"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O crescimento demoeconômico da África, degradação do solo e insegurança alimentar

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
declínio da produtividade dos solos africanos

A África é o continente que apresenta as maiores taxas de pobreza e de pessoas passando fome no mundo. Mesmo apresentando crescimento econômico acima da média mundial nos últimos 15 anos, a produção per capita de alimentos ficou abaixo de outras regiões do mundo. O mais grave é que o futuro pode estar comprometido em decorrência da degradação ambiental, da perda de biodiversidade e dos danos às terras aráveis e à produção de comida.
A grave situação da África é retratada no relatório “No ordinary matter: conserving, restoring and enhancing Africa’s soils” (2014), que mostra que o continente sofre com uma tripla ameaça: a) degradação do solo; b) colheitas fracas e c) uma população crescendo em ritmo acelerado. A publicação do relatório ocorre em função do Ano Internacional dos Solos (2015), estabelecido pelas Nações Unidas (ONU).
O relatório diz que a estabilidade política, a qualidade ambiental, a fome, a pobreza têm a mesma raiz e, no longo prazo, uma solução fundamental, passa pela restauração do mais básico de todos os recursos, o solo. A recomendação básica é que os governos africanos e os doadores internacionais invistem na gestão da terra e do solo, criando incentivos sobre os direitos à terra seguras para incentivar o cuidado ea gestão adequada dos terrenos agrícolas. Além disso, o relatório recomenda aumentar o apoio financeiro para investimento na gestão sustentável da terra.
De acordo com dados da FAO, a pressão humana deixou um terço de todos os solos voltados à produção de alimentos, degradadas em todo o mundo. Sem novas abordagens para melhor gerir a saúde do solo, a quantidade de terra arável e produtivo disponível por pessoa em 2050 será um quarto do nível que era em 1960.
Os países pobres da África estão em uma armadilha, pois os pequenos agricultores geralmente não têm os recursos para investir na conservação do solo e da água. Antes de agricultores receberam treinamento sobre os métodos de manejo do solo, eles aplicaram fertilizantes, por exemplo, sem ter seus solos testados. O acesso limitado a recursos financeiros faz com que esses agricultores não utilizem as melhores práticas de gestão de solos, o que levaria a ganhos de longo prazo.
De acordo com o relatório, estima-se que 180 milhões de pessoas na África Subsariana são afetados pela degradação do solo, que custa cerca de 68 bilhões de dólares em perdas econômicas, como resultado de solos danificados. A saúde do solo é fundamental para aumentar a produtividade da agricultura da África, que é uma importante fonte de emprego e geração de renda.
Relatório da Divisão de população da ONU mostra que a África vai ser a região com o maior crescimento populacional no período 2015 a 2030. Enquanto o mundo deve passar de 7,3 bilhões de habitantes em 2015 para 8,4 bilhões em 2030 (crescimento de 15%) a África vai passar de 1,17 bilhão de habitantes para 1,6 bilhão no mesmo período (crescimento de 40%). Cerca da metade do acréscimo populacional mundial no próximo quindênio virá da África, enquanto haverá decrescimento na Europa. A população africana corresponde a 15,9% da população mundial em 2015 e vai passar para 19,4% em 2030.
Assim, enquanto cresce a população – especialmente onde a fecundidade é alta e existe grande número de gravidez indesejada – diminui a fertilidade do solo. Diversos dados mostram que o aquecimento global terá um impacto negativo sobre o solo e as terras férteis, com consequências devastadoras para a segurança alimentar. De acordo com o relatório “Mudanças Climáticas e Segurança em África”, o continente deve esperar um aumento da temperatura que será maior do que a média global. A precipitação anual deverá diminuir durante a maior parte da região, com a possível exceção da África oriental. Menos chuva vai ter sérias implicações para a agricultura subsaariana.

população por regiões

Desde 1991, uma área maior do que os Estados Unidos e Canadá foi perdida para a erosão do solo na África e não mostra sinais de reversão. Florestas nativas e vegetação silvestre estão sendo desmatadas e convertidas em terras agrícolas em uma taxa maior do que qualquer outro período da história. A vida selvagem sofre mais do que nunca. A pressão das atividades antrópicas sobre os ecossistemas não é apenas da África.
O relatório do PNUMA intitulado “Coerência das Políticas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Uma Perspectiva dos Recursos Naturais” (07/07/2015), mostra que até 2009 extraíam-se anualmente, em termos globais, 68 bilhões de toneladas de recursos comparados aos 7 bilhões em 1900. A extração anual de matéria em todo o mundo aumentou oito vezes durante o século XX. A pressão sobre o conjunto dos recursos bióticos também tem aumentado. Mais de 20% das terras cultivadas, 30% das florestas e 10% das pastagens estão sendo degradadas a uma taxa que debilita a capacidade de ecossistemas críticos se renovarem. Até 25% da produção mundial de alimentos pode ser perdida até 2050 devido às alterações climáticas, a degradação dos solos, escassez de água e outras questões e, mesmo assim, continuamos desperdiçando um terço dos alimentos produzidos a cada ano.
Continuar neste caminho de aumento das demandas antrópicas com redução da biocapacidade dos solos e dos ecossistemas é seguir o rumo da fome, da miséria e do colapso social e ambiental.
Referências:
No ordinary matter: conserving, restoring and enhancing Africa’s soils (2014)


Informe del Secretario General. Integración de las cuestiones de población en el desarrollo sostenible, incluso en la agenda para el desarrollo después de 2015, ONU, abril 2015http://www.un.org/en/development/desa/population/commission/pdf/48/sg_report/ECN920153_ES.pdf
PNUMA. Principal desafio das novas metas da ONU será tirar 1 bilhão de pessoas da extrema pobreza, 07/07/2015


UNEP, Policy Coherence of the Sustainable Development Goals: A Natural Resource Perspective, United Nations Environment Programme, July 2015



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 17/07/2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Países chegam a acordo final para financiar desenvolvimento sustentável

Anúncio foi feito na 3ª Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento que está sendo realizada em Adis-Abeba, Etiópia; vão ser adotadas medidas para lidar com vários desafios globais.
Imagem: ONU
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
Os países reunidos na 3ª Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento chegaram a um acordo para financiar a nova agenda de desenvolvimento sustentável pós-2015.
No encontro, que está sendo realizado em Adis-Abeba, na Etiópia, os representantes das nações concordaram com várias medidas para reformar práticas financeiras globais.
Desafios
Na lista estão também medidas para gerar investimentos para enfrentar uma série de desafios econômicos, sociais e ambientais.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que "este acordo representa um passo crítico em direção à criação de um futuro sustentável para todos".
Segundo ele, o documento fornece uma estrutura global para o financiamento do desenvolvimento sustentável.
Agenda de Ação
A agenda de ação de Adis-Abeba, como o acordo está sendo chamado, especifica várias iniciativas que devem ser adotadas.
No setor de tecnologia, os países concordaram em estabelecer um mecanismo para facilitar a colaboração tecnológica entre os governos, sociedade civil, setor privado, comunidade científica e a ONU para apoiar os objetivos de desenvolvimento sustentável.
Os representantes concordaram também em criar um Fórum Global de Infraestrutura para identificar e lidar com as falhas do setor e com oportunidades para investimentos e cooperação. O trabalho deve garantir ainda que os projetos sejam sustentáveis.
Pacto Social
Os países devem adotar um novo pacto social em favor dos grupos mais pobres e vulneráveis assim como implementar novos impostos contra substâncias que causem danos à saúde. Eles concordaram em taxar os produtos derivados do tabaco para reduzir o consumo.
Os governos prometeram disponibilizar novos financiamentos às micro, pequenas e médias empresas e criar uma estratégia global para alavancar a criação de empregos para jovens.
Ainda na lista, estão promessas de investimento de 0,7% do PIB do país para assistência ao desenvolvimento e um pacote de medidas para aumentar a ajuda dos países ricos para os países pobres.
A agenda de ação de Adis-Abeba cria também um plano para combater a mudança climática. O documento pede aos países em desenvolvimento que cumpram a promessa de participar da mobilização para arrecadar US$ 100 bilhões até 2020. O dinheiro vai ser usado para lidar com as necessidades de suas regiões.
As nações se comprometeram ainda a eliminar os subsídios dados ao setor de combustíveis fósseis, como o petróleo, que levam a um consumo exagerado.

Brasil: país submergente


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
taxa de crescimento anual do pib

Parece que o Brasil está caminhando para uma segunda década perdida. O ultimo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicado em abril de 2015, traz dados sobre o panorama da economia mundial entre 2011 e 2014 e estimativas para o período 2015 a 2020. Evidentemente o quadro pode mudar nos próximos anos, mas a comparação entre os países é útil para se avaliar as tendências passadas e as perspectivas futuras.
Analisando a variação do Produto Interno Bruto (PIB) na década de 2011-2020 podemos perceber um quadro desalentador para o Brasil. O conjunto das “economias emergentes” (termo utilizado pelo FMI) deve crescer a uma média anual de 5,1% aa, o mundo deve crescer a 3,7% aa, a América Latina e o Caribe devem crescer a 2,6% aa e as economias avançadas (termo utilizado pelo FMI) devem crescer a 1,9% ao ano. O Brasil deve crescer apenas 1,8% ao ano. O pior desempenho.
Nota-se, portanto, que as economias emergentes (lideradas por China e Índia) são responsáveis pelas maiores taxas de crescimento. O surpreendente é que a América Latina e Caribe (ALC) vai crescer bem menos do que o conjunto das economias emergentes e abaixo da média mundial. O baixo crescimento das economias avançadas já era esperado, pois trata-se do desempenho de países com alto nível de desenvolvimento humano e baixo (ou negativo) crescimento demográfico.
Mas o que mais surpreende nos dados é o mal desempenho da economia brasileira que, segundo os dados do FMI, deve crescer apenas 1,8% ao ano na década. Ou seja, o Brasil não só vai crescer menos que as economias emergentes, menos que a média mundial, menos do que a ALC, mas, também, menos do que as economias avançadas.

taxa média de crescimento do pib

Esta situação não é nova, mas está se agravando. O FMI também mostra que a participação do PIB brasileiro (em poder de paridade de compra) no PIB mundial está caindo desde 1980. A maior queda ocorreu entre os governos José Sarney (1985-1989) e Fernando Collor (1990-1992). Mas o Brasil continuou perdendo posição relativa nos governos seguintes (uma leve recuperação no início do Plano Real e entre 2008 e 2010). A perda se acelerou depois do início do governo Dilma (2011 em diante).

participação do pib

Nos 30 anos entre 1950 e 1980 a taxa de crescimento do PIB brasileiro só não foi maior do que a taxa de crescimento mundial em 4 anos, todos eles de crise política. Em 1956, após o suicídio de Getúlio Vargas e das dificuldades da eleição de Juscelino Kubitschek o PIB brasileiro cresceu 2,9%. Nos anos de 1963, 1964 e 1965, após a renúncia de Jânio Quadros e da crise que se seguiu, o PIB brasileiro cresceu 0,6%, 3,4% e 2,4% respectivamente. Em nenhum ano entre 1950 e 1980 houve decréscimo do PIB. Porém, entre 1987 e 2016 o Brasil só cresceu mais que a economia internacional em 8 anos (1993, 1994, 1995, 2002, 2004, 2007 e 2010). O Brasil cresceu menos do que o mundo em 22 anos entre 1987 e 2016. O pior é que estamos caminhando para uma década perdida entre 2011 e 2020.
Parece que, em vez de se integrar aos BRICS, o Brasil vai submergir e deixar de ser um protagonista da economia mundial. No máximo será um coadjuvante. O impacto nas condições de vida da população e nas perspectivas de desenvolvimento do país será doloroso. O fato é que as políticas macroeconômicas adotadas pelos últimos governos brasileiros estão fazendo o país ir para o fundo do poço.
Os dados do FMI indicam uma recuperação da economia brasileira já em 2016 e uma melhora relativa até 2020. Mas muitos economistas brasileiros acreditam que a crise brasileira será maior do que o FMI estima. Isto ocorre porque os desequilíbrios das contas pública se agravaram desde o segundo mandato dos governos petistas. O segundo governo Lula abandonou a disciplina fiscal e o primeiro governo Dilma perdeu completamente o controle, na medida em que adotava um keynesianismo sem resultados. Esta situação já era conhecida na época da eleição presidencial de 2014, mas o que foi apresentado para a população na propaganda eleitoral foi um conto da carochinha. Por isto, o eleitorado considera que houve um “estelionato eleitoral”.
No final do segundo governo Lula a relação dívida/PIB estava em 51,8%. Quando encerrou o primeiro mandato de Dilma, chegou a 58,9%. Foi uma subida de 7,1 pontos do PIB em apenas 4 anos. Com o ajuste fiscal de Joaquim Levy e Dilma 2, em apenas cinco meses, a dívida subiu para 62,5% do PIB. Um aumento de 3,6 pontos, enquanto o ajuste fiscal está fazendo água, pois o exagerado aumento dos juros agrava o desajuste e coloca dinheiro nas mãos dos rentistas. A despesa com juros, nos últimos 12 meses, atingiu R$ 409 bilhões (7,2% do PIB) causando um déficit fiscal de R$ 447 bilhões (7,9% do PIB). Mais um recorde negativo vergonhoso e preocupante. Desta forma, cresce a possibilidade de o Brasil perder o chamado grau de investimento.
Caso isto aconteça, a situação da economia brasileira vai ficar mais deteriorada, devido aos grandes déficits em transações correntes, reforçando a tendência de perda relativa em relação ao resto do mundo. Com o crescimento dos “déficits gêmeos”, o Brasil colocou a cabeça na forca do capital financeiro global. Para fechar a conta do balanço de pagamentos, o país precisa que o resto do mundo invista US$ 100 bilhões por ano nas terras tupiniquins. Isto vinha acontecendo enquanto o Brasil ainda era considerado país emergente e enquanto existia liquidez internacional. Mas com a crise grega, com a crise europeia e agora com a crise chinesa haverá restrições de crédito e o Brasil pode se enforcar de vez no aperto monetário. Com o aumento dos juros nos Estados Unidos, o dólar deve disparar e pressionar ainda mais a estagflação. Com alta probabilidade, o Brasil deve voltar a mendicar ajuda do FMI.
Mas independentemente de qualquer pessimismo extra e externo, os dados já indicam que o Brasil está com uma economia desequilibrada, completamente desajustada e se tornou um “patinho feio” da economia internacional, não podendo ser mais chamado de economia emergente. Se os dados acima se confirmarem, o Brasil vai entrar em um rápido processo de decadência e se (des)afirmar como um país submergente.
Bibliografia:
ALVES, JED. O fim do crescimento econômico e a década perdida 2.0, Ecodebate, RJ, 28/11/2014

ALVES, JED. O pior quinquênio (2011-15) da economia brasileira em 115 anos?, Ecodebate, RJ, 17/04/2015

ALVES, JED. A crise brasileira em números, Ecodebate, RJ, 12/06/2015

ALVES, JED. O ajuste fiscal não resolve os desequilíbrios estruturais da economia brasileira, Ecodebate, RJ, 01/07/2015

ALVES, JED. O fim do bônus demográfico e o processo de envelhecimento no Brasil. São Paulo, Revista Portal de Divulgação, n. 45, Ano V. Jun/jul/ago 2015, pp: 6-17

ALVES, JED. A roça e a mina. O mito do pré sal está afundando o Brasil, IHU, 14/04/2015

ALVES, JED. A crise no mercado de trabalho e a desindustrialização precoce do Brasil, Ecodebate, RJ, 08/07/2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 15/07/2015

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cibersegurança, criptografia e os anos dourados da vigilância

Os governos norte-americano e britânico querem ter um acesso especial a todas as comunicações. Pretendem ter uma chave mestra à vida digital de todas as pessoas.

Amy Goodman

A Internet, o sistema nervoso eletrônico do planeta, mudou a sociedade humana. Transformou profundamente a maneira como vivemos as nossas vidas e foi um importante nivelador ao permitir que as pessoas se interliguem, publiquem e partilhem à escala mundial. Pode-se escrever, comprar e efetuar transações bancárias pela Internet ou também se pode organizar uma manifestação que poderá derrubar uma ditadura. No entanto, a Internet inaugura uma era de intensa vigilância ao expor as nossas comunicações mais pessoais e privadas ao olho curioso de empresas e governos espiões, para não mencionar os criminosos. Uma forma de proteger-nos é mediante a criptografia, que fornece segurança aos nossos dados e permite-nos enviar e armazenar informação digital de forma segura, basicamente através da codificação da informação. Para a descodificar, é necessária uma chave ou senha. O fato de as pessoas poderem aceder a ferramentas de criptografia de forma relativamente simples levou a que os governos norte-americano e britânico queiram ter um acesso especial a todas as comunicações. Pretendem ter uma chave mestra à vida digital de todos.
James Comey, diretor do FBI, compareceu perante uma comissão do Senado na quarta-feira 8 de julho juntamente com a vice-procuradora geral adjunta dos Estados Unidos, Sally Quillian Yates. Enquanto decorria a reunião, a fragilidade das nossas redes ficava à vista do mundo inteiro. A Bolsa de Nova York permaneceu fechada durante meio dia, supostamente devido a um "problema" informático, a United Airlines cancelou a descolagem de voos depois de perder o acesso aos seus sistemas informáticos e o site do jornal “The Wall Street Journal” esteve fora de serviço devido a “dificuldades técnicas”. A comissão do Senado recebeu o nome de “Going Dark: Criptografia, tecnologia e equilíbrio entre segurança pública e privacidade”. “Going Dark”, que significa algo como tornar-se invisível, é um termo utilizado para fazer referência à criptografia das comunicações. Uma declaração conjunta emitida por Yates reconhece que “os cidadãos têm direito a comunicar entre si em privado sem vigilância não autorizada por parte do governo, não só porque a Constituição o exige, mas também porque o livre fluxo da informação é essencial para o florescimento da democracia.”
Apesar da nobre afirmação, o diretor do FBI e outros funcionários pertencentes à chamada comunidade da segurança pretendem ter acesso ilimitado a todas as comunicações, durante todo o tempo. Desejam o que os especialistas em segurança informática chamam “mecanismos de acesso extraordinário”. Isto significa que todas as ferramentas de criptografia deverão ter uma "porta dos fundos" pela qual o FBI, a CIA ou quem quer que possua a autoridade requerida seja capaz de aceder e ler a comunicação, quer se trate de um correio eletrónico, de uma mensagem de texto, de um chat de vídeo ou qualquer outro formato. Por que desejam ter esse acesso ilimitado? Segundo disseram Comey e Yates, “quando as mudanças tecnológicas limitam a capacidade dos organismos policiais de fazer uso de ferramentas de investigação e seguir pistas cruciais, pode acontecer que não sejamos capazes de identificar e deter terroristas que fazem uso das redes sociais para recrutar, planear e executar um ataque ao nosso país".
Um conjunto dos mais destacados especialistas em computação e segurança na Internet emitiu esta semana um documento que trata da magnitude do erro presente na solicitação de Comey. Quinze especialistas efetuaram contributos ao documento publicado pelo MIT e intitulado “Chaves ocultas por baixo do tapete da entrada: Requerer que o governo tenha acesso a todos os dados e comunicações significa decretar a insegurança”.
Bruce Schneier, um dos autores do documento, é um destacado técnico em segurança eletrónica e autor de “Data and Goliath: The Hidden Battles to Collect Your Data and Control Your World”(“Data e Golias: As batalhas ocultas para recolher os teus dados e controlar teu mundo"). Schneier disse à “Democracy Now!”: “É estranho que governos de países livres exijam que se debilite a segurança porque o governo poderá querer ter acesso a toda a informação. É o tipo de coisas que vemos por parte de Rússia, China e Síria. Mas acho que vê-lo em países ocidentais é estranho”.
O diretor do FBI, Comey, pretende incorporar a presença de uma porta traseira, um ponto débil na segurança. Schneier continuou: “O que pretende Comey é uma criptografia que possa ser quebrada com uma ordem judicial. Mas, como tecnólogo, não posso desenhar um computador que funcione de forma diferente perante a presença de um pedaço de papel. Se crio um sistema que possa ser quebrado, poderá ser quebrado por qualquer um, não só pelo FBI. É por isso que o seu pedido de acesso dá acesso aos criminosos, dá acesso ao governo chinês. Precisamos da criptografia por segurança, por muitas mais razões do que aquelas pelas quais ele pretende quebrá-la".
O senador democrata de Oregon Rum Wyden foi um dos principais críticos da espionagem desenvolvida pelo governo. Wyden questionou um artigo publicado num blogue pelo diretor do FBI, Comey: “Tentar restringir o uso da criptografia poderá gerar suspeitas em torno de quem tenta legitimamente comunicações seguras, como os jornalistas, repórteres, advogados e ativistas dos direitos humanos. É hora de deixar de atacar a tecnologia e de começar a concentrar-se em soluções reais para as ameaças reais que o nosso país enfrenta”, escreveu Wyden.
Bruce Schneier resumiu: “Preocupa-nos a segurança dos nossos dados e a criptografia é uma ferramenta valiosa. Debilitá-la deliberadamente por ordem do FBI ou do governo britânico é em minha opinião um sacrifício de loucos. Não nos torna mais seguros, faz-nos correr mais riscos”. Em última análise, é a democracia que está em risco. A liberdade de comunicarmos sem que o governo nos espie é essencial para o funcionamento de uma sociedade livre e aberta.
Artigo publicado em Democracy Now em 9 de julho de 2015. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Fernanda Gerpe para espanhol para Democracy Now. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net


Amy Goodman
Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.

terça-feira, 14 de julho de 2015

ECONOMIA VOLTADA À SATISFAÇÃO MATERIAL

Por Marcus Eduardo de Oliveira (*

Durante muito tempo fomos condicionados a acreditar que bastava fazer a economia crescer, aumentando a quantidade de bens e serviços ofertados, expandindo o sistema econômico como um todo, que, de forma especial, solucionar-se-ia o problema da pobreza, tornando aqueles com menos condições financeiras um pouco mais felizes. Para tanto, bastava produzir mais, sem se comprometer com a questão crucial da distribuição dessa “riqueza” gerada.
Isso permitiu criar uma conduta equivocada, favorecida e amparada pelos mecanismos de mercado, de que o crescimento econômico “funcionaria” como espécie de “santo remédio” para os males econômicos e sociais.
Tal conduta, por sua vez, permitiu a criação de uma economia voltada à satisfação material das necessidades humanas, ao mesmo tempo em que reduziu acintosamente a disponibilidade global de recursos naturais do planeta.
Assim, a economia mundial cresceu, se expandiu, aumentou de tamanho. O crescimento econômico, de fato, aconteceu. Hoje, a economia global tem quase cinco vezes o tamanho de meio século atrás; agora, essa economia global – com sua vocação para a produção de bens e serviços em larga escala – é maior que a disponibilidade que o planeta tem em oferecer recursos e energia.
No lugar de se atenuar os indecentes níveis de pobreza global, que se acreditava ser passível de ocorrer face ao crescimento, gerou-se a mais séria crise ambiental dos últimos tempos.
Razão pela qual os limites ecológicos têm sido frequentemente ultrapassados, menosprezando-se assim as perdas ambientais decorrentes dessa ultrapassagem de fronteiras ditadas pelo meio ambiente.
Nesse pormenor, viciados e obcecados pela ideia do crescimento como suprassumo das políticas governamentais, os economistas tradicionais, educados pelo ensinamento neoclássico, apresentam incorrigível dificuldade em entender que passar dos limites tem consequências; que, a primeira condição para o alcance de um padrão de vida ecologicamente equilibrado, está em saber respeitar os limites para a capacidade da terra de lidar com nossos abusos de produção e consumo.
Desse modo, a economia tradicional, além de se distanciar, faz questão de promover sua completa dissociação na relação com a natureza.
Dentro dessa perspectiva, um segundo erro de interpretação – se assim podemos denominar – por parte do pensamento neoclássico, reside justamente aí: em não reconhecer que a atividade humana (e econômica, por consequência) interage com o meio ambiente e o afeta, resultando que os danos ambientais levam a perdas econômicas, e não a ganhos como alguns chegam a supor.
Se hoje temos uma economia global integrada a um ecossistema que está operando em cerca de 140% da sua capacidade, passou da hora então de avaliar-se, com o rigor e a precisão que os fatos exigem, todas as alternativas possíveis àquilo que se impõe com extrema urgência à sociedade global: a defesa e a conservação do patrimônio natural, buscando formas que garantam a reposição dos recursos usados mediante a mudança de paradigma econômico, superando a ideia contida no expansionismo produtivo em prol de uma racionalidade ambiental.
Que fique claro: o que está em jogo não é uma exigência econômica, mas sim a salvação da vida humana, em especial.
Enfrentar essa crise ambiental, provocada e “alimentada” pelos excessos da atividade econômica mundial, que aflige o presente e ameaça o futuro, certamente é o desafio maior do momento atual.
Para aqueles que, mesmo diante das evidências da gravidade da crise ambiental, ainda se apegam na defesa do crescimento econômico como sinônimo de prosperidade social, cabe citar a recomendação do professor Paul Gilding, da Universidade de Cambridge: “Que não haja nenhuma dúvida de que, se o meio ambiente entrar em colapso, a economia vai junto com ele”.



(*) Economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo.

A ilusão do livre-arbítrio

Robert Blatchford
Tradução de Álvaro Nunes - criticanarede.com

A ilusão do livre-arbítrio foi um obstáculo no caminho do pensamento humano durante milhares de anos. Vejamos se o senso comum e o conhecimento não podem removê-la.

O livre-arbítrio é um assunto de grande importância para nós neste caso e devemos tratá-lo com os olhos bem abertos e com a inteligência bem desperta; não porque seja muito difícil, mas porque tem sido atado e torcido num emaranhado de nós górdios durante vinte séculos cheios de filósofos palavrosos e malsucedidos.

O partido do livre-arbítrio clama que o homem é responsável pelos seus atos, porque a sua vontade é livre de escolher entre o bem e o mal.

Respondemos que a vontade não é livre e que se fosse, o homem não poderia conhecer o bem e o mal enquanto não fosse ensinado.

O partido do livre-arbítrio afirmará que, no que respeita ao conhecimento do bem e do mal, a consciência é um guia seguro. Mas eu já provei que a consciência não nos diz e não pode dizer-nos o que é correto ou incorreto; apenas nos recorda das lições que aprendemos acerca do correto e o incorreto.

A "suave voz em surdina" não é a voz de Deus: é a voz da hereditariedade e do meio.

Passemos agora ao livre-arbítrio.

Quando um homem diz que o seu arbítrio é livre, quer dizer que é livre de todo o controlo ou interferência; que pode dominar a hereditariedade e o meio.

Respondemos que o arbítrio é governado pela hereditariedade e pelo meio.

A causa de toda a confusão neste assunto mostra-se em poucas palavras.

Quando o partido do livre-arbítrio diz que o homem tem livre-arbítrio, quer dizer que é livre de agir como escolhe agir.

Não há necessidade de o negar. Mas o que o faz escolher?

Este é o eixo em torno do qual toda a discussão gira.

O partido do livre-arbítrio parece pensar na vontade como algo independente do homem, algo fora dele. Parece pensar que a vontade decide sem o controlo da razão humana.

Se fosse assim, não provaria que o homem é responsável. "A vontade" seria responsável e não o homem. Seria tão ridículo censurar um homem pelo ato de uma vontade "livre" como censurar um cavalo pela ação do seu cavaleiro.

Mas vou provar aos meus leitores, apelando ao seu senso comum e ao seu conhecimento comum, que a vontade não é livre; e que é governada pela hereditariedade e pelo meio.

Para começar, o homem comum estará contra mim. Sabe que escolhe entre dois percursos a toda a hora, e frequentemente a todo o minuto, e pensa que a sua escolha é livre. Mas isso é uma ilusão; a sua escolha não é livre. Pode escolher e, de facto, escolhe. Mas pode apenas escolher como a sua hereditariedade e o seu meio o fazem escolher. Nunca escolhe e nunca escolherá a não ser como a sua hereditariedade e o seu meio ― o seu temperamento e a sua formação ― o fazem escolher. E a sua hereditariedade e o seu meio fixaram a sua escolha antes de ele a fazer.

O homem comum diz "Sei que posso agir como desejo agir." Mas o que o faz desejar?

O partido do livre-arbítrio diz "Sabemos que um homem pode escolher e efetivamente escolhe entre dois atos." Mas o que decide a escolha?

Há uma causa para todo o desejo, uma causa para toda a escolha; e toda a causa de todo o desejo e escolha tem origem na hereditariedade ou no meio.

Pois um homem age sempre devido ao temperamento, que é hereditariedade, ou devido à formação, que é meio.

E nos casos em que um homem hesita ao escolher entre dois atos, a hesitação é devida a um conflito entre o seu temperamento e a sua formação ou, como alguns o exprimem, "entre o seu desejo e a sua consciência."

Um homem está a praticar tiro ao alvo com uma arma quando um coelho se atravessa na sua linha de fogo. O homem tem os olhos postos no coelho e o dedo no gatilho. A vontade humana é livre. Se ele carregar no gatilho, o coelho é morto.

Ora, como decide o homem se dispara ou não? Por intermédio do sentimento e da razão.

Ele gostaria de disparar apenas para ter a certeza de que é capaz de acertar. Gostaria de disparar porque gostaria de ter coelho para o jantar. Gostaria de disparar porque existe nele o antiquíssimo instinto caçador de matar.

Mas o coelho não lhe pertence. Não tem a certeza de que não se mete em sarilhos se o matar. Talvez ― se for um tipo de homem fora do comum ― sinta que seria cruel e covarde matar um coelho indefeso.

Bem, a vontade do homem é livre. Se quiser, pode disparar; se quiser, pode deixar ir o coelho. Como decidirá? De que depende a sua decisão?

A sua decisão depende da força relativa do seu desejo de matar o coelho, dos seus escrúpulos acerca da crueldade, e da lei.

Além disso, se conhecêssemos o homem muito bem, poderíamos adivinhar como o seu livre-arbítrio agiria antes que tivesse agido. O desportista britânico comum mataria o coelho. Mas sabemos que há homens que nunca matariam uma criatura indefesa.

De modo geral, podemos dizer que o desportista desejaria disparar e que o humanitarista não desejaria disparar.

Ora, como as vontades de ambos são livres, deve ser alguma coisa fora das vontades que faz a diferença.
Bem, o desportista matará porque é desportista; o humanitarista não matará porque é humanitarista.

E o que faz de um homem um desportista e de outro um humanitarista? Hereditariedade e meio: temperamento e formação.

Um homem é, por natureza, misericordioso e o outro cruel; ou um é, por natureza, sensível e o outro insensível. Esta é uma diferença de hereditariedade.

Um pode ter sido toda a sua vida ensinado que matar animais selvagens é "desporto"; o outro pode ter sido ensinado que é desumano e incorreto; esta é uma diferença de meio.

Ora, o homem por natureza cruel ou insensível, formado para pensar que matar animais é um desporto, torna-se aquilo a que chamamos um desportista, porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.

A hereditariedade e o meio do outro homem fizeram dele um humanitarista.

O desportista mata o coelho porque é um desportista, e é um desportista porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.

Isso é dizer que o "livre-arbítrio" é realmente controlado pela hereditariedade e pelo meio.

Permita-se-me que dê um exemplo. Um homem que nunca pescou foi levado à pesca por um pescador. Gostou do desporto e durante alguns meses praticou-o entusiasticamente. Mas um dia um acidente convenceu-o da crueldade que é apanhar peixes com um anzol e pôs de lado imediatamente a sua cana e nunca mais voltou a pescar.

Antes da mudança, se era convidado, estava sempre ansioso por ir pescar; após a mudança, ninguém conseguia persuadi-lo a tocar numa linha. A sua vontade foi sempre livre. Como se transformou então a sua vontade de pescar na sua vontade de não pescar? Foi consequência do meio. Aprendeu que pescar é cruel. O conhecimento controlou a sua vontade.

Mas, pode-se perguntar, como explicar que um homem faça o que não deseja fazer?

Nenhum homem alguma vez faz uma coisa que não deseja fazer. Quando há dois desejos, impera o mais forte.

Suponhamos o seguinte caso. Uma jovem recebe duas cartas no mesmo correio; uma é um convite para ir com o seu namorado a um concerto, a outra é um pedido para que visite uma criança doente num bairro de lata. A rapariga é uma grande apreciadora de música e receia bairros de lata. Deseja ir ao concerto e estar com o namorado; receia as ruas imundas e as casas sujas, e evita correr o risco de contrair sarampo ou febre. Mas vai ver a criança doente e não vai ao concerto. Porquê?

Porque o seu sentido do dever é mais forte do que seu amor-próprio.

Ora, o seu sentido do dever é em parte devido à sua natureza ― isto é, à sua hereditariedade ― mas é principalmente devido ao meio. Como todos nós, a rapariga nasceu sem quaisquer conhecimentos e com apenas uns rudimentos de uma consciência. Mas foi bem ensinada e a instrução faz parte do seu meio.

Podemos dizer que a rapariga é livre de agir como escolhe, mas age de fato como foi ensinada que deve agir. Este ensino, que faz parte do seu meio, controla a sua vontade.

Podemos dizer que um homem é livre de agir como escolhe. Ele é livre de agir como ele escolhe, mas ele escolherá como a hereditariedade e o meio o fizerem escolher. Porque a hereditariedade e o meio fizeram que ele seja aquilo que é.

Diz-se que um homem é livre de decidir entre dois percursos. Mas na realidade ele é apenas livre de decidir de acordo com o seu temperamento e a sua formação [...]

Macbeth era ambicioso; mas tinha consciência. Queria a coroa de Duncan; mas recuava perante a traição e a ingratidão. A ambição puxava-o num sentido, a honra puxava-o no outro. As forças opostas estavam tão uniformemente equilibradas que parecia incapaz de decidir-se. Era Macbeth livre de escolher? Até que ponto era livre? Era tão livre que não conseguia decidir-se e foi a influência da sua mulher que inclinou a balança para o lado do crime.

Era Lady Macbeth livre de escolher? Ela não hesitou. Porque a sua ambição era de tal modo mais forte que a sua consciência que nunca teve dúvidas. Escolheu como a sua toda-poderosa ambição a compeliu a escolher.

E a maior parte de nós nas nossas decisões assemelhamo-nos a Macbeth ou à sua mulher. Ou a nossa natureza é de tal modo mais forte que a nossa formação, ou a nossa formação é de tal modo mais forte que a nossa natureza, que decidimos para o bem e para o mal tão prontamente quanto um rio decide correr colina abaixo; ou a nossa natureza e a nossa formação estão tão bem equilibradas que dificilmente podemos decidir.

No caso de Macbeth, a competição é clara e fácil de seguir. Era ambicioso e o seu meio ensinou-lhe a olhar a coroa como uma possessão gloriosa e desejável. Mas o meio também lhe ensinou que o assassinato, a traição e a ingratidão são perversos e deploráveis.

Se nunca lhe tivessem ensinado estas lições ou se lhe tivessem ensinado que a gratidão é uma tolice, que a honra é uma fraqueza, e que o assassinato é desculpável quando leva ao poder, não teria hesitado. Foi o seu meio que impediu a sua vontade [...]

A ação da vontade depende sempre da força relativa de dois ou mais motivos. O motivo mais forte decide a vontade; tal como o peso mais pesado decide o equilíbrio dos pratos de uma balança [...]

Como podemos, então, acreditar que o livre-arbítrio é exterior e superior à hereditariedade e ao meio? [...]

"O quê! Um homem não pode ser honesto se escolher sê-lo?" Sim, se escolher sê-lo. Mas essa é apenas outra forma de dizer que pode ser honesto se a sua natureza e a sua formação o levarem a escolher honestamente.

"O quê! Não posso satisfazer-me quer beba ou me abstenha de beber?" Sim. Mas isso é apenas dizer que não irás beber porque te apraz estar sóbrio. Mas apraz a outro homem beber, porque o seu desejo por bebida é forte ou porque a sua auto-estima é fraca.

E tu decides como decides e ele decide como decide, porque tu és tu e ele é ele; e a hereditariedade e o meio fizeram de ambos o que são.

E o homem sóbrio pode passar por tempos maus e perder a auto-estima, ou achar o fardo dos seus problemas maior do que aquilo que ele pode aguentar e cair na bebida para se consolar ou esquecer, e tornar-se um bêbado. Não acontece isto frequentemente?

E o bêbado pode, devido a algum choque, ou a algum desastre, ou a alguma paixão, ou a alguma persuasão, recuperar a auto-estima e renunciar à bebida e levar uma vida sóbria e útil. Não acontece isto frequentemente?

E em ambos os caso a liberdade da vontade permanece intacta: é a mudança no meio que eleva os caídos e lança os honrados por terra.

Podemos dizer que a vontade de uma mulher é livre e que ela poderia, se o desejasse, saltar de uma ponte e afogar-se. Mas não pode desejá-lo. É feliz, ama a vida e teme o rio frio e impetuoso. E no entanto, devido a alguma cruel volta da roda da fortuna, pode tornar-se pobre e infeliz; tão infeliz que odeia a vida e está ansiosa pela morte e,por isso, pode saltar para o temeroso rio e morrer.

A sua vontade é tão livre numa altura como na outra. Foi o meio que forjou a mudança. Antes, não podia desejar morrer; agora, não pode desejar viver.

Os apóstolos do livre-arbítrio acreditam que todos os homens são livres. Mas um homem pode apenas desejar aquilo que é capaz de desejar. E um homem é capaz de desejar aquilo que outro homem é incapaz de desejar. Negá-lo é negar os factos da vida mais comuns e mais óbvios [...]

Todos sabemos que podemos prever a ação de certos homens em certos casos, porque conhecemos os homens.

Sabemos que nas mesmas condições Jack Sheppard irá roubar e que Cardinal Manning não irá roubar. Sabemos que nas mesmas condições o marinheiro irá namoriscar com a empregada de balcão e o padre não irá; que o bêbado se embebedará, e o abstémio manter-se-á sóbrio. Sabemos que Wellington recusaria um suborno, que Nelson não fugiria, que Bonaparte agarrar-se-ia ao poder, que Abraham Lincoln seria leal ao seu país, que Torquemada não pouparia um herético. Porquê? Se a vontade é livre, como podemos estar certos, antes de o teste ocorrer, de como a vontade irá agir?

Simplesmente porque sabemos que a hereditariedade e o meio formaram e moldaram de tal modo os homens e as mulheres que em certas circunstâncias a ação das suas vontades é certa.

A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem um ladrão, ele irá roubar. A hereditariedade e o meio tendo feito um homem honesto, ele não irá roubar.

Quer dizer, a hereditariedade e o meio decidiram a ação da vontade antes de ter chegado a altura da vontade agir.

Sendo as coisas assim ― e todos sabemos que são assim ― o que acontece à soberania da vontade?

Deixemos qualquer homem que acredite que pode "agir como lhe agradar" perguntar a si mesmo por que lhe agrada e ele verá o erro da teoria do livre-arbítrio e irá compreender por que a vontade é escrava e não mestre do homem: porque o homem é o produto da hereditariedade e do meio e estes controlam a vontade.
Como queremos esclarecer tanto quanto possível este assunto, consideremos um ou dois exemplos conhecidos da ação da vontade.

Jones e Robinson encontram-se e bebem um copo de whisky. Jones pergunta a Robinson se quer outro. Robinson diz, "não obrigado, chega um." Jones diz "está bem; tome outro cigarro." Robinson aceita o cigarro. Ora, temos aqui um caso em que um homem recusa uma segunda bebida, mas aceita um segundo cigarro. É porque iria gostar de fumar outro cigarro, mas não iria gostar de beber outro copo de whisky? Não. É porque sabe que é mais seguro não beber outro copo de whisky.


Como sabe ele que o whisky é perigoso? Aprendeu-o ― no seu meio.

"Mas poderia ter bebido outro copo se o tivesse desejado."

Mas ele não poderia ter desejado beber outro copo, porque havia algo que ele desejava mais ― estar seguro.

E por que quer ele estar seguro? Porque aprendeu ― no seu meio ― que era prejudicial, inútil, e indecoroso ficar bêbado. Porque aprendeu ― no seu meio ― que é mais fácil evitar adquirir um mau hábito do que eliminar um mau hábito uma vez adquirido. Porque deu valor à boa opinião dos seus vizinhos e à sua posição e perspectivas de futuro.

Estes sentimentos e este conhecimento governaram a sua vontade e fizeram-no recusar o segundo copo.

Mas não há sentimento de perigo ou lição bem aprendida de risco para impedir a sua vontade de fumar outro cigarro. A hereditariedade e o meio não o previnem contra isso. Assim, para agradar ao seu amigo e a si mesmo, aceitou.

Agora supõe que Smith oferece a Williams outro copo. Williams aceita, bebe vários copos e vai depois para casa ― como frequentemente vai para casa. Porquê?

Em grande medida porque tem o hábito de beber. Não só a mente repete instintivamente uma ação, como, no caso da bebida, uma grande ânsia física é ativada e o cérebro enfraquecido. É mais fácil recusar o primeiro copo do que o segundo; mais fácil recusar o segundo do que o terceiro; e muito mais difícil para um homem que frequentemente se embebeda manter-se sóbrio.

Assim, quando o pobre Williams tem de fazer a sua escolha, tem o hábito contra ele, tem uma grande ânsia física contra ele e tem um cérebro enfraquecido com que pensar.

"Mas, Williams poderia ter recusado o primeiro copo."

Não. Porque, no seu caso, o desejo de beber, ou de agradar a um amigo, era mais forte do que o seu medo do perigo. Ou pode não ter tido tanta consciência do perigo quanto Robinson. Pode não ter sido tão bem ensinado, ou pode não ter sido tão sensato, ou pode não ter sido tão cuidadoso. De modo que a sua hereditariedade e o seu meio, o seu temperamento e a sua formação, o levaram a tomar a bebida com tanta certeza quanto a hereditariedade e o meio de Robinson o levaram a recusar.

E agora é a minha vez de fazer uma pergunta. Se a vontade é "livre", se a consciência é um guia seguro, como é que o livre-arbítrio e a consciência de Robinson o fizeram manter-se sóbrio, enquanto o livre-arbítrio e a consciência de Williams o fizeram embebedar-se?

A vontade de Robinson foi contida por certos sentimentos que não conseguiram conter a vontade de Williams. Porque no caso de Williams os sentimentos no outro sentido eram mais fortes.

Foi a natureza e a formação de Robinson que o fizeram recusar o segundo copo e foi a natureza e a formação de Williams que o fizeram beber o segundo copo.

O que teve o livre-arbítrio a ver com isto?

Disseram-nos que todos os homens têm um livre-arbítrio e uma consciência.

Ora, se Williams tivesse sido Robinson, isto é, se a sua hereditariedade e o seu meio tivessem sido exatamente como os de Robinson, ele teria agido exatamente como Robinson agiu.

Foi porque a sua hereditariedade e o seu meio não eram o mesmo que o seu ato não foi o mesmo.

Tinham ambos livre-arbítrio. O que levou um a fazer aquilo que o outro se recusou a fazer? Hereditariedade e meio. Para inverter a sua conduta teríamos de inverter a sua hereditariedade e o seu meio [...]

Dois rapazes têm um emprego difícil e desagradável. Um deixa esse emprego e arranja outro, "sobe na vida" e é elogiado por ter subido na vida. O outro mantém-se naquele emprego toda a sua vida, trabalha muito toda a sua vida e é respeitado como um trabalhador honesto e humilde; quer dizer, é visto pela sociedade como Mr. Dorgan era visto por Mr. Dooely ― "é um excelente homem, mas desprezo-o."

O que faz estas duas vontades livres serem tão diferentes? Um rapaz sabia mais do que o outro. "Conhecia mais." Todo o conhecimento é meio. Os dois rapazes tinham livre-arbítrio. Era no conhecimento que diferiam: meio!

Quem exalta o poder da vontade e menospreza o poder do meio desmente as suas palavras pelos seus atos.
Porque não mandariam os seus filhos para o meio de más companhias nem permitiriam que lessem maus livros. Não diriam que as crianças têm livre-arbítrio e, portanto, o poder de agarrar o bom e largar o mau.

Sabem muito bem que um mau meio tem o poder de perverter a vontade e que um bom meio tem o poder de a dirigir pelo bom caminho.

Sabem que as crianças podem tornar-se boas ou más por uma boa ou má formação e que a vontade segue a formação.

Sendo assim, têm também de admitir que os filhos das outras pessoas podem ser bons ou maus por formação.

E se uma criança tem uma má formação, como pode o livre-arbítrio salvá-la? Ou como pode ela ser censurada por ser má? Nunca teve oportunidade de ser boa. Que sabem isto é provado pelo cuidado que colocam em providenciar aos seus próprios filhos um meio melhor.

Como disse, cada igreja, cada escola, cada lição de moral é uma prova de que os pregadores e os professores confiam no bom meio, e não no livre-arbítrio, para tornar as crianças melhores.

Nesta, como em muitas outras matérias, as ações falam mais alto do que as palavras.

Isto, espero eu, desata os muitos nós com que milhares de homens eruditos ataram o tema simples do livre-arbítrio e destrói a alegação de que o homem é responsável porque a sua vontade é livre. Mas há outra causa de erro, relacionada com este assunto acerca da qual gostaria de dizer umas quantas palavras.

Ouvimos frequentemente dizer que um homem deve ser censurado pela sua conduta porque "sabia o que estava a fazer."

É verdade que os homens agem erradamente quando sabem o que fazem. Macbeth "sabia o que fazia" quando assassinou Duncan. Mas também é verdade que frequentemente pensamos que um homem "sabe o que faz" quando não sabe o que faz.

Porque não se pode dizer que um homem sabe uma coisa enquanto não acreditar nela. Se me disserem que a Lua é feita de queijo verde, não se pode dizer que sei que é feita de queijo verde.

Muitos moralistas parecem confundir a palavra "conhecer" com a palavra "ouvir".

Jones lê romances e toca música de ópera ao Domingo. O Puritano diz que Jones "sabe o que faz" quando quer dizer que disseram a Jones que é incorreto fazer essas coisas.

Mas Jones não sabe que isso é incorreto. Ouviu alguém dizer que é incorrec
to, mas não acredita nisso. Portanto, não é adequado dizer que sabe.

E igualmente no que respeita à crença. Alguns moralistas sustentam que é mau não acreditar em certas coisas e que os homens que não acreditam nessas coisas serão punidos.

Mas um homem não pode acreditar numa coisa que lhe dizem para acreditar; ele pode apenas acreditar numa coisa em que ele pode acreditar; e ele só pode acreditar naquilo que a sua própria razão lhe diz que é verdadeiro.

Seria inútil pedir a Sir Roger Ball que acredite que a Terra é plana. Ele não poderia acreditar nisso.

É inútil pedir a um agnóstico que acredite na história de Jonas e da baleia. Ele não poderia acreditar nela. Pode fingir que acredita. Pode tentar acreditar nela. Mas a sua razão não lhe permitiria acreditar nela.

Portanto, é um erro dizer que um homem "sabe o que faz" quando lhe disseram para "saber" e ele não pode acreditar no que lhe disseram.

Essa é uma questão simples e parece muito banal; mas quanta má-vontade, quanta intolerância, quanta violência, perseguições e assassinatos foram causados pela estranha ideia de que o homem é mau porque a sua razão não pode acreditar no que para outra razão humana [é] absolutamente verdadeiro.

O livre-arbítrio não tem qualquer poder sobre as crenças de um homem. Um homem não pode acreditar por querer, mas apenas por convicção. Um homem não pode ser forçado a acreditar. Podes ameaçá-lo, feri-lo, bater-lhe, queimá-lo; e ele pode ser assustado, irritado ou atormentado; mas não pode acreditar, nem se pode obrigá-lo a acreditar. Até que seja convencido.

Ora, embora isto possa parecer um truísmo, penso que é necessário dizer aqui que um homem não pode ser convencido nem pela ofensa nem pelo castigo. Ele pode apenas ser convencido pela razão.
Sim. Se queremos que um homem acredite numa coisa, teremos de encontrar umas quantas razões mais poderosas do que um milhão de pragas ou um milhão de baionetas. Queimar um homem vivo por não acreditar que o Sol gira em torno da Terra não é convencê-lo. O fogo é penetrante, mas não lhe parece relevante para a questão. Ele nunca duvidou de que o fogo queima; mas talvez os seus olhos moribundos possam ver o Sol a pôr-se no oeste, à medida que o mundo gira no seu eixo. Morre com a sua crença. E não sabe.


Robert Blatchford
Retirado de Not Guilty (Albert and Charles Boni, Inc., 1913)