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sábado, 4 de julho de 2015

A revolução da energia renovável e suas limitações

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

the great transition

O mundo precisa superar a era dos combustíveis fósseis e avançar na revolução da energia renovável. O ambientalista Lester Brown e seus colegas do Instituto de Políticas da Terra (EPI) estão otimistas com o que eles chamam de transição da energia fóssil e nuclear para as “energias limpas”, a partir do fortalecimento da produção de energia solar, eólica e outras fontes renováveis. O livro: “The Great Transition Shifting from Fossil Fuels to Solar and Wind Energy”, sem dúvida, é uma contribuição para a análise da mudança da matriz energética.
Segundo Lester Brown, a transição mundial dos combustíveis fósseis para as fontes renováveis ​​de energia está em curso: “Uma nova economia energética mundial está emergindo com base na emergência da energia solar e eólica, em função da redução da disponibilidade de combustíveis fósseis e da piora da poluição do ar”. No capítulo 1 do livro, Lester Brown apresenta algumas tendências otimistas:
“O preço dos painéis solares fotovoltaicos (PV) declinaram 99% nos últimos quatro décadas, a partir de 74 dólares por watt em 1972 para menos de 70 centavos de dólar por watt em 2014. Entre 2009 e 2014, os preços de painéis solares caíram por três quartos, ajudando as instalações globais de PV crescerem 50% ao ano.
Ao longo da última década, a capacidade mundial de energia eólica cresceu mais de 20% ao ano, devido ao aumento impulsionado por características atraentes, pelas políticas públicas de apoio à sua expansão e por custos decrescentes. Até o final de 2014, a capacidade mundial de geração eólica totalizou 369 mil megawatts, o suficiente para abastecer mais de 90 milhões de lares.
Políticas nacionais e sub-nacionais em todo o mundo estão mudando para apoiar as energias renováveis ​​e colocar um preço sobre o carbono. Estes incluem 70 países com tarifas feed-in; duas dezenas de países com padrões de portfólios renováveis ​​(RPS); 37 países com apoio fiscal ao investimento em energias renováveis; 40 países implementando ou planejando precificação do carbono.
O uso do carvão dos EUA está caindo – caiu 21% entre 2007 e 2014 – e mais de um terço das centrais a carvão do país já fechando ou anunciaram planos para fechamento futuro. Enquanto isso, o Índice Global de Carvão Stowe – um índice composto de empresas de todo o mundo, cujo principal negócio envolve carvão – caiu 70 por cento entre abril de 2011 e setembro de 2014.
Para o mundo como um todo, a geração de energia nuclear atingiu o pico em 2006 e caiu em quase 14 por cento em 2014. Nos EUA, o país com o maior número de reatores, a geração nuclear atingiu o pico em 2010 e está agora também em declínio.
Na China, a produção de eletricidade a partir de centrais eólicas já ultrapassa aquelas a partir de usinas nucleares, enquanto o uso de carvão chegou ao pico”.
Segundo Lester Brown e colegas: “Inicialmente, esta transição energética foi impulsionado por incentivos do governo, mas agora ela também está sendo impulsionada pelo mercado. Com os preços de hoje favorecendo tanto a energia solar, quanto eólica, em muitos locais, a transição está em aceleração, movendo-se muito mais rápido do que o previsto anteriormente”. O gráfico abaixo mostra a distribuição e o avanço da energia solar fotovoltaica até 2014.

energia solar fotovoltaica

O banco de investimento UBS também tem uma expectativa otimista da evolução da energia solar: 1) mais de 10% da energia do mundo poderia ser gerada a partir do sol dentro de uma década; 2) a energia solar poderá ser a “tecnologia padrão do futuro”, substituindo definitivamente o carvão e a energia nuclear. (Walton, 2015).
Sem dúvida o avanço da energia renovável substituindo os combustíveis fósseis é uma necessidade urgente para a estabilização da economia e do clima (Alves, 2014 e 2015). Contudo, todo este otimismo não é compartilhado por outros analistas.
Kurt Cobb considera que a revolução energética, se acontecer na escala necessária, não deve ocorrer de maneira tão rápida e nem com tantos resultados positivos sobre o clima. Ele diz: “Mesmo com todos os esforços a transição energética atual, embora cada vez mais urgente, ainda levaria um longo tempo. E não está claro a dimensão dos resultados positivos no que diz respeito às alterações climáticas”.
Gail Tverberg (2014), no artigo: “Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem”, relaciona dez problemas que dificultam a superação dos combustíveis fósseis e a mudança da matriz energética mundial para fontes renováveis.
Richard Heinberg, analisando o crescimento da energia renovável no artigo “Renewable Energy Will Not Support Economic Growth” (2015), chega à seguinte conclusão: “Em suma, há muito mais desafios associados à transição da energia renovável do que oportunidades. Há possíveis soluções para todos os problemas que identificamos. Mas a maioria dessas soluções envolvem custos mais elevados ou a funcionalidade do sistema reduzida”.
Não resta dúvidas de que a economia internacional precisa reduzir significativamente os subsídios e a dependência dos combustíveis fósseis e aumentar o peso das energias renováveis no conjunto da produção energética, a despeito das dificuldades que precisam ser superadas. Para tanto é preciso que as diversas nações criem políticas públicas para incentivar a utilização das energias renováveis e que haja incentivo para que o mercado, as famílias e as comunidades invistam na mudança da matriz energética. Também é preciso construir redes de transmissão inteligentes para controlar a sazonalidade da produção de energia eólica e solar, aumentar a eficiência energética e adaptar a produção à demanda.
Portanto, os investimentos em energia eólica e solar devem vir acompanhados de uma mudança no modelo de produção e consumo que degrada a natureza e aumenta a pegada ecológica. O mundo precisa se livrar dos combustíveis fósseis, mas também precisa caminhar rumo ao decrescimento das atividades antrópicas, renovando o estilo de desenvolvimento consumista que tem colocado tantas pressões sobre o meio ambiente e a biodiversidade. Como colocado em artigo recente (Alves, 2014): “Somos a primeira geração a sentir o impacto da mudança climática e a última geração que pode fazer alguma coisa para evitar um desastre ecológico global”. A mudança da matriz energética é um primeiro passo. Mas a construção de uma civilização ecológica é um sonho ainda muito distante e que vai requerer muitos esforços.
Referências:
ALVES , J. E. D. 100% energia renovável, Rio de Janeiro, Cidadania & Meio Ambiente, n. 54, v. X, p. 6-10, 2015. (2177-630X) http://pdf.ecodebate.com.br/rcman54.pdf
ALVES, JED. Energia renovável com baixa emissão de carbono, RJ, Cadernos Adenauer 3, 2014

Cadernos Adenauer 3/2014: Eficiência Energética, RJ, 2014, ISBN 978-85-7504-190-1

Lester Brown et al. The Great Transition Shifting from Fossil Fuels to Solar and Wind Energy, Earth Policy Institute, 2015 http://www.earth-policy.org/books/tgt/tgt_data#1
DW. Solar power on the rise, 12/06/2015

Robert Walton. UBS: Solar will soon be ‘default technology of the future’. June 9, 2015

TVERBERG, Gail. Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem, 21/01/2014.

Kurt Cobb.The energy revolution will not be televised, Resource Insights, May 31, 2015

Richard Heinberg. Renewable Energy Will Not Support Economic Growth, Resilience, Jun 5, 2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 03/07/2015

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