"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 11 de julho de 2015

Que se está a passar com a bolsa da China?

A segunda maior economia do planeta sofre um histórico e preocupante afundamento da sua bolsa. Por Eduardo Garzón.

Desde 15 de junho passado, o índice Shanghai Composition perdeu 31% do seu valor; o de Shenzhen 38%
Talvez porque a China é um país muito longínquo, talvez porque não estamos familiarizados com a sua cultura e as suas instituições, ou por outros motivos que não consigo identificar, os meios de comunicação estão a dar muito pouca cobertura ao histórico e preocupante afundamento da bolsa chinesa. O fato surpreende porque estamos a falar da segunda maior economia do planeta, de uma das poucas do mundo que nos anos de crise econômica internacional continuou a crescer em grande ritmo e a atuar como locomotiva para boa parte do planeta, e que tem um potencial desestabilizador da economia mundial dezenas de vezes superior à que tem a Grécia.
Tudo começou no final do ano passado. O governo chinês, acostumado a taxas de crescimento econômico estrondosas (próximas dos dois dígitos), não viu com bons olhos que a economia chinês estivesse a reduzir o crescimento durante o ano de 2014 (o seu crescimento mais baixo dos últimos 25 anos), de forma que criou um plano para impulsionar o crescimento: a injeção estatal de enormes quantidades de capital nas bolsas para dar novas fontes de financiamento a empresas já muito endividadas. O objetivo era que os índices bolsistas, que estavam estagnados desde 2009, aumentassem de forma paulatina mas contínua. No entanto, o que conseguiram foi o início de um corrida bolsista que criou uma das maiores bolhas da história.
O que seguramente o governo chinês não soube valorizar bem foi o impacto que teria o contexto internacional sobre as suas bolsas. Afinal de contas, o Banco Central Europeu (BCE) estava já no final de 2014 a traçar a sua nova estratégia de Expansão Quantitativa, para inundar os mercados financeiros de dinheiro para estimular a economia europeia. Devido à enorme influência do BCE, muitos outros bancos centrais viram-se obrigados a aplicar medidas de injeção de dinheiro para não se verem arrastados pela decisão da zona euro. Desta forma, entre dezembro e fevereiro 17 bancos centrais de diferentes países implementaram medidas de estímulo monetário, inundando ainda mais os mercados financeiros com “dinheiro fácil”. Isto significava, que na maior parte do globo os agentes econômicos iam ter muito mais facilidade para se endividarem. Isto é, estava-se a lançar mais lenha na fogueira.
O efeito conjunto da decisão de Pequim e o contexto de facilidade de endividamento teve como consequência a origem da bolha bolsista nas praças chinesas, que se pode ver no gráfico acima. Quando há possibilidade de fazer um bom negócio e ao mesmo tempo possibilidade de pedir dinheiro barato, as pessoas lançam-se em massa a investir, endividando-se muito se for necessário. A ideia é comprar barato para vender caro, e já que este movimento é realizado por muitos investidores, o preço das ações tende a aumentar, de forma que fica assegurado que o preço da ação que se compra aumentará com a passagem do tempo. Cria-se um círculo virtuoso que estimula os novos investidores a participar na bolsa, impulsionando ainda mais para a subida dos preços e da bolsa. Enquanto a bolha continua, só há expectativa de ganhar dinheiro. Calcula-se que mais de 90 milhões de pequenos investidores chineses, a maioria sem conhecimentos financeiros, apostaram na onda de investimento em busca de dinheiro fácil e rápido.
As bolhas aparecem quando a atividade financeira, originalmente pensada para lubrificar a atividade produtiva, se afasta desta a uma velocidade crescente. O rumo normal dos acontecimentos deveria ser que a bolsa aumentasse ao mesmo ritmo que aumenta a produção, as vendas e os lucros das empresas nela cotadas. Mas se a bolsa aumenta muito mais rapidamente que estes indicadores da economia real, significa que se está a produzir uma bolha, e que o valor bolsista é uma ficção que não tem muito a ver com a produção real das empresas. Isto foi o que começou a ocorrer no final de 2014: os índices bolsistas de Shenzen e Xangai dispararam apesar de os lucros empresariais de muitas empresas serem nulos ou até negativos. Em conclusão: estava-se a gerar uma bolha. Entre janeiro de 2014 e o passado 6 de junho, o Shanghai Composite aumentou 142% e o Shenzen quase 200%.
Mas todas as bolhas rebentam, porque se baseiam numa ficção e não na realidade. Chega sempre um momento em que o círculo virtuoso que provoca um aumento dos preços pára e dá-se a viragem, tornando-se num círculo vicioso que empurra os preços para baixo. Uma vez que não há negócio comprando ações e vendendo-as logo, os investidores entram em pânico e lançam-se na venda das suas ações a qualquer preço. E a única forma de poder vender algo que ninguém quer é oferecendo um preço muito baixo. A consequência lógica é que as vendas disparam e os preços caem. Foi isto que começou a ocorrer em 15 de junho passado.
Desde então, o índice Shanghai Composition perdeu 31% do seu valor; o de Shenzhen 38%. 1.429 empresas, isto é 51% do total das cotadas, suspenderam a cotação das suas ações para evitar maiores perdas (e isso facilitado porque a legislação chinesa é muito peculiar e obriga à suspensão se num dia a cotação cai 10%). As bolsas de Japão, Austrália e Hong-Kong também foram muito afetadas, registrando quedas de 3,1%, 2% e 6%, respectivamente.
Os alarmes tocaram, na passada segunda-feira, na administração de Pequim, ciente de que com várias semanas de quedas não se tratava de um ajustamento passageiro, mas do rebentamento de uma bolha sem precedentes. As medidas que o governo chinês tomou são de enorme envergadura (e muitas delas impensáveis nas economias de mercado ocidentais):
1) Obrigou os grandes brokers a comprar ações no montante de 17 bilhões de euros a um preço superior ao do mercado (se as pessoas querem vender a 100, comprem a 110, por exemplo, conseguindo assim que os preços não caiam), com o objetivo de deter o rebentamento à custa de empurrar para estes operadores o registo de perdas multimilionárias. Isto foi algo que ocorreu também nos Estados Unidos no crash de 29 e que não teve qualquer sucesso.
2) Acaba de legislar para que as companhias de seguros possam investir também no mercado para que atuem como contrapeso na queda da bolsa.
3) Proibiu os grandes acionistas (os que têm mais de 5% do capital social de uma empresa) e os diretores de venderem títulos das suas próprias empresas, para reduzir o volume de vendas e a consequente queda dos preços. A proibição terá vigência durante 6 meses.
4) Suspendeu novas entradas na bolsa.
5) Deu mais facilidades de financiamento para operar (agora podem ser apresentados como colaterais antiguidades ou imóveis).
6) Proibiu as empresas estatais de reduzir a sua exposição ao mercado, obrigando-as a sofrer perdas se necessário for.
7) Instou o Banco Popular da China a injetar mais de 80 bilhões de dólares no mercado interbancário para que não parem as transações financeiras e as compras de ações (fundamentalmente de pequenas empresas) para tentar reanimar os índices.
Medidas excepcionais para uma situação excepcional. Ainda é cedo para saber se conseguirão dar os frutos esperados, porque as rápidos flutuações da bolsa podem provocar confusão. O que está claro é que o ambiente de pânico afetou já praças bolsistas de outros países, e que o efeito contágio poderá ser muito maior. Certamente que se estas condições se tivessem dado numa economia de livre mercado (mais interligada com outras economias similares e com características parecidas) as previsões seriam mais fáceis de fazer, mas acontece que a legislação e as instituições chinesas são muito particulares e isso torna muito difícil adivinhar o que vai suceder. O único ensinamento claro que podemos extrair por agora é que o governo chinês não tem tanto poder e controle sobre a sua economia como sempre tem manifestado ter. Parece que as cadeias que os poderes políticos chineses puseram ao livre mercado não são suficientemente fortes para manter a besta contida.
Artigo de Eduardo Garzón, publicado em lamarea.com em 9 de julho de 2015

Tsipras converte o Não em Sim e se rende às exigências da troika

Para a troika, é o povo que deve submeter-se a ditadura da economia e não a economia que deve servir às pessoas. É o mundo de cabeça para baixo, a distorção total. Tsipras tinha oferecido menos troika e sai como ovelha tosquiada com mais troika.

Por Marco Antonio Moreno

Alexis Tsipras

O governo grego deixou a democracia em uma pilha de cinzas e converteu o vote não, de rejeição das medidas da troika, em um capitulado Sim e se entrega aos ditames de Merkel e BruxelasOu pelo menos é isso que nós queremos acreditar. A verdade é que o voto Não, contrariamente aos cortes e aumentos de impostos tem sido subjugado, e haverá cortes e aumentos de impostos em toda a linha definida por Bruxelas. Este arranjo pode ser para aliviar a dramática situação do povo grego que exigem alívio imediato, e também fazê-lo parar a troika no sentido de evitar futuras "revoltas" dos países periféricos.


O plano, que foi votado ontem à noite pelo parlamento grego e aprovado com 251 votos a favor, 32 contra e 8 abstenções, é a implementação de cortes profundos; reformar o sistema de pensões e terminara reforma antecipada; aumentar a idade de aposentadoria para 67 anos até 2022; eliminar os subsídios agrícolas; aumentar o imposto sobre as sociedades de 26% para 28% e reduzir os gastos militares em 100 milhões de euros este ano e 200 milhões de euros em 2016, entre outras medidas.
As restrições de dinheiro e o pedido de crédito do governo Syrizatransformou o Não no referendo em Sim. A transição da democracia para a ditadura financeira é completa. Não havia escolha: Na Grécia, uma escassez de alimentos, serviços de saúde e bancos estão fechados. No entanto, a fuga de capitais de mais de 100 milhões de euros por dia é estimada porque a especulação nunca mais parou. O Primeiro-Ministro Alexis Tsipras junto ao novo ministro das Finanças (substituto de Yanis Varoufakis), Euclides Tsakalotos, chamado para assinar o acordo com os credores "para evitar uma catástrofe humanitária."
Tsipras não tinha escolha, e passou de herói a vilão em menos de uma semana. Para salvar o país, mesmo por alguns meses, ele teve que ceder à troika e aceitar cortes e impostos mais altos. Se este novo programa de austeridade deixar a situação pior do que antes, para Tsipras não vai dar-lhe mais do que renunciar por haver atuado como um cavalo de Troia e haver burlado a decisão dos gregos que votaram no domingo, por 61,3 cento de rejeição das políticas da troika. Esta decisão soberana do povo grego foi, nas palavras de Jean-Claude Juncker "irrelevante" e acabou no lixo. Claro, não é Tsipras, que tem a mão superior, mas confirma que a UE age como uma ditadura financeira e sempre defende os interesses de dinheiro.
Para a troika, é o povo que deve submeter-se a ditadura da economia e não a economia que deve servir às pessoas. É o mundo de cabeça para baixo, a distorção total. Tsipras tinha oferecido menos troika e sai como ovelha tosquiada com mais troika. Para isso não era necessário para fazer o referendo. A Grécia retirou-se da batalha sem nem mesmo esperar a primeira rodada. Terá que ver se sai de sufocamento com estas novas medidas ou afunda para sempre no abismo.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os movimentos na bolsa na China demonstram a manipulação do Estado

Onésimo Alvarez-Moro - El Blog Salmon
Xangai mercado de ações nos últimos 12 meses
Estes dias nós vimos volatilidade muito significativas nos mercados de ações chineses, onde a Bolsa de Xangai e Shenzhen caíram drasticamente, mais de 30% a de Xangai, e hoje vimos o inverso, com aumentos de 6% após as medidas anunciadas pelo Banco da China.
As autoridades chinesas entraram em pânico, não apenas os investidores, e foram rápidos em anunciar medidas, muitas das quais têm o efeito de aumentar os empréstimos para investir mais no mercado de ações, tais como:
  • redução dos níveis de juros, com mais reduções esperadas
  • a suspensão de novas ofertas de novas ações
  • reduzir as reservas bancárias
  • a flexibilização das regras de contratação de empréstimos e garantias
  • incentivar as empresas de corretagem para comprar ações, como se poderia recusar
  • todos apoiados com dinheiro do Banco Central, o Banco da China
¿ Este é o sistema financeira livre e "capitalista" que têm vindo a tentar nos engolir ao longo dos anos?
Em 2010 e 2011 eu escrevi "tem-se que  falar com os líderes chineses" e "A transformação interna da China é mais miragem do que a realidade", respectivamente, quando eu falei sobre o manejo da economia pelo governo da China.
Quando alguns meses atrás eu perguntei por que as empresas chinesas são tão bem sucedidas, a conclusão foi que elas fazem exclusivamente com a manipulação nos mercados do Partido Comunista Chinês. O Partido Comunista Chinês não fica atrás de sua manipulação dos mercados de ações e do sistema financeiro.
Muitos têm afirmado que a China vai assumir a liderança econômica e financeira mundial, com seus trilhões de reservas, que estão caindo a cada dia, vai comprar todos nós, substituir todos nós e todos nós mostrar.
Infelizmente, pode ser verdade que, como o resto do mundo proclama o mercado livre e sem manuseio de sistemas nacionais e permitir que a China, com sua clara manipulação econômica e financeira, esquerda e direita, que façam o que quiserem com o seu economia, as suas empresas e os seus bancos. Mal feito!

ONU: US$ 267 bilhões por ano adicionais para acabar com a fome até 2030

Agência da ONU afirmou que para erradicar o problema o mundo terá de gastar uma média de US$ 160 por pessoa na extrema pobreza; será preciso combinar proteção social com investimentos para os mais pobres.
Investimentos serão feitos em áreas rurais e urbanas. Foto: FAO
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A ONU afirmou que para erradicar a fome mundial até 2030 vão ser necessários mais US$ 267 bilhões, o equivalente a R$ 861 bilhões, em investimentos.
A conclusão consta do relatório lançado esta sexta-feira, em Roma, na Itália, pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA e pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, Ifad.
Extrema Pobreza
O anúncio foi feito antes da 3ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, que vai começar na segunda-feira, em Adis-Abeba, na Etiópia.
O valor corresponde a uma média anual de US$ 160,00 por cada pessoa que vive em condições de extrema pobreza no mundo, pelos próximos 15 anos.
Os investimentos vão ser feitos em áreas rurais e urbanas e também em proteção social para que os mais pobres possam ter acesso à comida e condições de melhorar suas próprias vidas.
O relatório das agências da ONU mostra que apesar dos progressos alcançados nas últimas décadas, atualmente mais de 800 milhões de pessoas, a maioria em regiões rurais, não têm comida suficiente para se alimentar.
Desnutrição Crônica
A eliminação da desnutrição crônica até 2030 é um fator chave do segundo objetivo da nova agenda de desenvolvimento sustentável pós-2015, que deve ser aprovada pela comunidade internacional em setembro.
O chefe da FAO, José Graziano da Silva, afirmou que "a mensagem do relatório é clara: se o mundo continuar adotando o mesmo sistema de trabalho, em 2030 mais de 650 milhões de pessoas vão continuar passando fome".
Graziano da Silva disse que é necessário usar uma estratégia que combine proteção social com investimentos direcionados ao desenvolvimento rural, agricultura e áreas urbanas que beneficiem os mais pobres.
Segundo ele, os 267 bilhões de dólares representam aproximadamente 0,3% do PIB global. Para o chefe da FAO, "esse é um pequeno preço a ser pago para acabar com a fome".
O relatório explica que a maior parte deste investimento virá do setor privado, mas será necessário também investimento público, principalmente nos setores de infraestrutura rural, transportes, saúde e educação.

Breves Comentários acerca da MP da Flexibilização da Jornada

Geraldo Magela Melo

A recente Medida Provisória nº 680, de 6 de julho de 2015 e seu Decreto nº 8.479, de 6 de julho de 2015, cria um novo modelo de flexibilização no Direito do Trabalho, ao meu sentir, nunca antes aqui observado, pois em passados recentes os governos simplesmente reduziam direitos trabalhistas e não exigiam contrapartida das empresas, como aconteceu com a instituição do Banco de Horas, que praticamente suprimiu o pagamento de horas extras no Brasil e o fim da sucessão trabalhista nas falências, que implicou no jargão: "flexibilizamos e não pagamos", como ocorreu com os funcionários da antiga VARIG que até hoje não tiveram o adimplemento de seus direitos a contento, amargando as demoras do burocrático processo judicial falimentar.
A busca pela manutenção do emprego é um dos pilares do Direito do Trabalho, assim, toda política pública apenas é válida constitucionalmente se observar tal valor.

A MP, que parece ter inspiração no modelo de Cogestão da Alemanha, permite aos Empregadores reduzir, de 6 a 12 meses, em até 30%, a jornada de trabalho de seus empregados, com redução proporcional do salário, sendo que, em observância ao art. 7, inciso VI da CF/88, condiciona à celebração de acordo coletivo com o sindicato de trabalhadores, o que é bastante salutar, pois força a categoria a tomar consciência de sua responsabilidade democrática e efetivamente participar das assembleias e não apenas ficar murmurando ou reclamando do Sindicato depois que as decisões foram tomadas.

A norma cria uma compensação em dinheiro equivalente a 50% do valor da redução salarial (15% de recuperação dos 30% que o trabalhador perdeu) e limitada a 65% do valor máximo da parcela do seguro-desemprego (R$ 1.385,91), enquanto perdurar o período de redução temporária da jornada de trabalho. Ou seja, o trabalhador perderia 30% do seu rendimento, mas receberá em compensação 15% do Governo Federal, desde que limitado até algo em torno de R$ 900,00 de ressarcimento. Em considerando o salário médio do Brasileiro em 2014 de R$ 1.166,84 (fonte http://portal.mte.gov.br/imprensa/salario-medio-alcanca-r-1-166-84.htm), a conclusão seria de que a maioria dos possíveis abrangidos teriam perda salarial de até 15%.

Calha lamentar é que em todas as crises a corda sempre estoura para o lado mais fraco, no caso, o trabalhador. Vale dizer as empresas não podem reduzir em 15% seus lucros? Bom seria se em todos os vários derradeiros incentivos fiscais que os patrões receberam, como redução de IPI, desoneração da folha e REFIS, tivessem tido contrapartida social, como manutenção dos empregos por determinado período, aumento salarial, o que, infelizmente, não foi ventilado naquela época e, agora, empresas que se capitalizaram muito com excessivos lucros nos derradeiros anos, simplesmente, estão dispensando em massa, porque elas (capitalistas que são) não podem ter nenhuma redução dos lucros e apenas sabem rogar redução de custos, entendendo o trabalhador como tal, coisa descartável, bastando uma mera dispensa sem aparente motivo.

De forma paradigmática, o novo diploma legal concede benefícios ao Patronato, mas obriga a contrapartida social, qual seja, proibição de dispensar arbitrariamente ou sem justa causa os empregados que tiverem sua jornada de trabalho temporariamente reduzida, o que não é o melhor dos mundos, mas há que se reconhecer um grande e razoável passo para uma política de estado que prima pela observância do primado do trabalho humano e da função social da propriedade, art 1, inciso IV da CF/88.

Vale louvar a MP no que ela tem de melhor, no nosso entender, compelir as Empresas a abrirem claramente e previamente suas contas aos sindicatos e não apenas alegarem que estão em crise, como soa em acontecer, bem como estar em dia com o FGTS e a Previdência Social, grandes conquistas históricas dos trabalhadores, esgotar os períodos de férias e horas a serem compensadas e, o grande avanço, a previsão de se criar comissão paritária composta por representantes do empregador e dos empregados. A Presidente da República conseguiu, por outras vias, a implementação de um direito dos trabalhadores que está na Constituição desde 1988, no art. 7, inciso XI e que o Congresso Nacional não regulamentou até a presente data, que é a participação dos trabalhadores na administração da empresa, grande passo para uma efetiva democracia em todos os segmentos da sociedade e para a formação da consciência cidadã nos trabalhadores brasileiros, para que possam assumir postura frente a defesa dos seus direitos e também responsabilidade para com seus deveres.

Oskar Heinz Vetter, citado por Antônio Álvares da Silva, em sua obra Co-gestão no Estabelecimento e na Empresa, nos instiga: A democracia não pode limitar-se ao Estado. Deve existir igualmente em todos os setores da vida social não podendo esbarrar-se às portas de nossas empresas e da administração (1991, p. 17, grifo nosso).

E que venha a Democracia, no Direito, no Estado, no Sindicato, nas contas das empresas e, essencialmente, na administração dos empreendimentos. Que essa norma sirva como incentivo a nós brasileiros a assumirmos a nossa responsabilidade enquanto cidadãos e efetivamente participarmos das decisões coletivas, emitindo nossas opiniões e assumindo nossas responsabilidades, só assim há o amadurecimento da sociedade.
____________________________
(*)Geraldo Magela MeloJuiz do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da Terceira Região. Doutorando em Direito pela UFMG. Mestre em Direito Privado, com ênfase em Direito do Trabalho, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, pós-graduado em Direito Tributário e Finanças Públicas pelo Instituto Brasiliense de Direito Público. Professor Universitário e de Pós-Graduação. Ex-Auditor Fiscal da Previdência Social e da Receita Federal do Brasil.

O acordo de Londres de 1953 a a amnésia da Alemanha frente sua dívida com a Grécia

Por Marco Antonio Moreno

Acordo de Londres de 1953
A 27 de fevereiro de 1953 se firmou o "Acordo de Londres", que permitiu à Alemanha cortar mais de metade de sua dívida correspondente a "reparações de guerra", juros e outros empréstimos concedidos na primeira metade do século XX. Este alívio da dívida negociado durante um par de anos os vencedores com os derrotados permitiu a Konrad Adenauer e Hermann Josef Abs, lançar seu "milagre econômico". A Alemanha tinha dívidas significativas pendentes no âmbito do Tratado de Versalhes, em 1919, para reparações da Primeira Guerra Mundial e também teve empréstimos significativos feitos durante a República de Weimar, não contando o interesse para suspender os pagamentos em 1933. A ajuda de aliados com cortes de mais de 50 por cento da sua dívida, permitiu a reconstrução do país devastado após a Segunda Guerra Mundial, e impulsionou o crescimento. Em 1951, a dívida da Alemanha ultrapassou 200 por cento do que o PIB do país e isto exerceu grande pressão sobre a economia e a recuperação. Por isso que o trabalho de Hermann Josef Abs que visava a redução da dívida é lembrado como um esforço conjunto da solidariedade global em todo o mundo. Em todo o mundo, exceto na Alemanha, onde seus líderes, aparentemente sofrem de uma amnésia perene que apagou suas memórias. 

Após a divisão do país em duas repúblicas, no final da Segunda Guerra Mundial, os negociadores alemães enfrentam um dilema crucial: a RFA devem concordar em assumir plenamente o legado de dívidas anteriores ao Terceiro Reich? Ou poderia fugir a esta responsabilidade como parte do seu território, a RDA estava ocupada por tropas soviéticas? Adenauer escolheu a primeira opção em um grande gesto político de soberania e também para dar credibilidade a Alemanha como um devedor internacional. A Alemanha necessitava ter acesso ao crédito para que as empresas alemãs pudessem financier-se no exterior.


Negociação da dívida
Quando as negociações começam em 1951, houve relutância em muitos países, como o Reino Unido e a França, uma vez que as dívidas anteriores à guerra, a Alemanha tinha deixado de pagá-las em 1933 e nunca concordou em fazê-lo. O jogo estava longe de ser ganho e o comportamento da Alemanha estava agora pondo as coisas para cima. A Alemanha tinha sido estrangulada pelo peso da obrigação de pagamentos sentenciado em 1919 e a cada ano o equilíbrio foi fortemente deficitário. Este fato tinha sido advertido pelo economista John Maynard Keynes que, indignado retirou-se da delegação de negociação e escreveu seu livro As Consequências Econômicas da Paz, recordado recentemente por Amartya Sen em as consequências econômicas de austeridade.
Quando a Alemanha na República de Weimar, parou de pagar a dívida em 1923 por seu saldo deficitário, um hábil banqueiro americano, Charles Dawes, desenvolveu um plano de prioridade para o reescalonamento da dívida. Os pagamentos anuais foram cortados e a própria dívida foi reestruturada com empréstimos internacionais a uma taxa de 7 por cento e um prazo de 35 anos. O seu valor total chegou a 800 milhões de velhos marcos alemães. Por um tempo, a economia alemã recuperou e foi capaz de pagar uma parte das suas dívidas. Com esta reestruturação da dívida, a Alemanha conseguiu ter saldos positivos, mesmo em seu balanço patrimonial entre 1926 e 1929. No entanto, o crash financeiro de 1929, afundou de volta para a Alemanha.
Em 1930, outro americano, Owen Young, desenvolveu um segundo plano de reescalonamento da dívida alemã. Novos empréstimos, no montante de 1,2 bilhões de marcos alemães, foram emitidos a uma taxa de 5,5 por cento por ano e distribuída em um período ainda maior de tempo. No entanto, as condições econômicas produto da Grande Depressão em curso naqueles anos, piorou a economia alemã dramaticamente. A Alemanha não poderia pagar e em 1931 o presidente dos Estados Unidos Herbert Hoover suspendeu o pagamento de reparações de guerra por um ano. Em 1932, os Aliados dispensaram qualquer compensação na conferência de Lausanne, e isso levou à primeira falta de pagamento oficial do Reich. A chegada de Adolf Hitler ao poder novamente atrasou os pagamentos e, após a eclosão da guerra a Alemanha esqueceu todos os seus compromissos financeiros.
Os débitos anteriores à guerra foram estimados no início em 14 bilhões de marcos alemães. A dívida do pós-guerra ascendeu a 16 bilhões de marcos alemães, num total de 30 bilhões de marcos alemães. Durante as negociações, ambas as dívidas foram reduzidas para menos de 14 bilhões de marcos, o que significa um desconto de mais de 55 por cento. Este equilíbrio foi acordado em parcelas anuais de US $ 340 milhões pelas dívidas antes da guerra e 200 milhões de dólares por ano para as dívidas de guerra. Com o desenvolvimento econômico que levou a Alemanha Ocidental na década de 1950, esses valores poderiam ser facilmente pagos. O montante anual da primeira parcela paga pela Alemanha em 1953 foi cerca de 4% do total das suas exportações. Os últimos pagamentos no âmbito dos empréstimos Dawes foram integralmente reembolsados em 1969, o de Young em 1980 e Alemanha reunificada terminou o cancelamento das reparações de guerra em 2010.
Esquecimento da dívida da Grécia
Sem embargo, por um erro histórico crucial, os acordos de 1953 esqueceram um pagamento de 7bilhões de dólares que foi condenada a pagar a Alemanha para a Grécia a título de compensação pela ocupação do país helênico de 1941 a 1944. A reunificação da RFA e a RDA sob o Tratado de Moscou, impediu a Grécia de buscar a compensação da guerra, em um polêmico acordo que foi contra-argumentado desde então. Em 2011, o historiador econômico Albrecht Ritschl, professor da Escola de Economia de Londres, disse que a Alemanha está esquecendo parte de sua história e o que a levou a se tornar o que é hoje.
No ano de 2012 e na sequência da eclosão da crise grega, o deputado Daniel Cohn-Bendit apresentou uma interpelação ao Parlamento Europeu observando que a dívida da Alemanha à Grécia agora valeria mais de 80 bilhões de euros, incluindo os juros ali adicionados. Este montante permitiria a Grécia pagar grande parte da dívida que o país tem com a União Europeia. A União Europeia não tem feito nada para exigir o pagamento que poderia aliviar o trauma do país Helênico, e a Alemanha tampouco tem interesse em lembrar. Recuperar a memória poderia dar uma virada importante para a crise que a Europa sofre hoje.

A austeridade falhou: Carta aberta de Thomas Pikkety a Angela Merkel

Cinco economistas de referência lançam um aviso à chanceler alemã, “a história irá recordá-la pelas ações desta semana”. Por Thomas Piketty , Jeffrey Sachs , Heiner Flassbeck , Dani Rodrik e Simon Wren-Lewi.

A austeridade sem fim a que a Europa está a sujeitar o povo grego não está simplesmente a funcionar. Agora, a Grécia disse já chega em voz alta.
Como boa parte do mundo sabia que ia acontecer, as exigências financeiras feitas pela Europa esmagaram a economia grega, levaram a um desemprego em massa, ao colapso do sistema bancário, agravaram a crise da dívida externa, com o problema da dívida a escalar para uns impagáveis 175 por cento do PIB. A economia está destruída com as receitas fiscais em queda livre, a produção e o emprego deprimidos e as empresas sedentas de capital.
O impacto humanitário tem sido colossal – 40 por cento das crianças vivem agora em situação de pobreza, a mortalidade infantil é altíssima e o desemprego jovem está perto dos 50 por cento. A corrupção, a evasão fiscal e as contas mal feitas por anteriores governos gregos ajudaram a criar o problema da dívida.
Os gregos cumpriram com grande parte das exigências de austeridade da chanceler alemã Angela Merkel – cortar salários, cortar nas despesas governamentais, cortar nas pensões, privatizaram, desregularam e aumentaram impostos.  Mas, nos últimos anos, o conjunto dos apelidados programas de ajustamento infligidos à Grécia serviram apenas para provocar uma Grande Depressão que já não se via na Europa desde 1929-1933.O tratamento prescrito pelo ministério das Finanças alemão e Bruxelas sangrou o doente, não curou a doença. 
Juntos, apelamos à chanceler Merkel e à troika para considerar uma correção do trajeto, para evitar mais desastres e permitir que a Grécia permaneça na zona euro. Agora, o governo grego está a ser convidado a colocar uma arma à cabeça e puxar o gatilho. Infelizmente, a bala não só vai matar o futuro da Grécia na Europa. Os danos colaterais vão matar a zona euro enquanto farol de esperança, democracia e prosperidade, e podem levar a consequências económicas de longo alcance por todo o mundo.
Na década de 1950, a Europa foi fundada sobre o perdão das dívidas do passado, nomeadamente da Alemanha, o que gerou uma enorme contribuição para o crescimento do pós-guerra e para a paz. Hoje, precisamos de reestruturar e reduzir a dívida grega, dar espaço para a economia respirar e se recuperar, e permitir à Grécia pagar um montante mais reduzido da dívida num longo período de tempo. Agora, é o momento para refletir humanamente o punitivo e falhado programa de austeridade dos últimos anos e para concordar com uma redução significativa das dívidas gregas, em conjugação com as necessárias reformas na Grécia.
Para a chanceler Merkel a nossa mensagem é clara; nós pedimos que tome esta atitude vital de liderança para a Grécia e para a Alemanha, e também para o mundo. A história irá recordá-la pelas ações desta semana. Nós esperamos e contamos consigo para tomar medidas corajosas e generosas para com a Grécia, que servirão a Europa para as gerações vindouras.
Atenciosamente,
Heiner Flassbeck, ex-secretário de Estado das Finanças do Governo Federal da Alemanha
Thomas Piketty, professor de economia na École d'économie de Paris
Jeffrey D. Sachs, professor de desenvolvimento sustentável, professor de políticas de saúde e gestão e diretor do Instituto da Terra na Universidade de Columbia.
Dani Rodrik, Fundação Ford, professor de política económica internacional, Harvard Kennedy School
Simon Wren-Lewis, professor de política económica, Blavatnik School of Government, Universidade de Oxford
Tradução de Fabian Figueiredo para esquerda.net

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Eduardo Cunha quer ser rei

A forma mais rápida de Eduardo Cunha chegar ao maior posto de mando da República seria a instituição do parlamentarismo; em entrevista ao Roda Viva da TV Cultura meses atrás o presidente da Câmara se disse favorável ao sistema de governo.

Vem ganhando força em Brasília o debate em torno do parlamentarismo, o principal argumento é o da agilidade em que com esse sistema se pode solucionar crises institucionais. Uma medida já usada na crise da renúncia de Jânio em 1961; no entanto, as trocas de primeiros-ministros foram sucessivas, ao todo três exerceram a função em menos de 3 anos de duração do sistema (Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima).

A ideia de resolução de crise por uma troca de primeiro-ministro pode se tornar em crises de inúmeras trocas; a ideia pode aparecer com mais uma solução simples para o Brasil e não dar em resultado nenhum. Por outro lado, seria uma forma "institucional" de suprimir os poderes da presidenta Dilma, enfrentando uma crise política gravíssima.

Para Eduardo Cunha a chance de chegar ao posto máximo da república, com grande habilidade parlamentar e muito bem entrosado com o "centrão" e o chamado baixo clero, dificilmente Cunha não inauguraria o novo sistema, caso for adotado. Haveria, no entanto, uma mudança entre o que fora votado em 2014 e o que passaria a deter o poder.



Educação para quê

Educação em política surge com ferramenta de "esclarecimento",  a evolução cívico-política das massas para a construção de uma sociedade instruída.

A educação apresentada como ferramenta de desenvolvimento social, comum nos países não desenvolvidos, tem muito mais a ver com um comparativo do ponto de vista civilizatório do que qualquer outra coisa. Os intelectuais desses países comparam-nos com os países de alto nível de desenvolvimento e observam uma diferença extrema entre os padrões que englobam cultura, higiene, comportamento etc; e enxergam nisso uma meta a ser buscada.

A conclusão feita é de que aquelas sociedades que servem de referencial desenvolveram, acima de tudo, um grau de cidadania sem o qual os seus países, governados na base da corrupção política ou do autoritarismo, jamis chegarão a um patamar civilizatório digno. A educação dessa maneira passa ao centro das lutas políticas, uma busca pela "modernização".

A crise no mercado de trabalho e a desindustrialização precoce do Brasil

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, mostram que o emprego formal vem caindo mês a mês nos últimos 5 anos.

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

comportamento do emprego formal

O mercado de trabalho no Brasil já vem apresentando baixo desempenho desde 2012. Embora a taxa de desemprego estivesse baixa até o final de 2014, a criação de emprego não estava acompanhando a população em idade ativa. Agora em 2015 a crise bateu feia.
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, iniciada em janeiro de 2012, a taxa de desemprego subiu para 8,0% no trimestre até abril deste ano, o maior nível já observado na série histórica. Para uma população economicamente ativa de cerca de 100 milhões de pessoas, o número de desempregados chegou a 8 milhões pessoas.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, mostram que o emprego formal vem caindo mês a mês nos últimos 5 anos. Em 2010, houve uma criação de aproximadamente 300 mil vagas tanto no mês de abril, quanto em maio. Nos anos seguintes, a geração de emprego celetista foi diminuindo, mas se manteve positiva durante todo o período até 2014.
Porém, os dados do CAGED, mostram que foram eliminados 97.828 empregos celetistas em abril e 115.599 empregos em maio de 2015. Na série ajustada, que incorpora as informações declaradas fora do prazo, no acumulado do ano os dados mostram um decréscimo de 243.948 empregos, ou -0,59% do estoque de assalariados com carteira assinada. Nos últimos 12 meses a redução foi de 452.835 postos de trabalho (1,09% no contingente total de celetistas). No ritmo atual, o ano de 2015 deve terminar com a eliminação de cerca de um milhão de empregos formais no país.
Segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas do país foi de 6,7% em maio de 2015, o quinto aumento consecutivo, conforme divulgou o IBGE. Trata-se da maior taxa desde julho de 2010 (6,9%), retornando, portanto, ao período anterior ao do primeiro governo Dilma Rousseff (2011 a 2014). Levando-se em conta, os meses de maio, é a maior taxa desde 2010 (7,5%). A população desocupada nas seis regiões metropolitanas (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre) da PME foi de 1,6 milhão de pessoas em maio de 2015.

taxa de desocupação

Entre os adolescentes de 15 a 17 anos a taxa de desemprego foi de 30,7% em maio de 2015. Entre os jovens de 18 a 24 anos foi de 16,4%. Entre as pessoas de 25 a 49 anos o desemprego foi de 5,6% e entre aqueles de 50 anos e mais a taxa foi de 2,6% em maio. Arranjar o primeiro emprego está cada vez mais difícil.
Ainda segundo a PME, o rendimento médio real do trabalho principal, habitualmente recebido por mês, pelas pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas no trabalho principal da semana de referência era de R$ 2.229,28 em maio de 2014 e caiu para R$ 2.117,10 em maio de 2015, uma queda de 5% no último ano.
A crise do emprego e do rendimento tem a ver com o processo de desindustrialização precoce do Brasil. Uma das formas de medir a desindustrialização é quando a produção industrial perde participação no PIB. A desindustrialização precoce tem caráter negativo pois prejudica a criação de emprego formal, reduz o estoque de capital por trabalhador e interrompe o processo de avanço tecnológico que viabiliza o aumento da produtividade. O gráfico abaixo retirado do Panorama da indústria de transformação brasileira, da FIESP (2014), mostra que a participação da indústria no PIB está abaixo daquela que existia antes do governo Juscelino Kubitschek. O ritmo de queda se acelerou depois da abertura do governo Fernando Collor e voltou a cair muito nos últimos 10 anos. Em geral, a sobrevalorização cambial (a chamada “doença holandesa”) contribui para a desindustrialização precoce, que por sua vez, contribui para a redução da produtividade e para a “especialização regressiva” da estrutura produtiva do país.

evolução da participação da indústria de transformação no pib

Em mais um capítulo do processo de desindustrialização e da crise da cadeia produtiva da Petrobras, a direção do estaleiro Mauá, em Niterói, divulgou uma circular no dia 02 de julho de 2015 comunicando o fechamento das portas da empresa até que se adeque as questões financeiras. O comunicado pedia que os trabalhadores permaneçam em casa. Se confirmarem esse fechamento haverá mais dois mil trabalhadores demitidos. O Sindicato dos Metalúrgicos de Niterói repudiou, as posições da direção do Estaleiro Mauá e a péssima gestão financeira da empresa. O sonho do pré-sal como alavancador da indústria nacional está indo por água abaixo. O Estaleiro Mauá – um dos mais tradicionais do país – é apenas um exemplo da situação de caos que vive o setor da indústria da transformação no país e aponta para um agravamento da crise do desemprego. O desemprego também cresce no município gaúcho de Charqueadas, onde a Petrobras rompeu um contrato com a empresa Iesa Óleo e Gás (envolvida na Operação Lava Jato) para a construção de 24 módulos para seis plataformas, que agora serão produzidas na Ásia.
O fim do mito do pré-sal agrava a situação da industrialização brasileira. Desde a década de 1980 o Brasil tem investido mais na construção de shopping centers do que na construção de fábricas. O contrário do que fazem os países do Leste Asiático. Ou seja, o Brasil tem privilegiado o consumo ao invés do investimento. A baixa formação bruta de capital fixo faz com que o país não incorpore novas tecnologias, não melhore a infraestrutura e não garanta o aumento da produtividade do trabalho. Também não gera oportunidades de emprego no ritmo necessário para acompanhar a população em idade economicamente ativa.
Como visto, a industrialização está em baixa e o desemprego está em alta, qualquer que seja a fonte utilizada. O rendimento também está em baixa. As perspectivas para o restante do ano de 2015 não são boas e o Brasil pode estar desperdiçando os últimos anos das condições demográficas favoráveis. Subaproveitar o potencial da força de trabalho e regredir na estrutura produtiva é o mesmo que jogar fora qualquer possibilidade de progresso e eliminar qualquer futuro promissor para o país. A crise política só agrava a situação econômica. O governo Dilma Rousseff está completamente perdido e o povo brasileiro vai pagar a conta dos malfeitos. O Brasil tem uma população 20 vezes maior do que a da Grécia. Nosso tombo pode ser, portanto, 20 vezes maior e mais grave.


Referências:
IBGE, Em maio, desocupação foi de 6,7%, RJ, 25/06/2015
FIESP. Panorama da indústria de transformação brasileira, São Paulo, 3ª Edição, 07 de Março de 2014

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 08/07/2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Pânico nas bolsas chinesas

Apesar da intervenção do Banco Central Chinês, bolsas de Xangai e Shenzhen registaram forte queda; metade das ações foram suspensas nesta quarta-feira. A China anuncia medidas para estabilizar o mercado após ações desvalorizarem 30% em três semanas no país.

Colapso financeiro na segunda maior economia do mundo pode afetar os mercados internacionais
O Banco Popular da China anunciou nesta quarta-feira (08/07) uma nova série de medidas com o objetivo de estabilizar os mercados do país. Desde o início do ano, a bolsa de valores do gigante asiático subiu mais de 100%, mas, nas últimas três semanas, as ações caíram 30%, criando pânico entre os investidores.
Nesta manhã, o governo chinês declarou que injetou maior liquidez na Corporação de Financiamento da Bolsa de Valores da China (CFS, na sigla em inglês) na tentativa de apoiar o desenvolvimento estável das bolsas do país.
Outras instituições chinesas também adotaram iniciativas semelhantes de crédito no meio da extrema volatilidade dos mercados.
Apesar dessas medidas, o índice geral da Bolsa de Xangai registou uma forte queda de 5,9% nesta quarta. Já a Bolsa de Shenzhen também abriu na manhã de hoje em baixa de 4,44% e chegou a meio com queda de 3,30%.
Com a queda das duas principais bolsas de valores da nação, mais da metade das ações das empresas tiveram as suas operações interrompidas.
À agência estatal oficial Xinhua, o porta-voz da Comissão Reguladora da Bolsa de Valores da China, Deng Ge, declarou que a entidade continuará a oferecer “abundante liquidez" às grandes empresas, com o intuito de fazer com que as “as transações voltem à normalidade depois do pânico dos investidores”.
No início de 2015, houve um aumento no volume de negociações muito grande, que estimulou a compra de ações na China, supervalorizando a principais bolsas como incentivo para o crescimento económico de um país cujo PIB (Produto Interno Bruto) avançou 7% no primeiro trimestre, o pior ritmo em 6 anos. Entretanto, ainda não se sabe exatamente o motivo da queda das bolsas chinesas, que a médio prazo podem afetar os mercados internacionais.
"O que acontece na China vai ter consequências muito mais abrangentes do que aquilo que possa acontecer na Grécia ao longo das próximas semanas ou meses", afirmou na semana passada àBloomberg Frederic Neumann, responsável pelo departamento de estudos económicos da Ásia no HSBC em Hong Kong.
Artigo publicado em Opera Mundi

A era da intercomunicação

Por que os blogs, o RSS e outras tecnologias podem mudar os padrões de informação com que a humanidade se acostumou há séculos. O que isso tem a ver com a crise da política tradicional e a possibilidade de uma alternativa [1]

por Manuel Castells

A informação e a comunicação sempre foram vetores dos poderes dominantes, dos poderes alternativos, das resistências e das mudanças sociais. O poder de influência sobre o pensamento das pessoas que é exercido pela comunicação é uma ferramenta de resultado incerto, porém fundamental. É apenas através do exercício da influência sobre o pensamento dos povos que os poderes se constituem em sociedades, e que as sociedades evoluem e mudam.

A repressão física ou mental é certamente uma importante dimensão do poder dominante. No entanto, se um povo modifica radicalmente seu modo de ver as coisas, se ele passa a pensar de maneira diferente e por si mesmo, não há poder que possa se opor.

Torturar um corpo é bem menos eficaz do que moldar um pensamento. Eis o motivo pelo qual a comunicação é a pedra de toque do poder. O pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve tudo e é difundido por toda a sociedade) se elabora na comunicação. É da comunicação que vêm as imagens, as informações, as opiniões e é por meio desses mecanismos de comunicação que a experiência é divulgada e transmitida ao coletivo/na coletividade.

Tudo isso se aplica fortemente em nossas sociedades, no seio das quais as redes de comunicação atravessam todos os níveis, do global ao local e do local ao global. Conseqüentemente, as relações dentro do poder dominante, elemento que constitui toda e qualquer sociedade e determina suas evoluções, são cada vez mais elaboradas na esfera da comunicação.



Mídia é poder, mas manipulação tem limites


Na sociedade contemporânea, a política depende diretamente da mídia. As agendas do sistema político e mesmo as decisões que dele emanam são feitos para a mídia, na busca de obter o apoio dos cidadãos ou, pelo menos, atenuar a hostilidade frente às decisões tomadas.

Isso não quer dizer que o poder se encontre incondicionalmente nas mãos da mídia, nem que o público tome posições em função do que é sugerido pela mídia. Pesquisas em comunicação mostraram há muito tempo até que ponto o público é ativo e não passivo.

Além disso, os meios de comunicação possuem, internamente, sistemas que controlam sua capacidade de influenciar o público, pois antes de qualquer coisa, eles são empresas submetidas aos imperativos da rentabilidade e precisam ter audiência ou estender sua difusão. Em geral, eles são diversificados, competitivos, e devem ter tanta credibilidade quanto seus concorrentes. Eles freqüentemente se impõem outras restrições, no que diz respeito à ética profissional ou jornalística (mediadores, conselhos de ética, etc.). Um meio de comunicação não é, portanto, algo fadado a distorcer ou manipular informações.

No entanto, precisamos focar nossa atenção nas tendências. O jornalismo militante, ideológico, a mídia engajada, por exemplo, foi durante muito tempo tido como uma mídia sem a qualidade da «objetividade» — logo, sem consumidores. Os jornais que se denominam «órgãos de partido» praticamente desapareceram ou enfretam graves crises de distribuição. No entanto, a situação começa a mudar: o militantismo ou engajamento ideológico pode se tornar um modelo altamente rentável. Por exemplo, a Fox News, uma das principais redes de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp, que pertence a Rupert Murdoch), conquistou uma grande parte da audiência conservadora norte-americana ao defender, sem a menor preocupação com a objetividade, as teses dos neoconservadores favoráveis à invasão do Iraque, em 2003.

A segunda tendência que pode ser observada atualmente está na perda da autonomia por parte dos jornalistas profissionais com relação aos seus empregadores. Nesse âmbito joga-se boa parte do complexo jogo das manipulações midiáticas.

Um estudo recente procurou explicar que, em meados de 2004, 40% dos norte-americanos [2] ainda acreditava que o Sadam Hussein e a Al Quaeda trabalhavam lado a lado e que Saddam possuía armas de destruição em massa no Iraque. Isso um ano depois de o contrário ter sido provado. Esse estudo enfatiza as ligações entre a máquina da propaganda do governo Bush e as produções do sistema midiático.



Quando a omissão é a arma decisiva


No entanto, isso tudo é apenas a ponta do iceberg, pois a maior influência que a mídia exerce sobre a politica não é proveniente do que é publicado, mas do que não o é: de tudo o que permanece oculto, que passa desapercebido. A atividade midiática repousa sobre uma dicotomia: algo existe no pensamento do público se está presente na mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na sua capacidade de ocultar, de mascarar, de omitir.

A necessidade de algo ter de existir na mídia para existir politicamente induz uma relação orgânica à linguagem midiática, encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na mídia impressa ou na internet. Os meios de comunicação em massa fazem uso de um jargão específico que não chega a ser uma dialeto próprio, mas algo semelhante.

A mensagem midática mais simples e também a mais poderosa é a imagem. E o rosto é a mensagem mais simples que a imagem pode transmitir. Sendo assim, existe uma ligação orgânica entre a midiatização da política, a personalização da mídia e a personalização da política. A partir do momento em que se passa a cultivar uma vida política baseada em querelas pessoais e de imagem ou em manipulações midiáticas, os programas de governo perdem sua importância, pois ninguém se refere a eles e os cidadãos não lhes dão mais importância (com toda a razão).

O triunfo da «personalização» da política reside no fato de que a forma mais convincente de combater uma ideologia passa a ser o ataque contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação e os boatos tornam-se uma arte dominante na política: uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficaz do que uma mensagem positiva. Todos os partidos utilizam essa estratégia: eles manipulam e até mesmo fabricam informações. E não é a mídia quem cuida disso. Esse trabalho cabe aos intermediários, às empresas especializadas.

O resultado é uma ligação direta entre a «midiatização» da política, sua personalização e a difamação ou a prática do escândalo político, cuja banalização acarretou, nos últimos quinze anos, assassinatos de pessoas eleitas, crises de governo e até mesmo de regime político.

Isso nos leva à atual e profunda crise da legitimidade política em escala mundial, uma vez que há uma ligação forte e evidente, mesmo não sendo exclusiva, entre a prática do escândalo, a midiatização exacerbada da cena pública e a falta de confiança por parte dos cidadãos no sistema. Essa desconfiança pode ser ilustrada por uma pesquisa feita pelos serviços da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo a qual dois terços dos habitantes do planeta afirmam não se sentir representados pelos seus governantes.



Intercomunicação e crise de legitimidade política


Trata-se, então, de uma crise de legitimidade. Mas embora o mundo afirme não ter mais confiança nos governos, nos dirigentes políticos e nos partidos, a maioria da população ainda insiste em acreditar que pode influenciar aqueles que a representam. Ela também crê que pode agir no mundo através da sua força de vontade e utilizando seus próprios meios. Talvez essa maioria esteja começando a introduzir, na comunicação, os avanços extraordinários do que eu chamo de Mass Self Communication (a intercomunicação individual).

Tecnicamente, essa Mass Self Communication está presente na internet e também no desenvolvimento dos telefones celulares. Estima-se que haja atualmente mais de um bilhão de usuários de internet e cerca de dois bilhões de linhas de telefone celular. Dois terços da população do planeta podem se comunicar graças aos telefones celulares, inclusive em lugares onde não há energia elétrica nem linhas de telefone fixo. Em pouco tempo, houve uma explosão de novas formas de comunicação. As pessoas desenvolveram seus próprios sistemas: o SMS, os blogs, o skype... O Peer-to-Peer ou P2P [3] torna possível a transferência de qualquer dado digitalizado. Em maio de 2006, havia 37 milhões de blogs (em janeiro de 2006, havia 26 milhões). Em média, um blog é criado por segundo no mundo, o que significa 30 milhões por ano...55% dos blogueiros continuam a alimentar seus blogs até 3 meses depois deles terem sido abertos. A quantidade de blogueiros é 60 vezes maior do que era há seis anos. E ela dobra de seis em seis meses...

Como, no início, a língua inglesa era o idioma dominante na internet, atualmente, mais de um-terço dos sites da web são em inglês. O chinês vem em seguida, depois o japonês, o espanhol, o russo, o francês, o português e o coreano... O que realmente importa não é tanto a existência de todos esses blogs, mas a ligação que há entre eles, e o que eles condensam e difundem com a totalidade de interfaces comunicacionais (esta interligação é viabilizada pela tecnologia RSS [4]).

A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa ? porém, produzida, recebida e experienciada individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos sociais de todo o mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova ferramenta de mobilização e organização. A mídia tradicional tenta acompanhar esse movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e midiático passou a se envolver com o maior número possível de blogs. Falta pouco para que, através da Mass Self Communication, os movimentos sociais e os indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a grande mídia, a controlar as informações, a desmentí-las e até mesmo a produzi-las.



Reaberta a batalha mais antiga da História


O movimento altermundialista contra o capitalismo global, com toda a sua diversidade, utiliza há muito tempo a internet e todos os recursos da Mass Self Communication ? não só como ferramenta de organização, mas também como um espaço para debates e intervenções. Também foi desenvolvida por esse mesmo meio uma capacidade de exercer influência sobre a mídia dominante, passando pela Indymedia ou uma série de outras redes alternativas e associativas.

A constituição de redes de comunicação autônomas chega também aos meios de comunicação mais tradicionais. As televisões de rua e as rádios alternativas ? como a TV Orfeo em Bolonha, a Zaléa TV em Paris, a Occupen las Ondas em Barcelona, a TV Piqueteros em Buenos Aires ? e uma enorme quantidade de mídias alternativas, ligadas em rede, formam um sistema de informação verdadeiramente novo.

Mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, aderiu a essa tendência, criando sua própria rede de televisão, na qual atualmente cerca de 40% do conteúdo é alimentado pelos telespectadores. As campanhas presidenciais também se renderam à influência desse novo meio de comunicação. Por exemplo, em 2003-2004, a candidatura de Howard Dean não teria decolado se não fosse a sua capacidade de mobilização por meio da internet [5].

Em segundo lugar está a «mobilização política instantânea», via telefone celular, que aparece há dois anos como um fenômeno decisivo [6]. Essa «onda» mobilizadora, apoiada por redes de comunicação entre telefones celulares obteve efeitos impressionantes na Coréia do Sul, nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no Equador, na França... Pode obter um efeito imediato, como em abril passado na Tailândia, com a destituição do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra pelo rei Bhumibol Adulyadej. Ou na Espanha, com a derrota, nas eleições legislativas em março de 2004, do Partido Popular de José Maria Aznar. A suspeita de que as autoridades estivessem manipulando informações, com o intuito de atribuir ao ETA a culpa pelos atentados em Madri, fez com que uma infinidade de mensagens circulasse pelos telefones celulares. Isso resultou na organização de uma enorme manifestação, em um dia no qual, teoricamente, devido ao choque e ao luto, seria impossível falar sobre política.

Isso não quer dizer que tenhamos de um lado a mídia aliada ao poder, e de outro, as Mass Self Media, associadas aos movimentos sociais. Ao contrário: cada uma opera sobre uma dupla plataforma tecnológica. Mas a existência e o desenvolvimento das redes de Mass Self Communication oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior organização política àqueles que não fazem parte do sistema tradicional.

Neste momento em que a democracia formal e tradicional está particularmente em crise, em que os cidadãos não acreditam mais em suas instituições democráticas, o que percebemos diante da explosão das Mass Self Communications assemelha-se à reconstrução de novas formas políticas, mas ainda não é possível dizer no que elas resultarão.






[1] O presente texto, relido e corrigido pelo autor, foi retirado de sua intervenção no Seminário "Les médias entre les citoyens et le pouvoir" («A mídia entre os cidadãos e o poder»), organizado pelo Fórum Mundial da Política e a província de Veneza em San Servolo (Itália), em 23 e 24 de junho de 2006.
[2] De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade de Maryland em outubro de 2003, 60% dos norte-americanos ? e 80% dos que assistiam a Fox News ? acreditavam em pelo menos uma dessas inverdades: 1. Foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque; 2. Existem provas de que haja uma aliança entre o Iraque e a Al-Qaeda; 3. A opinião pública mundial apóia a intervenção militar norte-americana no Iraque." Ler, de Eric Klinenberg, "A contestação da ordem midiática ", Le Monde Diplomatique-Brasil, abril de 2004 [Nota da Redação].
[3] P2P designa um modelo de rede de informática onde os elementos (ou nós) não têm um papel exclusivo de cliente ou servidor. Funcionam das duas maneiras, sendo ora cliente ora servidor dos demais nós dessa rede, contrariamente aos sistemas do tipo "cliente-servidor", no sentido comum do termo. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/P2P [Nota da Redação].
[4] Um fluxo RSS ou uma fonte RSS (RSS feed, em inglês), que é uma sigla para Really Simple Syndication (Gerenciamento Realmente Simples), ou para Rich Site Summary (Sumário de um site atualizado), é um formato de gerenciamento de conteúdo web. Esse sistema possibilita que os sites de informação ou blogs distribuam notícias automaticamente, e que os internautas tenham acesso às atualizações de suas fontes preferidas sem a necessidade de se visitar o website. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS [Nota da Redação].
[5] Tido como favorito na corrida pela candidatura à presidência pelo partido democrata em 2004, Dean foi depois derrotado por John Kerry ? por sua vez, batido, nas eleições, por George Bush [Nota da Redação].
[6] Ver Manuel Castells, Jack Linchuan Qui, Mireia Fernández Ardevol e Araba Sey, Mobile Communication and Society, A Global Perspective, MIT Press, Boston, 2006, 392 páginas.