"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 21 de março de 2015

O nem tão secreto plano de Netanyahu

Netanyahu está a criar um Israel que se estenderá desde o Jordão até o Mar Vermelho

POR MARILYN KATZ -EM IN THESE TIMES

Rawabi, uma nova cidade em uma colina nos territórios ocupados que não é um assentamento israelense.

Com as atuais disputas entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e a Casa Branca sobre o Irã dominando as manchetes e as especulações sobre as eleições israelenses que irão ocorrer na terça-feira (as eleições foram realizadas e vencidas por Netanyahu ma terça 17), foi fácil perder duas notícias pequenas sobre Israel. Uma delas relatou a alocação de 46 milhões de dólares por Israel para incentivar a imigração européia. O outro, enterrado no meio de um relatório sobre a visita de Netanyahu - informou que "como um gesto de boa vontade" para com o presidente Barack Obama, depois de nove anos de recusa, Netanyahu havia concordado em conceder a cidade palestina recém-construída de Rawabi o acesso à água.

Embora seja fácil perder, essas histórias são importantes. Pois juntas elas fornecem insights sobre os objetivos e as estratégias reais de Netanyahu e seus aliados de centro-direita, bem como o potencial caminho para aqueles que acham o status quo tanto repugnante quanto insustentável.

Apesar de um black-out virtual de reportagem sobre ele na mídia de Israel e pouco mais na imprensa mundial, Rawabi é a primeira e uma nova cidade verdadeiramente extraordinária que está sendo construída pelos palestinos para os palestinos na Cisjordânia. Concebida e financiada por um consórcio liderado pela palestina-americana Bashir al-Masri, quando pronta a cidade será a casa de 40 mil moradores. Desde que a construção começou em 2008 Rawabi tornou-se o maior empregador privado na Palestina, empregando 5.000 homens e mulheres que já tenham concluído a construção de igrejas e mesquitas, um centro comercial, escolas, instalações recreativas e já construídos e vendidos cerca de 1000 casas.

Nunca foi fácil já que Israel controla todas as fontes de dentro e fora da Palestina, todas as estradas, água e espaço aéreo (não tente usar o seu telefone inteligente na Cisjordânia) e continuamente vomitou obstáculos para o progresso - de fazer o processo de licenciamento (que controla) inferno e negando periodicamente acesso rodoviário a Rawabi por fornecedores e trabalhadores.

Mas pelo tempo que visitei pela primeira vez em outubro de 2013, o uso de materiais tanto empilhados em estoque ou feito no local os fundamentos da cidade estavam postos, incluindo igrejas, escolas, um edifício de lazer e campos, um edifício de escritórios e no primeiro de 1000 casas estava quase completo. Enquanto a eles não tinha sido concedida a permissão para ampliar ou reclassificar a estrada (da Área C, o que significa totalmente sob o controle de Israel) a equipe estava confiante de que eles iriam finalmente obter permissão para ligar para sistema  nacional de água, assim, permitindo-lhes aos primeiro mil ser habitável e vendidas.

Quando voltei seis meses depois, com uma delegação composta por líderes comunitários e membros do Congresso, cerca de 1.000 casas foram vendidas, mas não havia ninguém se mudado pois Israel ainda estava negando água a Rawabi. Mesmo assim, o clima da equipe era otimista e esperançoso. No entanto, quando os amigos visitaram em Dezembro de 2014, sem água, ainda assim, com os custos de montagem e os compradores de casa pedindo retorno de seus depósitos, e de falência iminente, a equipe estava principalmente ansiosa.

Em fevereiro, houve finalmente alguma "boa notícia" para Rawabi. Conforme relatado amplamente, o Coordenador das Atividades do Governo nos Territórios, Maj. Gen. Yoav (Poli) Mordechai, havia aprovado a ligação de água de Rawabi. Mas a alegria durou pouco. Como Al-Monitor relatou, alguns dias depois, a aprovação de Mordechai havia sido negada por um escalão mais elevado entre israelenses e que determinou que a água não pode ser ligada até que seja aprovado em uma reunião do Comitê israelense-palestino Conjunto da Água (JWC) - um corpo que não tinha se encontrado uma vez nos últimos cinco anos (embora a ausência de reuniões não impediu de Israel de conceder direitos de água para dezenas de assentamentos durante esse tempo).

Foi neste contexto que Netanyahu anulou tudo e concedeu que Rawabi ainda estava sem água embora os direitos de estradas, energia elétrica garantida ou a capacidade (necessário para o seu sucesso como um business center) para ter internet 4G e funcionalidade completa.

Por que, alguém poderia perguntar Israel faz a construção de Rawabi tão difícil? Por que seria negar o acesso a mais básica e fundamental das necessidades em água? A resposta está na história tanto, e com a visão Netanyahu/Leiberman do futuro, de Israel.

Não importa o serviço que lip Netanyahu paga à ideia de dois estados, tornou-se cada vez mais claro a partir de suas ações e as palavras de seus aliados de direita que o objetivo real é um único Estado judeu-controlado, desde o rio Jordão até o mar Mediterrâneo, da Síria para o Egito.

Mas Netanyahu e Lieberman, et al., Tem um problema. Israel foi fundado como e pretende ser um Estado judeu e democrático. Enquanto o uso de já muitos questão de Netanyahu do termo "Estado judeu" para descrever um país onde apenas 70 porcento da população é judia, o território cobiçado pelos expansionistas apresenta um problema ainda maior. Dentro da terra, desde o rio para o mar vivem números praticamente iguais de judeus e palestinos, embora os palestinos tenham uma maior taxa de natalidade. Ergo, se o espaço expandido era para ser um Estado democrático, não seria um Estado judeu; enquanto que, se fosse para ser um Estado judeu, não seria democrático.

A solução Netanyahu/Lieberman para este dilema é mudar os fatos no terreno - usando a estratégia de puxar/empurrar a imigração e a expulsão que, após o exame tem sido a história de Israel desde o começo.

Na virada do século 20, quando Theodore Herzl e outros começaram o que denominou o "projeto sionista," os judeus representavam apenas cerca de 3 por cento da população. Em 1948, na véspera da partição, a entrada massiva de judeus fugindo dos pogroms e depois do nazismo na Europa cresceu para 543 mil, mas eles ainda compunham apenas 32 por cento dos 2 milhões de pessoas que viviam no Mandato Britânico.

A imigração sozinha nunca foi o suficiente. Somente o êxodo maciço de palestinos em face do exército israelense na sequência da Partição mudou a equação. Em pouco mais de um ano, como muitos como 1 milhão de palestinos fugiram ou foram forçadas a deixar suas casas, o que o Estado recém-criado de Israel imediatamente expropriou e para os quais não foram, em seguida autorizados a regressar.

Em 1950, Israel tinha uma população de 1 milhão 370 mil, com apenas 150.000 palestinos restantes. Enquanto Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza tornou-se a casa de 1 milhão de palestinos, praticamente todo Israel finalmente tinha uma maioria judaica - a maioria mantida por 70 anos pela imigração (2 milhões desde 1970), as expulsões seletivas, e sufocantes do crescimento palestino.

Como qualquer um que tenha sido ou trabalha com palestinos sabe - mesmo deixando de lado encarceramentos em massa, ataques militares e violência dos colonos - a vida na Cisjordânia é difícil. Já lotaram uns meros 40 por cento de suas antigas terras através do uso de expropriações de terrenos, casas e água; a construção de paredes de barreira e estradas de acesso restrito, os palestinos que vivem na Cisjordânia enfrentam uma teia de medidas kafkianas que circunscrevem cada parte da vida, a partir de um "sistema de passe" bizantino para viajar para Israel (e negação do uso de seu aeroporto) para controles sobre o que as estradas podem dirigir ou caminhar, se e quando eles podem construir uma casa, e se eles têm acesso à água, a internet, ou mesmo serviço de telefone sem fio moderno. É nestas condições que respondem por uma taxa de desemprego de 25 por cento na nação árabe melhor educada no Oriente Médio e que provavelmente por trás do fato de que os estimados 45 mil palestinos deixaram a Cisjordânia e Gaza ao longo dos últimos quatro anos em busca de oportunidades econômicas .

Rawabi com seu novo edifício palestino-construído intocado, escolas modernas, deslumbrante anfiteatro e acima de tudo a sua independência, é como seus fundadores dizem, uma demonstração de resistência, de desafio e uma visão de que a vida poderia estar em uma Palestina independente.

Enquanto Rawabi não está sem detratores palestinos, seu fracasso teria sido épico - a declaração definitiva que, assim como Israel derrota os mísseis do Hamas ou os atiradores de pedras de Beilin, não importa o quanto perícia, dinheiro ou habilidade os palestinos possuam ou invistam em  "construir a estratégia Palestina", Israel nunca vai deixá-los ter sucesso.

Parecia tão recent como há duas semanas que as tentativas de Israel para Rawabi iriam funcionar. Isso de Netanyahu ceder não deve ser visto como um sinal de sua graciosidade ou mudança de coração, mas o resultado da pressão por parte dos palestinos e da Europa,  EUA e Oriente Médio, esta pequena vitória me dá (e eu tenho alguns outros) espero que, apesar de muitos anos de fracasso, não só podemos acabar com os aspectos mais flagrantes de ocupação, mas acabar com a própria ocupação.

A atenção do mundo pode ser focada na grande tentativa de Israel de subverter o esforço internacional para forjar um acordo com o Irã, mas seria um grave erro ignorar e não tomar a exceção de nove anos de luta pela água em Rawabi ou Netanyahu chamada para outro Aliyah .

São essas ações, e outras como a retenção por Israel das receitas fiscais palestinas ou a sua prisão de centenas de crianças palestinas por ano, que são o impulso em direção ao êxodo. Um empurrão, que como um parceiro para a atração da imigração, continua a ser a maior ameaça no Oriente Médio, onde sem justiça, nunca haverá paz.


Marilyn Katz é uma escritora, consultora e ativista política de longa data. Ela é presidente da MK de Comunicação, sócia da Democracy Partners e uma das fundadoras e co-presidente da recém-formada Chicago Women Take Action.

Neoestruturalismo e correntes heterodoxas na América Latina e Caribe no início do século XXI

Dando continuidade aos documentos de trabalho "Tempo de desigualdade: brechas por fechar, caminhos por abrir", "Mudança Estrutural para a Igualdade: uma visão integrada de desenvolvimento" e "Pactos pela igualdade: rumo a um futuro sustentável", a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe recém publicou mais uma contribuição para o mundo das idéias, intitulado "neo-estruturalismo e correntes heterodoxas na América Latina e no Caribe, no início do século XXI". Enriquecido pela diversidade de abordagens teóricas críticas (de evolucionistas, institucionalistas, regulacionistas e marxistas radicais e pós-keynesianos), embora centrado no (neo) estruturalismo, a pesquisa subordina sua agenda teórica e de trabalho ao desenvolvimento e crescimento econômico inclusivo, melhorando a integração comercial externa dos países, aumentando o emprego produtivo, a redução da heterogeneidade estrutural, melhor distribuição de renda e, não menos importante, a estabilidade financeira sustentada no setor real com auxílios de Estado.
A pesquisa está dividida em cinco seções de três capítulos cada, cujo tema geral é:
1. Correntes de pensamento e contexto regional no início do século XXI: o processo de geração de pensamento dentro da região a partir da nova situação vivida desde o início do século, onde predomina a turbulência econômica e a internacionalização do capital.
2. Macroeconomia para o desenvolvimento: abunda nas políticas macrofuncionales para o desenvolvimento e crescimento econômico com equidade, na relação da política econômica anticíclica com o desenvolvimento a longo prazo e caracterização da região da América Latina a partir de um modelo de crescimento robinsoniano.
3. Mudança Estrutural e desenvolvimento produtivo: se analisa a ligação entre a tecnologia, a mudança estrutural e crescimento econômico, a plataforma econômica que pede mais produto via exportação de recursos naturais e, por fim, a relação entre as medidas de política econômico e o Estado de bem-estar.
4. O papel do Estado: se estuda o papel do Estado no crescimento, no emprego e na equidade, a transformação da figura do Estado na região e a relação entre estado, pensamento heterodoxo e participação feministas,
5. Estudos de caso de grandes economias da região: se examina  o México, Brasil e Argentina a partir de uma ótica neo (estruturalista) para obter ensinamentos importantes para o resto das economias da América Latina.
Enquanto a marca da escola (neo) estruturalista é basear o desenvolvimento econômico não em distorções aleatórias de política econômica, mas sobre as características da natureza estrutural,  histórica e endógena (como atraso tecnológico, constrangimentos externos, a desigualdade, a heterogeneidade estrutural, a instabilidade real, relações de dependência centro-periferia, liberalização do comércio, mobilidade internacional de capitais, privatização, desregulamentação, etc.) aqui se podem encontrar soluções de e para nações subdesenvolvidas.
Obela
Acesse o documento no link abaixo:

Aumento da pobreza na América Latina é sinal negativo para os ODS e a agenda pós-2015

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

América Latina - evolução da pobreza e indigência

A América Latina e Caribe (ALC) viveu um momento de grande crescimento econômico entre 2002 e 2008. Em 2009 houve recessão em função do impacto da crise internacional, mas a região se recuperou em 2010 e 2011. Os primeiros 11 ou 12 anos do século XXI deixaram para trás o fantasma da “década perdida”. Neste período, houve um processo de valorização cambial e de recuperação da renda. A maioria dos governos – com alguma orientação de esquerda – aumentaram os gastos sociais, possibilitando uma redução da pobreza e avanços no sistema de proteção social.
O número absoluto de habitantes vivendo na pobreza na América Latina caiu de 215 milhões em 1999 para 164 milhões em 2012, uma redução de 51 milhões de pessoas em 10 anos. Em termos relativos a queda foi mais expressiva, passando de 43,8% em 1999, para 28,1% em 2012. O número de pessoas vivendo na extrema pobreza (indigência) era de 91 milhões em 1999 e caiu para 66 milhões em 2012, ou, em termos relativos, de 18,6% para 11,3% no mesmo período.
Tudo indicava que a pobreza extrema poderia ser erradicada em um futuro próximo, sendo que a meta 1 dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) poderia ser alcançada em 2015 e a meta 1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) poderia ser alcançada até 2030.
Porém, o processo de redução da pobreza na região foi interrompido em 2013 e 2014, segundo dados do relatório Panorama Social da América Latina 2014, apresentado em Santiago do Chile, dia 26/01/2015, pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
As novas estimativas da CEPAL apontam que o número de pobres subiu, em termos absolutos, para 167 milhões de pessoas em 2014, com estabilidade da taxa em torno de 28%. Contudo, houve um aumento absoluto e relativo da pobreza extrema (indigência) que passou de 66 milhões de pessoas (11,3% do total) em 2012 – nível mais baixo já alcançado, para 71 milhões de pessoas (12%) em 2014. Apesar disto, cinco países registraram diminuição de mais de 1 ponto percentual nos níveis de pobreza: Paraguai, El Salvador, Colômbia, Peru e Chile.
A reversão das conquistas recentes está estreitamente relacionada ao desempenho macroeconômico da região e a crise que atinge, principalmente, Venezuela, Argentina e Brasil. A queda do preço das commodities prejudica as exportações latinoamericanas. O Brasil teve um déficit recorde em transações correntes, de cerca de US$ 90 bilhões em 2014. É um número insustentável e que tende a desvalorizar a moeda nacional e a aumentar os preços internos, prejudicando toda a população, principalmente suas parcelas mais pobres.
A indigência no Brasil, em termos percentuais, não só aumentou em 2014, como deve aumentar ainda mais em 2015, mas também é maior do que na Argentina, no Chile, no Peru e no Uruguai. Talvez por isto o governo brasileiro tenha abandonado o lema: “País rico é país sem pobreza”.
As estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o ano de 2015, indicam recessão ainda mais forte para Venezuela e Argentina e queda da renda per capita no Brasil. Institutos de pequisa brasileiros já projetam queda do PIB no país e agravamento da situação macroeconômica em decorrência do déficit fiscal e das crises hídricas e energética.
Ou seja, os números apresentados pelo Panorama Social da América Latina 2014, da CEPAL, são bastante preocupantes em termos da inclusão social. Embora a incidência da pobreza multidimensional tenha se reduzido entre 2005 e 2012 em 17 países da região, os últimos resultados indicam que a ALC terá anos difíceis pela frente.
A reunião da 3ª Cúpula de Chefes de Estado da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) ocorrida na Costa Rica no final de janeiro de 2015, teve como tema central a luta contra a pobreza, sendo que o compromisso proposto pelo Equador, foi de estabelecer na região uma “zona livre de pobreza”. Porém, os dados de 2013 e 2014 mostram aumento da pobreza e tudo indica que o número de pobres e indigentes vai aumentar em 2015. Isto pode ser o prenúncio de uma mudança também no ciclo político da América Latina.

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Em relação às condições de vida, a ONU tem uma agenda muito bem-intencionada para depois de 2015, conforme proposto nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Mas o pressuposto básico para o sucesso dos ODS é o tal do “crescimento sustentado”. Mas o mundo caminha para a estagnação secular e alguns países da ALC (Brasil, Argentina e Venezuela) terão estagflação em 2015. Uma crise na ALC pode também ser o prenúncio de problemas mais globais. Os próximos 15 anos podem ser bem piores do que o último quindênio.
Referências:
ALVES, JED. A redução da pobreza na América Latina. Ecodebate, RJ, 05/12/2012

ALVES, JED. O fim da redução da pobreza na América Latina? Ecodebate, RJ, 08/01/2014

CEPAL, Panorama Social de América Latina 2014, Santiago do Chile, 26/01/2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Publicado no Portal EcoDebate, 20/03/2015

O yuan, segunda moeda de comércio internacional

Nos últimos três anos, os créditos de comércio na moeda chinesa passaram do quarto lugar (depois de dólar, euro e iene) para segundo. O mais significativo deste auge é a velocidade com que o yuan passou de 1,89% para 9,43% do total do crédito de comércio no mundo. 

Por Oscar Ugarteche.

Em apenas três anos a participação do comércio com crédito em yuanes quadruplicou ao mesmo tempo que essa moeda se valorizou 10% em relação ao dólar

O comércio internacional no mundo opera através de crédito documentário. Historicamente as moedas líderes das cartas de créditos foram o dólar, o euro e o iene; e o yuan estava em quarto lugar até janeiro de 2012, quando começou a subir ultrapassando primeiro o iene e depois o euro como segunda moeda em que há mais cartas de crédito. O auge do yuan está longe de ser uma ameaça ao dólar mas foi-o para o iene e para o euro que verão no futuro comércio asiático mais volume em moeda chinesa.

Em janeiro do ano 2012, os créditos documentários em yuanes eram 1,89% do total emitido, medidos em valor. Os ienes eram 1,94% e os euros 7,87%. A moeda líder, o dólar representava 84,96%. Três anos mais tarde a descida do dólar para 79,23% teve como contrapartida o aumento do comércio internacional em créditos em yuanes para 9,43% deslocando o euro que baixou para 6,74% e o iene que desceu para 1,55% do total do valor de créditos documentários.

O mais significativo deste auge é a velocidade com que passou de 1,89% para 9,43% do total do crédito de comércio no mundo. Em apenas três anos a participação do comércio com crédito em yuanes quadruplicou ao mesmo tempo que essa moeda se valorizou 10% em relação ao dólar. Isto quer dizer que cresce o valor do yuan no mercado internacional em dólares e crescem as transações de comércio internacional efetuadas nessa moeda. Sem dúvida isto é uma forma de poupar nas transações comerciais com a China e sobretudo de poupar perante a volatilidade do dólar face ao yuan. A apreciação do dólar no período iniciado em junho do 2014 curiosamente não se refletiu numa depreciação do yuan.

O uso do yuan no mercado cambial já se tinha fortalecido por diversos acordos de pagamento de petróleo e pela introdução do yuan no mercado cambial de Londres e nos ecrãs da Reuters. Esse processo foi acentuado pelos acordos com a Rússia para a compra de gás, substituindo o mercado europeu e pagáveis em yuanes em vez de euros, o que reduz o peso de uma moeda e faz crescer o da outra. E finalmente pelas expectativas que o comércio crescente com a América latina igualmente se desloca para a utilização das cartas de crédito em yuanes. É possível que o comércio da nova União Euroasiática (UEA) com a China se faça integralmente em yuanes enquanto o comércio dentro da UEA se fará em rublos.
O Swift, o mecanismo de pagamentos internacional, promove desde o ano 2010 a utilização do reminbi como divisa e dá informação sobre isto e sobre o mercado cambial. Para o Swift a definição de divisa é igual à do FMI. Uma moeda é considerada tipicamente “internacional” quando é utilizada como unidade de conta (por exemplo para faturar), um meio de pagamento (para compensar o comércio transfronteiriço) e um depósito de valor (depósitos, moeda de reserva). O reminbi ou yuan está subutilizado segundo este intermediário financeiro no comércio internacional. Em junho de 2011, a China tinha 11,4% do comércio mundial mas somente 0,24% dos pagamentos eram efetuados nessa moeda. Isto mudou drasticamente tendo subido para 9,43% mas isto deve-se a que o comércio intrarregional entre a China, Hong Kong, Macau, Cingapura e Taiwan se efetuam integralmente nessa moeda. O outro grande comércio com Estados Unidos, Europa e América latina continua a efetuar-se em dólares ou euros. O comércio no resto do mundo não se efetua em yuanes ainda que começa a ser feito em euros.
No ano 2011, o peso do reminbi no mercado cambial internacional era de 0,9% enquanto o peso do PIB chinês era 11% do PIB mundial. Em janeiro de 2015 o PIB chinês pesa 17% do PIB mundial e é maior que o PIB dos Estados Unidos segundo o Financial Times mas a sua moeda pesa somente 2,06% do mercado cambial.
A China entrou na dinâmica de fazer valer a sua moeda e tem o suporte do mercado financeiro internacional que vê nela a moeda do futuro por estar sub-representada tanto no seu uso no comércio como no seu uso como moeda de reserva. Os novos convênios com a Rússia assim como o esforço por intensificar a sua relação econômica com o resto do mundo na sua própria moeda apontam nessa direção. O desafio para a China será se pode ultrapassar o peso simbólico do dólar (“um dólar é um dólar”) e a maneira como vai enfrentar a sua valorização perante a subida da taxa de juro dessa moeda. Se se desvalorizar, como todo o resto das moedas do mundo, não será um bom sinal. Se se mantiver ou continuar a valorizar, será o alvo da crítica americana mas o augúrio de que continua o curso de fortalecimento no sistema internacional. Ser a primeira economia do mundo, com as maiores reservas internacionais do mundo e a taxa de crescimento mais alta do mundo, mas não ter a primeira moeda do mundo é um sinal de debilidade sistêmica. É a segunda moeda do mundo, mas oito vezes menos importante que a primeira no comércio internacional. Clearstream antecipa que a conta de capitais da China abrir-se-á completamente em 2020 o que definirá o reminbi como moeda de reserva plena.
Artigo publicado em Observatório Econômico Latinoamericano, obela.org

sexta-feira, 20 de março de 2015

Unicef: quase 750 milhões de pessoas sem água adequada para beber

Moçambique é um dos três países do mundo onde mais da metade da população não tem acesso à água potável; Dia Mundial da Água é celebrado este domingo, focando na importância do bem natural para o futuro sustentável.
Foto: Unamid/Albert González Farran
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
No mundo, quase 750 milhões de pessoas têm dificuldades em obter água adequada para o consumo, de acordo com um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef.
Segundo a agência, 90% está em áreas rurais e os cidadãos mais pobres e marginalizados são os que mais sofrem da privação do que é um direito humano básico. O alerta do Unicef antecipa o Dia Mundial da Água, celebrado domingo, 22 de março.
Dimensão
Sobre a data, a Rádio ONU ouviu o relator especial para o Direito à Água e ao Saneamento. De Belo Horizonte, Leo Heller explicou que o desafio é muito maior.
"Mas ainda assim, se nós olharmos para os que têm acesso, ainda há limitações na forma como esse acesso é feito. Se nós olharmos para o contingente da população que não tem acesso ao esgotamento sanitário, esse número cresce e chega a 2,5 bilhões de pessoas. Isso mostra a dimensão do desafio que ainda temos de incluir toda a população mundial em serviços dignos e adequados de abastecimento de água e saneamento."
Sobre o Brasil, Leo Heller acredita que o país tem avançado de forma importante, com água e saneamento incluídos nas políticas públicas. Mas o relator da ONU diz que ainda há muito o que se fazer:
Brasileiros
"Existe cerca de 40% da população (brasileira) ainda sem acesso que possa ser considerado adequado ao abastecimento de água e cerca de 60% sem acesso adequado ao esgotamento sanitário."
Neste ano, o Dia Mundial da Água tem como tema "Água e Desenvolvimento Sustentável" e foca na importância do bem natural para a construção de um futuro melhor para todos.
Ainda sobre o relatório do Unicef, Moçambique, República Democrática do Congo e Papua Nova Guiné são os únicos três países onde mais da metade da população não têm água potável para beber.
Mortes
Para as crianças, a falta de acesso à água pode ser trágica, porque quase mil morrem todos os dias por complicações da diarreia, ligadas à falta de água potável, saneamento precário e baixas condições de higiene.
Outro número apresentado pelo Unicef chama a atenção: na África, os moradores do continente perdem 40 bilhões de horas por ano andando para poder buscar água.
Mas a agência da ONU vê alguns progressos. Em 1990, a África Subsaariana era a região com a cobertura mais fraca de água, mas o acesso tem melhorado. Desde o ano 2000, 50 mil pessoas por dia conseguem ter água limpa, mas 325 milhões de civis ainda não foram beneficiados.
China e Índia são outros dois países onde uma grande parcela da população não tem acesso à água pura: 112 milhões e 92 milhões, respectivamente. O Unicef lembra, no entanto, que no mundo, 2,3 bilhões ganharam acesso a fontes seguras de água desde 1990.

FAO: emissões de carbono das florestas diminuíram 25% entre 2001 e 2015

Agência da ONU afirmou que principais razões para a queda foram melhor manejo e redução do desmatamento; Brasil é responsável por metade da diminuição registrada no mundo.
Foto: FAO/Joan Manuel Baliellas
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, afirmou que as emissões de carbono caíram 25% no mundo entre 2001 e 2015.
A agência da ONU disse que só o Brasil foi responsável por metade dessa queda.
Emissões CO2
A FAO informou que o resultado foi alcançado devido ao melhor manejo das florestas e a redução do desmatamento.
Segundo a organização, as emissões globais de dióxido de carbono causadas pelo desmatamento das florestas caíram de 3,9 gigatoneladas para 2,9 gigatoneladas por ano desde 2001.
Os especialistas explicam que o desmatamento é definido como uma mudança no uso da terra, que passa de floresta para outros tipos, como agricultura ou pasto.
O diretor-geral da agência, José Graziano da Silva, afirmou que "é encorajador ver a redução do desmatamento em países de todas as regiões do mundo, como Brasil, China, Cabo Verde, Filipinas, República da Coreia e Turquia".
Ele pediu que essas nações compartilhem suas experiências com outros países através do programa de cooperação Sul-Sul.
O chefe da FAO disse também que "as florestas são cruciais para o equilíbrio de carbono no planeta e absorvem 75% a mais de CO2 do que o existente na atmosfera.
Desmatamento e Degradação
Graziano da Silva afirmou que o desmatamento e a degradação das florestas aumentam a concentração dos gases que causam o efeito estufa e as árvores absorvem o dióxido de carbono, principal gás responsável pelo aquecimento do planeta.
Ao mesmo tempo a FAO declarou que as emissões causadas pela degradação das florestas aumentaram entre 1990 e 2015, chegando a 1 gigatonelada de CO2 por ano.
A degradação das florestas é causada pela perda em três densidades de biomassa, que podem ter influência humana ou causas naturais, como a ação de madeireiras, incêndios ou a queda de árvores devido à força do vento.
Os dados divulgados agora servem para marcar o Dia Internacional das Florestas, celebrado sábado, 21 de março.

O que não se diz sobre os gastos militares da Grécia

Artigo de Marco Antonio Moreno - El Blog Salmón
Gasto Militar Paises Otan

Embora a Grécia tenha sido forçada a implementar cortes maciços nos salários, nas pensões e nos gastos públicos, as pressões da Comissão Europeia. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu, a fim de evitar que os pagamentos aos fornecedores de armas atrase, está levando o país a um empobrecimento sistemático. A Grécia é a maior consumidora de armas na Europa e por décadas sua despesa militar foi a segundo maior da OTAN (atrás apenas dos Estados Unidos). Desde a crise que eclodiu em 2008, o orçamento de defesa foi reduzido de 7.5 bilhões de euros em 2009, para 5.5 bilhões de euros em 2014, quando a relação despesa militar/PIB caiu para 2,3 por cento (ver gráfico) e na Grécia, pela primeira vez, ficou em terceiro lugar em gastos militares depois dos EUA e Reino Unido. 

Antes da crise, os gastos militares da Grécia chegava a 4 por cento do PIB, e era, de longe, o mais elevado de Europa. A média dos países europeus é de 1,6 por cento do PIB, de acordo com a OTAN. Foi este gasto militares elevado,  que levou o país à falência. Com 11 milhões de habitantes, a Grécia tem um exército de 150 mil soldados e um escalonamento de 1.620 tanques, principalmente, Leopard 1 e Leopard 2, de origem alemã.

Mais tanques do que a Alemanha, França e Itália combinadas

Se a Alemanha tivesse um exército com as mesmas dimensões, com os seus 82 milhões de habitantes deveria ter 1 milhão e 400 mil soldados e cerca de 10.000 tanques. No entanto, o exército alemão tem 180 mil soldados e a quarta parte dos tanques da Grécia: 400 unidades. Ou seja, a Grécia tem mais tanques do que a Alemanha, França e Itália juntas. Isso confirma que o problema da Grécia não tem sido o desperdício público, ou de seus habitantes "viver acima das suas possibilidades". O grande problema das finanças gregas é a enorme despesa militar imposta pela OTAN para mobilizar recursos financeiros para a Alemanha e os Estados Unidos.
Nos últimos 10 anos, a Grécia importou equipamentos militares no valor de mais de 12 bilhões de Euros. Entre 2005 e 2009, o país helênico era o número 5 na lista dos maiores importadores de armas do mundo. Estas compras beneficiam principalmente as empresas da Alemanha e dos Estados Unidos. Quase 70 por cento das suas armas, a Grécia adquiriu das empresas alemãs e americanas. As alemãs ThyssenKrupp e Krauss-Maffei Wegman (KMW), fornecem submarinos e tanques de combate Leopard, enquanto a americana Lockheed Martin os caças-bombardeiros F-16, e a Boeing, os helicópteros de ataque Longbow Apache. Apesar dos cortes de austeridade e do orçamento, a Grécia continua a ser um forte consumidor da indústria de defesa, da Alemanha e dos Estados Unidos.

A guerra extinguiu 83% das luzes na Síria

A devastação da guerra extinguiu a iluminação no território sírio entre março de 2011 e fevereiro de 2015. 

Por Juliana, IPS.

 Uma imagem via satélite da Síria em fevereiro e março de 2015. Foto: Xi Li/Universidade de Wuhan
Uma imagem via satélite da Síria em fevereiro e março de 2015. Foto: Xi Li/Universidade de Wuhan

Nações Unidas (IPS). 18/3/2015 – Uma série de imagens da Síria, obtidas via satélite, e divulgadas no dia 12, mostra que quase 83% das luzes desse país do Oriente Médio apagaram-se desde que começou a guerra civil há quatro anos. O provérbio “uma imagem vale mais do que mil palavras” parece confirmar-se na série apresentada pela “Com a Síria”, uma aliança de 130 organizações não governamentais.

A investigação feita pelo acadêmico Xi Li, da Universidade de Wuhan, na China, capta como a devastação da guerra extinguiu a iluminação no território sírio entre março de 2011 e fevereiro de 2015. “Analisei outros países, mas a Síria é o pior dos casos que vi de luzes noturnas apagadas desta maneira. É muito semelhante às figuras do genocídio de Ruanda, são os dois países que sofreram maior impacto e com maior sofrimento que já vi”, afirmou Li à IPS.

Os números variam em todo o país. Em Damasco, apenas se extinguiram 33% das luzes, enquanto nas cidades arrasadas pela guerra, como Alepo, Idlib e Al-Raqqa, a percentagem chega a 97%. No dia 15, completaram-se quatro anos do início do conflito armado, sem que se veja uma saída para a sua martirizada população.

A assombrosa falta de luz deve-se ao deslocamento da população dos povoados para a cidade, à destruição dos edifícios e das suas luzes, e à interrupção do fornecimento de energia, explicou Li. “A eletricidade é uma das necessidades básicas das pessoas, mas os fornecimentos básicos estão interrompidos”. A maioria das pessoas vive ali na escuridão, destacou.

A destruição e a falta de eletricidade não é algo novo para o doutor Zaher Sahloul, presidente da Sociedade Médica Sírio-Norte-Americana (Sams). Ele mesmo, sírio e com família no seu país, atende na Síria por meio da sua organização. A Sams também oferece diesel para os geradores de energia em lugares sem fornecimento estável. Sahloul disse que a falta de serviços básicos é um dos maiores problemas da população e dos grupos de ajuda. Zonas como Ghouta, perto de Damasco, estão sem luz há mais de 860 dias.

“Algumas das carências são intencionais, provocadas pelos grupos combatentes. Quando cercam uma área ou começam um assédio, cortam a energia. Algumas das zonas controladas pelo governo têm eletricidade algumas horas do dia, geralmente depois da meia-noite, devido ao racionamento”, contou o médico à IPS. “Mas Alepo e Ghouta dependem totalmente dos geradores e do diesel”, acrescentou.

A Sams proporciona fundos para compra de diesel, mas este é escasso e custa até US$ 2,60 o litro, “o mais caro do mundo”, destacou Sahloul. “As pessoas funcionam como na Idade Média. A tecnologia moderna, que damos como certa, não pode ser usada. Mesmo os afortunados com geradores têm de usá-los de forma racionada. Muitas funções estão paralisadas nas cidades sob assédio. A gestão do lixo, da água, as padarias e escolas, como podem ser manejadas sem energia? É uma fórmula para o desastre”, ressaltou o médico.

A Síria acaba de atravessar um duro inverno boreal. As temperaturas caíram para sete graus Celsius negativos. Muitos combateram o frio em barracas de campanha, em campos de refugiados, ou nas ruínas de casas destruídas, sem meios de aquecimento. A família de Sahloul não foi exceção. “Há meses que buscam combustível, mas não conseguem, por isso não podem usar o aquecimento em casa”, explicou. “Dezenas de milhares de refugiados não têm aquecimento. Crianças morreram de frio. Hoje em dia ninguém pode viver sem eletricidade”, destacou o médico.

Sharif Aly, da organização Ajuda Islâmica, com sede nos Estados Unidos, apontou que, em algumas partes do país, seu grupo só pôde distribuir cobertas e abrigos, devido a questões de segurança. “Nosso trabalho no inverno consistiu em tentar proporcionar gás ou combustível para as famílias, esperamos que os problemas comecem a diminuir com a primavera, mas tem sido um grande desafio”, acrescentou.

A falta de eletricidade, bem como o risco dos disparos, bombardeios e de outras atividades militares complicaram enormemente a prestação de assistência médica, assegurou Aly. A ajuda de emergência aos feridos é a resposta mais evidente, mas o dano psicológico e emocional permanece praticamente ignorado, disse.

“Há enormes problemas de saúde mental, um grande impacto psicológico nessas pessoas inocentes presas no conflito”, completou Aly. “Conseguir ajuda sanitária é um problema. Recentemente iniciamos um serviço de diálise no Líbano, porque a situação na Síria e a falta de serviços de saúde” não o permitem, afirmou.

A ex-secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright afirmou, em relação à divulgação das imagens das luzes apagadas na Síria, que 2014 foi “o ano mais sangrento” do conflito e que o número de mortos desde 2011 passa de 200 mil.

Sahloul disse que o pessoal médico abandona o país na medida em que o conflito se agrava. “Todo o médico que conheço na Síria está a pensar em partir, mesmo nas chamadas zonas estáveis”, afirmou. E apontou que o êxodo de pessoal médico habilitou a propagação de doenças como febre tifoide e tuberculose, parasitas, como piolhos e sarna, desnutrição e doenças crônicas que não recebem tratamento devido à falta de acesso aos serviços de saúde e aos medicamentos.

Um relatório divulgado no dia 11 pela organização Médicos pelos Direitos Humanos, diz que 610 pessoas dedicadas a tarefas médicas morreram na Síria desde 2011, devido a 233 ataques contra 183 instalações médicas. Segundo esse grupo, o governo sírio realizou “a grande maioria desses ataques”, responsáveis por 97% das mortes, incluídas 139 por tortura ou execução.

A guerra completa quatro anos. E, embora centenas de milhares tenham morrido numa população estimada de 18 milhões, existem 11 milhões de refugiados e um número indeterminado de feridos, o fim da violência não está à vista. “As pessoas ali não têm esperanças. Há boatos na comunidade de ONGs que este poderia ser um conflito com duração de oito a dez anos. Não há nenhuma expectativa de ser resolvido no curto prazo”, ressaltou Sahloul.

Xi Li ressaltou que espera que a comunidade internacional atue antes que o conflito sírio alcance a gravidade do genocídio de Ruanda, que causou entre meio milhão e um milhão de mortes em 1994. “A comunidade internacional ignorou Ruanda, e depois lamentou. Não quero que as pessoas se lamentem de terminar este conflito na Síria”, enfatizou.

Publicado em Envolverde/IPS

Isil pode ter cometido genocídio e crimes de guerra, segundo relatório da ONU

Escritório de Direitos Humanos divulgou documento esta quinta-feira e cita série de violações contra grupos étnicos e religiosos; investigadores ouviram testemunhas e relataram estupros a meninas yazidi de seis anos de idade.
Foto: Ocha/Iason Athanasiadis (arquivo)
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, Isil, pode ter cometido os três crimes internacionais mais sérios que existem: crimes de guerra, contra a humanidade e genocídio, segundo um relatório divulgado pela ONU esta quinta-feira.
O Escritório de Direitos Humanos compilou o documento após investigadores terem sido enviados à região. O grupo ouviu mais de 100 pessoas que testemunharam ou sobreviveram a ataques do Isil entre junho do ano passado e fevereiro.
Yazidis
O relatório cita diversas violações cometidas pelo Isil contra grupos étnicos e religiosos no Iraque, além de assassinatos, tortura, estupros, escravidão sexual, conversas religiosas forçadas e recrutamento de crianças.
Segundo o Escritório de Direitos Humanos, os ataques a yazidis "mostram a intenção do Isil de destruí-los como grupo, sugerindo que o Estado Islâmico possa ter cometido genocídio".
Há relatos de homens e meninos de até 14 anos que levaram tiros do Isil, enquanto as mulheres foram raptadas. O relatório diz que alguns vilarejos foram totalmente esvaziados.
Estupros
Algumas meninas e mulheres yazidi que conseguiram escapar do cativeiro descreveram terem sido vendidas ou oferecidas como "presentes" a integrantes do Isil. Testemunhas ouviram meninas de seis e nove anos de idade gritar por socorro enquanto eram estupradas por combatentes do Estado Islâmico.
Uma grávida que foi estuprada diversas vezes por um suposto "médico" do Isil durante um período de dois meses e meio, contou que o homem sentou em sua barriga e declarou que o bebê deveria morrer por que era "infiel", mas sugeriu que a criança poderia se tornar islâmica.
Religião
Garotos entre oito e 15 anos de idade contaram que foram separados de suas famílias e levados a alguns locais no Iraque e na Síria. Eles foram forçados a se converter ao islamismo e sujeitos a treinamento militar.
O relatório destaca ainda que o Isil também realizou ações "cruéis" contra cristãos, curdistãos, xiitas e turcomenistãos. Em junho, milhares de cristãos abandonaram suas casas após o grupo os obrigar a se converterem ao islamismo, pagar uma multa ou sair de casa.
Também em junho, 600 homens que estavam na prisão de Badoush, a maioria xiita, foram levados de caminhão a um desfiladeiro e depois, baleados pelo Isil. Sobreviventes contaram aos investigadores da ONU que foram salvos porque outros corpos caíram por cima deles.
Forças de Segurança
Pessoas ligadas ao governo iraquiano também foram alvo da violência. Até 1,7 mil cadetes de uma base militar teriam sido massacrados pelo Isil no dia 12 de junho. As investigações do governo sobre o incidente ainda precisam se tornar públicas.
A equipe responsável pelo relatório também recebeu informações "de várias fontes sobre alegações de que as Forças de Segurança Iraquianas e milícias afiliadas teriam também cometido sérias violações de direitos humanos durante operações contra o Isil".
Justiça
Foram relatados casos de incêndio num local onde havia prisioneiros sunitas, pessoas torturadas, sunitas baleados e forçados a deixar suas casas. Segundo o documento, membros da Força de Segurança foram responsáveis por assassinatos, tortura, raptos e desaparecimentos forçados, muitas vezes sem punição e por isso, também podem ter cometido crimes de guerra.
O documento do Escritório de Direitos Humanos da ONU pede ao governo iraquiano para investigar todos os crimes descritos no relatório e levar os responsáveis à justiça.
É feito também um pedido ao Conselho de Direitos Humanos, para que lide com as informações que apontam para genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra e apele ao Conselho de Segurança para que considere enviar o caso do Iraque ao Tribunal Penal Internacional.