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domingo, 28 de junho de 2015

O aquecimento, as emissões do G7 e a COP21

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Fonte: NOAA

O mundo está ficando mais quente e rompendo com a estabilidade climática do Holoceno. Um novo estudo publicado online na revista Science considera que a taxa de aquecimento global nos últimos 15 anos tem sido tão rápida quanto ou mais rápida do que a observada durante a segunda metade do século XX. O estudo, de uma equipe de cientistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), da Nasa, refuta a noção de que houve uma diminuição ou “hiato” da taxa de aquecimento global nos últimos anos.
O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), concluiu que a tendência de aumento da temperatura da superfície global da Terra entre 1998 e 2012 foi significativamente menor do que a tendência entre 1951-2012. Porém, desde o lançamento do relatório do IPCC, os cientistas da NOAA fizeram melhorias significativas no cálculo das tendências e agora, usando um registro de temperatura da superfície global que inclui os dois anos mais recentes (2013 e 2014), concluíram que não houve o tal hiato. A NOAA diz:
“Nossa nova análise sugere que o hiato aparente pode ter sido em grande parte o resultado de limitações em conjuntos de dados passados, e que a taxa de aquecimento ao longo dos primeiros 15 anos deste século tem, de fato, sido tão ou mais rápida do que o observado ao longo da última metade do século XX”.
Reforçando este grave cenário, o mês de maio de 2015 foi o mais quente da Terra, desde que se começaram a registrar temperaturas, em 1880, segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgados no dia 18 de junho. A temperatura média do planeta chegou a 15,54 graus centígrados, 0,74 grau acima da média do século 20. A última vez que as temperaturas de maio ficaram abaixo da média do século 20 foi em 1976, de acordo com a agência norte-americana.

Fonte: NOAA

A temperatura dos primeiros cinco meses de 2015 (janeiro a maio) também foram os mais quentes da Terra desde que se começou a registrar temperaturas, em 1880. Isto significa que, com alto grau de probabilidade, o ano de 2015 será o ano mais quente da história recente. Portanto, as perspectivas globais são de mudanças climáticas muito danosas para o ser humano e as demais espécies.
O agravamento do fenômeno do aquecimento global torna mais urgente a necessidade de fazer a transição da matriz energética rumo a uma economia de baixo carbono. O mundo precisa fazer um esforço imenso para reduzir as emissões dos gases de efeito estufa (GEE).
Neste sentido, os líderes do G7 – grupo das sete nações mais industrializadas do mundo – após o encontro de dois dias na Baviera, Alemanha se comprometeram com metas para diminuir a dependência de suas economias dos combustíveis fósseis, reduzindo as emissões de carbono. Em comunicado do dia 08 de maio de 2015, prometeram respaldar um corte global na emissão dos gases de efeito estufa mais próximo da porcentagem mais alta de uma faixa de 40 a 70 por cento até 2050, tomando o ano de 2010 como base. Essa faixa foi recomendada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês). Eles também apoiaram uma meta global para limitar o aumento das temperaturas globais médias até o máximo de dois graus Celsius em comparação com níveis pré-industriais.
Alguns ambientalistas viram esta decisão do G7 como algo muito positivo. Segundo Jeffrey Sachs: “A reunião do G-7, nos Alpes da Baviera, marcou um grande avanço na política de mudança climática. As sete maiores economias de alta renda (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) tomaram uma decisão revolucionária para descarbonizar as suas economias durante este século. Pela primeira vez na história, as principais economias ricas concordaram sobre a necessidade de acabar com a sua dependência dos combustíveis fósseis. Os líderes do G-7 fizeram algo sem precedentes. Eles reconheceram que, a fim de manter o aquecimento global abaixo do limite de 2° C, devem acabar com sua dependência de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) até 2100 (…) Claro, a declaração do G-7 é apenas uma declaração e ainda não inclui os compromissos de muitos dos maiores países emissores de CO2 do mundo, incluindo China, Índia e Rússia. No entanto, é um passo crucial que incentivará muito outros países a participar do processo de descarbonização profunda, bem como, especialmente tendo em vista o compromisso do G-7 para acelerar o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono. O resultado da reunião do G-7 é um bom presságio para um forte acordo global sobre as alterações climáticas, quando todos os 193 Estados membros da ONU reunirem-se em Paris em dezembro (na COP21) para chegar a um acordo do clima verdadeiramente global. Os países do G-7 ainda não garantiram um resultado bem-sucedido na reunião de Paris, mas eles deram um grande passo em direção a esse objetivo”.
Outros analistas, como Martin Wolf, principal colunista econômico do jornal britânico Financial Times, questionam a decisão do G7: “Por que devemos ser céticos? A resposta é que ouvimos compromissos similares por quase 25 anos; e, ainda assim, vimos apenas as emissões e o acúmulo de gases estufa aumentando na atmosfera. Mesmo se os governos estabelecerem compromissos atuais (o que é improvável), a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceria até chegar a 700 partes por milhão até o fim do século, em comparação com 280 ppm antes da revolução industrial e cerca de 400 ppm agora. Com 700 ppm, o aumento médio na temperatura global esperado é de 3,5 graus Celsius. Manter as emissões no caminho necessário para limitar o aumento médio para os dois graus recomendados —e em seguida entregar esse resultado— requereria uma revolução”.
O professor Paul Younger da universidade de Glasgow considera que o acordo da Cúpula do G7, de maio de 2015, não vai obter os resultados prometidos, pois, mesmo com o avanço da energia eólica e solar para o setor elétrico, será muito difícil substituir os combustíveis fósseis para transporte pessoal e coletivo, especialmente o transporte de carga de longa distância. A questão das baterias também é fundamental, em especial, para os aviões e navios. Os fertilizantes é um outro exemplo. A maior parte do abastecimento alimentar mundial está baseado em fertilizantes químicos e eles não podem ser produzidos sem a utilização de combustíveis fósseis. Em seu artigo ele conclui: “O fato é que os políticos não estão dizendo nada mais que platitudes. Até que nós possamos ter uma conversa honesta sobre o futuro de nosso relacionamento com a energia, não há como levar os nossos líderes a sério”.
Para reduzir as emissões provocadas pela queima de combustíveis fósseis, o mundo deveria a apoiar a campanha pelo desinvestimento e eliminar os subsídios que as companhias petroleiras possuem hoje em dia. Especialmente o Canadá deveria reduzir a exploração das areias betuminosas. O Brasil também deveria repensar os investimentos no pré-sal. Ou seja, o mundo todo precisa avançar na transição para uma matriz de baixo carbono.
Outro obstáculo que entrava a redução de GEE é que o G7 não definiu com clareza como pretende cumprir a promessa de destinar US$ 100 bilhões anuais para os países do “Terceiro Mundo” que hoje, incluindo China, são responsáveis por mais da metade das emissões. Com todas as dúvidas, resta saber se a COP21, em Paris, vai realmente aprovar um acordo avançado e vinculante para evitar um aquecimento global acima dos dois graus em relação ao período pré-industrial ou teremos outro fracasso relativo como foi o Protocolo de Kyoto. Caso não haja acordo e nem decisões concretas, o mundo corre sério risco de um colapso ambiental e com ele um colapso civilizacional.
Referências:
ALVES, JED. Desinvestimento em combustíveis fósseis e o fim dos subsídios. Ecodebate, RJ, 05/06/2015

NOAA. The Recent Global Surface Warming Hiatus, maio de 2015

Jeffrey D. Sachs. The G-7 Embraces Decarbonization, Project Syndicate, jun 10, 2015

Martin Wolf. Por que a incerteza do clima justifica a ação, FSP, 10/06/2015
Paul Younger. Good luck G7 leaders: we won’t be off fossil fuels by 2100, The Conversation, 09/06/2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 26/06/2015

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