"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Foi-se a utopia da rede?

Para quem tinha a certeza de que os debates políticos nas Ágoras da internet eram iminentemente apartidários não é o que se observa depois das eleições presidenciais de 2014, a briga toda é PSDB X PT.

Os analistas dos movimentos oriundos da internet são praticamente unânimes em dizerem que este tipo de movimento rechaça, em qualquer lugar do mundo, os partidos no poder, embora não a Democracia Liberal. Foi assim em 2013 no Brasil, qualquer partido entre os manifestantes era mal-visto, mas depois de um levante, como o movimento de rua somente intervindo na política real (PEC 37) por um curto momento, a briga acabou na disputa política e depois desta se tornou centralizada.

Depois da reeleição de Dilma veio a crise do crescimento do PIB, as MP´s da tesoura e a queda da popularidade da presidente. O PT foi derrotado de forma acachapante na eleição para Presidente da Câmara, vieram as incertezas sobre a segurança energética, a seca continua e o escândalo de corrupção na Petrobras a cada dia se torna mais presente na mídia com novas delações.

Em 2013 todos os políticos foram colocados no mesmo lugar pelos manifestantes. o da insignificância, porém passados aqueles dias e depois de os Blac Blocs fazerem inúmeras quebradeiras e questão saiu da horizontalidade da rede para os regimentos e as estratégias dos Congressistas.

Um Congresso que somente suporta quem é afinado ideologicamente com cada deputado ou senador, mas como as perspectivas saíram do plano da totalidade de Junho a coisa se concentrou na disputa iminente, partidária, ideológica; não há mais plano de futuro o que se quer agora é o agora.

No jogo político longe da "utopia da rede", assim como dos movimentos sociais, é o palco da ação bem intencionada e vendida a preço de princípios, enfim, a disputa agora é do poder, política  na ponta do interesse. Salve-se quem puder, a verdade o gato comeu!

Pânico Sobre Pânico: A Rússia e o sistema-mundo hoje

POR IMMANUEL WALLERSTEIN

Visitar a Rússia, o que eu fiz recentemente, é uma experiência estranha para alguém que vem do Norte Global. Como sabemos, a maioria dos russos têm uma leitura da história mundial recente completamente diferente da maioria das pessoas no Norte Global. Apesar disso, no entanto, eles estão preocupados com outras coisas do que os visitantes esperam que sejam motivo de preocupação.

A única suposição comum de que transcende estas diferenças é o fato de que a ocorrência de uma queda acentuada nos preços de petróleo e do gás no mundo, combinados com o embargo imposto por alguns países sobre a Rússia criou um aperto econômico sobre gastos estatais russos e o consumo individual.

Na Rússia hoje quase todo mundo em todo o espectro político acredita que o Ocidente, e os Estados Unidos em particular, tem conspirado com alguns outros - principalmente Arábia Saudita e Israel - para "punir" a Rússia por suas ações e supostos delitos em perseguir o que os russos consideram como a legítima defesa de seus interesses nacionais. O debate centra-se primeiramente sobre a Ucrânia, mas inclui também, em menor grau a Síria e o Irã. A teoria da conspiração é, provavelmente, um pouco exagerada, uma vez que os Estados Unidos começaram a desenvolver o seu gás de xisto (um fator importante na atual situação do excesso de oferta mundial) já em 1973, como uma resposta ao aumento dos preços da OPEP.

No entanto, não se ouve muita discussão das questões da política externa da Rússia. Isto ocorre, provavelmente, porque não há muita dissidência dentro da Rússia, relativo às posições de política externa oficiais da Rússia, nem mesmo de pessoas ou grupos muito críticos do presidente Putin em outros assuntos. O que se ouve é discutir em vez a melhor forma de lidar com o déficit orçamental agudo que o Estado russo está enfrentando.

Existem três posições básicas. Uma é reduzir significativamente as despesas do Estado. Podemos chamar isso de a opção neoliberal. É esposado pelo Ministro das Finanças. A segunda é usar as reservas ainda disponíveis para o estado russo, minimizando, assim, a necessidade de reduzir os gastos imediatamente. Podemos chamar isso de a opção social-democrata. É esposada pelo Ministro do Desenvolvimento Econômico. A terceira é usar-se um dos dois conjuntos de reservas, mas não o outro. Poderíamos chamar isso a opção de meia distância. Isso garantiria estabilidade para, provavelmente, 18 meses e baseia-se na esperança de que de alguma forma o preço mundial do petróleo e gás vai começar a subir novamente até então e/ou que as sanções serão anuladas ou em grande parte contornadas.

O notável é que todas as três posições são defendidas dentro do grupo relativamente pequeno de decisores que cercam o presidente Putin. Até agora, parece que o próprio Putin está no campo favorecendo a opção no meio do caminho. O que também é notável é que este debate é quase-público. Pelo menos, não é segredo para qualquer russo que segue as declarações públicas dos protagonistas, bem como as fugas de informação para a imprensa que é mais diversificada do que os comentaristas no Ocidente, normalmente, sugerem.

Há, porém, um perigo à espreita causado por este debate quase-público. É que os empresários russos, bancos e o público em geral (em especial as pessoas mais ricas) estão em pânico, acreditando que uma opção que temem prevalecerá e que, em conseqüência a extensas retiradas de recursos levaria a uma corrida aos bancos e a uma inflação maior. Se há um pânico deste tipo, em seguida, nenhuma das opções pode ter sucesso na habilitação do estado para sobreviver ao aperto financeiro.

Portanto, havia grande aviso de um discurso feito pelo primeiro-ministro Dmitri Medvedev no Fórum Gaidar, em 14 de janeiro Medvedev anunciou que o Estado estava indo para o exercício da opção de meia distância. Ele pediu a todos para reunir em torno de esta opção, precisamente a fim de esmagar o pânico. Na verdade, ele terminou o seu discurso citando o famoso ditado do presidente Franklin Roosevelt em 1933: "A única coisa que devemos temer é o próprio medo." Medvedev disse que o governo russo não tem medo.

Mas será que essa declaração é suficiente para garantir que não há pânico? O discurso de Medvedev no entanto não continha totalmente pânico. O debate sobre o pronunciamento de Medvedev revelou que muitas pessoas e grupos não estão convencidos de que não haverá um pânico. Não é o que eu chamaria de um pânico sobre o pânico.

Modo de conter o pânico sobre o pânico de Putin é buscar o que ele acha que é uma política externa forte, clara e cuidadosamente calculada. A decisão de substituir o chamado South Stream (a gás e petróleo oleoduto do Mar Negro da Rússia para a Bulgária que a Bulgária não deixará por causa das sanções) com um fluxo turco (um oleoduto do Mar Negro diferente indo da Rússia para a Turquia) um primeiro passo tal. Ambas as correntes feririam a Ucrânia por não enviar gás entre a Rússia e petróleo através da Ucrânia e, portanto, eliminando taxas de trânsito da Ucrânia. No entanto, a Corrente do turco também tem a intenção de neutralizar o efeito das sanções (que levou à mudança de posição da Bulgária) e recompensar a Turquia, agora cada vez mais um aliado da Rússia.

A segunda etapa foi a decisão de entrar em acordos com a China e outros países para realizar operações cambiais em suas próprias moedas, evitando assim as flutuações do dólar. Um dos projetos resultantes seria um gasoduto através da Sibéria para o nordeste da Ásia, financiado fortemente pela China. Esta é uma maneira de contornar as sanções.

A terceira etapa foi a transmissão apenas anunciada do sistema de mísseis de defesa aérea S-300 ao Irã. Longo prometido, a Rússia havia cancelado o acordo em 2010, como resultado da pressão do Ocidente. A Rússia está indo agora para cumprir sua promessa inicial. Isso serve para reforçar o apoio russo para a inclusão do Irã nos processos da Ásia Ocidental de tomada de decisão. E tanto coloca pressão sobre os Estados Unidos e ajuda a verificar a tentativa da Arábia Saudita para manter-se como a chave de Estado árabe sunita. Já, com a ascensão do rei Salman, a imprensa está cheia de discussão sobre a fragilidade da posição saudita.

Finalmente, na Ucrânia, os russos prosseguem uma política cuidadosa. Não totalmente no controle dos autonomistas Donetsk-Luhansk, a Rússia está, no entanto, certificando-se de que os autonomistas não podem ser eliminados militarmente. O preço da Rússia para a verdadeira paz é um compromisso da OTAN de que a Ucrânia não é um membro potencial, sobre o qual existem pontos de vista diferentes dentro da OTAN. Todo mundo está jogando um jogo de alto risco na Ucrânia. Meu palpite, e é em grande medida um palpite, de que a sanidade prevalecerá e um acordo político será realizado. Eu diria, assistir Angela Merkel após as eleições alemãs. Ela (e Alemanha) quer um acordo, mas ainda não está livre para persegui-lo.

Me alugo para sonhar, um conto de Gabriel García Márquez

Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.
Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.
Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.
Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:
— Eu me alugo para sonhar.
Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.
— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.
A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.
Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: “Sonho”. Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.
Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.
Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.
— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.
Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.
Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.
Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:
— Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.
Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.
Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.
— Só a poesia é clarividente — disse.
Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.
Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. “Você continua o atrevido de sempre”, disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.
— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.
Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.
— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.
Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.
— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.
Matilde quis que ele contasse o sonho.
— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.
— Isso é coisa de Borges — comentei.
Ele me olhou desencantado.
— Está escrito?
— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.
Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.
— Sonhei com o poeta — nos disse.
Assombrado, pedi que me contasse o sonho.
— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.
— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.
Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. “O senhor não imagina como ela era extraordinária”, me disse. “O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela”. E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.
— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?
— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.
Março de 1980
Via Pessoa
BldogERIYAAQHsk


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nove em cada dez municípios não atingem meta de aprendizado, mostra levantamento

Aproximadamente nove em cada dez municípios brasileiros não atingiram o percentual mínimo de alunos com desempenho adequado em matemática no 9º ano do ensino fundamental, segundo os parâmetros do movimento Todos pela Educação para 2013. De acordo com os dados, 10,8% dos municípios atingiram a meta intermediária calculada para que, em 2022, bicentenário da Independência do Brasil, pelo menos 70% dos alunos tenham aprendizado adequado.
O Todos pela Educação considerou os resultados da Prova Brasil de 2013, os últimos disponíveis. Em matemática, 10,8% atingiram a meta intermediária. Em português, esse percentual foi 29,6% dos municípios. As metas variam de acordo com o ano, a disciplina e a localidade. As metas intermediárias podem ser consultadas no site do movimento.
Desde 2011, a organização tem verificado a queda no percentual dos municípios que conseguem cumprir as metas intermediárias em ambas as disciplinas. Para se ter ideia, em 2009, 83,7% dos municípios cumpriram a meta para o ano em português no fim do ensino fundamental e 42,7%, em matemática.
“Não é que os municípios estejam piorando, mas o que estamos observando é que não estamos melhorando”, analisa a coordenadora-geral do Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco. “Isso acende um alerta. Tinha-se a expectativa de que os bons resultados que vêm sendo observados nos anos iniciais teriam repercussão nos anos finais, que começariam a melhorar, mas não é isso que vem se verificando. Chega ao ensino médio um aluno que não tem condições de acompanhar a etapa”, acrescenta.
O Brasil não tem, oficialmente, metas claras do que deve ser aprendido em cada nível de ensino. Em matemática, no 9º ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) considera nove níveis de desempenho na Prova Brasil, sem definir qual é o adequado. Para o movimento Todos pela Educação, o desempenho adequado é igual ou maior que 300, que corresponde, no mínimo, ao nível cinco do Inep. Para português, o desempenho considerado adequado é igual ou superior a 275, que corresponde no mínimo ao nível quatro dos oito considerados pelo Inep.
Segundo Alejandra, “não há bala de prata para solucionar a questão”. Ela defende que esses resultados reforçam que é preciso pensar políticas públicas específicas para os anos finais do ensino fundamental. A formação de professores e a definição de uma base nacional comumseriam questões-chave. “A formação dos professores é, sem dúvida, a mais importante, a que mais se aproxima de uma bala de prata. Uma base nacional comum ajuda a definir melhor o currículo de formação dos professores e ajuda o professor a ter clareza do que trabalhar em sala, além dos pais, a terem uma ideia mais objetiva do que deve cobrar da escola.”
Nos anos iniciais do ensino fundamental, segundo o movimento, 48% dos municípios atingiram a meta intermediária para o ano em português e 61,7%, em matemática, com base no desempenho do 5º ano.
Por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil.

OMS pede ao Brasil mais vigilância para evitar transmissão de sarampo

Agência da ONU acredita que nível de imunização em algumas áreas está abaixo do indicado para prevenir que o surto se espalhe para as Américas; Estados Unidos registram a maioria dos casos, seguido de Brasil e Canadá.
Criança recebe vacina contra sarampo. Foto: Opas 2014
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
A Organização Mundial da Saúde, OMS, está pedindo ao Brasil e aos Estados Unidos maior vigilância para conter a transmissão do sarampo. Segundo a agência da ONU, surtos recentes sugerem que o nível de imunização em algumas áreas está abaixo do indicado para prevenir que o vírus se espalhe para as Américas.
A OMS e a Organização Pan-Americana de Saúde, Opas, divulgaram uma nota informando sobre 147 casos de sarampo confirmados em quatro países. Os Estados Unidos relataram a maioria dos casos, 121, num surto que começou na Disneylândia, na Califórnia, em dezembro.
Controle
O Brasil vem na sequência, com 21 pacientes com sarampo. Segundo agências de notícias, foram confirmados casos nos estados de Roraima e do Ceará. O Canadá tem quatro casos confirmados e o México teve um único caso, numa transmissão relacionada ao surto nos Estados Unidos.
A OMS e a Opas lembram que graças à vacinação, a região das Américas controlou o sarampo por mais de uma década. As agências reforçam a importância de vacinar as crianças para prevenir mais surtos e proteger a população da ameaça imposta por "casos importados", ou seja, que começam em outros países.
Doses
A vacina contra o sarampo existe há mais de 50 anos e é eficaz e segura, de acordo com a OMS. No mundo todo, a vacinação evitou 15,6 milhões de mortes entre os anos de 2000 e 2013.
A OMS recomenda dose dupla antes das crianças completarem cinco anos de idade. Atualmente, 92% das crianças de um ano de idade nas Américas recebem a primeira dose da vacina contra o sarampo.

O "Fórum Econômico Mundial 2015" é "focado" na crise da água como o maior risco para o planeta

Com una perspectiva de dez anos, o informe avalia 28 riscos de natureza global que poderiam causar impactos negativos importantes em indústrias e países, si se concretizam. Los riscos se agrupam em cinco categorias – econômica, meio-ambiental, geopolítica, social e tecnológica – e se medem tanto em termos de suas probabilidades de concretização, como em seu impacto potencial.

A água ocupa a oitava posição para a probabilidade e o primeiro para o impacto.
A maior ameaça para a estabilidade da economia global durante a próxima década vem do risco de conflito internacional, segundo o relatório Global Risks 2015? do Fórum Econômico Mundial, que também coloca os riscos ambientais para além do econômico.
Com uma perspectiva de 10 anos, o relatório avalia 28 riscos da natureza global, que pode causar efeitos adversos significativos em indústrias e países, se realizados. Os riscos são agrupados em cinco categorias - econômicos, ambientais, geopolíticas, sociais e tecnológicos - e medidos tanto em termos de sua probabilidade de realização, e seu impacto potencial.
Depois de analisar os possíveis efeitos, quase 900 especialistas que participaram da pesquisa sentiram que a crise da água é o maior risco que o mundo enfrenta. Junto a este e os conflitos entre Estados, também preocupa a propagação rápida e maciça de doenças infecciosas (segundo lugar), as armas de destruição em massa (terceiro lugar) e a falta de adaptação às alterações climáticas (quinto lugar).
Os riscos ambientais e econômicos também salienta que há um maior número de riscos ambientais do que econômicos, porque os especialistas avaliaram mais negativamente os preparativos para enfrentar os desafios, tais como eventos climáticos extremos e mudanças climáticas, em vez de a uma diminuição dos temores despertados por riscos econômicos crônicos, como o desemprego, o subemprego ou crises fiscais, que eram relativamente estáveis em 2014.
Ele foi um dos quatro risco - com conflitos interestaduais, falta de adaptação às alterações climáticas e desemprego crônico - o que é considerado altamente provável e muito devastador. Uma década atrás, o relatório de riscos globais foi dominado por preocupações financeiras e preocupações macroeconômicas: a taxa de crescimento da China, fortes flutuações nos preços de ações e títulos e mercados de petróleo da montanha russa.
Água mereceu pouca atenção, e as alterações climáticas - postas de lado como uma ameaça ainda emergente - o único risco era o 120 no relatório de 2006 e foi considerado demasiado longe para uma análise estatística rigorosa.
Hoje, o script é invertido. Os respondentes ao inquérito 2015 olharam para os riscos sociais e ambientais como as mais graves ameaças à 7 bilhões de pessoas no planeta. Nesse sentido, o Fórum Econômico Mundial, diz que o risco aumenta conforme a temperatura global aumenta, a mudança climática é esperada para reduzir a disponibilidade de água no sul da Europa, Oriente Médio, Norte da África e do sudoeste dos Estados Unidos, enquanto ele também aumenta o número de tempestades severas.
Chuvas ou secas que envolve profundas poderiam reduzir a produtividade das culturas de 25 por cento a metade do século, de acordo com projeções dos piores casos citados pelo painel climático da ONU. A água subiu como uma prioridade global no relatório de 2015, e também adquiriu uma nova designação.
O relatório reclassificado a  água de um risco ambiental para uma situação de risco social, um reconhecimento de que quase todas as atividades humanas - desde o cultivo de trigo e captura de peixes para a prevenção de doenças bacterianas que matam crianças e indústrias de alimentos e comunidades - tem água na sua base.O mundo não está fazendo o suficiente, de acordo com o Fórum Econômico Mundial.
Embora os problemas de inundações, secas e abastecimento de água inadequadas que foram projetados mais de duas décadas tornaram-se realidade, pouco tem sido feito para resolver de forma eficaz as possíveis soluções.

Ranking da Repórteres sem Fonteiras coloca o Brasil entre os países pior classificados na América Latina

O Brasil ficou na 99ª posição no ranking de liberdade de imprensa. A colocação é melhor do que a obtida em 2013. Apesar da melhoria, o Brasil continua atrás de países sul-americanos como o Uruguai (23ª posição); Suriname (29ª); Chile (43ª); Argentina (57ª); Guiana (62ª); Peru (92ª); e Bolívia (94ª).

O Brasil ficou na 99ª posição no ranking de liberdade de imprensa divulgado quinta-feira (12) pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), com a análise das condições de trabalho para a imprensa em 180 países.

A colocação representa um ganho de 12 posições em relação à 111ª posição que o país ocupou no ranking de 2013. Apesar da melhoria, o Brasil continua atrás de países sul-americanos como o Uruguai (23ª posição); Suriname (29ª); Chile (43ª); Argentina (57ª); Guiana (62ª); Peru (92ª); e Bolívia (94ª).

Com posição pior que a do Brasil estão o Equador (108ª), Paraguai (109ª), Colômbia (128ª), Venezuela (137ª) e México (148ª).

No relatório, a RSF comenta que o Brasil perdeu o título de país mais mortífero do Ocidente para jornalistas, assumido atualmente pelo México, que ocupa a 148ª posição no ranking geral de liberdade de imprensa.

No ano passado, dois jornalistas foram assassinados no Brasil por motivos diretamente relacionados ao seu trabalho, enquanto três foram mortos no território mexicano.

A Repórteres sem Fronteiras ressalta que "a segurança dos jornalistas e a concentração da propriedade da mídia nas mãos de poucos, no entanto, continuam sendo os principais problemas".

O relatório também lembra que muitos atos de violência contra jornalistas foram cometidos durante a onda de protestos que tomou as ruas do país. "Um relatório da Secretaria de Direitos Humanos em março de 2014 sobre a violência contra jornalistas enfatizou a participação das autoridades locais e condenou o papel da impunidade na sua repetição constante."

De acordo com a RSF, 69 jornalistas foram assassinados em todo o mundo em 2014, dez a menos do que em 2013. Em 2015, apenas em janeiro, 13 jornalistas foram mortos em crimes ligados diretamente a suas atividades profissionais: oito na França, funcionários do periódico Charlie Hebdo, e cinco no Sudão do Sul. 

Agência Brasil

Pesquisa mostra agravamento do clima econômico na América Latina

O Brasil ocupa, pela quarta vez consecutiva, o 10º lugar no ranking do Índice do Clima Econômica (ICE) da América Latina, que é liderado pelo Peru. A sondagem na América Latina mostra que o clima econômico apresentou melhora na Argentina, no Chile, Paraguai, Peru e Uruguai.

Brasília - Pesquisa divulgada pela Fundação Getulio Vargas indica piora no clima econômico da América Latina entre outubro de 2014 e janeiro deste ano. A queda nos índices é consequência tanto das avaliações em relação ao estado atual dos negócios quanto das expectativas em relação aos meses seguintes, o que indica que o momento "ainda é de cautela".

Elaborada em parceria com o Instituto Alemão Ifo e com dados da Ifo World Economic Survey (WES), pesquisa mostra que o clima econômico na região caiu 6,3% ao passar de 80 pontos, em outubro de 2014, para 75 pontos, em janeiro de 2015. O Indicador da Situação Atual (ISA) caiu 9,4%; e o Indicador de Expectativas (IE) recuou 4,2%. "Todos os indicadores se encontram na zona desfavorável do ciclo e a piora generalizada sinaliza avanço na deterioração do clima econômico", avalia a FGV.

O Brasil ocupa, pela quarta vez consecutiva, o 10º lugar no ranking do Índice do Clima Econômica (ICE) da América Latina, que é liderado pelo Peru.

Os dados mostram que os indicadores brasileiros da Situação Atual e de Expectativas se mantiveram iguais aos de outubro de 2014 – ISA em 30 pontos e IE em 84 pontos. Para a FGV, a manutenção dos índices reflete a expectativa da entrada em vigor de medidas anunciadas pelo governo federal.

"Pela Sondagem Econômica da América Latina Ifo/FGV, os especialistas parecem estar esperando que as medidas prometidas de ajuste macroeconômico entrem em operação. Além disso, perspectivas de alta da inflação, baixo crescimento e problemas no abastecimento de água e energia não ajudam na melhora das expectativas do país", conclui o estudo.

A sondagem na América Latina mostra que o clima econômico apresentou melhora na Argentina, no Chile, Paraguai, Peru e Uruguai, sendo que apenas Paraguai e Peru ficaram na zona favorável. Bolívia, Colômbia, Equador e México registraram queda no ICE. Apesar da queda, a Bolívia se manteve na zona favorável e em segundo lugar no ranking. A Venezuela se mantem na pior colocação do ranking, pela terceira vez seguida.

A Sondagem Econômica da América Latina serve para monitoramento e antecipação de tendências econômicas e é elaborado com base em informações prestadas trimestralmente por especialistas nas economias de seus respectivos países. A pesquisa é aplicada com a mesma metodologia – simultaneamente – em todos os países da região, o que permite elaborar um retrato da situação econômica de países e blocos econômicos. Em janeiro de 2015, foram consultados 1071 especialistas econômicos em 117 países, dos quais 133 da América Latina. 

Agência Brasil

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Atual momento político brasileiro está eivado de dúvidas

Sempre que tentamos  predizer o futuro erramos e, como dizem, o passado já é altamente exaustivo para os cientistas sociais; portanto não saberemos como estará o Brasil, com relação ao governo e à economia, por exemplo, daqui há um ou dois anos; ou seja, como a atual situação de denúncias e especulações se desenrolará no curto prazo.

O que primeiro surge num momento de tensão como este sã as comparações, é o mesmo quando o Collor era presidente, era a mesma situação vivida por Vargas. Certamente, a mesma coisa não era porque a própria sociedade se transforma, mas também não poderemos dizer que a história nada não nos pode ensinar, simplesmente pelo fato de que ela foi feita por homens e assim continua a ser.

Mas o fato é que ficamos ansiosos por saber e aí até estendemos o prazo, quais serão os rumos políticos do país e da América Latina depois da saída dos governos populistas que passaram a última década no poder? Como nos debruçaremos sobre problemas gravíssimos de nossa estrutura social, tais como, violência homicida e tráfico de drogas, ainda temos um grave problema de fome.

De acordo com Steven Pinker, autor de Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Por que a violência diminuiu, nos Estados Unidos quando a criminalidade urbana eclode na década de 1960 ascendem ao poder governos conservadores que, segundo ele, foram satisfatórios em reduzirem a violência.

Mas não sabemos se dar para comparar a América Latina com os EUA, conforme mostra Pinker dentro do próprio território americano há uma disparidade entre os Estados, alguns com taxas altíssimas. E pelo seu estudo ficamos conhecendo que não há fatores definitivos para explicar por que s áreas são violentas.

Como será com o Brasil, em a esquerda fracassando, com uma saída do PT do poder haverá uma direita bem articulada e pronta para formar uma governo? Há haverão cisões, tendo uma emaranhado de partidos distintos no poder? Ou as disputas se radicalizarão entre os extremos do espectro político?

Acho que o sistema de 1988 se mantêm indefinidamente, penso que as rupturas não democráticos se dariam com processos forjados de Impeachment como ocorrera no Paraguai, mas sempre que há um impeachment ficam as dúvidas de se foi justiça ou farsa, também não queremos ser governados por pessoas corruptas, mas mesmo assim nunca se pode dizer se houve ou não corrupção, por na política os processos serem sempre controvertidos, eivados de trocas de acusações.

Problemas em economia decretam rapidamente o fim político de qualquer governo mesmo que este use força bruta, quando os números passam para as vidas das pessoas, quando estas sentem que perderam não há prestígio que seja mantido, a não ser para os maiores simpatizantes.

Foi sabendo disso que o governo tomara as últimas medidas econômicas, se elas fracassam surgirão pressões de dois lados políticos articulados e do desapontamento da massas que já estão desapontadas pels problemas com corrupção e precariedade de serviços públicos.

As abelhas estão a ficar sem tempo, alertam associações ambientais dos EUA

Em carta ao presidente Obama, onze dos principais grupos de defesa ambiental e de saúde pública dos EUA, pedem que a administração tome medidas para terminar com a situação perigosa das abelhas, causada pelo uso disseminado de neonicotinóides. 

Por Jon Queally, Common Dreams


Os neonicotinóides são especificamente danosos para as abelhas porque envenenam a planta inteira, incluindo o néctar e o pólen que as abelhas comem - Foto de nutmeg/Flickr


Numa carta destinada ao presidente Obama, onze dos principais grupos de defesa ambiental e de saúde pública, representando milhares de americanos, estão a pedir que a administração tome medidas mais fortes e rápidas para terminar com a situação perigosa dos polinizadores mais prolíficos da nação, reconhecidamente as abelhas, causada pelo uso disseminado de neonicotinóides, uma classe perigosa de pesticida.

A carta alerta Obama a que instrua a EPA (Agência de Proteção Ambiental) a suspender imediatamente o uso do neonicotinóide e tomar medidas retroativas e proativas para reduzir os seus impactos adversos.

“Abelhas e outros polinizadores são essenciais para o fornecimento de comida da nossa nação, para o sistema agrícola, economia, e meio-ambiente,” declara a carta, “mas estão em grande perigo e populações estão a diminuir mundialmente. Um órgão em crescimento de evidências científicas aponta o uso disseminado e indiscriminado da classe neurotóxica de pesticidas chamada neonicotinóide (neonics) como um fator chave na morte das abelhas.”

Especificamente, os grupos dizem que mesmo Obama tendo apontado um painel especial inter-agências, chamado Força Tarefa de Saúde Polinizadora, para estudar a saúde dos polinizadores no ano passado, esses esforços estão simplesmente a ir muito devagar e o tempo está a acabar. Mandados para assessorar a crise da mortandade das abelhas e oferecer recomendações depois de 180 dias, a Força Tarefa perdeu o prazo e indicou agora que o seu relatório pode não sair até 2016.

“Se as taxas atuais de mortandade das abelhas continuarem,” diz a carta, “é improvável que a indústria de apicultura sobreviva ao prazo estendido da EPA, colocando a nossa industria agrícola e o nosso fornecimento de comida em sério risco.”

Os neonicotinóides, os quais são frequentemente aplicados nas sementes antes da plantação, são especificamente danosos para as abelhas porque envenenam a planta inteira, incluindo o néctar e o pólen que as abelhas comem. Em doses elevadas, os neonics podem matar as abelhas diretamente, mas os cientistas descobriram que em níveis mais baixos e comuns de exposição, o pesticida afeta negativamente a habilidade das abelhas de procriar, de forragem, de lutar contra doenças e sobreviver em meses de inverno. O que é mais perturbador, de acordo com os oponentes do neonics, é como uma análise recente da EPA descobriu que o tratamento com neonicotinóide em sementes de soja, uma das monoculturas mais importantes do mundo, oferece pouco ou nenhum benefício económico aos produtores de soja.

Numa carta à Força Tarefa enviada em novembro do ano passado, mais de 100 cientistas alertaram para a necessidade de uma ação imediata contra os pesticidas que prejudicam as abelhas. “A Força Tarefa do presidente deveria ouvir o órgão de cientistas que conecta os pesticidas com os danos às abelhas e ao seu declínio,” declarou Jim Frazier, Doutor, professor emérito de entomologia na Universidade Estadual da Pensilvânia e conselheiro apicultor comercial especializado em ecologia química, que assinou a carta conjunta dos cientistas.

Em adição às ações do neonics, a carta de quinta-feira, 5 de fevereiro, também aconselha a administração Obama a fechar uma lacuna legal a qual permite a venda de outros inseticidas antes de estarem adequadamente seguros.

De acordo com os grupos - que inclui Amidos da Terra, NRDC, Greenpeace EUA, Verde para Todos, Justiça terrestre, Físicos pela Responsabilidade Social, e cinco outros - a ciência está de acordo e as apostas não poderiam ser maiores:

Diversos grupos estão a tomar medidas para restringir o uso de neonicotinóides, porque a ciência está ciente de que os pesticidas são um fator que lidera o declínio das abelhas e estão a prejudicar muitos outros organismos importantes e benéficos, incluindo pássaros, morcegos, borboletas, libélulas, crisopas, joaninhas, minhocas, mamíferos pequenos, anfíbios, insetos aquáticos e micróbios do solo - colocando a produção de comida e o meio ambiente em risco. Ainda este ano, um órgão global de 29 cientistas independentes - a Força Tarefa em Pesticidas sistémicos - reviu mais de 800 estudos publicados nos últimos 5 anos, incluindo estudos patrocinados por industrias, e apelou para uma ação reguladora imediata para restringir os neonicotinóides.

A carta chega três semanas depois de 100 comerciantes, muitos dos quais são membros do Conselho de Comércio Americano Sustentável e da Rede de Negócios América Verde, enviarem um apelo similar ao presidente pedindo ação contra o uso do pesticida e proteções polinizadoras.

Representando companhias de uma variedade de setores e indústrias, os líderes de negócios disseram que “estavam gravemente preocupados se o uso de neonicotinóides continuar a ser permitido no nosso meio ambiente em níveis atuais, essa prática terá impactos devastadores na nossa comida, ecossistemas e bem-estar económico.”

Artigo de Jon Queally, publicado em Common Dreams

MEC poderá congelar repasse de verbas a estados e municípios sem planos de educação

Dados recentes do Ministério da Educação mostraram que mais da metade dos estados e cerca de 75% dos municípios ainda não elaboraram Projetos de Lei

No último dia 02 de fevereiro, o Ministério de Educação (MEC) lançou nota reiterando a data limite de 24 de junho de 2015 para que estados e municípios elaborem metas e estratégias para a educação local para os próximos 10 anos na forma de planos de educação. A nota menciona o cumprimento do prazo como condição para recebimento de recursos da União via Plano de Ações Articuladas (PAR) - responsável por grande parte dos repasses do governo federal na área.

Na nota, o coordenador da Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino (Sase), Binho Marques, afirma que “os planos de educação são fundamentais para ter acesso ao PAR”. Ainda de acordo com a nota, “o motivo é que, de julho em diante, as relações de estados e municípios com o Ministério da Educação terão como instrumento os planos de cada unidade”.

Marilena Rissutto Malvezzi, representante da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo no Fórum Estadual de Educação (FEE) e representante do estado na Rede de Assistência Técnica criada pela Sase para apoiar municípios na elaboração de seus planos, confirmou a afirmação do secretário. “Vai sair uma portaria que vai condicionar o financiamento das ações dos municípios e dos estados ao PAR. Então significa o seguinte: o município vai precisar disso e, se ele não tiver este plano aprovado por lei, ele não vai ter recursos”, afirmou durante reunião do Fórum.

Segundo Marilena, o Ministério está trabalhando com a data de 24 de junho como prazo para que as leis dos planos estejam aprovadas. Em função desta informação, aSecretaria Estadual de Educação de São Paulo propôs e o FEE aprovou novo calendário, que prevê o envio do Plano ao Legislativo até 25 de maio.

Interpretações da Lei

De acordo com a Lei 13.005, de 25 de junho de 2014, que institui o Plano Nacional de Educação (PNE) 2014 - 2024, os entes federados teriam o prazo de um ano para a elaboração dos planos estaduais e municipais. Segundo dados do MEC, somente 1.441 municípios brasileiros já elaboraram seus planos, o que corresponde a 25,8% do total; e somente 12 estados, ou seja, 44,5%, o fizeram. Faltando apenas quatro meses para o final do prazo, cresce a preocupação de especialistas, integrantes de organizações da sociedade civil e dirigentes de educação.

O uso do termo “elaborar”, definido quando o projeto de lei estava em tramitação no Senado, deixa margem para diferentes interpretações e tem gerado debates entre os especialistas. Para o atual coordenador do Fórum Nacional de Educação, Heleno Araújo, a data de um ano é para que as leis estaduais e municipais estejam sancionadas. “A dia de 24 de junho de 2015 já é a data limite para a existência da Lei. Logo, já assinada pelo governador ou pelo prefeito”, explicou. Já para o coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, o prazo é para encaminhamento do Projeto de Lei para o poder Legislativo, já que é o Executivo que dialoga diretamente com o MEC. “Teria sido melhor ter colocado na Lei [o termo] ‘aprovado’, mas isso poderia ser interpretado como uma interferência entre poderes. Na prática, o verbo dá uma margem maior para a compreensão de que devem ser encaminhados para o Legislativo”, conclui.

No site Planejando a Próxima Década, da Sase, conforme é possível verificar no mapa abaixo e de acordo com nota publicada, o Ministério da Educação considerou como "elaborados" os Planos que ou já fizeram somente o diagnóstico, que têm documento-base elaborado, com consulta pública realizada, com Projeto de Lei elaborado, com Projeto de Lei enviado ao Legislativo, com Lei aprovada, ou com Lei sancionada.

alt

Situação dos planos estaduais de educação (Fonte: Sase/MEC)

Repasse de recursos

Heleno Araújo afirmou concordar com a ação do Ministério. Para ele, o não cumprimento dos prazos e metas teriam efeitos muito negativos sobre o próprio PNE. “Defendemos a existência da Lei de Responsabilidade Educacional. O gestor que não cumprir a Lei, que seja punido por isso. Então, é importante que esse movimento de fato aconteça, que vincule esse prazo aos repasses para se ter de fato um planejamento no município e no estado ligado à Lei do PNE e para que possamos de fato colocar em prática as ações para melhorar a educação”, defendeu.

Para Daniel Cara, é possível que haja o cancelamento do repasse do PAR por conta de seu caráter de transferência voluntária. “Nós lutamos para que essas transferências fossem obrigatórias. Mas não é isso que está posto, então o MEC acaba agindo como quer nessa posição”, explicou.

Dívida Pública Federal deverá atingir R$ 2,6 trilhões em 2015

A Dívida Pública Federal (DPF) deverá encerrar o ano em uma faixa entre R$ 2,45 trilhões e R$ 2,6 trilhões. A DPF terminou 2014 em R$ 2,296 trilhões, segundo dados do Tesouro Nacional.

A Dívida Pública Federal (DPF) deverá encerrar o ano em uma faixa entre R$ 2,45 trilhões e R$ 2,6 trilhões. Os números foram divulgados quarta-feira (11) pelo Tesouro Nacional, que apresentou o Plano Anual de Financiamento (PAF) da dívida pública em 2015. A DPF terminou 2014 em R$ 2,296 trilhões, segundo relatório divulgado também nesta quarta-feira.

De acordo com o PAF, que apresenta metas para a dívida pública este ano, o governo pretende continuar a melhorar a composição da DPF no decorrer do ano, ampliando a fatia de títulos prefixados – com taxas de juros fixas e definidas antecipadamente – e vinculados à inflação diminuindo a parcela corrigida por taxas flutuantes como a Selic – juros básicos da economia – e pelo câmbio.

Segundo o documento, a fatia dos títulos prefixados deverá encerrar o ano entre 40% e 44% da DPF. Atualmente, a participação está em 41,6%. A parcela corrigida por índices de preços deverá ficar entre 33% e 37%. Hoje, está em 34,9%.

A parcela da DPF vinculada a taxas flutuantes deverá cair de 18,7%, registrado atualmente, para uma faixa entre 17% e 22%. Já a participação da dívida corrigida pelo câmbio, considerando a dívida pública externa, a meta é encerrar 2015 entre 4% e 6%. O percentual atual está em 4,8%.

Com relação ao prazo médio da DPF, o Plano Anual de Financiamento calcula que ficará entre 4,4 anos e 4,6 anos, em 2015. No fim de 2014, ficou em 4,4 anos. O Tesouro divulga as estimativas em anos, não em meses. Já a parcela da dívida que vence nos próximos 12 meses deve encerrar o ano entre 21% e 25%. Atualmente, está em 24%.

Por meio da dívida pública, o Tesouro Nacional emite títulos e pega dinheiro emprestado dos investidores para honrar compromissos. Em troca, o governo compromete-se a devolver os recursos com alguma correção, que pode seguir a taxa Selic, a inflação, o câmbio ou ser prefixada. 

Agência Brasil

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O informe Going for Growth 2015 da OCDE

Por Onésimo Alvarez-Moro El Blog Salmón

Mais uma vez, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ( OCDE ) traz o seu mais recente relatórioGoing for Growth 2015, (Olhando para o crescimento), onde repetem a chave para voltar ao caminho de um crescimento forte e inclusive com um plano ambicioso de reformasAnos após a crise ter eclodido estão sendo exigidas, todavia, reformas dos governos, confirmando, ainda que não digam, o que eu sempre digo nestas páginas que os governos, especialmente o governo espanhol tem feito reformas pouco ou nada eficazes ao longo dos anos.

As reformas ainda são necessárias

Nós também repetimos que a ação sistêmica de implementar um programa abrangente de reformas através de uma ampla gama de áreas de política é a melhor oportunidade :
  • para impulsionar a fraca demanda 
  • para restaurar o crescimento econômico saudável
  • para criar empregos
  • para assegurar que os benefícios sejam amplamente compartilhados por toda a sociedade

As principais tendências em reformas

Comentamos as principais tendências na atividade de reforma, bem como as áreas onde ainda há muito a ser feito:
  • A atividade de reformas manteve-se elevada, embora decrescente, Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, e tem aumentado no Japão. As reformas têm-se mantido baixo, e até mesmo tem vindo a diminuir na maioria dos países nórdicos e da maioria dos países centrais da zona do euro. Eu continuo questionando suas conclusões das muitas reformas do governo espanhol.
  • O ritmo das reformas tem acelerado na maioria dos grandes países emergentes, particularmente a China e México, refletindo a consciência de barreiras e restrições ao crescimento e à necessidade de reduzir a vulnerabilidade às flutuações nos preços de matérias-primas e os fluxos de capital.
  • A produtividade do trabalho continua a ser o principal motor de crescimento a longo prazo. Em toda a OCDE, os países estão dando prioridade à educação e às políticas ativo de mercado laboral, pela importância do capital com base no conhecimento e mão de obra qualificada como fontes de crescimento e, dada a persistência do desemprego.
    Assim, o governo espanhol  presume tanto e injustamente  sua "reforma trabalhista', que beneficiou empresários em menores custos, eliminação de direitos trabalhistas e facilidades para a demissão, mas não cumpriu com qualquer dos requisitos para aumentar a produtividade .
O relatório também analisa as pressões ambientais associados com o crescimento econômico e analisa o papel das reformas estruturais e políticas ambientais. Eles dizem que têm clara a importância das políticas ambientais adequadas e seu impacto sobre o crescimento da produtividade.
Ressaltas as dificuldades dos governos em suas tentativas de reformar as suas economias em dificuldade no contexto da crônica falta de demanda e margem orçamental de manobra limitada. Mas destaca o círculo vicioso em que se encontram os países que atrasam suas medidas onde da demanda fraca prejudica o crescimento potencial, o que por sua vez, deprime ainda mais a demanda, com os investidores e os consumidores perdendo confiança na recuperação.
Quebrar esse círculo vicioso exige políticas macroeconômicas e estruturais. As políticas estruturais são necessárias para promover o crescimento sustentado e políticas macroeconômicas são necessários para apoiar a demanda no curto e médio prazo.
Parece que ainda não se há aprendido que estes anos de medidas macroeconômicas, o que significa gastos, não influenciaram a demanda. No contexto da demanda limitada, ressaltam que a agenda de reformas estruturais também ajudará a impulsionar a demanda e diz que se deve concentrar em medidas que, além de aumentar a produtividade e criação de emprego a médio prazo, possa apoiar a atividade da economia no curto prazo.
Nestas páginas temos pedido isso durante todos os anos da crise e ainda estamos à espera. Quando falo da necessidade de ação do lado da oferta, e não da demanda, recebo críticas de leitores, e eu acho que eu ainda vou receber, mas as medidas para melhorar a oferta são, por definição necessárias para ajudar a competitividade e a produtividade, o que irá resultar em mais investimentos, mais empregos e empregos melhores pagando salários mais altos. O círculo virtuoso que todos dizem querer.

A desigualdade importa

Um elemento que destaca este ano é o de garantir que o crescimento deve ser bem distribuído, o que eles chamam o crescimento "inclusivo" .
Nos resumem que este começa com uma boa educação básica e com a necessidade de garantir a igualdade de acesso a escolas de ensino médio de qualidade para todas as crianças, mais oportunidades e empregos para os trabalhadores menos qualificados e para os jovens através de mais oportunidades educacionais, formação e emprego. Eu sou a única pessoa que já ouviu esta lista mais vezes? Eu acho que os maiores devem esquecer de encontrar um lugar no mercado de trabalho moderno.
Por isso dizem que há que se ajustar a política fiscal para impulsionar a criação de empregos e na reforma das políticas ativas do mercado de trabalho. Nada de novo aos nossos leitores, uma vez que temos feito isto nestas páginas muitas vezes.
Além disso, a baixa taxa de participação das mulheres é um enorme potencial de crescimento que pode ser desbloqueado com:
  • mais condições de trabalho favoráveis ​​para a família
  • melhores políticas para tornar o trabalho compensador
  • acesso a creches públicas acessíveis
Resolver isto também lograria um objetivo chave estabelecido pelos líderes do G20, que é reduzir em 25% nos próximos dez anos a diferença entre as taxas de participação entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

O fantasma da deflação norte-americana

A tendência deflacionista constitui um sinal inequívoco de que algo anda realmente mal na economia mundial em geral, e nos EUA em particular. 

Por Ariel Noyola Rodríguez.

A inflação norte-americana acumula mais de trinta meses abaixo de 2% - imagem de contralinea.info
A inflação norte-americana acumula mais de trinta meses abaixo de 2%, o objetivo da Reserva Federal(Fed). Até agora, não existem indícios de um aumento do nível dos preços. Ao contrário, a deflação (queda de preços) transformou-se numa ameaça latente na ainda economia de maior tamanho do cenário global. Os preços do consumo ficaram em apenas 0,4% em dezembro de 2014, a sua maior queda desde o final de 2008. Em termos anuais, a inflação diminuiu 0,8% ao se colocar em 1,3% em novembro passado.

Dessa forma, é evidente que os riscos crescentes de deflação na economia norte-americana continuarão a adiar a decisão de aumentar as taxas de juros dos fundos federais por parte do banco central. E apesar de a presidenta da Fed, Janet Yellen, ter apresentado publicamente, em diversas ocasiões, a sua intenção de aumentar a taxa de juros de referência em meados deste ano ou antes (atualmente, numa classe entre 0 e 0,25%) e, com isso, manter limitados os riscos derivados do aumento espetacular dos índices da bolsa, os membros do Comitê de Operações de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) resistem a aplicar a medida no meio de um nível de preços baixos.

No entanto, diferentemente de alguns meses atrás, quando três membros da Fed votaram a favor do aumento das taxas de juros, na reunião mais recente, ocorrida na última semana de janeiro, os 12 membros do Comitê votaram contra a medida. No final do encontro, Yellen declarou em conferência de imprensa que a “paciência” regerá a tomada de decisões do Fed: a incerteza não cede e, por isso, não se fará nada senão observar uma recuperação de maior solidez, quando as políticas monetárias excepcionalmente frouxas começarem a sua reversão de maneira gradual.

A mensagem oculta por trás dessas declarações é que se a inflação continuar a cair nas próximas semanas, a Fed não só não endurecerá a política monetária a curso prazo, mas também poderá, eventualmente, levar a cabo uma nova bateria de medidas “não convencionais” com o objetivo de escorar a rentabilidade das empresas e dos bancos. A tendência deflacionista constitui um sinal inequívoco de que algo anda realmente mal na economia mundial em geral, e nos EUA em particular. O nível de preços extremamente baixo não está reservado unicamente à esfera monetária. É um fenômeno econômico de enorme amplitude, que deriva de múltiplas causas, e que, em termos gerais, tem um estreito vínculo com as raízes mais profundas da crise que começou há mais de seis anos.

É preciso lembrar que, a partir da falência do Lehman Brothers, em 15 de dezembro de 2008, e até à contração do crédito no plano internacional nos meses seguintes, perderam-se cerca de 8 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos. A taxa de desemprego alcançou 10 pontos percentuais e a atividade econômica contraiu. A falta de liquidez num dos maiores bancos de investimentos de Wall Street detonou uma crise global de enormes proporções. Foi até meados de 2009 quando, em termos estatísticos, o Departamento Nacional de Investigação Econômica (NBER, ma sigla em inglês), apontou que a economia norte-americana havia superado a recessão. No meio da crise, a queda dramática da inflação levantou preocupações na Casa Branca. As ameaças de uma espiral deflacionista estão à vista.

Como consequência, o Departamento do Tesouro e a Fed executaram ações enérgicas para reativar o crédito, basicamente por meio de um aumento do montante dos programas de estímulos monetários, focados, por sua vez, em depurar o endividamento privado dos balanços contabilísticos das empresas financeiras e não financeiras. Contudo, as compras combinadas de ativos hipotecários e títulos do Departamento do Tesouro aumentaram exponencialmente a folha de balanço do Fed, e com isso potencializaram em boa medida os riscos de uma queda de preços. Entre agosto de 2007 e 5 de novembro de 2014, os ativos na posse da Fed aumentaram em mais de 500%, ao passar de 870 bilhões de dólares para 4,486 trilhões de dólares.

Apesar do seu apoio irrestrito, o capitalismo norte-americano tem sérios problemas para encontrar espaços de rentabilidade. Não existem novos projetos de investimento em nenhum lugar do território norte-americano que, com base na inovação tecnológica, permitam observar uma fase expansiva do ciclo econômico. Ao longo da última década, a indústria norte-americana não supera a classe entre 79 e 81% de sua capacidade instalada. Embora durante 2012 e 2013 o índice tenha se recuperado em comparação com 2007 e 2008, ainda está muito abaixo dos níveis alcançados na década de 1990, quando alcançou 85% em 1994.

A chamada “recuperação norte-americana” (alguns economistas ortodoxos se atrevem inclusive a chamá-la de “desacoplamento”) está mais no aumento dos principais índices da bolsa de valores de Nova York e menos na melhoria substantiva das condições de vida da população. Inclusive, na esfera financeira, surgiram novas barreiras para a acumulação de capital. Se é certo que o índice Standard & Poors (que cotiza as ações das 500 maiores empresas dos EUA) continua a registrar aumentos, a acumulação de lucros por ação e dividendos é cada vez menor.

Dessa forma, salta aos olhos uma maior propensão ao risco por parte dos operadores e uma volatilidade crescente dos preços no mercado de capitais, segundo o Banco Internacional de Pagamentos (BIS, na sigla em inglês). Os fluxos constantes de fusões e aquisições demonstram isso. Sucintamente, o aumento exponencial das operações do sistema bancário na sombra nos EUA, alertado pelo próprio FMI há algumas semanas, evidencia, por um lado, a competência crescente entre capitais individuais numa batalha de morte pela obtenção de uma maior rentabilidade e, por outro lado, as limitações para regular a atividade financeira de novo cunho.

O curso da economia norte-americana nos meses recentes manifesta uma vez mais que os lucros extraordinários no mercado de valores têm uma relação inversamente proporcional com a evolução das condições do mundo do trabalho. De acordo com as estimativas realizadas pelo Departamento do Trabalho, ao longo de 2014 aproximadamente 2,95 milhões de empregos foram recuperados, dos quais 252 mil corresponderam a dezembro, quando a taxa de desemprego fechou em 5,6%, o nível mais baixo dos últimos 5 anos. Sob essa mesma perspectiva, os EUA teriam aumentado 2 milhões de postos de trabalho anualmente desde 2010.

No entanto, essas cifras contrastam com a deterioração estrutural do mercado de trabalho que, diga-se de passagem, também contribui para consolidar a tendência deflacionista. Em primeiro lugar, a População Economicamente Ativa (PEA) está atualmente em 62,7%, o registro mais baixo das últimas 3 décadas. Em segundo lugar, existem sérias dificuldades na absorção da força de trabalho: 7 milhões de pessoas são empregados a meio tempo e a taxa de desemprego entre os jovens está em mais de 15%. Em terceiro lugar, a contenção salarial neutraliza de modo espantoso os efeitos multiplicadores da ampliação do mercado interno e a redistribuição da renda sobre o crescimento econômico: os salários caíram 10 pontos percentuais na composição do Produto Interno Bruno (PIB) entre 1967 e 2013. os salários caíram nos meses recentes e o rendimento das famílias não alcança os registos prévios à crise. A dívida dos lares mantém-se elevada e a polarização das classes aumenta.

Apesar disso, o governo norte-americano insiste em divulgar opiniões contrárias através da imprensa hegemônica (The Financial Times, The Wall Street Journal, The New York Times, Bloomberg, Reuters, etc.): a economia fortalece-se de maneira acelerada e, com isso, os riscos em torno de uma conjuntura crítica são cada vez mais remotos.

“[Graças a] uma economia em crescimento, a uma diminuição dos déficits, a uma indústria transbordante e a uma produção energética no auge, saímos da recessão com mais liberdade para escrever o nosso próprio futuro do que qualquer outra nação na Terra […] a sombra da crise passou […] a recuperação está a tocar mais e mais vidas”, sentenciou o presidente Barack Obama durante sua mensagem do Estado da União diante do Congresso norte-americano, no último dia 20 de janeiro.

Todavia, as condições intrínsecas à dinâmica capitalista acabarão por fazer calar o discurso da dominação de classe. O fantasma da deflação torna-se cada vez mais presente na economia norte-americana e, mais cedo do que tarde, acabará revelando todas as suas forças.



Artigo de Ariel Noyola Rodríguez, economista da Universidade Nacional Autónoma do México, publicado em contralinea.info