"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O maior esquema de corrupção do mundo

Por Wagner Torres

O Brasil vive a realidade do colapso da destruição da base tributária do Imposto de Renda Pessoa Jurídica, Contribuição do Lucro Líquido, ICMS, PIS E COFINS e agora com o aumento da taxa de desemprego a arrecadação do Imposto de Renda Pessoa Física mesmo com o governo confiscando a renda efeito da defasagem da tabela do Imposto de Renda Pessoa Física em 64,5%.
Nesse contexto, parafraseando o inesquecível Renato Russo ao avaliar que o Congresso Nacional era e é o símbolo da corrupção, de forma irresponsável os Deputados aprovam a atual regra do salário mínimo para todos os aposentados impactando o orçamento em R$ 9 bilhões ampliando o risco de deterioração das finanças públicas e, portanto da perda do grau de investimento aumentando ainda mais o cenário de depressão econômica.

A título de comparação com dólar estimado em R$ 3,20 combinado ao efeito do PIB espuma com retração de 2% o reflexo é uma redução do PIB em US$ 800 bilhões de 2015 ante 2011, por isso que 32 milhões de aposentados do setor privado foram jogados a miséria do valor da aposentadoria.

Por outro lado, o Congresso Nacional terá a seu dispor um orçamento de R$ 9,278 bilhões em 2015 para torrar com 15 mil sanguessugas e a ponto de nos humilhar com salário de ascensorista de R$ 25 mil reais e que diferentemente de nós otários que financiamos essa baderna com aposentadoria aumentando constantemente.

Assim, diferentemente do que os organismos internacionais avaliaram o Brasil não reduziu a pobreza no governo Lula, pois o sol não nasceu para todos, mas para os donos das construtoras, os banqueiros, os milionários e bilionários que financiam a dívida pública e os apadrinhados no Congresso Nacional, Assembléia Legislativa e Câmara de Vereadores.

A realidade é que 200 milhões de brasileiros estão pagando a falácia de ajuste fiscal desde FHC, pois o famigerado superávit primário (economia para pagar juros) e as privatizações em nada contribuiu para reduzir a dívida pública.

A trajetória da dívida pública é o maior esquema de corrupção, pois o aumento da dívida pública foi de R$ 2,266 trilhões de janeiro de 2006 a abril de 2015, entretanto a mídia foca em apenas desvio de R$ 6 bilhões efeito da Operação Lava Jato.

Brasil entre os 10 países que mais receberam investimento externo

Fluxo de investimento estrangeiro direto para o país caiu pelo terceiro ano consecutivo, mas ainda assim, chegou a US$ 62 bilhões; estudo da Unctad sugere maior coerência entre impostos internacionais e políticas de investimento.
Sede da Unctada em Genebra. Foto: Unctad
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, divulgou esta quarta-feira o Relatório Investimento Mundial 2015. Pela média global, o investimento estrangeiro direto caiu 16%, chegando a US$ 1,2 trilhão no ano passado.
Segundo o estudo, a queda é explicada pela fragilidade da economia global, incertezas políticas para os investidores e elevados riscos geopolíticos. Em 2014, a China foi o país que mais recebeu investimento estrangeiro: US$ 129 bilhões, um aumento de 4% em relação ao ano anterior.
Brasil
Hong Kong e Estados Unidos vêm na sequência e de acordo com a Unctad, o Brasil está entre os 10 países do mundo que mais receberam investimento direto estrangeiro no ano passado.
Foram investidos US$ 62 bilhões no Brasil, o que representa uma queda pelo terceiro ano consecutivo. Mas o relatório destaca que o país continua sendo o que mais recebe investimento estrangeiro direto dentro da América Latina.
Pelo estudo da Unctad, o Brasil viu uma "forte diminuição", de 58%, nos investimentos no setor primário, mas essa queda foi compensada pelo aumento dos investimentos nos setores de manufatura e de serviços. 
Fusões
Os outros países da região que mais receberam investimento estrangeiro direto foram Chile e México. No geral, os investimentos na América Latina e no Caribe diminuíram 14%, chegando a US$ 159 bilhões.
A Unctad explica que a queda foi consequência da diminuição das fusões e aquisições na América Central e preços de commodities mais baixos, o que levou à redução do investimento das indústrias extrativistas da América do Sul.
Sobre as nações desenvolvidas, o realtório aponta queda de 28%, com US$ 499 bilhões em investimento estrangeiro direto, o menor nível desde 2004. Na Europa, Reino Unido, Finlândia e Suíça foram os principais recipientes. Já a Alemanha foi o país europeu que mais investiu em outras nações.
Evasão Fiscal
Na América do Norte, os investimentos estrangeiros diretos nos Estados Unidos e no Canadá totalizaram US$ 146 bilhões.
Ao divulgar o relatório Investimento Mundial 2015, a Unctad sugeriu maior coerência entre impostos internacionais e políticas de investimento. A agência está preocupada com a evasão fiscal principalmente entre multinacionais, o que chega a ser um "problema global" segundo o estudo.
O secretário-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi, declarou ser um "imperativo político combater a evasão fiscal em apoio à mobilização de recursos domésticos e para continuar facilitando investimentos produtivos no desenvolvimento sustentável".

Washington aumenta a pressão para a Alemanha reduzir a dívida grega

A importância da Grécia é crítica e todas as implicações estratégicas e geopolíticas superam todos os problemas econômicos e financeiros concebíveis .
Por Marco Antonio Moreno
A falha permanente dos negociadores europeus a fazer progressos substanciais no tratamento da dívida grega tem paralisado a Europa e o mundo financeiro ante a possível saída da Grécia da União Europeia. Esta incerteza se reflete em pequena ou grande escala nos mercados de títulos e a fuga dramática de capital que vivem diante de clientes cada vez mais ansiosos antes da aplicação de um "corralito".
650 1200Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos não deixa de exercer pressão sobre Angela Merkel para encontrar uma maneira de sair desta crise de imobilidade que transmite seus medos para a esfera produtiva. Como observado neste artigo de marçoWashington deixou claro que a Grécia deve permanecer na zona do euro devido às suas implicações geoestratégicas. Na recente visita de Angela Merkel para a Casa Branca, o presidente Obama expressou confiança de que a Alemanha iria resolver a crise "para o bem do Ocidente." 

As pressões do governo dos EUA sobre Angela Merkel foram confirmados por The New York Times, comparando a crise atual com a crise de 1947, quando a Grécia, envolvida em guerra civil, estava na sombra da "dominação soviética." Na época, lembra NYT, o Presidente Harry S. Truman pediu "uma ação forte e decisiva" (com centenas de milhões de dólares) para "manter a Grécia no campo ocidental." "O fracasso para ajudar a Grécia nesta hora fatídica Harry Truman advertiu" teria implicações de longo alcance para o oeste e a leste "

Um "problema grave" para os Estados Unidos
O New York Times é o principal porta-voz do governo dos EUA sobre a política externa e este artigo confirma isso. Embora nada tenha sido dito de espionagem dos EUA por 15 anos, o governo francês denunciou ontem pelo WikiLeaks, que irritou os meios de comunicação gauleses, como Le Monde, no momento em que ele deu informações importantes sobre "armas de destruição em massa" de Saddam Hussein, que terminou por ser falso. O NYT transmite o que o governo dos EUA quer introduzir e não se atrevem a dizer diretamente. Por que então a reunião na Casa Branca?
Desta vez, o NYT pressiona Merkel. O artigo é intitulado "As negociações da dívida poderiam ser decisivas para a Grécia e para Angela Merkel", e resume e esclarece o que o governo dos Estados Unidos deverá fazer a chanceler alemã: resolver um problema que é muito irritante para Estados Unidos. Merkel deve conduzir a UE e demonstrar que tem "uma visão de todo o bloco que vai além da preferência alemã para regras e política interna do país".
O NYT citou  vários "especialistas" que afirmam que um Grexit seria catastrófico e mergulharia a Europa em centenas de bilhões de perdas para o contribuinte europeu que fariam as finanças incontroláveis. A opinião unânime destes analistas é que se deve manter a Grécia na zona euro por considerações geopolíticas. O risco de um Grexit poderia jogar Grécia a braços com a Rússia ou a China, ou de ambos os países, ao mesmo tempo que o Times "estão esperando para dividir e enfraquecer a União Europeia"
Contra-ataque do inimigo
Além das manifestações do NYT, o país Helênico tem sido continuamente usado como um firewall de incursões indesejáveis ​​e foi submetido às pressões hegemônicas do dia. Na década de 1820 a independência da Grécia do Império Otomano foi financiada e apoiada pelas potências ocidentais para limitar e reverter a influência turca no Mediterrâneo. No século 20, a Grécia tornou-se o campo de batalha decisiva da Guerra Fria, e depois da queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos foi rápido para fazer a Grécia membro da OTAN para neutralizar a influência russa.
Isto é como a Grécia é hoje um dos países com maior gasto militar no mundo e passa a maior parte do seu orçamento para a compra de armas da Alemanha e da França. Se houvesse uma integridade financeira toda a Europa deveria pagar pela compra de armas da Grécia . E isso é precisamente o que se recusou a fazer Angela Merkel.
Estados Unidos considera inaceitável a saída da Grécia  da UE, uma vez que isso levaria a Rússia e a China a intervir e ajudar financeiramente a Grécia em troca de acesso ao Mediterrâneo. A Rússia poderia fazer fundos imediatamente disponíveis para a Grécia em troca de uma base naval. Os chineses poderiam oferecer um grande pacote de resgate em troca de acesso direto aos portos e navegação. Não é nenhum segredo que a China está disposta a assumir a operação do porto de Pireu, um dos maiores no Mediterrâneo. A importância da Grécia é crítica e todas as implicações estratégicas e geopolíticas superam todos os problemas econômicos e financeiros concebíveis .
Angela Merkel teme, no entanto, ir por outro caminho e dar um "tratamento especial" para a dívida grega poderia ser tomado como um precedente para a Irlanda, a Itália, Portugal e Espanha, o que exigiria um tratamento semelhante. Merkel se não considera que o eleitorado britânico pode ser incentivado pela perspectiva de uma possível dissolução da UE para decidir em 2017 no referendo de abandono do navio afundando. Uma saída da UE da Grã-Bretanha poderia acabar com o sonho europeu e colocá-lo em risco terminal a moeda única. Nada disso ver Angela Merkel, que segue sendo mesquinha com a Europa e tem que dizer aos quatro ventos o governo dos EUA.

Por que Angela Merkel está errada sobre a Grécia

por Jürgen Habermas



O mais recente acórdão do Tribunal de Justiça Europeu (TJE) lança uma luz crua sobre a construção defeituosa de uma união monetária sem uma união política. No verão de 2012, todos os cidadãos deviam a Mario Draghi uma dívida de gratidão por proferir uma única frase, que os salvou das consequências desastrosas da ameaça de um colapso imediato da sua moeda.

Jürgen HabermasAo anunciar a compra em caso de necessidade de quantidades ilimitadas de títulos dos governos, ele puxou as castanhas do fogo para o Eurogrupo. Ele teve de avançar sozinho, porque os chefes de governo foram incapazes de agir no interesse comum europeu; eles continuavam trancados em seus respectivos interesses nacionais e congelados em estado de choque. Os mercados financeiros reagiram em seguida com alívio sobre uma única frase com a qual o presidente do Banco Central Europeu simulou uma soberania fiscal que não possuía. É ainda os bancos centrais dos Estados membros, como antes, que atuam como o emprestadores de última instância.

O Tribunal de Justiça não excluiu essa competência como contrária à letra dos Tratados europeus; mas como uma consequência do acórdão, o BCE pode, de fato, estar sujeito a algumas restrições, ocupar o espaço de manobra apenas como um emprestador de última instância. O tribunal fora assinado em uma ação de resgate que não foi inteiramente constitucional e o Tribunal Constitucional Federal alemão provavelmente vai seguir esse julgamento com algumas precisões suplementares. Somos tentados a dizer que a lei dos Tratados europeus não deve ser dobrada diretamente por seus protetores, mas ela pode ser mexida, mesmo assim, a fim de passar para fora, em uma base caso a caso, as consequências infelizes de que a construção equivocada do União Monetária Europeia (UEM). Essa falha - como advogados, cientistas políticos e economistas têm demonstrado uma e outra vez ao longo dos anos - só pode ser corrigida por uma reforma das instituições.

O caso que é passado entre Karlsruhe e Luxemburgo brilha uma luz sobre uma lacuna na construção da união monetária que o BCE tem preenchido por meio de ajuda de emergência. Mas a falta de soberania fiscal é apenas um dos muitos pontos fracos. Esta união monetária permanecerá instável, desde que ela não seja reforçada por uma banca, fiscal e união econômica. Mas isso significa que a expansão da UEM em uma União Política, se quisermos evitar até mesmo o fortalecimento do presente caráter tecnocrático da UE e abertamente escrever off democracia como meramente decorativo.

Esses acontecimentos dramáticos de 2012 explicam por que Mario Draghi está nadando contra a maré, uma combinação de políticas em pânico nay míope. Com a mudança de governo na Grécia, ele imediatamente começou a falar: "Precisamos de um salto quântico na convergência institucional .... Devemos colocar de lado um sistema baseado em regras para a política econõmica nacional e, em vez de mão ao longo de mais soberania para as instituições comuns ". Mesmo se não é o que se espera de um ex-banqueiro do Goldman Sachs que dizer, ele até queria destas reformas em atraso com "accountability democrática" ( Süddeutsche Zeitung , 17 de março de 2015).

Estas foram as palavras de alguém que tinha aprendido que a disputa a portas fechadas entre os chefes de governo só pensando em sua base eleitoral nacional não é simplesmente boa o suficiente se se quer alcançar as decisões políticas fiscais, econômicas e sociais necessárias. Hoje, três meses mais tarde, o BCE está mais uma vez no trabalho comprando tempo para os governos incapazes com empréstimos de emergência.

O resultado da eleição grega é um voto contra a miséria humilhante

Porque a chanceler federal alemão optou já em Maio de 2010 para tratar os interesses dos investidores como mais importante do que um corte de cabelo do que restaurar a saúde da economia grega, nós estamos presos em uma crise mais uma vez. Desta vez é o buraco deixado por um outro déficit institucional que emerge.

O resultado da eleição grega é o voto de uma nação que, com uma maioria significativa, está de pé contra a humilhante bem como miséria opressiva de uma política de austeridade imposta a seu país. Não pode haver nenhum argumento sobre a própria votação: A população rejeita a continuação de uma política cujo fracasso drástico é algo que eles experimentaram em primeira mão. Equipado com esta legitimidade democrática, o governo grego está tentando trazer uma mudança de política na zona euro.

Isto traz-los em Bruxelas até contra os representantes de 18 outros governos que justificam sua rejeição por friamente apontarem para seu próprio mandato democrático. Você deve se lembrar daquelas primeiras reuniões quando os noviços arrogantemente swaggering basking no clima de otimismo de seu triunfo se juntou na batalha grotesca com os governantes em exercício, em parte, agindo como tios paternalistas e em parte como zombando velhas mãos: Ambos os lados insistiu papagaio-como que se o autoridade dada por seus respectivos "povos".

A natureza involuntariamente cômica de sua maneira uniforme de pensar o Estado-nação trouxe o que está faltando inequivocamente a atenção da opinião pública europeia: um foco para um processo de tomada de decisão comum entre os cidadãos através das fronteiras nacionais sobre cursos pesados ​​da ação política no núcleo de Europa.

Mas o véu lançado sobre esse déficit institucional de uma competência do Parlamento Europeu com base em um sistema a nível europeu dos partidos políticos ainda não foi realmente desfiado. A eleição grega tem jogado uma chave inglesa nos trabalhos de Bruxelas porque aqui os cidadãos têm-se optado por uma alternativa política europeia para a qual estão voltadas para cima. Em outros lugares, os representantes do governo tomam tais decisões como tecnocratas entre si e poupam a opinião pública em seus países de questões perturbadoras. As negociações de compromisso em Bruxelas realmente atolam porque ambos os lados não atribuem culpa pela natureza estéril das suas discussões sobre a construção defeituosa do processo e as instituições da UEM, mas no mau comportamento de seu parceiro.

É certamente o caso que estamos lidando aqui com a aderência teimosa para uma política de um programa de austeridade que não só corre para a crítica esmagadora de especialistas internacionais, mas tem causado custos bárbaras na Grécia e tem se revelado incapaz. Mas, no conflito básico opondo de um lado à procura de uma mudança de política para o outro obstinadamente recusando-se a se envolver em tudo em políticas de negociações, uma assimetria mais profunda está exposta.

Vamos ser bastante claro sobre o aspecto escandaloso nojento, dessa rejeição: Um compromisso desmorona não por causa de alguns bilhões aqui ou ali, nem mesmo por causa desta ou daquela condição, mas unicamente por causa da demanda grega para permitir um novo começo para a economia e uma população explorada por uma elite corrupta, ao concordar o perdão da dívida - ou de um regulamento equivalente, por exemplo, uma moratória da dívida ligada ao crescimento.

Em vez disso, os credores insistem na confirmação de uma montanha de dívida que a economia grega nunca será capaz de superar. Lembre-se, escusado será dizer que um corte de cabelo é inevitável, mais cedo ou mais tarde. Assim, os credores insistem com má-fé, sobre o reconhecimento formal de uma carga da dívida que eles sabem ser intolerável. Até recentemente, eles ainda persistiam com a demanda literalmente fantástica para um superávit primário de mais de 4%. Esta foi cortada a uma procura ainda irrealista para 1%; mas, até agora, um acordo sobre o qual o destino da União Europeia depende falhou por causa da demanda dos credores para manter uma ficção.

O fraco desempenho do governo grego

Claro, os "países doadores" podem ver razões políticas para se agarrarem a essa ficção que permite uma decisão desagradável para ser adiadas no curto prazo. Eles temem que, por exemplo, um efeito dominó em outros dos países beneficiários»; e Angela Merkel não pode ter certeza de sua própria maioria no Bundestag. Mas qualquer política errada deve de um jeito ou de outro ser revista à luz das suas consequências contraproducentes. Por outro lado, você não pode colocar a culpa pelo impasse em apenas um lado.

Eu não posso julgar se há uma estratégia bem pensada para trás dos passos táticos tomadas pelo governo grego e que é baixo para as necessidades políticas, à inexperiência ou incompetência dos principais jogadores. Eu não tenho conhecimento suficiente sobre as práticas generalizadas e estruturas sociais que estão no caminho de reformas potenciais. Mas é óbvio que a Casa de Wittelsbach foi capaz de construir um estado funcionamento.

Seja como for, estas circunstâncias difíceis não explicam por que o próprio governo grego está tornando difícil para os seus apoiantes fazer qualquer linha consistente por trás de seu comportamento errático. Não há nenhum esforço evidente sensato para a construção de coalizões; não se sabe se os nacionalistas de esquerda não são agarrados a um sentido um tanto etnocêntrico de solidariedade e só estão buscando continuae a adesão à zona euro por razões de prudência estreitas - ou se seus pontos de vista vão além do Estado-nação.

A demanda por um corte de cabelo como o baixo contínuo das suas negociações é, de qualquer forma, insuficiente para despertar a confiança no lado oposto que o novo governo é diferente - que ele vai agir de forma mais enérgica e responsável do que os governos clientelistas que ele substituiu. Tsipras e Syriza poderiam ter elaborado um programa de reformas de um governo de esquerda e, portanto, 'vitrine' aos seus parceiros de negociação, em Bruxelas e Berlim. Amartya Sen no mês passado em Firle, East Sussex, em comparação a política de austeridade empurrado através do governo federal alemão com um medicamento que contém uma mistura tóxica de antibióticos e veneno de rato.

Em total conformidade com o Prêmio Nobel de economia, o governo de esquerda poderia ter tomado em uma segregação keynesiana da medicina Merkel e, conseqüentemente jogado fora todas as imposições neoliberais; mas, ao mesmo tempo, eles teriam que dar credibilidade às suas intenções de levar a cabo a modernização em atraso do Estado e da economia, executar uma forma mais justa dos subsídios cruzados, combater a corrupção e a evasão fiscal etc. Em vez disso, ele recorreu a moralização - a um jogo de culpa que trabalhou para a vantagem de o governo alemão nas circunstâncias em causa, permitindo-lhe demitir com neo-alemão robustez da denúncia inteiramente justificada da Grécia sobre a maneira inteligente como foi traçada uma linha (em dívidas) nos dois-plus -Quatro negociações (de 1990 sobre a unificação alemã).

O fraco desempenho do governo grego não altera o fato de um escândalo que consiste em políticos em Bruxelas e Berlim que se recusam a cumprir os suas colegas de Atenas como políticos. Eles realmente se parecem com os políticos mas (até segunda-feira passada) só falaram no seu papel econômico como credores. Esta transformação em zumbis destina-se a dar a insolvência prolongada de um estado a aparência de um processo não-político tribunal civil.

Isso torna tudo mais fácil negar qualquer co-responsabilidade política. Nossa imprensa está fazendo o divertimento sobre o ato de renomear a Troika; é de fato como um truque de magia. Mas, com isso, lá vem o desejo legítimo de ver emergir a verdadeira face do político por trás da máscara do credor. Por apenas como políticos essas pessoas podem ser responsabilizadas por um fiasco que foi jogado fora em maciçamente em ruínas oportunidades de vida, do desemprego, doença, miséria social e desesperança.

O escândalo dentro do escândalo é a constipação

Angela Merkel trouxe no FMI desde o início de seus movimentos de salvamento duvidosos. Este órgão é responsável pela disfunção no sistema financeiro internacional; como terapeuta que cuida de sua estabilidade e, portanto, age no interesse comum dos investidores, especialmente dos investidores institucionais. Como membros da Troika, as instituições europeias também se aglutinam com este jogador para que os políticos, na medida em que agindo desta função, possam retirar-se para o papel de agentes intocáveis ​​agindo estritamente de acordo com as regras do FMI. Esta dissipação da política em conformidade com o mercado ajuda a explicar a ousadia com que os representantes do governo federal alemão, todos eles pessoas altamente morais, podem negar a sua co-responsabilidade política pelas consequências sociais desastrosas que, no entanto, levou a bordo como líderes de opinião de o Conselho Europeu, através da implementação dos programas de austeridade neoliberal.

O escândalo dentro do escândalo é a forma constipada em que o governo alemão percebe seu papel de liderança. Alemanha é devedora para o estímulo por trás da recuperação econômica, da qual ainda hoje se beneficia com a sabedoria das nações credoras que, no Acordo de Londres de 1953, escreveu fora cerca de metade de suas dívidas.

Mas não se trata de constrangimento moral, mas sobre o núcleo político da questão: As elites políticas na Europa não devem mais esconder de seus eleitores e esquivar-se as alternativas que posou para nós por uma união monetária politicamente incompleta. São os cidadãos, e não os bancos, que devem reter a palavra final em questões existenciais para a Europa.

No que respeita ao embalo pós-democrático para o sono da opinião pública, a comutação da imprensa em um tipo de terapêutica de jornalismo é um fator contributivo - como ele caminha de braços dados com a classe política em cuidar do bem-estar dos clientes, e não cidadãos.



O original alemão original deste artigo apareceu no Süddeutsche Zeitung



Sobre Jürgen Habermas
Juergen Habermas é um sociólogo e filósofo alemão.

O Papa, o aquecimento global e a encíclica ecológica

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
A encíclica ecológica do papa Francisco – cujo título “Laudato Si’” (“Louvado sejas”) faz referência ao Cântico das Criaturas, poema em que São Francisco de Assis chama o Sol, a Lua, a Água e a Terra de irmãos e irmãs – diz que o combate ao aquecimento global e à degradação do meio ambiente é um imperativo moral para todos os católicos. Em vez de dominar e explorar de forma predatória a natureza o ser humano deveria superar a “cultura do consumo e do descarte” e cuidar do meio ambiente
A encíclica é um chamado à ação e veio em boa hora, podendo contribuir com toda a luta ambientalista, com o engajamento dos cristãos na defesa dos ecossistemas, da biodiversidade e para que a Conferência das Partes (COP21) que vai reunir cerca de 200 países, em Paris, em dezembro de 2015, possa deliberar sobre um novo tratado do clima que substitua o limitado Protocolo de Kyoto, de 1997.
Os católicos somam cerca de 1,25 bilhão de pessoas e junto com 1,05 bilhão de evangélicos formam um contingente de 2,3 bilhões de cristãos, representando 31,5% da população mundial de 7,3 bilhões de habitantes em 2015. O Papa não tem divisões de guerra, mas tem força moral para influenciar a opinião pública católica, cristã e até mesmo de outras religiões e das pessoas sem filiação religiosa. Mas, independentemente do tamanho do seu rebanho, a mensagem do papa Francisco tem um apelo global sobre “o cuidado da casa comum” e no reconhecimento de que a intervenção humana está por detrás das alterações climáticas e da destruição sem precedentes dos ecossistemas da Terra.
O mais importante a destacar é que a Santa Sé reconheceu “Inúmeros estudos científicos que demonstram que nas últimas décadas o aquecimento global foi principalmente resultado de uma grande concentração de gases com efeito de estufa em função da atividade humana”. O Papa censurou as pessoas e as atitudes que continuam travando uma solução para a elaboração de um acordo internacional para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, criticou os céticos do clima que negam os fatores antropogênicos das mudanças climáticas e ironizou a crença ilimitada nas capacidades técnicas, como se o poder da tecnologia fosse uma força do mundo superior.
Na página 5 da encíclica o Papa clama por uma ação solidária universal: “Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal”.
O Papa Francisco reconhece que o ambiente natural está cheio de feridas produzidas pelo comportamento irresponsável do ser humano e, entre as ações e medidas urgentes apontadas para atacar o problema e mitigar a crise ambiental, ele propõe a substituição dos combustíveis fósseis e o investimento em energias renováveis. Também preconiza uma mudança do paradigma do “consumismo desenfreado” das sociedades ocidentais, que “crescentemente está a transformar o nosso planeta numa imensa lixeira”. O trecho abaixo é bastante elucidativo:
O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana. Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenômeno particular. A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. É verdade que há outros factores (tais como o vulcanismo, as variações da órbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (anidrido carbônico, metano, óxido de azoto, e outros) emitidos sobretudo por causa da atividade humana. A sua concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares reflectidos pela terra se dilua no espaço. Isto é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial. E incidiu também a prática crescente de mudar a utilização do solo, principalmente o desflorestamento para finalidade agrícola” (p. 8).
Além da questão climática, a encíclica mostra o efeito da “carbonização” sobre os ecossistemas e sobre a cadeia alimentar: “Por sua vez, o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um ciclo vicioso que agrava ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes e provocará a extinção de parte da biodiversidade do planeta. O derretimento das calotas polares e dos glaciares a grande altitude ameaça com uma libertação, de alto risco, de gás metano, e a decomposição da matéria orgânica congelada poderia acentuar ainda mais a emissão de anidrido carbônico. Entretanto a perda das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição produzida pelo anidrido carbônico aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considera que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades estão situadas em áreas costeiras” (p. 9).
A encíclica considera que a propriedade privada em geral (e os recursos naturais em particular) é eticamente justificável apenas se servir ao bem comum. Apoia as negociações internacionais para redução das emissões nacionais de gases de efeito estufa e critica os mecanismos de mercado para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis: “A estratégia de compra-venda de ‘créditos de emissão’ pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores” (p. 53). Depois deste claro posicionamento, espera-se agora que o Vaticano se posicione sobre a campanha do “desinvestimento” e a saída do banco do Vaticano dos investimentos em combustíveis fósseis.
A encíclica mostra que o efeito do aquecimento global e da degradação ambiental deve recair sobre os pobres, especialmente dos país mais pobres, e vai afetar muitos refugiados do clima. O Papa critica “os modelos atuais de produção e consumo” e denuncia as tentativas de “mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas”. Ele defende a difusão da energia limpa e renovável, a eficiência energética, e o menor uso de matérias-primas (desmaterialização). A encíclica considera a água um bem essencial para a vida humana e não humana: “A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos” (p. 10). Uma crise hídrica provoca uma crise alimentar e pode ser motivo de guerras. O Papa defende a biodiversidade: “A perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies” (p. 11). “Os danos provocados pela negligência egoísta” provoca “os altíssimos custos da degradação ambiental”.
Na página 12, o Papa menciona “os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo” e em seguida, influenciado pelo pensamento patriótico, critica “os enormes interesses econômicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles (plumões do planeta), podem atentar contra as soberanias nacionais”. Mesmo sendo verdade, o Papa deixou de falar da destruição da Amazônia que é provocada por forças econômicas “tupiniquins”, com a destruição provocada pelos garimpeiros, madeireiros, pela Usina de Belo Monte, pelo agronegócio, pela Zona Franca de Manaus, pelas rodovias e ferrovias projetadas, etc. Ainda no item “3. Perda de biodiversidade”, a encíclica critica o “desaparecimento dos manguezais”, a sobrepesca, a destruição dos recifes de corais, a poluição dos oceanos e defende todas as “espécies em vias de extinção”.
Na seção “Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social” (p. 14), o Papa critica a insustentabilidade das grandes cidades, a imobilidade urbana a gentrificação, a violência, o narcotráfico, etc. Na seção seguinte critica as desigualdades e diz: “A desigualdade não afeta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul”. E completa: “A dívida externa dos países pobres transformou-se num instrumento de controle, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica” (p. 17). Criticando a exploração dos países ricos sobre os pobres, o Papa ataca a “globalização da indiferença” (p. 17). Evidentemente, reforçar a ideia das “responsabilidades comuns mas diferenciadas” é super correto, porém, parece que a encíclica não foi critica o suficiente com as “elites nacionais” que degradam o ambiente e concentram a renda e a riqueza nos diversos países pobres ou de renda média.
Como escrevi no artigo “Pegada Ecológica: e se eliminarmos os países ricos?” (Alves, 19/07/2013): “Os 5,6 bilhões de habitantes dos países de renda baixa e de renda média (países em desenvolvimento), em 2008, tinham uma pegada ecológica total de 12,2 bilhões de hectares globais (gha), superior à capacidade de carga (biocapacidade) do Planeta. Desta forma, mesmo em uma situação hipotética em que os países ricos chegassem a zero em sua pegada ecológica, ainda assim o mundo estaria com problema ambiental e com uma Pegada Ecológica acima da Biocapacidade. E o pior é que os países do chamado “sul global” continuam com população em crescimento e com um modelo econômico que mimetiza o que tem de pior nos países desenvolvidos”. Ou seja, os países ricos tem uma dívida com os países pobres, mas ambos tem uma dívida com o meio ambiente. Os países pobres são vítimas, mas não deixam de ser também ecologicamente agressores da natureza. Assim, um dos grandes desafios globais é erradicar a pobreza no Terceiro Mundo sem destruir ainda mais os ecossistemas.
Neste sentido, o Papa fortalece de forma explícita a ideia do decrescimento das economias que vivem na superabundância. Ele diz: “Assim, se nalguns casos o desenvolvimento sustentável implicará novas modalidades para crescer, noutros casos – face ao crescimento ganancioso e irresponsável, que se verificou ao longo de muitas décadas – devemos pensar também em abrandar um pouco a marcha, pôr alguns limites razoáveis e até mesmo retroceder antes que seja tarde. Sabemos que é insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem viver de acordo com a sua dignidade humana. Por isso, chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes” (p. 60). Ou seja, numa situação de crescimento vegetativo negativo da população dos países ricos, o decrescimento da economia e do consumo vai possibilitar a redução das emissões de gases de efeito estufa e a redução da degradação ambiental.
O Capítulo II, “O Evangelho da Criação” (p. 20) faz uma abordagem teológica das questões ambientais. O Capítulo III, “A Raiz Humana da Crise Ecológica” (p. 32) o Papa fala do poder da tecnologia e dos avanços do progresso humano, mas acrescenta: “cresce continuamente a possibilidade de o homem fazer mau uso do seu poder” (p. 33). Na página 37 a encíclica aparentemente critica o antropocentrismo moderno e suas consequências: “O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica acima da realidade, porque este ser humano já não sente a natureza como norma válida nem como um refúgio vivente”. A critica do Papa ao antropocentrismo ocorre em função da prevalência de “a razão técnica acima da realidade” (p. 37). Ou seja, o Papa está criticando mais o processo que Max Weber chamava de racionalização e desencantamento do mundo. O Papa contorna o princípio colocado no livro do Gênesis, do Velho Testamento, que diz: “Frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Parece que, neste ponto, o Papa ficou aquém de São Francisco de Assis, embora busque substituir a ideia de “enchei a terra e sujeitai-a” por outra concepção mais amena: “Mas a interpretação correta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável” (p. 37). Ou seja, muda a ideia de ser humano dominador, para administrador.
A encíclica diz que a falta de preocupação por medir os danos à natureza e o impacto ambiental é apenas o reflexo do desinteresse em reconhecer a mensagem que a natureza traz inscrita nas suas próprias estruturas e faz uma defesa do pobre, da pessoa com deficiência e critica o aborto: “reconhece a importância dum pobre, dum embrião humano, duma pessoa com deficiência”. Assim, embora a encíclica lembre São Francisco ao defender os espaços anecúmenos do Planeta: “São Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres” (p. 5), o Papa volta a defender o antropocentrismo característico da cultura judaico-cristã, inclusive critica o biocentrismo: “Quando a pessoa humana é considerada apenas mais um ser entre outros, que provém de jogos do acaso ou dum determinismo físico, ‘corre o risco de atenuar-se, nas consciências, a noção da responsabilidade’. Um antropocentrismo desordenado não deve necessariamente ser substituído por um biocentrismo”. Neste ponto a encíclica se afasta de São Francisco de Assis e não fala nada sobre os crimes de especismo e ecocídio. A encíclica condena “experimentações sobre os animais”, mas não combate a alimentação cárnea e nem defende a dieta vegetariana, que estaria mais coerente com o espírito de São Francisco de Assis e a defesa de todos os seres vivos sencientes.
O Capítulo IV fala de “Uma Ecologia Integral” (p. 43) abarcando as dimensões econômica, social e ambiental: “A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige se sentar a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado”. Reforçando as metodologias da Pegada Ecológica e das Fronteiras Planetárias o Papa chama a atenção para a possibilidade de um colapso ambiental: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões” (p. 50). Ele propõe um outro estilo de vida, criticando “o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para vender os seus produtos” que gera um “consumismo obsessivo” (p. 63).
Não pretendo discutir todos os pontos da encíclica. Para não prolongar demais, comento um ponto que mostra a dubiedade da Igreja Católica em relação à dinâmica demográfica e aos direitos sexuais e reprodutivos. Na seção “5. Desigualdade planetária” a encíclica diz: “Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns limitam-se a propor uma redução da natalidade. Não faltam pressões internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas econômicas a determinadas políticas de «saúde reprodutiva». Mas, ‘se é verdade que a desigual distribuição da população e dos recursos disponíveis cria obstáculos ao desenvolvimento e ao uso sustentável do ambiente, deve-se reconhecer que o crescimento demográfico é plenamente compatível com um desenvolvimento integral e solidário’. Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas” (p. 16).
Realmente o padrão de consumo conspícuo e o “consumismo obsessivo” causam um dano enorme ao meio ambiente. Mas não dá para ignorar a questão do crescimento populacional ilimitado. Não existe consumo sem população e nem população sem consumo. É verdadeiro que não devemos colocar a culpa de todos os problemas ambientais no crescimento demográfico. Mas isto não justifica a posição da Igreja de ser contra os métodos contraceptivos e até contra os preservativos e o sexo seguro.
Ou seja, a Santa Sé precisa repensar a encíclica Humanae Vitae, lançada pelo papa Paulo VI, em 1968. Até setores da igreja são a favor de rever as posições contra os direitos sexuais e reprodutivos. Em editorial de 23 de janeiro de 2015, a revista National Catholic Reporter afirma que a encíclica Humanae Vitae tem sido um sério impedimento à autoridade católica e que o seu texto criou um abismo entre os prelados e os padres, entre a hierarquia e os fiéis”. Ou seja, segundo setores da própria igreja Católica, há um clamor para rever a doutrina e as práticas e dogmas do Vaticano sobre a reprodução humana.
Enfim, já são esperadas criticas por parte dos setores conservadores, dos “céticos do clima” e dos neoliberais que acusam o Papa de ser populista, terceiromundista, contra o “livre mercado”, contra o crescimento econômico, anti-modernidade, catastrofista, a favor da teoria da dependência e de uma “ecologia da libertação”. Mas a encíclica “Laudato Si’” também deve ser criticada por setores de esquerda que apontam imprecisões, contradições e vários elementos populacionistas, anti-gênero e contra os direitos sexuais e reprodutivos. Todavia, será difícil não reconhecer o grande valor da encíclica no sentido de se posicionar em consonância ao conhecimento científico sobre o aquecimento global e de fazer uma defesa clara do meio ambiente, da biodiversidade e do duplo problema global a ser enfrentado no século XXI: “Já se ultrapassaram certos limites máximos de exploração do planeta, sem termos resolvido o problema da pobreza” (p. 10).
Como disse o jornalista George Monbiot a encíclica do Papa Francisco é um “ponto de inflexão”, pois reafirma num momento crucial, antes da COP21, que a sobrevivência da humanidade depende da “proteção do mundo natural”, da superação da dependência aos combustíveis fósseis e da mudança do modelo de acumulação que leva ao “consumismo obsessivo” e à “cultura do descarte”, ou seja, à cultura do luxo e do lixo. A encíclica papal é antes de tudo uma mensagem de compaixão, amor e defesa dos pobres e do meio ambiente.
Referência:
Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum, Vaticano, 18/06/2015 http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf
NATIONAL CATHOLIC REPORTER. Devemos ir além do impasse da “Humanae Vitae”, 26/01/2015
Planetary Boundaries 2.0 – new and improved, Stockholm Resilience Centre, Stockholm.Janeiro 2015
R. R. Reno, The Return of Catholic Anti-Modernism, First Things, 18/06/2015
ALVES, JED. Pegada Ecológica: e se eliminarmos os países ricos?, Ecodebate, RJ, 19/07/2013
Johan Rockström. The Climate Pope, Project Syndicate, 19/06/2015 http://www.project-syndicate.org/commentary/pope-francis-global-warming-by-johan-rockstrom-2015-06

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 24/06/2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

Tecnologias Digitais e o futuro do capitalismo centrado em Dados

por Evgeny Morozov 
Como o tempo é curto, vou pular direto para o coração das coisas. Minha tese hoje é simples: as tecnologias digitais são a nossa melhor esperança e o nosso pior inimigo. Grandes problemas como as alterações climáticas e as doenças não são susceptíveis de ser resolvidos sem elas. Além disso, a Internet mostra alguns sinais precoces promissores que compartilharam que os recursos podem ser gerenciados de maneira diferente e mais eficaz, com o empoderamento das comunidades menores, locais, de uma forma sem precedentes.
Evgeny MorozovMas as tecnologias digitais também criam desafios políticos e econômicos próprios. Elas agravam várias tendências neoliberais da sociedade contemporânea e consolidam os interesses corporativos sobre os do público. Isto não é surpreendente, dado que as empresas que possuem e operam essas tecnologias são muitas vezes a vanguarda da agenda neoliberal. A tarefa política à frente, então, é ampliar os usos positivos destas tecnologias e minimizar os seus negativos.
Quando o próprio termo "tecnologias digitais" abrange tudo, desde livros eletrônicos a drones, e termostatos inteligentes, precisamos urgentemente de alguma clareza analítica. Hoje vou agrupá-los em três categorias: sensores, filtros, perfis. Esta tríade pode explicar grande parte da nossa paisagem tecnológica contemporânea.
Leve algo tão banal como fazer uma pesquisa no Google. Funções de caixa de pesquisa do Google como um sensor do tipo - que capta a sua "intenção" para encontrar algo. Para entregar os resultados relevantes, o Google tem de contar com filtros para separar os resultados relevantes de irrelevantes. Ele determina relevância em parte recorrendo a um "perfil" seu que ele armazena na sua memória - e acrescenta a sua pesquisa atual (e seus cliques subsequentes) para esse perfil. Mas desde que o Google agora está presente em muitos domínios diferentes - desde carros que dirigem a mapas para livros para vídeos - o seu "perfil" é realmente uma totalidade de todas as suas interações com o Google.
Da mesma forma, Uber baseia-se em sensores - os nossos smartphones - para entender onde estamos na cidade; usa filtros para coincidir com a oferta e a procura a um preço mais rentável; e se baseia em "perfis" - tanto do condutor e do passageiro - para reduzir preocupações mútuas sobre o mau comportamento, adicionando informações geradas em cada viagem ao perfil de ambas as partes.
Esta capacidade de capturar o nosso comportamento (na forma de cliques ou local) em tempo real e para armazená-lo para o futuro, o uso personalizado é uma das características fundamentais do capitalismo centrado em dados emergente. Sua promessa é a personalização final e total de nossa experiência cotidiana com base nas preferências que são capturadas em nossa personalização também pode aumentar a eficiência da utilização dos recursos, reduzir o desperdício, levar a mais sustentabilidade dos "perfis".: Não é apenas um mito de Vale Do Silício.
Pense no anúncio sobre a parceria entre Uber e Spotify, o serviço de streaming de música: de agora em diante, você o passageiro seria capaz de tocar suas canções favoritas Spotify em qualquer carro Uber. Isso é possível precisamente porque nossas preferências musicais foram reunidos em um perfil - uma identidade digital do tipo - e esse perfil pode agora ser compartilhados entre várias plataformas.
O exemplo Uber/Spotify pode parecer trivial, mas pensar nos muitos "perfis" diferentes que os novos dispositivos inteligentes podem - e alguns já fazem - gerar: termostatos inteligentes geram perfis de nosso consumo de energia preferido, smartphones (para não mencionar os carros de auto-condução) geram perfis de nossa atividade física e movimento, motores de busca e redes sociais geram perfis de nossa necessidades de informação e hábitos de leitura. Qualquer um que pensa sobre o futuro fornecimento de transporte, educação, energia, serviços de saúde não pode ignorar estes dados - para se fazer, um monte de empresários (principalmente americanos) vão surgir para perturbar-los.
Estes dados, uma vez disponíveis, podem levar a todos os tipos de experimentação socialmente útil e inovação. Comunidades inteiras podem optar por sair para um modelo diferente de transporte público, pelo qual um serviço de ônibus iria pegar os passageiros em uma rota única que é mapeado de novo a cada dia com base nas necessidades reais de transporte dos cidadãos em uma determinada comunidade. Cidades como Seul e Helsinque estão fazendo experiências com esses modelos já. O mesmo se aplica à geração de energia e compartilhamento de recursos de forma mais ampla.
Mas deixe-me enfatizar que essa onda de experimentação social só pode se tornar possível, se a comunidade tem acesso aos dados subjacentes. Sem os dados, as comunidades ficam presas aos modelos que lhes são impostos pelos fornecedores corporativos desses serviços. Então, ao invés de ter serviços de ônibus personalizados, ficaremos para sempre  presos com o modelo individualista de Uber.
Este é um ponto importante a ter em mente: o único nível de ação que as empresas de tecnologia  percebem é o consumidor individual. Estamos todos convidados a participar da partilha de economia, mas apenas como empresários que vai colocar nossas habilidades, nosso tempo livre, as nossas casas, nossos carros, o nosso "capital morto", como alguns chamam, para alugar no mercado.
Este é, afinal, o que hoje é de cerca de partilha de economia: é sobre confiar em tecnologias da informação e da comunicação para estabelecer mercados eficientes em tudo e transformar todos em um empreendedor psicótico. Por psicótico? Bem, porque nós somos convidados a estar sempre preocupados com a nossa reputação: a cada interação com diversas partes da economia partilha é gravado, classificados e armazenados para a posteridade, afetando todas as nossas interações futuras.
É neste sentido que a economia partilha verdadeiramente o neoliberalismo em esteroides: ela cria mercados em todos os lugares ao mesmo tempo, a produção de uma nova subjetividade em seus participantes. Alguns de vocês podem ter ouvido falar de um episódio recente na Grã-Bretanha, onde a uma mulher foi dito que ela não poderia usar Airbnb, porque ela tem menos de 100 amigos do Facebook - e é através da identidade do nosso Facebook que Airbnb estabelece a "autenticidade" e "validade", como clientes.
O jogo final aqui é fácil de prever. O relacionamento básico é simples: quem controla a maioria e os melhores sensores acabará por controlar os perfis. Assim, em última análise, vamos acabar com apenas duas empresas - Facebook e Google - controlando todo o campo, entre outras coisas, que as duas empresas se tornarão os intermediários-chave na forma como todos os outros serviços "identidade digital." - energia, saúde, educação, transporte - é fornecido.
Ambas as empresas, cada um a seu modo, se beneficiam de efeitos de rede: serviço do Facebook é mais valioso quanto maior o número de pessoas que exerçam as suas atividades sociais dentro do Facebook, enquanto o serviço do Google é mais valioso a mais de conhecimento do mundo que tenha organizado.
Para mim, parece óbvio que os resultados de pesquisa do Google são melhores se ele sabe onde você está, o que você procurou no passado, quem são seus amigos, e assim por diante. É muito bem pode ser que tanto busca e redes sociais são, de fato, os tipos de atividades que só podem ser significativamente prosseguidos por monopólios que se baseiam em uma extensa base de informações recolhidas a partir de várias - e não apenas um - domínios sociais.
Assim, em vez de dividir o Google em vários componentes - por exemplo, fazer pesquisa separar de mapas ou mapas separar de e-mail - um tipo diferente de break-up está em ordem. Temos de levar a questão da identidade digital completamente fora da jurisdição comercial e em vez transformá-lo em um bem público. Pense nisso é como a infra-estrutura intelectual do capitalismo centrado em dados.
Para reiterar: se somos confrontados com o capitalismo emergente centrado em dados, então a única forma de garantir que os cidadãos não serão esmagados por ele é assegurar que a sua principal força motriz - dados - permaneça diretamente nas mãos do público. Eu não tenho tempo para expandir a esta em maior extensão, mas é necessário que haja uma maior consolidação do interesse público em todas as três camadas - sensores / filtros / perfis - que já mencionei.
Pode parecer contra-intuitivo, mas é assim que as coisas devem ser: a cada clique em qualquer aplicativo ou site, a cada interação com o meu termostato inteligente ou meu carro inteligente, cada movimento meu, na cidade deve acumular para mim, o cidadão - e não para as empresas que oferecem esses serviços. Ao assumir que "clique capitais" - e isso é o que é, é uma forma de capital - naturalmente pertence a corporações, o público acabaria por ver o seu controle sobre eles diminuem completamente.
Além disso, alguns serviços básicos - Buscas muito simples, funcionalidade básica e-mail, e assim por diante - podem e devem ser fornecidos gratuitamente e como parte da infra-estrutura pública. Em troca disso, alguns dos dados anônimos em nossos perfis digitais poderiam ser utilizados por organismos públicos - cidades, municípios, serviços públicos - para melhorar suas ofertas de serviço, tornando-os mais sustentáveis e personalizados. Personalização, por sinal, não precisa levar aos tipos de preocupações reputação que surgem no contexto da utilização de Uber ou Airbnb, onde os clientes são classificados e avaliados: um ainda pode ter personalização total e anonimato.
Isso não significa que as empresas de tecnologia iriam simplesmente desaparecer. Em vez disso, elas podem oferecer o que quer serviços de bônus avançados e personalizados que elas querem - depois de licenciar o uso destes dados. Google pode oferecer recursos - alguns deles pagos e desejado, talvez, apenas 5% dos usuários - que não seriam oferecidos no serviço de e-mail básico. Ele também pode oferecer alguma personalização avançada de busca graças aos seus algoritmos e tecnologias avançadas de inteligência artificial. Mas note que as outras empresas - incluindo start-ups - de repente serão capazes de competir com o Google, como eles serão capazes de desenhar em tantos dados sobre seus clientes como Google e Facebook sozinho pode fazer agora.
Para concluir, permitam-me delinear dois cenários: um pessimista e um otimista. Coisas ruins, como de costume, são mais fáceis de prever. Bem, se as coisas continuarem como estão, vamos acabar em um mundo onde uma ou duas empresas de tecnologia se tornam gigantes gateways-chave para todos os outros serviços unicamente porque elas controlam nossas identidades digitais. Esses serviços também seriam fornecidos por empresas de tecnologia extremamente cruéis, dedicadas a interromper tudo sob o sol usando as táticas mais brutais: pense Uber e Airbnb. Modos alternativos de organização social e econômica - que tentam utilizar os recursos coletivamente, mas numa lógica diferente da neoliberal  - seria bloqueado a cada momento possível.
Como podemos evitar esse cenário e avançar para algo mais positivo? Bem, o primeiro passo é problematizar a questão de dados. É um ativo de dados? Quem é o proprietário e pode realmente ser de propriedade? Se estamos nos movendo para um capitalismo de dados-centric e uso intensivo de dados, o que significa isso para o público a não ser capaz de controlar os recursos-chave da idade - ou seja, dados? A política pode ainda manter qualquer controle efetivo sobre o mercado se seus principais recursos - dados - estão além de seu alcance?
É apenas por responder a essas perguntas que a Europa possa montar uma resposta à aliança entre o Vale do Silício e o neoliberalismo. Não vai fazer para criar um Google Europeu: para pensar nesses termos é perder a mudança para o capitalismo centrado em dados. Nós não deveríamos apenas pensar em novas formas de regular o Google e o Facebook e o resto como eles existem hoje; também temos de repensar a forma muito básica em que os serviços que eles fornecem atualmente estão a ser fornecida no futuro. Não é de todo claro que o modelo com o qual temos terminou seria favorecido por qualquer um preocupado com o interesse público.
Mas mais uma vez: quebrando-os em unidades individuais não vai fazer o trabalho, qualquer que seja o seu apelo poderia ser a de concorrentes e adversários do Google.O caminho certo para pensar sobre o corte de tais empresas estariam em termos de serviços básicos e avançados: o primeiro poderia ser fornecido gratuitamente e ser acessível a todos, enquanto as empresas podem ganhar dinheiro em serviços avançados, mas sem acumular os dados gerados no contexto da sua utilização.
Assim, o que é necessário é a inovação estrutural e institucional que poderia recuperar dados como um bem público, colocá-lo fora do mercado, e, em seguida, promover as actividades empresariais em cima dela. Isso não vai ser fácil, mas os incentivos, para os políticos, pelo menos, não poderia ser maior: uma década de inacção e Google e Facebook vai acabar correndo sua própria quase-estado, como eles vão controlar tanto a nossa identidade e nosso acesso ao básico infra-estrutura (esta, aliás, já está acontecendo em algumas partes do mundo em desenvolvimento).Um desenvolvimento mais deprimente para a liberdade humana dificilmente pode ser imaginado.
Esta é a transcrição de um discurso entregue em Berlim, em Dezembro de 2014, uma "filosofia política" cumpre caso de der Kulturforum Sozialdemokratie.

O protesto contra os partidos tradicionais

Nos últimos anos, houve muitas eleições ganhas por movimentos de protesto, ou em que estes elegeram muitos deputados.

Immanuel Wallerstein

Nos países onde se realizam regularmente eleições, há normalmente dois partidos mainstream que se situam algures no centro das opiniões dos eleitores desse país. Nos últimos anos, houve um número relativamente grande de eleições nas quais um movimento de protesto ou ganhou as eleições ou, pelo menos, elegeu deputados em número suficiente para que o seu apoio seja necessário ao partido mainstream se este quiser governar.
O último exemplo ocorreu na província de Alberta, no Canadá, onde o Novo Partido Democrático (NDP, em inglês), concorrendo numa plataforma bastante à esquerda, expulsou do poder, de forma inesperada e surpreendente, os Conservadores Progressistas, um partido de direita que governava, sem dificuldades, há muito tempo. O que tornou estes resultados ainda mais surpreendentes foi a reputação de Alberta de ser a província mais conservadora do Canadá, e a base eleitoral do primeiro-ministro Stephen Harper, no posto desde 2006. O NDP ganhou, inclusive, 14 das 25 cadeiras em Calgary, residência e reduto de Harper.
Alberta não é o único caso. O Partido Nacional Escocês (SNP, em inglês) varreu as eleições na Escócia, depois de ter sido sempre um partido marginal. O Partido da Lei e Justiça, da extrema-direita polaca, derrotou o candidato da Plataforma Cívica, um partido considerado conservador e defensor dos interesses empresariais. O Syriza, na Grécia, com uma campanha contra a austeridade, está agora no poder, e o seu primeiro-ministro, Alexis Tsipras, luta para concretizar os seus objetivos. Em Espanha, o Podemos, outro partido antiausteridade, está a crescer firmemente nas sondagens e parece destinado a dificultar ou tornar impossível a permanência no poder do partido conservador, o Partido Popular. A Índia está a comemorar um ano no poder de Narendra Modi, que concorreu numa plataforma que se propunha expulsar do poder os partidos do establishment e as dinastias.
Estas eleições marcadas pelo protesto têm algo em comum. Em todas elas, os partidos que obtiveram resultados surpreendentes usaram uma retórica que chamamos de populista. Isto é, defenderam a luta contra as elites do país, que têm demasiado poder e ignoram as necessidades da vasta maioria da população. Enfatizaram os abismos que separam, em termos de riqueza e de bem estar, as elites e o povo. Deploraram a perda de rendimento das camadas médias da população. Insistiram na necessidade de criar empregos, principalmente em lugares onde ocorreu um grande crescimento do desemprego.
Além disso, estes movimentos de protesto sempre denunciaram a corrupção dos partidos no poder e prometeram acabar com ela, ou pelo menos reduzi-la seriamente. Com base nestas propostas, reivindicaram a mudança, uma mudança real.
Contudo, deveríamos olhar mais de perto para estes protestos. Não são, de forma alguma, todos iguais. Na verdade, existe uma divisão fundamental entre eles, que conseguimos perceber tão logo nos debruçarmos sobre a sua retórica. Alguns desses movimentos de protestos são de esquerda – o NDP em Alberta, o Syriza, na Grécia; o Podemos, em Espanha; o SNP, na Escócia. E alguns são claramente de direita – Modi, na Índia, e o Partido Lei e Justiça, na Polônia.
Os da esquerda concentram as suas críticas nas questões econômicas. A sua retórica e recrutamento baseiam-se no sistema de classes sociais. Os da direita levantam principalmente bandeiras nacionalistas, normalmente com uma ênfase xenófoba. Os da esquerda querem combater o desemprego com políticas governamentais de criação de emprego, incluindo uma maior taxação das grandes riquezas. Os da direita querem combater o desemprego impedindo a imigração, até deportando imigrantes.
Quando chegam ao poder, estes movimentos de protesto, tanto à esquerda quanto à direita, descobrem ser muito difícil cumprir as promessas populistas que fizeram para se eleger. As grandes empresas têm instrumentos para limitar as medidas tomadas contra elas. Agem através dessa entidade mítica chamada “mercado”, com o auxílio e a cumplicidade de outros governos e instituições internacionais. Os movimentos de protesto descobrem que, se pressionarem muito, a receita do governo será reduzida, pelo menos a curto prazo. Mas para aqueles que votaram neles, o curto prazo é determinante para manterem o apoio. O dia de glória e de poder dos movimentos de protesto corre o risco de ser muito limitado. Por isso, “fazem compromissos”, o que irrita os mais militantes dos seus apoiantes.
Devemo-nos lembrar sempre que os que defendem uma mudança do governo são muito heterogéneos. Alguns são militantes que lutam por uma ampla mudança do sistema-mundo e do papel que o seu país nele desempenha. Outros estão simplesmente cansados dos partidos tradicionais, vistos como repetitivos e pouco sensíveis. Alguns dizem que um novo grupo no governo será incapaz de fazer pior do que os que estavam lá antes. Em resumo, estes partidos-movimentos não são um exército organizado, mas uma aliança instável e flutuante de muitos e diferentes grupos.
Há três conclusões que podemos retirar desta situação. A primeira é que governos nacionais não têm o poder ilimitado de fazer o que quiserem. São muito limitados pelo funcionamento do sistema-mundo como um todo.
A segunda conclusão é que, no entanto, esses movimentos podem fazer alguma coisa para aliviar o sofrimento das pessoas comuns. Podem fazê-lo através da redistribuição de rendimentos por via de medidas fiscais e de outros mecanismos. Estas medidas irão “minimizar a dor” dos seus beneficiários. Os resultados podem ser apenas temporários. Mas, mais uma vez, quero recordar que todos vivemos no curto prazo e qualquer melhoria que possamos conseguir a curto prazo é uma vantagem, não uma desvantagem.
A terceira conclusão é que, se um desses partidos-movimentos vier a participar seriamente na mudança do sistema-mundo, não deve limitar-se ao populismo de curto prazo, e sim envolver-se numa organização de médio prazo para influir na luta global, nesse período de crise sistêmica e de transição para um sistema-mundo alternativo, uma mudança que já começou e está em curso.
Só quando os movimentos de protesto de esquerda aprenderem a combinar medidas de curto prazo para “minimizar a dor” com esforços de médio prazo para influir na luta por um novo sistema, é que poderemos ter alguma esperança de chegar ao desfecho que desejamos – um sistema-mundo relativamente democrático e igualitário.
Immanuel Wallerstein
Comentário N.º 402, 1 de junho de 2015
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net


Immanuel Wallerstein
Sociólogo e professor universitário norte-americano.