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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Um ato de protesto, não de sabotagem, no local de nascimento da bomba atômica

No complexo militar “Y-12”, onde se produz e armazena todo o urânio enriquecido para as ogivas nucleares dos EUA, três ativistas pela paz do movimento Plowshares, em 28 de julho de 2012, enganaram os sistemas de segurança e chegaram ao coração do complexo.

Amy Goodman

No profundo das colinas do leste de Tennessee ergue-se um grande complexo militar chamado “Y-12”. É o local onde se produz e se armazena todo o urânio altamente enriquecido que se usa para produzir o arsenal de ogivas nucleares dos Estados Unidos. O complexo está situado em Oak Ridge, a “cidade secreta” que foi criada praticamente de um dia para o outro durante a Segunda Guerra Mundial, onde se produziu o urânio para a bomba atômica que foi lançada sobre Hiroshima, a 6 de agosto de 1945. Hoje em dia, o complexo, apelidado “O Forte Knox do urânio”, alberga quantidades deste elemento radioativo suficientes para fazer 10.000 bombas atômicas.

Foi ali que, pouco antes do amanhecer de 28 de julho de 2012, três ativistas pela paz do movimento Plowshares, entre eles uma freira de 82 anos de idade, enganaram os numerosos sistemas de segurança das instalações e chegaram ao coração do complexo, o Centro de Armazenamento de Materiais de Urânio Altamente Enriquecido ou HEUMF (na sigla em inglês). Pintaram mensagens de paz nas paredes, verteram sangue, martelaram no betão e foram detidos. No princípio deste mês, um tribunal federal de recurso revogou as suas condenações por sabotagem e deixou-os em liberdade, depois de dois anos de cárcere. Esta é a primeira vez que se reverte uma condenação por sabotagem a ativistas deste grupo, um momento histórico para o movimento pelo desarmamento nuclear.

Plowshares é um movimento cujo nome deriva do versículo 2:4 do livro de Isaías na Bíblia, que ensina: “De suas espadas forjarão relhas de arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se arrastarão mais para a guerra." Inspirados pela fé e comprometidos com a ação militante, os ativistas do Plowshares têm levado a cabo ações diretas não violentas durante os últimos 35 anos. Acedem a instalações militares de máxima segurança e com martelos danificam armas de guerra, quer se trate de aviões de combate ou depósitos de mísseis, ou, como neste caso mais recente, o complexo que enriquece e armazena urânio para a produção de bombas.

Entre os primeiros ativistas do Plowshares estavam os irmãos Berrigan, o pai Daniel e o falecido Philip, que tinham atraído a atenção nacional pela queima de listas de recrutamento em protesto contra a guerra do Vietname. Em 1980, os Berrigan entraram juntamente com outros ativistas na fábrica de mísseis nucleares da General Electric na cidade de King of Prussia, na Pensilvânia, e danificaram com martelos os cones das ogivas, deixando-os inutilizáveis. Por esta e muitas outras ações posteriores foram várias vezes presos. Desde então, deram-se dezenas de protestos semelhantes pelo desarmamento, em todo o mundo.

Os ativistas que conseguiram entrar no complexo ultra seguro Y-12 conformam um trio muito especial: a irmã Megan Rice, uma freira católica; Michael Walli, um veterano da guerra do Vietname que se tornou ativista católico pela paz; e Greg Boertje-Obed, um ex-oficial do exército dos Estados Unidos, agora pintor de casas e ativista pela paz. Depois de cortar quatro linhas de cercas e atravessar terrenos patrulhados para chegar ao HEUMF, pintaram consignas que diziam “O fruto da justiça é a paz” e “A Isaías agradam os Plowshares”. Como em ações anteriores, o grupo cunhou um nome para si próprio: “Transform Now Plowshares” (“Transformar agora as espadas em arados”). Perguntei à irmã Megan o que significava. “Por que gastámos neste lugar dez biliões de dólares em 70 anos, quando esse dinheiro poderia ter sido utilizado para transformar não só os Estados Unidos, mas o mundo, numa alternativa para uma vida melhor? Em seu lugar, fazemos algo que nunca poderá ser usado, nunca deverá ser usado, que provavelmente nunca se usará a não ser que queiramos destruir o planeta”.

A falha de segurança provocou uma comoção nos organismos de segurança nacional, em especial no Departamento de Energia, que está encarregue do Y-12 no leste do Tennessee. Apesar de os três ativistas de Transform Now Plowshares enfrentarem acusações federais de sabotagem e até 30 anos de prisão, durante o julgamento permaneceram em liberdade sob fiança e livres de assistir às audiências do Congresso impulsionadas pelo seu ato de desobediência civil, que “The New York Times” qualificou de “a maior violação da segurança na história do complexo atómico do país”. Surpreendentemente, Joe Barton, congressista republicano do Texas, elogiou a irmã Megan Rice:

“Queremos agradecer-lhe por assinalar alguns problemas na nossa segurança. Ainda que eu não esteja totalmente de acordo com a plataforma que defende, agradeço-lhe por assinalar as carências do nosso sistema de segurança e por estar presente hoje. Senhor presidente, esta jovenzinha levava consigo uma Santa Bíblia. Se fosse uma terrorista, só Deus sabe o que poderia ter acontecido”.

Ed Markey, congressista democrata de Massachusetts e atualmente senador, também se dirigiu à irmã Megan: “Obrigado, irmã Megan Rice, por estar presente. Obrigado pelas suas ações. Obrigado pela sua férrea vontade de fazer centrar a atenção nesta acumulação de armas nucleares que ainda existe no nosso mundo e o muito que precisamos fazer para a reduzir. Não precisamos de mais armas nucleares. Precisamos de menos”.

A irmã Megan Rice tem agora 85 anos de idade. Ela e os seus companheiros de acusação esperam a decisão de um tribunal de primeira instância para saber se devem ou não ir para trás das grades pelas acusações menores de destruição de bens do Estado, pelo corte de cercas, pintura de consignas e verter sangue no Y-12. Mas, certamente, a liberdade do cárcere não é o que mais a preocupa. “Realmente não diria que nos sentimos livres, porque enquanto existir uma só arma nuclear, ninguém será livre”.

Artigo publicado em Democracy Now em 21 de maio de 2015. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Inés Coira para espanhol para Democracy Now. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net



Amy Goodman
Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.

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