"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Thomas Piketty e a teoria geral do capitalismo selvagem

Por Marco Antonio Moreno em El Blog Salmon 12 de maio de 2014



Thomas-Piketty

O novo livro de Thomas Piketty, O Capital no Século 21 faz um trabalho notável para se concentrar no crescimento da desigualdade ao longo das últimas três décadas e alertar sobre o risco potencial de aumentar ainda mais nos próximos anos, se não se fizer algo para travar esta situação que ameaça empurrar o mundo para o século 19. Piketty aborda um ponto básico e simples e é quando a taxa de retorno sobre o patrimônio líquido (r) é maior do que a taxa de crescimento (g), acelera o concentração da riqueza. Isto é o que tem acontecido nos últimos 30 anos, com a implementação em larga escala dos princípios do livre mercado e da desregulamentação financeira. As falhas intrínsecas nos modelos de concorrência perfeita que ocultam assimetrias e mercados imperfeitos, têm criado um primeiro mundo na periferia do terceiro mundo e um terceiro mundo no coração do primeiro mundo.


A pesquisa realizada ao longo de 15 anos, por Piketty e sua equipe percebeu que a desigualdade está crescendo em todos os países desenvolvidos, e que  o 1 por cento da população está ficando mais rica a cada dia e que o 0,1 por cento é ainda mais rico, e que 0,01 por cento é ainda mais rico. Isso mostra que os reais benefícios do capitalismo estão em muito poucas mãos, e, caso não sejam tomadas medidas especiais, a tendência vai continuar a subir fazendo com que o século 21 se pareça com o século 19, onde as elites econômicas viveram na riqueza herdada em lugar trabalhar para isso. Para Piketty, a melhor solução seria um esforço coordenado a nível global para aplicar impostos sobre a riqueza e dar um giro nesta tendência tendência socialmente destrutiva.
Thomas Piketty é um economista francês, que na última década obteve grandes sucessos em seu trabalho com Emmanuel Saez sobre a desigualdade de renda. A dupla foi a primeira a explorar cuidadosamente os dados de impostos dos EUA para mostrar como as receitas altamente concentradas não estavam nas mãos de 10 ou 20 por cento mais ricos, mas sim em 1, 0,1, e até mesmo a 0,01 por cento. Grande parte do debate contemporâneo sobre a desigualdade é baseado na obra de Piketty e Saez, e neste novo trabalho de pesquisa têm se expandido em novos países, mostrando que o mesmo padrão se mantém. Se o livro está causando comoção é precisamente porque neste trabalho há uma grande quantidade de teoria econômica que é invalidada, especialmente uma que é implantado no mundo entre 70 e 80 e prometeu resolver os problemas econômicos para sempre.

Retrocedendo ao Século XIX

O argumento provocador de O Capital no Século 21 é que o capitalismo de mercado, incluindo o tipo de Estado social capitalista, tal como praticado na Europa, acabará por levar a uma economia dominada por aqueles que têm a sorte de nascer em uma posição de riqueza herdada. Longe de oferecer a equidade, os modelos econômicos têm reforçado a desigualdade como na lei do mais forte. O capitalismo tornou-se selvagem e predador e etá fazendo a Europa retroceder de volta ao século 19, onde a tirania da riqueza herdada existiu. A tirania que foi destruída pela devastação das duas guerras mundiais. Piketty mostra com dados precisos que essa tirania está retornando, mas desta vez em uma escala global.
Embora existam diferentes conceitos de capital circulante na literatura econômica, Piketty utiliza uma ampla definição de capital de modo que seja o mesmo que  riqueza. Tudo que seja maquinaria, propriedade, ações ou em dinheiro é o capital ou riqueza. E a riqueza está distribuída de forma muito mais desigual do que a renda. Quando em economia se toma termos com os de Pareto, caixa de Edgeworth ou Equlibrio Geral, se há que fazer a ressalva que estão sendo usadas abstrações alheias à economia real. Por que a divisão da sociedade entre proprietários de recursos (capitalistas) e aqueles que trabalham para viver (trabalhadores), não importa o quão simplista é totalmente real.

Historia da riqueza e dos salários

O Capital no Século XXI é uma exploração densa da história dos salários e da riqueza nos últimos 300 anos. Apresenta uma riqueza de dados sobre a distribuição de renda em muitos países, mostrando que a desigualdade aumentou dramaticamente nas últimas três décadas e, em breve tornar-se-á perigosamente pior. Piketty salienta que só a produtividade dos trabalhadores de baixa renda pode ser medida objetivamente. Em sua análise propõe que, quando um trabalho é replicável, como uma linha de montagem de trabalho ou em um serviço de fast food, é relativamente fácil de medir o valor aportado por cada trabalhador. Portanto, esses trabalhadores têm direito ao que eles ganham. No entanto, a produtividade das pessoas com rendimentos mais elevados são mais difíceis de se medir e muitos desses salários são em grande medida arbitrários e são o reflexo de uma "construção ideológica" em vez de mérito próprio. Esses salários mais altos geram distorções que eventualmente culminam na crise econômica.
Piketty consegue colocar no debate um tema amplamente abandonado por economistas como é a questão da desigualdade. Desde que Simon Kuznets estudou desigualdade na década de 50 do século passado, nenhum economista parecia interessado em retomar o assunto. Kuznets foi o primeiro a levantar a curva do sino invertido para a desigualdade nos Estados Unidos, mas seu relatório foi silenciado. Ele foi desaprovado a levantar esta questão durante a Guerra Fria, onde se tinha que dar uma imagem vencedora em todas as áreas de causar inveja a URSS. Em 2011, se resgatou o documento de Kuznets e um comitê economistas líderes  elegeram o documento de 1955 como um dos 20 artigos mais influentes publicados na American Economic Review.
Seis anos atrás, falamos sobre as origens da desigualdade e percebemos o aumento da desigualdade após o primeiro documento Piketty-Saez. Este novo trabalho, com grandes quantidades de dados e tabelas, se torna o relatório mais forte da desigualdade e confirma que subiu para níveis insustentáveis. Então, as pessoas deveriam repensar a maneira como as se a história econômica dos últimos 200 anos.

"Ninguém tinha notado isso antes"

A tese de Piketty sugere que a desigualdade é intrínseca ao capitalismo e, se não for resolvida de forma vigorosa, é susceptível de aumentar para níveis que ameaçam a democracia e deixa de sustentar o crescimento econômico. Embora Piketty tenha confessado que nunca leu Karl Marx, sua análise corresponde ao que o filósofo alemão previu que a desigualdade e a luta de classes marcariam o colapso do capitalismo. Marx foi um crítico da economia clássica, que apontava que a desigualdade era um processo que iria diminuir com o tempo. Robert Solow, um dos principais desenvolvedores de modelos de crescimento usou o termo "convergência" para mostrar que o desenvolvimento econômico aboliria a desigualdade. Ao conhecer o livro de Piketty, e impressionado com a comparação entre a taxa de retorno sobre o patrimônio líquido (r) e taxa de crescimento (g), Solow disse: "Eu sei, ninguém tinha notado isso antes." E é que o capitalismo tem mistérios de razão desconhecida, mas Karl Marx antecipou isso em 1848. O capitalismo descontrolado espalha desigualdade. Embora tomado como convergência a similaridade de Pequim com New York, como explicar as enormes desigualdades dentro destes dois países?

A relação r > g

Segundo Piketty, cujos dados sobre renda e riqueza abordam 300 anos e 20 países, as forças de convergência (a disseminação de conhecimentos e competências, por exemplo) são consideráveis, mas os dados de divergência têm sido tipicamente muito mais elevados. A peça central de seu argumento é a fórmula r>g, onde r representa a taxa média anual de retorno sobre o capital (ou seja, lucros, dividendos, juros e aluguel) e g representa a taxa de crescimento econômico. Durante grande parte da história moderna, a taxa de retorno sobre o capital tem sido entre 4 e 5 por cento, enquanto a taxa de crescimento tem sido decididamente inferior, entre 1 e 2 por cento. Esta operação cria uma força desestabilizadora, desde quando r>g, o capitalismo gera automaticamente desigualdades arbitrárias e insustentáveis que prejudicam radicalmente os valores meritocráticos em que se baseiam as sociedades democráticas.
Em outras palavras, em uma economia de crescimento lento, a riqueza acumulada cresce mais rápido do que a renda do trabalho. Por isso, o rico que já tem a maior parte da riqueza, fica mais rico, enquanto que todos os outros que dependem principalmente da renda do trabalho, são deslocados. Os países onde r>g constituem grande parte do mundo desenvolvido de hoje, incluindo os Estados Unidos, onde 10 por cento mais ricos captura mais de 50 por cento da renda do país, em uma proporção que está a aumentar a desigualdade de uma taxa que será insustentável no longo prazo. Para Piketty tudo isso é o resultado das teses do livre mercado, uma vez que os mercados de auto-regulação é um esquema em que r>g. Nos modelos sobrevalorizadas de crescimento de Robert Solow grande parte do crescimento foi explicada por um componente desconhecido apelidado por Solow como "resíduo". Sabemos agora que este resíduo tem um nome: a renda do capitalista. Ninguém tinha notado isso antes, como reconhecido pelo próprio Solow.
Ingreso-del-1%
Piketty encontra uma notável exceção para o reinado de r>g no período entre 1945 e 1970, a chamada idade de ouro do capitalismo, também conhecida como a "Grande Compressão", quando as economias da Europa e dos Estados Unidos expandiram-se e a desigualdade foi reduzida. Não é por acaso, diz Piketty, que este período levaria a um credo otimista da economia moderna, em que o mercado livre fornece dividendos a todos. Esse mantra era uma ilusão: visto em seu contexto histórico, a Idade de Ouro do capitalismo era apenas uma exceção temporária para o desânimo da regra r>g. Duas guerras mundiais após a Grande Depressão, acompanhados por taxas fiscais compensatórias impostas sobre os ricos para pagar o esforço de guerra, diminuiu significativamente as fortunas familiares, estreitando as heranças e temporariamente reduzindo o fosso entre as classes superiores e inferiores. Neste período houve, de fato convergência e a desigualdade experimentou um fim importante. O grande mérito da pesquisa de Piketty está mostrando tudo isto com abundantes dados históricos que são inconfundíveis. Por isso, o impacto que está a ter o livro em todo o mundo.

Piketty vai mais longe e prevê uma crítica importante da teoria econômica; "Durante muito tempo, os economistas têm procurado definir-se em termos de seus métodos supostamente científicos. Na verdade, esses métodos se baseiam em um uso imoderado de modelos matemáticos, que são muitas vezes nada mais do que uma desculpa para ocupar o terreno e mascarar o vazio de conteúdo. Muita energia foi e está sendo desperdiçada em pura especulação teórica sem uma especificação clara dos fatos econômicos que se está a tentar explicar ou dos problemas sociais e políticos que estão sendo abordados ".

Piketty tem razão em que a economia perdeu sua paixão para resolver os grandes problemas e foi no show de mídia do mascaramento do vazio. Tudo é baseado em banalidades e pequenas questões, levada ao extremo na atual Freakonomics, que aborda o comportamento dos lutadores de sumô e por que os traficantes de drogas vivem com suas mães. Quando há um desemprego de 25 por cento, que não tem saída à luz das propostas da UE na Espanha, a economia deve reorientar-se sobre as grandes questões, como o emprego e as desigualdades, e propor soluções.

Entrevista om Alain Touraine: "A educação tem que seguir dois caminhos aparentemente opostos"

Até onde você acha que deveria ir a educação no México e na América Latina nos próximos anos?

A educação tem que seguir dois caminhos aparentemente opostos, mas simultâneos. O primeiro sentido é que a educação tem que ser mais conectada, mais ligada à vida econômica, no sentido de fazer trabalhos, especialidades técnicas, e assim por diante. Isto é uma verdadeira diversificação profissional, alguma profissionalização. Em segundo lugar, de maneira aparentemente oposta, a educação deve proporcionar formação em instrumentos universais gerais, digamos de atividade intelectual, incluindo um bom conhecimento da língua nacional; conhecimentos de informática, porque o aluno de amanhã, e de hoje já, vai usar ferramentas computacionais de forma constante. Você também tem que saber, a nível internacional, o conhecimento cultural, social e histórico. Digamos, abertos para o mundo.

A primeira coisa negativa para reduzir a concentração sobre os temas nacionais de tipo específico: a história, incluindo a história literária. Isto pode parecer agressivo, mas não é de forma alguma, especialmente no caso de país de língua espanhola. Você tem sorte de ter um tipo de linguagem global; Então, conhecer o mundo hispânico, conhecer todo o mundo latino-americano, incluindo o Brasil, é muito importante, em vez de uma verdadeira história mexicana. Abrir as portas é fundamental e fazer o máximo possível por ter uma educação problemática. Existem problemas; em todos os momentos se deve escolher entre vários caminhos. Por exemplo, na esfera econômica é impossível, no momento, não abrir um debate entre o aspecto aberto da globalização liberal da economia e, opostamente, um controle social e político da economia pelo governo e autoridades públicas; você tem que levar em conta as necessidades e demandas da população. Isto é um exemplo típico do aspecto problemático.

Em suma: os dois sentidos mais importantes da educação são: em primeiro lugar, ser problemático, e, segundo, ser pró-ativo (pronto para a ação); que sempre que uma opinião ou análise é emitida, saber o que pode ser as consequências práticas. Se você falar de urbanização e seus efeitos, devemos intervir em que sentido?, Que tipo de transformação, mudança e desenvolvimento urbano deve ser incentivado? Ou, em termos de migração: é bom ou ruim? Muito trabalho tem sido o assunto da fronteira com o México. Falou-se da cultura da fronteira. A questão dos migrantes e agora a questão do retorno de alguns migrantes para o México; a importância das remessas; o problema da dupla cultura ... Tudo é exatamente o que eu chamo de uma educação problemática ... é de fazer um esforço para apresentar um tema e não um conjunto de fatos, mas como um conjunto de decisões a tomar, de política que desenvolva, selecione e execute.

Poderia nos falar de alguma outra ferramenta que você considera essencial?

Há elementos de tipo matemático e tipo de linguagem; obviamente, em um país como o México, que tem todo o seu comércio com os Estados Unidos que faz fronteira com isso, os mexicanos têm de aprender Inglês, por suposto o espanhol e, claro, este último aberto para o continente, bem como um mínimo de conhecimento matemático, no sentido de ter uma consciência da realidade, o cálculo; por exemplo, no aspecto estatístico, na verdade, ser capaz de medir a realidade e problemas. Não quer dizer que há muitos, mas há dois milhões e meio. O aspecto estatístico parece importante para conhecer a realidade.

Eu diria que hoje é impossível não incorporar em um programa de educação a análise aprofundada de alguns problemas fundamentais, tais como o tráfico de drogas e a violência, a violência urbana, em particular. É uma coisa inegável. Um jovem mexicano tem que pensar nisso: por que tanta violência, de onde, vem tráfico de drogas é como se pode evitar ou eliminar? Em suma, é um problema que não há que se adivinhar; É um problema cívico. É o que eu chamo pró-ativo, quais são as consequências se eu falar de drogas?, Que é o debate que deve ser aberto? Que é a área do problema; novamente, eu acho que é muito importante.

Entrevista por: Lizeth Arámbula na revista Sinéctica

Alain Touraine. Sociólogo francês cuja trajetória intelectual e de produção científica tem impacto significativo sobre as ciências sociais na Europa, EUA e América Latina. Professor Visitante na Universidade de Columbia e ensina na Universidade de Nanterre, foi diretor do Centre d'Etudes des Mouvements Sociaux Paris (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales). Seu trabalho tem incidido sobre o problema da reflexão social: a relação indivíduo-sociedade. 

Alain Touraine - A Recuperação da América Latina

Artigo de 2006 quando a economia da região crescia a níveis elevados e a Argentina se recuperava

Tínhamos perdido o hábito de falar da América Latina em termos de crescimento e desenvolvimento; as desigualdades sociais e a dívida externa monopolizaram a nossa atenção. Mas eles começaram a ser vistos por toda parte por índices de crescimento extraordinários e, portanto, uma situação que está mudando, mas em um sentido que não estava previsto.

Para definir a situação atual é necessário considerar, pelo menos, duas outras dimensões, ambas políticas; a primeira é a deterioração brutal da imagem dos Estados Unidos, especialmente desde que a guerra do Iraque começou. Algo que parecia evidente até recentemente, a adesão unânime ou quase unânime ao Tratado da Alca [Área de Livre Comércio das Américas], agora parece improvável. Dado que a América Latina não é de todo uma região prioritária para os Estados Unidos, a margem da iniciativa do continente está crescendo. As maciças compras por parte da China continuarão a impulsionar o crescimento e os preços, embora o seu impacto esteja a diminuir.

Neste momento, a  Argentina, especialmente os pampas úmidos, está coberta com a soja, que se tornou o símbolo do crescimento de 9% em três anos e já sofreu apenas uma leve diminuição. A Argentina já recuperou metade do terreno perdido desde 2001, e, embora a pobreza extrema continue patente, torna-se possível a construção de uma política de futuro em um país que goza de considerável superávit fiscal e está a reduzir a sua dívida e pode pensar, como faz o seu presidente, adquirir ferramentas de gestão e governo que não tem e cuja falta mantém o país paralisado. Além disso, estes novos recursos permitem que Kirchner aceite presentes perigosas de Chavez porque dispõe de mais instrumentos próprios.

Pode-se tirar uma conclusão semelhante no que diz respeito ao Brasil, onde a situação de Lula melhorou. Os erros graves do PT tinham reduzido bastante as suas chances de ser reeleito porque o país sentiu a necessidade de uma melhor gestão do governo e pensou que Serra poderia fornecê-la. Hoje, essa preocupação não é tão presente e o poder carismático de Lula recuperou sua importância. Sua vitória mais uma vez parece possível, embora o seu adversário ainda tenha muita força pelas garantias oferecidas pelos seus concorrentes.

O fato de que Chávez tem uma enorme influência em quase toda parte e reviveu os temas da época de ouro do regime de Castro não impede que a riqueza do petróleo tem menos poder sobre um país em pleno crescimento contra um país sufocado pela dívidas e estagnação. Ainda hoje a Bolívia parece ter um futuro mais forte do que o previsto, com mais capacidade para desenvolver um plano continental de utilização de seu gás.

No entanto, agora é necessário ir além dos benefícios de uma situação favorável e trabalhar para melhorar o funcionamento das economias e das sociedades. E a este respeito, a realidade não é tão rósea. O Chile é o único país que possuiu meios de gerenciamento de categoria internacional, embora a sua política de educação é insuficiente e contribui para as desigualdades crescentes. O resto do continente não se comporta como uma região moderna, especialmente no campo da inovação e da investigação. O Estado de São Paulo, no Brasil, é o único dotado de equipamentos que lhes permite exportar produtos de alta tecnologia.

Mas vamos ser otimistas; a calmaria atual permite. É possível que a América Latina entre num período em que, com o impulso do crescimento e seus próprios esforços para a boa gestão, seja capaz de abordar de maneira concreta e eficiente a desigualdade social terrível que é a principal forma de obstáculos para realizar uma transformação duradoura.

Alain Touraine é um sociólogo e diretor do Instituto de Estudos Avançados em Paris. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

DSK, Blair, Geithner, Rubin: da política à finança

Alguns políticos de primeiro plano são recompensados com cargos no setor privado, depois de executarem os recados encomendados pelo grande capital. É caso para se falar de verdadeiros vasos comunicantes e transparentes. 

Por Éric Toussaint

Tony Blair faz excelentes negócios com a Arábia Saudita. Na foto, Tony Blair com o rei da Arábia Saudita, Abdullah
Os laços estreitos entre os governantes e o grande capital já nem sequer são disfarçados. À cabeça de diversos governos, em postos ministeriais importantes ou na presidência do Banco Central Europeu (BCE), encontramos figuras diretamente saídas do mundo da alta finança, a começar pelo banco de investimento Goldman Sachs. Alguns políticos de primeiro plano são recompensados com cargos no sector privado, depois de executarem os recados encomendados pelo grande capital. É caso para se falar de verdadeiros vasos comunicantes e transparentes.
DSK
O socialista francês Dominique Strauss-Kahn (DSK), ministro da Economia e das Finanças em finais dos anos noventa, mais tarde diretor-geral do FMI (2007-2011), tornou-se em 2013 presidente do conselho de administração do Grupo Anatevka, rebatizado Leyne, Strauss-Kahn and Partners, Compagnie Financière (LSK), para desenvolver a atividade de banco de investimentos internacionais. Depois de ter sido obrigado a demitir-se do FMI em 2011, acusado de agressões sexuais, DSK passou a conselheiro de vários governos estrangeiros, nomeadamente os da Sérvia e do Sudão do Sul, e de umas quantas empresas, como o banco russo de desenvolvimento das regiões, o Russian Direct Investment Fund, a National Credit Bank e um consórcio de bancos marroquinos. A LSK, antiga Anatevka Compagnie Financière, tem uma centena de empregados espalhados por seis países (Luxemburgo, Bélgica, Mônaco, Israel, Suíça, Romênia), alguns deles paraísos fiscais evidentes. Golpe de teatro, a 23 de outubro de 2014: Thierry Leyne, sócio de DSK, suicida-se em Telavive. DSK declara logo a seguir: “Thierry Leyne tinha montado uma companhia financeira que tratava essencialmente da gestão de ativos. Não havia um departamento de banco de investimento. Competia-me a mim criá-lo, vocacionando-o para o aconselhamento aos governos e acessoriamente às empresas”. Acrescenta que Leyne “tinha contraído uma série de empréstimos excessivos” e tinha “uma reputação duvidosa”. DSK afirma que tinha sido atraído pelo facto de o homem de negócios “ter feito no passado algumas boas operações, com as empresas que ele tinha criado e revendido a grandes bancos”. Interrogado pela AFP sobre a presença de dinheiro sujo nalgumas sociedades do grupo LSK, o antigo chefe do FMI declara: “não tenho conhecimento”1. Dominique Strauss-Kahn tinha abandonado a presidência do LSK três dias antes do suicídio do seu sócio. A 3 de outubro de 2014, a justiça luxemburguesa tinha condenado o grupo LSK, a sua filial Assya e o seu principal acionista Thierry Leyne a pagar 2 milhões de euros à seguradora Bâloise-Vie Luxembourg, que desde julho de 2014 reclamava o reembolso de títulos do grupo LSK que tinha em carteira. No início de novembro de 2014, a sociedade LSK publica um breve comunicado, anunciando que a partir dessa data suspende os pagamentos, do qual citamos um breve trecho: “Após o desaparecimento trágico de Thierry Leyne, presidente em exercício, os membros do conselho de administração da sociedade LSK descobriram compromissos suplementares no seio do grupo, dos quais não tinham conhecimento e que agravam a sua situação financeira, que era delicada. (…) O conselho de administração concluiu que estas novas informações vinham pôr em causa a continuidade da sociedade LSK, cujo crédito está irremediavelmente comprometido. Por consequência, decidiu proceder à declaração de suspensão de pagamentos da sociedade.”2. A 7 de novembro de 2014, o tribunal de comércio do Luxemburgo declarou a falência da sociedade. DSK e Leyne projetavam, nomeadamente, lançar o DSK Global Fund, um hedge fund, que se destinava a especular com divisas, commodities e taxas de juro3. Este fundo de especulação pretendia reunir 2 mil milhões de dólares prioritariamente angariados junto de investidores dos países emergentes, incluindo a China.
Contrariamente às aparências, o que acabamos de descrever não é tirado de um novo filme de Oliver Stone, continuação de Wall Street, o filme Le retour du loup de Wall Street de Martin Scorsese ou do filme O Capital de Costa-Gavras4. Trata-se de factos retirados em 2014 do capitalismo real. É verdade que não abriram telejornais, nem foram manchete de jornais.
Tony Blair
Primeiro-ministro do Reino Unido de 1997 a 2007, Tony Blair teve sucesso nos negócios. Calcula-se que em 2013 já tinha acumulado uma fortuna de 30 a 60 milhões de libras esterlinas ao especializar-se em trading. Dirige um conjunto de pequenas sociedades sediadas num só edifício de cinco andares, em Grosvenor Square, no coração dos quarteirões diplomáticos de Londres. Aí, uma centena de pessoas dispõem de escritório, entre as quais, o antigo diretor do banco de investimento Barclays Capital, David Lyons, que dirige Firefush Ventures, o ramo financeiro popularmente conhecido por “Tony Blair Inc”. Entre os colaboradores de Blair, conta-se também um antigo quadro da Lehman Brothers e outro proveniente do JP Morgan. Além disso, Tony Blair preside ao conselho internacional de conselheiros do JP Morgan5! Por outro lado, Tony Blair faz excelentes negócios com a Arábia Saudita6 e criou várias fundações... filantrópicas, pois claro!7
Last but not least, desmultiplica-se em declarações a favor da União Europeia8.
Tim G e Robert R
Do outro lado do Atlântico, Tim Geithner, ex-ministro das Finanças de Barack Obama, tornou-se presidente em 2013 de Warburg Pincus, um banco de investimento de Wall Street.
Antes dele, Robert Rubin, antigo ministro das Finanças do presidente Bill Clinton, tinha-se juntado à direção do Citigroup em 1999, depois de ter feito aprovar no mesmo ano a revogação do Glass Steagall Act (o que permitiu a criação do Citigroup!). O Citigroup pagou-lhe, entre 1999 e 2008, 166 milhões de dólares, a pretexto de variadas remunerações9.
Como se vê, passadeiras não faltam entre a política e a alta finança. E todas elas chorudamente remuneradas...
Artigo de Éric Toussaint, publicado em cadtm.org. Tradução para português de Rui Viana Pereira, revisão de Maria da Liberdade

1 Ver: Les Échos, “Affaire LSK: DSK charge son associé”, 30-10-2014,http://www.lesechos.fr/finance-marc...
2 Le Monde, “LSK, l’ancien fonds d’investissement de DSK, se déclare en cessation de paiements”, 5-11-2014, http://www.lemonde.fr/argent/articl...
3 Financial Times, “Strauss-Kahn to launch fund”, 21-03-2014.
5 Financial Times, “Fine dining for Dimon at the Palace”, 23,24-11-2014.
6 http://www.dailymail.co.uk/news/art... consultado em 2-12-2014.
7 Ver o sítio oficial de Tony Blair que põe em destaque as suas boas obras:http://www.tonyblairoffice.org/
8 Ver entrevista no France Inter: www.franceinter.fr/emission-...
9 Ver a este propósito Damien Millet e Éric Toussaint, La Crise, quelles crises?, Aden, 2009, cap. 4, p. 58-59.


Eric Toussaint
Politólogo. Presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Vicenç Navarro: Por que crescem as desigualdades de renda?

Artigo publicado por Vicenç Navarro na coluna “Dominio Público” no diario PÚBLICO, da Espanha 25 de dezembro de 2014.

Existem muitas teorias que tentam explicar por que desde os anos 1980 a desigualdade na maioria dos países de ambos os lados do Atlântico Norte têm vindo a crescer, atingindo o seu pico durante os anos da Grande Recessão, ou seja, a partir de 2007. É importante notar que, enquanto a desigualdade de renda atingiu níveis sem precedentes nos últimos anos, este crescimento tornou-se mais pronunciado desde os anos oitenta.

Infelizmente, grande parte dos analistas da crescente desigualdade se concentraram em causas econômicas - como a globalização da atividade econômica ou a introdução de novas tecnologias - sem dar a devida importância para as causas políticas, que têm sido as determinantes. E entre elas, o conflito entre as instituições que promovem e defendem os interesses do capital e aquelas que defendem os interesses do mundo do trabalho, é central. Você não pode compreender a distribuição de renda em um país sem entender o conflito entre o primeiro e segundo.

E o fato de que isso seja assim é precisamente que as principais fontes de renda em qualquer país são provenientes ou da propriedade de capital ou os decorrentes do trabalho. Por isso, quando analisamos a distribuição de renda é importante saber suas fontes.

O grupo de pessoas, em qualquer sociedade, que deriva a maior parte de sua renda da propriedade do capital (o que foi chamado d classe capitalista, um termo que não é usado por ser agora considerado "antiquado") é muito pequeno. Não mais do que 1% da sociedade. Daí o Occupy Wall Street EUA (que foi inspirado pelo movimento 15-M da Espanha) deve referir-se a este grupo como o 1%, um termo que tem substituído o termo anterior. Na verdade, este 1% inclui não apenas os grandes proprietários de capital, mas também os gestores do capital (por exemplo, banqueiros).

Porque  que o crescimento da desigualdade começa a partir dos anos oitenta?

Se olharmos para os dados dos Estados Unidos, podemos ver que 1% com maior renda do país cresceu de 8% de todos os rendimentos em 1979, para 17% em 2007. Por que esse crescimento ocorreu de forma tão notável? Por que não aconteceu antes? A resposta a essas perguntas são respostas políticas voltadas para o conflito entre o mundo do capital e do trabalho. Nos EUA, como na maioria dos países da Europa Ocidental, o mundo do trabalho foi ganhando força e poder após a Segunda Guerra Mundial e, portanto, a renda do trabalho aumentou até que representasse quase 75% do todos os rendimentos. Isto resultou em uma resposta do mundo do capital para tentar reverter esta situação. A eleição do Presidente Reagan nos EUA e Mrs Thatcher no Reino Unido foi o início desta resposta, aplicada a política pública - conhecida como neoliberal - que visava aumentar os ganhos do capital à custa dos rendimentos do trabalho. E eles fizeram isso! Em 2012, os rendimentos do capital tinham subido para 48% da receita total, enquanto o do trabalho caiu para 52%. O que agora se apresenta como causas da desigualdade crescente - como a globalização e as mudanças tecnológicas - são, na verdade, os sintomas e não as causas dessa enorme mudança no equilíbrio de poder entre capital e trabalho. O fato de que há países muito globalizados - como os países escandinavos - que continuam a ter salários mais altos e um extenso estado de bem-estar, mostra que o ponto-chave não é a globalização em si, mas como, o que depende da relação de forças em cada país na relação entre capital e trabalho. Tanto a mobilidade do capital, como o movimento dos trabalhadores e/ou postos de trabalho são variáveis políticas que podem (se houver vontade política) influenciar-se. Acreditar que nada pode ser feito contra fatores exógenos, como a globalização é cair em um determinismo econômico, levado a extremos, leva à eliminação da democracia, o que é mais do que surpreendente que tenha sido aceite por forças que foram historicamente consideradas como instrumentos no mundo do trabalho. A mudança da Constituição espanhola, o artigo 135, é um exemplo desse determinismo econômico.

O capital cresce à custa do mundo do trabalho

Sou consciente de que quando indico que o crescimento dos rendimentos do capital tem sido feito à custa dos rendimentos do trabalho, eu estou abrindo uma janela para aviltamento e respostas hostis (na sua maioria provenientes de instituições como Fedea, financiada pelo Mundo do capital). Os dados, no entanto, falam por si. Vamos vê-los nos EUA, onde há mais informações sobre estes eventos.

Desde os anos oitenta, os rendimentos do capital subiram, e os do trabalho têm vindo a diminuir. E não foi por acaso. Se o leitor olhar como evoluiu a produtividade do trabalho (medida pelo produto produzido em uma hora de trabalho), você verá que, durante os anos quarenta aos anos sessenta, a produtividade aumentou em 3% ao ano (em média), o o mesmo percentual que o aumento dos salários (medida pelo salário por hora), o que explica a quase uma continuidade na distribuição de renda. Como afirmado por Alejandro Reuss na revista Dollars and Sense (Novembro/Dezembro de 2011), durante este tempo o bolo foi aumentando na mesma proporção que o aumento dos salários, com o qual lo percentual que os salários representavam do total das rendas permaneceu a mesma.

Mas se analisarmos a evolução da produtividade a partir dos anos oitenta, vemos que a produtividade do trabalho cresceu 2% ao ano, mas o salário por hora cresceu apenas 1%. O gap (a distância) entre o que o trabalhador produz e o que é pago aumentou, de modo que a distribuição da riqueza produzida foi feita em favor do capitalista (perdão para usar um termo tão desatualizado para definir quem tem a propriedade da emppresa) em detrimento do trabalhador, que receberam menos de compensação. E é aí que reside a raiz do crescimento da desigualdade, da qual ninguém fala.

E se isso não bastasse, a enorme expansão dos serviços bancários (em parte resultado da enorme dívida da classe trabalhadora, derivada da diminuição dos salários), que chegou a um nível claramente hipertrófico (o tamanho do setor bancário na Espanha é 3 vezes superior - em termos proporcionais - ao existente nos EUA) desencadeou ainda mais o crescimento da renda do capital, tanto dos proprietários (acionistas) e seus gestores (os banqueiros).

conclusão

Daí a enorme importância que se acentue a urgência de reverter o equilíbrio de poder em favor do mundo do trabalho, em detrimento do capital mundial (hoje com a hegemonia do capital financeiro). E é isso que nós fizemos Juan Torres e eu no documento que estamos preparando para o Podemos. Os problemas econômicos que existem em Espanha e na Europa são devidos ao poder excessivo e hipertrofiado e a influência que os poderes financeiros e econômicos sobre a grande maioria dos meios de comunicação e persuasão (incluindo Fedea) e suas instituições políticas. Como diz meu professor Gunnar Myrdal, todos os problemas econômicos são essencialmente problemas políticos. Tão claro.

Vicenç Navarro foi Catedrático de Economia Aplicada na Universidade de Barcelona. Atualmente é Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha). É também professor de Políticas Públicas em The Johns Hopkins University (Baltimore, EUA) onde tem sido docente durante 45 anos. Dirige o Programa em Políticas Públicas e Sociais patrocinado conjuntamente pela Universidade Pompeu Fabra e The Johns Hopkins University. Dirige também o Observatorio Social de España.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A economia dos EUA termina em alta; a do Reino Unido menos

À medida que avançamos para o intervalo do feriado cristão, as principais bolsas de valores do mundo estão atingindo recordes históricos. O índice norte-americano S&P-500 teve apenas sua 51ª alta fechamento do ano. O S&P500 já recuperou 11% desde que atingiu uma baixa recente no meio de outubro, após o colapso dos preços do petróleo e uma crise da dívida temida na Rússia (ver o meu post, http://blogacritica.blogspot.com.br/2014/12/o-petroleo-o-rublo-e-o-fantasma-da.html) . Depois de Janet Yellen, o chefe do Fed dos EUA, anunciar que o Fed não teria correção de sua 'taxa de juro de política" por pelo menos seis meses, os investidores em ações renovaram a sua confiança na continuação do dinheiro barato para investir.

Agora, a revisão final sobre o crescimento do PIB dos Estados Unidos para o terceiro trimestre de 2014 que terminou em Setembro foi liberado. Ele veio em um 5% (anualizado) subindo em relação ao trimestre anterior, o crescimento trimestral mais rápido em mais de uma década. Naturalmente, isso tem sido anunciado pela maioria dos analistas como um sinal de que a economia dos EUA já está definida para o rápido crescimento sustentado em 2015 e, finalmente, podemos falar sobre o fim da fraca "recuperação" desde 2009.

Bem, não se pode negar que a figura do headline é impressionante. Mas, como é frequentemente o caso, o diabo está nos detalhes.Sim, o gasto real domiciliar foi a partir de uma taxa anual de 2,5% no 2º trimestre de 2014  a 3,2%. Mas o investimento empresarial cresceu a um ritmo mais lento (embora a 8,9%) em relação ao Q2 (9,7%). O palhaço no bloco eram os gastos do governo, que subiu 9,9% em relação a um decréscimo de 0,9% no Q2. E a principal razão para isso foi um enorme aumento nos gastos de defesa, de 0,9% no 2º trimestre para 16% em Q3! Os gastos do governo contribuíram 0,8% pontos do aumento anualizado de 5% no Q3. A contribuição média do governo desde 2010, foi inferior a zero. Sem esse grande salto no gasto de armas, o crescimento real teria sido mais lento do que no Q2 de 2014.

E valores trimestrais anualizadas são enganosos. Eles dizem o ritmo atual de mudança, mas não como o PIB real é muito maior em comparação com, digamos, um ano atrás. Até o final de setembro de 2014, a economia dos EUA foi maior em termos reais, em comparação com um ano atrás por apenas 2,7%. Isso não é ruim em comparação com outras grandes economias capitalistas, mas dificilmente um ritmo alucinante - e ainda abaixo da média de longo prazo.

Além disso, a taxa de crescimento prevista para o último trimestre deste ano findo em 31 de dezembro deve ser muito menor do que os 5% acabado de anunciar. Os dados relativos ao último trimestre sobre a economia dos EUA apontam para um crescimento mais lento, com as vendas de casas novas caindo em novembro (como é, o investimento em casas tem sido fraco). Os gastos com o investimento das empresas também caiu em novembro. No entanto, os gastos dos consumidores apanhados com a queda nos preços da gasolina a partir do colapso do preço do petróleo. Se assumirmos, dizer 2,5% de crescimento anual no Q4, então o crescimento anual em 2014 vai acabar por cerca de 2,4%. O gráfico abaixo mostra que isso é muito bonito, onde o crescimento econômico tem sido desde o fim da Grande Recessão.

Crescimento dos EUA YOY

E mais ou menos ao mesmo tempo, o Reino Unido anunciou seus números revistos para o crescimento real do PIB no Q3 de 2014. Este veio em 0,7% acima do Q2 (ou um anualizado de 2,8%). Novamente não ruins, mas as previsões anteriores para o PIB foram revistas para baixo e, como resultado, o PIB real do Reino Unido foi reduzido em relação à estimativa anterior de 3,0% para 2,7% - exatamente o mesmo que o crescimento dos EUA. É agora claro que o Reino Unido não vai conseguir se orgulhar de crescimento de 3% do chanceler Osborne em 2014, quando os dados do Q4 entrarem. De fato, sua afirmação de que a economia do Reino Unido terá o mais rápido crescimento do G7 em 2014 está agora sob desafio.

E a verdade é que a "recuperação" no Reino Unido desde a Grande Recessão continua a ser a mais fraco das últimos quatro recessões.

PIB trimestre a trimestre crescimento de pico para anterior e mais recentes crises econômicas
Recuperação Reino Unido
Fonte: Instituto Nacional de Estatística

É claro que a maioria dos comentadores esperam um crescimento mais rápido em 2015, tanto para os EUA como para o Reino Unido. Mas essa previsão depende principalmente de o consumo das famílias ficar firme e o investimento das empresas terem crescimento acelerado. No Reino Unido, no Q3, o investimento das empresas aumentou 5,2% em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, mas caiu em relação ao Q2 de 1,4%, com uma queda significativa nos chamados produtos de propriedade intelectual (-1,3%).

A realidade é que o crescimento econômico do Reino Unido continua a ser distorcido para um boom de consumo baseado no crédito e subsídios governamentais baratos para o mercado imobiliário residencial. O aumento dos preços das casas e taxas de empréstimos do fundo do poço tem incentivado um nível de gastos por aqueles que trabalham. Como resultado, o crescimento real do PIB foi impulsionado principalmente pela construção (casas e escritórios). A atividade da construção cresceu o dobro da taxa de serviços no terceiro trimestre, enquanto a fabricação e produção defasada.

O crescimento do setor UK

Os preços das casas no Reino Unido têm crescido a uma taxa anual de 8% ou mais nos últimos 12 meses, de acordo com a Nationwide. Este tem empurrado para cima os valores da terra e beneficiado os promotores imobiliários que contratam engenheiros e arquitetos.

Reino Unido crescimento dos preços casa

O crescimento das manufaturas tem sido fraco e o crescimento das exportações tem sido terrível. No Q3, o Reino Unido acumulou um déficit enorme, com o resto do mundo (£$ 27 bilhões) quanto as importações de consumo superou as exportações e de renda e investimento estrangeiro caiu.

O mais importante, o investimento das empresas do Reino Unido, embora tenham aumentado em termos reais, se não recuperam em relação ao PIB.

Reino Unido ônibus inv-PIB

Como resultado, a produtividade permanece abaixo do nível alcançado antes da Grande Recessão.

UK produtividade

O setor corporativo dos EUA tem desfrutado de altas margens de lucro recorde.

As margens de lucro dos EUA

Mas apesar de as margens serem altas, a rentabilidade está sob pressão como as empresas aumentam o investimento. Na verdade, o total de lucros corporativos estão agora quase não subindo, em apenas 1,4% no 3º trimestre de 2014. Se eles param de subir, então o crescimento do investimento empresarial, longe de aceleração para sustentar o crescimento real do PIB, irá contrair.

US inv ônibus e os lucros

Por esta altura no próximo ano, o PIB real dos EUA pode estar sofrendo de uma queda do investimento e aumento das taxas de juros (se o Fed mantém com o seu plano).

Vou discutir os EUA e a economia mundial em 2015, com mais detalhes no meu post final deste ano, na próxima semana.

Artigo de Michael Roberts em http://thenextrecession.wordpress.com/

Agassiz Almeida: Maria do Carmo Aquino, a intimorata

Maria do Carmo Aquino veio para a vida e a viveu sem se curvar ao deus dólar e dela partiu sem pedir licença ao Deus das religiões. Abominava os cretinos que se transvestiam de democratas para melhor sangrar os povos.
Não conseguindo assistir o nosso país vencer uma estrutura sociopolítica de séculos de espoliação, recolheu-se à ilha de Itamaracá, PE e de lá bradava: “Não serei conivente com a patifaria de um capitalismo cruel que faz dos povos rebanhos humanos e do capital um mito”. Assim, aquela valente se indignou até o último suspiro de vida.
No dia anterior ao seu falecimento, ouço a sua palavra por telefone: “Agassiz, fui convidada para falar sobre o teu livro ‘A ditadura dos generais’, em Recife. Que obra esta tua! É um anátema eterno contra os tiranos”.
Esta grande indignada irrompeu para a vida descendente de uma cepa de indomáveis resistentes, da qual se irradiou têmpera de fortes personificados em Osmar de Aquino e Laura Aquino.
Carregava-se da avidez de um ideal por justiça, da dissecação dos fatos e uma força voluntariosa de lutar. No seu rosto, liam-se os sentimentos de irresignação contra as atrocidades sociais. “Que crueldade os camponeses carregarem cinco séculos de latifúndio”.
Ao olhar milhares de camponeses num encontro em Sapé, PB, vergastava: “Não se pode conviver com uma sociedade na qual os trabalhadores do campo são relegados a párias”.
Trazia consigo uma força ingente em defesa dos injustiçados, e desta forma ela soube compreender a natureza humana: Fez-se forte e não autoritária; enérgica sem ser prepotente.
Dois impulsos moviam aquela personalidade que ora tomba no chão da História: o sentimento do mundo pelas liberdades e a luta em favor de milhões de camponeses cujo fardo de cinco séculos arrastam pelos rincões da América Latina. Frente a estes desafios construiu o seu templo de vida.
Certa vez, me disse tocada de indômita revolta: “Prefiro as tempestades da liberdade do que o silêncio e o conforto do oportunismo”.
Aquela combatente simbolizou o espírito de luta do seu tempo. Predestinou-se a enfrentar forças poderosas, sem temer adversidades. Acreditava no amanhã dos povos. Arrebatava-a um turbilhão revolucionário, e assim abraçou as grandes causas. Depois do golpe militar de 64, tornou-se feroz contra os torturadores ante os quais vituperava: “Não suporto pisar o mesmo chão destes infames”. Que valente guerreira!
Viandante incansável pelos caminhos da vida viajava muito. De Cuba para Moscou e de lá descortinou o mundo sem jamais ensarilhar as armas contra qualquer tipo de tirania.
               Nas horas tempestuosas o que aquela filha de Guarabira nos legou? A altivez de jamais ceder aos lacaios.
Quando a covardia humana pelas garras militares encurralava a nação, Maria do Carmo Aquino ergueu a sua fortaleza de resistência na ilha de Itamaracá, e de lá soltava os seus petardos contra os tiranos. Que segurança ela nos passava. Transfigurava-se numa verdadeira “La Passionaria” da Guerra Civil Espanhola! Lá estávamos nós tocados por seu olhar imperativo: Gregório Bezerra, Osmar de Aquino, Francisco Julião, Agassiz Almeida, Abelardo da Hora, Clodomir Morais, Edval Cajá, Assis Lemos e tantos outros companheiros.
No seu mundo de Itamaracá onde conviveu com os trabalhadores do mar - se fez quase um personagem mítico de Hemingway - ouvia relatos fascinantes sobre o universo das águas e, desta forma, abria diálogos oceânicos com os pescadores.
Que fiquem estas palavras à guerrilheira que partiu: os fanfarrões e os degradados morais passam no cotejo interminável dos dias, a história marca os passos dos fortes, e entre estes lá está o nome de Maria do Carmo Aquino de Araújo.



Obs.: Agassiz Almeida é escritor, ativista dos direitos humanos, deputado federal constituinte de 1988, autor das obras “500 anos do povo brasileiro”, “A república das elites”, “A ditadura dos generais”; e recentemente lançou o livro “O fenômeno humano”. É considerado pela crítica como um dos grandes ensaístas do país (Dados colhidos na Wikipédia).

Manuel Castells: O genoma e a humanidade


Já temos um mapa do que nós somos. É o genoma humano, aproximadamente 30.000 genes que em conjunto, e de acordo com a estrutura do ADN, definem o que somos biologicamente. A interação com a vida e o meio ambiente define a personalidade e, por conseguinte, o ser individual. Mas a base biológica da humanidade está em suas preliminares, identificada. Eu sou um cientista social, e não os outros. Portanto, não posso explicar seriamente o que isso significa. Mas posso dizer-lhes algumas implicações que podem ser do seu interesse.

A primeira consequência é sobre a própria biologia - fora dela - e sobre a ciência em geral. Acontece que, em vez dos 100 mil genes que se suponha termos, temos apenas cerca de 30.000. Ou seja,  300 genes a mais do que ratos, pouco mais do que o da mosca, pouco mais do que o do verme e se supõe que quando identificamos o genoma dos macacos estaremos parelhos. Portanto, a nossa diferença (e provavelmente todas as espécies) não está nos genes, mas na interação entre os genes. Na complexidade das redes de intercâmbio. Adivinha-me? Há um tempo, Fritjof Capra, um físico teórico, e na minha opinião, o teórico fundamental da teoria da complexidade, propôs a hipótese de que (em tradução minha) a teoria genética atual era uma farsa mecanicista. Os genes só funcionam quando e como eles se relacionam com os outros. Como nós no fundo. São as redes entre genes que por sua interação biológica ao longo do tempo, têm gerado vida através de propriedades emergentes da matéria. Uma vez comprovado que o nosso estoque genético é relativamente pobre, ou nos reduzimos a vermes ou aceitamos a ideia de que nossa natureza biológica (e não apenas a nossa sociedade) depende da nossa interação interna, social e com o nosso meio ambiente. O que altera a biologia e em grande parte a ciência em geral: passamos (ou, se quiserem, aceleramos a transição) do elementar ao relacional. Especificamente: como vivemos determina o que somos.

A segunda grande lição é como chegamos a mapear o genoma humano. Mas é uma lição de surpresas. A ciência pública tomou a iniciativa. Um consórcio de cooperação científica internacional, liderada e financiada por instituições nos Estados Unidos e no Reino Unido, envolvendo cientistas e centros de pesquisas norte-americano, europeus e japoneses, colaboraram com o programa Genoma Humano, lançado em 1990. Mas, em meados da década de 90, os cientistas-empreendedores que abundam nos Estados Unidos perceberam o potencial comercial do projeto, ao mesmo tempo que identificaram o seu ponto fraco. Identificar os genes que compõem os nossos corpos pode identificar suas irregularidades; portanto, suas doenças, e, por conseguinte, a cura. Vender a vida é o maior negócio possível, como sabem as companhias de seguros de saúde. Por outro lado, o projeto público tinha dois problemas típicos de qualquer empresa pública: a fragmentação burocrática e o corporativismo profissional. Neste caso de corporativismo significa que os biólogos não entendem muito sobre informática e não dão muita importância. A iniciativa privada sabe que nada funciona sem computadores. Assim surgiu uma alternativa  privada ao programa do genoma humano: a empresa Celera Genomics, liderada por um cientista, Dr. Craig Venter, que começou a construir um mapa do genoma em paralelo e mais rápido, utilizando a capacidade massiva de programas de computador capazes de cálculo informático com programas capazes todas as informações obtidas pela pesquisa biológica. O Programa Genoma Humano público teve sua data de conclusão em 2003. Mas no início de 2000 o Celera anunciou seu fim em 2000. Gerou pânico no mundo científico. O que poderia acontecer se uma empresa privada viesse a  patentear o genoma da nossa espécie, ou pelo menos parte dela? Uma senhora em Boston não esperou a resposta: ele foi ao escritório de patentes e patenteou-se, pelo que poderia acontecer. O prêmio nobel, diretor do programa público, Sir Francis Watson, descobridor da hélice do DNA, deu a ordem para terminar o Genoma Humano imediatamente, em 2000. Fácil de dizer, mas difícil de fazer. Porque era muito conhecido, mas como fazê-lo compatível e relacionável? Até que os biólogos das universidades também, eventualmente, descobriram a importância crítica da tecnologia da informação.

O investigador principal do programa público, Dr. Lander, do Instituto Whitehead, de Boston, chamou em Dezembro de 1999 o Professor David Haussler, do departamento de ciência da computação da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, para ajudar a integrar computacionalmente a grande quantidade de resultados da pesquisa biológica. Haussler aceitou o desafio, obteve da reitora da universidade uma dotação especial de US$ 250.000 para comprar 100 computadores e começou a trabalhar. Não chegava. A quantidade de informação a ser incluída era tal em tão pouco tempo, que não parecia possível. Então, ele chamou um de seus melhores alunos de doutorado, James Kent. Aos 41 anos, Kent tinha decidido voltar para a escola depois de 10 anos em uma empresa de computação multimídia. James Kent decidiu tentar, porque, como ele diz, "o escritório de patentes do governo é muito irresponsável, deixando patentear como invenções o que são descobertas. É algo que me perturba. Por isso, decidimos publicar o conjunto de genes, o mais rapidamente possível ". Fez isso em um mês. O que o programa público com centenas de cientistas de todo o mundo não pode fazer;  e o que a empresa privada com centenas de milhares de dólares fez em anos, James Kent fez em um mês. Tudo começou em 22 de maio de 2000 e terminou em 22 de Junho, escrevendo o GigAssembler para o Genoma Humano, com 10.000 linhas de código. Ele ganhou a corrida por três dias do Celera. Para o bem da humanidade. E postou na internet. Desde 7 de julho, em que o programa browser projetado por Kent foi colocado na web (USCS- Universidade da Califórnia em Santa Cruz), recebe cerca de 20.000 chamadas (hits) diárias.

Ou seja, que a acessibilidade que podemos ter a informação sobre quem somos dependeu de um professor e um estudante de informática decidiram que isso era melhor para que tornar-se milionários com sua informação. É certo que o Celera assegura que também publicará suas informações. Mas nem todas e de acordo com. Porque, em última análise, e é normal,  tem que pagar seus investidores que colocaram milhões de dólares em um projeto à espera de lucro. Assim, pois a nossa espécie se autopreserva  (ou, pelo menos, preserva a informação necessária) por seus instintos de generosidade mais do que os de competição. Não é um mau começo para o nosso conhecimento do genoma humano.

Manuel Castells sociólogo espanhol, foi catedrático da Universidade de Califórnia-Berkeley. 

Publicado em 2003 no Jornal espanhol El País

A verdadeiro falha da CIA? Perseguir alvos errados

A controvérsia sobre o uso da tortura pela CIA obscurece dois aspectos importantes da “guerra contra o terror”, que a agência pretende estar a travar. 

Por Patrick Cockburn

O Estado Islâmico, que são terroristas segundo qualquer definição do termo, governa atualmente uma grande parte do Médio Oriente no norte de Iraque e no leste da Síria.

A primeira é que esta guerra fracassou comprovadamente já que o EI (Estado Islâmico), que são terroristas segundo qualquer definição do termo, governa atualmente uma grande parte do Oriente Médio no norte de Iraque e no leste da Síria.
Conseguiu este êxito apesar dos enormes orçamentos das agências de segurança norte-americanas e europeias após o 9/111. Não só não conseguiu evitar que ocorresse: nem sequer se deram conta do que estava a ocorrer até ser demasiado tarde. Eram bem mais felizes concentrando-se no núcleo da al-Qaeda e em Osama bin Laden, que não era muito grande, inclusive antes de perder as suas bases no Afeganistão em 2001.
A contínua ameaça da al-Qaeda foi exagerada e a organização foi descrita após 2001 como uma espécie de mini-Pentágono com altos funcionários que poderiam ser eliminados ou capturados periodicamente, proporcionando a Washington sucessos politicamente úteis. Mas nos últimos treze anos as operações atribuídas à al-Qaeda eram na sua maioria mesquinhas. O resultado final das operações da CIA foi o triunfo de um grupo, que defende a mesma ideologia e os mesmos objetivos de Bin Laden, e o estabelecimento do seu próprio estado, que se estende desde a fronteira com o Irã até aos arredores de Alepo.
Um segundo aspecto da guerra contra o terrorismo é que desde o princípio evitou dois países, sem cuja cumplicidade o 9/11 não poderia ter acontecido: A Arábia Saudita e o Paquistão. Era evidente poucos dias após o 9/11 que cidadãos da Arábia Saudita estavam muito implicados, sendo 15 dos 19 sequestradores sauditas. Bin Laden fazia parte da elite saudita e a investigação norte-americana sobre o ataque descobriu que o financiamento da al-Qaeda tinha a sua origem principalmente em doadores privados no reino saudita. Mas o presidente George W Bush e a sua administração não só evitaram cuidadosamente apontar a Arábia Saudita, como censuraram 28 páginas do relatório oficial sobre o seu papel apesar das súplicas das vítimas do 9/11. O presidente Obama prometeu, enquanto era candidato, permitir a publicação dessas páginas, mas nunca o fez.
A al-Qaeda utilizou o Afeganistão como seu santuário e os EUA derrubaram por isso os talibãs em 2001, mas era um segredo de polichinelo que os talibãs tinham sido patrocinados e até criados pelo ISI, a agência de segurança militar do Paquistão. Uma vez que o furor pelo 9/11 se extinguiu, o Paquistão voltou a fazer exatamente o mesmo, e graças a isso os talibãs foram capazes de travar uma longa guerra de guerrilhas até recuperar o poder. Mas, apesar de os EUA dizerem estar a lutar contra a al-Qaeda, nunca enfrentaram o Paquistão, que era o sócio silencioso dos talibãs. Quando Bin Laden foi seguido até Abbottabad, perto da academia militar mais importante do Paquistão, era muito provável que a sua presença fosse conhecida dos serviços de segurança do Paquistão.
A al-Qaeda era um objetivo útil para a CIA porque era o vilão do 09/11 e uma força demoníaca aos olhos da opinião pública norte-americana. A destruição das Torres Gêmeas tinha esgotado a sua capacidade e poderia ser combatido sem grande dificuldade. Quando grupos muito semelhantes à al-Qaeda cresceram e floresceram em Iraque, Síria e Líbia depois de 2011, não foram identificados como parte do grupo original.
Agora anunciam-se êxitos na luta contra a al-Qaeda no Iêmen, mas sem prestar atenção ao fato de que jihadistas que juraram lealdade ao EI se apoderaram da cidade líbia de Derna e são uma força crescente em todo o país. É possível que a CIA seja culpada de ter torturado suspeitos, mas isto é apenas um aspecto de uma falha muito maior do qual nunca teve que prestar contas.
Artigo de Patrick Cockburn*publicado em The Independent, traduzido por Enrique Garcíapara sinpermiso.info e por Carlos Santos para esquerda.net

1 9 de setembro de 2001- Ataque às Torres Gémeas
* Patrick Cockburn é um jornalista irlandês, correspondente no Médio Oriente do Financial Timese atualmente do The Independent. É autor de várias obras sobre o Médio Oriente, as mais recentes são “The Occupation: War, resistance and daily life in Iraq” e “Muqtada! Muqtada al-Sadr, the Shia revival and the struggle for Iraq”.

Estados Unidos: A Fed em socorro de Wall Street

Como revelou em julho de 2011 um relatório do GAO, equivalente ao Tribunal de Contas nos Estados Unidos, a Fed emprestou 16 trilhões de dólares a uma taxa de juro inferior à taxa oficial de 0,25%. 

Por Eric Toussaint

A Fed concede, desde 2008, crédito ilimitado aos bancos, a uma taxa oficial de 0,25%.
A Fed (ver caixa sobre a Fed) concede, desde 2008, crédito ilimitado aos bancos, a uma taxa oficial de 0,25 %. Na realidade, como revelou em julho de 2011 um relatório do GAO, equivalente ao Tribunal de Contas nos Estados Unidos, a Fed emprestou 16 trilhões de dólares a uma taxa de juro inferior à taxa oficial de 0,25%1. O relatório mostra que a Fed não respeitou as suas próprias regras prudenciais e não advertiu o Congresso. De acordo com o trabalho de uma comissão de investigação do Congresso dos Estados Unidos, a cumplicidade entre a Fed e os grandes bancos privados era óbvia: “O presidente do conselho de administração do JP Morgan Chase era membro da Reserva Federal de Nova Iorque na altura em que o 'seu' banco recebia assistência financeira da Fed no valor de 390 bilhões de dólares. Além disso, o JP Morgan Chase serviu também como intermediário para empréstimos de urgência concedidos pela Fed”2. De acordo com um estudo independente realizado pelo Instituto Levy, com o qual colaboram economistas como Joseph Stiglitz, Paul Krugman e James K. Galbraith, os empréstimos da Fed atingiram montantes superiores aos revelados pelo GAO, não sendo de 16 trilhões de dólares, mas de 29 trilhões3.
Os grandes bancos europeus tiveram acesso a empréstimos da Fed até ao início de 2011 (o Dexia recebeu um empréstimo de 159 bilhões de dólares4, o Barclays 868 bilhões, o Royal Bank of Scotland 541 bilhões, o Deutsche Bank 354 bilhões, o UBS 287 bilhões, o Crédit Suisse 260 bilhões, o BNP-Paribas 175 bilhões, o Dresdner Bank 135 bilhões, a Société Générale 124 bilhões). A interrupção desse financiamento (nomeadamente sob pressão do Congresso dos Estados Unidos) foi uma das razões que levou os money market funds norte-americanos a fecharem a torneira dos empréstimos que concediam aos bancos europeus, desde maio-junho de 2011, por considerarem que, sem o apoio da Fed, emprestar aos bancos europeus representava um grande risco.
O Banco da Reserva Federal dos Estados Unidos
O Banco da Reserva Federal (Fed em inglês) é o banco central dos Estados Unidos. A Fed é responsável pela política monetária do país e, por essa razão, desempenha um papel central no funcionamento dos mercados financeiros mundiais. É uma entidade independente no seio do governo dos Estados Unidos, contando com uma participação ativa do setor privado. Segundo a lei, os seus principais objetivos são assegurar a estabilidade dos preços, o pleno emprego e garantir a estabilidade do sistema financeiro, através da adoção de medidas destinadas a prevenir e a reduzir o impacto dos pânicos e das crises financeiras. De acordo com esse objetivo, a Fed dispõe de três importantes instrumentos: a gestão das taxas de juro, que afetam os níveis de consumo, de investimento e de inflação; a provisão de liquidez nos mercados financeiros, que permite estabilizá-los em tempos de crise; a supervisão e a regulação das entidades financeiras.
A Fed foi criada pelo Federal Reserve Act de 1913, na sequência do crescimento da instabilidade do sistema financeiro norte-americano em finais do século XIX e inícios do século XX. Até então, o país não dispunha de um sistema centralizado de controle e regulação do sistema financeiro. Cada Estado era responsável por regular e controlar os bancos que operavam na sua jurisdição. A Fed foi criada para garantir a estabilidade do sistema financeiro dos Estados Unidos através de um mecanismo de emprestador de última instância. Essa faculdade permite que a Fed ajude os bancos que estão em dificuldades.
Do ponto de vista institucional, o sistema da Fed é composto por doze bancos regionais e por um Conselho de Governadores, a nível nacional. Os bancos regionais funcionam como sociedades por ações. Para serem membros do sistema, os bancos devem possuir ações a nível do sistema regional, cuja supervisão é assegurada pela Fed. Essas ações não podem ser vendidas nem comercializadas e proporcionam aos seus proprietários um rendimento anual de 6%. Permitem aos bancos a participação na eleição dos membros do Conselho de Administração responsável pelas sucursais da Fed a nível regional. Esse Conselho é composto por nove membros: três escolhidos pelos bancos, representando diretamente os seus interesses; três representando os interesses comerciais e industriais da região e sendo também escolhidos pelos bancos; três escolhidos pelo Conselho de Governadores, que opera a nível nacional.
Por seu lado, o Conselho de Governadores tem por missão a supervisão dos doze bancos regionais e a garantia da aplicação adequada da política monetária. É composto por sete membros, nomeados pelo Presidente dos Estados Unidos e confirmados pelo Senado, para mandatos de catorze anos. Uma das funções principais do Conselho é a realização do Federal Open Market Committee (FOMC), que fixa as taxas de juro e determina a orientação geral da política monetária do país.
A título de comparação, duas diferenças fundamentais distinguem a Fed do seu homólogo europeu, o Banco Central Europeu (BCE). Enquanto a missão da Fed é garantir a estabilidade dos preços e o pleno emprego, o principal objetivo do BCE é manter uma inflação baixa e estável no seio da zona euro. A segunda diferença reside na capacidade de regular e controlar as entidades financeiras. Enquanto a Fed tem capacidade regular e supervisionar todas as entidades do sistema da Fed, o BCE depende dos bancos centrais nacionais, que desempenham as funções de regulação e de controle. Ultimamente, a Comissão Europeia aprovou o aumento dos poderes do BCE para que, a partir do outono de 2014, este possa supervisionar e regular diretamente os grandes bancos do sistema europeu. Um assunto a seguir.
Artigo de Éric Toussaint, publicado em cadtm.org. Tradução de Maria da Liberdade, revisão de Rui Viana Pereira.

1 GAO, «Federal Reserve System, Opportunities Exist to Strengthen Policies and Processes for Managing Emergency Assistance», julho 2011, http://www.gao.gov/assets/330/321506.pdf. Este relatório, de uma instituição que é equivalente ao Tribunal de Contas (GAO = United States Government Accountability Office), foi elaborado graças a uma alteração da Lei Dodd-Frank, introduzida pelos senadores Ron Paul, Alan Grayson e Bernie Sanders em 2010. Bernie Sanders, senador independente, tornou-o público http://www.sanders.senate.gov/imo/m...
2 “The CEO of JP Morgan Chase served on the New York Fed’s board of directors at the same time that his bank received more than $390 billion in financial assistance from the Fed. Moreover, JP Morgan Chase served as one of the clearing banks for the Fed’s emergency lending programs.”http://www.sanders.senate.gov/newsr...
3 Ver James Felkerson, “$29,000,000,000,000: A Detailed Look at the Fed’s Bailout by Funding Facility and Recipient”, www.levyinstitute.org/pubs/w...
4 Ver nomeadamente o relatório do GAO mencionado mais acima na página 196, que alude aos empréstimos concedidos ao Dexia no montante de 53 mil milhões de dólares, o que representa apenas uma parte dos empréstimos concedidos ao Dexia pela Fed.http://www.gao.gov/assets/330/321506.pdf

Sobre o/a autor(a)

Eric Toussaint
Politólogo. Presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo