"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Chomsky: Nós todos somos... Preencha o espaço em branco

Noam Chomsky
chomsky.info, 10 jan 2015

O mundo reagiu com horror ao ataque assassino contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo. No New York Times, o veterano correspondente da Europa Steven Erlanger graficamente descreveu o rescaldo, o que muitos chamam de 11/09, da França, como "um dia de sirenes, helicópteros no ar, boletins de notícias frenéticos; de cordões policiais e multidões ansiosas; das crianças lavadas para longe das escolas para a segurança. Era um dia, como os dois anteriores, de sangue e horror e em torno de Paris. "O enorme protesto mundial foi acompanhado pela reflexão sobre as raízes mais profundas da atrocidade. "Muitos percebem um choque de civilizações", uma manchete do New York Times.

A reação de horror e repulsa sobre o crime é justificada, já que é a busca de raízes mais profundas, enquanto nós mantemos alguns princípios em mente. A reação deve ser completamente independente do que se pensa sobre esta publicação, o que ela produz. Os cânticos apaixonados e onipresente "Eu sou Charlie", e similares, não devem ser feitos para indicar, mesmo insinuar, qualquer associação com a revista, pelo menos no contexto da defesa da liberdade de expressão. Pelo contrário, devem expressar defesa do direito à liberdade de expressão o que quer que se pensa do conteúdo, mesmo se eles são considerados como odioso e depravado.

E os cânticos também devem expressar uma condenação da violência e do terror. O chefe do Partido Trabalhista de Israel e o principal rival para as próximas eleições em Israel, Isaac Herzog, tem toda a razão quando diz que "O terrorismo é terrorismo. Não há duas maneiras sobre ele "Ele também é certo dizer que" todas as nações que buscam a paz e a liberdade [caras] têm um enorme desafio "do terrorismo assassino -. Pondo de lado sua interpretação previsivelmente seletiva do desafio.

Erlanger descreve vividamente a cena de horror. Ele cita um jornalista sobrevivo como dizendo que "tudo caiu. Não havia nenhuma maneira para fora. Havia fumaça em toda parte. Foi terrível. As pessoas estavam gritando. Era como um pesadelo. "Outro jornalista sobrevivente relatou uma" enorme detonação, e tudo ficou completamente escuro. "A cena, Erlanger relata, "foi uma vez mais familiar um dos vidros quebrados, paredes quebradas, vigas retorcidas, pintura queimada e devastação emocional . "Pelo menos 10 pessoas foram relatadas de uma só vez para ter morrido na explosão, com 20 desaparecidos", presumivelmente sob os escombros. "

Estas citações, como o incansável David Peterson nos lembra, não são, no entanto, a partir de Janeiro de 2015. Em vez disso, elas se referem a uma história de Erlanger de, em 24 de abril de 1999, que tornou-a apenas em página 6 do New York Times, não atingindo o significado do ataque ao Charlie Hebdo. Erlanger foi informar sobre a OTAN (que significa US) "ataque de mísseis na sede da televisão estatal sérvia", que "bateu Rádio Televisão Sérvia fora do ar."

Houve uma justificação oficial. "OTAN e as autoridades americanas defenderam o ataque", Erlanger relata, "como um esforço para minar o regime do presidente Slobodan Milosevic da Jugoslávia." O porta-voz do Pentágono Kenneth Bacon, em entrevista em Washington que "a TV sérvia é tão parte do assassinato de Milosevic como sua militar militar é", portanto, um alvo legítimo de ataque.

A governo iugoslavo, disse que "A nação inteira está com nosso presidente, Slobodan Milosevic," Erlanger relata, acrescentando que "a forma como o governo sabem que com tal precisão não era claro."

Nenhum comentário deste tipo sardónicos estão em ordem, quando lemos que a França chora os mortos e que o mundo está indignado com a atrocidade. Há também precisa haver investigação sobre as raízes mais profundas, não há questões profundas sobre quem está para a civilização, e que para a barbárie.

Isaac Herzog, então, é enganado quando diz que "O terrorismo é terrorismo. Não há duas maneiras sobre ele "Há bastante definitivamente duas maneiras sobre ele:. O terrorismo não é o terrorismo, quando um ataque terrorista muito mais grave é realizado por aqueles que são justos, em virtude de seu poder. Da mesma forma, não há agressão contra a liberdade de expressão quando o Righteous destruíram um canal de TV de apoio de um governo que eles estão atacando.

Da mesma forma, podemos facilmente compreender o comentário no New York Times de advogado de direitos civis Floyd Abrams, conhecido por sua vigorosa defesa da liberdade de expressão, que o ataque Charlie Hebdo é "o assalto mais ameaçador sobre o jornalismo na memória viva. "Ele é muito correto sobre" memória viva", que atribui cuidadosamente assaltos em jornalismo e atos de terror para suas categorias próprias: a deles, que são horrendo; e outros, que são virtuosos e facilmente demitidos de que há memória.

Poderíamos lembrar também que esta é apenas uma das muitas agressões por parte do justo sobre a liberdade de expressão. Para citar apenas um exemplo que pode ser facilmente apagada da "memória viva", o assalto a Faluja pelas forças dos EUA em novembro de 2004, um dos piores crimes da invasão do Iraque, abriu com a ocupação de Falluja Hospital Geral. A ocupação militar de um hospital é, naturalmente, um crime grave de guerra em si, mesmo fora da forma em que foi realizado, blandly relata em um artigo de primeira página no New York Times, acompanhada de uma fotografia que descreve o crime. A história informou que "Os pacientes e funcionários do hospital foram levados às pressas para fora dos espaços com soldados armados e ordenou a sentar-se ou deitar-se no chão, enquanto tropas amarraram suas mãos atrás das costas." Os crimes foram relatados como altamente meritório e justifica: "A ofensiva também fechou o que oficiais disseram era uma arma de propaganda para os militantes: Hospital Geral de Falluja, com seu fluxo de relatos de vítimas civis ".

Evidentemente a essa agência de propaganda não pode ser permitido para vomitar suas obscenidades vulgares.

Camarões: Professores e alunos fogem da violência do Boko Haram

Depois da Nigéria, a seita islâmica do Boko Haram espalha o terror no norte dos Camarões. Reportagem de Ngala Killian Chimntom, da IPS.

Refugiados nigerianos em Mora, Camarões, após fugirem dos ataques armados do Boko Haram, em setembro de 2014. Foto: D. Mbaoirem/Acnur

“Prefiro renunciar a trabalhar num lugar como esse”, respondeu um professor quando questionado sobre se aceitaria um emprego na região do Extremo Norte de Camarões. James Ngoran não é o único professor que rejeita mudar-se para essa zona de conflito armado, fronteiriça com a Nigéria, onde se concentra o grupo extremista nigeriano Boko Haram para realizar seus ataques à isolada região.

“Muitos professores destacados ou enviados para a região do Extremo Norte simplesmente não ocupam seus postos. Todos temem pelas suas vidas”, afirmou Wilson Ngam, funcionário da Delegacia Regional para a Educação Básica. De fato, mais de 200 docentes negaram-se a trabalhar na região em 2014, acrescentou.

As incursões do Boko Haram no Extremo Norte provocaram um ciclo de medo e incerteza que levou professores e professoras a resistirem a cumprir suas responsabilidades e obriga os trabalhadores locais a pagar subornos para escapar da “zona da morte”.

O líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, ameaçou os Camarões num vídeo divulgado no dia 5 deste mês no YouTube, e advertiu que o país sofrerá a mesma sorte da vizinha Nigéria. Ele dirigiu a sua mensagem diretamente ao presidente camaronês, Paul Biya, no contexto dos reiterados enfrentamentos entre os insurgentes e as forças militares no Extremo Norte. Em setembro foi divulgado que Shekau havia sido abatido por militares do Camarões, versão que logo se mostrou infundada.

Na medida em que o grupo nigeriano intensificou os ataques contra o território camaronês, o governo teve que fechar mais de 130 escolas, apontou Mounouna Fotso, alto funcionário do Ministério da Educação Secundária. A maioria dos centros de ensino se encontra em Mayo-Tsanaga, Mayo-Sava, Logone e Chari, zonas fronteiriças com a Nigéria, país a partir do qual os extremistas lançam seus ataques

“O governo teve que fechar temporariamente as escolas e recolocar os estudantes e professores. As vidas de milhares de alunos estão em perigo enquanto o Boko Haram continuar os seus ataques. Não podemos arriscar as vidas das crianças”, afirmou Fotso. “Perdemos estudantes cada vez que se ataca um povoado, ainda que a vários quilómetros daqui”, afirmou Christophe Barbah, diretor escolar da localidade de Kolofata, em entrevista à imprensa.

O encerramento de escolas e o trauma psicológico vivido por docentes e alunos fazem temer que não se possa cumprir na região do Extremo Norte o segundo dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), que estabelece o acesso universal à educação primária até o fim de 2015.

Governo e sociedade civil concordam que esse objetivo pode ser alcançado no sul do país, mas a taxa de 49% de matrícula escolar alcançada no Extremo Norte, em comparação com a média nacional de 83%, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), indica que ainda há muito por fazer.

Mahamat Abba, morador de Fotocol com quatro filhos que frequentavam uma das três escolas públicas da cidade, fugiu com toda a sua família para Kouseri, na fronteira com o Chade. “Olhei para meus filhos e minha linda mulher e percebi que uma bala ou bomba poderia atingi-los a qualquer momento. Tivermos que fugir para um ambiente mais seguro. Mas começar uma vida nova aqui é um pesadelo, tendo abandonado tudo”, contou à IPS.

Alhadji Abakoura, de Amchidé, afirmou que a região praticamente se converteu num povoado fantasma. “A cidade tinha seis escolas primárias e um jardim de infância. Todos fecharam”, afirmou. Na medida em que alunos, os seus professores e pais se mudam para áreas mais seguras, aumenta a pressão sobre as escolas, que devem receber novos estudantes sem fundos adicionais.

O Unicef informa que a participação escolar de meninos chegou a 90% em 2013, enquanto a de meninas alcança 85% ou menos. Mas a taxa é muito inferior no Extremo Norte. Segundo o governamental Instituto Nacional de Estatística, a alfabetização é inferior a 40% na região do Extremo Norte, de 40% a 50% na do Norte, e de 60% a 70% no Estado norte-central de Adamawa.

“Muitos são obrigados a acompanhar as aulas das janelas das salas, porque o espaço para sentar no interior é muito limitado”, explicou Ahmadou Saidou, aluno da escola secundária pública de Maroua. O jovem escapou de Amchidé em setembro, quando dois estudantes e um professor morreram em um ataque. Antes sentavam-se três alunos em cada banco, agora são seis, acrescentou.

“É um tema de grande preocupação”, disse Mahamat Ahamat, delegado regional para a educação básica. “Em circunstâncias normais, cada sala deveria ter no máximo 60 alunos. Mas agora estamos em uma situação em que uma única sala chega a ter mais de 130”, acrescentou. “Estamos recolocando os professores que fogem das zonas de risco e enviando-os para as escolas para onde fugiram os estudantes. Esses ataques estão travando muito as coisas”, destacou.

O Boko Haram reforçou os ataques contra os Camarões nos últimos anos, matando civis e militares e sequestrando cidadãos nacionais e estrangeiros para pedir resgate. Os Camarões responderam à crise com reformas militares e legais. Criou uma quarta região militar no Extremo Norte do país, para que as suas forças estejam perto da zona de conflito, bem como para “impulsionar os meios operacionais, tanto em recursos humanos quanto materiais”, explicou o ministro da Defesa, Edgar Alain Mebe Ngo’o.

Os equipamentos militares foram fornecidos por Alemanha, Estados Unidos e Israel, segundo a imprensa. Ngo’o afirmou que os Camarões recrutarão 20 mil soldados nos próximos dois anos para reforçar a luta contra os insurgentes.

Por sua vez, o parlamento aprovou uma lei antiterrorista em dezembro que pune com pena de morte os culpados de atos terroristas. Mas os políticos da oposição, ativistas da sociedade civil e líderes religiosos consideram a lei antidemocrática e temem que seja usada para restringir as liberdades civis.

Artigo publicado no portal Envolverde e IPS.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

2014 confirmado como o ano mais quente

Por Craig Welch
para National Geographic

O ano de 2014 foi o mais quente desde que a manutenção de registros começaram, em 1880, de acordo com avaliações independentes de dados de temperatura divulgados sexta-feira pela NASA e da National Oceanic and Atmospheric Administration.

Globalmente, as temperaturas terrestres e oceânicas eram 0,69 ° C mais altas do que a média para as medições anteriores do século 20 estabelecidas entre 2005 e 2010.

O anúncio vem quando negociadores internacionais ainda estão lutando para chegar a um acordo para reduzir as emissões de dióxido de carbono na esteira da cada vez mais alarmantes previsões de cientistas do clima em todo o mundo.

O ano passado, o aquecimento bateu recordes regionais Australiana de Anchorage no sul da Europa e na América do Sul. Todos os continentes na Terra tiveram regiões que quebraram recordes de  temperaturas.

Mas foi o mar que viu o aumento mais substancial, com temperaturas da superfície do mar se elevando mais do que ocorrera, mesmo em 1998, um ano profundamente influenciado por um El Niño evento. Durante um El Niño, a água morna que tem sido amontoada no oeste do Pacífico pelos ventos alísios vem  para o leste ao longo do equador, entregando o calor da superfície do oceano e aquecendo, assim, a atmosfera também. (Relacionado: "Como o Oceano aquecer, uma corrida para salvar os recifes de coral do mundo")

O fato de que as temperaturas do oceano subiram em 2014 sem um grande evento El Niño é preocupante, disse Donald Wuebbles, um cientista atmosférico com a Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Quando o El Niño finalmente retorna, ele disse, "nós poderíamos ver um período como fizemos durante os anos 1980 e 1990, quando as temperaturas foram crescentes quase ano a ano."

Alguns daqueles que negam que a influência humana no aquecimento do clima global estão mudando e já sugerem ironicamente que foi em hiato desde que essas temperaturas extraordinariamente altas do mar em 1998. Mas três dos anos mais quentes já registrados ocorreram desde então. E, com exceção do ano de 1998, os dez anos mais quentes todos vêm desde o ano de 2000.

"Não vão ser os períodos em que as tendências de curto prazo vão para cima e para baixo, mas não há nenhuma evidência de que a mudança a longo prazo seja diferente", disse Gavin Schmidt , diretor do Instituto Goddard da NASA para Estudos Espaciais.

E, acrescentou, "É a tendência de gases de efeito estufa que são responsáveis ​​pela maior parte da [aquecimento] tendência que você vê."

Mais significativo do que qualquer recorde anual único, os cientistas concordam, é o fato de que as temperaturas médias globais continuaram a sua marcha ascendente década por década, assim como pesquisadores previram que seria se os humanos continuarem a aquecer o globo pela queima de combustíveis fósseis.

"Se você disser a alguém que se você coloca a mão na tomada você vai ficar chocado, e, em seguida, eles fazem isso e isso acontece, eles não devem se surpreender", disse Andrew Dessler , um cientista do clima na Texas A & M University , em College Station.

"Mas, como este ano vai influenciar o debate público", acrescentou Dessler. "Estas observações tornam mais difícil para as pessoas a acreditar que o argumento de que o mundo não está ficando mais quente."

Pena que não sou NSA? Sabe tudo da Petrobras.

Enquanto se encontra no meio do maior escândalo em que já esteve envolvida; o que tivemos conhecimento, felizmente; a Petrobras se tornou semana passada a maior produtora de petróleo de capital aberto do mundo com uma produção de 2,209 milhões de barris/dia, embora num momento onde tenhamos uma queda fortíssima nos preços com o barril a menos de 50 dólares. A Petrobras foi a empresa que mais cresceu em produção em 2014 segundo o relatório  da própria Petrobras.

Mesmo alguns dizendo que a empresa vai quebrar, mais uma vez, felizmente quem  usava-a para lucros pessoais não puderam fazer com que a empresa se tornasse gigante, tendo se mantida uma estatal completa e depois se capitalizando.  Logo depois do conhecimento dos esquemas um membro do PSDB publicou um artigo em um grande jornal para dizer que a prática do cartel junto a empresa até diminuiu.

Nada a justificar, nada daquela "isso é comum" até por que sabemos tão pouco a respeito de um negócio gigantesco que envolve um produto como o petróleo e seus derivados que é o centro de interesses inimagináveis.

Mas gostaria de lembrar de que segundo Gleen Greenwald baseado no documentos revelados por Edward Snowden, hoje já mais esquecidos, e ainda não nobéis, a NSA praticava a espionagem econômica e o alvo prioritário com relação ao Brasil era  Petrobras, principalmente por parte por amiguinhos de espionagens canadenses:

"Os motivos para a espionagem econômica são bem claros. Quando os Estados Unidos usam a NSA para espionar as estratégias de planejamento de outros países durante discussões sobre comércio e economia, podem obter enorme vantagem para a indústria norte-americana. Em 2009, por exemplo, o secretário de Estado assistente Tomas Shannon escreveu a Keith Alexander para expressar sua“gratidão e [seus] parabéns pelo extraordinário apoio de inteligência de sinais” recebido pelo Departamento de Estado durante a Quinta Cúpula das Américas, conferência destinada à negociação de acordos econômicos" (Gleen Greenwald). 

Um dos segredos do sucesso é ter informações acima do nível dos outros, então, os EUA podem ir à luta em diplomacia e economia já sabendo o que os outros têm para mostrar, é só pensar e colocar na mesa, ou nos mísseis, a melhor estratégia.

As ações da Petrobras foram ao chão, inúmeras medidas judicias feitas por investidores fora e uma já aqui no Brasil; mas es que uma surpresa desponta curiosidade: soube-se que George Soros andara aumentando os investimentos na Petrobras, o que chamou logo a atenção na busca de se saber os motivos. Na sua posse a presidenta Dilma Roussef se referiu a pedradores internos e externos.

Bom, não temos a capacidade da NSA, se a tivéssemos saberíamos com certeza, e diríamos, evidentemente, o que há por trás de tantos mistérios.

A NSA deixou de funcionar?

Depois das revelações feitas por Edward Snowden,  de que a NSA reinava com absoluta anarquia ao contrário, podendo rastrear a tudo e todos e da euforia instantânea o rumo que se segue é de que as pessoas cederão à vigilância total em troca da "segurança".

Liberdade e segurança, uma anula a outra, então como conciliar? Não concilia, depende do que o momento pedir. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman discute largamente essa controvérsia em suas obras e artigos ou entrevistas, todos queremos liberdade, mas liberdade em excesso anula a segurança e todos queremos segurança, mas ela em excesso anula a liberdade.

Num artigo de Umberto Eco sugere uma mudança na nossa privacidade, para ele tempos atrás o maior perigo para nossa privacidade eram as fofocas, hoje o maior perigo é a perda da visibilidade. Eco lembra Bauman quando este sugere que hoje as pessoas, elas próprias, se estimulam a serem espionadas.

Com o ataque ao Charlie Hebdo até se viu alguém falar que os culpados eram Assange e Snowden, só que estes não conseguiram nada mais do que mostrar para quem queira que as potências espionam, espionam ate por interesse econômico de suas empresas, mas não fizeram com que se parasse a espionagem. A NSA continua a operar toda poderosa, aliás, como sugere Gleen Greenwald, é a NSA o centro de poder mais sem controle do Mundo, algo estranhíssimo para o projeto de nação americano dos federalistas e pais fundadores, é o mundo tem das suas controvérsias...


Mas como disse Obama os EUA é um país necessário, ocorra algo em qualquer lugar e logo nos chamam e tem todas as possibilidades de lá irem. Obama sabe de sua força política...

Assange afirma em entrevista que a agência de espionagem sabia das atividades dos irmãos terroristas e não fez nada para que o jornal não fosse atacado. Coisas para depois do abalo, onde, os rumos vão se traçando e em que os jornais europeus terão esse receio de virem a ser também atacados.

Projeto do CNJ cria “audiências de custódia” para reduzir superlotação em cadeias

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) e o Ministério da Justiça lançarão no dia 6 de fevereiro um projeto para garantir que presos em flagrante sejam apresentados a um juiz num prazo máximo de 24 horas. O “Projeto Audiência de Custódia” consiste na criação de uma estrutura multidisciplinar nos Tribunais de Justiça que receberá presos em flagrante para uma primeira análise sobre o cabimento e a necessidade de manutenção dessa prisão ou a imposição de medidas alternativas ao cárcere. O projeto teve seu termo de abertura iniciado nesta quinta-feira (15), após ser aprovado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal e do CNJ, ministro Ricardo Lewandowski.

Segundo Luís Geraldo Sant’Ana Lanfredi, juiz auxiliar da Presidência do CNJ e coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (DMF), hoje uma pessoa presa em flagrante muitas vezes fica detida em delegacias ou centros de detenção provisória por longos períodos e só tem contato com o juiz no momento da instrução do processo, o que pode levar até 90 dias ou mais. “Há situações em que o juiz só tem contato com o preso por meio dos autos do processo”, explica Lanfredi, que coordenou a elaboração do projeto.

O projeto conta ainda com a parceria do Presidência e da Corregedoria Geral da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que é presidido pelo desembargador José Renato Nalini e tem como corregedor-geral da Justiça o desembargador Hamilton Elliot Akel,além do Ministério da Justiça.

O secretário-geral do CNJ, Fabrício Bittencourt, e o juiz coordenador do DMF reuniram-se na tarde de quinta-feira (15) com o presidente do CNJ, Ricardo Lewandowski, e definiram as premissas e requisitos de detalhamento da iniciativa. O objetivo do projeto é garantir que, em até 24 horas, o preso seja apresentado e entrevistado pelo juiz, em uma audiência em que serão ouvidas também as manifestações do Ministério Público, da Defensoria Pública ou do advogado do preso. Durante a audiência, o juiz analisará a prisão sob o aspecto da legalidade, da necessidade e adequação da continuidade da prisão ou da eventual concessão de liberdade, com ou sem a imposição de outras medidas cautelares. O juiz poderá avaliar também eventuais ocorrências de tortura ou de maus-tratos, entre outras irregularidades.

A implementação das audiências de custódia está prevista em pactos e tratados internacionais assinados pelo Brasil, como o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, conhecida como Pacto de San Jose. Segundo o juiz auxiliar do CNJ, a prática já é amplamente utilizada em muitos países da América Latina e na Europa, onde a estrutura responsável pelas audiências de custódia recebe o nome de “Juizados de Garantias”.

“Estamos concebendo uma estrutura que vai oferecer ao juiz um leque concreto e substancial de opções para sua decisão”, afirma o coordenador do DMF. “Aqueles que mereçam estar e ficar presos continuarão presos, mas aqueles que não mereçam vão receber medidas alternativas à prisão, ou se submeterão ao monitoramento eletrônico, podendo suas situações, inclusive, serem direcionadas para a mediação penal. Hoje o juiz muitas vezes opta pela prisão porque não tem opções”, explica. Além das audiências com um juiz em até 24 horas, o projeto prevê, portanto, a estruturação de centrais de alternativas penais, centrais de monitoramento eletrônico, centrais de serviços e assistência social e câmaras de mediação penal, responsáveis por representar ao juiz opções ao encarceramento provisório.

Os detalhes finais de execução do projeto estão sendo fechados entre os três órgãos e o projeto-piloto será lançado no próximo dia 6 de fevereiro em São Paulo, com a assinatura de um termo de cooperação. O projeto-piloto será desenvolvido no Fórum Ministro Mário Guimarães, no bairro da Barra Funda, local para onde são encaminhados todos os autos de prisão em flagrante delito lavrados na capital paulista, e realizado pelo Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária (DIPO) do TJSP.

Participarão do lançamento do projeto-piloto, no Fórum da Barra Funda, o presidente do STF e do CNJ, ministro Ricardo Lewandowski, o presidente do TJSP, desembargador José Renato Nalini, o corregedor-geral de Justiça de São Paulo, desembargador Hamilton Elliot Akel, o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardoso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, além do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Defensoria Pública do Estado de São Paulo e do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDF). A previsão é que as primeiras audiências de custódia sejam realizadas a partir do dia 23 de fevereiro.

(Agência CNJ de Notícias)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

"Em cada casa velha de taipa abandonada há um grito de fome dentro dela"

Gostamos demais de fazer comparações com os Estados Unidos, e não é que elas sejam impossíveis de serem feitas, até são bem-vindas sendo miragens para aprendizado, mas o processo histórico brasileiro é completamente distinto. O que é o povo brasileiro, existe de fato? Esta foi a grande preocupação de intelectuais brasileiros ao longo do século XX, e já alguns o fizeram no século XIX.

Como o território onde tudo que se planta dá iria alcançar o progresso, o desenvolvimento  econômico e social? Passou-se de teses raciais, dando conta de que devia se "esbranquiçar" a nação trazendo imigrantes europeus, é o que defende personagem Amleto de Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro; até a obra de Gilberto Freyre em defesa da miscigenação, obra esta que tem uma representatividade muito grande contra as teorias racistas.

Mas aí vemos movimentos sociais, de afirmação política. Aliás, o personagem Amleto defende que o Brasil deve ter como povo uma aristocracia de origem europeia:

"O nosso povo é um de nós, ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é cultura, civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebotalho dessa mesma nacionalidade." (Personagem Amleto de Viva o Povo Brasileiro - João Ubaldo Ribeiro)

As artes populares brasileiras trataram de tornar publicizadas todo o drama do povo brasileiro, não o povo de Amleto, mas o povo que ele nega como povo. Temos Patativa do Assaré, que vai além do sofrimento com a seca, que aliás Amleto via como forma de despossessão, a críticas de condições de trabalho; João do Vale e sua Sina do Caboclo. enfim, uma produção gigante que caracterizava para as pessoas vivendo aquela situação tudo que eles eram.

Os Estados Unidos não viveram a fome como o resto da América Latina, sabe-se lá por sorte, competência ou diferença colonizatória, não importa julgar a história. A fome foi o maior drama social brasileiro, a história brasileira é uma história de fome e não por inaptidão para o trabalho, mas sim por se trabalhar demais e não se ter direito a nada; hoje tendemos a analisar tudo pelos cálculos econométricos, mas como diz o compositor "em cada casa velha de taipa abandonada há um grito de fome dentro dela".

A desintegração da China rural


Em uma viagem no final do ano passado ao lar da minha infância em uma vila rural na China, descobri que meu irmão se escondia uma faca militar em seu cinto quando saíu de casa. Perguntei-lhe por que ele faz isso, e ele respondeu: "Não é tão seguro quanto antes por aqui"
A aldeia tranquila e idílica onde eu cresci, como muitas outras aldeias rurais da China foi rasgada pela quebra de normas sociais tradicionais, como resultado de décadas de políticas fracassadas e negligência do Estado. Muitos dos meus conterrâneos hoje preferem voltar aos velhos tempos.
A nostalgia como sentimento pode parecer estranho na China, que tem uma imagem da história recente do país marcado por lembranças das políticas desastrosas de Mao, nos anos após a revolução comunista de 1949 que causou a catástrofe econômica, a fome e a morte em massa. Mas minha geração que alcançou a maioridade após a Grande Fome e o fim da Revolução Cultural na década de 1970, evitou o pior dessas misérias. E de maneira tipicamente chinesa, meus ascendentes preferem não falar sobre os dias ruins.
Minha infância foi passada em um momento único para a China. Ainda nossas vidas eram a tradicional das aldeias, tendo deixado para trás os horrores de Mao, mas ainda longe da loucura capitalista. As famílias eram fortes, o crime inexistente e a paisagem natural. Nós não nos importávamos em  ser pobres - no terceiro e quarto anos da minha escola primária na década de 70, toda a escola faltava livros - porque não sabíamos o que precisávamos. Vivíamos em comunidades pacíficas, muito unidas.
Mas p tecido social tradicional chinês foi rasgado - e a desintegração é mais evidente nas áreas rurais, onde as famílias estão se desintegrando, o crime tem aumentado e o meio-ambiente está matando as pessoas. Muitos moradores decidiram que o estado tinha desaparecido de suas vidas privadas nas últimas décadas, agora clamam por intervenção do governo. Algo deve ser feito para reconstruir a vida agonizante da aldeia na China.
A partir do final dos anos 1970, as comunas foram divididos em agricultura familiar, o que levou a um aumento da produtividade e maior liberdade para os agricultores. Os camponeses de repente tinham o poder de decidir o que plantar, como fazer e como vender as suas colheitas e outros produtos. Muitos agricultores decidiram abandonar a terra para trabalhar nas fábricas em cidades que cresceram rapidamente ao longo da costa sudeste, trazendo dinheiro para casa, bem como um novo conhecimento do mundo exterior. Muitos trouxeram de volta muito necessário para construir as suas próprias habilidades de negócios. Esta idade de ouro foi comemorada como o triunfo da libertação econômica de Deng Xiaoping.
Este período de renascimento no campo terminou em meados e finais de 1990. O crescimento caótico do crédito bancário para explodir a impressão do Banco Central causou anos de inflação de dois dígitos que erodiram os ganhos rapidamente no campo e ajudou a expandir as lacunas entre as vilas e cidades. O salário médio mensal nas cidades aumentou desde algumas centenas de yuans duas décadas antes para 4.000 yuans (650 dólares) hoje, enquanto as receitas no campo caminharam para trás.
Mais importante, após a privatização da habitação pública pelo governo, os preços dos domicílios urbanos cresceram exponencialmente, cinco a seis vezes, em muitos casos, enquanto que o valor das casas aumentou ligeiramente em comparação. Muitos moradores rurais perderam para o boom imobiliário na China, o que contribui para a disparidade de riqueza entre cidades e o campo.
Os governos locais têm feito pouco para ajudar. À medida que mais e mais agricultores migraram para as fábricas nas cidades costeiras, diferentes níveis de governo locais se descuidaram e decaíram. Por fim, as fábricas foram construídas em cidades perto de aldeias rurais, poluindo lado e intoxicando rios e o ar. Especialistas estimam que a China tem mais de 450 aldeias cancerígenas, povos onde os casos de câncer excedem em muito as taxas médias. Os moradores pagaram um preço alto. Alguns moradores do meu povo morreram de enfermidades desconhecidas em seus 40s e 50s anos.
O estado da aldeia da casa  da minha família em Jingmen, província de Hubei, é comum na China. Seus caminhos não são mais transitáveis, porque eles não são mantidos por mais de uma década. Edifícios comunitários foram demolidos; a última vez que eu estava lá só vi telhas quebradas e pó em todos os lugares.
As famílias rurais estão sofrendo. A taxa de suicídio no país é três vezes maior do que nas cidades segundo os informes de 2011. Meu tio, que vivia em um barraco improvisado depois de seus filhos mais velhos o expulsassem de casa, se enforcou, há quatro anos e nunca conseguiu superar a morte de sua esposa, dois anos antes.
É comum que ambos os pais deixem seus filhos em casa na aldeia, enquanto trabalham em fábricas em outros lugares. Cerca de 60 milhões de crianças sofrem esse destino; mais são deixados aos cuidados de seus avós, mas mais de 3 por cento - milhões de crianças - vivem sozinhos. Crianças que ficam muitas vezes têm de lidar com a solidão (muitos não têm irmãos) e a impotência. Alguns relatos dizem que o abuso sexual das crianças aumenta.
Enquanto isso, um número crescente de crianças da zona rural abandonas a escola. Um estudo sugere que, pelo menos, 20 milhões de desistências nas zonas rurais, ou 1 em cada 10 jovens moradores. A escola primária, onde estudei na década de 1970 foi fechada há uma década devido ao número de estudantes em declínio. Como resultado, as crianças da aldeia tem que viajar mais de cinco quilômetros de estradas de terra todos os dias para ir à escola.
Em muitos casos, os homens vão trabalhar nas cidades, enquanto suas mulheres ficam com as crianças na aldeia. Só se veem alguns dias por ano. A distância, o estresse emocional e a frustração desestruturas as famílias.
De acordo com a revista semanal de Aprendizagem, a taxa de divórcio rural na China cresceu quatro vezes entre 1979 e 2009. Lianhe Zaobao, um jornal, em Cingapura, e inúmeras publicações do governo relataram que, em muitas partes da China rural reina a anarquia, com aumento das taxas de crime e fraude eleitoral.
Esforços de Pequim para descentralizar a governação do país durante as últimas décadas têm desempenhado um papel importante nesta decadência social. As eleições de chefes de aldeia são muitas vezes manipuladas e a corrupção é desenfreada. A retirada do Estado deixou um perigoso vácuo de poder, e muitos moradores foram abandonados à própria sorte. Há muitos rumores de grupos mafiosos no poder na sombra.
O crime, raro na era comunista, está a aumentar. As estatísticas são difíceis de encontrar: a polícia não publica. No campo, apenas os crimes mais extremos são investigados, mas até mesmo alguns casos horríveis são ignorados. Vários anos atrás, meu primo foi espancado quase até a morte por um aldeão e sua família em uma disputa sobre um caso extraconjugal. Minha irmã informou dita atrocidade à polícia, mas nunca investigou o caso.
Nos velhos tempos, os funcionários da aldeia e municípios tinham o poder e os recursos para mediar disputas, incluindo a violência doméstica. A polícia patrulhava mesmo as aldeias mais remotas. A polícia de hoje parece reservada para cidades e chefes de aldeia não têm os recursos para intervir em questões sociais. A abolição de uma "agricultura fiscal", cerca de dez anos atrás, tem contribuído para as restrições orçamentárias dos governos locais.
Enquanto o governo continua obcecado com as taxas de crescimento econômico, a desigualdade no país e um ambiente degradado - especialmente nas aldeias - são muito maiores desafios. Digam o que digam os liberais radicais sobre as conseqüências indesejáveis do estado, muitos chineses rurais, particularmente os pobres, como os meus parentes e conterrâneos, querem mais intervenção do governo. Os agricultores estão formando grupos de peticionários em vários lugares, exigindo que o governo intervenha em disputas de terra em relação à poluição e fraude eleitoral.
A miséria na zona rural chinesa é grave, mas tem uma solução. O governo e as pessoas devem sair das sombras e dar prioridade à reconstrução da vida da aldeia. O estado tem os recursos financeiros e conhecimentos para o fazer. Só precisa querer.
Joe Zhang, foi um dos diretores do Banco Popular de China, e autor de Party Man, Company Man: Is China’s State Capitalism Doomed?

Falta de água força 36 milhões de latino-americanos a escolher entre necessidades básicas

O alerta é do Banco Mundial, que acrescenta que, com as mudanças climáticas, o problema da falta de chuvas – e de abastecimento – tende a piorar nas regiões mais áridas do mundo. Projetos de cooperação buscam soluções no tema.

Todos os dias, Jane Fernandes gasta pelo menos uma hora e meia indo e voltando da cisterna do assentamento rural de Caraúbas, abastecida pelo Exército. Foto: Mariana Kaipper Ceratti/Banco Mundial

Aos 40 anos, a boleira Maria Dilvânia Lima nunca tomou um banho de chuveiro. Duas vezes por semana, ela se junta a sete colegas para assar bolos em uma associação de mulheres de uma pequena cidade do nordeste brasileiro.
Nenhuma receita leva água. “Substituímos por polpa de frutas ou leite”, conta ela, orgulhosa. Nos dias de produção normal, 25 quitutes (de coco e mandioca, entre outros sabores) saem de uma pequena cozinha para serem vendidos aos vizinhos.
Nos últimos tempos, porém, tem sido difícil manter a produção. Por causa da seca que há três anos maltrata o semiárido, o assentamento rural onde vive não recebe chuva suficiente para encher as cisternas das casas. Pior: fora a água trazida pelo Exército a cada semana, não há outra fonte de abastecimento, o que obriga as mulheres de Caraúbas (Rio Grande do Norte) a tomar decisões cada vez mais difíceis no dia a dia.
“A água é necessária tanto para lavar as vasilhas quanto para a obra de ampliação da nossa cozinha. Estamos deixando de gastar para não faltar em casa, para a família e o rebanho”, comenta Dilvânia. Como as vizinhas, ela diariamente sai cedo de casa para encher as 10 latas d’água a que os moradores têm direito.
Se não há água, não há bolos nem renda para o grupo. As famílias acabam dependendo quase exclusivamente do pagamento do Bolsa Família, do Garantia Safra (que protege os agricultores em caso de perdas) e da aposentadoria, três dos principais benefícios concedidos pelo governo brasileiro.
Água cinza
A história ilustra um desafio que 748 milhões de pessoas enfrentam em todo o mundo, 36 milhões só na América Latina. A falta d’água significa que, diariamente, essas pessoas precisam escolher entre preparar comida ou lavar a louça, entre tomar banho ou regar a horta.
Com as mudanças climáticas, o problema da falta de chuvas – e de abastecimento – tende a piorar nas regiões mais áridas do mundo. “O nordeste brasileiro sofre, particularmente, os impactos das secas relacionadas com o fenômeno El Niño, que podem se tornar mais frequentes em um planeta 4°C mais quente”, informa a versão latino-americana do relatório Diminuir o Calor, do Banco Mundial.
Tantas limitações obrigam qualquer projeto de fornecimento de água a também ensinar a população a usar o líquido da forma mais eficiente possível.
A boa notícia para as famílias de Caraúbas é que, entre setembro e dezembro deste ano, a vila finalmente terá abastecimento regular, por meio de uma adutora que puxará a água do poço localizado a 5km da vila.
“Será possível levar água encanada às 43 famílias do assentamento, permitir a elas cuidar das pequenas plantações em seus quintais, vender o excedente na feira. E as doceiras vão poder continuar suas atividades”, empolga-se Ana Guedes, gerente executiva do projeto de desenvolvimento Rio Grande do Norte Sustentável, que une o governo do estado ao Banco Mundial.
Além disso, os moradores aprenderão a aproveitar até o líquido do banho e da descarga, chamado de “água cinza” pelos especialistas na área.
Aliás, essa é uma lição que as regiões mais ricas do Brasil, como São Paulo, vêm aprendendo a duras penas, pois a seca e a falta d’água deixaram de ser um problema exclusivo do campo e do Nordeste do Brasil.
O fim de um peso
Iniciativa semelhante, concluída em 2010, já havia levado acesso a água potável para 53 mil famílias em vários municípios do Rio Grande do Norte. O impacto social foi imediato e significativo.
As mulheres dessas cidades – antes responsáveis por buscar a água em enormes latas – se livraram do fardo e puderam passar mais tempo fazendo atividades remuneradas ou brincando com os filhos. Estudo feito em 20 comunidades mostrou que, como resultado, elas tiveram aumento de 30% na renda familiar.
“Mesmo com os investimentos já realizados, a demanda por água ainda é uma necessidade para diversas famílias na área rural”, comenta Fátima Amazonas, especialista em desenvolvimento rural do Banco Mundial. Ela acrescenta que o novo projeto também atuará na recuperação ambiental de áreas degradadas e em capacitações para os agricultores.
Essas possibilidades animam a dona de casa Jane Fernandes, 27 anos, mãe de duas filhas. Todos os dias, ela gasta pelo menos uma hora e meia indo e voltando da cisterna do assentamento, abastecida pelo Exército. “Meus sonhos: que eu termine meus estudos para dar uma vida melhor às meninas e que essa água chegue”, conta.
Jane, como outros milhões de latino-americanos, também sonha tomar um banho de chuveiro.
Fonte: ONU Brasil

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Nós vivemos em um monturo?

Lá no sertão onde vivíamos até poucos anos, no pé da serra como gostamos de dizer, onde de manhã cata o Galo de Campina e o Concriz, se chama de Monturo ou "muturo" o local "imundo" onde se pode descartar os entulhos e, de Tapera uma casa velha abandonada, tapera significa em outros lugares do Brasil uma propriedade de terra abandonada, bem o sentido é semelhante.

Galo de Campina
Concriz

Tapera foi um ensaio escrito por Werneck Sodré par dizer que o termo poderia se empregar a situação política do Brasil, mas ou menos da seguinte maneira ilustrada com um exemplo: As obras começadas por uma gestão e abandonadas por outra. Algo como se o momento que estou no poder é meu, não vale a república ou a sociedade civil, seus interesses particularmente.

Eu gostaria de acrescentar o termo monturo para levantar a hipótese de quando uma parada de ônibus é pichada ou completamente quebrada, assim omo outros aparelhos públicos, por parte da população; ou quando quem está no poder não cumpre responsabilidades, um lugar desprezível não precisa ser tratado como se estivesse sendo visto.

Por que as adutoras de "engate rápido" que eram para serem construídas  em forma de emergência para fornecer água para cidades em colapso hídrico, veja bem emergencial de engate rápido, a seca se iniciou em 2012 e até hoje, Janeiro de 2015, ainda não estão prontas? Culpam demais o instituto da licitação, que era para ser um instrumento republicano e não burocrático, no sentido negativo, pois burocracia significa, no sentido weberiano, gestão técnica, moderna.

Se chove os riscos de epidemias de dengue são elevadíssimos, boa parte disso por hábitos nossos de não mantermos as ruas limpas, notoriamente nos bairros periféricos; dois lado poder público incompetente, população  a-pública.

Seca se prolonga no semi-árido potiguar

"Boi com sede bebe lama" (Petrúcio Amorim)

"Tomara que chova logo, tomara meus deus, tomara. Só deixo meu Cariri no último pau-de-arara" (Angel Venancio)

A seca se arrasta neste início de 2015 pelo semi-árido nordestino e o acesso à água pelas populações urbanas se torna cada vez mais complicado, no Rio Grande do Norte há municípios desde 2012 abastecidos por carros-pipa e, cidades de médio porto, como Currais Novos vive desabastecimento e já beira o colapso.

Para Currais Novos e Pau dos Ferros o governo do RN na gestão de Rosalba Ciarline havia prometido a construção de adutoras provisórias como forma de aliviar em caráter de urgência o desabastecimento dessas cidades a partir da utilização das águas do maior reservatório do estado, a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, só que até o momento as obras não foram executadas. O açude responsável pelo abastecimento de Currais Novos,  O Gargalheiras, famoso bela bela "sangria", conta com apenas 3% de sua capacidade, em volume morto.

Em Caicó, outro município do semi-árido potiguar com uma população maior para os padrões do estado passou a ter um rodízio de abastecimento nos bairros, através de um calendário com os dias em que cada zona da cidade conta com fornecimento, o açude da cidade, Itans, também está no volume morto.

O último período de chuvas no Rio Grande do Norte capaz de encher os grandes açudes foi 2011, e como as chuvas no semi-árido nordestino perduram até metade do ano, então desde Julho de 2011 que a seca se prolonga.

2012 oi o mais seco desses anos, com algumas regiões do RN sem contar com sequer uma precipitação de grande volume; foi em 2012 que o rebanho bovino mais fora dizimado; 2014 ainda propiciou o enchimento de alguns pequenos reservatórios.

Com relação às frases acima são marcas fortes do passado do semi-árido, embora ainda ocorram; mas há que lembrar-se que a região urbanizara-se e passa a contar com a água dos grandes reservatórios e adutoras.

Quando a seca se prolongava de fato se bebia lama, perfurava pequenas cacimbas onde se retirava pequenas quantidades de água; as cisternas foram uma técnica que para a população rural significou muito neste sentido. Com relação ao êxodo ele diminuiu muito nas últimas décadas.

O principal desafio agora é mudar a mentalidade da forma de como lidar com a seca trabalhando com tecnologias ecologicamente corretas e que se aprenda a se utilizar ao máximo a água das chuvas para o consumo humano e se pensar na integração das bacias.

Charlie Hebdo: uma reflexão difícil

Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos.

BOAVENTURA SOUSA SANTOS - JORNAL PÚBLICO DE LISBOA


O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartonistas do Charlie Hebdo torna muito difícil uma análise serena do que está envolvido neste ato bárbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercussões futuras. No entanto, esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as nossas consciências. Eis algumas das pistas para tal análise.

A luta contra o terrorismo, tortura e democracia. Não se podem estabelecer ligações diretas entre a tragédia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados têm vindo a travar desde o 11 de setembro de 2001. Mas é sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muitos milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e tem sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são meramente especulativas, como consta do recente relatório presente ao Congresso norte-americano. E também é sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune. Perante isto, devemos refletir se o caminho para travar a espiral de violência é continuar a seguir as mesmas políticas que a têm alimentado como é agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este fato não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela? Certamente não o partido Podemos em Espanha ou o Syriza na Grécia.

A liberdade de expressão. É um bem precioso mas tem limites, e a verdade é que a esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a "sua" liberdade a sofrê-los. Exemplos de limites são imensos: se em Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas mãos, pode ser preso; em Franças, as mulheres islâmicas não podem usar o hijab; em 2008 o cartonista Maurice Siné foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma crônica alegadamente antissemita. Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na América Latina, a grande mídia, controlada por famílias oligárquicas e pelo grande capital, são os que mais clamam pela liberdade de expressão sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos têm feito pelo bem-estar dos mais pobres. Aparentemente, o Charlie Hebdo não reconhecia limites para insultar os muçulmanos, mesmo que muitos dos cartoons fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamofóbica e anti-imigrante que avassala a França e a Europa em geral. Para além de muitos cartoons com o Profeta em poses pornográficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres muçulmanas grávidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram, que, apontando para a barriga, pediam que não lhes fosse retirado o apoio social à gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o islão, as mulheres e o Estado social. Ao longo dos anos, a maior comunidade islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas igualmente foi pronta no seu repúdio deste crime bárbaro. Devemos, pois, refletir sobre as contradições e assimetrias na vida vivida dos valores que cremos serem universais.

Tolerância e "valores ocidentais". O contexto em que o crime ocorreu é dominado por duas correntes de opinião, nenhuma delas favorável à construção de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical é frontalmente islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da extrema-direita em toda a Europa e da direita, sempre que se vê ameaçada por eleições próximas (o caso de Antonis Samaras na Grécia). Para esta corrente, os inimigos da nossa civilização estão entre nós, odeiam-nos, têm os nossos passaportes, e a situação só se resolve vendo-nos nós livres deles. A outra corrente é a da tolerância. Estas populações são muito distintas de nós, são um fardo, mas temos de as "aguentar", até porque nos são úteis; no entanto, só o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que são os "valores ocidentais"? Depois de muitos séculos de atrocidades cometidas em nome deles dentro e fora da Europa – da violência colonial às duas guerras mundiais –, exige-se algum cuidado e muita reflexão sobre o que são esses valores e por que razão, consoante os contextos, ora se afirmam uns ora se afirmam outros. Por exemplo, ninguém põe hoje em causa o valor da liberdade, mas já o mesmo não se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democrática depois de Segunda Guerra Mundial. No entanto, nos últimos anos, a proteção social, que garantia níveis mais altos de integração social, começou a ser posta em causa pelos políticos conservadores e é hoje concebida como um luxo inacessível para os partidos do chamado "arco da governabilidade". A crise social causada pela erosão da proteção social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, não será lenha para o fogo do radicalismo por parte dos jovens que, além do desemprego, sofrem a discriminação étnico-religiosa?

O choque de fanatismos, não de civilizações. Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos. A história mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses econômicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas áreas de influência é o caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização das populações coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religião tão pacífica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as populações muçulmanas de Gujarat em 2003; é também em nome da religião que Israel continua a impune limpeza étnica da Palestina e que o chamado Emirado Islâmico massacra populações muçulmanas na Síria e no Iraque. Várias perguntas sem resposta por agora. A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos opõem-se ou articulam-se? Quais as relações entre os jihadistas e os serviços secretos ocidentais? Por que é que os jihadistas do Emirado Islâmico, que são agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirado Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa é certa, pelo menos na última década, a esmagadora maioria das vítimas de todos os fanatismos (incluindo o islâmico) são populações muçulmanas não fanáticas.

O valor da vida. A repulsa total que sentimos perante estas mortes deve-nos fazer pensar por que razão não sentimos a mesma repulsa perante um número igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a tragédia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Iêmen num atentado bombista. No verão passado, a invasão israelita causou a morte de 2000 palestinos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na nossa reação não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões. Será então porque estes últimos estão mais longe de nós ou conhecemo-los pior? Será porque os grande media e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de nos fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?

Diretor do Centro de Estudos Sociais, Laboratório Associado, da Universidade de Coimbra

O perigoso jogo político da manipulação dos preços do petróleo

Por Marco Antonio Moreno em El Blog Salmón
Precio Petroleo 1986 2015 Jpg
O petróleo chegou a US $ 45 o barril e não há vislumbres de que inverta esta tendência no curto prazo. O jogo político perigoso da Arábia Saudita coloca os produtores de petróleo em xeque. Rússia, Irã, Venezuela, Noruega, Nigéria e Canadá dependem de suas exportações de petróleo para estabilizar seu orçamento. Assim, o colapso do preço do seu motor comercial coloca-los à beira da falência. Para a Venezuela o petróleo constitui 96 por cento das receitas de exportação e com a retirada de cada dólar o país perde US$ 800 milhões. A Venezuela está sofrendo com a inflação acima de 60 por cento e da escassez de alimentos básicos. Para a Rússia as receitas do petróleo e gás representam três quartos de sua fatura de exportação; enquanto que para as contas da Nigéria o petróleo representa 90 por cento de suas exportações. O Irã lutar para fazer com que sua dependência do petróleo chegue a curto prazo a 30 por cento, em vez de 50 por cento de agora. 
O declínio do petróleo tem muitas facetas e ramificações, mas o que ninguém descarta é a mão de Washington e da Arábia Saudita no mergulho do preço do ouro negro. O Príncipe saudita Alwaleed bin Talal, disse na semana passada que "nunca mais voltará petróleo a US$ 100" , expressando sua clara intenção de fazer o óleo ainda mais para baixo a 30 e até US$ 20 e apostando nos mercados de futuros. A Arábia Saudita tem a certeza de ser um vencedor, pelo menos no curto e médio prazo, uma vez que tem as maiores reservas e custos mais baixos de produção global. Além disso, desde 1945 o governo de Riad é o braço armado dos EUA na política mundial de petróleo, fonte de energia ao longo do século 20 foi uma arma geopolítica.que 
A Arábia Saudita é responsável por 10 por cento da produção mundial de petróleo e tem sido o grande regulador de preços desde a eclosão da crise do petróleo, em 1973. Sua decisão única para aumentar ou diminuir a produção afeta o preço e, portanto, a decisão de manter a produção não pôde ser tomada sem o consentimento dos Estados Unidos, uma vez que os EUA são um claro perdedor com os preços do petróleo a 45 dólares. No entanto os EUA procura economicamente estrangular a Rússia, Venezuela e Irã, em uma repetição do que ele fez com a Arábia Saudita em 1985, quando arrastou o colapso da União Soviética afundando o preço do petróleo de $ 10. O que vivemos 30 anos depois, agora é uma repetição desse cenário com a exceção de que a Rússia está cada vez mais fortalecida do que os Estados Unidos: a sua dívida pública é de 12 por cento do PIB, enquanto a dos EUA é superior a 100 por cento do PIB.
O discurso de que a Arábia Saudita é quem quer a recuperação do mercado de petróleo, que perdeu com a entrada de outros concorrentes e que  não reduzirá a produção mesmo os preços continuando a cair. Se considerarmos que a Arábia Saudita produz petróleo a um custo de US $ 20 o barril e é o óleo mais barato do mundo, podemos entender o que espera o resto dos produtores como a Rússia que produz a 30 ou US$ 35 por barril... Este é o ponto em que também perde os EUA: a produção de petróleo via Shale-Oile responsável por grande parte da criação de emprego e crescimento no país tem um custo de US$ 50 por barril. Washington pode afundar o caminho que tem sido a sua principal fonte de recuperação? Aí vem a manipulação financeira.

Desregulamentação e manipulação financeira

Em julho de 2013, quando o petróleo Brent e WTI disputavam aos 115 dólares um barril, podemos garantir que o preço foi fortemente manipulado e antecipar uma queda cedo para 80 ou até US$ 60 o barril. Ano e meio que levou a conhecer nossa previsão e devemos agora apontar para o declínio no preço vai junto, porque estamos a assistir à explosão de uma bolha financeira que inflou os preços, graças às baixas taxas de juros dos bancos centrais e do sempre otimismo delirante dos que invocam a "recuperação" esperada. Isso ocorre porque a finanças e a macroeconomia estão intimamente interligados, embora a teoria econômica indique que o dinheiro é completamente neutro. Se a desregulamentação financeira provocada no mundo desde o final da década de 80 tem permitido o nível mais obsceno e corrosivo de manipulação de mercado, o que podemos esperar da saúde da macroeconomia quando depende apenas do jogo limpo dos participantes no mercado?
O que estamos presenciando é o estouro da bolha especulativa com o petróleo (e outras commodities, como cobre e aço), resultante da extensão da crise. A bolha do petróleo vem do final do século XIX já que se tornou um dos esportes favoritos do mundo financeiro. Até 2005, o intercâmbio financeiro no mercado de petróleo representaram 3 vezes o mercado físico e a crise financeira que eclodiu em 2008, longe de se inverter esta tendência a acentuou: no ano de 2013 os intercâmbios financeiros petróleo foram mais de 8 vezes os intercâmbios reais.
Existem milhares de instrumentos financeiros (ou "derivados") que apoiaram estrategicamente a especulação do petróleo. Pacotes por centenas de bilhões de dólares sob a garantia de petróleo, gerou uma montanha de compromissos financeiros hoje, sob a dureza da crise, desmorona como um castelo de cartas.
O aumento dos preços do petróleo a US$ 147 o barril em julho de 2008 foi visto como uma grande oportunidade para muitos investidores que apostaram por duplicar as perfurações em busca do ouro negro. Este novo El Dorado, permitiu aos EUA mais que dobrar sua produção de petróleo e ir de 4,3 milhões de bpd em 2008- a 9, 4 milhões de bpd em dezembro, um valor não visto desde 1982. Rússia, Irã, Nigéria e Noruega também aumentaram a produção para atender a crescente demanda da China.
No entanto, o crescimento na China se deteve e a Europa entrou novamente em uma estrada para lugar nenhum, assim a demanda por petróleo entrou em colapso. Estima-se que a cada dia se produz um excesso de 3 a 4 milhões de barris. A recuperação não chegou e as especulações de óleo tem uma vantagem ainda mais complexa. Muitas empresas estão declarando falência e encerrando a produção. A Consultoria petrolífera norueguesa Rystad Energy adverte que projetos de perfuração no valor de mais de 150 bilhões de dólares serão realizada nos próximos meses e que 800 projetos de produção de petróleo por mais de 500 bilhões de dólares poderiam ser adiados.
Se o petróleo ficar nos níveis atuais ou cai ainda mais se pode desencadear o efeito bumerangue: como muitos projetos estão sendo adiados ou abandonados, a atual falta de novos investimentos pode fazer que até o final da década, uma grave escassez de petróleo ocorra que leve a aumentos de preços extremos e disparem acima de US $ 150 o barril. Esse será o momento para lembrar a palavra do príncipe saudita "nunca mais voltará o petróleo a US$ 100". Teremos de ver  o que ele diz, e se Washington concorda.

Cristovam Buarque - A tragédia sem fingimento

O ENEM só chamou atenção do Brasil depois que se transformou em uma forma nova de vestibular. Quando tinha a finalidade apenas de medir a qualidade do ensino médio o ENEM recebia pouca importância. Desta vez, porém, o resultado foi tão gritante, que além de substituir o vestibular o Brasil está percebendo os resultados negativos que o ENEM mostrou para a situação do ensino médio no Brasil. Situação que é pior do que aparece, porque só os melhores alunos fazem o ENEM: não fazem o ENEM aqueles que ficaram para trás por não terem condições de nem ao menos se submeterem ao exame, porque não têm condições, interesse ou nem sabem que o ENEM existe.

Entre os seis milhões de nossos melhores alunos do ensino médio, os que fizeram o ENEM, 500.000 tiraram nota ZERO na redação, apenas 200 tiraram a nota máxima. Mais grave é a baixíssima nota média dos alunos em cada setor avaliado. A educação do Brasil foi reprovada em todos os setores. Ainda mais grave, em alguns destes setores houve uma piora do ano passado para este. Mais grave ainda, as exigências de educação crescem de um ano a outro e nossa qualificação piora. Muito mais grave, não percebemos a gravidade. Os empresários não percebem as consequências disso para a produção por falta de trabalhadores qualificados, os donos de jornais não percebem que ficam sem leitores. O Brasil inteiro perde.
Felizmente,uma coisa positiva deste ENEM, o ministro Cid Gomes disse, pela primeira vez deste 2004, que não dá para fingir. Até aqui os ministros avaliavam a tragédia positivamente, dizendo que já foi pior.

Ao dizer que não dá para fingir, ele abre a esperança de que vai apresentar proposta para o Brasil superar sua tragédia.

Comentário do Senador Cristovam Buarque feito na sua página no Facebook

Estados Unidos apostam nas ditaduras do Oriente Médio

Por um momento, há quatro anos, parecia que os ditadores do Oriente Médio seriam uma coisa do passado. Entretanto, nem mesmo a queda de vários governos conseguiu desbaratar a política de apoio aos ditadores amigos que os Estados Unidos aplicam há décadas. 

Por Amanda Ufheil-Somers
Praça Tahrir 2011
Por um momento, há quatro anos, parecia que os ditadores do Oriente Médio seriam uma coisa do passado. Na época, parecia que os Estados Unidos teriam que dar provas do seu declarado apoio à democracia, enquanto milhões de tunisinos, egípcios, barenitas, iemenitas e demais se rebelavam contra a repressão dos seus governantes. Muitos desses autocratas contavam com o apoio de Washington, oferecendo em troca a “estabilidade” nos seus países.
Entretanto, nem mesmo a queda de vários governos conseguiu desbaratar a política de apoio aos ditadores amigos que os Estados Unidos aplicam há décadas. Washington redobrou o fornecimento constante de armas e fundos para os países dispostos a apoiar os interesses estratégicos norte-americanos, independente da forma com tratam os seus cidadãos.
Por exemplo, quatro anos depois da queda do ditador egípcio Hosni Mubarak (1981-2011), o Egito tem, novamente, um presidente de carreira militar e uma tolerância ainda menor com a oposição política do que o seu antecessor. As numerosas detenções e as condenações precipitadas de ativistas políticos, dos quais mais de mil foram condenados à morte, voltaram a despertar o temor que os egípcios acreditavam ter desaparecido para sempre após a queda de Mubarak e a realização de eleições democráticas.
Quando as forças armadas, comandadas pelo atual presidente, Abdel Fatah al Sisi, depuseram o presidente democraticamente eleito, Mohamed Morsi, em julho de 2013, o governo de Barack Obama duvidou quanto a suspender a ajuda militar ao Egito, algo que as leis norte-americanas exigem no caso de um golpe de Estado. Mas, apesar de algumas suspensões parciais e temporárias, Washington não cessou o envio dos seus equipamentos militares.
Agora que Sisi lidera um governo nominalmente civil, instalado mediante um simulacro de eleições com o voto de uma pequena maioria, os Estados Unidos levantaram todas as restrições à ajuda, que inclui helicópteros militares Apache empregados para intimidar e atacar os manifestantes. “Os Apache virão, e virão muito, muito em breve”, prometeu o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, em junho de 2014, um mês depois da eleição de Sisi.
No pequeno reino do Bahrein continuam as manifestações que começaram em fevereiro de 2011 por uma reforma constitucional, apesar de o governo tentar silenciar a oposição com todos os meios à sua disposição, desde armas até prisão perpétua. Em todo este processo, Washington tratou esse país como se fosse um aliado respeitável.
Em 2011, por exemplo, apenas dias depois que as forças de segurança barenitas responderam com balas aos manifestantes em Manama, em um ataque que deixou quatro mortos e numerosos feridos, Obama elogiou o “compromisso reformista” do rei Hamad bin Isa Al Jalifa. A Casa Branca também não objetou quando foi informada de que 1.200 soldados da Arábia Saudita entrariam no Bahrein para sufocar os protestos de março de 2011. Desde então, não param de chegar notícias preocupantes.
Um informe do Departamento de Estado de 2013 reconheceu que o Bahrein revoga a cidadania dos ativistas destacados, realiza prisões com acusações vagas, tortura os presos e pratica a “privação arbitrária da vida”, um eufemismo que significa matar pessoas. E quais foram as consequências?
Em 2012, a pressão internacional obrigou os Estados Unidos a proibirem a venda de gás lacrimogêneo norte-americano para as forças de segurança do Bahrein. Em agosto de 2014, Washington suspendeu parte da sua ajuda militar quando o regime expulsou um diplomata norte-americano por manter reuniões com membros de um partido opositor. Mas isso foi tudo.
A suspensão do envio de tanques, aviões e gás lacrimogêneo é pouco mais do que um puxão de orelha quando a quinta frota da marinha dos Estados Unidos mantém a sua sede na costa da capital barenita. E a participação do Bahrein nos ataques aéreos contra o grupo extremista Estado Islâmico só fez fortalecer o vínculo entre o regime e a Casa Branca.
De fato, a crise no Iraque e na Síria reforçou a estratégia militarista predominante que Washington aplica no Médio Oriente há muito tempo. Todo o governo disposto a aderir a esta nova frente na “guerra contra o terrorismo” será beneficiado com a generosidade norte-americana e com passe livre para reprimir.
A reclamação popular no Oriente Médio deve estar lado a lado com uma reclamação popular nos Estados Unidos que faça tremer as bases da política externa de Washington. Agora que começou novo ano, é nossa vez de superar o medo e insistir em que outro caminho é possível.
Artigo de Amanda Ufheil-Somers, editora-adjunta da Middle Easty Report, uma publicação do Projeto de Investigação e Informação sobre o Médio Oriente, merip.org. Artigo publicado por IPS/Envolverde e originalmente em Otherwords.org

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Banco Mundial diz que economia global deve melhorar em 2015

Relatório afirma que crescimento nos países em desenvolvimento deve ser impulsionado pelo baixo preço do petróleo e por uma forte economia dos EUA; fatores divergentes que podem pôr em risco progresso.
Relatório prevê melhora na economia global. Imagem: Banco Mundial
















Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
O Banco Mundial prevê que a economia global deve melhorar em 2015 com um crescimento de 3%, um pouco mais do que os 2,4% registrados no ano passado.
A conclusão consta do relatório Perspectiva Econômica Global, lançado esta terça-feira. O documento diz ainda que a tendência de alta deve continuar em 2016 e 2017 com um avanço de 3,3% e 3,2% respectivamente.
Risco
Em Washington, o diretor de Perspectivas e Desenvolvimento do Bird, Ayhan Kose, falou sobre os riscos existentes.
Kose disse que "os riscos contra uma recuperação econômica frágil são substânciais". Segundo ele, os Bancos Centrais dos países em desenvolvimento precisam encontrar um equilíbrio entre metas de crescimento e de inflação e estabilidade financeira.
O diretor afirmou que ao mesmo tempo, "uma política fiscal pode ser uma ferramenta para estimular as economias dessas nações no caso de uma piora da situação".
Preço do Petróleo
Os especialistas do Banco Mundial disseram que os países em desenvolvimento devem se beneficiar, em parte, pelo baixo preço do petróleo, por uma economia americana mais forte e pelas contínuas baixas nas taxas de juros.
O relatório mostrou que os países em desenvolvimento cresceram 4,4% no ano passado. A previsão para 2015 é de um avanço de 4,8% e de mais de 5% para os próximos dois anos.
O presidente do Banco, Jim Yong Kim, afirmou que "num ambiente de incertezas econômicas, os países em desenvolvimento precisam liberar seus recursos para apoiar programas sociais para os mais pobres e realizar reformas estruturais que invistam na população".
Kim disse ainda que "é fundamental que os países removam barreiras contra os investimentos do setor privado". Segundo ele, o setor privado é "de longe" a maior fonte de criação de empregos e que pode retirar milhões de pessoas da pobreza.

O relatório mostra ainda que as atividades econômicas nos Estados Unidos e no Reino Unido estão ganhando força.
Mas os especialistas alertam que o avanço tem sido lento na Europa e no Japão. A China registra uma desaceleração do crescimento que deve chegar a 7,1% neste ano em comparação aos 7,4% de 2014.
O relatório do Banco Mundial diz que a economia chinesa deve continuar perdendo fôlego nos próximos dois anos com uma alta de 7% e 6,9% para 2016 e 2017, respectivamente.