"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 4 de abril de 2015

“O HSBC vai voltar a violar regras financeiras”, admite responsável do banco

Um alto responsável do banco afirmou numa reunião com advogados que o tamanho do HSBC torna virtualmente inevitáveis as violações regulatórias em grande escala. O Guardian ouviu a gravação da conversa. 

Por Harry Davies e James Ball, do diário The Guardian.

Um quadro superior do HSBC admitiu reservadamente que certamente ocorrerão no banco outras falhas graves de regulamentação no futuro, apesar dos esforços em várias frentes em regularizar as operações em todo o mundo. Os comentários do diretor mundial de sanções do HSBC Lee Hale contrastam com as declarações públicas da direção-executiva do HSBC de que o banco mudou as suas práticas após os recentes escândalos. Em conversa gravada, Hale afirmou que ainda há lacunas nas políticas de controle interno do banco e no rastreamento de algumas transações financeiras.

Stuart Gulliver, diretor-executivo do HSBC desde 2011, e Rona Fairhead, diretora do HSBC América do Norte, asseguraram diversas vezes diante do Parlamento do Reino Unido que o banco é hoje completamente diferente de quando a sua filial suíça facilitou a evasão fiscal em grande escala, ou quando a sua filial mexicana foi considerada pelas autoridades norte-americanas cúmplice de um esquema multimilionário de lavagem de dinheiro para cartéis de drogas.

"Foram feitas reformas radicais e profundas em termos de endurecimento das regras no HSBC e de simplificação do negócio, de acordo com os mais altos padrões de controle de lavagem de dinheiro, de informações sobre os nossos clientes e de transparência fiscal", afirmou Gulliver na Comissão de contas públicas da Câmara dos Comuns, em fevereiro.

Mas uma gravação, ouvida pelo Guardian, de uma reunião confidencial realizada há não mais de três meses, revela que Lee Hale descreveu um quadro muito mais complexo dos esforços do banco em adequar seus procedimentos àquilo que as autoridades esperam.

Em comunicado, o HSBC disse não reconhecer os comentários feitos na gravação, e que esta estaria fora de contexto. O banco não foi capaz de dar exemplos específicos de nenhuma imprecisão até o momento da publicação.

A gravação registra Hale em reunião com os advogados independentes que monitoravam o HSBC como parte de um polémico acordo feito em 2012 com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Com o acordo, o banco evitou um processo por descumprimento de sanções e lavagem de dinheiro em sua filial mexicana mediante uma multa de 1900 milhões de dólares e um programa de monitoramento regulatório adicional por cinco anos. O acordo foi assinado pela então procuradora do o Distrito Leste de Nova York, Loretta Lynch, hoje indicada por Barack Obama para o cargo de Procuradora geral dos EUA.

Durante o encontro, que durou várias horas, Hale destacou os avanços obtidos pelo banco na atualização dos seus procedimentos de conformidade e no fortalecimento da transparência e de seus controles financeiros em diversas áreas de suas operações globais.

Ele afirmou aos monitores que o tamanho do banco torna virtualmente inevitáveis as violações regulatórias em grande escala, confessando ainda não estar "confortável" com a adesão a certas normas referentes a algumas áreas significativas de suas operações.

Durante um longo diálogo sobre a nova política de sanções e violações internas de regras do HSBC, Hale disse ao regulador que "dada a dimensão e escala do HSBC", em sua opinião, "é certo que vai acontecer, em algum momento futuro teremos alguma grande violação, alguma violação da regulamentação".

E acrescentou: "Espero que isso não aconteça, mas é provável".

Pressionado por reguladores e investidores, Gulliver tem repetido que o HSBC não é grande demais para ser gerido. A pressão foi agravada pelas revelações de irregularidades na filial suíça, tornadas públicas pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigatição, pelo Guardian, Le Monde e outros.

Gulliver afirma ter tornado mais rigorosa a gestão interna no banco, abandonando a estrutura federativa anterior, em que as operações de cada país tinham significativa autonomia.

No entanto, Hale sugere na sua conversa com o monitor que o facto de as operações do HSBC se estenderem por 70 países ainda era um fator de complicação no trabalho dos 7.000 membros da equipe de compliance do banco.

"É preciso reconhecer que é difícil para nós, como empresa. Operamos em mais de 70 países e visitamos alguns países, em 2014, em que não foi possível implementar o programa", disse.

Perguntado se havia previsto as amplas violações no sistema de governança do banco, Hale disse que havia "algumas categorias", em que sua equipa se questionava se a política existente era suficiente e se o banco estava a fazer o suficiente. Ele observou, no entanto, que seria exagero afirmar que tinha certeza da existência de graves violações.

Pressionado pelos monitores a dar mais detalhes, Hale identificou a triagem de doações de caridade como uma área de preocupação para a sua equipa. "Este seria um exemplo de onde não estou totalmente confortável sobre termos feito o suficiente", admitiu. Ele não deu outros exemplos.

O executivo britânico também destacou o "processo doloroso" de melhoria dos padrões de gestão realizado pelo grupo financeiro para garantir a conformidade com as políticas de sanções – uma das principais causas da multa recorde imposta pela Justiça americana ao HSBC.

Ele afirmou que sua equipa acumulou mais de 90 pedidos de isenção – pedidos formais para executar uma ação que estaria fora das normas do HSBC – que ele se recusou a assinar por não estarem, no seu ponto de vista, suficientemente justificados.

Sobre a dificuldade de revisão das normas de sanções do banco, Hale disse que a equipa HSBC não estava habituada a proporcionar o nível de detalhame requerido para a autorização de isenções. "Acho que é realmente a primeira vez que procuramos fazer isso com o rigor adequado... as primeiras requisições não tinham grande qualidade."

Os observadores devem apresentar anualmente um extenso relatório ao Departamento de Justiça americano que, por sua vez, elabora um resumo para um tribunal de Nova York. Quando o acordo foi assinado, em dezembro de 2012, o chefe da divisão criminal do Departamento de Justiça disse que o HSBC estaria com a "espada de Dâmocles" sobre a cabeça se não cumprisse seus compromissos.

Apresentado na última quarta-feira, o último relatório afirma que o HSBC fez progressos e está "mais bem protegido contra crimes financeiros e mais apto a detectá-los", elogiando ainda os esforços da direção executiva e da equipe de compliance.

O relatório também registra, no entanto, preocupações com o HSBC, inclusive em relação à sua cultura corporativa, afirmando: "Algumas das deficiências culturais históricas do Grupo HSBC continuam a permear suas operações hoje". A equipe sénior da divisão americana de investimentos do banco foi especialmente criticada.

É provável que tal crítica à cultura do HSBC desaponte a diretora do banco na América do Norte, Fairhead, que presidiu ao comité de auditoria durante vários dos famosos episódios de falhas éticas do banco, além de atuar como presidente do BBC Trust e ter uma função não executiva na PepsiCo.

Fairhead havia dito à Comissão de contas públicas que a sua abordagem no processo de auditoria se apoiara substancialmente "na cultura do HSBC, considerada de grande integridade", o que logo se mostrou inadequado. Fairhead disse que, posteriormente, ajudou a conduzir programas de reformas.

As conversas gravadas também abordaram problemas da equipe de compliance da filial norte-americana. Hale disse: "A equipe de auditoria interna fez uma avaliação da divisão dos EUA e o que encontraram não é nada bom". Os resultados, de acordo com Hale, levaram o banco a romper o contrato com um dos altos executivos de compliance do banco em Nova York, um ex-funcionário do Tesouro americano.

Em 2012, um relatório do Senado americano observou que a alta rotatividade de pessoal da área de controles internos na subsidiária norte-americana tornava difícil a implementação de reformas.

Em comunicado, o HSBC afirmou não reconhecer as informações do Guardian, e que estava em conformidade com o acordo feito com a Justiça americana.

“Nós não reconhecemos os comentários apresentados pelo Guardian, que contêm imprecisões e foram tirados do contexto", diz o texto. "O Departamento de Justiça dos EUA reconheceu que o HSBC tem feito progresso no sentido de cumprir os mais rigorosos padrões de conformidade impostos até hoje a uma instituição financeira global. Continuamos a cumprir todas as nossas obrigações estabelecidas no acordo”.  

A crise do clima e a COP-21: uma tragédia anunciada?

O cenário mais pessimista – elevação média da temperatura da ordem de 4,8°C até o fim deste século – torna-se cada vez mais provável se medidas enérgicas não forem rapidamente tomadas. 

Artigo de Liszt Vieira.

O 5º Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas), divulgado no ano passado, alerta que o aquecimento do clima vem ocorrendo a um ritmo mais rápido do que o previsto. As Nações Unidas colocaram a meta de um aumento de temperatura limitado a 2°C até o final do Século XXI, mas este objetivo corre o risco de ser atingido em 2030.

O cenário mais pessimista – elevação média da temperatura da ordem de 4,8°C até o fim deste século – torna-se cada vez mais provável se medidas enérgicas não forem rapidamente tomadas. O aumento médio de 26 a 98 cm do nível do mar (a estimativa anterior era de 18 a 59 cm) provocará migrações em massa de populações em geral pobres, e eventos climáticos extremos (calor intenso, secas, inundações etc.) devem multiplicar-se.

Além disso, ficará comprometida a segurança alimentar de populações inteiras pela redução dos rendimentos agrícolas em função da degradação do meio ambiente. Uma onda de extinção de espécies poderá produzir-se: não seria a primeira em escala global, mas, pela sua rapidez e origem humana, seria uma extinção sem precedentes.

Segundo o Relatório do IPCC de Março de 2014, durante o Século XXI os impactos das alterações climáticas deverão reduzir o crescimento económico, tornar mais difícil a redução da pobreza, agravar a insegurança alimentar e criar novas “armadilhas” de pobreza, principalmente em áreas urbanas e regiões castigadas pela fome. Um aumento maior na temperatura do Planeta acarretará danos consideráveis à economia mundial. As populações mais pobres serão as mais afetadas, pois a intensificação dos eventos climáticos extremos, dos processos de desertificação e de perdas de áreas agricultáveis levará à escassez de alimentos e de oferta de água potável, à disseminação de doenças e a prejuízos na infraestrutura econômica e social.

O último relatório do IPCC alerta o mundo para a urgência de medidas destinadas a combater o aquecimento global. Com efeito, a temperatura média na superfície do Planeta subiu 0,85° entre 1880 e 2012. Na dos oceanos, aumentou 0,11° por década entre 1971 e 2010. O nível médio dos oceanos aumentou de 19 cm entre 1901 e 2010. Na região do Ártico, que se aquece mais rapidamente do que a média do Planeta, a superfície dos campos de gelo diminuiu de 3,5 a 4,1% por década entre 1979 e 2012.

A concentração de gases que produzem o Efeito Estufa na atmosfera atingiu os níveis mais elevados desde 800 mil anos, o que dá uma ideia do impacto atual na biosfera. Segundo os cientistas do IPCC, as alterações climáticas trariam impactos graves, extensos e irreversíveis, se não forem “controladas”, o que supõe medidas impositivas e obrigatórias a serem adotadas no futuro tratado sobre o clima, a ser discutido em Paris, em Dezembro de 2015.

Há um certo consenso de que o aumento da temperatura global não deve ultrapassar 2°, sob pena de consequências imprevisíveis no que se refere a eventos climáticos extremos, como secas, inundações, desertificação, calor intenso, redução da produção agrícola, aumento no preço dos alimentos etc. Desde a Conferência RIO-92, porém, a ação dos “céticos do clima”, muitos deles ligados ao poderoso lóbi da indústria do petróleo, conseguiu barrar os avanços que seriam necessários para evitar a situação alarmante em que nos encontramos hoje. O atraso foi tamanho que há, entre os cientistas, os que temem uma elevação de temperatura de até 4°.

Mas o IPCC informa que existem soluções. Tais soluções exigiriam mudanças no modelo económico que poderiam ser efetuadas sem comprometer o crescimento. Para isso, isto é, para não ultrapassar os 2°C, as emissões mundiais de gases de Efeito Estufa (CO2 e metano, principalmente) devem ser reduzidas de 40 a 70% entre 2010 e 2050, e desaparecer totalmente até 2100. Esse esforço foi quantificado, e custaria menos de um ponto no crescimento mundial anual, estimado entre 1,6 e 3% no curso do Século 21.

Trata-se de fazer uma substituição de investimentos: os efetuados na energia fóssil (petróleo e carvão) devem baixar 30 mil milhões de dólares durante 20 anos, e os aplicados na energia solar e eólica devem ser consideravelmente desenvolvidos. Para o IPCC, desenvolvimento económico e descarbonização são compatíveis.

Mudar o modelo econômico significa adotar uma série de medidas e compromissos públicos e privados, conversões industriais, compensações financeiras e medidas coercitivas de renúncia aos recursos disponíveis e rentáveis a curto prazo. A Europa, por exemplo, comprometeu-se a reduzir ao menos 40% de suas emissões até 2030, a aumentar sua eficiência energética e a parte das energias renováveis em torno de 27% em relação a 1990.

É claro que os países têm pesos diferentes e, nas negociações internacionais, existem três grandes princípios que se consolidaram:

1) Responsabilidade comum, mas diferenciada: a responsabilidade é comum a todos, mas os países desenvolvidos historicamente poluíram mais e, por isso, a sua responsabilidade é maior;

2) Limitar a elevação de temperatura a uma faixa entre 1,5° e 2°,

3) Financiamento aos países em vias de desenvolvimento para ações de redução de emissões e adaptação às alterações climáticas.

Entre os principais atores da Conferência de Paris no final deste ano, encontram-se a China, cujas emissões aumentaram 4,2% em 2013 (menos que os anos anteriores pela redução no crescimento económico), os EUA, cujas emissões cresceram 2,9% pelo aumento de seu consumo de carvão, a Índia, que viu as suas aumentarem de 5,1% face ao crescimento e uso intensivo de carvão, a União Europeia, cujas emissões diminuíram 1,8% graças à crise econômica, o Canadá, que se comprometeu na Conferência de Copenhaga a reduzir 17% de suas emissões em 2020 em relação a 2005 (e está longe disso), e o Japão, às voltas com a crise pós-Fukushima.

O Brasil chegou a ter certo destaque quando o ex-Presidente Lula foi ovacionado na Conferência de Copenhaga em 2009 ao admitir metas nacionais de redução de emissões de Gases de Efeito Estufa – contrariando a posição da delegação brasileira chefiada pela então Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Desde então, o Brasil desapareceu do cenário internacional.

O acordo bilateral de alto nível entre a China e os EUA em 11 de Novembro de 2014 é uma boa notícia que mostra que esses dois países – responsáveis por cerca de 45% das emissões globais – negoceiam diretamente. É um passo importante do ponto de vista diplomático, mas, na prática, as emissões chinesas vão continuar a aumentar nos próximos 15 anos, ameaçando seriamente o objetivo de 2°C. Já os EUA comprometeram-se a uma redução de suas emissões de 26 a 28% até 2025, em relação a 2005, ou seja, cerca de duas vezes mais do que o compromisso anterior para o período 2005-2020. Em Janeiro de 2010, os EUA falaram de uma redução de 17% em relação ao nível de 2005, mas esse compromisso dependia de uma aprovação do Congresso. Os Senadores já condenaram o novo compromisso, e os EUA mal conseguem cumprir o precedente. Por outro lado, sublinhe-se que esses dois maiores países poluidores – China e EUA – são os países que mais investem em energia renovável. A China sozinha investe mais em solar e eólica do que todo o resto do mundo.

Um dos grandes obstáculos a serem enfrentados na COP-21 em Paris será a criação de instrumentos econômicos reguladores. O Fundo Verde, criado em Copenhague em 2009 devia originalmente contar com 100 mil milhões de dólares e até hoje não passou de um terço da capitalização inicial de 15 mil milhões exigidos pelos países em vias de desenvolvimento.

A crise económica mundial choca com a crise ecológica. Não existe um instrumento regulador para possibilitar a mudança do modelo económico. Eis porque a imposição de um preço do carbono é uma proposta apoiada por muitos, ainda mais com a queda no preço do petróleo. Sem esse instrumento e a consequente reorientação massiva de investimentos energéticos, a Conferência de Paris fracassará e terminará – como a Conferência de Lima em dezembro passado – fazendo um apelo para que uma decisão efetiva seja tomada numa próxima Conferência.

As alterações climáticas e a perda da biodiversidade já desencadearam um processo de destruição de recursos naturais que ameaça as condições de vida humana no Planeta. Segundo Paul Crutzen – Prémio Nobel de Química 1995 – já entramos em uma nova era geológica, o Antropoceno, em que o homem começa a destruir suas condições de existência no Planeta.

Em 2002, o historiador John McNeill alertou em seu livro “Algo de Novo Sob o Sol” (Something New Under the Sun, McNeill) que a humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou seja, os limites físicos além dos quais pode haver colapso total da capacidade de o Planeta suportar as atividades humanas. Os eventos climáticos extremos não cessam de confirmar a sua advertência: secas, inundações, desertificação, falta de água, temperaturas excessivas, desastres naturais, refugiados ambientais.

O Presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, afirmou já em Julho de 2008 que “para conter a alta de temperatura aquém de 2°C-2,4°C, que é a linha que não deve ser ultrapassada para evitar o perigo grave, só nos restam sete anos para inverter a curva mundial de emissões de gases que produzem o Efeito Estufa” (Le Monde, 8/7/2008). Ou seja, até este ano de 2015.

As alterações climáticas em curso tornaram-se uma causa autónoma de guerras, e não apenas um efeito multiplicador. A dificuldade de acesso aos recursos necessários à sobrevivência, principalmente alimentos e água potável, ou mesmo a subida do nível do mar, tornam-se fatores de violência armada e conflitos territoriais de fronteira.

Em 17/4/2007, uma Resolução do Conselho de Segurança da ONU qualificou a mudança climática como questão de segurança. Um ano antes, o secretário britânico de Defesa, John Reid, declarou que as forças armadas deviam se preparar para intervir em guerras de origem climática. A tese de guerras climáticas é objeto de controvérsias. No caso de Ruanda, por exemplo, os fatores ambientais como acesso a terras férteis e aráveis, acesso à água potável, risco de catástrofes naturais ou desmatamento não são os únicos fatores que explicariam a guerra. Tais fatores se articulam com componentes económicos, políticos e sociais. De qualquer forma, seja complementar ou desencadeador, os fatores ambientais estão na origem do surgimento de refugiados climáticos nas zonas já afetadas pelos conflitos armados, cujo número se elevaria a 200 milhões em 2050, segundo previsões do Relatório Stern.

Os interesses económicos contrariados e a sombra da ignorância se refletem ainda numa pequena minoria de “cientistas” e políticos presos a dogmas do passado ou financiados pela indústria petrolífera. Hoje, entre os poucos cientistas que negam o risco dos Gases de Efeito Estufa para a humanidade, se destaca o cientista Wei-Hock Soon, do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica. Ele apareceu em vários programas de TV, prestou depoimento no Congresso dos EUA, escreveu artigos científicos e fez conferências negando o risco do aquecimento global que seria causado não por ações humanas, mas por variações na energia do Sol.

Segundo notícia publicada no jornal New York Times de 21/2/2015, documentos obtidos pelo Greenpeace e pelo Centro de Pesquisa do Clima, nos termos da Lei de Liberdade de Informação estadunidense, comprovam que o cientista Wei-Hock Soon foi financiado pela indústria do petróleo durante longos anos: na última década, recebeu 1.2 milhão de dólares em dinheiro sem revelar a origem desse financiamento.

Foi um duro golpe dado aos “negacionistas”. Eles estão sendo esmagados pela realidade que mostra que a sobrevivência da humanidade no Planeta está ameaçada se não houver profundas mudanças no atual modelo de civilização, o que implica mudar o modelo insustentável de produção e consumo e o próprio modo de vida da população.

* Liszt Vieira é doutor em Sociologia, Professor da PUC-Rio. Publicado no portal Eco21.

Democracia e a multidão

No livro A Democracia, Hans Kelsen, sugere que o texto bíblico não seria democrático  e menciona a passagem onde Pilatos pergunta à multidão qual dois dois prisioneiros querem que seja solto: Jesus ou Barrabás; escolhido Barrabás o texto bíblico diz, "e Barrabás era um criminoso".

Não se trata essencialmente de democracia e sim de julgamento das massas. Antes de Cristo a morte de Sócrates, trazida por Platão também aborda essa questão. Numa passagem de Críton Sócrates responde ao amigo que não se deve se preocupar com o que diz a multidão e sim com o que se considera justo, dentro do conceito platônico de verdade:

Sócrates- Logo, meu excelente amigo, não é absolutamente com o que dirá de nós a multidão que nos devemos preocupar, mas com o que dirá a autoridade em matéria de justiça e injustiça, a única, a Verdade em si. Assim sendo, para começar, não apontas o bom caminho quando nos prescreves que nos inquietemos  com o pensamento da multidão a respeito do justo, do belo, do bem e de seus contrários. A multidão, no entanto, dirá alguém, é bem capaz de nos matar. 

Sócrates queria demonstrar que deve haver base de julgamento mais firme do que a opinião da multidão; Pilatos devia ter critérios, ter um código de leis prevendo como se deve punir cada crime; evidentemente, isso foi uma construção ao longo da história.

Na modernidade a chamada opinião pública tem seus debates envolvidos pelas pesquisas de opinião e pela mídia de massas. E o grande tem tem sido a manipulação; a Escola de Frankfurt trabalhou com o tema da Indústria Cultural, o sociólogo francês Pierre Bourdieu criticou as pesquisas de opinião.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Ucrania e a Guerra Fria

Nunca se deve esquecer que os maiores conflitos de estilo militar (Guerras Mundiais I e II) foram iniciadas por eventos que foram consideradas menores, mas estes se escalaram rapidamente. E isso pode acontecer agora. Esperemos que os governos europeus tenham aprendido a lição. Mas eu não tenho certeza. Esses governos estão dando muitos sinais de que não aprenderam com a história deste continente.

Artigo publicado por Vicenç Navarro na coluna “Pensamiento Crítico” no Jornal PÚBLICO da Espanha, 3 de abril de 2015.

Antes de iniciar este artigo, eu sinto a necessidade de fazer um esclarecimento, para evitar que me coloquem em uma barca a que não pertenço. Fui declarado persona non grata na União Soviética,  resultado de ter escrito um livro crítico sobre esse Estado, que levou o governo Brezhnev a proibir meus livros no país. A minha crítica da nomenclatura do Estado soviético, que agora controla o Estado russo, é bem conhecida na cultura anglo-saxã.

Mas eu acho um grande erro as políticas que o Departamento de Estado dos Estados Unidos e do establishment europeu que rege a União Europeia estão a seguir nas suas relações com a Rússia. Na realidade, não há plena consciência na Europa do ressurgimento nos EUA daquelas vozes que uma vez foram deslocadas do establishment político dos EUA, após o colapso da União Soviética e  o desaparecimento de seu inimigo. Estas vozes estão agora a tentar apanhar o inimigo, apresentando a Rússia como o novo inimigo, que é nem mais nem menos, de acordo com essas vozes, a mesma, mas reciclada. O objetivo destas posições é continuar a Guerra Fria, tendo tensões na Ucrânia como o ponto de recuperação desse conflito.

Isso requer a apresentação da Rússia e seu governo atual, liderado pelo Sr. Putin, como o único responsável pelas tensões que estão ocorrendo na Ucrânia. Tenho discutido em outros artigos, os principais componentes desta campanha americana, que incluiu, em primeiro lugar, a demonização do inimigo, ou seja, o Sr. Putin e seu governo, em paralelo a uma intervenção nos assuntos internos da Ucrânia, para garantir, assim, que o governo que aparece após essas tensões seja semelhante, ao lado e maleável aos interesses do governo federal dos EUA.

Como parte desta campanha têm ocorrido vários fatos que, direta ou indiretamente, foram gerados e/ou influenciados por forças favoráveis ​​ao renascimento da Guerra Fria dentro do governo dos EUA, incluindo o golpe de Estado na Ucrânia, que terminou com um governo democraticamente eleito, e substituído por um governo em que, de forma destacada, incluiu representantes de partidos de extrema direita (ideologia nazista) que tinham colaborado com os nazistas alemães em sua luta contra a União Soviética (que custou a esta última 22 milhões de mortos). Acrescente-se que o novo governo diluiu o papel que a língua russa tinha na Ucrânia (reflexo de grande parte da população deste país ser considerada culturalmente russa).

Como era lógico e previsível, esses atos resultaram consequentemente na resposta russa, desde a invasão da Crimeia até o apoio, no início bastante limitado e mais tarde mais extenso, aos rebeldes pró-russos que queriam mais autonomia como uma defesa contra o novo governo de orientação claramente antirrussa. É importante sublinhar que alguns dos arquitetos da Primeira Guerra Fria, tais como Henry Kissinger advertiu que todas essas medidas iniciadas pela facção mais direitista do Departamento de Estado do governo dos EUA (que controlava a Secção Europeia do Departamento) geraria este tipo de resposta por parte do governo de Putin, respostas que se acentuaram ainda mais, devido à possível integração da Ucrânia na OTAN. Esses protagonistas da Primeira Guerra Fria têm criticado e denunciado os proponentes da Segunda Guerra Fria e as suas políticas provocativas ao governo Putin.

A oposição dos arquitetos da Guerra Fria 1 à Guerra Fria 2

Uma dessas vozes é William R. Polk, que, em sua época, foi assessor do presidente Kennedy e uma peça chave da equipe quando ele liderou a resposta para o desenvolvimento de mísseis em solo cubano durante o governo Khrushchev na URSS. William R. Polk foi um dos membros da equipe que assessorou o presidente durante a crise dos mísseis, que levou o mundo à beira de um conflito nuclear. Em um artigo publicado em CounterPunch Mr. Polk critica o comportamento do atual governo dos EUA que quer integrar a Ucrânia na OTAN, um ato, segundo ele, semelhante ao de Khrushchev quando  tentou colocar bases nucleares em Cuba. Foi um ato de provocação pelo governo soviético para o governo dos EUA, o que poderia ter levado a uma guerra nuclear. Daí Mr. Polk propor ao Presidente Kennedy oferecer como parte de intercâmbio a retirada dos mísseis norte-americanos na Turquia, coisa que o Presidente fez e que o Presidente Khrushchev aceitou. E isso ajudou a acabar com a crise dos mísseis de Cuba. Mr. Polk acredita que desejar integrar a Ucrânia na OTAN é igualmente provocante, e é previsível de criar enormes tensões, começadas agora, diz ele, por parte do governo federal dos EUA.

E assim têm considerado muitos outros arquitetos da política externa dos EUA que, aliás, também são contra as sanções econômicas contra a Rússia pelo mundo ocidental, que são alienantes do povo russo, facilitando e promovendo um afastamento da Rússia da Europa, e, além disso, uma abordagem para a China, o que vai contra os interesses europeus e norte-americanos. Qual é, então, é a lógica dessa agressão?

Por mais simples que possa parecer, a motivação do grupo de extrema-direita americana, herdada da administração republicana anterior, que continua a controlar a secção europeia do Departamento de Estado, é também para recuperar a sua própria influência, manter a imagem do "inimigo", essencial para a manutenção do complexo militar-industrial, que ainda tem um poder enorme nos EUA. É de enorme estupidez dos establishments europeus fazer o jogo da extrema direita dos EUA, porque o conflito está a ter lugar em território europeu, com o perigo de que se torne um conflito nuclear. Nunca se deve esquecer que os maiores conflitos de estilo militar (Guerras Mundiais I e II) foram iniciadas por eventos que foram consideradas menores, mas estes se escalaram rapidamente. E isso pode acontecer agora. Esperemos que os governos europeus tenham aprendido a lição. Mas eu não tenho certeza. Esses governos estão dando muitos sinais de que não aprenderam com a história deste continente.


Vicenç Navarro foi Professor de Economia Aplicada da Universidade de Barcelona. Atualmente é Professor de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha). Ele também é professor de políticas públicas da Universidade Johns Hopkins (Baltimore, EUA), onde lecionou por 45 anos. Dirige o Programa em Políticas Públicas e Sociais patrocinado conjuntamente pela Universidade Pompeu Fabra e da Universidade Johns Hopkins. Ele também dirige o Observatório Social de Espanha.

Netanyahu: A mensagem é clara

Houve uma transformação mundial da percepção de Israel como uma "vítima" ao de Israel como um "perseguidor". Isso é um pesadelo para a causa sionista em Israel.

Por Immanuel Wallerstein

Binyamin "Bibi" Netanyahu ganhou uma vitória eleitoral impressionante em Israel em 17 de março. Ele obteve isso por fazer duas declarações públicas de última hora. Uma delas era que não haveria Estado palestino, enquanto ele for presidente. Ele, portanto, formalmente renegou seu compromisso com um resultado de dois Estados para as negociações entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina. A segunda declaração era "alertar" os eleitores a uma participação árabe significativa nas eleições. Isto, obviamente, era pura demagogia, mas funcionou.

Ele não só manteve a político israelense mais bem sucedida nas últimas décadas. Mas ele fez tudo isso por cálculo cuidadoso. A história começou há algumas semanas quando as pesquisas israelenses mostraram um aumento significativo na votação prospectiva para a chamada União sionista, liderada pelo líder do Partido Trabalhista, de centro-esquerda de Israel, Isaac Herzog. Este grupo cuidadosamente evitou dizer muito sobre os palestinos, exceto que eles iriam retomar as negociações. Em vez disso, eles construíram sua campanha em questões econômicas puramente internas, prometendo mais benefícios do Estado de bem-estar.

Primeiro, Netanyahu respondeu ao (possivelmente instigado) convite do Presidente da Câmara dos EUA John Boehner para fazer frente em uma sessão conjunta do Congresso. Esta foi uma intrusão em grande medida inédita de um chefe de Estado estrangeiro na elaboração de políticas dos EUA. O Presidente Obama ficou muito chateado e se recusou a atender Netanyahu durante sua breve visita aos Estados Unidos.

Netanyahu falou para uma platéia entusiasmada de republicanos, juntamente com um boicote parcial de atendimento pelos democratas. O objeto de Netanyahu foi mobilizar os judeus israelenses a não votarem em outros candidatos de direita na primeira rodada de votação, mas para lançar um "voto útil" para Netanyahu. Isto ele teve êxito com força.

No processo, é claro,  ele profundamente antagonizou Obama, que disse que os Estados Unidos têm agora de reavaliar suas relações com Israel. Netanyahu então ligeiramente volta atrás em sua declaração sobre a continuação das negociações com os palestinos, e pediu desculpas por seu alarmismo sobre a participação árabe nas eleições. Obama não foi apaziguado, dizendo quetomou Netanyahu em sua palavra sobre um resultado de dois Estados.

Então, o que, todo mundo está perguntando, vai acontecer agora? Pouco antes das eleições, um grupo de figuras ilustres de segurança de Israel emitiu um comunicado, dizendo, na prática que a abordagem de Netanyahu foi alienando os Estados Unidos e que isso era desesperadamente ruim para o futuro de Israel como um Estado judeu. Eles estavam certos? A resposta é sim e não.

Vamos começar com o dilema básico da maioria dos judeus israelenses. Eles não querem nem um estado-de-dois, nem um resultado de um estado. Eles sabem que a solução de dois Estados requer um grande retiro em assentamentos judaicos pós-1973, bem como a possibilidade de, pelo menos, alguns palestinos de retornar do exílio. Eles acham isso inaceitável. E, tendo em conta a evolução demográfica, eles temem que uma solução de dois Estados é simplesmente uma solução de um Estado que está atrasado. Quanto à solução de um Estado, significa renunciar a ideia sionista básica de um Estado judeu.

Diante desse dilema, eles gostam da estratégia de Netanyahu: demora, demora, demora! E, se alguém tentar forçar o ritmo, estar pronto para lutar militarmente contra qualquer que seja o oponente o coloca como uma ameaça imediata.

Há, porém, uma dificuldade básica com esta estratégia: Ela está esticando a paciência do mundo, e mais criticamente a paciência daqueles que têm sido mais ou menos fiéis partidários de posições do governo de Israel - os principais Estados europeus, a Autoridade Palestina, a chamadas opinião árabes moderada, e sim, até mesmo os Estados Unidos.

Houve uma transformação mundial da percepção de Israel como uma "vítima" ao de Israel como um "perseguidor". Isso é um pesadelo para a causa sionista em Israel. Ela só pode piorar para Israel. Pode até chegar a um ponto, talvez ainda alguns anos a partir de agora, que os Estados Unidos não estarão mais dispostos a vetar resoluções no Conselho de Segurança da ONU que criticam Israel.

Duas coisas podem acontecer em seguida. O mundo pode ver uma reconsideração dramática de verdades recebidas por todos os lados, como parecia ter acontecido na África do Sul. Esta inversão permitiria uma grande mudança política combinada com muito pouca mudança econômica. Ela, no entanto, não envolveu qualquer derramamento de sangue. Ou, em alternativa, isso não vai acontecer. E haverá uma grande guerra, em que os judeus israelenses vão usar toda a sua força militar para derrotar qualquer coisa parecida com uma outra intifada.

A mensagem de Netanyahu é clara. Ele prefere a grande guerra, e assim fazem os eleitores que o elegeram.

Acordo internacional sobre programa nuclear do Irã

Em Lausanne, representantes do Irão e do chamado grupo P5+1 (EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha) chegam a um entendimento para limitar o programa nuclear iraniano em troca do fim das sanções. Barack Obama diz que o acordo é bom, mas Benjamin Netanyahu considera-o “uma ameaça à existência de Israel”. Iranianos comemoram nas ruas.

Esquerda.net
O Irã, os Estados Unidos e outras cinco potências anunciaram nesta quinta-feira os primeiros passos para um acordo sobre o programa nuclear iraniano, cujos pormenores serão ainda discutidos nos próximos três meses.
A chefe de política externa da União Europeia, Federica Mogherini, leu um comunicado conjunto assinado pelo Irã e pelo chamado grupo P5+1 (EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha) onde se afirma que foi dado "um passo decisivo" depois de mais de uma década de debates sobre o programa nuclear de Teerã. O anúncio oficial do acordo está previsto para 30 de junho deste ano.
Obama: acordo é bom
Em pronunciamento pouco depois do anúncio, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que o acordo é bom e “cumpre os nossos objetivos principais”.
“A estrutura (do acordo) deve extinguir qualquer caminho que possa ser tomado pelo Irã para desenvolver armas nucleares”, disse Obama. “O Irã enfrentará limitações no seu programa e concordou com as inspeções (internacionais) mais robustas e intrusivas já negociadas em qualquer programa nuclear da história. Desta forma, o acordo não será baseado na confiança, mas em verificações sem precedentes.”
Por seu lado, o Presidente do Irã, Hassan Rouhani, escreveu numa mensagem publicada no Twitter que “Foram encontradas soluções para [resolver] todos os parâmetros chave do dossier nuclear. A redação de um acordo final vai começar imediatamente, e ficará concluída até 30 de Junho”.
Os Estados Unidos e a União Europeia vão suspender todas as sanções diretamente ligadas à questão nuclear depois de os observadores da Agência Internacional para a Energia Atômica (AIEA) verificarem o cumprimento dos passos aceites pelo Irã para reduzir a sua atividade nuclear. O levantamento será gradual e as sanções serão restabelecidas se os inspetores constatarem que os critérios não estão a ser observados.
Principais pontos do acordo
O Irã comprometeu-se a não construir qualquer nova unidade para o enriquecimento de urânio nos próximos 15 anos, e aceitou limitar o número de centrifugadoras ativas das atuais 19 mil para seis mil nos próximos dez anos, operando apenas 5000.
Além disso, o Irã reduzirá o seu stock de urânio de baixo enriquecimento e não haverá enriquecimento na instalação subterrânea de Fordow por cerca de 15 anos. Teerã será obrigado a conceder acesso aos inspetores da AIEA para investigar locais suspeitos ou atividades clandestinas suspeitas em qualquer lugar do país.
Por outro lado, o reator de água pesada em Arak, que muitos temiam poder fornecer ao Irão condições para converter urânio em plutônio – para uma potencial bomba – será reconstruído de forma a não poder produzir plutônio.
Algumas destas restrições ficarão em vigor por 10 anos e, algumas, por 15.
Em contrapartida, as sanções dos EUA e da União Europeia relacionadas ao programa nuclear serão suspensas; o Irã não terá de fechar completamente nenhuma de suas instalações nucleares; e após o fim das sanções, o país sairá com a base de uma significativa indústria nuclear.
Entendimento sólido
“Este é um grande dia”, congratulou-se John Kerry, que segundo fontes próximas recusava absolutamente sair de Lausanne sem chegar a um acordo. “O entendimento que alcançamos é uma sólida fundação para o acordo que procuramos”, defendeu, reconhecendo que ainda persistem “muitos detalhes técnicos e várias outras questões a ser trabalhadas”.
O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, também lembrou que ainda permanecem aspectos para resolver na negociação técnica. Mas considerou o entendimento como “um primeiro passo muito importante e positivo”.
Irã comemora, Israel denuncia
Centenas de iranianos comemoraram o acordo esta sexta-feira nas ruas de Teerã. Os festejos concentraram-se na Avenida Vali Asr, que atravessa a capital iraniana de sul a norte. As pessoas cantavam, dançavam, clamavam vitória e acenavam com lenços brancos, segundo a agência France Presse.
“Agora vamos poder viver normalmente como o resto do mundo”, disse um manifestante à AFP.
Já o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, transmitiu as suas preocupações a Barack Obama por telefone, afirmando que o acordo “é uma ameaça à existência de Israel”.
Fontes governamentais israelitas, citadas pelo jornal Haaretz, qualificaram o acordo como um “erro histórico que transforma o mundo num lugar muito mais perigoso”. Segundo essas fontes, o acordo “dá legitimidade internacional ao programa nuclear iraniano”, que “não tem a paz como objetivo, mas a guerra”.

Um novo Estado, meta do neoliberalismo

O capital financeiro não está a destruir o Estado, está sim a reconfigurá-lo e a reorganizá-lo para que responda às suas necessidades e interesses. 

Por Alejandro Nadal, La Jornada
De maneira ativa os membros do poder legislativo desempenham uma função de agências do capital financeiro e do neoliberalismo. Foto de uncoolbob
De maneira ativa os membros do poder legislativo desempenham uma função de agências do capital financeiro e do neoliberalismo. Foto de uncoolbob
Por que o neoliberalismo surge mais forte do que nunca após sete anos de crise? Boa pergunta. E não existe hoje uma resposta satisfatória por uma razão fundamental. É que a crítica ao neoliberalismo assenta num postulado equívoco: a ideia de que o capital procura reduzir o âmbito da influência do Estado, tirá-lo do caminho e até eliminá-lo. Muitos encontram a prova desta ideia na onda de privatizações e na eliminação de controles de regulação para todo o tipo de atividades.

Esse postulado provém da ideia de que o mercado e o Estado são antitéticos. Mas desde há muito a história e a antropologia revelaram que as economias de mercado nasceram através de uma forte intervenção do Estado e das suas agências. Só a mitologia dos economistas continua a afirmar que no início houve a troca e depois, espontaneamente, nasceu o mercado.

É necessário criticar esta premissa e substituí-la por uma nova perspectiva: o capital financeiro não está a destruir o Estado, está sim a reconfigurá-lo e a reorganizá-lo para que responda às suas necessidades e interesses. Esta ideia proporciona uma matriz analítica mais rica e aproxima-se mais do que está a acontecer no mundo.

Hoje temos muitos sinais a indicar como o neoliberalismo está a construir um novo Estado. O primeiro, talvez o mais óbvio, é a degradação da vida política. Aqui o sintoma mais claro é o predomínio do dinheiro sobre os votos. As campanhas eleitorais estão submetidas a uma circulação monetária que vai dos interesses mais descarados das grandes empresas à grande mídia, passando pela compra de candidatos. As instâncias encarregadas de organizar e supervisionar as eleições estão sobrecarregados ou simplesmente fazem parte deste grande teatro. O ‘mercado eleitoral’ deixou de ser, há muito, uma simples metáfora.

Este sinal marca a deterioração do chamado ‘poder’ legislativo. Os congressos e parlamentos deixaram de funcionar com o objetivo de defender e cultivar o interesse público. Mas isso não quer dizer que tenham deixado de funcionar. Pelo contrário, de maneira ativa os membros do poder legislativo desempenham uma função de agências do capital financeiro e do neoliberalismo: votam as suas leis contrárias ao interesse público, levantam novas barreiras regulamentares contra concorrentes não desejados e, sobretudo, bloqueiam qualquer iniciativa que possa aumentar o poder cidadão.

O segundo sinal é a concentração de poder econômico e a desigualdade. As grandes empresas, nacionais e internacionais, têm hoje uma capacidade nunca antes vista de organizar espaços econômicos em torno dos seus interesses e estratégias de expansão. O seu tamanho, grau de diversificação e de integração dá-lhes acesso a fortes economias de escala e de recursos. Isso permite-lhes adotar todo o tipo de comportamentos estratégicos, desde a segmentação de mercados até à manipulação de preços para transferir rentabilidade ao longo da cadeia de valor. Tudo isto conduz à enorme concentração de poder em todos os ramos da produção à escala mundial.

Face às grandes empresas, as comissões reguladoras dos governos não desaparecem. Simplesmente alteram funções e adotam a missão de servir estas gigantescas empresas para legitimá-las. A síndrome da porta giratória é uma expressão de tudo isto. E quem se tenha escandalizado perante os abusos do setor financeiro ou tenha participado na luta contra os organismos geneticamente modificados pode testemunhá-lo.

A desigualdade econômica e a concentração do rendimento são o pano de fundo da acumulação no neoliberalismo. E isso precisa de uma nova e mais potente capacidade repressiva. Por isso, temos o terceiro sinal: o extraordinário crescimento do aparelho de segurança do Estado. As funções de repressão direta e de espionagem reorganizaram-se e hoje encontram-se no centro de múltiplas agências a nível nacional ou regional, muitas vezes com fortes vínculos com a delinquência organizada.

Tudo isto é acompanhado de um fato fundamental: a desmobilização da cidadania. Se o voto não é respeitado e se o parlamento está corrompido, carece de sentido ir às urnas no dia das eleições. Por isso, o abstencionismo é o partido maioritário em todo o mundo e parece confirmar a ideia de que é inútil tentar recuperar o controle sobre a vida política. Os abusos dos bancos ou dos fabricantes de comida de plástico convertem-se numa fatalidade que temos de sofrer quotidianamente. No final, os cidadãos transformam-se em consumidores (de todos os tamanhos) ou em átomos de uma matéria-prima chamada força de trabalho.

O bloqueio e o ataque à democracia não devem ser confundidos com a redução do tamanho do Estado. A esquerda deve tomar nota: estamos perante um esforço concentrado para construir um novo sistema em que a democracia não tem lugar.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano La Jornada, em 1 de abril de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

  • Alejandro Nadal

Economista, professor em El Colegio do México.

Vacina vencida

Apesar de conter definições verdadeiras de idiotice em política a tese de Olavo de Carvalho se torna inútil por que não busca imparcialidade, pelo contrário, generaliza a idiotice em política como estando somente na esquerda; a ortodoxia e até fanatismo impede a abranger a tese para todos os aspecto políticos.

E de reverso forma idiotas de direita que se sentem portadores de anticorpos anti-idiotice, mas são mentes políticas também fechadas para o diálogo construtivo. Se podia sim dizer que o cenário político brasileiro como um todo é movido a idiotice.

O mais fundamental é a questão de povo político, sabemos das condições estruturais básicas da cidadania neste país, construída sobre aberrações que partiram do voto desde o período do império, os currais, as falsificações e todo tipo de manipulação.

E o que mais crucial o debate político brasileiro só funciona mesmo com histórias ridículas, boatas que agora são até difundidos pela internet; ou mesmo mentiras grosseiras. Tudo dirigido ao pessoal e não ao programático.

A tese do idiotas de Olavo de Carvalho é uma tese da disputa ideológica da Guerra Fria, onde, não se queria diálogo construtivo e sim os dois lados encontravam-se aparelhados um para destruir ao outro. Tanto o marxismo-leninismo religioso quanto o reacionarismo norte-americano são cegos.

"Alguns adversários do comunismo, ao tentarem elaborar uma ideologia para uso das potências atlânticas, inventaram o que chamam os «valores ocidentais». Tais valores parecem consistir na tolerância, no respeito pela liberdade individual, no amor fraternal. Receio que tudo isso esteja em contradição flagrante com a história. Se compararmos a Europa aos outros continentes, verificamos que ela se distingue como o continente da perseguição. E a perseguição só cessou depois de uma longa e amarga experiência da sua inutilidade; manteve-se enquanto protestantes e católicos tiveram esperança de se exterminarem uns aos outros. Sob esse aspecto, a história europeia é muito mais sombria do que a dos maometanos, índios ou chineses. Não, se o Ocidente pode proclamar a sua superioridade em qualquer coisa, não é no domínio dos valores morais, mas sim no da ciência e no da técnica. (Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem)"

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Valorização do dólar influencia queda no preço de vários alimentos

Outro fator foi o aumento da oferta; em março, agência da ONU registrou queda de 1,5% em relação ao mês anterior; oferta de cereais aumentou devido a colheitas recordes em 2014.
Preços do açúcar atingiram o seu menor nível desde fevereiro de 2009. Foto: ONU/Eskinder Debebe
Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova York.*
Os preços globais dos alimentos continuaram a cair em março. O anúncio foi feito pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO.
A queda foi de 1,5% em relação a fevereiro e ficou 18,7% abaixo do nível registrado há um ano.
Açúcar
Nesta quinta-feira, a agência destacou que os preços do açúcar atingiram o seu menor nível desde fevereiro de 2009.
A razão principal foi o aumento nas previsões para as colheitas e o enfraquecimento contínuo da moeda brasileira, o real, em relação ao dólar, "o  que favoreceu as exportações". O Brasil é o maior produtor e exportador do produto.
Em março, também houve queda nos preços dos óleos vegetais, das carnes e dos cereais, que compensaram a subida dos preços dos laticínios durante o período.
De acordo com a FAO, o índice que mede as variações mensais de preços tem sido marcado por uma queda desde abril de 2014.
Tendência de Baixa
A tendência de baixa de preços observada este ano deve-se, principalmente, às exportações em grandes quantidades e ao aumento de estoques especialmente do trigo e do milho.
Em março, os cereais estiveram 1,1% abaixo do seu preço de fevereiro e 18,7% em relação ao ano passado.
Quanto aos óleos vegetais, a queda foi de quase 3,1% em comparação com o nível de fevereiro, o valor mais baixo desde setembro de 2009.

Como os bancos criam dinheiro do nada

Se quisermos alcançar uma sociedade sustentável e assegurar a sobrevivência da civilização, temos de repensar a importância do dinheiro e reinventar um sistema financeiro sem excessos e abusos.
Por Marco Antonio Moreno - El Blog Salmon
Na sequência da iniciativa da Islândia para eliminar o poder dos bancos privados de criar dinheiro, mais uma vez surgiu a questão da criação de dinheiro por parte dos bancos privados em que, à luz dos comentários, alguns pontos-chave são desconhecidos o que tentarei limpar  neste post.
Na maioria dos textos de economia e finanças existe a noção de que a banca é um simples intermediário entre depositantes e tomadores de empréstimos. Esta noção é tão arraigado no adn econômico e financeira que se considera que o dinheiro é completamente neutro na economia. Sem embargo , a realidade é muito diferente e, neste post vamos tentar uma primeira aproximação a um assunto que é pouco conhecido, mas que tem um grande impacto sobre o desenvolvimento dos ciclos de expansão e contração do sistema financeiro. 
Karl Marx dedicou um capítulo importante no terceiro volume de O Capital para o capital fictício, como um capital (o financeiro) desprovido de valor real, e desencadeante das crise do capitalismo. Schumpeter, Keynes e von Mises também enfatizaram esse assunto para entender a natureza do dinheiro e do papel dos bancos no mundo de hoje. Sem embargo, este é um tema largamente silenciado apesar de estar na origem de todas as crises financeiras.
É certo que, embora dizendo que "os bancos criam dinheiro do nada" seja um exagero que pode induzir em erro os não iniciados, deve notar-se que os bancos criam dinheiro de algo. A questão é, o que é esse algo? E o que há de errado com ele?
A resposta é que os bancos criam dinheiro sobre a base das promessas de seus devedores para pagar . Em muitos textos de economia e finanças se é levado a acreditar que os bancos simplesmente tiram dinheiro dos poupadores e emprestar aos mutuários. Esta é uma visão bastante equivocada. Mesmo a Reserva Federal em suas próprias publicações ( Modern Money Mechanics Mecânica do Dinheiro moderno, explica o processo de criação de dinheiro:
O processo real de criação de dinheiro ocorre principalmente por bancos privados ... Os passivos dos bancos são aceitáveis ​​como dinheiro. Esses passivos são contas de clientes, que aumentam quando o banco concede empréstimos que são creditados nas contas dos mutuários ... Este atributo exclusivo do negócio bancário foi descoberto há séculos atrás. Tudo começou com ourives ... Eles foram os primeiros banqueiros que inicialmente prestavam o serviço de custódia, e obtinham lucros em seus cofres para guardar o ouro e moedas de poupadores. Todo vez que as pessoas necessitam de ouro ou moedas para comprar alguma coisa, trocava um "recibo do depósito". Com o tempo, eles encontraram que era muito mais fácil usar diretamente recibos de depósito como pagamento. Esses recibos foram aceitos como dinheiro já que quem os tinha  poderia ir para o banco e trocá-los por dinheiro metálico ... Então, os banqueiros descobriram que poderiam fazer empréstimos simplesmente com notas promissórias ou notas de banco, para os mutuários. Assim, os bancos começaram a criar dinheiro .
Funcionamento de criação de dinheiro
Os bancos têm duas funções principais. Eles atuam como depositários da realocação de recursos dos poupadores para os tomadores de empréstimos e na emissão de empréstimos que monetizam as promessas de seus mutuários. Neste ponto, os bancos podem criar dinheiro de boa fé quando pagos com base nos depósitos existentes e de má fé quando faz  sobre depósitos inexistentes. Na tabela abaixo, vemos o detalhe de um depósito de 100 euros em um banco que mantém uma taxa de reserva de 10 por cento. O banco pode emprestar 90 €, e esse novo depósito de € 90 dá curso a nova reserva de 9 € e novo empréstimo de 81 €. No final da cadeia e quando a soma das reservas atinge 100 euros iniciais, o banco criou 900 €. Assim, se a taxa de reserva é de 10 por cento, a banca multiplica por 10 o depósito inicial convertendo-o em 1000 euros. O multiplicador monetário (m) é o inverso de reservas bancárias (r): m=1/r
10pc criação de dinheiro
Isto é o que é conhecido como  expansão monetária, e teve grande destaque na incubação da crise que eclodiu em 2008. Como grande parte da banco não tem nenhuma exigência de manutenção de reserva, os bancos podem manipular à vontade para criar dinheiro. Consta que o Citibank e Goldman Sachs mantinham reservas menores do que um por cento dos depósitos. Um depósito de US $ 1 milhão tornava-se, através do multiplicador monetário, em 100 milhões de dólares. No gráfico abaixo, vemos a expansão monetária para diferentes tipos de reserva. A taxa de reserva de 10 por cento é a mais conservadora, a taxa de 1 por cento é a mais expansiva.
Criação de dinheiro
Um dos mecanismos mais utilizados na criação de dinheiro se constitui nos investimentos imobiliários. O boom imobiliário advém justamente da criação artificial de dinheiro pelos bancos. Cada empréstimo de 100.000 euros por parte da banca, impulsiona a expansão do ciclo de negócios e quando se converte em pandemia se desata uma bolha que se acelera até que explode por sua própria insustentabilidade.

Quando isso acontece é porque os bancos não emprestaram de boa fé e por terem excedido os seus poderes para emprestar. Além disso, em períodos de expansão, surge a insana competição para emprestar dinheiro a pessoas que não têm nenhuma chance de devolvê-lo. Este é o caso da Fannie Mae e Freddie Mac nos Estados Unidos, e das "caixas" espanholas. Não admira, portanto, o aumento da taxa de inadimplência ou atraso que no caso espanhol quebrou recordes históricos. Abaixo está um gráfico sobre os atrasos da Espanha em novembro de 2012:
Inadimplência Taxa de novembro 2012
A criação de dinheiro com base em empréstimos com juros tem sido um dos imperativos do crescimento no atual modelo econômico baseado na dívida. Mas, como os empréstimos excederam a boa-fé e os princípios básicos da sustentabilidade do capitalismo, temos a longa crise entrando em seu sétimo ano. Se quisermos alcançar uma sociedade sustentável e assegurar a sobrevivência da civilização, temos de repensar a importância do dinheiro e reinventar um sistema financeiro sem excessos e abusos.

Relator fala sobre relação entre crise hídrica e doenças como a dengue

Representante da ONU para o direito à água, Léo Heller quer colocar "um olhar de direitos humanos" sobre a situação no Brasil; para ele, é preciso uma gestão cuidadosa, para proteger população mais pobre e evitar propagação de doenças.
O relator da ONU falou sobre a preocupação com o acesso universal à água. Foto: Banco Mundial/Arne Hoel
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova Iorque.
O relator especial das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento está em Nova York, na sua primeira visita oficial desde que foi nomeado para o cargo, em novembro.
O brasileiro Léo Heller conversou com a Rádio ONU sobre a preocupação com o acesso universal à água, ou seja, para que todas as pessoas tenham direito ao recurso até 2030.
Vigilância
O relator também voltou a avaliar a crise hídrica em vários estados do Brasil e chamou a atenção para o fato de que a falta de água contribui para a propagação de doenças. Na avaliação de Léo Heller, é preciso haver intensificação da vigilância em saúde.
"Nós já temos percebido em algumas cidades brasileiras um aumento no registro do número de casos de dengue, que pode estar muito associado à forma como a população armazena água, com receio de faltar água no dia seguinte. E a deterioração da qualidade da água e a diminuição da quantidade da água podem se agravar, se intensificar e provocar um conjunto de desfechos na saúde, que incluem diarreia, outras doenças infecciosas e verminoses."
Para o relator da ONU sobre o Direito à Água e ao Saneamento, medidas como o racionamento de água devem ser evitadas, porque acabam afetando as pessoas mais pobres, que vivem em zonas rurais ou em favelas e também os moradores de rua.
Manejo
À Rádio ONU, Léo Heller destacou que uma crise causada pela falta de chuvas não deveria ter se convertido num problema de abastecimento de água.
"É possível que você tenha períodos de grande estiagem sem comprometer o acesso às pessoas. Neste caso, um planejamento mais refinado, mais avançado, poderia ter evitado que o problema acontecesse. É muito possível que medidas mais estruturais não consigam ser adotadas no ano de 2015, porque tivemos pouca chuva na região sudeste. É muito importante ter uma cuidadosa gestão da crise do abastecimento de água."
No seu primeiro ano como relator especial para o Direito à Água e ao Saneamento, Léo Heller deve visitar um país na Ásia Central e outro no sul da África, provavelmente Tajiquistão, Zâmbia ou Botswana.

51 anos de Golpe Militar e a armadilha da Dívida Externa

Por Auditoria Cidadã da Dívida no Facebook

Durante o regime militar brasileiro (1964-1985), a dívida pública brasileira evoluiu de US$ 3 bilhões para aproximadamente US$ 100 bilhões.

Do final dos anos 60 até o final dos anos 70, o Governo Brasileiro contraiu diversos empréstimos junto a credores internacionais em função da oferta de crédito a juros baixos. Entretanto, em 1979 uma elevação súbita de juros tornou o endividamento insuportável, sendo que os novos empréstimos serviam apenas para rolagem da dívida existente.

A CPI da Dívida Pública (2008-2010)* descobriu uma série de irregularidades nos contratos de endividamento desse período, como, por exemplo, a ausência dos credores e da finalidade dos empréstimos. A CPI também revelou que apenas uma parte dos empréstimos é comprovada através dos contratos (cerca de 36%). Teriam sumido os demais contratos?
Ademais, o que nos permite fazer este importante trabalho de contestação do Sistema da Dívida, enquanto associação e movimento, é justamente o fato de não corrermos o risco de sofrer perseguição por militares, pois estamos amparados pela Constituição Federal de 1988. Podemos demonstrar parte da corrupção que era praticada à época do regime militar justamente por termos esta abertura política.
Portanto, neste dia 1º de abril, dia que marca o Golpe Militar de 1964, temos motivos de sobra para nos posicionar desta forma: somos contundentemente, sem hesitação, contra qualquer iniciativa de intervenção militar, pois sabemos o que ela nos traria.
Ditadura nunca mais! ‪#‎AuditoriaDaDivida‬ já!

A desigualdade no século XXI segundo Thomas Piketty

por José Eustáquio Diniz Alves e Miguel Antônio Pinho Bruno

“A Terra tem o suficiente para a necessidade de todos,
mas não para a ganância de uns poucos”
Mahatma Gandhi
“Está em xeque o modelo que traz muitos benefícios para poucos,
poucos benefícios para muitos e nenhum benefício para
a natureza e a biodiversidade” (ALVES, 2014)

distribuição de renda no mundo

A desigualdade entre ricos e pobres está atingindo uma proporção absurda. A riqueza combinada da parcela de 1% mais rico do mundo cresceu de 44% em 2009 para 48% em 2014 e deve chegar a mais de 50% em 2016, de acordo com um estudo divulgado pela ONG britânica Oxfam, durante o fórum anual World Economic em Davos, em janeiro de 2015, na Suíça.
A “explosão de desigualdade” é uma ducha de água fria no mito da “Curva de Kuznets” que previa uma melhor distribuição da riqueza com o aprofundamento do desenvolvimento econômico. Por conta da insatisfação geral com o panorama internacional, o livro “Capital in the Twenty-First Century” do professor da Escola de Economia de Paris, Thomas Piketty tornou-se um best seller e incentivou a discussão sobre o assunto.
Como mostram Alves e Bruno (2014), o livro de Piketty chamou a atenção, em especial, pela forma como descreve o aumento da desigualdade de renda e da riqueza nos países. De início, logo na introdução, Piketty realça a questão da desigualdade ao perguntar se a acumulação de capital (crescimento da economia no longo prazo), levaria à concentração do patrimônio em cada vez menos mãos, como acreditava Karl Marx, ou à redução das desigualdades e a uma maior harmonia entre as classes, como pensava Simon Kuznets. Como o próprio título do livro demonstra, o autor dá razão a Marx.
Mas as contribuições do livro cobrem um espectro mais amplo. Para a demografia, o livro é uma referência importante para a compreensão das tendências históricas do tema população e desenvolvimento e representa uma grande contribuição para a análise da dinâmica econômica, demográfica e o progresso dos padrões de vida humana, em suas diferentes escalas e dimensões.
Piketty comenta corretamente na Introdução do livro que é impossível entender as previsões exageradamente sombrias de Thomas Malthus sem reconhecer o medo das elites europeias em relação aos ideais progressistas da Revolução Francesa. O progresso não fazia parte do pensamento do Reverendo Malthus, pois em seu modelo, o crescimento populacional tendia sempre a superar o crescimento econômico, inviabilizando, portanto, o desenvolvimento de longo prazo. Mas antes de Malthus, o Marquês de Condorcet, matemático, iluminista e destacada liderança da Revolução Francesa, considerava que, prevalecendo o Estado de Direito e os ideais da tríade Igualdade, Liberdade e Fraternidade, poderia haver desenvolvimento econômico com maior igualdade de acesso à riqueza.
Piketty se abstém de prever o futuro do crescimento demoeconômico. Em vez disso, ele trabalha com diferentes cenários para a dinâmica da distribuição da riqueza, pois considera difícil prever o ritmo das inovações tecnológicas e os níveis prospectivos da fecundidade. Ele chama a atenção para o processo de convergência da renda entre os “países desenvolvidos” e os “países em desenvolvimento” (com destaque para a China), mas considera que os fatores de divergência podem voltar a prevalecer na medida em que não haja redução das desigualdades regionais de renda. Mas internamente, a desigualdade está crescendo na maioria dos países.
O livro “O Capital no Século XXI” é uma referência fundamental para o estudo da concentração de renda e riqueza. Após exame cuidadoso das séries históricas relativas à desigualdade, Piketty conclui pela revalidação necessária das ações públicas ou dos papéis dos estados nacionais. Como, por sua natureza e lógica interna, o mercado possui tanto forças convergentes (que podem favorecer a equidade e a redução das desigualdades) como divergentes (que a intensificam), a justiça distributiva, que implica acesso à renda e à riqueza, só pode ser viabilizada por meio de instituições adequadas que disciplinem mercados, impondo limites ao uso privado dos capitais que conflitem com os direitos sociais nas democracias atuais.
Para mais detalhes do livro “O Capital no Século XXI” ver a resenha na referência abaixo.
Referência:
ALVES, JED. BRUNO, MAP. Crescimento demoeconômico e desigualdade no século XXI, Rev. bras. estud. popul. vol.31 no.2 São Paulo July/Dec. 2014 http://dx.doi.org/10.1590/S0102-30982014000200014
Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE;
E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Miguel Antônio Pinho Bruno
Professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE
E-mail: miguel.bruno@ibge.gov.br

Os autores apresentam seus pontos de vista em caráter pessoal.

Publicado no Portal EcoDebate, 01/04/2015