"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A bolha do fracking e o dinheiro barato do FED

Por Marco Antonio Moreno em El Blog Salmón



Nenhuma imagem pode ilustrar melhor a bolha do fracking como este em que relacionamos o preço do petróleo e os planos para a flexibilização quantitativa por parte da Reserva Federal. A janela de dinheiro permitiu às instituições financeiras especular sobre o preço do petróleo e desencadear o fracking. Como observamos em julho do ano passado, enquanto os preços do petróleo devia estar em torno de US $ 80 - US$ 60 por barril, estava em 115 dólares o barril... Agora que está confirmado que o valor do petróleo foi inflado pela especulação, também se vai confirmando que as maravilhas do gás de xisto não eram tais, e que o fracking pode estar causando uma nova crise mundial de níveis insuspeitados.

Disse-se que o fracking estava carregando os Estados Unidos à independência energética, e na verdade é o oposto. O fracking já começou a afundar os EUA  o tsunami para o resto do mundo foi lançado. A queda dos preços do petróleo em 45 por cento em cinco meses está permitindo corrigir tudo o que era especulação em torno de fracking. Um preço do petróleo abaixo de US $60 (ontem atingiu US$ 59 por barril) tira do mercado  todas as empresas do fracking dado que o seu custo de produção é de US$ 60, e do barril de petróleo pode chegar a US$ 40 o barril em meados do próximo ano.

As companhias de petróleo dos Estados Unidos que incursionaram no fracking estão agora em processo de falência e aquelas que permanecem de pé foram fechadas ao crédito financeiro esta semana. Como Bloomberg observa, com uma dívida de 570 bilhões de dólares, os maus investimentos no setor da energia está colocando uma enorme pressão sobre a banca. As empresas de petróleo e gás foram excluídas do sistema financeiro e terão que liquidar ativos nas próximas semanas.

Crédito, bolha, morosidade

Como observamos no post anterior, a bolha do fracking tem todos os ingredientes da bolha imobiliária espanhola: grandes torrentes de dinheiro para conduzir o negócio em sua infância; abundante criação de emprego e importantes fluxos monetários a partir do núcleo central para os braços de alimentação. Agora os Estados Unidos, como a Espanha, começa a sofrer a situação no sentido inverso, que pode dobrar ou triplicar o padrão no próximo ano, para levá-lo a 10 e 12 por cento, como em Espanha... Mesmo os grandes bancos, aqueles "too big to fail" vão receber o impacto da onda do tsunami desta onda preta e oleosa. Então, não haverá outro recurso que recorrer a depósitos e fundos de pensão... porque agora não haverá governos ou bancos centrais que possam vir ao resgate. É a diferença com o colapso do sistema financeiro em 2008, quando se pensava que era um fenômeno temporário e uma falta de liquidez do momento, e que tudo seria resolvido em um par de meses ...

Um dos eventos mais emblemáticos da crise que eclodiu em 2008 é que as taxas de juro baixas promovidas por bancos centrais em resposta favoreceu a especulação e os investimentos desastrosos, incluindo o fracking. Tudo graças a taxas de juros artificialmente baixas para manter artificialmente o sistema financeiro à tona e os investimentos especulativos.

Como indicado pela Baker Hughes, índice que tem mais de 70 anos nas estatísticas de perfuração de petróleo dos Estados Unidos, a perfuração horizontal quintuplicou em cinco anos, passando de 300 plataformas em 2009 para 1.400 no início de 2014. O número de equipes de perfuração horizontal disparou. Esta técnica de perfuração horizontal é utilizada em grande parte do centro dos Estados Unidos, do Texas a Dakota do Norte. E ao contrário de poços verticais convencionais, onde mais poços nem sempre significam mais petróleo, a estratégia em um campo de perfuração de xisto requer o maior número possível de pontos para destravar o óleo preso em formações rochosas. Além disso, como o número de equipamentos de perfuração horizontal aumentou, o número de plataformas verticais nos Estados Unidos tem ido na direção oposta, com queda de 75 por cento nos últimos sete anos. É dizer que todo o auge da produção de petróleo que teve muito a ver com a recuperação econômica nos Estados Unidos começou a afundar-se sem piedade. O fracking e a independência energética dos Estados Unidos não era mais que uma fantasia patrocinada pelo dinheiro barato do Federal Reserve. A queda em dominó das empresas fracking está crescendo e o petróleo vai continuar a sua descida para 50 e US$ 40 o barril no próximo ano descarrilando um sonho americano, tal como foi há sete anos com a bolha imobiliária. E isso, fazendo com que, aliás, haja um profundo impacto sobre todo o sistema financeiro.

OTAN: Perigo para a paz mundial

A OTAN representa um perigo severo porque os países ocidentais se arrogam o direito de interferir em qualquer lugar em nome das interpretações ocidentais das realidades geopolíticas.

Immanuel Wallerstein

A mitologia oficial diz-nos que entre 1945 (ou 1946) e 1989 (ou 1991), os Estados Unidos e a União Soviética (URSS) entraram permanentemente em confronto – política, militar e acima de tudo ideologicamente. Foi o que se chamou a “Guerra Fria”. Se era uma guerra, a palavra a sublinhar é “fria”, já que as duas potências nunca se envolveram em qualquer ação militar direta, uma contra a outra, em todo este período.

Houve, porém, alguns reflexos institucionais desta Guerra Fria, em cada um dos quais foram os Estados Unidos, e não a URSS, a dar o primeiro passo. Em 1949, os três países ocidentais que ocupavam a Alemanha combinaram as suas zonas para criar a República Federal Alemã (RFA) como Estado. A União Soviética respondeu reestruturando a sua zona como República Democrática Alemã (RDA).

Em 1949, a OTAN foi criada por 12 nações. Em 5 de maio de 1955, as três potências ocidentais terminaram oficialmente a sua ocupação da RFA, reconhecendo-a como um estado independente. Quatro dias depois, a RFA foi admitida como membro da OTAN. Em resposta, a URSS estabeleceu a Organização do Tratado de Varsóvia e incluiu a RDA como um dos seus membros.

Era suposto que o tratado que criou a OTAN fosse aplicado apenas no interior da Europa. Um motivo era que os países europeus ainda tinham colônias fora da Europa e não queriam permitir que qualquer agência tivesse autoridade de intervir diretamente nas suas decisões políticas a respeito destas colônias. Os momentos de aparente confronto tenso entre os dois lados – o bloqueio de Berlim, a crise dos mísseis cubanos – terminaram com uma saída de status quo ante. A mais importante invocação dos tratados para se envolver numa ação militar foi a da URSS para atuar dentro da sua própria zona, contra acontecimentos que consideraram perigosos para a URSS – Hungria em 1956, Checoslováquia em 1968, Polônia em 1981. Os Estados Unidos intervieram politicamente, em circunstâncias semelhantes, tais como a entrada potencial do Partido Comunista Italiano no governo da Itália.

Este breve relato aponta para o objetivo real da Guerra Fria. A Guerra Fria não supunha a transformação das realidades políticas do outro lado (exceto nalgum momento longínquo do futuro). A Guerra Fria era um mecanismo para permitir que cada lado mantivesse os seus satélites sob controle, mantendo ao mesmo tempo o acordo de fato das duas potências em torno da partição de longo prazo do globo em duas esferas, um terço para a URSS e dois terços para os Estados Unidos. Cada lado deu prioridade à garantia de não utilização de força militar (especialmente armas nucleares) contra o outro. Esta atitude ficou conhecida como a garantia contra a “destruição mutuamente assegurada”.

O colapso da URSS em dois estágios – a retirada da Europa do Leste em 1989 e a dissolução formal da URSS em 1991 – devia ter significado em teoria o fim de qualquer função da OTAN. Na verdade, é bem conhecido que, quando Mikhail Gorbachov da URSS concordou com a incorporação da RDA na RFA recebeu a promessa de que não haveria a inclusão dos estados do Pacto de Varsóvia na OTAN. Esta promessa foi violada. Em vez disso, a OTAN assumiu inteiramente um novo papel.

Depois de 1991, a OTAN outorgou a si mesma o papel de polícia mundial para tudo o que considerasse serem soluções políticas para problemas mundiais. O primeiro grande esforço deste tipo ocorreu no conflito Sérvia/Kosovo, no qual o governo dos EUA jogou o seu peso a favor do estabelecimento de um estado do Kosovo e de uma mudança de regime na Sérvia. Em seguida, houve outros esforços – no Afeganistão em 2001 para expulsar os talibãs, no Iraque em 2003 para mudar o regime de Bagdá, em 2014 para combater o Estado Islâmico no Iraque e na Síria e em 2013-2014 para apoiar as chamadas forças pró-ocidentais da Ucrânia.

Na verdade, foi difícil aos Estados Unidos usar a própria OTAN. Por um lado, porque havia vários tipos de relutâncias de estados-membro da OTAN acerca de ações empreendidas. Por outro, quando a OTAN foi formalmente envolvida, como no Kosovo, os militares dos EUA sentiram-se constrangidos pela lenta decisão política no que diz respeito a ação militar.

Por que ocorreu então a expansão da OTAN em vez da sua dissolução? Mais uma vez, isto tinha a ver com políticas intraeuropeias e o desejo de controle dos EUA sobre os seus presumíveis aliados. Foi no regime de Bush que o então secretário da Defesa Donald Rumsfeld falou de uma “velha” e de uma “nova” Europa. Ao falar em velha Europa, referia-se especialmente à relutância de franceses e de alemães de concordarem com as estratégias dos EUA. Viu os países europeus ocidentais a afastarem-se das suas ligações aos Estados Unidos. Esta percepção estava realmente correta. Em resposta, os EUA esperavam cortar as asas dos europeus ocidentais introduzindo estados europeus orientais na OTAN, que os EUA consideravam ser aliados mais confiáveis.

O conflito em torno da Ucrânia ilumina o perigo da OTAN. Os EUA procuraram criar novas estruturas militares, obviamente mirando a Rússia, sob o pretexto de que se destinavam a contrapor-se a uma hipotética ameaça do Irã. À medida que avançava o conflito da Ucrânia, reviveu a linguagem da Guerra Fria. Os EUA usam a OTAN para pressionar os países europeus ocidentais para aceitar ações antirrussas. E dentro dos EUA, o presidente Barack Obama está sob forte pressão para agir “à força” contra a chamada ameaça russa à Ucrânia, o que se combina com a grande hostilidade existente no Congresso norte-americano em relação a qualquer acordo com os iranianos sobre a questão nuclear.

As forças no interior dos Estados Unidos e na Europa ocidental que procuram evitar loucos riscos militares estão a ser superadas pelo que só pode ser chamado como o partido da guerra. A OTAN e o que ela simboliza hoje representa um perigo severo devido à reivindicação dos países ocidentais do direito de interferir em qualquer lugar em nome das interpretações ocidentais das realidades geopolíticas. Isto só pode levar a mais, e altamente perigosos, conflitos. Renunciar à OTAN como estrutura seria um primeiro passo em direção à sanidade e à sobrevivência do mundo.

Immanuel Wallerstein

Comentário No. 389, 15 de novembro de 2014

Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

12 selvajarias da CIA no relatório sobre torturas

Na pequena parte do relatório da agência de espionagem norte-americana sobre tortura trazida a público podem encontrar-se detalhes de um sadismo selvático. Eis uma dúzia de exemplos. 

Por Alberto Sicilia, Principia Marsupia.

O Senados dos EUA publicou 500 páginas de uma investigação sobre torturas da CIA. O relatório completo (não publicado) contem mais de 5000 páginas. Além disso, a Casa Branca bloqueou outros 9.400 documentos que os investigadoras não puderam consultar para elaborar o estudo.
Seja como for, na pequena parte trazida a público podem encontrar-se detalhes de um sadismo selvagem. (Nota: até agora apenas pude rever 300 páginas das 500 publicadas. Irei ampliando este post).
1) “Alimentação por via retal”.
“O menu de Majif Khan consistia num puré feito de húmus, pasta com tomate e nozes que era introduzido por via retal”
Façam a seguinte experiência: descarreguem o documento, cliquem controle F e procurem a palavra “retal”. Aparecem 38 referências. Leiam essas frases.
2) Pancadas e líquidos quentes sobre o pénis durante o interrogatório.
3) Torturas a prisioneiros que ainda estavam feridos por disparos sofridos durante a captura.
4) Sessões de tortura por mais de 100 horas seguidas sem dormir.
5) Roleta russa
6) Torturas a algumas das suas fontes por engano
7) “Exames retais com excessiva força”
8) Um agente CIA a um preso: “nunca irás a um tribunal porque não podemos deixar que o mundo saiba o que te fiz”.
9) 29 horas numa caixa de 76 cm x 76 cm x 53 cm
10) Waterboarding (técnica de afogamento simulado que a CIA tinha assegurado ao Departamento de Justiça que não constituía tortura)
11) Ameaças de violar a mãe do preso.
12) Utilizar o choro de um familiar incapacitado psíquico.
Na verdade, aqui falamos dos EUA, mas a Espanha está entre os países que colaboraram com o programa de detenções da CIA. Aqui um mapa elaborado pelo diário The Guardian:
Sabíamos que a CIA torturava. Também sabemos que este relatório não terá nenhuma consequência. Só um dos agentes da CIA que participou no programa de interrogatórios foi para a prisão.
Pelo menos, que estes detalhes de sadismo sejam conhecidos, difundidos e não sejam esquecidos.
Permito-me acabar este post com o Artigo 2 da Convenção Internacional contra a Tortura (assinada e ratificada por quase todos os países do mundo, EUA e Espanha incluídos).
Artigo 2 da Convenção Internacional contra a Tortura Artigo 2 da Convenção Internacional contra a Tortura
Publicado em 10 de dezembro de 2014

Chicó e Heidegger

"A cachorrinha cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre." (Em: O Auto da Compadecida)

Para Chicó "tudo que é vivo morre", a morte faz com que tudo acabe e iguala a tudo e a todos, é uma sentença inapelável com uma condenação. Tudo que é vivo morre significa que o homem morre da mesma forma que os animais outros ou as plantas morrem. Não há chance.

Em concepções do tipo Hipótese Gaia tudo morre e continua num grande organismo vivo como um todo, incluindo, inclusive, a matéria não viva. Tudo que morre retorna à biosfera como componente da vida. Haveria, assim, apenas um processo, de forma que a morte não existiria, pois, a vida seria, de fato, no todo da biosfera.

Mas, diferente da hipótese de Chicó era ou é a do filósofo alemão Martin Heidegger, para o qual os animais findam, apenas o homem morre; o homem morre por que sabe que morre; era o que Rousseau lamentava, o fato que trazia uma preocupação para a vida dos homens: quando passaram a ter consciência passaram a morrer.

Mas para Chicó todos são condenados e isso alivia a culpa, dentro da concepção católica de mundo. Ariano Suassuna transfere para a sua novela o mundo que ele vira no Sertão; "de que adianta ter riquezas quando se morre não leva nada", diz-se.

A própria cachorra cumpriu sua sentença mesmo sem saber morreu, uma condenação kafkiana; o que não era possível de acordo com Heidegger.

México: Ayotzinapa e a voz das ruas

O que aconteceu em Sonora, com a ocupação do Congresso, não é um fato isolado. Em várias regiões do país, as mobilizações cidadãs exigem a renúncia de Enrique Peña Nieto e, ao mesmo tempo, reivindicam uma crescente vontade de se transformarem num poder constituinte alternativo. 

Por Luis Hernández Navarro, La Jornada
O México vive uma situação inédita, na qual, como advertiram os sonorenses que ocuparam o seu legislativo, os de cima não quiseram escutar a voz das ruas.  Montecruz Foto / Flickr
O México vive uma situação inédita, na qual, como advertiram os sonorenses que ocuparam o seu legislativo, os de cima não quiseram escutar a voz das ruas. Montecruz Foto / Flickr

Roberto Zavala Trujillo é pai de Santiago Jesús, uma das 49 crianças que morreram no incêndio da creche ABC, em Hermosillo, Sonora. Em 20 de novembro, no plenário de sessões do Congresso daquele estado, junto a milhares de manifestantes que ocuparam o prédio em solidariedade com Ayotzinapa, declarou: “Em Sonora, mais de 104 anos depois, damos reinício à Revolução que não funcionou”.

No último dia 20 de novembro, cerca de 5 mil estudantes de Cananea, além de pais da creche ABC, de afetados pela contaminação do rio Sonora, e ferroviários, feministas, ecologistas e trabalhadores marcharam pelas ruas de Hermosillo, tomaram a sede do Poder Legislativo local e advertiram: “Hoje está em sessão o povo, e tem quórum”. Antes de entrar no recinto, deixaram um recado aos deputados na caixa de sugestões: “Escutem o seu povo, antes que seja tarde”.

O correspondente do La Jornada Ulises Gutiérrez contou como, ali mesmo, J. Márquez, outro dos pais da creche ABC, disse aos familiares dos estudantes desaparecidos: “Compartilhamos a vossa coragem, a vossa frustração pelo que acontece no México”. Para arrematar a sessão, “os inconformados exigiram a saída de Peña”, e votaram pela destituição do presidente em meio aos gritos de “justiça, justiça!”.

O que aconteceu em Sonora, com a ocupação do Congresso, não é um facto isolado. Em várias regiões do país, as mobilizações cidadãs exigem a renúncia de Enrique Peña Nieto e, ao mesmo tempo, reivindicam uma crescente vontade de se transformarem num poder constituinte alternativo.

Como mostram os protestos de 20 de novembro e do dia 1º de dezembro, apesar do seu desenvolvimento desigual em escala nacional, o movimento continua em fase de ascensão e radicalização. Hoje, não são apenas os estudantes que participam das marchas. Cada vez mais, se incorporam muitos outros setores: sindicalistas, organizações do campo, forças urbano-populares, familiares de desaparecidos, religiosos, artistas e até crianças. Em estados como Chiapas, as mobilizações de professores foram muito intensas, e em Oaxaca chegaram inclusive a ocupar o aeroporto.

No entanto, a indignação social e o descrédito governamental vão muito além do que se vê nas ruas. A base da inconformidade popular é mais ampla, vigorosa e complexa do que se expressa nas marchas. De facto, o mal-estar dos que estão abaixo fraturou a unidade do governo federal e alcançou alguns dos seus aliados tradicionais. Parece impossível deter a deterioração da figura presidencial. A cada dia, a crise política aprofunda-se mais.

A estratégia governamental para enfrentar o desastre demonstrou-se falida. A pretensão de fazer do massacre de Iguala um assunto local, uma mera ação do crime organizado, sem reconhecer a responsabilidade do Estado no crime e o caráter nacional dos protestos, alimentou o descontentamento. O decálogo de Peña Nieto para resolver os problemas de insegurança e corrupção naufragou tão logo foi lançado às águas da opinião pública. Até a revista The Economist advertiu que o presidente pode ter perdido a oportunidade de mudar a maré contrária. A decisão oficial de inventar interlocutores desligados do movimento social real, como fez ao “negociar” o problema dos presos pela marcha do dia 20 de novembro, só faz crescer o seu descrédito.

A crise da economia torna as coisas ainda mais difíceis para Enrique Peña Nieto. As notícias neste campo não são nada boas. O peso (moeda mexicana) desvaloriza-se, a produção de petróleo cai, as expectativas de crescimento do PIB reduziram-se para pouco mais de 2%, é possível aumentar taxas de juros nos EUA, anuncia-se uma iminente fuga de capitais, e as agências de rating alertam para o perigo provocado pela instabilidade política aos investimentos.

Entretanto, apesar da iminência do fim do calendário escolar e das férias de natal, os protestos continuam o seu curso. Em 6 de dezembro, milhares de professores, estudantes e camponeses, com os seus cavalos, tomaram simbolicamente a Cidade do México para comemorar os 100 anos da entrada dos exércitos revolucionários de Francisco Villa e Emiliano Zapata. A iniciativa vai além da mera contestação política. Apela imaginariamente – como foi anunciado na ocupação do Congresso em Sonora – para reiniciar a revolução que não funcionou.

Entre 21 de dezembro e 3 de janeiro do próximo ano, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), o Congresso Nacional Indígena (CNI) e aderentes da Sexta Declaração da Selva Lacandona farão o Primeiro Festival Mundial das Resistências e da Rebeldia Contra o Capitalismo. O seu lema será: “Onde os de cima destroem, os de baixo reconstroem”. A abertura do encontro será realizada na comunidade de San Francisco Xochicuautla, estado de México, em 21 de dezembro. “Sabemos – afirma a convocatória – que o capitalismo selvagem e de morte não é invencível” e que “nas nossas resistências, está a semente do mundo que queremos”.

Com a chegada de 2015, inicia-se um novo ciclo de mobilizações. Uma importante convergência de trabalhadores do campo, sistematicamente relegada pelo governo federal, concordou em tomar as ruas de Xalapa, em 6 de janeiro, no aniversário da Lei Carranza. E, em 31 de janeiro, planeia uma grande concentração nacional em frente aos escritórios dos ministérios do Governo e da Agricultura. Por sua vez, também em janeiro, a Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE) organiza uma greve nacional contra a reforma educacional.

Não há evidência de que o desdobramento da mobilização social tenha chegado ao seu ponto máximo. E, ainda que eventualmente os protestos das ruas diminuam, a tendência quanto ao desgaste do regime se mantém. Vivemos uma situação inédita, na qual, como advertiram os sonorenses que ocuparam o seu legislativo, os de cima não quiseram escutar a voz das ruas.

Luis Hernández Navarro, jornalista, é coordenador de opinião e editor do jornal mexicano La Jornada.

Publicado originalmente no La Jornada

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sartre e Simone de Beauvoir: A Imortalidade Pela Literatura, a Filosofia Como Meio de a Aceder


Simone de Beauvoir: Com que contava para sobreviver - na medida em que pensava sobreviver: com a literatura ou com a filosofia? Como sentia a sua relação com a literatura e a filosofia? Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas? 

Jean-Paul Sartre: Claro que responderei: que gostem das duas. Mas há uma hierarquia, e a hierarquia é a filosofia em segundo e a literatura em primeiro. Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia é um meio de aceder a ela. Mas aos meus olhos ela não tem em si um valor absoluto, porque as circunstâncias mudarão e trarão mudanças filosóficas. Uma filosofia não é válida por enquanto, não é uma coisa que se escreve para os contemporâneos; ela especula sobre realidades intemporais; será forçosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contrário, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre através das leituras, das conversas, das paixões, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paixões de hoje, por exemplo, são paixões novas que não existiam na Antiguidade; o amor... 

Simone de Beauvoir: Quer dizer que para si a literatura tem um caráter mais absoluto, a filosofia depende muito mais do curso da história; está mais submetida a revisões? 

Jean-Paul Sartre: Ela chama necessariamente revisões porque ultrapassa sempre o período atual. 

Simone de Beauvoir: De acordo; mas não há um absoluto no fato de ser Descartes ou de ser Kant mesmo se eles têm de ser ultrapassados de certa maneira? Eles são ultrapassados mas a partir do que me trouxeram; há uma referência a eles que é um absoluto. 

Jean-Paul Sartre: Não o nego. Mas isso não existe em literatura. As pessoas que gostam de Rabelais de todo o coração, leem-no como se ele tivesse escrito ontem. 

Simone de Beauvoir: E de uma maneira absolutamente direta. 

Jean-Paul Sartre: Cervantes, Shakespeare, lemo-los como se eles estivessem presentes; Romeu e Julieta ou Hamlet, são obras que parecem ter sido escritas ontem. 

Simone de Beauvoir: Dá pois a primazia da sua obra à literatura? No entanto, no conjunto das suas leituras e da sua formação, a filosofia desempenhou um enorme papel. 

Jean-Paul Sartre: Sim, porque a considerei como o melhor meio de escrever; era ela que me dava as dimensões necessárias para criar uma história. 

Simone de Beauvoir: Não se pode ainda assim dizer que a filosofia era apenas um meio em si. 

Jean-Paul Sartre: De início, foi. 

Simone de Beauvoir: Ao princípio, sim; mas depois quando se vê o tempo que passou a escrever L'Être et le Néant, a escrever a Critique de la Raison Dialétique, não se pode dizer que isso era simplesmente o meio de fazer obras literárias; foi também porque, em si, isso o apaixonava. 

Jean-Paul Sartre: Sim, interessava-me, é uma verdade. Queria dar a minha visão do mundo ao mesmo tempo que a fazia viver por personagens nas minhas obras literárias ou em ensaios. Descrevia essa visão aos meus contemporâneos. 

Simone de Beauvoir: Em suma, se alguém lhe dissesse: «É um grande escritor, mas, como filósofo, não me convence», preferi-lo-ia a alguém que lhe dissesse: «A sua filosofia é formidável, mas como escritor pode mudar de ofício?». 

Jean-Paul Sartre: Sim, prefiro a primeira hipótese. 

Diálogos entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir in "A Cerimônia do Adeus":

Todo terrorista é santo

Em O Títere e o Enano o esloveno Slajov Zizek levanta a questão de ser Judas o grande mártir do cristianismo pelo fato de que se este não tivesse ofertado sua alma, não tivesse feito a traição, a ressurreição não poderia ter ocorrido, assim como a humanidade não teria sido redimida.

Há o paradigma da história e outro ponto. quem a escreve? Há que m diga que são os vencedores. Mas quem são os vencedores e por que o são?

Nélson Mandela foi considerado ao longo de quase toda a vida um terrorista e morrera como herói mundial, sendo apenas para uma minoria ainda um terrorista; mas antes disso tudo, certamente, os que o apoiaram ao longo da vida não o viam como terrorista. Conseguiram escrever a história?

Para Chomsky os Estados Unidos é um Estado terrorista; para o establishment americano a sua nação é a vanguarda da luta contra o terrorismo. É uma dialética sem síntese, apenas com uma visão para cada lado. Os jihadistas, por exemplo, se auto-consideram mártires. Há, nesse caso, a questão da localização, isto é, onde estou pode vir a ter uma classificação de terrorismo; considerações políticas etc.

Ontem foi noticiada a morte de um ministro palestino que variava entre terrorista e líder político de um povo. Carrego seu caixão pela população que agora tende a se manifestar exigindo justiça oque pode levar a novos confrontos com o exército israelense.

Falei de justiça, outra peleja eterna. o que ela é? Inúmeras são as concepções, o jurista Hans Kelsen escreveu um livro com o título O Que é Justiça para apenas debater cada uma, mas não consegue a resposta.

A única definição a que podemos chegar é que terrorismo depende do "lado" onde se está, duas visões de mundo que se digladiam e que avançam até a força física; mas uma classificação de defesa de cada lado.

É possível mais democracia? Uma reflexão de Norberto Bobbio

É possível mais democracia? De acordo com Norberto Bobbio sim, mas seu aumento depende, não apenas se as decisões são tomadas por muitas ou poucas pessoas, mas especialmente em que áreas: "O avanço da democracia é medido pela conquista do espaço até agora ocupados por centros de poder antidemocráticos", escreveu ele.

Publicado por: Michael Neudecker em Ssociólogos
NorbertoBobbio
É possível mais democracia? Esta questão é geralmente relacionada com o debate entre democracia representativa e direta. A grande maioria dos sistemas políticos democráticos atuais são representativos, ou seja, limitam o papel do cidadão eleitor a um número de representantes que tomam decisões legislativas e executivas para você. Por isso, as demandas por maior democracia estão frequentemente ligadas a democracia direta em que os cidadãos tomem decisões em detrimento do papel dos representantes políticos.

Apesar de sua atualidade o debate entre democracia direta e representativa não é recente. Por exemplo, há três décadas, em 1984, o jurista italiano e cientista político Norberto Bobbio publicou um ensaio sobre "O Futuro da Democracia", em que ele refletiu sobre as diferentes formas de participação e representação. Bobbio escreveu que "o pedido de uma maior democracia tão insistente nos últimos anos, se manifesta na demanda de que a democracia representativa seja acompanhada ou mesmo substituída pela democracia direta".

Mas é realmente tão pouco democrática a democracia representativa? E a democracia direta é a solução para aumentar a democracia?
A democracia representativa
Bobbio entrou neste debate quebrando alguns mitos e preconceitos: "O primeiro erro do qual devemos libertar-nos é que a democracia representativa significa o mesmo que Estado Parlamentar", lembrou ele e disse: "Assim como nem todo Estado representativo é um estado parlamentar, de modo que o estado parlamentar não pode ser uma democracia representativa".

O cientista político italiano explicou que "em termos gerais, a expressão democracia representativa significa que as deliberações coletivas, ou seja, as discussões que envolvem toda a comunidade, não são levados diretamente por aqueles que fazem parte dela, mas por pessoas escolhidas para o efeito; é isso aí ". Em outras palavras, de acordo com Bobbio "um Estado representativo é um estado em que as principais deliberações políticas são feitas por representantes eleitos não importa se os órgãos em que tais procedimentos são realizados são o parlamento, o Presidente da República, o Parlamento em conjunto com os parlamentos locais, etc. "
Especificamente, "o que caracteriza a democracia representativa é que o representante é um fiduciário e não um delegado; sobre "o que mais", o administrador que representa os interesses gerais e não os interesses particulares (precisamente porque representa os interesses gerais, e não interesses particulares de seus constituintes proíbe-se o princípio do mandato imperativo ".

Ou seja, se trata da democracia representativa, quando um grupo ou comunidade elege um ou mais representantes, com capacidade de flexibilidade e liberdade de ação no que diz respeito aos interesses gerais dos seus eleitores, e, portanto, não devem manter a sua vontade concreta como um roteiro definido por eles. Eles podem ser deputados no Parlamento, um Chefe de Estado (como os EUA ou França), ou mesmo o presidente de um clube esportivo ou comunidade de proprietários. São esses representantes que tomam decisões em nome de todos, sem ter que consultar cada passo e o papel dos eleitores acaba no momento em que elegeram o seu representante.
A democracia direta
Por outro lado, o principal argumento dos defensores da democracia direta é, citando Rousseau, que "a soberania não pode ser representada". Ou seja, para uma democracia ser completa, deve dar as condições em que apenas cada cidadão pode e deve tomar suas próprias decisões políticas sem intermediários. Por isso, como escreveu Bobbio, "para que haja democracia direta, no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, no sentido direto quer dizer que o o indivíduo participa na primeira pessoa nas discussões que o dizem respeito, é necessário, em primeiro lugar, que, entre os indivíduos e a deliberação que regem não haja intermediário".

No entanto, Bobbio também adverte que "a democracia se estritamente direta significa a participação de todos os cidadãos em todas as decisões que lhes dizem respeito, certamente, a proposta não tem sentido. É fisicamente impossível que todos decidam tudo em sociedades cada vez mais complexas. "Embora seja verdade que este modelo aumenta a democracia no sentido de que o cidadão vê crescer as suas decisões de capacidade, como Bobbio diz "democracia direta não é suficiente quando você considera que as instituições da democracia direta, em sentido próprio da palavra, são dois: a reunião dos cidadãos que regem sem intermediários e o referendo. Qualquer sistema complexo, como é o Estado moderno só pode trabalhar com uma ou outra; nem mesmo com as duas coisas simultaneamente."

Em suma, a democracia representativa é prática, mas dá menos poder de decisão aos cidadãos e menos democrática e a democracia direta permite que os cidadãos participem em uma extensão muito maior, mas não de aplicação prática. São incompatíveis as duas formas de democracia?

Para Bobbio é possível o compromisso entre as duas formas, como "democracia representativa e democracia direta não são dois sistemas alternativos, no sentido de que, quando este existir não pode haver o outro, mas são dois sistemas que podem ser integrados reciprocamente . (...) Em um sistema integral as duas formas de democracia são necessárias, mas não são, em si, suficientes". Por que não são suficientes?
Democratizar os fluxos de poder
A chave da democracia para Bobbio não estava apenas em quem toma as decisões, mas, acima de tudo, onde são tomadas. E é essencial  reconhecer o que ele chamou de "fluxo de poder": "O fluxo de poder não pode ter mais de dois sentidos", escreveu ele, "ou é  descendente, ou seja, se move de cima para baixo ou ascendente, ou seja, se move de baixo para cima".

Portanto, segundo este autor, "se se pode falar hoje de um processo de democratização, não é assim, como erroneamente se diz, na passagem de uma democracia representativa para a democracia direta, como na passagem da democracia política estritamente falando, a social-democracia, ou seja, em estender o poder crescente, que até então tinha ocupado quase que exclusivamente no campo da grande sociedade política".

Ou seja, de acordo com Bobbio, para aumentar a democracia se deve passar "da democratização do Estado para a democratização da sociedade".

O que ele quis dizer? A democracia deve quebrar o quadro político institucional atual e em outras esferas sociais que não funcionam com critérios democráticos, mas são essenciais para a vida das pessoas: "Os dois grandes blocos de poder descendente e hierárquico em qualquer sociedade complexa, grandes empresas e e a Administração Pública, até agora não têm sido afetados pelo processo de democratização; e até que esses dois blocos resistam às forças de pressão de baixo, ninguém pode dizer que a transformação democrática da sociedade tem sido feita".

Em suma, de acordo com Bobbio "o avanço da democracia é medido pela conquista dos espaços até agora ocupados por centros de poder não democráticos". Como isso é feito?

A solução: democracia pluralista contra a concentração de poder

Bobbio era claro: "A democracia de um Estado moderno não pode ser mais do que uma democracia pluralista. Eis o porquê: a teoria democrática e a teoria pluralista têm em comum duas propostas diferentes, mas não incompatíveis, além disso, podem combinar e complementar contra o abuso de poder; representam duas soluções diferentes, mas não necessariamente incompatíveis, contra o poder excessivo".

O que ambas as teorias dizem: "A teoria democrática leva em conta o poder autocrático, ou seja, a parte do poder de cima, e considera que a solução para este tipo de poder não pode ser mais do que o poder de baixo. A teoria pluralista considera o poder tirânico, ou seja, o poder concentrado em uma mão, e considera que o remédio para este tipo de poder é distribuir o poder ".

Portanto, se se quiser aumentar a democracia não deve levar em conta apenas o clássico duelo entre governantes e governados, mas acima de tudo, a luta contra a soma de poder (econômico, social, cultural e não apenas político) concentrado cada vez sobre menos mãos. Neste sentido, Bobbio disse que "a democracia moderna é o Estado em que a luta contra o abuso de poder se dá em duas frentes, contra o poder de cima em nome do poder a partir de baixo e contra o poder concentrado em nome do poder distribuída ".
Democracia é poder dissentir
Para Bobbio o essencial, para aumentar a democracia é combater o excesso de poder concentrado. Isso só é conseguido fazendo com que esse poder seja diluído em uma sociedade pluralista, e para obter uma sociedade pluralista é fundamental liberdade de dissidência: "O pluralismo permite dar-nos conta de uma característica fundamental da democracia moderna em relação à dos antigos: a liberdade, ou melhor, a licitude da dissidência. (...) Uma sociedade onde a dissidência não é permitida está morta ou condenada a morrer. "Neste sentido ele citou Franco Alberoni que disse: "A democracia é um sistema político que pressupõe a dissidência. Ela requer apenas um único ponto de consenso sobre as regras da contenda".

O problema de uma sociedade pluralista é que toda opinião deve ser respeitada e, portanto, é muito difícil chegar a um consenso na tomada de decisões. Mas, por outro lado, se chegarmos a esse consenso, ele vai ser mais durável, porque foi são tomado a partir de uma posição de liberdade e, portanto, é real: "Em um regime que se baseia em consenso não imposto de cima, alguma forma de dissidência é inevitável, e que somente onde a dissidência é livre para se manifestar, o consenso é real e que apenas quando o consenso é real, o sistema pode razoavelmente ser chamado de democrático. Por que eu digo que há uma conexão necessária entre democracia e dissidência, porque, repito, uma vez admitido que a democracia significa consenso real e não-ficção, a única chance que temos de aceitar que o consenso é real é aceitar o seu oposto".

Portanto, Bobbio disse que "só em uma sociedade pluralista a dissidência é possível; ao contrário, é não apenas possível, mas necessário."

Isto é, de acordo com Bobbio, para que haja mais democracia não se trata apenas de que a forma da tomada de decisões, quer diretamente ou através de representantes, mas sim que o poder que permite essa toma da de decisão não se encontre concentrado em poucas mãos. Por esta democratização deve ir além das instituições políticas para incluir outras áreas e atores sociais fundamentais, como os conselhos de administração de grandes empresas que influenciam nossas vidas. A única maneira de evitar a concentração de poder é através de uma sociedade pluralista, e isso só é possível por aceitar todas as opiniões e posições por muito contrárias que sejam, com a única condição de ser capaz de chegar a um consenso sincero sobre as questões-chave. Se se consegue chegar a esta sociedade pluralista se terá alcançado mais democracia.

Assim, para a reflexão de Bobbio "tudo está completo: andando o percurso em sentido inverso, a liberdade de dissidência precisa de uma sociedade pluralista, uma sociedade pluralista permite uma maior distribuição de poder, maior distribuição de poder abre a porta para a democratização da sociedade civil e, finalmente, a democratização da sociedade civil se expande e integra a democracia política".

Em suma, a democracia pode ser aumentada se somos capazes de respeitar todas as opiniões diferentes das nossas e construir uma sociedade verdadeiramente pluralista capaz de chegar a um consenso sincero, evitar a concentração de poder nas mãos de poucos. Só então cada indivíduo se verá politicamente integrado e a como as decisões são tomadas, diretamente ou através de representantes,  não será relevante.  

Os frutos da marcha do clima em Nova York

Em 21 de setembro, a cidade de Nova York foi palco da maior marcha popular pelo clima da história. Mais de 400 mil pessoas marcharam nas ruas para fazer ouvir a sua voz contra centenas de líderes mundiais que participaram da Assembleia Geral da ONU para tratar de questões relacionadas com o aquecimento global.

No âmbito da Cúpula dos Povos sobre Mudança Climática, realizada em Lima, Peru, em paralelo com a COP20 (Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas), dois organizadores da marcha em Nova York observa as conquistas deste evento.

Estela Vazquez, líder de um sindicato de trabalhadores hospitalares e de saúde do Estado de Nova York, acredita que o impacto da marcha "foi enorme, não só para os EUA, mas para todo o mundo", e que tanto a sua grandeza que superou todas as expectativas, como a sua diversidade no setor, composição geracional, étnica, que "reflete o nível de consciência de que estamos a tomar sobre as alterações climáticas, que já não são apenas os ambientalistas: são trabalhadores , enfermeiros, desempregados, são os negros, latinos, asiáticos; está-se criando uma consciência muito mais representativa e abrangente sobre o problema ", frisou. A líder sindical também observou como um resultado significativo do recente acordo entre os EUA e a China a reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa, o que era "definitivamente uma jogada política em resposto a uma mobilização em massa".

Enquanto isso, Steve Hubbard, diretor do programa sindical de uma organização ambiental dos Estados Unidos, salientou que foi um oficial da Casa Branca que confirmou essa versão: "disse que o impacto da marcha era muito grande, o que torna possível ter um acordo mais forte com a China sobre o clima" e a marcha teria ajudado a desbloquear o impasse em que os EUA se recusaram a governar enquanto a China não o fizer. "Agora, os dois países têm um compromisso público para ter uma agenda ambiciosa, se não é o suficiente para reduzir suas emissões de carbono. Isto foi possível graças às 400.000 pessoas na rua em setembro", disse Hubbard.

Em relação à fase de acompanhamento da marcha, perguntei se era um ato momentâneo, ou ajudou a revigorar a luta contra as alterações climáticas. Hubbard insiste que desencadeou um processo que vai continuar. Nos EUA, "em todo o país, a existência da aliança azul-verde (aliança azul-verde, entre os trabalhadores/  e os ambientalistas) foi uma das coisas que fez a unidade e essa história de anos de trabalho conjunto foi uma das razões para o sucesso da marcha. Estou muito otimista, porque não era algo de um dia, mas o começo de algo novo. Organizações já estão falando sobre os próximos passos: o que importa, o que coloca, e que formas de organização conjunta. Mas ninguém está questionando se deveríamos seguir em frente. Todos concordam que sim. A discussão é sobre o que e do como ..."

Vazquez diz outro elemento significativo da marcha: "Foi um esforço de transformação em termos de destacar a aliança entre ambientalistas, sindicalistas, setores da comunidade, setores que lutam por justiça ambiental em nossa comunidade, é uma parceria que pudermos realizar. Nós mostramos a todos que outras formas de trabalho são possíveis; e se somarmos todas as nossas forças, podemos conduzir as mudanças que queremos, como sindicalistas, ambientalistas, como as mulheres, como tudo o que ele representou a marcha ". Ele também enfatizou, na presença da juventude: "Era enorme e significativo, não apenas os jovens brancos, mas os jovens de todas as classes e grupos étnicos que vivem na cidade de Nova York e estados vizinhos."

Em várias partes do mundo, tem havido algumas tensões entre o movimento verde e azul, porque a defesa do direito ao trabalho, por vezes, envolve a defesa de indústrias poluentes. Pedimos aos nossos entrevistados como eles percebem essa contradição. Hubbard enfatiza a importância de defender o trabalho digno e justo, agora uma demanda da união que o movimento ambiental tem sido melhor compreendida. Ele também insistiu que "o processo neoliberal nos últimos anos, os empregos informais e precárias na nova economia, temos de mudar completamente. E eu acho que a economia de energia limpa representa uma oportunidade para mudar o modelo econômico, para lutar por um trabalho mais justo. Mas temos muito trabalho a fazer entre os movimentos ambientais para melhorar a compreensão desta parte da luta."


Autor: ALAI

Grande marcha em Lima em Defesa da Mãe Terra

Enquanto nos salões da Cúpula do clima as negociações se arrastam, a Marcha em Defesa da Mãe Terra levou milhares de pessoas nas ruas da capital peruana.



Em seu terceiro dia, a Cúpula dos Povos sobre a Mudança Climática tomou as ruas de Lima para exigir justiça climática e defender os direitos dos povos e o bem comum. Mais de quinze mil pessoas do Peru e ao redor do mundo, pertencentes a movimentos ambientalistas, mulheres, estudantes, camponeses, sindicalistas marcharam do Campo de Marte à Praça San Martin, na capital peruana, com vários slogans, canções e música. 

Chegando a Praça San Martín, representantes de organizações e movimentos sociais de diferentes países e continentes, tomaram a palavra destacando a força da mobilização e unidade atingida para esta Cúpula dos Povos sobre a Mudança do Clima.

Presente no estande, líder camponês argentino Diego Heap, e pertencente à Secretaria Operativa da Coordenação Latino-americana de Organizações do Campo, começou a se referir a unidade latino-americana: "Estamos todos aqui em um lugar lendário, porque isso é San Martín, o que torna mais de 200 anos, com Simon Bolivar também construiu a unidade latino-americana a nos libertar do imperialismo espanhol".

Referindo-se a essas negociações das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, Montón disse: "Vinde a dizer que nós não esperamos muito do que a COP 20, sabemos que esses governos poderosos, nenhum é um governo que responde aos povos, os governos são bancos, corporações. Nós não viemos para perguntar qualquer coisa a esses senhores que se escondem para fazer acordos espúrios e secretos".

Por seu lado, a coordenadora internacional da Marcha Mundial das Mulheres, a moçambicana Graça Samo, disse que as chamadas falsas soluções de têm um forte impacto sobre as mulheres: "Em todas as soluções propostas pelo capitalismo para salvar o capital, o capital financeiro, o preço é pago por mulheres, para o controle do corpo e os territórios. o roubo de nossas terras, nossos meios de trabalho, das nossas águas, florestas e mares está se tornando cada dia mais visível. "

Rádio Mundo Real

OIT: "desemprego na América Latina e Caribe continuará caindo em 2014"

Relatório da agência da ONU diz que resultado foi influenciado pelo bom desempenho do Brasil mas alerta que o índice deve aumentar no ano que vem; impacto da desaceleração econômica começou a ser sentido em vários mercados da região.
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
Desmprego nas àreas urbanas deve alcançar 6,3% em 2015. Foto: OIT














A Organização Internacional do Trabalho, OIT, afirmou que o desemprego na América Latina e no Caribe vai continuar caindo em 2014, apesar da desaceleração econômica mundial.
A conclusão consta do relatório "Panorama Laboral da América Latina 2014" lançado pela OIT. O documento diz que o resultado foi influenciado pelo bom desempenho do Brasil que conseguiu reduzir o desemprego de 5,6% para 4,9%.
Alerta
Segundo os especialistas da agência da ONU, o índice de desemprego na região este ano deve ficar em 6,1%, pouco menos do que os 6,2% registrados em 2013. A diretora regional da OIT para a região, Elizabeth Tinoco, disse que isso representa 15 milhões de pessoas sem emprego.
Mas o relatório da OIT alerta que a situação deve mudar no ano que vem. Ele explica que o impacto da desaceleração econômica já começa a ser sentido em vários mercados de trabalho.
O documento cita que a previsão de crescimento para as economias da América Latina e do Caribe, feita pelo Fundo Monetário Internacional, foi revisada para baixo e está agora em 1,3%. Mas o FMI calcula que em 2015, o avanço deve chegar a 2,2%.
A diretora regional da OIT disse que apesar de o desemprego não ter aumentado por causa da baixa economia, houve uma queda brusca na geração de novos postos de trabalho.
Segundo Tinoco, que pelo menos 1 milhão de empregos deixaram de ser criados.
50 Milhões
A OIT calcula que o desemprego nas áreas urbanas na América Latina e no Caribe deve alcançar 6,3% em 2015.
A diretora regional da agência explicou que muitos que estavam fora da força de trabalho em 2014 vão tentar voltar ao mercado no ano que vem. Somando-se a isso, ela disse, estão os jovens que entram todos os anos no mercado de trabalho.
Tinoco declarou que a região terá de criar quase 50 milhões de novos empregos na próxima década simplesmente para absorver o crescimento demográfico.

Brasil pode perder 30% de suas línguas indígenas nos próximos 15 anos

Atualmente, os índios brasileiros falam entre 150 e 200 línguas e devem ser extintas, até 2030, de 45 a 60 idiomas
O Brasil corre o risco de perder, no prazo de 15 anos, um terço de suas línguas indígenas, estima o diretor do Museu do Índio, José Carlos Levinho. Atualmente, os índios brasileiros falam entre 150 e 200 línguas e devem ser extintas, até 2030, de 45 a 60 idiomas.
“Um número expressivo de povos, inclusive na Amazônia, tem cinco ou seis falantes apenas. Nós temos 30% [das línguas] dos cerca de 200 povos brasileiros com um risco de desaparecer nos próximos dez ou 15 anos, porque você tem poucos indivíduos em condições de falar aquela língua”, alerta Levinho.
Segundo ele, desde que o Museu do Índio iniciou um trabalho de documentação de línguas dos povos originais, chamado de Prodoclin, em 2009, os pesquisadores do projeto viram dois idiomas serem extintos, o apiaká e o umutina.
“Tem também a situação de [línguas faladas por] grupos numerosos, em que você tem um número expressivo de pessoas acima de 40 anos falando o idioma mas que, ao mesmo tempo, tem um conjunto de jovens que não falam mais a língua e não estão interessados em mantê-la. Então, você não tem condições de reprodução e manutenção dessa língua. A situação é um tanto quanto dramática. Esse é um patrimônio que pertence não só à comunidade brasileira como ao mundo”, destaca Levinho.
É uma perda irreparável tanto para as culturas indígenas quanto para o patrimônio linguístico-cultural mundial. Especialistas e indígenas ouvidos pela Agência Brasil afirmam que esses idiomas, que levaram séculos para se desenvolver, são fundamentais para a manutenção de outras manifestações culturais, como cantos e mitos.
Além disso, as línguas são sistemas complexos que, uma vez estudados e compreendidos, podem contribuir para uma melhor compreensão da própria linguagem humana. Indígenas ouvidos pela reportagem também consideram seu idioma materno um instrumento de autoafirmação da identidade e da cultura.
Quem também acredita que essa extinção possa ocorrer nos próximos anos é o linguista Wilmar da Rocha D’Angelis, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do grupo de pesquisas Indiomas, especializado em línguas nativas do território brasileiro. Sua estimativa é que pelo menos 40 línguas sejam perdidas no prazo de 40 anos.
“Nenhum linguista gosta de fazer esse tipo de vaticínio, até porque nosso papel costuma ser o de contribuir para que tais línguas minoritárias se fortaleçam e desenvolvam estratégias de sobrevivência”, destaca D’Angelis. “Eu arriscaria dizer que devem se extinguir, nos próximos 40 anos, a média de uma língua por ano”, completa.
O número de idiomas falados por indígenas brasileiros varia de uma fonte para outra, já que a definição de fronteiras entre as línguas é um exercício subjetivo, que depende de fatores como critérios gramaticais, linguísticos e até políticos. D’Angelis estima que existam no Brasil entre 150 e 160 idiomas.
O portal Ethnologue.com, que funciona como um banco de dados das línguas faladas hoje no mundo, lista cerca de 170 línguas indígenas com falantes vivos no Brasil. Entre esses idiomas, 37 são considerados quase extintos, ou seja, os falantes são idosos e têm pouquíssima oportunidade de usar o idioma. Há ainda 23 línguas consideradas moribundas, ou seja, são faladas apenas pela faixa etária mais velha da população, mas ainda são usadas no cotidiano por essas pessoas.
Excluindo-se essas 60 línguas, sobram cerca de 110 que ainda são usadas pelas parcelas mais jovens da população. Mesmo assim, é preciso considerar que muitas delas têm poucos falantes. D’Angelis diz, por exemplo, que 100 línguas brasileiras têm menos de mil falantes.
O pesquisador lembra que cerca de mil idiomas indígenas brasileiros foram extintos nos últimos 500 anos. “Na esmagadora maioria dos casos, a extinção se deu junto com a extinção da própria comunidade de falantes, isto é, os próprios índios”, afirma o pesquisador.
Segundo ele, hoje o maior risco para a existência desses idiomas não está mais no extermínio da população indígena. “Ainda que se conserve, em áreas como Mato Grosso do Sul, Rondônia e algumas outras partes da Amazônia, uma situação de violência institucionalizada que ainda tem essa marca genocida, a destruição das línguas minoritárias, no Brasil atual, não depende do extermínio dos falantes. Os processos de escolarização, a exploração da mão de obra indígena e diversos programas sociais, incluindo aqueles que favorecem a entrada da televisão em todas as aldeias, vêm causando impacto considerável.”
Para o diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, no Amazonas, Isaías Pereira, quando um índio deixa de falar sua própria língua, perde-se também uma parte importante de sua cultura. “Com o descobrimento do Brasil e a colonização, desde aquela época, começamos a perder nossa cultura. A gente tem que ficar lutando para manter nossa própria cultura, nossa própria fala.”
Já o pesquisador Glauber Romling da Silva, que participa do projeto de documentação do Museu do Índio, compara a perda de uma língua à extinção de uma espécie. “Quando se preserva uma língua, se está preservando os costumes e tudo que vem junto com isso. Muitas vezes o perigo de extinção não é só na língua em si. Às vezes, a língua até mostra uma vitalidade, mas seus estilos formais, cantos, a parte cultural em que ela está envolvida somem muito rápido. De uma geração para outra, isso pode sumir”, diz.
Romling lembra que a Constituição garante uma educação diferenciada aos indígenas, com escolas próprias, que ensinem o idioma nativo. No entanto, segundo ele, há uma série de dificuldades que comprometem o ensino do idioma e até a qualidade da escola como um todo, como a falta de professores treinados e de material didático, além de problemas estruturais na própria unidade de ensino. Diante disso, muitos jovens passam a frequentar escolas urbanas.
O diretor do Museu do Índio, José Carlos Levinho, acredita que, da forma como são estruturadas hoje, as escolas nas aldeias não contribuem para a preservação da cultura e da língua desses povos.
“A educação é um processo de socialização e quando ela é mal fundamentada cria mais problemas do que soluções. Você encontra aberrações desde a maneira como as escolas são construídas até sua lógica de funcionamento. A estrutura não tem a flexibilidade necessária para dar conta daquela realidade. O grande problema na relação com os índios é não considerar as particularidades”, diz.
Segundo ele, é preciso que os governos dialoguem com os indígenas e levem em consideração a singularidade de cada povo. “É preciso enxergar o outro de verdade, respeitar o outro do jeito que ele é. E criar as condições para que se possa atendê-lo.”
A secretária nacional de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, Macaé Evaristo, diz que o governo tem buscado investir na formação de professores indígenas por meio do projeto Saberes Indígenas na Escola, para garantir que o idioma nativo seja passado para as crianças nas escolas.
“Nós organizamos redes com as universidades para atender à diversidade de línguas indígenas. Hoje no Projeto Saberes Indígenas estamos trabalhando na formação de professores em 77 línguas indígenas”, explica. “Mas é uma longa caminhada. É uma agenda complexa.”
Segundo ela, o Ministério da Educação (MEC) também tem investido na pesquisa e documentação de línguas indígenas, na preparação de materiais didáticos e na construção de escolas indígenas.
“Nós partimos do pressuposto da garantia da educação a crianças, adolescentes, jovens e adultos, independente de sua etnia em qualquer lugar do país. Nossa orientação aos sistemas de ensino é que se escute as populações no desenvolvimento do planejamento da oferta educativa. Que [os sistemas] garantam que aquelas populações que têm uma língua própria tenham acesso ao ensino em sua língua materna e acesso ao português como segunda língua”, diz a secretária.

(Vitor Abdala /Agência Brasil)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O Brasil vive um momento de golpe?

Em política os líderes não perdem o momento que lhes sabem favorável, neste momento colocam em prática a retórica adaptada, usando como o combustível, na era da mídia de massas, o escândalo midiático. O sociólogo espanhol Manuel Castells defende a tese da "Política dos escândalos" e afirma categoricamente que nenhum partido forte deixa o poder desde a década de 1990 a não ser por um escândalo.

A questão do Golpe no Brasil é relacionado ao que se chama intervenção militar e que ocorreu há 50 anos; outro é o impeachment, tendo como referência o de Collor há pouco mais de 20 anos; então, quem pressiona uma saída do PT do governo pode ter como referência um desses dois  fatos.

A América Latina ainda não têm regimes democrático consolidado como os países europeus ou os Estados Unidos, deixando de lado as discussões a respeito das plutocracias nestes países; no Paraguai o presidente Fernando Lugo foi destituído por um golpe branco (impeachment), um processo sumário armado; mas já supera  a "etapa" do Golpe Militar, ou seja, as elites golpistas não tiveram, nesse caso do Paraguai, mais cinismo para usar o método golpista militar. Em Honduras a destituição de Manuel Zelaya foi de forma mais agitada. Somente Cuba não permite funcionamento de mais de um partido.

Penso que o Brasil vai tendo uma maior autonomia do Judiciário, com o Ministério Púbico e a Polícia Federal tendo uma forte atuação no combate à corrupção, inclusive, sendo pauta das manifestações em 2013 a defesa dessa faculdade para o MP; embora tenhamos comportamento de membros do judiciário que representam nitidamente de casta, como auxílios ou autoritarismos do tipo sabe com quem está falando.

O Golpe dado por militares seria algo impressionante e fora de previsão se ocorresse no Brasil; o impeachment poderia ser em virtue de um escândalo envolvendo o chefe do executivo com um arranjo político.

Sempre se há uma forma de manter o regime, ninguém cede poder atoa; diz-se que nos Estados Unidos se assassina o presidente, algo semelhante a Roma. O Brasil de hoje é "preservado", nitidamente, pela coalizão; o que mantém um sistema corrupto, troca de favores. Não temos, ainda, a capacidade  de ter um governo, no sentido de ser formado por quem se elegeu.

Oh, Marco Silva, vai pro inferno!

"Oh, Marco Silva o telefone está tocando atende aí que é gente querendo pular" - é o que diz  uma musiquinha usada nas malfadadas campanhas eleitorais pelo interior do Brasil, apesar de a campanha deste ano ter ido embora e pensando eu só voltar a ouvir, com esperanças de que não, em 2016, eis que uma campanha para Conselho de Bairro a usou, isto mesmo, a idiotice se propaga por baixo e por cima.

Primeiro o significado: gente querendo pular significa os que votam "para não perder o voto", adiante a letrinha maldita diz, "eles estão percebendo que o barco vai afundar, por isso você também pule para o lado de cá"; não posso perder nessa e, portanto, necessito acompanhar aquele que passa a ser e que se autoexibe como o que virá a vencer.

Outro ponto: e relacionado ao anterior, o de jogo, preciso vencer essa bobagem; se alia da espetacularização e isso afeta o sujeito que acompanha aquilo que se impressiona e defende as "bondades" do que sequer conhece. 

Chacota, zombaria, é típico do Brasil comemorar vitórias eleitorais na base da ridicularização dos oponentes. As eleições municipais não tiveram interrupção nos anos da Ditadura e eram as que alimentavam a "festa do voto" no interior do Brasil, municipalidades incapacitadas dentro da federação, ominada por grupos oligárquicos fechados em seus próprios interesses e sem  "povo político" (termo de José Murilo de Carvalho), e dificuldades violentas para alguns ativistas políticos atuarem, então o que restava e ainda resta são os circos da mundiça, como se diz.

ONG's querem que agentes da CIA sejam processados por tortura

Relatório do Senado norte-americano afirma que a CIA usou técnicas “brutais” de interrogatório. Amnistia Internacional denuncia “impunidade das violações de direitos humanos” e as ONG's de defesa dos humanos pedem que os responsáveis pelas torturas praticadas pela CIA sejam punidos.

Cartoon de Carlos Latuff publicado por Opera Mundi
















Organizações de defesa dos direitos humanos juntaram-se nesta quarta-feira (10/12) à ONU e pediram que os responsáveis pelas torturas praticadas pela CIA dos EUA sejam punidos, após a divulgação de um relatório, na terça-feira (09/12), indicando que o órgão usou técnicas “brutais” de interrogatórios e enganou a Casa Branca ao omitir informações sobre como conseguia depoimentos (Ler notícia no esquerda.net: Senado dos EUA diz que a CIA torturou e mentiu aos norte-americanos).
“O relatório deixa muito claro que o governo dos Estados Unidos usou a tortura. A tortura é um crime e os responsáveis devem ser levados à Justiça”, afirmou, em comunicado, o diretor-executivo da AI (Amnistia Internacional) nos EUA, Steven W. Hawkins.
“Nos termos da Convenção das Nações Unidas contra a tortura, nenhuma circunstância excecional pode ser invocada para justificar a tortura, e todos os responsáveis pela autorização ou a realização de tortura ou outros maus-tratos devem ser investigados”, prosseguiu.
De acordo com a AI, as torturas praticadas pela CIA após os atentados de 11 de setembro de 2001 evidenciam a impunidade das violações dos direitos humanos em nome da “segurança nacional”.
A informação revelada, embora limitada, "lembra ao mundo o fracasso total dos Estados Unidos para pôr fim à impunidade desfrutada pelos que autorizaram ou utilizaram a tortura ou os maus tratos. Isto é uma chamada de atenção para os EUA, que devem revelar a verdade sobre as violações", afirmou a diretora para as Américas da AI, Erika Guevara Rosas.
A Human Rights Watch também se manifestou após a divulgação do relatório. De acordo com o jornal britânico The Guardian, a vice-diretora do escritório de Washington do grupo, Andrea Prasow, pediu que os países signatários da convenção da ONU contra tortura processem os agentes responsáveis caso eles entrem nos seus territórios.
“Outros países têm toda a informação que precisam caso queiram exercitar a jurisdição universal e processar esses oficiais caso eles apareçam nas suas fronteiras”, disse.
O atual diretor da CIA, John Brennan, reconheceu, em comunicado, que a agência cometeu “excessos”.
Ineficácia na captura de Bin Laden
As técnicas utilizadas pela agência foram ineficazes na captura de Osama Bin Laden, autor intelectual dos atentados de 2001. Desde que foi morto, em maio de 2011, o corpo dele sempre foi usado pela CIA em sua defesa. O argumento era de que, sem as “técnicas de interrogatório stressante” - nome pelo qual a agência chamava as sessões de tortura - , os EUA jamais teriam conseguido pôr as mãos em bin Laden.
Os EUA só conseguiram identificar Osama bin Laden, após ter, primeiro, localizado Abu Ahmed al Kuwaiti, mensageiro de confiança do terrorista. De acordo com o relatório do Senado, a informação sobre Kuwaiti foi obtida fora do programa de interrogatório da CIA.
Por sua vez, ex-diretores da CIA da época em que as torturas ocorreram - período entre setembro de 2001 e 2006 - afirmaram, num editorial aberto no Wall Street Journal, que as técnicas de interrogatório foram “essenciais” para defender a segurança do país e salvaram “milhares de vidas. Eles dizem que o relatório “é parcial e desfigurado com erros” e chamaram-no de “ataque partidário e mal feito”.
Artigo publicado por Opera Mundi