"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 4 de julho de 2015

Estados Unidos humilha UE e também quer cortes na dívida grega

Por Marco Antonio Moreno

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A filtração do relatório do FMI sobre a Grécia que Christine Lagarde queria esconder tem chocado o mundo. Como nós informou ontem Onésimo, o documento do FMI faz uma avaliação bastante sombria da economia grega, devastada com as políticas da troika. A Grécia tem agora um nível de endividamento que é insustentável e que nem a crescer a taxas de 4 por cento ao ano durante uma década pode aliviar. A dívida pública da Grécia escapou das mão e cruzou a ponto de não retorno após medidas draconianas implementadas pela Troika e foram aplicadas sem considerar as consequências para os governos de George Papandreou, Lukas Papademos e Antonis Samaras. O relatório do FMI divulgado três dias antes do referendo grego é a nova dor de cabeça de Angela Merkel, Wolfgang Schäuble e Martin Schultz, que na semana passada expulsaram da reunião de ministros das Finanças da UE Yanis Varoufakis, o representante grego, por rejeitar categoricamente continuar com a receita de austeridade. Agora Schultz, Merkel e Schäuble devem ter noites de pesadelos. O pesadelo de ter que fazer o que tanto tempo foi negado: Aplicar cortes da dívida grega que a troika tem evitado por cinco anos. 

Durante algum tempo, os Estados Unidos está pedindo a Europa que a zona euro deve assumir cortes da dívida grega. Para Washington é crucial a importância geopolítica da Grécia, no eixo da OTAN, e problemas de dívida são procedimentos contábeis simples. Por isso os Estados Unidos pressionou para o relatório do FMI se tornar público. Com este manifesto não só a favor da remoção da dívida coloca pressão sobre a UE a encontrar uma solução rápida para o drama grego. O relatório do FMI, que foi bloqueada pelos líderes da troika indica que a Grécia precisa de 60 bilhões ao longo dos próximos três anos e que a dívida grega exige remoção substancial. Os Estados Unidos exortam a UE, dois dias antes do referendo grego, fazer tabula rasa com a dívida grega.

A estratégia geopolítica dos Estados Unidos tem sido conhecida há algum tempo. Percebemos aqui e aqui . Para os Estados Unidos seria impróprio  a Grécia sair do euro e cair sob o abrigo da Rússia ou China. O perigo que ele vê nisto é que a Rússia poderia instalar uma plataforma de lançamento de mísseis na Europa, ou a China assumir portos gregos, ligados ao resto da Europa. Pela Grécia também poderia fluir gás russo bombeado através de tubos na Ucrânia. Washington vê essas possíveis ações, ameaças reais à sua hegemonia ocidental.
Retirar 30 por cento da dívida grega
Mas agora o relatório do FMI que incentiva nova centelha da geopolítica americana e limpa a cena. A Grécia deve ser resgatada sim e a dívida ter um desconto de pelo menos 30 por cento que a Europa tem se esquivado em tediosas jornadas de burocratização da crise. A análise do FMI, que Christine Lagarde, tentou desaparecer, confirma o fracasso das políticas de austeridade implementadas pela troika e como esses planos têm arrastado a Grécia na recessão. O relatório do FMI concorda plenamente com a opinião do ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, expulso por Wolfgang Schäuble da reunião de ministros das Finanças da UE na reunião da semana passada. Antes da reunião Varoufakis anunciou que não aceitaria compromissos falsos, como era impossível cumprir a tônica com os compromissos dos governos anteriores.
Com o relatório do FMI, a crise da dívida tomou um rumo dramático. A análise indica que os problemas da Grécia são muito mais elevados do que aqueles que foram avisados, e que não tem capacidade para pagar a dívida. A dívida aumentou de 97 por cento do PIB antes da crise, a 175 por cento atualmente pelas más políticas concebidas pela troika que primeiro resgatou os bancos com as arcas dos cofres públicos e, em seguida, exigiu o pagamento de juros onerosa. O FMI emprestou à Grécia € 30 bilhões em maio de 2010 e então com 28 bilhões de euros em 2012. A Grécia deve, até à data, 21 bilhões € ao FMI, e o pagamento de 1.5 bilhões de euros que expirou em 30 de junho, correspondia a uma quota de interesse.
A informação causou consternação na Alemanha, demonstrando as manobras escuras feitas por líderes da troika. Mas também leva à amarga constatação que os países da UE têm uma informação tendenciosa e pouco transparente, uma vez que a crise se lhes escapou das mãos das instituições e tomou uma maneira fora de controle. A Europa tem de suportar o retumbante NÃO amanhã que dará o povo grego, e precisa saber como lidar ao cortar 360 bilhões € devidos a Grécia. Políticas de desastres e mentiras da UE, do FMI e da CE não só afundou a Grécia, mas também ameaçam envolver toda a Europa. Angela Merkel, Christine Lagarde e Wolfgang Schäuble, não podem continuar escondendo a sujeira debaixo do tapete.

WikiLeaks: NSA espionou assistente pessoal de Dilma e avião presidencial

Novo vazamento revela lista de alvos da NSA no Brasil; entre elas, Palocci, o ministro do Planejamento Nelson Barbosa e o atual embaixador nos EUA

por Natalia Viana - apublica

Na mesma semana em que Dilma Rousseff realizou a primeira viagem presidencial aos Estados Unidos, informações secretas obtidas pelo WikiLeaks revelam detalhes sobre a espionagem da NSA, sigla em inglês da Agência Nacional de Segurança, contra a presidente e assessores próximos, ministros e um integrante do Banco Central.
Dilma Rousseff é recebida por Barack Obama no EUA. Foto: Agência Brasil
Dilma Rousseff é recebida por Barack Obama no EUA. Foto: Agência Brasil
As informações, às quais a Agência Pública e a Revista Carta Capital tiveram acesso em primeira mão, revelam que a espionagem da NSA no início do governo Dilma se centrava não só na figura da presidente, mas em integrantes ou ex-integrantes importantes do governo nas áreas econômica, financeira e diplomática. São 29 “alvos”. Entre eles, Antônio Palocci, então chefe da Casa Civil.
O celular do assistente da presidente, Anderson Dornelles, responsável por cuidar das ligações pessoais de Dilma, também estava na mira da NSA. Nem o avião presidencial escapou da bisbilhotagem norte-americana.
As informações provêm de uma base de dados usada pela NSA para selecionar “alvos” cujas comunicações devem ser analisadas. Os arquivos sobre alvos (ou “selectors”) brasileiros referem-se ao ano de 2011 e fazem parte de uma série de vazamentos realizados nas últimas semanas. O WikiLeaks já havia publicado uma lista de 69 nomes que seriam alvos da NSA na Alemanha, incluídos ministros e representantes para comércio, finanças e agricultura, além do assistente pessoal da chanceler Angela Merkel. Também foram publicados três resumos de conversas interceptadas em 2011. Em uma delas, Merkel discute com seu assistente a crise grega.
No fim de junho, o WikiLeaks revelou que os EUA espionaram o presidente francês Francois Hollande e dois ex-presidentes, Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, além de ministros das finanças e empresários. Em resposta, Hollande realizou uma reunião de emergência do seu gabinete para discutir o tema e ligou em seguida para Obama, que garantiu que os EUA deixaram de fazer espionagem. O ministro de Relações Exteriores convocou o embaixador americano em Paris para pedir explicações. Merkel fez o mesmo.
Diferentemente dos vazamentos europeus, os dados sobre o Brasil não contêm mensagens interceptadas, apenas enumera os alvos preferenciais dos EUA. O vazamento publicados neste sábado são chamados de “Bugging Brasil”, ou “Grampeando o Brasil”, em português. (veja aqui a base de dados)
Para monitorar a chefe do executivo brasileiro, a NSA selecionou nada menos que 10 telefones diretamente ligados a Dilma. São telefones fixos de escritórios, como aquele usado pelo comitê de campanha em 2010 no Lago Sul de Brasília, celulares marcados como “relações de Dilma” (“liaison”, em inglês) e a linha fixa do Palácio do Planalto.
Dornelles, assessor pessoal de Dilma, foi incluído na lista de “alvos” da NSA no primeiro ano do mandato, e seu celular passou a ser atentamente monitorado. O gaúcho de 35 anos, chamado pela presidente carinhosamente de “bebê” e “menino”, é há duas décadas seu fiel escudeiro. Começou a trabalhar como office-boy da presidente aos 14 anos, quando ela presidia a Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, e a acompanhou em todos os cargos públicos desde então.
O tema de interesse em espionar Anderson está descrito como “Brasil: Assuntos Políticos”. Espioná-lo era considerado como prioridade de nível “3” para o governo dos EUA. Quanto mais baixo o número, segundo a classificação da NSA, maior a prioridade.
Antonio Palocci by agencia brasil
Celular do ex Chefe da Casa Civil Antônio Palocci também foi espionado. Foto: Agência Brasil
Todos os alvos brasileiros têm prioridade “3” enquanto os alemães são de prioridade “2”, assim como os presidentes franceses.
Outro integrante espionado foi Palocci, que deixou o governo em junho de 2011 após denúncias de enriquecimento ilícito: seu patrimônio aumentou 20 vezes entre 2006 e 2010. O ministro Palocci era o principal articulador político do governo.
A presidente não era deixada em paz pelos ouvidos atentos da NSA nem mesmo quando estava em viagem. O telefone via satélite instalado no avião presidencial, o Airbus Força Aérea 1 também estava na mira. O avião é equipado com sistema de comunicação por satélite da empresa britânica Inmarsat, que opera onze equipamentos posicionados em órbita geoestacionária ao redor da Terra. Nada disso evitou que os espiões norte-americanos pudessem acessar livremente o conteúdo das chamadas presidenciais a bordo do avião.
Assim como no caso da Alemanha e França, o novo vazamento do WikiLeaks é eloquente ao mostrar que o governo dos EUA tinha como alvos preferenciais negociadores da política econômica e financeira. Nelson Barbosa, hoje Ministro do Planejamento, foi espionado quando era secretário-executivo do Ministério da Fazenda. O número fixo assinalado pela NSA é usado ainda hoje pela Secretaria.
Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Foto: Agência Brasil
Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Foto: Agência Brasil
Outro espionado foi o ex-chefe de gabinete do Ministério da Fazenda Marcelo Estrela Fiche, exonerado em dezembro de 2013. O embaixador Luís Antonio Balduíno Carneiro, que em 2011 era diretor do Departamento de Assuntos Financeiros do Itamaraty e atualmente é diretor da Secretaria de Assuntos Internacionais do ministério da Fazenda, e o subsecretário de Relações Internacionais, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel, também constam na lista. Sobre ele, a NSA anota que conduzia o mesmo tipo de vigilância exercido sobre diversos países – de olho no mercado financeiro. “Multi-pases: desenvolvimentos financeiros internacionais”, diz o registro.
A procuradora-geral da Fazenda, Adriana Queiroz de Carvalho, era outro alvo. Vinculada à Advocacia Geral da União, a Procuradoria representa a União em disputas judiciais e dá assessoria jurídica ao ministério sobre créditos tributários, entre outros assuntos.
Luiz Awazu Pereira da Silva, que se prepara para assumir a vice-presidência no Banco de Compensações Internacionais, considerado o Banco Central dos Bancos Centrais, não escapou. Era diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. Posteriormente comandou a Diretoria de Regulação do Sistema Financeiro e a diretoria de Política Econômica do BC. Nesse posto, atuou diretamente sobre a política de juros, como os aumentos ou redução da taxa Selic.
Além dele, também foi espionado o atual embaixador brasileiro nos EUA, Luiz Alberto Figueiredo Machado. O interesse em Machado teria relação com as negociações de acordos climáticos. Em 2011, Machado era diretor do Departamento de Meio Ambiente e temas especiais do Itamaraty. Foi secretário-executivo da Rio+20 e chefiou ao menos três delegações brasileiras nas Conferências da ONU para o Clima. Machado assumiu o Itamaraty após a saída de Antônio Patriota em 2013 e permaneceu até o fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff.
A NSA monitorou ainda o telefone da residência do embaixador Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães em Genebra, o atual embaixador na Argentina Everton Vieira Vargas, quando era representante na Alemanha, e a embaixada brasileira em Paris, segundo os arquivos. Procurados, nenhum dos “alvos” quis se pronunciar.
Aviao Presidencial by agencia brasil
Até as comunicações via satélite do avião presidencial foram alvejadas, segundo WikiLeaks. Foto: Agência Brasil
As novas revelações do WikiLeaks mostram pela primeira vez os alvos específicos da NSA no Brasil. Em 2013, documentos vazados por Edward Snowden haviam revelado que milhões de e-mails e ligações de brasileiros e estrangeiros em trânsito no país foram monitorados. Snowden também revelou que as comunicações da Petrobras e de Dilma Rousseff eram espionadas.
Em resposta, a presidente cancelou uma viagem aos EUA que estava agendada e criticou publicamente a espionagem americana na Assembleia-Geral da ONU. Junto com o governo alemão o Brasil propôs ainda à ONU uma proposta que prevê regras para garantir o direito à privacidade na era digital.
Porém, antes da recente viagem aos EUA, Dilma Rousseff já dizia considerar o conflito como “uma coisa do passado”. Agora, depois da visita, considerada bem-sucedida, resta saber como o governo vai lidar com essas novas – e preocupantes – revelações. Afinal, pouco se sabe ainda sobre quais informações sigilosas foram acessadas e como isso foi usado para o benefício econômico e político dos americanos.
“Nossa publicação de hoje mostra que os EUA têm um longo caminho à frente para provar que a sua vigilância massiva em países ‘amigos’ realmente acabou”, diz Julian Assange. “Os EUA não só espionaram a presidente Rousseff mas também figuras-chave com quem ela fala todos os dias. Mesmo se as promessas dos EUA de que deixaram de espioná-la forem dignas de confiança – e não são – é impossível imaginar que Rousseff possa governar o Brasil falando apenas consigo mesma. Se a presidente Rousseff quer receber mais investimentos no Brasil após sua recente visita aos Estados Unidos, como ela pode garantir às empresas brasileiras que a concorrência americana não obterá vantagens provenientes dessa vigilâcia até que ela possa realmente comprovar que a espionagem cessou? E não apenas sobre ela, mas sobre todos os alvos brasileiros”.

O que ensinam os documentos

WL Page

A base de dados publicada pelo WikiLeaks demostra como funciona o aparato de espionagem da NSA. Embora o órgão americano intercepte milhões de registros de telefonemas em diversos países, apenas alguns telefones são considerados alvos prioritários, aos quais os analistas devem estar sempre atentos.
Para que a espionagem seja conduzida é necessário que ela siga uma ordem de “Necessidade de Informação” promulgada pelo Departamento de Inteligência Nacional. O código dessa autorização aparece em todas as comunicações, bem como a unidade dentro da NSA que é encarregada de espionar as conversas.
Um documento de “Necessidade de Informação” de 2002, feito sob medida para espionar os franceses, estabelece como áreas de interesse informações sobre relações econômicas bilaterais, política macroeconômica e financeira, orçamento, contratos internacionais e negociações com instituições financeiras internacionais. Documento semelhante foi produzido sobre o Brasil, segundo consta na base de dados, mas seu teor não consta do vazamento do WikiLeaks.

A revolução da energia renovável e suas limitações

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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O mundo precisa superar a era dos combustíveis fósseis e avançar na revolução da energia renovável. O ambientalista Lester Brown e seus colegas do Instituto de Políticas da Terra (EPI) estão otimistas com o que eles chamam de transição da energia fóssil e nuclear para as “energias limpas”, a partir do fortalecimento da produção de energia solar, eólica e outras fontes renováveis. O livro: “The Great Transition Shifting from Fossil Fuels to Solar and Wind Energy”, sem dúvida, é uma contribuição para a análise da mudança da matriz energética.
Segundo Lester Brown, a transição mundial dos combustíveis fósseis para as fontes renováveis ​​de energia está em curso: “Uma nova economia energética mundial está emergindo com base na emergência da energia solar e eólica, em função da redução da disponibilidade de combustíveis fósseis e da piora da poluição do ar”. No capítulo 1 do livro, Lester Brown apresenta algumas tendências otimistas:
“O preço dos painéis solares fotovoltaicos (PV) declinaram 99% nos últimos quatro décadas, a partir de 74 dólares por watt em 1972 para menos de 70 centavos de dólar por watt em 2014. Entre 2009 e 2014, os preços de painéis solares caíram por três quartos, ajudando as instalações globais de PV crescerem 50% ao ano.
Ao longo da última década, a capacidade mundial de energia eólica cresceu mais de 20% ao ano, devido ao aumento impulsionado por características atraentes, pelas políticas públicas de apoio à sua expansão e por custos decrescentes. Até o final de 2014, a capacidade mundial de geração eólica totalizou 369 mil megawatts, o suficiente para abastecer mais de 90 milhões de lares.
Políticas nacionais e sub-nacionais em todo o mundo estão mudando para apoiar as energias renováveis ​​e colocar um preço sobre o carbono. Estes incluem 70 países com tarifas feed-in; duas dezenas de países com padrões de portfólios renováveis ​​(RPS); 37 países com apoio fiscal ao investimento em energias renováveis; 40 países implementando ou planejando precificação do carbono.
O uso do carvão dos EUA está caindo – caiu 21% entre 2007 e 2014 – e mais de um terço das centrais a carvão do país já fechando ou anunciaram planos para fechamento futuro. Enquanto isso, o Índice Global de Carvão Stowe – um índice composto de empresas de todo o mundo, cujo principal negócio envolve carvão – caiu 70 por cento entre abril de 2011 e setembro de 2014.
Para o mundo como um todo, a geração de energia nuclear atingiu o pico em 2006 e caiu em quase 14 por cento em 2014. Nos EUA, o país com o maior número de reatores, a geração nuclear atingiu o pico em 2010 e está agora também em declínio.
Na China, a produção de eletricidade a partir de centrais eólicas já ultrapassa aquelas a partir de usinas nucleares, enquanto o uso de carvão chegou ao pico”.
Segundo Lester Brown e colegas: “Inicialmente, esta transição energética foi impulsionado por incentivos do governo, mas agora ela também está sendo impulsionada pelo mercado. Com os preços de hoje favorecendo tanto a energia solar, quanto eólica, em muitos locais, a transição está em aceleração, movendo-se muito mais rápido do que o previsto anteriormente”. O gráfico abaixo mostra a distribuição e o avanço da energia solar fotovoltaica até 2014.

energia solar fotovoltaica

O banco de investimento UBS também tem uma expectativa otimista da evolução da energia solar: 1) mais de 10% da energia do mundo poderia ser gerada a partir do sol dentro de uma década; 2) a energia solar poderá ser a “tecnologia padrão do futuro”, substituindo definitivamente o carvão e a energia nuclear. (Walton, 2015).
Sem dúvida o avanço da energia renovável substituindo os combustíveis fósseis é uma necessidade urgente para a estabilização da economia e do clima (Alves, 2014 e 2015). Contudo, todo este otimismo não é compartilhado por outros analistas.
Kurt Cobb considera que a revolução energética, se acontecer na escala necessária, não deve ocorrer de maneira tão rápida e nem com tantos resultados positivos sobre o clima. Ele diz: “Mesmo com todos os esforços a transição energética atual, embora cada vez mais urgente, ainda levaria um longo tempo. E não está claro a dimensão dos resultados positivos no que diz respeito às alterações climáticas”.
Gail Tverberg (2014), no artigo: “Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem”, relaciona dez problemas que dificultam a superação dos combustíveis fósseis e a mudança da matriz energética mundial para fontes renováveis.
Richard Heinberg, analisando o crescimento da energia renovável no artigo “Renewable Energy Will Not Support Economic Growth” (2015), chega à seguinte conclusão: “Em suma, há muito mais desafios associados à transição da energia renovável do que oportunidades. Há possíveis soluções para todos os problemas que identificamos. Mas a maioria dessas soluções envolvem custos mais elevados ou a funcionalidade do sistema reduzida”.
Não resta dúvidas de que a economia internacional precisa reduzir significativamente os subsídios e a dependência dos combustíveis fósseis e aumentar o peso das energias renováveis no conjunto da produção energética, a despeito das dificuldades que precisam ser superadas. Para tanto é preciso que as diversas nações criem políticas públicas para incentivar a utilização das energias renováveis e que haja incentivo para que o mercado, as famílias e as comunidades invistam na mudança da matriz energética. Também é preciso construir redes de transmissão inteligentes para controlar a sazonalidade da produção de energia eólica e solar, aumentar a eficiência energética e adaptar a produção à demanda.
Portanto, os investimentos em energia eólica e solar devem vir acompanhados de uma mudança no modelo de produção e consumo que degrada a natureza e aumenta a pegada ecológica. O mundo precisa se livrar dos combustíveis fósseis, mas também precisa caminhar rumo ao decrescimento das atividades antrópicas, renovando o estilo de desenvolvimento consumista que tem colocado tantas pressões sobre o meio ambiente e a biodiversidade. Como colocado em artigo recente (Alves, 2014): “Somos a primeira geração a sentir o impacto da mudança climática e a última geração que pode fazer alguma coisa para evitar um desastre ecológico global”. A mudança da matriz energética é um primeiro passo. Mas a construção de uma civilização ecológica é um sonho ainda muito distante e que vai requerer muitos esforços.
Referências:
ALVES , J. E. D. 100% energia renovável, Rio de Janeiro, Cidadania & Meio Ambiente, n. 54, v. X, p. 6-10, 2015. (2177-630X) http://pdf.ecodebate.com.br/rcman54.pdf
ALVES, JED. Energia renovável com baixa emissão de carbono, RJ, Cadernos Adenauer 3, 2014

Cadernos Adenauer 3/2014: Eficiência Energética, RJ, 2014, ISBN 978-85-7504-190-1

Lester Brown et al. The Great Transition Shifting from Fossil Fuels to Solar and Wind Energy, Earth Policy Institute, 2015 http://www.earth-policy.org/books/tgt/tgt_data#1
DW. Solar power on the rise, 12/06/2015

Robert Walton. UBS: Solar will soon be ‘default technology of the future’. June 9, 2015

TVERBERG, Gail. Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem, 21/01/2014.

Kurt Cobb.The energy revolution will not be televised, Resource Insights, May 31, 2015

Richard Heinberg. Renewable Energy Will Not Support Economic Growth, Resilience, Jun 5, 2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 03/07/2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A crise na Grécia, o fracasso do euro e o mito da unidade europeia

Por Marco Antonio Moreno

Se algo deixou claro que a crise grega é o fracasso total da moeda única europeia e dos planos para diluir essa falha pela troika. Neste contexto, Angela Merkel e Christine Lagarde são a falsa crônica de uma Europa que não conseguiu reforçar os princípios de solidariedade e anda em linha reta para o precipício. Após cinco anos de brigas em que a Grécia tem sido  humilhada obedecendo aos ditames de Merkel e Lagarde, a situação grega é muito pior do que antes e sem saída. 30 por cento da população grega vive na pobreza, enquanto 20 por cento da população sofre de fome. A compra de alimentos caiu 28,5 por cento, e ainda a troika quer aumentar o IVA à alimentação. O desemprego está em 25 por cento e atinge 60 por cento entre os jovens. Mais de um milhão de pessoas perderam seus empregos nestes cinco anos de submissão à ditadura da troika. A taxa de suicídio aumentou 45 por cento, e a situação grega piora a cada minuto.


Os problemas da Grécia são de longa data e ao longo da crise nem a troika nem a Alemanha fizeram algo para aliviá-los. Pelo contrário, as políticas implementadas desde 2010 procuraram apenas aliviar a pressão dos bancos, agravando os problemas sociais. Como já dissemos desde o início da crise, a Grécia tem uma dívida que é matematicamente impossível de pagar. Por isso, os planos para a Grécia  pagar sua dívida não deixam de ser ingênuos, arrogantes e ridículos. Merkel e Lagarde não só mostraram sinais de nulo humanismo e selvageria insana, mas também uma ignorância avançada em questões econômicas. Agora elas estão mostrando sinais de que a democracia não lhes interessa. Merkel faz um punho e promete um golpe contra o governo grego. Hoje não se exige exércitos para derrubar governos. Basta fechar a Assistência de Liquidez de Emergência (ELA) do Banco Central Europeu.
O crime foi cometido em 2010
Desde 2010, o FMI e a Alemanha sabem que a Grécia nunca poderá pagar sua dívida. Reconheceu Phillipe Legrain, um ex-assessor do ex-presidente da UE, José Manuel Durão Barroso. Para Legrain, o crime original foi cometido há cinco anos quando se tornou claro que o país estava insolvente; que a sua dívida tinha de aplicar cortes grandes, o saldo final da dívida foi completamente reestruturado, e que essas ações não eram apenas necessárias, mas também apenas porque os credores tinham cometido a imprudência de riscos excessivos. No entanto, Dominique Strauus-Kahn, então diretor do FMI, não queria complicações e gerou a maior história de empréstimos para o país Heleno. Eles estavam todos agrupados na ideia de que a crise era temporária e tinha solução fácil. Strauss-Kahn se recusou a complicações porque ansiava para se tornar presidente da França, para que em 2010 teve um caminho claro. As palavras de Legrain tem sido resgatados por James Galbraith e Vicenç Navarro, e percebem pontos até então desconhecidos sobre a crise do euro.
Isso indica que há cinco anos se haver-se esclarecido o crime original da economia helênica, que teve toda a cumplicidade dos bancos europeus, a troika não fez nada para sair do atoleiro em que está submersa. Ela só soube exigir austeridade, cortes e mais austeridade, asfixiando o povo grego e mergulhando-o em uma recessão de longo alcance, com perdas que enfraqueceram todo o ambiente europeu. E tudo, para resgatar os bancos alemães e franceses que mais especularam com os empréstimos. A troika colocou a Grécia em servidão por dívida através de chantagem e extorsão. Longe de procurar alívio, Merkel e Lagarde querem espremer o povo grego e contra esse abuso tem se levantado Alexis Tsipras no seu apelo a um referendo.
A Troika está a pressionar o confronto de forças
A crise na Grécia, depois de anos de austeridade e miséria, atingiu o seu ponto de não retorno que porá em jogo a força perigosa do poder econômico da troika, com a força do povo grego que tiveram castigo suficiente. A troika vai procurar destruir o governo da Syriza para dar uma lição a todos os governos que vão contra seus ditames. O povo grego lutou heroicamente, mas precisa de uma liderança clara e corajosa, sem hesitação, que tem sido até agora o governo de Tsipras. Para a Grécia, pode ser o melhor momento para abandonar a sua relação com a moeda única. Como indica Wolfgang Munchau no Financial Times (tradução aqui), os custos de curto prazo para a Grécia seriam enormes, enquanto para o resto da Europa seria insignificante. Mas, no longo prazo, a saída da Grécia da moeda única iria permitir que o país superasse a crise demonstrando e confirmando que "existe vida após o euro". Isso encorajaria outros países, como Itália, Espanha e Portugal, a deixar a moeda única desmembrando uma Europa que tem faltado unidade, solidariedade e justiça social. Prova disso é o aumento da desigualdade vergonhosa em países europeus e elevada taxa de desemprego, que trouxe miséria para mais de 30 milhões de pessoas.
As políticas de austeridade não têm terminado a crise, mas que aprofundaram. A experiência da Grécia demonstra a lógica do sistema, onde grandes crises acabam sendo transferências dos trabalhadores e das classes médias para os ricos. A troika, na Grécia, não deixou de pedir cortes para sufocar o país e imobilizar o governo. Prova disso é que os pensionistas, que são a principal fonte de renda para quase metade das famílias gregas têm visto uma queda de 61% em seus pagamentos de pensão. Antes da eclosão da crise, em 2008, as pensões gregas eram muito generosas. Em alguns setores, as pensões poderiam ser 100% do salário final, com alguns trabalhadores que passaram à reforma aos 50 anos. Este sempre soube a União Europeia e o FMI. Assim como, também se sabia que mais de 20 por cento de gregos tem mais de 65 anos, a idade média mais elevada na Europa. Este foi o caso quando a Grécia aderiu ao euro, e ninguém se opôs. Após a eclosão da crise a "generosidade" das pensões foi revertida como brutal e pensões são agora um terço do que eram há oito anos. Ainda assim, uma das imposições da troika para a Grécia na semana passada foi implementar novos cortes às pensões.
Destruição de saúde e do setor público
Se a questão das pensões é relevante é porque quase metade dos pensionistas vivem abaixo da linha de pobreza, com menos de 665 euros por mês. A pobreza alimentar está piorando a saúde das pessoas e a taxa de mortalidade fetal atingiu 21%, enquanto a mortalidade infantil aumentou em 45 por cento. Taxas de Tuberculose duplicaram enquanto a malária ressurgiu depois de quase meio século de ser erradicada no país. Como cuidados de saúde é financiado pelo trabalho seguro quando as pessoas perdem seus empregos também perdem seus cuidados de saúde. Os cortes no orçamento em financiamento estatal forçaram o fechamento de hospitais e isso destruiu cuidados de saúde e a economia de serviços de saúde. Milhares de médicos deixaram o país e aqueles que continuam a receber um salário de 12.000 euros por ano. Muitas clínicas e hospitais agora dependem de voluntários e médicos que trabalham para nada. Mas eles precisam de suprimentos e equipamentos que a Grécia não tem.
Esta forma de destruição do setor público foi implementada na Grécia pelo Fundo Monetário Internacional e cegamente seguido pelos governos de Papandreou, Papademos e Samaras. Esses governos, que tiveram a aprovação da troika (Papademos foi imposto por Angela Merkel), manteve a trajetória de corrupção em níveis elevados, com patrocínio político e subornos para esconder o descontentamento social. Nem Papandreou nem Papademos nem Samaras era verdadeiros sinais de modernização e justiça social, apenas de devastação e  barbárie... endossado pela troika e Jean Claude Juncker, que na segunda-feira teve o cinismo de dizer que "A UE nunca pediu a Grécia para reduzir a sua pensões". Mas a realidade, embora Juncker e sua memória ruim é que a Grécia vive agora em cozinhas de sopa e clínicas de caridade.
As mudanças que o mundo precisa
Por isso Syriza chegou ao poder em janeiro de 2015, um governo com foco em fazer mudanças que a Grécia precisa, e não para satisfazer os desejos da UE, mas as necessidades de seu próprio povo. Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego, desde o início, disse, "Não está em nossos planos deixar o euro", uma vez que esta é uma questão que, pelo menos no curto prazo, poderia causar pânico desnecessário na Europa que poderia reviver a escalada do colapso financeiro desencadeado na sequência da falência do Lehman Brothers. Esse ponto, no entanto, não leva em conta a Troika, apostando não mais para pressionar a Grécia e mostrar a todos sua barbárie política e econômica.
Sem embargo, desde a chegada do Syriza a Grécia sofre estrangulamento econômico sem precedentes pelo Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, a fim de quebrar o interesse do governo para acabar com a austeridade e restaurar a prosperidade e justiça social no país. A Troika exigiu da Grécia o cumprimento dos acordos tomadas pelo governo anterior, cujas políticas economicamente ineficientes e socialmente desastrosas foram amplamente rejeitadas pelo povo grego, que decidiram votar em Syriza em janeiro deste ano. Se vencer o "NÃO" (OXI em grego), no referendo de domingo, a Grécia vai dar um golpe devastador e frontal para as  políticas brutais implementadas por Angela Merkel e Christine Lagarde.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O colapso dos grandes herbívoros

60% das espécies remanescentes de grandes mamíferos herbívoros – aqueles com massa corporal igual ou maior que 100 quilogramas – correm risco de extinção. 

Por Karina Toledo

Cerca de 60% das 74 espécies de mamíferos terrestres com 100 kg ou mais estão ameaçadas de extinção e as consequências para o ecossistema serão grandes. A única representante brasileira é a anta. Foto: Mauro Galetti
De acordo com uma revisão publicada recentemente na revista Science Advances, 60% das espécies remanescentes de grandes mamíferos herbívoros – aqueles com massa corporal igual ou maior que 100 quilogramas – correm risco de extinção. Quase todas as populações ameaçadas estão nas nações em desenvolvimento.
Os dados são da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) e foram levantados por cientistas de vários países, sob coordenação de William Ripple, da Oregon State University, nos Estados Unidos. Entre os autores está o investigador brasileiro Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro.
“Lugares como a savana africana estão a tornar-se paisagens vazias e isso não é apenas uma questão ética ou estética. Afeta o funcionamento dos ecossistemas naturais. Todas essas espécies desempenham funções ecológicas importantes e, se elas desaparecerem, ninguém conseguirá substituí-las”, disse Galetti em entrevista à Agência FAPESP.
Das 74 espécies de mamíferos terrestres que compõem o grupo dos grandes herbívoros, 71 ocorrem em países em desenvolvimento e somente 10 nos países desenvolvidos. A única representante brasileira no grupo é a anta (Tapirus terrestres), que pode chegar a 300 kg e também está sob ameaça de extinção.
De acordo com o artigo, os grandes herbívoros ocupam atualmente, em média, apenas 19% das suas áreas de ocorrência históricas. “Isso é exemplificado pelo elefante (Loxodonta africana), pelo hipopótamo (Hippopotamus amphibius) e pelo rinoceronte negro ocidental (Diceros bicornis), que hoje ocupam pequenas frações de suas áreas históricas na África. Além disso, muitas dessas espécies em declínio são pouco conhecidas cientificamente e necessitam seriamente de pesquisas ecológicas de base”, ressaltam os investigadores.
Também no caso da anta, disse Galetti, a área de ocorrência vem encolhendo nos últimos anos. Os cientistas não sabem ao certo qual é o tamanho da população remanescente no país. “Originalmente, a anta era encontrada em praticamente todos os biomas brasileiros, mas hoje já há vários lugares da Mata Atlântica em que ela desapareceu. As causas principais são a caça ilegal, o desmatamento, a expansão agrícola e atropelamentos”, afirmou.
A caça, a expansão da pecuária e as mudanças no uso da terra – que incluem perda de habitat, invasão humana (como construção de estradas), plantações e desmatamento – são apontadas no artigo como as principais ameaças para os grandes herbívoros. A vulnerabilidade desses animais é agravada pelo facto de se reproduzirem lentamente.
A caça ilegal voltada para a obtenção de partes valiosas do corpo, como, por exemplo, presas e chifres, tem causado um declínio dramático na população de elefantes e rinocerontes em partes da África e na Ásia Meridional, revertendo décadas de esforços de conservação, disse o artigo.
A perda de habitat é uma ameaça significativa principalmente na América Latina, na África e no sudeste da Ásia e, segundo os autores, a causa tem origem nos países desenvolvidos e na sua procura por produtos agrícolas e outras commodities.
“O Sudeste da África tem a maior taxa de desmatamento nos trópicos e, se o ritmo se mantiver, a região poderá perder 75% de suas florestas originais e quase metade de sua biodiversidade até ao fim deste século”, ressaltaram os cientistas.
No caso da América do Sul, o processo de defaunação pode ter tido início há 10 mil anos, coincidindo com a chegada do homem ao continente. “Havia espécies de preguiça gigantes, tatus do tamanho de um fusca e outras menos conhecidas, mas a região já foi transformada numa paisagem vazia. Há uma controvérsia na literatura científica sobre a principal causa ter sido o clima ou as ações humanas. Os impactos para o ecossistema estão só começando a ser compreendidos”, disse Galetti.
Consequências
Por consumirem grandes quantidades de vegetação, explicou o investigador, esses mamíferos ajudam a moldar a estrutura dos ecossistemas, prestando serviços como ciclagem de nutrientes, dispersão de sementes e controle de fogo.
“A quantidade de matéria orgânica que esses animais reciclam é enorme. Se eles desaparecerem em biomas como o cerrado brasileiro ou a savana africana, a vegetação vai crescer, secar e eventualmente vai pegar fogo”, disse Galetti.
No Brasil, acrescentou o investigador, espécies de plantas que possuem sementes grandes, como jatobá (Hymenaea courbaril), buriti (Mauritia flexuosa) e palmito amargoso (Syagrus oleracea), e muitas outras plantas são dependentes da anta para dispersão.
“Além disso, as antas competem por alimento com diversos roedores, ajudando a controlar populações prejudiciais à saúde humana por transmitir doenças como hantavirose. A anta também é um dos poucos animais que servem de presa e ajudam a sustentar as populações da onça-pintada (Panthera onca), que por sua vez controlam vários animais que podem ser daninhos ao homem”, disse Galetti.
Os grandes herbívoros são a principal fonte de alimento para animais como leão (Panthera leo), hiena (Crocuta crocuta), tigre (Panthera tigris) e também para os animais menores que se alimentam das carcaças, como coiotes (Canis latrans), raposas (Vulpes vulpes), corvos (Corvus corax e águias (Haliaeetus spp.).
O declínio dos grandes herbívoros causa ainda efeitos diretos nos humanos, especialmente no que se refere à segurança alimentar nas regiões em desenvolvimento, ressaltou o artigo.
“Estima-se que 1.000 milhões de pessoas dependem de carne de caça para subsistência e ela deve diminuir em torno de 80% nas florestas africanas nos próximos 50 anos. Além disso, os mais carismáticos e emblemáticos herbívoros atraem muitos turistas para áreas protegidas. O declínio do turismo deve afetar as balanças comerciais e as taxas de emprego principalmente nas áreas rurais do mundo em desenvolvimento”, diz o texto.
Direções futuras
Na avaliação dos autores, o esforço para salvar os grandes herbívoros remanescentes deve incluir a redução das taxas de natalidade humanas, diminuição do consumo de carne de ruminantes, combate da caça ilegal, expansão e maior financiamento de áreas protegidas e combate às mudanças climáticas.
O artigo ressalta ainda a necessidade de investigações sobre as espécies mais ameaçadas no sudeste asiático, África e na América Latina, entre elas o Búfalo-anão-de-Mindoro (Bubalus mindorensis), cabra-das-rochosas (Capra walie), suínos da espécie Sus cebifrons e Sus oliveri e outras sobre as quais também há menos de dez artigos científicos publicados. No Brasil, uma espécie de anta recentemente descrita e denominada Tapirus kabomanii pode estar criticamente ameaçada pela caça e mineração na sua área de ocorrência.
“Em particular, mais investigações são necessárias para entender como o aumento da densidade humana e da pecuária, a mudança climática, a perda de habitat, a caça e as diferentes combinações desses fatores afetam esses grandes herbívoros”, afirmaram.
Karina Toledo, da Agência Fapesp. Publicado em Envolverde e originalmente no site AgênciaFapesp

Sobre "livros da verdade"

Livros só produzem resultados quando após lido um vem outros e outros; o encontro ou a adoção de um "livro da verdade" é um caminho curto para o fechamento ideológico. Da mesma forma, a reprodução de significados de um "livro pai" constitui atalhos  para a cegueira intelectual.

O mundo jamis coube ou caberá em uma teoria (doutrina), a mente do intelectual por mais brilhante que seja não alcança toda a complexidade do mundo, e sempre que uma teoria é construída ela é feita sobre uma "verdade parcial", aquilo que lhe serve de inspiração e produz as justificativas, jamis sobre a verdade em forma absoluta e inflexível.

Edgar Morin diferencia a teoria da doutrina, diferente da primeira a última resiste a superações por outras teorias; no entanto, não se trata de uma "luta pela sobrevivência das teorias" e sim da luta pela complexidade, o que significa o ensinamento de que as teorias se completam.

A complexidade é um convite para a democracia intelectual; o ensinamento de que quando uma teoria produz um grande domínio sobre o mundo humano, sentindo-se a última das descobertas, ela abre portas para a prática de atos cegos justificados  por essa verdade.

O "livro da verdade" é o próprio sustentáculo da doutrina fechada, imperial, pretendente e sonhando com um dia em que haverá o domínio total. Sempre se põe a culpa do mundo sobre os que pensam diferente, empecilho para o reino da pureza total.

O ajuste fiscal não resolve os desequilíbrios estruturais da economia brasileira

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“O governo Dilma saltou de um keynesianismo rastaquera para uma austeridade tosca”
(Drummond e Martins, 2015)

dívida e orçamento 2015

Todo ajuste surge de algum desajuste. O ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy, do governo da presidenta Dilma Rousseff, é apresentado como uma medida corretiva e temporária que vai colocar o país de novo na rota do “crescimento econômico e do avanço social”. Na ideologia governista, trata-se apenas de uma medida conjuntural que poderá fazer o país voltar ao rumo das mudanças estruturais. Ou como disse a presidenta durante o Congresso do PT em Salvador: “trata-se de um recuo tático” que não vai interromper a estratégia de progresso de longo prazo. Ou como disse Lenin no lançamento da “A Nova Política Econômica (NEP)”, que recuperou alguns traços de capitalismo para incentivar a nascente economia soviética: “um passo atrás para dar dois passos à frente”. Ou numa versão menos grandiosa, o ajuste fiscal seria aquele remédio amargo que os pais impõem aos filhos doentes de uma inflamação na garganta: “tome o remédio amargo e você vai se curar, vai poder voltar a falar, a se alimentar e poderá brincar normalmente”.
Seria ótimo se o ajuste fiscal da dupla Dilma/Levy fosse uma medida corretiva, como uma nota baixa que um professor dá a um aluno relapso, mas que serve de estímulo para correção do rumo acadêmico e para uma formatura festiva e uma carreira profissional de sucesso. Porém, o ajuste fiscal pode ser apenas o enterro de um sonho de uma economia forte, próspera e justa. Até agora, o ajuste fiscal está mais para “austericídio” do governo e do país.
Na verdade o que ocorreu é que “O governo Dilma saltou de um keynesianismo rastaquera para uma austeridade tosca” (Drummond e Martins, 2015). O ex-ministro Guido Mantega conseguiu cometer todos os erros possíveis na administração da política econômica do primeiro governo Dilma (2011-2014). Exemplo: o ex-ministro incentivou a indústria automobilística multinacional presente no Brasil a vender mais carros para a “nova e emergente classe média”. Para tanto, reduziu os impostos, congelou o preço da gasolina e subsidiou o crédito. O resultado foi a geração de uma dívida imensa na Petrobras, o esvaziamento do caixa do Governo Federal, o aumento das importações e o engarrafamento das precárias estradas e ruas das cidades, gerando uma grande imobilidade urbana e o aumento das mortes no trânsito. Além disto, houve déficits crescentes na balança comercial com o México e outros países. De quebra, destruiu os avanços da produção de energia do setor sucroalcooleiro. Por fim, aumentou as emissões de gases de efeito estufa, agravando os problemas do aquecimento global e das mudanças climáticas que influem na crise hídrica. Ou seja, o incentivo à indústria automobilística, como foi feito, foi um equívoco e até o presidente da Mercedes do Brasil, Philipp Schiemer se manifestou criticamente: “O País perdeu a previsibilidade com as mudanças nas premissas da política econômica. Voltamos uns 20 anos no tempo”.
O fato é que Guido Mantega e Dilma 1 deixaram uma herança maldita para Joaquim Levy e Dilma 2. O nível de emprego já apresentava problemas, mesmo quando as taxas de desemprego estavam baixas. A crise do mercado de trabalho vem ocorrendo pelo menos desde 2012, pois a taxa de atividade está estagnada. Sem geração de emprego, o crescimento econômico fica dependente da produtividade. Mas o Brasil é campeão de improdutividade e o governo nada fez para reverter esta situação. O resultado foi a estagnação do PIB em 2014 e uma grande recessão em 2015. Mesmo com redução da demanda a inflação subiu. O resultado é “estagflação”. A solução para a crise do emprego e da produtividade teria que vir pelo lado do investimento, da inovação tecnológica e das mudanças institucionais. Mas o governo não conseguiu elevar a Formação Bruta de Capital Fixo e o BNDES passou a subsidiar os investimentos de setores “escolhidos” sem o compromisso com a eficiência econômica. A dívida interna cresceu mesmo com as “pedaladas fiscais”, que segundo o Tribunal de Contas da União (TCU) gerou uma diferença de R$ 251 bilhões entre receitas e despesas em 2014. Neste momento, o governo Dilma tem até meados de julho para justificar os erros que foram cometidos recentemente, em especial no ano passado, que agravaram as contas fiscais do país e afrontaram a Lei de Responsabilidade Fiscal. Como consequência, a dívida pública federal – incluindo os endividamentos interno e externo do governo – registrou aumento de 1,83% em maio deste ano, e atingiu a cifra de R$ 2,49 trilhões, segundo informações da Secretaria do Tesouro Nacional.
O surpreendente é que a política macroeconômica, além de provocar uma redução forçada na demanda agregada, recorra à política monetária contracionista, pois a solução encontrada pelo Banco Central (BC) tem sido aumentar a taxa de juros. Ou seja, o governo reforça a redução da atividade econômica, corta gastos e retira direitos trabalhistas com uma mão e aumenta os gastos e favorece aos setores rentistas com a outra mão, pois juros maiores de uma dívida maior é uma “bomba relógio”. Não é necessário dizer, mas se trata de uma política totalmente esquizofrênica e que está fadada ao insucesso. Ou seja, o ajuste fiscal da Dilma 2 não vai resolver as trapalhadas do governo Dilma 1. Ao contrário, vai agravar a situação, pois gerará uma grande contração econômica, aumentando a dívida pública em termos absolutos e como proporção do PIB. Para Luis Nassif, as barbeiragens do BC começam a assustar o mercado e dificultam ainda mais os desequilíbrios macroeconômicos.
É uma situação grave, em especial, quando se sabe que quase metade da renda das famílias brasileiras está comprometida com dívidas, segundo dados do Banco Central. O endividamento das famílias chegou a 46,3% em abril, o maior percentual desde o início da pesquisa, em 2005. O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que apoiou a reeleição de Dilma Rousseff, duvida do ajuste do Levy e em entrevista para o sítio da CUT, diz: “É uma tolice o que estão fazendo”.Também o professor de economia, Guilherme Delgado, tem uma visão crítica do ajuste fiscal: “Vejo este cenário com muita preocupação, porque não me parece ser esta a resposta adequada ao problema da crise fiscal. A crise fiscal existe. Quem faz pesquisa não pode brigar com os fatos. No entanto, a maneira de responder a esta crise com a adoção da política econômica faz toda a diferença” (2015).
O ministro Mangabeira Unger disse que o governo Dilma 1 praticou um “Keynisianismo vulgar”. Na verdade houve um processo de “especialização regressiva” e de desindustrialização precoce do Brasil. O país voltou a praticar o modelo econômico da República Velha (1889-1930) que ancorava o crescimento na dependência do modelo “primário-exportador”. Esta estratégia funcionou enquanto o preço das commodities estava alto no mercado internacional. Agora o que restou é a perda de empregos industriais e um esforço para exportar um volume cada vez maior de soja, minério, etc, para uma receita total menor. O resultado é uma crise no comércio exterior e a perspectiva de uma nova crise cambial, com a consequente desvalorização do Real e o empobrecimento geral dos agentes econômicos nacionais. Para agravar ainda mais a situação, tudo deve piorar com o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos e o enxugamento da liquidez internacional.
Por conta disto, cresce o número de analistas que consideram que o governo Dilma trocou o “keynesianismo rastaquera” pelo “ajuste fiscal vulgar”, em um regime permeado pelo cronismo. Ou seja, parece que o governo está insistindo nos erros, mas com sinal trocado. A falta de clareza na solução dos problemas fiscais fica claro na questão previdenciária em um quadro de rápido envelhecimento populacional.
A reforma da previdência foi sendo adiada constantemente, até que o Congresso derrubou o “fator previdenciário” (com apoio da base aliada do governo). Mas a presidenta Dilma vetou a medida e improvisou uma solução que pode não passar no Congresso, pois já tem a oposição de setores do PT, CUT, etc. Se a questão previdenciária não for resolvida mirando o longo prazo, qualquer ajuste fiscal vai ser temporário. O envelhecimento populacional, em um quadro de fim precoce do bônus demográfico, constitui uma situação explosiva no equilíbrio orçamentário, especialmente diante do enorme peso da população idosa que vem pela frente. Até o momento, o que tem sido feito no Congresso Nacional é uma contra-reforma que só vai agravar o déficit fiscal e as contas públicas. Para complicar ainda mais o ajuste fiscal, a Câmara aprovou no dia 24/06 a extensão da regra de reajuste do salário-mínimo às aposentadorias e pensões. Ou seja, a esquerda brasileira sempre defendeu a ampliação dos benefícios para os aposentados, agora é a direita, liderada por Eduardo Cunha, que faz agrados para a “população idosa inativa” às custas dos parcos recursos da política social.
Há muita confusão e procrastinação. Do jeito que a coisa anda, não existe perspectiva de retomada do desenvolvimento e de avanço das chamadas “conquistas sociais”. O país caminha para a segunda década perdida e uma situação política tipo “sarneyzação piorada”. O governo Dilma 2 está atacando os resultados do governo Dilma 1, sendo que ambos estão equivocados. Não sem motivos já está surgindo um movimento chamado de “frente de esquerda” (composto por pessoas que em sua maioria apoiaram o governo Dilma 1 e agora não querem arcar com as heranças nefastas) que ainda precisa mostrar o que pretende e como pode solucionar os impasses da nação. Alternativas são urgentemente necessárias, pois não só estamos vivendo a maior e mais impactante crise da história brasileira, mas podemos entrar em um processo irreversível de des-desenvolvimento e regressão social. O Brasil virou um país submergente e parece que está indo no mesmo rumo da Grécia, ou seja, o rumo do declínio e da falta de um projeto de nação e de inserção soberana no processo de globalização.
De maneira esquemática, podemos dizer que diante da “mais grave crise da história” e da “maior crise de governabilidade”, o Brasil tem um Executivo sem rumo, um Legislativo conservador e atabalhoado, uma oposição sem noção, movimentos sociais sem força de mobilização e uma população angustiada, sem esperança e cada vez mais revoltada e raivosa.
Referências:
Carlos Drummond e Miguel Martins. O desemprego ameaça o avanço social, Carta Capital, 13/06/2015 http://www.cartacapital.com.br/revista/853/cai-a-ultima-barreira-8628.html
Luiz Gonzaga Belluzzo. É uma tolice o que estão fazendo, Rede Brasil Atual, 08/06/2015

Luis Nassif. Barbeiragens do BC começam a assustar o mercado, 17/06/2015

Guilherme Delgado. Ajuste fiscal vai liquidar com os mais frágeis e concentrar a renda, entrevista a Valéria Nader e Gabriel Brito, Correio da Cidadania, 03 de Junho de 2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 01/07/2015