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sábado, 3 de janeiro de 2015

“A ‘primavera árabe’ acabou em inverno”

Em entrevista, Gilbert Achcar afirma, sobre a situação política e social na região do Médio Oriente e da África do Norte: “As forças progressistas precisam de ser suficientemente ousadas para apostar na luta e apostar na vitória. Se não se produzir uma mudança radical liderada por elas, a única coisa que veremos será o que tenho qualificado de 'choque de barbáries'”.

Entrevista com o conhecido acadêmico libanês Gilbert Achcar, autor de “The People Want: A Radical Exploration of the Arab Uprising” (2013), sobre a luta pela democratização do Oriente Médio e da África do Norte. Tudo começou a 18 de dezembro de 2010 com uma revolta popular desencadeada pela autoimolação de um vendedor ambulante tunisiano, Mohamed Bouazizi, que protestou desse modo contra o regime corrupto e autocrático do país. Isso deu lugar a uma série de levantamentos revolucionários no Oriente Médio e na África do Norte que derrubaram os governos ditatoriais de Tunísia, Líbia, Egito e Iêmem. Popularmente conhecido pelo nome de “primavera árabe”, o movimento foi, desde então, caindo no caos, dando lugar a um aumento do poder dos fundamentalistas muçulmanos. Nesta entrevista realizada por Skype, o professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres, afirma que a região ainda não perdeu a esperança. Reproduzimos alguns extratos.
Desde as revoltas de 2010-2011, exceto na Tunísia, o modelo de democracia liberal não conseguiu impor-se nos países do Oriente Médio e da África do Norte. Fica ainda alguma esperança ou acha a democracia liberal “eleitoral” como uma resposta à crise em curso na região? Vimos, por exemplo, como apesar das eleições celebradas em junho deste ano, o ditador Bachar al-Assad, do partido Baas, conserva o poder na Síria…
A questão da democracia na região do Médio Oriente e da África do Norte não pode reduzir-se à democracia liberal, tal como prevalece atualmente no Ocidente. Ainda que entendamos o liberalismo em sentido exclusivamente político, os países árabes estão muito longe de praticá-lo, e isto aplica-se também à Tunísia, onde agora se estabeleceu um governo formalmente democrático. A região sofre uma crise social e econômica muito profunda, que está na raiz da agitação geral e das revoltas. Para resolver a crise atual é preciso que a região se afaste do modelo socioeconômico liberal, que é o causador da crise. O verdadeiro obstáculo é a combinação de um “Estado profundo” sumamente repressivo e corrupto com um capitalismo de compadrio da pior espécie. Esta combinação não foi desmantelada em nenhum país da região, nem sequer na Tunísia. Na Síria, onde a ditadura baasista está entrincheirada no poder desde há meio século, as eleições careceram de qualquer legitimidade democrática. Para conseguir uma democratização real é preciso desmantelar o “Estado profundo” que mantém a ordem sociopolítica na região.
A onda inicial de esperança de que os povos árabes pudessem livrar-se dos regimes autocráticos parece ter-se desvanecido. Quando começou o movimento em 2010 houve muita euforia, agora já não há. Para onde evolui o movimento na sua opinião?
A euforia, quando começou o movimento, era fruto de ilusões, mas era justificada pelo fato de que os povos da região começaram a sair massivamente às ruas com disposição para impor a sua vontade. No entanto, o ato de sair às ruas não bastou por si só para conseguir os objetivos a que aspiravam. Houve um enorme levantamento popular na região do Médio Oriente e da África do Norte, mas com forças progressistas débeis e/ou desorientadas. Inclusive num país como a Tunísia, onde existe uma potente organização progressista em forma de movimento sindical dominada pela esquerda, esta última carece de uma estratégia acertada. Caíram na armadilha da bipolarização entre duas forças igualmente reacionárias: os antigos regimes, por um lado, e as forças da oposição fundamentalista islâmica, por outro.
As forças progressistas aliaram-se sucessivamente com um ou outro destes dois pólos contrarrevolucionários. Neste momento predomina a luta intestina entre estes dois setores reacionários em países como a Síria, o Iêmem, a Líbia e até certo ponto também no Egito. Esta é a causa principal de que se tenha perdido todo o impulso do movimento inicial. As forças fanáticas do fundamentalismo islâmico cresceram em toda a região, sobretudo no caso do autoproclamado “Estado islâmico” e califado. O que devia estar claro desde o princípio salta agora à vista: a mudança radical de regime só pode ser violenta devido à extrema brutalidade do antigo regime. No entanto, concluir que o antigo regime ganhou a partida seria um sinal de miopia. Os países da região continuam a ser os que têm as maiores taxas de desemprego do mundo, e até que se resolva esta questão crucial, a revolta continuará. Venho dizendo isto desde 2011 e por isso mesmo tenho sustentado que o que começou então não é uma “primavera” - que implica sazonalidade -, mas sim um processo revolucionário prolongado que durará vários anos e décadas até que a região atinja uma estabilidade duradoura.
Na sua obra qualifica os países árabes de Estados rentistas, já que a maior parte dos seus rendimentos derivam do petróleo e do gás. A recente queda dos preços do petróleo em todo o mundo golpeou duramente as economias destes países. Que tipo de transformação socioeconómica é necessária para resolver a crise atual da região?
Efetivamente a região inteira depende em grande parte das exportações de petróleo e gás, matérias cujos preços são fixados pelo mercado mundial, e estes preços são sumamente voláteis. Por tanto, os países da região enfrentam o risco de fortes subidas e baixas da economia. No entanto, nem todos os países da região se expõem aos mesmos efeitos, pois enquanto uns são importadores de petróleo, outros são pequenos produtores e outros exportadores massivos. De qualquer modo, o petróleo domina a economia regional no seu conjunto. Um aspeto importante da mudança radical necessária na região, por conseguinte, é a diversificação das economias mediante o desenvolvimento de uma base industrial real e a redução da dependência das exportações de petróleo e gás. A região não carece de recursos naturais, capital e mão de obra, ainda que grande parte dos recursos naturais e do capital acumulado graças à sua exportação estejam sob controlo ocidental. Todos os grandes exportadores de petróleo da região - os países membros do Conselho de Cooperação do Golfo, que abarca os Estados árabes mais ricos - dependem dos EUA para a sua sobrevivência e segurança. O reino da Arábia Saudita é o verdadeiro causador da queda dos preços do petróleo e está a fazê-lo em detrimento da sua própria economia por razões estratégicas e em benefício dos EUA. O grosso do dinheiro saudita guardado no estrangeiro está investido em títulos do tesouro dos EUA e em bancos norte-americanos. Tudo isto resulta em perdas líquidas para o conjunto da região. O imperialismo ocidental criou o sistema regional das monarquias do Golfo com o fim de assegurar a exploração dos seus recursos, e isto pode continuar a ser assim até que se tenha extraído a última gota de petróleo da região.
Outro aspeto da mudança radical que faz falta para que a região supere a sua desastrosa condição está na realização do sonho de um dirigente como o antigo presidente do Egito Gamal Abdel Nasser, que quis unificar os países árabes numa república federal ou numa união de repúblicas. Trata-se de um grupo de países que falam a mesma língua e partilham a mesma cultura, mas estão divididos em duas dúzias de Estados para servir os interesses de antigas forças imperiais que desejam perpetuar esta divisão. Isto num período em que a Europa, com a sua maior diversidade de culturas, tem estado a construir a sua própria união.
Você apoia a intervenção do Ocidente em países árabes que, como a Síria, estão atolados em disputas internas? No seu livro não adota uma posição categórica sobre isso…
O imperialismo ocidental é uma parte importante do problema da região e definitivamente não é parte da solução. No entanto, isto não me leva a adotar atitudes mecânicas para opor-me a qualquer forma de intervenção em qualquer circunstância. Quando se dá a circunstância de uma cidade ou uma população inteira estarem prestes a sofrer um massacre de grandes dimensões - como foi o caso de Bengasi na Líbia ou da cidade de Kobane na parte síria do Curdistão, a falta de qualquer alternativa não pode opor-nos às incursões aéreas na medida em que contribuam para evitar a ameaça iminente. Mas logo que essa ameaça se dissipa, então sim há que nos opormos a essa intervenção direta do Ocidente. Os EUA, que dirigem essas intervenções, tratam sempre de apoderar-se dos processos em curso e de os orientar em função dos seus próprios interesses, e por isso oponho-me à intervenção militar direta do Ocidente em geral. No entanto, apoio o pedido de entrega de armas formulada pela revolta líbia em 2011, pela oposição democrática síria desde 2012 ou pelas forças de esquerda curdas em 2014. Precisam de armas para repelir forças que contam com muito mais armamento pesado que elas. No entanto, os EUA, tanto na Líbia em 2011 como na Síria desde então, negam-se a fornecer às oposições democráticas as armas defensivas que precisam. Por isso acho que os EUA têm uma grande responsabilidade no enorme massacre cometido contra o povo sírio e na destruição do seu país. Se a oposição síria tivesse recebido as armas defensivas que reclama desde o princípio, e em particular armas antiaéreas, o regime sírio não teria sido capaz de utilizar a sua força aérea, com a qual tem perpetrado a maior parte da devastação e das mortes no decurso da guerra civil neste país.
A Irmandade Muçulmana beneficiou muito das revoltas da primavera árabe, pois ganhou as eleições na Tunísia e no Egito e desempenhou um papel importante nos levantamentos na Síria, na Líbia e no Iémene. No entanto, com a queda do governo de Mohamed Morsi no Egito no ano passado, a sua esperanças parece ter-se frustrado. Podemos concluir que o fundamentalismo islâmico não é a resposta às reivindicações das massas nestes países? Pergunto-lhe isto porque toda a primavera árabe e as suas sequelas foram analisadas sobretudo do ponto de vista dos movimentos islâmicos, o que impulsiona o discurso intervencionista do Ocidente na região…
Não só o fundamentalismo islâmico não é a resposta, mas também o próprio Islão não é a resposta, ainda que também não seja o problema. As revoltas de 2011 não se produziram por motivos religiosos, foram sim o culminar da crise socioeconómica e da opressão política que imperam na região. O fracasso da Irmandade Muçulmana deve-se sobretudo a que carecem de uma política económica e social diferente das que aplicavam os antigos regimes. Na Tunísia e no Egito não resolveram as crises sociais. O que estamos a assistir agora é ao declínio da Irmandade Muçulmana acompanhado da ascensão de forças fundamentalistas que são muito piores, concretamente a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. A ausência de uma liderança progressista é a razão principal de diversas forças do fundamentalismo islâmico serem capazes de capitalizar o descontentamento popular na região. Para compreender isto de um ponto de vista histórico basta recordar o surgimento do fundamentalismo, que se iniciou na década de 1970. Na maior parte dos países de maioria muçulmana, o fundamentalismo islâmico tinha sido marginalizado nos anos sessenta, quando estava em auge o nacionalismo de esquerda, representado sobretudo por Nasser. Foi quando esta última corrente entrou em declínio, a partir dos anos setenta, que assistimos à ascensão das forças do fundamentalismo islâmico.
Durante a “primavera árabe” destacou-se o papel dos meios de comunicação nas revoltas e o das redes sociais na organização do movimento no terreno. Quatro anos depois, acredita que ainda podem exercer alguma influência na organização do movimento e nos seus resultados?
O papel desempenhado pelos meios de comunicação modernos e as redes sociais não pode ser revertido, certamente. Produziu-se uma mudança profunda no meio tecnológico global da humanidade. A televisão por satélite desempenhou um papel importante no recente levantamento, e continua a tê-lo na atualidade, ainda que em menor grau que em 2011. Por outro lado, o papel das redes sociais continua a crescer. Quando se qualificou a revolta árabe em 2011 de “revolução Facebook”, foi um exagero, claro está, mas com a sua parte de verdade. Facebook, Twitter, YouTube, todos esses meios converteram-se em importantes ferramentas para a difusão de mensagens e imagens de todo o espectro político, desde as forças progressistas até às de extrema direita, pois é sabido que o Estado Islâmico utiliza a Internet profusamente.
O que aconselha às forças progressistas que aspiram a uma revolução efetiva?
As forças progressistas precisam de ser suficientemente ousadas para apostar na luta e apostar na vitória. Se não se produzir uma mudança radical liderada por elas, a única coisa que veremos será o que tenho qualificado de “choque de barbáries”. A Síria é o exemplo mais claro neste momento, com o regime sírio por um lado e o Exército Islâmico e a Al-Qaeda por outro. No entanto, a revolta ainda não é coisa do passado. A 'primavera' árabe acabou em 'inverno', mas ainda há estações que virão.
Entrevista com Gilbert Achcar, publicada em The Hindu em 25 de dezembro de 2014. Traduzido para espanhol por Viento Sur e para português por Carlos Santos para esquerda.net

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