"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Falamos demasiado de Putin. O que querem os habitantes de Donetsk?

Parece-me que, com frequência, pomos o foco sobre os fatores externos do conflito: o que dizem e que interesses têm Putin, Obama ou Merkel. É certo que é um assunto essencial neste conflito, mas acho que nos esquecemos do mais importante: o que dizem e querem os habitantes de Donbass. 

Artigo de Alberto Sicilia, de Donetsk e Slavyansk.

Donetsk, 16 de fevereiro, durante as poucas horas de tranquilidade que teve após semanas de bombardeamentos (Fotografía: A.S.)

“Num minuto chega o meu amigo Dima. Ele é muito pró-Kiev, pelo que a partir de agora é melhor não falarmos de política”, diz com um sorriso Viktor.
“Tem cuidado com Viktor, quer ser mais russo que Putin”, solta entre gargalhadas Dima assim que chega. Ambos fundem-se num abraço.
Dima e Viktor rondam os quarenta anos, são amigos desde o colégio e vivem em Slavyansk, a localidade ao norte de Donetsk que durante a primavera se converteu na capital do levantamento pró-russo.
A dois quarteirões da cafetaria onde estamos encontrava-se o quartel geral das “Milícias Populares de Donbass” dirigidas pelo “Comandante Strelkov” [Igor Girkin]. Slavyansk esteve sob controlo dos pró-russos até princípios de julho, quando foi reconquistada pelo exército ucraniano. Strelkov e os seus homens retiraram-se para Donetsk.
Dima foi para Odessa quando os pró-russos controlavam Slavyansk. Viktor ficou aqui e participou na criação de novos órgãos da administração civil. “Fui muito feliz naquelas semanas”, recorda. “A cidade estava cheia de bandeiras da Rússia, o país ao qual o Donbass pertence”.
No conflito do Leste do Ucrânia, quase sempre pomos o foco sobre Putin ou sobre o Ocidente. E é evidente que as influências externas são muito importantes no que está a suceder.
Mas acho que se esquece com frequência a questão mais importante: que diz a gente que vive em Donbass? Sentem-se ucranianos? Sentem-se russos? Que futuro querem para a sua região?
Eu não tenho uma resposta definitiva para estas perguntas. O que vos posso contar são algumas conclusões após falar com bastantes pessoas nesta zona que visitei durante o último ano.
1. Muitas pessoas em Donetsk que sentem-se russas
Entre os maiores de 40 anos em Donetsk, é quase impossível encontrar alguém que não tenha pais ou familiares em Rússia.
“Obrigam-nos a uma eleição impossível: ou Kiev ou Moscou. É absurdo! A minha mãe era uma professora que nasceu em Kiev. O meu pai um soldado que nasceu em Vladivostok. Conheceram-se em Donetsk, onde nasci eu. Existir uma fronteira entre a Ucrânia e a Rússia não tem nenhum sentido”, explica Viktor.
A maioria das pessoas que conheci em Donetsk antes da guerra vive agora como refugiados... na Rússia. Evidentemente, eles não consideram a intervenção russa no conflito como “uma agressão” senão “a defesa do seu povo”.
2) A população pró-Kiev de Donetsk está a sofrer perseguição política pelas suas ideias
Todas as pessoas pró-Kiev que conhecia em Donetsk fugiram. Algumas depois de serem espancadas por tentarem organizar uma manifestação na cidade. Um professor da Universidade que conhecia foi preso e não se sabe nada dele desde há meses.
No edifício da Administração da República de Donetsk existem vários cartazes com as fotos, os telefones e a morada de jovens ativistas pró-Kiev com o texto “Traidores à pátria. Eliminação imediata”.
3) A população pró-russa na zona do Donbass controlada por Kiev está a sofrer perseguição política pelas suas ideias
Passei várias semanas em Slavyansk quando estava controlada pelos pró-russos. Conheci muitas pessoas que queriam a independência do Donbass ou a anexação à Rússia.
Exceto Viktor, não consegui que nenhum deles falasse agora de política. “Lamento, Alberto. Tenho medo de perder meu trabalho como aconteceu a outros colegas. Este é um lugar pequeno e todos sabem que eu trabalhei para a administração pró-russa. Agora tenho que passar o mais despercebido possível”, dizia-me um deles.
4) Não se trata de um “conflito étnico”. Há muitas famílias divididas
Surpreende-me a quantidade de artigos nos quais leio “conflito entre os russos étnicos e os ucranianos étnicos”. Não conheço ninguém em Donetsk que faça essa distinção.
De fato, há muitas famílias divididas pelo conflito. Um dos momentos mais tristes que vivi em Slavyansk foi ver como um dos meus melhores amigos e o seu irmão acabavam aos murros uma discussão durante a sobremesa. Diante dos seus pais, suas mulheres e seus filhos.
5) Muitas pessoas não se interessa pela política e o única coisa que quer é uma vida normal
“Fazer parte da Ucrânia? Tudo bem. Fazer parte da Rússia? Tudo bem. Ser um país independente? Tudo bem. O que seja, desde que deixe de morrer gente. O que seja, para voltar a ter trabalho e ver crescer as minhas crianças na minha cidade”, dizia-me Sacha, um dos poucos comerciantes que mantêm aberto o seu posto no Mercado Central de Donetsk.
Concluindo, parece-me que com frequência pomos o foco sobre os fatores externos do conflito: o que dizem e que interesses têm Putin, Obama ou Merkel. É certo que é um assunto essencial neste conflito, mas acho que nos esquecemos do mais importante: o que dizem e querem os habitantes de Donbass.

Artigo publicado no blogue Principia Marsupia

Opositor de Putin abatido a tiro junto ao Kremlin

O ex-vice primeiro-ministro morreu poucas horas depois de exigir o fim da censura do governo russo e de apelar à participação na manifestação deste domingo contra a guerra na Ucrânia. Boris Nemtsov afirmou recentemente ter receio que Putin ordenasse a sua morte. Os investigadores adiantaram que o seu assassinato foi "minuciosamente planejado".

Uma porta-voz do Ministério do Interior russo, Elena Alexeeva, afirmou, em declarações à cadeia de televisão Russia 24, que Boris Nemtsov, de 55 anos, passeava a pé com uma mulher ucraniana na Grande Ponte de Pedra, perto do Kremlin, quando “dispararam quatro tiros nas suas costas, causando a sua morte”.
Conforme adiantaram as autoridades russas, várias pessoas testemunharam o assassinato do ex-vice primeiro-ministro de Boris Yeltsin, confirmando que os tiros foram disparados a partir de um veículo branco.
O advogado da família de Nemtsov, Vadim Prohorov, esclareceu que o político começou a receber, há alguns meses atrás, vários tipos de ameaças nas redes sociais, incluindo ameaças de morte.
Nemtsov, que ocupava atualmente o cargo de deputado no parlamento da região Yaroslavl e co-presidia ao partido RPR-Parnas, morreu poucas horas depois de exigir o fim da censura do governo de Putin e de apelar à participação na manifestação deste domingo contra a guerra na Ucrânia.
Em declarações ao site noticioso Sobesednik no início do mês, Boris Nemtsov afirmou ter medo de que Putin ordenasse a sua morte.
O assessor de imprensa de Putin, Dmitry Peskov, disse à RT que o presidente russo frisou que “este assassinato brutal tem todos os sinais de se tratar de uma morte encomendada e é extremamente provocativo”.
O presidente norte americano Barack Obama condenou o “assassinato brutal” e apelou ao Kremlin que conduzisse uma investigação “imparcial e transparente”.
Este sábado, os investigadores responsáveis por investigar a morte de Nemtsov assinalaram que o assassinato do opositor russo foi "minuciosamente planeado".
Esquerda.net

Descoberta Bíblia de mais de 1.500 anos, que diz que Jesus não foi crucificado

Uma Bíblia com mais de 1.500 anos foi descoberta na Turquia e é motivo de preocupação para o Vaticano. Isso porque a Bíblia contém o Evangelho de Barnabé, que foi um dos discípulos de Cristo, que viajou com o apóstolo Paulo, que mantém uma visão semelhante do Islã sobre Jesus Cristo.
O livro teria sido descoberto em 2000 e foi mantido em segredo no Museu Etnográfico de Ancara. O livro feito de couro tratado e escrito em um dialeto do aramaico, a língua de Jesus Cristo, tem páginas em preto, devido à ação do tempo. De acordo com relatos, os peritos avaliaram o livro e  se certificaram de que é original.
Autoridades religiosas de Teerã insistem que o texto mostra que Jesus não foi crucificado, não era o Filho de Deus, mas um profeta, e chamou Paulo de "impostor". O livro também diz que Jesus subiu ao céu vivo sem ser crucificado, e Judas Iscariotes teria sido crucificado em seu lugar.
Fala sobre o anúncio que deu Jesus sobre a vinda do Profeta Muhammad, que fundou as Islamismo em 700 d.C.O texto prevê a chegada do último messias islâmico, algo que ainda não aconteceu.
O Vaticano expressou preocupações sobre a descoberta do livro, e pediu às autoridades turcas para especialistas da Igreja Católica avaliarem o conteúdo do livro na Igreja Católica. Acredita-se que a Igreja Católica no Concílio de Nicéia, fez a seleção dos Evangelhos que seriam parte da Bíblia, suprimindo alguns, possivelmente incluindo o Evangelho de Barnabé.
Acredita-se também que havia muitos outros evangelhos, conhecidos como Evangelhos do Mar Morto.

-VozCiudadana / Imgur

MPF cobra plano de manejo da Floresta Nacional de Açu, RN

NOME DA UNIDADE: Flona de Açu BIOMA: Caatinga ÁREA: 218,46 hectares DIPLOMA LEGAL DE CRIAÇÃO: Portaria nº 245, de 18 de julho de 2001

Plano deveria ter sido concluído pelo ICMBio desde 2006; o atraso põe em risco o ecossistema de caatinga preservado na unidade
O Ministério Público Federal (MPF) em Assu (RN) ingressou com uma Ação Civil Pública para obrigar o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio (autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente) a elaborar e implementar o plano de manejo da Floresta Nacional de Açu. De acordo com a legislação que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), esse plano deveria estar pronto há nove anos.
O procurador da República Victor Queiroga, autor da ação, ressalta que a Lei 9985/2000, em seu artigo 27, determina que “as unidades de conservação devem dispor de um Plano de Manejo”, que “deve ser elaborado no prazo de cinco anos a partir da data de sua criação”. A área de preservação existe desde 1950, quando foi criado o Horto Florestal de Açu, mas foi transformada em floresta nacional somente em 2001. Portanto, o plano deveria ter sido concluído em 2006.
Para o MPF, é necessário urgência, pois a unidade se localiza em área urbanizada, próxima a vários empreendimentos que podem ocasionar impacto ao ecossistema local, incluindo um distrito industrial e um parque de exposições. Na floresta há espécies ameaçadas de extinção e a unidade é um importante refúgio da flora e da fauna típicas da caatinga, contando ainda com a Lagoa do Piató, uma das maiores do Rio Grande do Norte, atualmente seca em virtude da estiagem.
“Essa ação civil pública está inserida no contexto do ‘MPF em defesa das Unidades de Conservação’, um projeto nacional para fortalecer esse importante instrumento de defesa do meio ambiente. A elaboração do plano de manejo da Floresta Nacional de Açu, cuja elaboração está atrasada em mais de 13 anos, permitirá a compatibilização das atividades econômicas da região com a proteção ambiental indispensável à preservação da caatinga”, destacou Victor Queiroga.
O MPF cobra do ICMBio a adoção de todas as medidas para a elaboração do plano de manejo, incluindo os levantamentos e estudos necessários, e também a apresentação de relatório trimestral a respeito do andamento dos trabalhos. A ação tramitará na 11ª Vara da Justiça Federal – Subseção Judiciária de Assu – sob o número 0800042-26.2015.4.05.8403.
Fonte: Procuradoria da República no Rio Grande do Norte

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Immanuel Wallerstein: O multiculturalismo e seus dilemas

O debate sobre algo chamado multiculturalismo é muito difundido e apaixonado nos dias de hoje em todo o mundo. Tanto os seus defensores e aqueles que denunciam que parecem estar sob a ilusão de que o multiculturalismo é algo muito novo. Mas não é novo em tudo. Multiculturalismo é tão antigo quanto as culturas humanas que existiram. E tem sido sempre objeto de debate apaixonado.

Onde quer que os seres humanos residam, sempre houve grupos que se consideram de alguma forma mais nativos da região do que outros. Os "nativos" tendem a usar uma retórica de pureza cultural, que eles vêem como sendo contaminada, ou ameaçada, por outros que são marginais ou recém-chegados na região, e que têm, portanto, menos direitos do que os grupos nativos (ou nenhuns direitos de qualquer natureza). A resposta deste último grupo sempre foi para reivindicar alguma versão ou outra do multiculturalismo. Ou seja, eles têm argumentado a favor de acordo com direitos iguais para todos (ou a maioria), residentes ou não partilham algumas das práticas culturais da população "nativa" auto-intitulada.

Os seres humanos têm estado sempre em movimento, por muitas razões. Um deles é o esgotamento ecológico da área de que eles estão se movendo. Outra é a atração de um alto padrão de vida em outro lugar. A terceira é que, por alguma razão eles estão sendo perseguidos na área a partir da qual eles estão se movendo. A realidade é que, se traçarmos a descida longe o suficiente no passado, ninguém é do lugar onde seus antepassados ​​foram uma vez. Nós somos todos migrantes. Não há nenhum de nós nativo, exceto por suprimir a realidade histórica.

Para ter certeza, esta questão tem causado conflitos mais agudos nas últimas décadas, por duas razões simples. Os avanços tecnológicos nos transportes e comunicações tornam muito mais fácil migrar mais longe e mais rápido do que em épocas anteriores. E a polarização do sistema-mundo é muito maior, tornando-se consideravelmente mais tentador para as pessoas nos países mais pobres a se moverem para países mais ricos.

Além disso, o fato de que estamos vivendo em meio à crise estrutural do sistema-mundo moderno fez com que a taxa de desemprego real tenha aumentado de forma muito acentuada. Daí a busca de bodes expiatórios que leva a enfocar nos migrantes que supostamente são a causa das altas taxas de desemprego nos países mais ricos.

O padrão de subir na escada da riqueza dos países aplica-se, naturalmente, para as pessoas do Sul Global que migram para o Norte Global. Digamos do México para os Estados Unidos, Marrocos para a França, Filipinas para o Japão. Aplica-se bem mais abaixo na escada da riqueza. Digamos Guatemala para o México, Moçambique, África do Sul, o Paraguai para o Brasil. Em todos os casos, há sempre uma reação a partir do país de acolhimento que exige a exclusão ou expulsão do in-migrante, aparentemente para preservar postos de trabalho no país de acolhimento, bem como para preservar a chamada cultura nativa.

A retórica contra o multiculturalismo serve (e se destina a servir) para obter os eleitores normalmente deixados em qualquer país para apoiar aqueles que usam a linguagem xenófoba dos movimentos de extrema-direita e direita. E sem dúvida que muitas vezes consegue fazer isso. A retórica em favor do multiculturalismo serve (e se destina a servir) para obter os eleitores normalmente relativamente centristas para apoiar os movimentos mais à esquerda como um baluarte sobre a xenofobia. E sem dúvida que muitas vezes consegue fazer isso.

O que sabemos sobre o que realmente acontece na maioria dos países? De uma forma ou de outra, todos os países são multiculturais. Ou seja, há grupos de pessoas que têm práticas culturais distintas. Eles têm diferentes religiões ou línguas ou costumes matrimoniais. Estes costumes diferentes são perseguidos com diferentes graus de diligência. Em períodos que não são muito estressantes, em termos econômicos, há uma boa dose de interação de vizinhança entre pessoas de diferentes grupos, e os casamentos mistos, muitas vezes consideráveis, tornando ainda mais as distinções entre grupos menos importantes e mais difíceis de discernir.

Em tempos, no entanto, de estresse econômico, temas xenófobos crescem e se tornam mais importantes no discurso popular e muitas vezes levam a conflitos agudos. Vizinhos se voltam contra vizinhos. Filhos de casamentos intergrupais são forçados a confessar lealdade a um ou outro grupo. Os países se tornam mais protecionistas. Liberdade de circulação através das fronteiras se torna mais difícil. Há um aumento considerável da violência de todos os tipos.

Sem dúvida, é preciso distinguir entre situações diferentes em termos de demografia. Houve zonas em que a população existente foi submersa por uma relativamente grande e forte na migração da população, que eliminou (ou subordinou totalmente) os grupos que tinham estado lá. Pense na Taino em ilhas do Caribe ou os fijianos enfrentados com um hindu em migração no Pacífico.

E depois estão em migrações pessoas ricas do hemisfério norte em zonas onde compram a terra desejável, aumentam os custos em geral, e coloca os grupos de poder que tinham estavam previamente lá em existências marginais. Isso está acontecendo agora em todo o mundo em zonas que são climaticamente mais desejáveis.

As reivindicações dos grupos "nativos" pela manutenção de seus padrões culturais e valores coletivos tem uma tonalidade bem diferente no caso de resistência à migração interna de grupos na parte inferior da escala social do que alguns de pessoas no topo de alguma escala social. E aqui são precisamente os dilemas. Somos capazes de compreender e agir sobre esta distinção? Podemos prosseguir políticas sensivelmente diferentes nos dois casos? Nós de fato podemos suportar a forma inevitável e desejável do multiculturalismo que é a base de um intercâmbio frutífero pacífico dos valores culturais? Ou será que vamos sucumbir a limpezas étnicas xenófobas em todo o mundo?

Comentário No. 395, 15 de Fevereiro de 2015 - http://iwallerstein.com/

Thomas Piketty: o Capital em Hong Kong entre a plutocracia e o comunismo

Thomas Piketty é diretor de estudos da EHESS e professor da Escola de Economia de Paris

Publicado no Jornal Libération

De acordo com os dicionários, a plutocracia (do grego ploutos: riqueza; kratos: governo) é um sistema de governo em que o dinheiro é a base principal do poder. Para analisar o sistema que o Partido Comunista chinês está tentando configurar em Hong Kong, somos tentados a inventar uma nova palavra: plutocomunismo. Com autorização de eleições livres expressamente, mas apenas com dois ou três candidatos, que devem primeiro ser aprovadas por uma maioria do comitê de nomeação composto por Pequim e monopolizado pela empresa de Hong Kong e outros oligarcas pró-chineses. Esta é de fato uma mistura surpreendente entre a lógica do partido único comunista (na Alemanha Oriental, também houve eleições, mas apenas entre os candidatos que prometeram lealdade) e tradições aristocráticas e censo Europeu (até 1997, o governador de Hong Kong foi nomeado pela rainha da Inglaterra, e a democracia foi indireta e baseou-se nas comissões dominadas por elites econômicas). No Reino Unido e França, entre 1815 e 1848, apenas uma pequena percentagem da população tinha o direito de votar: quem pagava impostos suficientes (é como se apenas os contribuintes ISF pudessem votar hoje). Sem ir tão longe, a China parece ser tentada por uma rota similar, com um bônus do partido único Todo-Poderoso para orientar a montagem.

Como podemos justificar tal sistema, e ele tem um futuro? Para dizer que os comunistas chineses não estão muito convencidos pelo modelo de democracia eleitoral multipartidária e de concorrência ocidental, baseada em todos os níveis: entre os partidos, entre os candidatos, e mais importante, talvez, entre os territórios. Para Pequim, a chave é a unidade política do vasto território chinês: é a condição para o desenvolvimento econômico e a harmonia social, liderada pelo fiador do Partido Comunista Chinês (PCC) de interesse geral e de longo prazo. Na verdade, em comparação com outros mercados emergentes, incluindo a Índia, o sucesso da China é em parte explicado pela centralização política e pela capacidade das autoridades públicas para financiar equipamentos comunitários, joint ventures, e investimentos em educação e saúde são essenciais para o desenvolvimento. Apesar de privatização, o capital público ainda representa entre 30% e 40% do capital nacional da China, contra um quarto na Europa durante o boom do pós-guerra. A parcela de capital público é agora quase zero na maioria dos países ricos (os bens públicos são apenas ligeiramente superior ao da dívida) ou mesmo negativos em alguns casos (quando prevalecem as dívidas públicas, como na Itália) mesmo que o capital privado - expresso em anos de PIB - recuperou seus picos do pré-Primeira Guerra Mundial. Visto de Pequim, o modelo chinês parece mais capaz de regular o capitalismo e para evitar o empobrecimento do poder público. Este sentimento é reforçado por bloqueios da atual política americana, e a impressão de que a União Europeia está a atravessar uma crise intransponível, com um território dividido entre 28 Estados e nações pequenas, competição frenética com o outro, preso na dívida pública e instituições comuns totalmente disfuncionais, incapazes de modernizar o seu modelo social e fazer planos para o futuro.

Dentro do CCP, no entanto, sentimos que o modelo chinês atual, baseado no fechamento político e anti-corrupção para limitar a desigualdade não pode segurar para sempre. A crescente influência da riqueza privada no Congresso Nacional Popular da China é objetivamente bastante preocupante. Em Pequim, teme-se, acima de tudo uma evolução em russo, com a fuga de capitais cada vez mais importante e o país saqueado do exterior por oligarcas confortavelmente instalados no exterior. Discutimos mais com a introdução de impostos progressivos sobre propriedades e propriedades. Na verdade, o governo chinês tem na base suficiente absoluta de criar sistemas de transmissão automática de informações bancárias, registros de títulos e controles de capital necessários para a execução dessa política.

O problema, é claro, é que grande parte da elite política da China não tem muito a ganhar com transparência sobre as fortunas de impostos progressivos e com o Estado de Direito. E o partido está pronto para desistir de seus privilégios para se dedicar ao bem público e parece considerar que a unidade do país irremediavelmente ameaçada pela ascensão da democracia política, que ainda deve andar de mãos dadas com o advento da democracia econômica e transparência fiscal e financeira. Uma coisa é certa: essas contradições vão lançar um single track, decisivo para a China e para o resto do mundo. Dentro desse processo, as lutas em curso em Hong Kong é um passo decisivo.

O trabalho na Era da Robótica

Guy Ryder (CC foto BY-NC-ND 2.0 OIT), Trabalho In The Age Of Robots
Guy Ryder (CC foto BY-NC-ND 2.0 OIT)
Os medos sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho não são novidade. No início do século XIX, um grupo de trabalhadores têxteis ingleses conhecidos como os luditas preocupados que as novas tecnologias como os teares mecânicos e máquinas de girar iria custar-lhes os seus empregos. Eles protestavam  destruindo as máquinas.
Hoje, a ansiedade que as novas tecnologias poderiam destruir milhões de postos de trabalho é maior do que nunca. Em meio a uma grave crise de emprego, a tecnologia continua a reduzir a mão de obra necessária para a produção em massa, até mesmo a automação de tarefas legais e contábeis de rotina está esvaziando este setor do mercado de trabalho também. A ciência da robótica está revolucionando a indústria transformadora; a cada ano, 200.000 robôs industriais adicionais entrar em uso. Em 2015, o total deve chegar a 1,5 milhão. Adaptar o mercado de trabalho para um mundo com cada vez mais automatização de locais de trabalho será um dos desafios que define a nossa era.
No entanto, nenhum país pode se dar ao luxo de ignorar a transformação. Globalmente, cerca de 200 milhões de pessoas estão desempregadas, um aumento de 27 milhões desde 2008. Há uma necessidade crítica para antecipar as próximas mudanças tecnológicas e fornecer a força de trabalho global com a educação e as habilidades necessárias para participar do mercado de trabalho moderno.
Em todo o mundo,  um terço dos empregadores entrevistados  se queixam de que são incapazes de encontrar trabalhadores com as competências adequadas para as vagas existentes. Caminhos eficientes de programas de treinamento e educação para o mundo do trabalho devem ser construídos, de modo que as habilidades podem ser combinadas para a demanda do mercado demanda. Os programas de governo devem ser reforçados, e os empregadores e os sindicatos devem assumir maior responsabilidade de investir em qualificação. Eles também devem consultar mais de perto com os educadores e formuladores de políticas - discussões que devem ser incrementadas por informações do mercado de trabalho, avaliações de desempenho, bem como da disponibilidade de serviços de emprego.
Seja qual for o nível de desenvolvimento de um país, o investimento em educação e capacitação vai aumentar a capacidade de sua força de trabalho para inovar e adaptar-se às novas tecnologias. Esse investimento pode determinar se o crescimento econômico de um país é amplamente inclusivo ou deixa grandes segmentos da sociedade para trás. Uma abundante oferta de trabalhadores que tenham sido devidamente treinados e pode continuar a aprender aumenta a confiança dos investidores e, assim, o crescimento do emprego.
Além de treinar a força de trabalho para uma era de maior automatização, economias sustentáveis ​​devem oferecer proteções para os trabalhadores em tempos bons e ruins. A natureza da relação do trabalhador com o seu empregador está mudando. As pessoas que entram no mercado de trabalho estão encontrando cada vez mais só de curto prazo ou contratos temporários; Muitas vezes, eles são forçados a tomar trabalho informal ou emigrar para encontrar um trabalho. Estas tendências estão a exacerbar a desigualdade de renda.
Que futuro há para o trabalho?
Que futuro há para o trabalho?
Como resultado, as políticas de mitigação são necessárias. Junto com um sistema robusto de prestações de desemprego, proteções sociais, como a saúde e as pensões são essenciais para a segurança global dos trabalhadores e garantir uma economia saudável. E, no entanto, apenas 20% da população do mundo tem cobertura de segurança social adequada; mais do que a metade não têm qualquer cobertura.
É por isso que a atuação da Organização Internacional do Trabalho, que foi criada em 1919, ainda é relevante hoje. Em um mundo de locais de trabalho cada vez mais automatizados e corroendo as relações empregado-empregador, os valores codificados na OIT  normas laborais  são mais necessárias do que nunca.
Os complexos desafios que os trabalhadores em todo o mundo enfrentam exigem soluções complexas. Em 2013, a OIT lançou o relatório Future of Work initiative, que visa identificar e analisar as tendências incipientes e proporcionar um fórum de discussão sobre o que deve ser feito para se adaptar às rápidas mudanças das condições do mercado de trabalho.
Nosso mundo tem mudado muito ao longo do século passado - e não só por causa da tecnologia. Em 2050, a população mundial vai superar nove bilhões. O número de pessoas com 60 anos ou mais, terá triplicado. Três quartos dos idosos estarão vivendo em países que estão agora em desenvolvimento, e a maioria deles serão mulheres. Estas mudanças demográficas vão revolucionar ainda mais o mercado de trabalho, os sistemas de segurança social,  o desenvolvimento econômico e o mundo do trabalho.
Todo o progresso que a sociedade humana tem feito desde a era dos luditas, uma verdade simples persiste: as máquinas devem fortalecer, não enfraquecer, nossas perspectivas de crescimento inclusivo e prosperidade amplamente partilhada. Temos de garantir que a economia moderna é sustentável, assente nos princípios da dignidade humana e da oportunidade de trabalho decente.

Representante da ONU no Brasil destaca importância da cooperação Sul-Sul

Jorge Chediek participou de evento na sede da organização em Nova York sobre o tema; ele afirmou que as Nações Unidas têm "parceria de longa data" com o Brasil.
Foto: FAO/Roberto Faidutti
Laura Gelbert, da Rádio ONU em Nova York.
"A cooperação Sul-Sul é um instrumento muito importante da cooperação para o desenvolvimento" no âmbito global.
A afirmação foi de Jorge Chediek, coordenador residente do sistema das Nações Unidas no Brasil, ao falar com a Rádio ONU sobre o tema.
Brasil
"O Brasil tem tido grandes sucessos na sua política social, na sua política de promoção do desenvolvimento humano. Nesse sentido, tem gerado muito interesse de outros países para conhecer melhor as políticas e as experiências do Brasil. Muitas das respostas para os problemas dos países em desenvolvimento estão em outros países em desenvolvimento."
O representante da ONU falou ainda das ações da organização no país em relação à cooperação Sul-Sul.
"Temos agora 14 agências das Nações Unidas engajadas na cooperação Sul-Sul no Brasil e temos desenvolvido mais de 44 iniciativas de cooperação em parceria com instituições brasileiras. Essa parceria está gerando resultados muito positivos e ao mesmo tempo está permitindo uma maior incorporação da cooperação Sul-Sul no arsenal de instrumentos de cooperação do sistema das Nações Unidas."
Rio+20
Jorge Chediek afirmou ainda que a ONU tem uma "parceria de longa data" com o governo brasileiro. Ele falou sobre a Conferência Rio+20 e a agenda de desenvolvimento sustentável.
"Estamos neste momento trabalhando e apoiando o trabalho de desenvolvimento da agenda pós-2015, esta nova agenda global. O Brasil tem muito a dizer por ter sediado e liderado o processo da conferência Rio+20 e ao mesmo tempo por representar um exemplo de desenvolvimento sustentável com inclusão e centrado nas pessoas e nos direitos humanos."
Entre outras áreas de trabalho da organização no país, o representante citou política social e promoção de direitos humanos entre outros.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Quem criou o radicalismo islâmico? Onde está a defesa da liberdade de expressão?

Artigo publicado por Vicenç Navarro na coluna "domínio público" no Jornal diário Público da Espanha, 26 de fevereiro de 2015.
Este artigo é uma crítica do pensamento dominante sobre as causas do terrorismo. Esclarece algumas das questões que estão ocupando alta visibilidade na mídia.
Um dos analistas mais rigorosos e credíveis sobre o mundo islâmico tem sido o palestino Edward Said, professor da Universidade de Columbia, em Nova York, que morreu há alguns anos. Eu tive a oportunidade de assistir a muitas de suas palestras e ler a maioria de seus livros, que, sistematicamente, aconselho meus alunos a aprender sobre um tema de grande importância e relevância: a evolução da cultura muçulmana. A Espanha é certamente uma parte da história. Ao contrário da imagem frequentemente apresentada pelo nacionalcatolicismo ainda vigente em Espanha, a cultura muçulmana beneficiou muito a Espanha, que tem muitos elementos positivos introduzidos na cultura ibérica, desde a exportação agrícola ate a medicina e o conhecimento em geral.
Um dos aspectos mais característicos do nosso tempo é o recente radicalismo que existe em grande parte do mundo muçulmano. E para compreendê-lo, devemos saber como e de onde se originou esse radicalismo imbuído de fundamentalismo religioso. Muitos desses movimentos vieram de países que foram colônias de impérios enraizados principalmente na Europa. E mesmo quando estes países não foram colônia, foram claramente dominados por países com base em sistemas imperiais europeus.
Em todos eles - tenham sido ou não colônias - apareceram após a Segunda Guerra Mundial, as forças progressistas que representam uma ameaça para os interesses econômicos e políticos que apoiaram as estruturas de poder existentes nesses países. Foram justamente aqueles grupos que se beneficiavam destas estruturas que configuraram e apoiaram os radicais islâmicos, todos os fundamentalistas religiosos, que se opusessem por todos os meios às forças progressistas (a maioria laicas) que queriam transformar essas sociedades muçulmanas. O caso da Al Qaeda é um exemplo claro. Não se sabe o suficiente de que Osama bin Laden estava em seus primórdios financiado pela Arábia Saudita (um dos regimes mais opressivos existentes no mundo de hoje), e pela CIA dos EUA para se opor às reformas lideradas pelo Partido Comunista do Afeganistão. E hoje a Arábia Saudita e o Qatar (promovido com a camisa do Barça) e outros países do Golfo, são os que ajudam financeiramente o ramo do Islã conhecida como wahabismo, uma das seitas mais fundamentalistas e beligerantes do Islã. Sem essa ajuda e apoio no momento de os governos britânicos, franceses e americanos, esses movimentos profundamente anti-socialistas não tinham chegado a sua extensão atual. Mesmo o Estado Islâmico (EI) foi apoiado em princípio pelos EUA, Reino Unido e França, e pela Arábia Saudita e o Qatar, que continuam a financiá-los.
O desconhecido caso  da Indonésia
Outro caso menos conhecido é o que aconteceu no país muçulmano mais populoso do mundo, a Indonésia. Neste país surgiu um dos movimentos mais progressistas do mundo islâmico, liderados pelo presidente Sukarno. Ajudou a estabelecer o Movimento Internacional Movimento de Países não Alinhados (em colaboração com o presidente Nehru da Índia). Os governos da Austrália, Reino Unido, França e EUA, entre outros, foram mobilizados para parar e destruí-lo, junto com os grupos islâmicos mais reacionários do país, que foram financiados por todas as forças que se opunham ao governo progressista. Em 1965, um golpe militar, que apoiou todas as forças reacionárias, impondo um dos regimes mais repressivos foram conhecidos neste continente, liderado pelo general Suharto. Estima-se que entre 500 mil e um milhão de pessoas foram mortas. Como muito bem disse um dos intelectuais muçulmanos mais respeitados hoje, Ziauddin Sardar, "não é que o imperialismo ocidental esteja aliado com as facções mais radicais e fundamentalistas. Na verdade, os estabeleceram". De tudo isso o leitor que leu pouco ou nada (para uma maior expansão, consulte Andre Vltchek: “Who Should be Blamed for Muslim Terrorism?” CounterPunch, janeiro 9-11,2015).
Outro silêncio: a mobilização francesa depois do Charlie Hebdo
A mobilização impressionante na França como protesto contra os assassinatos de comediantes da revista Charlie Hebdo também foi apresentada de uma forma tendenciosa e parcial. O protesto justo e necessário que tenha sido na França foi em defesa da liberdade de expressão, que é muitas vezes confundida com a defesa e apoio da postura profundamente ofensiva para com o mundo muçulmano, que já apareceu em tal semanal. Na verdade, qualquer pessoa democrata deve ser considerada ofendida com tratamento insultuoso para uma minoria profundamente discriminada na França. O papel histórico de revistas satíricas foram ridicularizar o poder, não os oprimidos ou excluídos, como está agora sendo a população muçulmana na França. A charge de Maomé era anti-muçulmana, anti-mulher e anti Welfare State (ridicularizando programas de assistência pública, as pessoas excluídas e as mulheres grávidas muçulmanas na França), repugnantes ao extremo. Dizer isso não é, como a direita maliciosamente tenta deturpar, justificar o assassinato horrível e merecedor de condenação.
Mas também temos de denunciar a enorme hipocrisia dos meios de comunicação europeus e as instituições políticas, incluindo as francesas. A suposta defesa da liberdade de expressão é muito limitada e falta não apenas na França, mas também em países que estiveram representados nas manifestações por seus líderes, como é o caso da Espanha (onde o governo do Sr. Rajoy tinha tomado a tribunal para um comediante espanhol por ridicularizar o partido no poder, o PP, a apenas um par de semanas).
Na França, em si, parece ter sido esquecida a enorme repressão ocorrida durante a guerra da Argélia, quando em uma manifestação de 30.000 cidadãos franceses de cidadania argelina em outubro de 1961, milhares deles (10.000) foram presos nas ruas de Paris, cerca de 200 foram mortos. E na França, que a liberdade de expressão também é limitada quando as autoridades consideram que um post anunciado pode criar instabilidade, o que muitas vezes ocorreu em movimentos de cidadãos para protestar contra os ataques do governo de Israel sobre os palestinos (como aconteceu durante os massacres realizado pela IDF na Faixa de Gaza). E a lista é enorme. Já para não falar aqui na Espanha, onde a repressão atingiu níveis nunca antes vistos durante o período democrático.
Dois comentários finais. Um deles é que as forças que apoiaram mais fortemente as manifestações contra os assassinatos foram de direita. Em Espanha, o El País, sob a direção do Sr. Antonio Cano, uma pessoa profundamente conservadora, apresentou tais eventos como uma vitória contra o radicalismo islâmico (ver "A interpretação neoliberal norte-americana que aparece na mídia espanhola: o caso correspondente do El País em Washington. "El Viejo Topo, Dezembro de 2011). A realidade, no entanto, mostra o contrário. Estas manifestações, que assustaram a população muçulmana na França, foi uma grande vitória para os radicais muçulmanos que queriam o confronto das duas comunidades, para que pudessem apresentar-se como heróis em defesa do Islã. E assim aconteceu. Em todo o mundo muçulmano houve manifestações contra a França e contra o mundo ocidental, e em favor de "mártires". E eles chamam essa vitória. Em vez de isolar os radicais no mundo muçulmano tem sido dada a oportunidade de apresentá-los como seus defensores.
Uma segunda observação. Há ampla evidência para ver que as posições defendidas por estabelecimentos europeus sobre o mundo muçulmano está profundamente enganada. Como observou com razão o jornalista que, na minha opinião,  é o mais conhecido no mundo muçulmano, Patrick Cockburn, hoje o EI e outros movimentos radicais não teriam a força que eles têm, se não fosse pelas intervenções ocidentais, incluindo as Europeias no  Iraque, Líbia e Síria, e um vácuo de poder criando as condições para essas forças se expandirem e crescerem.

Alguns números do relatório da Anistia Internacional


Números do relatório separados pela Anistia Internacional:

18 2
 
 Em ao menos 18 países foram cometidos crimes de guerra ou outras  violações das “leis de guerra”.


1 a cada 5

 Grupos armados cometeram abusos em pelo menos 35 países, mais  de 20% dos países investigados pela Anistia Internacional.


migrante
 Calcula-se que mais de 3.400 pessoas morreram afogadas no mar  Mediterrâneo tentando chegar à Europa. 4 milhões de refugiados fugiram do conflito na Síria. 95% deles se  refugiaram nos países vizinhos.

62

 62 governos encarceraram prisioneiros de consciência, pessoas que  simplesmente exerciam seus direitos e liberdades.


3 4
 3 em cada 4 governos (119) restringiram a liberdade de expressão de  maneira arbitrária. Houve restrições à liberdade de imprensa em muitos  países, que foram testemunha de fechamento de jornais e ameaças  a jornalistas.

28

 28 países em todo o mundo têm leis que proíbem completamente o  aborto, mesmo em casos em que a vida ou a saúde da mulher  corra perigo e em casos de estupro.

78

 78 países têm leis em vigor que são utilizadas para criminalizar as  relações consensuais entre adultos do mesmo sexo.


52

 58% dos países (93) submeteram pessoas a julgamentos injustos.  Quando uma pessoa é submetida a um julgamento injusto, não se  impõe justiça nem ao acusado, nem à vítima, nem à sociedade.

82

 82% dos países (131) submeteram pessoas à tortura ou outros maus-  tratos.



Crescem insegurança, violência e repressão estatal nas Américas

Marcela Belchior
Adital


Em 2014 houve aumento da insegurança e de conflitos por todas as Américas. Os protestos que eclodiram em países como Venezuela, Brasil e México foram reprimidos pela violência estatal e o crescimento da violência praticada pelas redes criminosas permaneceu em total impunidade. Esse trágico cenário é apresentado pelo relatório anual da Anistia Internacional, que expõe um panorama dos direitos humanos em 160 países no ano passado, incluindo análises regionais e detalhes de 24 países americanos.


O ano de 2014 registrou aumento de insegurança e violência estatal nas Américas. Foto: Divulgação.

Especificamente no Brasil, o ano de 2014 foi marcado pelo agravamento da crise da segurança pública. A organização aponta uma curva ascendente dos homicídios no país, além da alta letalidade nas operações policiais, em especial nas realizadas em favelas e territórios de periferia. Outros pontos que recrudesceram no último ano foram o uso excessivo da força no policiamento dos protestos que antecederam a Copa do Mundo, as rebeliões com mortes violentas em presídios superlotados e casos de tortura. Para a Anistia, os dados "mostram que a segurança pública no país precisa de atenção especial por parte das autoridades brasileiras”.

"O Brasil é um dos países onde mais se mata no mundo”, destaca Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil. "Cultivamos a ideia de um país pacífico, mas convivemos com números de homicídios que superam, inclusive, situações onde existem conflitos armados e guerras. É inadmissível que haja cerca de 56 mil vítimas de homicídios por ano, a maior parte composta de jovens, e este não seja o principal tema de debate na agenda pública nacional”, avalia Roque.

O relatório aponta que uma grave consequência da inabilidade da comunidade internacional em lidar com os conflitos é uma das piores crises de refugiados que o mundo já viu. Segundo a organização, milhões de pessoas continuam a fugir da violência e da perseguição. "Somente na Colômbia, em torno de 6 milhões de pessoas permanecem deslocadas devido ao conflito interno. Milhões estão tentando agora reivindicar suas terras e a Anistia Internacional está fazendo campanha para o governo facilitar o processo”, indica a organização.

Mudanças estruturais

Para a Anistia Internacional, movimento global de defesa dos direitos humanos, sem uma mudança estrutural que coloque em prática leis e políticas, além de sérios comprometimentos pelos Estados para o fim de violações de direitos humanos, as Américas deverão vivenciar um aumento de protestos e manifestações. "A menos que o governo aja contra a impunidade e corrupção e responda adequadamente às demandas econômicas e sociais do povo”, ressalva.

Além disso, a organização prevê uma continuidade na "brutalidade” utilizada por redes criminosas e a utilização de civis como "bucha de canhão” na sua busca por poder e controle sob o comércio de drogas; e o uso de violência pelo crime organizado permanecerá em países como México, El Salvador, Honduras e Caribe.

Diante disso, a organização insta aos governos que garantam que suas respostas a ameaças de segurança não minem os direitos humanos fundamentais ou criem mais violência. "Estamos vendo sinais preocupantes de que os líderes continuarão a agir com violência a protestos, introduzindo leis antiterror e usar de técnicas de vigilância em massa em resposta a ameaças de segurança. Mas reações instintivas não funcionam. Em vez disso, cria-se um ambiente de repressão em que o extremismo pode prosperar”, afirma Salil Shetty, secretário-geral da Anistia Internacional.

"Os líderes têm poder para aliviar o sofrimento de milhões de pessoas — a partir do comprometimento de recursos políticos e financeiros, para ajudar e proteger aqueles que fogem do perigo, fornecendo de ajuda humanitária generosa e reassentamento dos mais vulneráveis", destaca Shetty.

Desaparecimento de 43 jovens no México levou milhares de pessoas às ruas. Foto: Anistia Internacional México.


Conquistas em direitos humanos
No Brasil, o destaque foi para o relatório da Comissão Nacional da Verdade, que expôs dados sobre crimes contra a humanidade e outras violações durante a ditadura militar de 1964 a 1985. Já no Paraguai, a comunidade indígena Sawhoyamaxa obteve permissão para retornar à sua terra ancestral depois de 20 anos de campanhas.

No Haiti, o Tribunal de Recursos reverteu uma regra de 2012 que determinava que o ex-presidente Jean-Claude Duvalier não poderia ser acusado de crimes contra a humanidade. A organização também ressalta que o Chile avançou de maneira significativa em direção à descriminalização do aborto ao anunciar reformas na lei.

Já em janeiro deste ano, a Anistia Internacional destaca a libertação de 53 prisioneiros políticos cubanos a partir da retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba. Nesse mesmo mês, em El Salvador, foi perdoada mulher condenada a 30 anos de prisão por crimes relacionados à gravidez após sofrer um aborto espontâneo.



Relatório apresenta panorama dos direitos humanos no mundo em 2014.
Foto: Reprodução.

Acesse relatório aqui.

A Alemanha em busca da sua outra Europa

A queda do comércio mundial, a mudança de destino das exportações germânicas e as dificuldades internas enfrentadas por Berlim explicam a intransigência de Angela Merkel e dos seus aliados. Berlim não se importa de apertar a corda aos terceiros que já não considera como sócios de interesse ou a quem dá preferência. 

Por Juan Torres López.

Foto de Christliches Medienmagaz
O futuro da Alemanha não será tão auspicioso, não lhe será tão fácil obter excedentes externos, os seus focos de interesse comercial vão deixar de estar nos seus sócios do euro. Foto de Christliches Medienmagaz

Os meios de comunicação e os centros de poder econômico e político da Europa tentam passar a ideia de que as dificuldades de chegar a um acordo com a Grécia provêm das exigências e das más práticas deste país e que é a posição do novo governo heleno que justifica o tratamento de intransigência que tem recebido pelos seus sócios europeus, com a Alemanha à frente.

A verdade é, no entanto, que a Grécia cumpriu todas as imposições da troika mas que estas demonstraram ser um completo fracasso para recuperar a economia, diminuir a dívida e melhorar a vida das pessoas, o que justificaria que se iniciasse um caminho diferente. Além disso, o que propõe o novo governo não é outra coisa senão encontrar fórmulas que permitam fazer frente a estes problemas de uma maneira mais efetiva e não fazendo ouvidos surdos aos compromissos anteriores, mas sim repensando-os. E a isso junta-se o fato de que para avançar o que a Grécia precisa é de um montante de recursos ou de uma generosidade realmente ínfimos se forem comparados com os que foram usados até agora nos bancos ou mesmo em economias bem mais prósperas, como a alemã. Tanto é assim, que até alguém tão pouco suspeito de simpatias pelo Syriza como o presidente Obama manifestou que o razoável seria não pressionar tanto a Grécia e ajudá-la a recuperar o crescimento.

Por isso acho que para entender a intransigência da senhora Merkel e dos seus aliados é necessário não tanto olhar para a Grécia mas sim precisamente para a Alemanha e para o que vem acontecendo na sua economia nos últimos tempos.

Muitas vezes os europeus não têm consciência de que a Alemanha não é um sócio mais, uma espécie de irmão mais velho e poderoso. Não. A Alemanha é bem mais que isso. É a quarta potência mundial, depois dos Estados Unidos, do Japão e da China e, sobretudo, é a segunda economia exportadora do mundo. Isto é, uma economia gigantesca, obrigada por isso a pensar principalmente em si mesma, e que precisa permanentemente dos mercados externos, o que significa que tem de condicionar qualquer outra das suas estratégias a ter uma posição adequada (isto é, de vantagem) no meio em que atua. Nos últimos dez anos, praticamente a metade do crescimento da sua economia dependeu das suas exportações líquidas. E acho que é nessa natureza da economia alemã que é preciso encontrar a razão da intransigência com que vem impondo os seus interesses na União Europeia e agora frente à Grécia.

Nesse sentido, há três fatores que neste momento estão a influir decisivamente na estratégia alemã.

Em primeiro lugar, o comércio mundial está a ressentir-se acentuadamente e não só com caráter conjuntural. Segundo um estudo recente de economistas do FMI e do Banco Mundial (Slow trade), em 2012-2013 cresceu menos de metade que nos 20 anos anteriores e abaixo do que cresce a economia mundial, o que não tinha ocorrido nas últimas quatro décadas. Isso significa que as economias exportadoras, como a alemã, vão ter nos anos vindouros muitas dificuldades para conseguir os mesmos ritmos de crescimento que em etapas anteriores.

Em segundo lugar, há que ter em conta que as exportações alemãs estão a mudar de destino nos últimos anos. Em 1990, 50% destinava-se aos países que agora formam a zona euro e em 2014 só 40%. O crescimento médio anual registrado nas suas exportações para a Eurozona desde o ano 2000 (4,5%) é justamente a metade do aumento das destinadas a outras zonas, como a Europa central (9%) ou Ásia (10%). A Alemanha, portanto, está a começar a ter outros sócios comerciais preferenciais.

Em terceiro lugar, há que considerar também que a própria situação interna da economia alemã está a mudar. Outro artigo publicado em dezembro passado pelo departamento de investigação do Banco Nacional de Paris (BNP) Paribas (Inflexible Allemagne) mostrou que, além de problemas futuros devido à queda do comércio internacional, a Alemanha se encontra diante de dois reptos internos de grande envergadura. O primeiro, o envelhecimento crescente da sua população, que o converteu no segundo país do mundo (depois do Japão) com mais percentagem de população com mais de 65 anos, 21% – certamente por ter dificultado muito a compatibilidade entre a maternidade e o desenvolvimento da carreira profissional das mulheres –. Um fator que pode dar origem, entre outras coisas, a uma queda muito forte da sua taxa de poupança interna nos próximos anos.

Além disso, a Alemanha vem descuidando nos últimos anos o investimento interno – o privado caiu 7 pontos nos últimos 20 anos e o dedicado a infra-estruturas públicas é 30% menor que a média da OCDE –, o que faz que hoje em dia tenha carências muito importantes. Segundo este estudo do BNP Paribas, o fosso acumulado de 1999 a 2012 entre a taxa de investimento observada e a ótima seria 40% do PIB. A isso junta-se o fato de ter dedicado os excedentes obtidos nas últimas décadas ao investimento externo – em grande parte para financiar bolhas especulativas noutros países – descuidou o seu rendimento interno, o que também levou a que a taxa de pobreza atingisse um novo recorde em 2013: atingia 16,1% da população, 69% dos desempregados, 35,2% dos monoparentais e 5,7% dos rapazes e raparigas.

O que está a acontecer, portanto, é que o futuro da Alemanha não será tão auspicioso, que não lhe será tão fácil obter excedentes externos, que os seus focos de interesse comercial vão deixar de estar nos seus sócios do euro – os quais parece já ter espremido totalmente –, e que vai ter de dedicar muito mais atenção do que até agora aos seus problemas e às exigências de investimento interno.

A Alemanha não vai tomar a iniciativa de romper o atual statu quo do euro porque isso seria visto como uma agressão em toda a linha ao projeto europeu. Vai sim impor com mais rigidez que nunca as condições aos terceiros que já não considera sócios de interesse ou a quem dá preferência. E não se importará, portanto, em apertar-lhes a corda até não terem outro remédio senão render-se ou autoexcluir-se do euro. A Alemanha já olha principalmente para um novo eixo europeu de referência com a França e a Polónia. É por isso que países como Grécia, Espanha, Portugal, Chipre ou mesmo Itália não esperam bons tempos dentro do euro. O sensato seria que todos eles começassem a pensar se se conformam com o papel de convidados de pedra ou simples comparsas de um euro desenhado a favor da Alemanha, ou se têm em comum algo mais do que serem desprezados por esta grande potência.

23 de fevereiro de 2015

Publicado no Público.es

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net