu apenas 1,57%, o que gerou decréscimo da renda per capita, pois a população estava crescendo em torno de 2% aa. Nas duas décadas seguintes houve uma pequena recuperação do crescimento do PIB, com 2,5% entre 1991-2000 e de 3,6% entre 2001-10. O período do boom das commodities ajudou ao crescimento.
Todavia, os primeiros quatro anos da atual década (2011-2020) apresentaram um crescimento econômico em torno de 1,6% ao ano e um crescimento da renda per capita em torno de 0,7% ao ano, sendo que em 2014 (com um crescimento do PIB esperado de 0,3%) deve haver decréscimo da renda per capita, embora o governo tenha apresentado déficit primário e tenha tomado várias medidas de política macroeconômica, de estilo keynesiana, pró-crescimento.
Depois da eleição presidencial, Dilma Rousseff tem a obrigação de fazer um segundo mandato melhor do que o primeiro. Isto foi prometido durante a campanha eleitoral. Aparentemente, não é uma tarefa difícil, pois o primeiro mandato não apresentou bons indicadores, já que teve baixo crescimento do PIB, baixa geração de emprego, baixa redução da pobreza e da desigualdade, inflação bem acima do centro da meta, aumento do desmatamento da Amazônia nos dois últimos anos, continuidade de perda de biodiversidade, etc.
Um segundo mandato pior do que o primeiro pode levantar a questão do “estelionato eleitoral” e um acirramento das divisões políticas do Brasil, divisões estas que foram muito polarizadas durante a campanha eleitoral. O marketing de um “Brasil dos sonhos” apresentado durante o horário eleitoral precisa ter uma base de realidade para não gerar desilusões. Porém, tão logo foram confirmados os resultados das urnas, as notícias ruins apareceram e diversos analistas dizem que não vai haver crescimento econômico em 2015 e 2016. Isto vai puxar a média ainda mais para baixo, aumentando a probabilidade de termos a segunda década perdida da história da República brasileira, podendo ser denominada de “década perdida 2.0”.
Mesmo estando com taxas de desemprego aberto relativamente baixas (as taxas do DIEESE são mais elevadas do que as da PME), o Brasil não tem apresentado crescimento da PEA e nem da produtividade, mesmo o país estando com taxas de inflação em alta, grande déficit fiscal, grande déficit em transações correntes e com suas principais empresas totalmente endividadas e envolvidas em escândalos de corrupção, o que deve diminuir as taxas de investimento, que na média nacional já estão muito baixas.
Os indicadores sociais e ambientais estão piorando, com aumento da pobreza extrema, aumento da desigualdade e aumento do desmatamento e das emissões de gases de efeito estufa. As cidades estão paralisadas pela imobilidade urbana enquanto crescem as taxas de assaltos e de mortes violentas.
Todos os políticos e a maioria dos economistas clamam pela volta do crescimento econômico, como solução dos males do Brasil. Mas a economia internacional está caminhando para a “estagnação secular” e o Brasil está no rumo de uma segunda década de redução da renda per capita. Há sérias dúvidas se uma equipe econômica pró-mercado (mesmo sendo uma contradição com o prometido na campanha eleitoral petista) possa reverter a situação de baixo desempenho econômico.
O certo é que os próximos anos não serão fáceis nem para a sociedade brasileira e nem para os ecossistemas do país.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 28/11/2014