"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 5 de setembro de 2015

Vítimas das “Guerras Humanitárias”

Reportagem em Lesbos revela: por trás da onda de refugiados, países destruídos por intervenções ocidentais. A longa jornada de sírios, iraquianos e afegãos no Mediterrâneo. A indiferença da Europa. Por Jesse Rosenfeld, no The Nation .

Refugiados a chegar à ilha de Lesbos num barco vindo da Turquia (Lazar Simeonov).
No calor escaldante de um meio-dia de agosto na ilha grega de Lesbos, Ziad Mouatash salta fora de um barco inflável superlotado e toca o solo da União Europeia pela primeira vez. O jovem de 22 anos de Yarmouk – campo de refugiados palestino à beira de Damasco que foi sitiado e bombardeado desde 2012 pelas forças de Bashar al-Assad e recentemente foi invadido pelo ISIS e a Frente Al-Nusra, filiada à Al Qaeda – abraça todos à sua volta, em êxtase por estar vivo.
A partir da costa grega, ativistas e moradores observaram impotentes o motor do barco avariar a cerca de três quilômetros dali, a água a invadir o barco de borracha que mal era capaz de flutuar. Crianças e adultos gritavam desesperadamente por ajuda, até serem rebocados para a Grécia por outro barco de refugiados vindo da Turquia.
Mouatash pagou mais de mil euros a traficantes de pessoas na Turquia por essa experiência de quase-morte, mas, segundo ele, a escolha era muito menos arriscada do que continuar a esconder-se numa Damasco em deterioração, que duas semanas antes ele tinha trocado pela Turquia. Como palestino que cresceu em campos de refugiados da Síria, Mouatash é apátrida, mas tem um irmão em Paris e espera começar uma vida nova em França.
Ele anda para cima e para baixo da costa, incerto sobre que direção tomar, enquanto ativistas locais tentam juntar os recém-chegados para dizer-lhes que precisam começar uma caminhada de mais de 60 quilômetros a pé, até um centro de registro do outro lado da ilha.
“Graças a Deus consegui chegar até aqui. Estou livre, estou vivo!”, exclama Mouatash, tomado pela emoção.
FOTO: Refugiados comemoram a sua chegada à Grécia depois de atravessar o perigoso Mar Egeu (Foto: Lazar Simeonov)
Embora tenha escapado dos horrores da massacrante guerra civil da Síria, Mouatash está apenas a começar uma difícil jornada pela Europa. Terá de cruzar mais fronteiras ilegalmente; descansar em campos sujos e improvisados; pagar a traficantes para ajudá-lo a cruzar essas fronteiras; esquivar-se da polícia de imigração; e dormir em parques e campos, antes que possa reunir-se com o seu irmão. Ainda assim, ele é um dos que têm sorte. Quatro dias depois da sua chegada, uma balsa virou ao largo da ilha grega de Kos e seis sírios – incluindo um bebé – afogaram-se.
Segundo a tenente Eleni Kelmani, porta-voz da guarda costeira de Lesbos, mais de dois mil refugiados estão a aportar diariamente na ilha. Ela observa que esse ensolarado paraíso turístico viu a chegada de 75 mil dos cerca de 120 mil refugiados que aterraram na Grécia neste ano. Fora do seu escritório, centenas deles dormem perto de carros estacionados ou em tendas à beira do porto.
“É óbvio que, se a austeridade não tivesse atingido a Grécia, teríamos melhores condições de lidar com esta crise”, diz Kelmani. Ela fala francamente, enquanto tenta manter a Guarda Costeira fora da disputa política doméstica do país.
O partido de esquerda que governa a Grécia, Syriza, é um dos poucos membros da União Europeia a clamar por uma abordagem de “solidariedade” em toda a Europa para realojar os refugiados que chegam de algumas das piores zonas de conflito do mundo. É uma postura completamente contrária à dos políticos de extrema-direita, anti-imigração e nacionalistas, da UE, que pedem uma Europa fortificada, para tornar o mais difícil possível a viagem dos que procuram asilo, a fim de impedi-los de chegar.
Contudo, com a economia grega fragilizada pelas medidas de austeridade impostas pela UE, o governo do Syriza não pode fazer muito. Ao invés de encontrar solidariedade e uma estratégia de ajuda coordenada em toda a Europa, os refugiados – a grande maioria da Síria, do Afeganistão e, em menor extensão, do Iraque – estão a chegar a Lesbos apenas para depararem-se com serviços públicos deteriorados.
Homens jovens, assim como famílias – inclusive mães com crianças nascidas há poucas semanas – fazem fila à beira das estradas na caminhada de 13 a 20 horas a pé, pela ilha montanhosa. As leis locais impedem que apanhem táxis, embarquem em transporte público ou fiquem em hotéis antes de receber os documentos gregos, e há apenas quatro autocarros para transportar pessoas para os dois campos de trânsito e triagem, segundo Kelmani. Um punhado de ativistas voluntários conduz pela ilha as mulheres grávidas, as crianças pequenas e os idosos, mas a maioria não tem escolha se não andar.
Ao lado de uma curva cega, a meio caminho entre a parte norte de Lesbos, onde os refugiados chegam, e o centro de triagem, perto da principal cidade de Mytilini, os carros desviam freneticamente para não passar sobre Abbas Bari e o seu amigo Sayed Hassan.
FOTO: Abbas Bari e Sayed Hassan, dois amigos em fuga do Iraque, acordam de uma sesta à beira de uma das principais estradas de Lesbos. (Foto: Lazar Simeonov)
Os dois jovens, vindos da cidade de Basra, no sul do Iraque, escaparam de milícias e arriscaram tudo apenas para serem quase mortos por atropelamento enquanto dormiam à beira da estrada, depois de caminhar por dez horas. Quando os desperto para sugerir que se movam até um campo, eles ficam inicialmente nervosos e com medo, imaginando que eu possa roubá-los. A difícil jornada através do Iraque e da Turquia deixou-os desconfiados de toda a gente, mas depois de explicar a situação e de oferecer-lhes um pouco de água, Bari abriu-se.
Ele trabalho como treinador de cães para o governo iraquiano e como tatuador. Entre os poucos pertences que trouxe consigo estão um grande frasco de tinta e uma coleção de desenhos de tattoo, muitos dos quais estão gravados nos seus bíceps. Mas disse que foi o treino de cães de guarda para o exército que despertou a ira das milícias locais, embora não especifique quais.
“Eles mataram um dos meus cães e depois fizeram ligações telefônicas ameaçadoras”, diz, fumando um cigarro iraquiano de um maço que trouxe consigo. Temendo pela sua vida, o jovem de 29 anos escapou em pânico da cidade, deixando para trás a esposa e duas crianças. Agora Bari espera chegar à Finlândia, onde planeja recomeçar a vida em segurança, juntando-se à família depois de conseguir estabelecer-se. Mas ainda olha para a destruição da sua pátria com amargura. Culpa um ator acima de todos os outros: os Estados Unidos.
“A América matou as pessoas e destruiu o Iraque. Estavam só atrás do petróleo”, diz, citando a invasão de 2003 como a fonte do caos atual que o forçou a imigrar. Apesar do seu papel na criação desse deslocamento em massa, nem os Estados Unidos nem os seus aliados europeus naquela guerra estão a fazer muita coisa para receber os refugiados gerados pela sua ocupação fracassada.
À medida que eu viajava com as pessoas à procura de asilo na sua caminhada pela Grécia, ouvi várias histórias semelhantes de afegãos, cuja deslocação tem raiz nos despojos da invasão de 2001. E dezenas de refugiados sírios disseram que fugiram do seu país por causa da natureza aparentemente interminável da guerra regional por procuração que o está a destruir. Embora culpem Assad pela sua brutalidade, culpam igualmente os Estados Unidos, a Europa e os seus aliados do Golfo Pérsico e da Turquia por inundar o país com armas e soldados que agravaram o conflito.
Ainda assim, nos campos de trânsito da ilha de Lesbos não há sinal algum de que a Europa assumirá responsabilidade por uma crise política que está a levar milhares de pessoas a essas condições insuportáveis de vida. Ao contrário, a tarefa de cuidar dos refugiados tem sido atribuída para voluntários locais e meia dúzia de ONG’s subequipadas.
FOTO: Distribuição de documentos de registro gregos no campo de trânsito de Kara Tepe, em Lesbos. (Foto: Lazar Simeonov)
O resultado são dois campos não administrados na ilha pelo qual todos devem passar. O local tem apenas algumas da casa de banho, que são sobre utilizados e pouco limpos. A comida é providenciada por voluntários locais ou vendida por preços inflacionados por carrinhos de comida e cantinas, que tentam explorar o desespero das pessoas. Os únicos chuveiros são torneiras ligadas a cercas, sem teto ou cobertura, e as pessoas têm que se lavar ao ar livre, onde todos podem vê-las.
Se a pessoa não consegue encontrar lugar em alguma das tendas de exército doadas, ou tem que pagar caro por apetrechos de acampamento ou dormir na sujidade, com pouca sombra e cercada pelo cheiro de milhares de outros cozinhando no calor mediterrâneo. É aqui que eles esperam durante dias, planeando por telemóveis a sua viagem rumo ao Norte e Oeste e assistindo a vídeos do Youtube, com dicas de como evitar a polícia de fronteira.
“Tenho que relembrar o meu tempo no Zaire (agora conhecido como República Democrática do Congo) no começo da guerra civil para dizer qual foi a última vez em que estive num acampamento não gerido”, diz Kink Day, líder da equipa responsável por emergências do Comité Internacional de Resgate (IRC, em inglês), em Lesbos. Ele está chocado com o facto de mesmo depois de anos a trabalhar em zonas de conflito, o IRC seja necessário na Europa. Ele nota que sem dinheiro, vontade ou habilidade do governo para lidar com os refugiados produzidos por esses conflitos, a crise na Grécia era completamente previsível. “Essa é a crise humanitária mais política que já vi. É uma batata quente política”, afirma.
FOTO: Chuveiros no acampamento de trânsito de Kara Tepe, Lesbos (Foto: Lazar Simeonov)
Essas tensões estão tão visíveis nas ruas de Lesbos quanto no Parlamento da União Europeia. Os apoiantes locais do partido fascista grego Golden Dawn se locomovem pela ilha, ameaçando refugiados e ativistas que os ajudam. Muitos gregos sentem simpatia pelos que estão à procura de proteção, mas muitos outros acusam-nos de perturbar o turismo e consumir recursos.
Guardas de segurança em praias públicas retiram agressivamente jovens sírios que querem nadar, afirmando que isso incomoda os turistas. Quase ninguém reconhece que estão a injetar dinheiro em cafés e restaurantes locais no entorno da cidade de Mytilini. E como um agente de viagem que insistiu em permanecer anónimo me disse, “esses caçadores de asilo são muito bons em vender bilhetes de balsa”.
Quando finalmente recebem os seus documentos gregos de registo de refúgio, as pessoas deixam Lesbos tão rápido quanto possível em balsas com destino a Atenas. O convés dos grandes barcos em que viajam parece-se com uma mistura de um cruzeiro mediterrâneo e uma embarcação de evacuação de zona de guerra, com turistas queimados de sol e pessoas que pedem asilo atropelando-se pelos assentos com a melhor vista e a brisa mais fresca.
FOTO: Centenas de refugiados acampam todas as noites no porto de Mytilini, a maior cidade em Lesbos, para evitar dormir nos acampamentos de trânsito superlotados. (Foto: Lazar Simeonov)
“Continuo a dizer-lhes que estamos juntos nesta viagem diz Johnny Mhanna, um ator de 24 anos de idade de Damasco, que voou para Beirute em 2013 para evitar o alistamento pelas forças de Assad. Ele e os seus nove outros companheiros de viagem estavam a começar a achar que era impossível construir uma vida estável no Líbano, onde a população cresceu um quarto por conta do influxo sírio, enquanto o governo se recusa a reconhecer que aqueles que fogem da guerra são refugiados.
Sem conseguir voltar para a Síria, eles decidiram procurar estabilidade na Áustria ou Alemanha. Ainda assim, se alguém ouvir por alto a conversa deles, será fácil confundir esse grasnar de jovens de bigodes e cabelo despenteado, vestindo camisas inglesas irônicas e mexendo nos seus iPhones, com uma festa hipster.
Assim que o navio atraca em Atenas, eles encaminham-se diretamente à rodoviária. Os que procuram asilo, assim como muitos dos sírios e iraquianos que passam por Atenas, pulam em comboios e autocarros que rumam para a cidade costeira de Thessaloniki no mesmo dia e de lá dirigem-se à fronteira grega com a Macedônia o mais rápido possível.
Muitos afegãos, apesar disso, param em Atenas para descansar por muitos dias e planear os seus próximos passos. A maior parte esteve em viagens mais longas e caras, passando pelo Paquistão e Irão antes de entrar na Turquia, e têm menos dinheiro. Histórias de tiros contra eles dados pelos guardas da fronteira e abusos pela polícia iraniana, exército e traficantes são comuns.
FOTO: A balsa de Lesbos para Atenas (Foto: Lazar Simeonov)
“Levamos tiros de guardas das fronteiras iraniana e turca quando tentamos atravessá-las. Fui abatido por traficantes de pessoas e tive que passar meses a trabalhar no Irão para ganhar dinheiro suficiente para continuar a viagem”, diz Mohammad Raza, 34 anos, de Mazar-i-Sharif, Afeganistão. Viajando com nove outros membros da sua família, ele é — como a maior parte dos afegãos que procuram asilo na Grécia — da minoria étnica xiita hazara, num Afeganistão dominado por sunitas pashtuns. Reza descreve a fuga tanto do Talibã quanto do governo que persegue as minorias.
Por muitos dias, Reza e a sua família acamparam com centenas de pessoas, principalmente afegãos, no Parque Vitória, em Atenas. Um dos lados do outrora bem cuidado jardim da cidade é uma tenda de refugiados; a outra metade tem sido, há tempos, o lugar onde viciados locais usam drogas. O parque era o único ponto de descanso que muitos dos refugiados encontravam, ao repousar em Atenas, até o governo abrir um primeiro acampamento de emergência para refugiados em trânsito na cidade, no final de agosto.
O comboio que viaja ao longo da noite de Atenas para Tessalônica pode também ser chamado de Asilo Express. É a principal rota, hoje, de pessoas que procuram refúgio na Europa Ocidental e do Norte. Leva transitoriamente para fora da zona do euro — rumo à  Macedônia e a Sérvia — apenas para retornarem à União Europeia na Hungria, de onde podem conectar-se ao seu destino por terra, segundo o acordo de fronteiras abertas da UE. O comboio esgota as suas passagens toda noite. A plataforma fica cheia, uma mistura de refugiados e repórteres locais acotovelando-se por uma foto de centenas de pessoas disputando espaços no comboio.
Por causa da crise econômica grega, assim como pela sua experiência nas ilhas, nem um único refugiado com quem falei planeava ficar no país; mas os seus documentos de registo gregos não são considerados suficientes para permitir-lhes comprar passagens de avião para o seu país de destino na União Europeia. Isso submete os refugiados a um risco maior, e coloca mais dinheiro nos bolsos dos traficantes de pessoas — como aqueles que deixaram 71 seres humanos sufocar na galera de um caminhão, descobertos na Áustria na semana passada.
“Por que conscientemente deixamos que estas pessoas coloquem as suas vidas e as das suas famílias em grave risco, se são refugiados de boa fé?”, Day pergunta-se. “Quanto mais vamos deixar pessoas sofrerem?”
Essa foi uma pergunta que povoou as mentes de milhares de pessoas à procura de asilo, acampadas numa fronteira demarcada por trilhos de comboio entre a Grécia e a Macedônia, na semana passada. A polícia usou a força numa tentativa de fechar a fronteira, atacando gente de todas as idades com gás lacrimogênio e balas de borracha. Foi uma visão do inferno, reminiscente de imagens da Grande Depressão nos Estados Unidos, quando a polícia atacava pessoas carentes nas estações de comboio.
Enquanto os refugiados gritavam e tentavam pressionar a barreira policial, um grupo de políticos alemães, do legislativo estadual da Bavaria, fazia perguntas tentando dar sentido à situação. Eles não firmaram nenhum compromisso para ajudar os refugiados, apenas reconheceram a dificuldade enquanto, simultaneamente, diziam compreender as preocupações da Macedônia.
FOTO: A polícia da Macedónia ataca os refugiados na fronteira com a Grécia. (Foto: Lazar Simeonov)
“É uma situação muito difícil, mas a Macedônia é um país pequeno”, disse Martin Neumeyer, um parlamentar estadual do partido de centro-direita União Social Cristã, sobre aqueles que querem passar pelo país balcânico. Parado no meio de uma grande multidão de sírios e afegãos, ele sustenta que a Alemanha já acolheu muitas pessoas em comparação com o resto da Europa. Tanto a Alemanha quanto a Suécia receberam consideravelmente mais refugiados que a Grã-Bretanha, mas, para Neumeyer, o argumento é usado como uma justificativa para a Alemanha restringir a passagem pelas suas fronteiras, ao invés de encontrar uma solução para realojar as  pessoas desalojadas na Europa.
Enquanto centenas de pessoas são enquadradas pela polícia anti manifestações da Macedónia a algumas centenas de metros dali, Rawa Abdullah, 39 anos, de Latakia, Síria, ficou enfurecida pelos comentários de Neumeyer. Professora de inglês e mãe de três filhos, que fugiu da Síria no mês passado, está a tentar desesperadamente chegar à Alemanha com a sua família. Já está bloqueada na fronteira há quatro dias. Mais tarde neste dia, milhares conseguiram forçar o seu caminho pelas linhas policiais e entrar na Macedónia, mas naquele momento ela sentiu-se simultaneamente paralisada e determinada a continuar a viajar para o norte.
“Não podemos voltar. Aonde iríamos?”
Tradução: Gabriela Leite Inês Castilho para o Outras Palavras

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A culpa não é da China, mas dos bancos centrais

Por Marco Antonio Moreno

Janet Yellen

desvalorização do yuan decidida pelo Banco Central da China surpreendeu os mercados financeiros. Depois da ancoragem do yuan frente ao dólar, após a falência do Lehman Brothers em 2008, com uma margem mínima de oscilação, as autoridades chinesas gradualmente alargaram a área de variação que no ano passado passou de 1% a 2%. A decisão de 11 de Agosto de desconectar o yuan do dólar provocou alta volatilidade nos mercados não vistos desde a eclosão da crise em 2008. Durante as últimas quatro semanas os mercados entraram em pânico, com flutuações até 5 por cento. E agora que o governo chinês não conseguiu intervir para corrigir o yuan, a implosão do mercado acelera. Por que o governo chinês desvalorizou o yuan? 

As razões para a desvalorização do yuan podem ser encontradas na queda anual de 8 por cento das exportações chinesas reportadas em julho. A ligação do yuan ao dólar após a crise em 2008, eliminou o risco da taxa de câmbio e facilitou o fluxo de investimento estrangeiro mas também causou uma sobrevalorização das yuan que penaliza a balança comercial. Na verdade, o câmbio real na China aumentou 30% entre 2008 e 2014, enquanto os países vizinhos e concorrentes da China nos mercados globais, como a Tailândia, Malásia, Indonésia, Singapura, sistematicamente desvalorizaram suas moedas. Isso produziu uma diminuição progressiva das exportações chinesas que agora respondem por 25 por cento do PIB em comparação com 40% há alguns anos. Desvalorizações competitivas são a primeira e mais óbvias maneiras de combater os ataques mercantilistas. Por isso a guerra cambial iniciada em 2010. Com isto a guerra de divisas escala nova etapa.

Falsos milagres econômicos
Embora haja uma tendência de culpar a China do massacre que hoje sofrem mercados, a culpa real encontra-se com os principais bancos centrais. Europa, Estados Unidos e Japão facilitaram a política de dinheiro barato e a especulação jogaram junto para criar milagres econômicos falsos. Como essas políticas de expansão monetária tenha chegado ao fim, entramos em um processo de desaceleração global. As políticas monetárias falharam miseravelmente, porque em sete anos de crise não gerou crescimento do emprego nem permissão para retornar aos níveis anteriores em 2008. As políticas monetárias dos bancos centrais, de Ben Bernanke para Mario Draghi, só criou bolhas especulativas e mais sistema bancário sombra é o que agora está caindo aos pedaços.
Como observado desde 2008, as políticas dos bancos centrais e seu controle da inflação geraram grandes benefícios de capital especulativo em detrimento da economia real. O fracasso dos bancos centrais tornou-se esmagador agora se faz contundente e os têm pego em seus próprios erros. A turbulência no mercado é o resultado de políticas que incubaram a crise através da interminável cadeia de bolhas. Se há oito anos tínhamos a certeza de que os bancos centrais tinham falhado ao não detectar a crise que tinha sido incubada sob seus narizes, desta vez os bancos centrais são diretamente responsáveis ​​pelo colapso financeiro que antecipou a nova recessão global, impulsionando as maiores bolhas especulativas

Mutações da crise: do TARP ao ZIRP (I)

Como nunca houve uma verdadeira reforma regulatória do sistema bancário e financeiro, a flexibilidade monetária levou a um mundo mais incerto. E hoje que se aproxima o fim do mundo ZIRP, prepara-se a terceira grande mutação da crise mundial. 

Por Alejandro Nadal

Em setembro de 2008, o senador Sherrod Brown recebeu uma chamada telefônica do secretário do Tesouro, Hank Paulson, e de Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal. Brown não era um grande hierarca do Senado, por isso a sua voz era precisa para lançar uma ideia absurda. Paulson e Bernanke foram ao essencial: Precisamos de 700 bilhões de dólares, e precisamos deles em três dias. Além disso, disseram-lhe, o plano que tinham entre mãos requeria que Paulson tivesse a capacidade de gastar esse dinheiro como quisesse, sem supervisão alguma e sem ter que prestar contas perante qualquer tribunal.

Foto de Ervins Strauhmanis/flickr
Começou assim o processo de chantagem, intimidação e mentiras que culminaria com o programa de resgate de ativos com problemas, o tristemente célebre TARP (Troubled Asset Recovery Program). A 18 de setembro de 2008, às 11 da manhã, Paulson disse a um grupo de senadores: Se o congresso não fizer o que estamos a pedir, mais de 5 trilhões de dólares de riqueza desaparecerão em menos de 24 horas. Ou seja, uma hecatombe está iminente e vocês assumirão a responsabilidade se não fizerem o que vos dizemos.

Para que queria Paulson o dinheiro? O crédito interbancário estava congelado e o sistema de pagamentos ameaçava paralisar. Comprando os ativos tóxicos que os bancos tinham nos seus livros, Paulson pensava que se poderia reativar a confiança entre bancos (e, diga-se de passagem, beneficiar alguns dos seus velhos amigos).

A chantagem e a intimidação não foram suficientes e Paulson teve que adoçar o pacote para conseguir a sua aprovação. Em outubro de 2008 conseguiu que o congresso aprovasse a sua lei de emergência para a estabilização econômica. O artigo 109 estipulava que o Departamento do Tesouro poderia introduzir mudanças nos créditos outorgados para evitar despejos. Mas a promessa de ajudar os devedores foi só um truque para conseguir votos (servindo de escudo a muitos congressistas que precisavam mostrar um compromisso com as suas bases eleitorais). Poucos meses da nova lei ser aprovada, o artigo 109 era já letra morta.

O TARP converteu-se rapidamente num programa de injeção de recursos para os bancos e algumas grandes empresas. E aos bancos beneficiários do TARP nem sequer lhes foi exigido que prestassem contas sobre o que tinham feito com os recursos recebidos. Como se isso não bastasse, aos bancos não foi condicionada a ajuda a que reativassem o crédito para a atividade produtiva e para os consumidores, o que a retórica do TARP tinha prometido. No final, os bancos começaram a usar esses recursos como quiseram.

Diz-se com frequência que o TARP ajudou a mitigar os piores efeitos da crise e imprimiu maior estabilidade ao sistema bancário nos Estados Unidos. A realidade é diferente: os grandes bancos (JP Morgan, Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs) tornaram-se maiores e a volatilidade e instabilidade não diminuíram.

Mas o TARP não podia continuar por muito tempo. O congelamento do crédito interbancário era um problema maior e não se podia resolver com um simples resgate pontual de ativos tóxicos. E, por outro lado, o TARP não permitia injetar recursos no sistema bancário sombra. De modo que desde novembro de 2008 o TARP foi sendo substituído por outro mecanismo: uma nova modalidade de intervenção da Reserva Federal. Em finais de 2008, a Reserva Federal já tinha comprado mais de 600 mil milhões de dólares de créditos hipotecários aos bancos com mais problemas.

A Reserva Federal já tinha iniciado a política monetária flexível que desembocaria em taxas de juro próximas de zero, o regime ZIRP (Zero Interest Rate Policy). Assim, sem poder manipular mais a taxa de juro de referência para o crédito interbancário, a Fed decidiu manipular a quantidade de dinheiro que é injetada na economia. E fê-lo através de um programa de flexibilidade quantitativa (QE, na sigla em inglês) que funcionaria através de dois canais, comprando ativos (de má qualidade) dos bancos e adquirindo títulos do Tesouro. O objetivo de comprar-lhe ativos aos bancos era retirar-lhes pressão para que aumentassem o crédito à produção e ao consumo. O propósito de adquirir títulos do Tesouro era reduzir o rendimento desses títulos e, portanto, eliminar o incentivo que os bancos tinham para os adquirir (em vez de emprestar mais recursos à economia real). Mas a realidade é que os bancos não passaram a emprestar ao público em geral e, pelo contrário, dedicaram-se a emprestar ao governo e a especular no mercado mundial. O resultado é que um dos motores mais importantes da economia global é a especulação no mercado de divisas que recebeu um gigantesco estímulo através da política monetária. Como nunca houve uma verdadeira reforma regulatória do sistema bancário e financeiro, a flexibilidade monetária levou a um mundo mais incerto. E hoje que se aproxima o fim do mundo ZIRP, prepara-se a terceira grande mutação da crise mundial.
Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano “La Jornada” em 2 de setembro de 2015
Alejandro Nadal
Economista, professor em El Colegio do México.

Olivier Blanchard e o FMI na depressão

por Michael Roberts
O grupo G20 das principais economias se reúne  nna Turquia neste final de semana. Para a reunião, o FMI emitiu uma atualização sobre o estado da economia global - e o FMI está preocupado. Ele ressalta que o crescimento global no primeiro semestre de 2015 foi menor do que no segundo semestre de 2014, refletindo um novo abrandamento nas economias emergentes e uma recuperação mais fraca nas economias avançadas. O crescimento da produtividade tem sido persistentemente fraco.
Então, mais uma vez, o FMI reduziu sua confiança no crescimento global e, no entanto, mais uma vez, espera um 'modesto' pick-up no segundo semestre deste ano e em 2016. Mas, aparentemente, os "riscos são inclinados para o lado negativo e uma realização simultânea de alguns destes riscos implicaria uma perspectiva muito mais fraca. "
Esta reunião do G20 será a última para o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, que está deixando para assumir um novo posto lucrativo com a corrente principal da reflexão econômica, o Instituto Peterson. Blanchard deu uma entrevista no blog do FMI em que delineou seus pensamentos e revisou seus sucessos e fracassos. De origem francesa Blanchard, ex-presidente do departamento de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, se juntou ao FMI em 2008, no auge da crise financeira global e na profundidade do que se seguiu a Grande Recessão, apenas duas semanas antes de o banco Lehman Brothers entrar em colapso.
Blanchard
Blanchard é um economista convencional eclético extraordinário, baralhando entre idéias neoclássicas e keynesianas como lhe aprouver - o timoneiro econômico perfeito para o FMI como o representante institucional do capital financeiro internacional.
Blanchard diz que "A crise foi um evento traumático durante o qual todos nós tivemos de questionar muitas crenças mais caras .... questionando várias suposições sobre o papel da política fiscal, incluindo o tamanho dos multiplicadores fiscais, a utilização de medidas não convencionais de política monetária e ferramentas macroprudenciais, os fluxos de capital e medidas para controlá-los, políticas de mercado de trabalho e o papel das micro e macro flexibilidades." Em outras palavras, tudo tem sido questionado, exceto as causas das crises na produção e acumulação capitalista.
Não, isso não é justo. Na entrevista, Blanchard admite que"teria sido intelectualmente irresponsável, imprudente e politicamente, para fingir que a crise não mudou os nossos pontos de vista sobre a forma como a economia funciona. Credibilidade teria sido perdido. Portanto, repensar, ou empurrando o envelope não foi uma escolha, mas uma necessidade. "
E qual foi o grande repensar? A grande coisa para o FMI durante a Grande Recessão ea subsequente recuperação fraco era o tamanho do que são chamados os "multiplicadores fiscais», ou seja, o grau de impacto sobre o crescimento económico eo desemprego de impor cortes de gastos do governo e aumento de impostos para equilibrar os livros do governo e reduzir a dívida pública, no meio de uma queda grande - o grau de 'austeridade'. Blanchard está convencido de que os multiplicadores fiscais são subestimados em um mundo de taxas de juros 'com destino zero "quando flexibilização da política monetária tem pouco ou nenhum efeito. Corrigir essa foi uma grande conquista do FMI sob sua liderança econômica.
O problema é que há muita contra-evidência que os multiplicadores fiscais não são muito maiores em recessões - em outras palavras, a queda não era realmente um produto de 'muito austeridade ", mas de outra coisa. De qualquer forma, mesmo se Blanchard notado que a austeridade fiscal feito a queda pior do que poderia ter sido, ele defende mais gastos fiscal por parte dos governos, então? Não ele não. Ele apenas deu a entender que os governos não devem ser tão dura. É isso aí.
A outra coisa que Blanchard contado onde ele fez a diferença "estava nas discussões resgate grego. O FMI reconheceu que tinha cometido um erro no primeiro resgate em 2011 em não insistir sobre a reestruturação da dívida, para que a dívida pública grega tornou-se sustentável. Eles manteve o silêncio sobre isso. Blanchard afirma que "fazia sentido para defender a redução da dívida pela primeira vez em privado. Nós fizemos. E quando pensamos que o nosso argumento não estava a conseguir passar, fez bom senso para, em seguida, ir a público. "No futuro, o FMI insistia que os credores do setor privado (bancos etc) também tomar uma batida quando a reestruturação da dívida pública para um governo 'angustiado' querendo FMI «auxílio». Bit tarde demais talvez!
Na entrevista, Blanchard também fez questão de enfatizar que ele havia iniciado discussões entre economistas sobre a natureza, causas e soluções para a Grande Recessão ea Grande Depressão (como eu chamo a fraca recuperação) depois. Ele havia lançado três conferências Rethinking Economia sob os auspícios do FMI. E o que fez o grande e bom de macroeconomistas montados concluir?
Bem, ele foi causado por banqueiros irresponsáveis ​​impertinentes causando um pânico financeiro (Ben Bernanke)ou 'choques financeiros' (David Romer) ou simplesmente aconteceu ("minha opinião é que é como se um gato escalou uma árvore enorme. Ele está lá em cima e, oh meu Deus, nós temos este gato lá em cima. O gato, é claro, é esta enorme crise. E todo mundo na conferência foi comentando sobre o que devemos fazer em relação a este gato estúpido e como podemos obtê-lo para baixo. " Disse George Akerlof marido da atual presidente do Fed, Janet Yellen)!   Na época, Blanchardconcluiu que "nós temos um senso geral de direção, mas são em grande parte navegando pela vista." Por isso, eu acho que ele realmente quis dizer que os economistas estão navegando cego, como não havia nenhuma teoria de que rumo tomar! Na verdade, Blanchard resume: "Não há uma visão comum do que a futura arquitectura financeira deve ser semelhante e, por implicação, sem visão do que a regulação financeira apropriada deve ser acordado." Em outras palavras, nenhuma visão.
Como Blanchard afirmou na entrevista FMI: "A crise financeira levanta uma crise potencialmente existencial para a macroeconomia." De fato! Ele avaliou que a economia ortodoxa deve começar a desenhar sobre as velhas idéias de economia heterodoxa, nomeadamente a "hipótese da instabilidade financeira de Hyman Minsky. . Modelos Kaldoriano de crescimento e desigualdade "E mesmo política" que teria sido considerada um anátema no passado estão sendo propostos por "sérios" dos economistas.: Por exemplo, o financiamento monetário do défice orçamental "também" algumas [neoclássica] pressupostos fundamentais estão sendo desafiados, por exemplo, a separação clara entre os ciclos e tendências "ou" ferramentas econométricas, com base em uma visão do mundo como sendo estacionário em torno de uma tendência, estão sendo desafiados. "
Mas é uma mistura de Blanchard: degola para o mainstream e desenho em algumas opiniões heterodoxas sobre o dano causado por um setor financeiro endividada (Minsky) ou aumento da desigualdade (Kaldor e, claro, agora Piketty e Stiglitz). Naturalmente, escusado será dizer que as idéias de economia marxista, de uma contradição irreconciliável entre o crescimento, o emprego ea rentabilidade sob produção capitalista não é parte do mais amplo abrangente de "velhas idéias" de Blanchard.
Blanchard avalia que a experiência da Grande Recessão e Longa Depressão levaram a "um balanço claro do pêndulo longe de mercados para com a intervenção do governo", mas "com muito ceticismo sobre a eficácia da intervenção do governo". Bem, ele poderia ter me enganado que a economia do grosso da população e os governos querem mais governo e mercados menos. E talvez o mainstream é certo que a intervenção governamental não vai funcionar de qualquer maneira na restauração de uma economia - veja flexibilização quantitativa como uma intervenção monetária inovadora.
Quanto ao futuro, Blanchard hedges suas apostas. Parece que as economias capitalistas antecipadas vão sofrer um crescimento muito menor "Há uma boa chance de que entrámos num período de baixo crescimento da produtividade. Há uma chance de que entramos em um período de demanda estruturalmente fraca, o que vai exigir taxas de juro muito baixas. "Esta é uma má notícia para os estrategistas do capital, para a qual ele é um consultor de liderança econômica, como" baixo crescimento combinado com o aumento desigualdade, não só é moralmente inaceitável, mas extremamente perigoso politicamente ".
Blanchard não oferece nenhuma explicação sobre por que as economias de mercado em todo o mundo estão a abrandar e entrega de menor crescimento da produtividade e aumento da desigualdade. Mas é um dilema moral, e ainda mais preocupante, 'politicamente perigoso "para o capitalismo.
Então, o que fazer Capital? Como Blanchard dirige para seu novo trabalho, ele concluiu que "não há soluções mágicas: Temos de ser realistas quanto ao que as reformas estruturais são politicamente viável, e que eles podem razoavelmente alcançar." Great.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Aula de Mia Couto durante a cerimônia “Doutor Honoris Causa”

O LIVRO QUE ERA UMA CASA A CASA QUE ERA UM PAÍS

Aula de Mia Couto durante a cerimónia “Doutor Honoris Causa”

Todos os povos amam a Paz. Os que passaram por uma guerra sabem que não existe valor mais precioso. Sabem que a Paz é um outro nome da própria Vida. Vivemos desde há meses sob a permanente ameaça do regresso à guerra. Os que assim ameaçam devem saber que aquele que está a ser ameaçado não é apenas um governo. O ameaçado é todo um povo, toda uma nação.

Pode não ser este o momento, pode não ser este o lugar. Mas é preciso que os donos das armas escutem o seguinte: não nos usem, a nós, cidadãos de Paz, como um meio de troca. Não nos usem como carne para canhão. Diz o provérbio que “sob os pés dos elefantes quem sofre é o capim”. Mas nós não somos capim. Merecemos todo o respeito, merecemos viver sem medo. Quem quiser fazer política que faça política. Mas não aponte uma arma contra o futuro dos nossos filhos. É isto que queria dizer, antes de dizer qualquer outra coisa.

Que me seja perdoado este empolgado introito. Que me seja perdoada a falta de etiqueta que deveria começar por saudar a presença do Presidente da República, o Presidente Jacinto Filipe Nyussi. Na verdade, Excelentíssimo Presidente, talvez eu tenha adiado esse momento porque um escritor não deveria nunca declarar-se sem palavras. Na verdade, sabendo da sua intensa e preciosa ocupação, eu não encontro palavras para lhe agradecer a honra da sua presença.

O que quero dizer é saudar o seu apelo para repensarmos o modo como nos concebemos como povo e como nação. Queremos ser parte desse esforço, queremos aprender a ser um país que não exclui, um país plural e diverso. Queremos ajudar a construir uma nação que assume, sem medo, as suas diferenças. Esta nova atitude pode ser a cura para uma espécie de autismo de que vínhamos padecendo. Quero saudar a presença do Presidente Joaquim Chissano, é um prazer imenso reveê-lo.

É difícil imaginar quanto, mesmo ouvindo, podemos ser surdos. Seletivamente surdos. Escutamos os que nos são próximos, escutamos os que nos obedecem, escutamos o que nos agrada ouvir. Escutamos os do nosso partido, escutamos sobretudo quem não nos critica. Tudo o resto não existe, tudo o resto é mentira, tudo o resto é calúnia. Tudo o resto é proferido pelos “outros”. E é quase um paradoxo: porque se ocupam páginas inteiras dos jornais a dizer que os “Outros” não devem ser ouvidos. Gastam-se horas de programação radiofónica e televisiva para dizer que os outros não disseram nada. Esses “outros” que querem questionar o que fazemos, esses outros são “estranhos”, a caminho mesmo de serem “estrangeiros”. A verdade, porém, é que ninguém pode anular a existência desses “outros”. Ninguém pode negar que são moçambicanos. Ninguém pode saber se têm razão se não deixarmos que falem livremente. Esta é a grande lição do Presidente Nyussi que entendeu reconciliar uma nação apartada de si mesma. É ele que nos lembra que esses que dizem “não”, são da mesma família dos que dizem “sim”. Esta é uma mesma família que dispõe de uma única casa. Não existe outro lugar, não existe outro destino senão este que dá pelo nome de Moçambique.

Digo tudo isto sem qualquer embaraço. Porque todos nós, a começar por si, Senhor Presidente, queremos fugir da pratica da bajulação. Com a sua atitude de abertura e simplicidade, o Presidente sugere uma outra relação, mais próxima, mais verdadeira. Apesar de tudo, é fácil imaginar que junto a Vossa Excelência já se criou um cortejo de aduladores. Felizmente, veio da sua parte um sinal de alerta: assim que tomou posse, o Presidente Filipe Nyussi começou a receber gente que não batia palmas, gente que tinha interrogações e levantava críticas. Os seus ministros estão a fazer o mesmo, estão a escutar os que pensam diferente, estão a sentar-se com os que deixaram de ser ministros, estão a aprender desses outros que estavam condenados à condição de já terem sido alguém. Parece pouco perante os gigantescos problemas que enfrentamos. Mas esta forma de lidar com as pessoas pode sugerir uma outra forma de lidar com os grandes os desafios.

Por tudo isto queria muito dizer-lhe: muito obrigado, Senhor Presidente. Muito obrigado por nos ter devolvido a nossa dimensão de família. Muito obrigado por ter reabilitado o nosso estatuto de moradores na mesma casa. Durante muito tempo fomos conduzidos a construir fronteiras que nos separavam em pequenas nações dentro da grande Nação moçambicana. Durante muito tempo houve quem sugerisse que havia categorias de moçambicanos, uns mais autênticos que os outros. Ainda hoje sobrevive em alguns esse olhar de polícia de identidades. Ainda hoje há quem avalie os outros pela cor da sua pele, pela cor da tribo, pela cor do seu partido. Ainda hoje, há os que, em lugar de discutir ideias, atacam pessoas. E ainda prevalecem os que, em lugar de procurar soluções, procuram modos de esconder os problemas. Toda esta cosmética foi sendo feita em nome da unidade e do patriotismo. Toda esta encenação de normalidade é uma herança que pedia uma resposta firme. Esta resposta foi trazida por si. Sem grandes proclamações, mas de um modo firme e continuado. Conhecemos hoje essa sua mensagem: podemos ter os recursos que tivermos. Não disso é tão promissor como o nosso património humano feito de tanta gente tão diversa.

O Presidente está a criar uma dinâmica que é bem mais do que uma nova política. É uma nova cultura. E esta cultura pode marcar uma diferença em toda história de Moçambique. Parabéns por quanto já acendeu como esperança, parabéns pelo seu modo paciente, sem recurso ao autoritarismo, sem uso da demagogia fácil. Parabéns pelo caminho iniciado para devolver à política a sua dimensão ética e humana.

Magnífico Reitor, Professor Doutor Lourenço do Rosário

Dizem que os escritores são donos das palavras. Não são. As palavras, felizmente, não tem dono. Às vezes, sinto pena que assim seja. Porque se tivesse esse poder eu o aliviaria das formas de tratamento que são bem mais pesadas que estas minhas novas vestimentas.

Na verdade, o Professor Doutor Lourenço do Rosário não precisa do lustro de um título seja ele qual for. Lourenço do Rosário conquistou um lugar de respeito não apenas na academia mas na sociedade moçambicana como um homem empenhado com a sua gente e com a sua pátria. E essa autoridade moral que vem exercendo na sua função de mediador das conversações no Centro de Conferências Joaquim Chissano. Sabemos como é difícil encontrar, entre nós, personagens capazes de reunir tão amplo consenso. Somos uma nação que foi convidada a assumir-se em dualidades extremas. Os que defendem a lucidez da isenção foram sempre olhados com desconfiança.

As suas recentes palavras são um alerta para quem se esquece que o país não pertence a nenhum partido. Eu vou reproduzir essas suas palavras com o risco de o estar a citar por via dos jornais (e os jornais são mais criativos do que qualquer escritor). O Professor terá dito: “No fundo, o partido da oposição está a revelar a sua pretensão em cumprir aquilo que a gíria popular chama de “chegou a nossa vez”.

Traduzindo as suas palavras na linguagem da oralidade que Professor Rosário tão bem conhece o resultado poderia ser assim: é que para uns, a política é uma panela. É preciso comer muito e rápido porque a colher é muito disputada e a refeição pode durar pouco. Para outros, contudo, a política ainda é a nobre arte de servir os outros, a política ainda é a missão de colocar acima de tudo os interesses de todos. Possivelmente quem tanto reclama contra a partidarização não está contra o princípio em si mesmo. Quer, sim, partidarizar a dois. Não me importa o nome dos partidos. A minha questão não é tanto de ordem política que, para isso, pouca vocação me resta. É uma objecção de natureza moral. Importa-me como cidadão que persista, em alguns dirigentes moçambicanos, a ideia de que Moçambique é um quintal privado. Um quintal cujo destino é ser parcelado, conforme interesses e conveniências.

Permita-me Senhor Reitor que, apesar da solenidade deste acto, o trate pelo qualificativo mais honroso que conheço que é o de “professor”. Não existe outro título que a mim mais me honre. Durante anos, dei aulas em diferentes faculdades em Maputo. Ainda hoje, passados quase dez anos, esses meus alunos passam por mim e tratam-me por professor. Não podem imaginar o quanto isso me comove e quanto receio não ter tamanho para encher aquela palavra. Professor não é quem dá aulas. É quem dá lições. Não é aquele que vai à escola ensinar. É aquele cuja vida é uma escola.

Pois o nosso Professor Lourenço do Rosário chamou-me há uns meses para me comunicar que a Universidade Politécnica me tinha escolhido para receber este grau académico. Ele confessou que receava que eu não aceitasse esta distinção. Não sou uma pessoa de títulos, nem de honrarias. Mas não fui capaz de dizer que não. Por causa da pessoa que me falava, por causa da instituição que ele representava. Ainda tive coragem de lhe perguntar: mas a cerimónia vai ser com protocolos de fardas, discursos e chapéus? E ele respondeu laconicamente: vai ter que ser. E aquele “vai ter que ser” não deixava espaço para negociação.

Demorei meses a me habituar à ideia desta tão solene solenidade. Quando pensava que já me tinha conciliado com o fantasma das vestimentas, aconteceu um pequeno e infeliz incidente. É que tive a triste ideia de mostrar aos meus netos fotografias de uma outra cerimónias de doutoramento. E um deles, entusiasmado, perguntou: mas, avô, vais ter que vestir estas saias compridas? Pois eu quero aproveitar este momento para tranquilizar a minha querida companheira, a Patrícia, que está ali sentada e dizer-lhe o seguinte: Patrícia, por baixo destas longas saias continua a estar um homem de calças.

Quero falar ainda de Luis Bernardo Honwana, o meu padrinho. A palavra “padrinho” ganhou nos dias de hoje uma conotação deslustrosa e, a partir de agora, haverá mesmo, meu caro Luís Bernardo, quem te peça para dares um jeito e arranjes umas vestimentas para algum amigo carente de títulos. Quero dizer, no entanto, que, no teu caso, me reencontro plenamente naquilo que é a etimologia da palavra “padrinho” que é o guia e de norteador. Na verdade, há muito que o Luís Bernardo, sem o saber, vem cumprindo esse papel de modelo na minha actuação como escritor e como pessoa. É preciso repetir aqui o quanto nós, escritores moçambicanos, somos devedores a Luís Bernardo. O que ele nos deixou como legado é bem mais do que ele escreveu. É uma espécie de manifesto inaugural, uma instauração de caminhos que nós depois viemos a trilhar. Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Noémia de Souza e o João Dias foram os primeiros 4 vértices dessa construção de vozes que, a um certo momento proclamaram: nós queremos escrever a história com a nossa própria caligrafia. Luís Bernardo, bem sei que és avesso a estes tratos: mas eu não posso deixar de expressar a minha infinita gratidão por seres quem és: uma figura tutelar e inspiradora na escrita, na vida e no pensamento.

Há aqui algo que devo ainda revelar: comecei a trabalhar como jornalista exatamente no mesmo jornal em que LBH se havia iniciado também como repórter. Esse jornal chamava-se a TRIBUNA. Aquele foi um tempo muito curioso porque havia um jogo de descobertas. Havia um jornalismo que andava à procura do seu próprio país; mas havia também um país que andava à busca de um jornalismo que fosse seu. E essa dupla procura pedia um jornalismo feito paredes meias com a literatura. Não foi por acaso que não apenas o Luís Bernardo mas José Craveirinha, Rui Knopfli, Carneiro Gonçalves e o Luis Carlos Patraquim foram todos eles jornalistas e escritores. Eu devo muito a essa gente, a esse ambiente de inconformismo que reinava na redação dos jornais. Recordo o primeiro dia que me apresentei na redacção e fui chamado por alguém que eu venerava como poeta e que era o Rui Knopfly. E ele perguntou: queres ser jornalista? E antes mesmo de eu responder ele passou-me uma folha de papel. Nessa folha estava reproduzida uma frase de um cantor norte americano chamado Frank Zappa. E a frase dizia o seguinte: “o jornalismo de hoje consiste em colocar jornalistas que não sabem escrever, entrevistando pessoas que não sabem falar, para pessoas que não sabem ler. “ Foi um bom começo de profissão.

Lembrou Luis Bernardo Honwana os meus pais. E estou grato por essa lembrança que faz justiça à história da minha família. Tudo o que sou vem daí, aquela é nascente do meu Tempo e do tempo dos filhos, dos netos e dos que vierem depois. O mundo em que nasci e me fiz homem alimentava-se do preconceito. Criava muralhas para separar e graduar as raças. As muralhas não ofendiam apenas os que ficavam do lado de lá. Os do lado de cá, convertiam-se eles mesmos em estereótipos. Éramos, de um e do outro lado, diminuídos pelo medo e pelo desconhecimento. Acreditamos que o efeito dos preconceitos raciais e tribais é o de tentar desvalorizar uma outra raça. E isso é verdade. Esses preconceitos resultam também numa outra pérfida consequência que é a negação da existência de pessoas singulares, cada uma com a sua identidade própria. Eis o que faz o racismo, o sexismo e o tribalismo: cada pessoa deixa de ser uma criatura única, passando a ter a identidade do seu grupo. Deixa-se de ter um rosto, uma voz, uma alma: passamos a ser identificados por um rótulo geral: os negros, os brancos, os matsuas, os macuas, os do Norte, os do Sul. Fala-se de alguém e há uma voz que diz: ah, já sei como ele é, conheço esses tipos.

Caros amigos

Irei falar sobre a erosão dos valores morais e de como pode um escritor ajudar na reabilitação do tecido moral da sociedade.

Escolhi este tema porque não conheço ninguém que não se lamente da perda de valores morais. Este é um assunto sobre o qual temos um imediato consenso nacional. Todos estão de acordo, mesmo os que nunca tiveram nenhum valor moral. E até os que tiram vantagem da imoralidade, até esses, depois de lucrarem com da ausência de regras, se queixam que é preciso travar a falta de decoro.

Um dos caminhos que nos pode ajudar a resgatar essa moral perdida pode ser o da literatura. Refiro-me à literatura como a arte de contar e escutar histórias. Falo por mim: as grandes lições de ética que aprendi vieram vestidas de histórias, de lendas, de fábulas. Não estou aqui a inventar coisa nenhuma. Este é o mecanismo mais eficiente e mais antigo de reprodução da moralidade. Em todos os continentes, em todas as gerações, os mais velhos inventaram narrativas para encantar os mais novos. E por via desse encantamento passavam não apenas sabedoria mas uma ideia de decoro, de decência, de respeito e de generosidade.

Há certa de trinta anos atrás Graça Machel – que era então Ministra da Educação – convocou um grupo de escritores para lhes dizer que estava preocupada. Estou preocupada, disse ela, estamos a ensinar nas escolas valores abstractos como o espírito revolucionário, do patriotismo, o internacionalismo. Mas não estamos a ensinar valores mais básicos como a amizade, a lealdade, a generosidade, o ser fiel e cumpridor da palavra, o ser solidário com os outros. E ela pediu-nos que escrevêssemos histórias que seriam publicadas nos livros de ensino. Graça Machel tinha a convicção que uma boa história, uma história sedutora, é mais eficiente do que qualquer texto doutrinário.

Eu queria ilustrar o poder das histórias com dois pequenos exemplos. Nestes próximos momentos partilharei convosco duas vivências e o modo como essas experiências produziram em mim duradouras lições.

O primeiro episódio – uma nação à procura de um hino

Ainda há pouco entoamos nesta sala o Hino Nacional. Este hino tem uma história e eu estou ligado a essa história. Aconteceu assim: no início da década de 80, Samora Machel decidiu que o Hino Nacional então vigente deveria ser mudado. Ele tinha razão: a letra era mais um louvor à própria Frelimo do que de uma exaltação da nação moçambicana. Estávamos ainda longe do multipartidarismo, mas Samora tomou essa decisão. E nessa maneira que era a sua, “requisitou” 4 poetas e 5 músicos e fechou-os numa moradia na Matola com a incumbência de produzirem não uma, mas várias propostas de hinos. Eu era um dos 4 poetas. Eram tempos de guerra, a única coisa que havia nas lojas eram prateleiras vazias. Todos os dias saímos de casa com uma única obsessão: o que trazer para comer para a nossa família. Pois, nessa altura, de repente, estávamos numa casa com piscina, rodeado de mordomias e servidos de comida e bebida. Confesso que nos primeiros dias ficamos de tal modo fascinados que pouco trabalhávamos. Quando, a meio da tarde, escutávamos as sirenes dos carros dos dirigentes nós corríamos para o piano e improvisávamos um ar de grandes cansaços. Ao fim da tarde, eu e os meus colegas entregávamos às nossas esposas que nos vinham visitar, recipientes com a comida que cada um de nós tinha poupado durante o dia. E foi assim que, ao fim de uma semana, produzimos uma meia dúzia de hinos que foram ensaiados por um grupo coral e apresentados a uma comissão avaliadora. Havia duas propostas que mereciam a nossa preferência: uma delas era esta que agora é o nosso hino nacional, a Pátria Amada. A outra era baseada numa composição do maestro Chemane e tinha um estribilho que dizia: “Pátria de heróis! Levanta a tua voz! Viva Moçambique, povo unido, A estrela do amanhã brilhará!” O grupo coral que apresentou esta proposta em vez de Pátria de Heróis cantava: “Pátria de arroz” e a proposta ficou esquecida.

O que sucedeu é que, por razão que desconheço, a iniciativa de Samora não teve seguimento. Samora morreu, o grupo de artistas foi desfeito e cada um de nós voltou para a bicha à espera do repolho e do carapau. E nunca mais nos lembramos do que havíamos feito.

Uma década depois, o novo parlamento pluripartidário procurava um novo hino nacional. E eu fiz parte de um grupo de trabalho criado pela Assembleia da República. Esse grupo juntava pessoas apontadas pelo Partido Frelimo e pela RENAMO. Devo dizer que trabalhamos de facto juntos, num ambiente de concórdia tal que nos esquecíamos de que representávamos duas forças rivais. Fizemos dois concursos públicos mas as propostas recebidas eram todas elas muito fracas. O falecido Albino Magaia publicou então um artigo relembrando os hinos que, dez anos antes, um grupo de artistas havia criado. E foi assim que se resgataram esses registos quando estávamos nos últimos dia de trabalhos da assembleia. Escolhemos o Patria Amada com algumas dúvidas. O que não havia dúvida, porém, era que se o hino não fosse aprovado naquele dia, ter-se-ia que esperar pela próxima sessão meses depois. E aquela era uma questão de enorme sensibilidade e urgência.

Pois nesses derradeiros momentos, os colegas da RENAMO colocaram objecções sobre algumas passagens da letra. Para dizer a verdade, a maior parte dessas objeções tinha sentido. porque alguns dos versos daquela letra eram realmente marcados pelo tempo de revolução. Já não se exaltava nenhuma força política. Mas falava-se de proletários, falava-se no Sol vermelho. Pedi ao grupo de trabalho uns minutos e, ali num quarto ao lado, alterei as passagens que suscitavam polémica. Foi ali que surgiu o “Sol de Junho”, por exemplo, para substituir o Sol Vermelho. E o hino foi aprovado pelo grupo e transferido para debate entre os deputados.

Curiosamente uma das passagens que suscitou mais objecções foi essa que diz “Nós juramos por ti Moçambique, nenhum tirano nos irá escravizar”. Alguns deputados achavam que aquilo não devia estar ali. Porque, segundo eles, nunca teríamos em Moçambique a ameaça de um tirano. Todos os países do mundo podem sofrer essa eventualidade. Nós, não. Não imagino como se pode sustentar essa certeza. Subsiste a ideia ingénua que nós, moçambicanos, estamos, por qualquer razão divina, acima dos comuns mortais. Mas nós somos humanos e existirão entre nós aqueles, que na ganância do mandar, já são tiranos antes mesmo de conquistarem o Poder. Ainda bem, caros amigos, que essa estrofe não foi retirada. Há muitos modos de ser tirano. Há vários modo de ser escravo. E é bom que o nosso hino nos encoraje a não aceitar nenhum forma de tirania ou de escravatura.

Segundo episódio – O não discurso de Samora

No Quarto Congresso da Frelimo, em 1983, fui designado como responsável do Gabinete de Imprensa. Nós, os jornalistas, ficávamos confinados a um compartimento envidraçado, numa espécie de aquário suspenso sobre a grande sala. Na altura, nós já produzíamos emissões de televisão para além, é claro, da rádio e dos jornais. Logo no inicio dos trabalhos, Samora Machel subiu ao pódio para usar da palavra. Trazia consigo o Relatório do Comité Central que era, à maneira dos partidos revolucionários, um documento volumoso. Assim que começou a ler, Samora teve uma breve hesitação, colocou os papéis na bancada e falou de improviso. Foi um improviso breve mas o que ele disse foi, para mim, mais importante e mais duradouro que o extenso relatório do Comité Central. Inclinado sobre o pódio, como se ganhasse a proximidade de uma confidencia, Samora convertei a solene Sala de Congressos num espaço com intimidade familiar. E falou do seu sentimento de estranheza ao ver-se como um ex-guerrilheiro agora rodeado de facilidades, cercado pelas obrigações protocolares e de segurança de um palácio presidencial. E disse mais, falou daquilo que ele chamou das “balas doces do inimigo”. Referia-se às formas mais subtis de sedução e de corrupção que, no seu entender, eram mais perversas que as verdadeiras balas. E ele interrogou-se se os seus companheiros estariam preparados realmente para esse embate, se estavam preparados para enfrentar as balas de açúcar. A sala estava suspensa naquela confidência. A rádio e a televisão transmitiam em direto aquele desabafo do Presidente. E escutavam-se não só as palavras mas os silêncios e a respiração inquieta do presidente. Naquele momento, um oficial do protocolo entrou na Gabinete de Imprensa e entregou-me um papel com uma instrução rabiscada que dizia: interrompam imediatamente a transmissão. Aquilo foi, para mim, um balde de água fria. Porque me parecia, como jornalista e como cidadão, que estava ali a acontecer tinha um alcance didático que não poderia ser recuperado se perdêssemos a transmissão. Mas havia naquele bilhete uma ordem que eu não tinha modo de refutar. Ocorreu-me uma pequena manobra de diversão. Eu queria apenas uns minutinhos adicionais. Quem sabe o Presidente não usasse mais que esses minutos? E escrevi o seguinte nas costas no bilhete: desculpe, não entendo bem a assinatura, não se importa de identificar melhor, afinal é o Presidente quem está falar…. Dobrei muito lentamente a folha e pedi ao mensageiro do protocolo que fosse de volta. Aquele vai e vem deu-me tempo para que o presidente terminasse o seu improviso em transmissão direta.

De toda a minha carreira de onze anos de jornalismo talvez tenha sido este o momento maior. Porque estava ali um dirigente de uma nação que se despia do seu estatuto infalível e partilhava não uma certeza, mas a confissão de uma insegurança, de um fragilidade. Estava ali não um líder revolucionário discursando em voz alta, mas um homem dobrado pela angústia e murmurando dúvidas sobre o quanto valera a pena toda a sua luta.

Durante um intervalo desse mesmo congresso tive a oportunidade de me sentar com um grupo de veteranos da luta de libertação nacional. E eles foram relatando como saíram clandestinamente do país para se juntarem à luta nacionalista. Alguns desses homens confessaram que o principal motivo da sua fuga não era a libertação da pátria. O que os movia a sair de Moçambique era poderem estudar. E quando, na Tanzania, receberam a notícia que, em vez de estudar, iriam combater esses militantes foram assaltados por dilacerantes dúvidas. Alguns pensaram em desertar e fugir dos campos de treino. Foi isto que confessaram. E eu pensei que havia mais coragem naquela confissão, do que em toda a sua arriscada odisseia. Aquelas pequenas histórias humanizavam a narrativa solene e oficial que apresenta a epopeia dos nacionalistas como um desfile de super-homens. Afinal, o ninguém nasceu herói. Ele cresceu, teve duvidas, sentiu medo. A bravura maior não está no modo como combateu aos outros. A grande coragem está no combate interior, esse que fazemos para nos superar a nós mesmos.

Falei-vos há pouco dessa proposta de hino chamada Pátria de heróis que foi entoada como Pátria de Arroz. Lembro-me que, na altura, até gostei do equívoco dos cantores, porque me vieram à memória as palavras de Albert Camus quando recordava a Argélia onde ele nasceu e dizia: “Pobre do país que precisa de heróis”.

Naquela altura achei que talvez fosse preferível uma pátria de arroz a uma pátria de heróis. A verdade é que a nossa epopeia nacional foi apropriada por um discurso vazio de exaltação patrioteira.

O resultado é que as nossas ruas e praças estão recheadas de nomes de heróis. A esses heróis, porém, falta-lhes rosto, falta-lhe voz, falta-lhes vida. Herdámos uma história heroica de heróis sem história. Só temos a História com H maiúsculo. Faltam-nos as pequenas histórias, falta-nos os pequenos episódios que seduzem a imaginação e sustentam a memória.

Caros amigos

Um dia destes, um jovem funcionário propôs-me o pagamento de um suborno para emitir um documento. Aquilo não correu bem porque ele, num certo momento, reconheceu-me e recuou nos seus propósitos.

Para se redimir o jovem explicou-se da seguinte maneira:

– Sabe, senhor Mia eu gostava muito de ser uma pessoa honesta, mas falta-me o patrocínio.

Não será exatamente o patrocínio que nos afasta da honestidade. O que nos falta é criar uma narrativa que prove que a honestidade vale a pena. Houve quem confundisse o combate contra a pobreza absoluta pelo combate pela ganância absoluta. Sugeriram-nos que a auto estima pode ser resolvida pela ostentação do luxo.

Uma certa narrativa quer ainda provar que vale a pena mentir, que vale a pena roubar, e que vale a pena tudo menos ser honesto e trabalhar. Aliás, a palavra “trabalho” suscita fortíssima alergias. Pode-se ter negócios, pode-se ter projetos. Mas ter um trabalho isso é que nunca. Que o trabalho leva muito tempo e, além disso, dá muito trabalho. Mas, no fundo, todos sabemos: enriquecer rápido e sem esforço só pode ser feito de uma maneira: roubando, vigarizando, corrompendo e sendo corrompido. Não existe, no mundo, inteiro, uma outra receita.

Preocupa-nos que os nossos estudantes entrem para universidade com fraco desempenho académico. Pois eu acho mais preocupante ainda que os nossos jovens cresçam sem referências morais. Estamos empenhados em assuntos como o empreendedorismo como se todos os nossos filhos estivessem destinados a serem empresários. Ocupamos em cursos de liderança como se a próxima geração fosse toda destinada a criar políticos e líderes. Não vejo muito interesse em preparar os nossos filhos em serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo.

Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido..,) . Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeo-clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.

É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros. Histórias em que o herói não é o lambe-botas, nem o chico-esperto. Talvez essa histórias sejam o tal patrocínio que faltou ao nosso jovem funcionário.

Tudo isto é urgente e imperioso. Porque nós estamos na eminência de desacreditar de nós mesmos. Todos nós já escutámos de alguém a seguinte desistência: não vale a pena, nós somos assim. Nós somos cabritos à espera de ser amarrados num qualquer pasto. Estamos a aprender a desqualificarmo-nos. Estamos a replicar o racismo que outros inventaram para nos despromover como um povo de qualidade moral inferior.

E vou terminar partilhando um episódio real que foi vivido por colegas meus. Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projeto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram esse programa acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação hidrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido ativo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para registar, a carvão, os dados hidrológicos. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Ao receber a brigada o velho guarda estava à porta a estação, com orgulho de quem cumpriu dia após dia: acabou-se o papel, disse ele, mas o meus dedos não acabaram. Este é o meu livro. E apontou para a casa.

E esta é a história com que termino



Publicado originalmente no jornal  Confidencial de Moçambique

Eleições Presidenciais dos EUA

por Immanuel Wallerstein

Se alguém segue os meios de comunicação, e especialmente de mídia dos EUA, as perspectivas para as eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos estão mostrando uma mudança notável no tom e no processo de qualquer coisa previamente conhecida. Eu não acredito que isso seja verdade. Para ver por que, proponho a avaliar as alegadas características especiais deste último ciclo eleitoral.

Resultado de imagem para WallersteinAs principais características da mídia em fazer esse argumento são duas: A primeira é a presença de grandes figuras de votação até agora por dois "outsiders" na campanha - Donald Trump no lado republicano e Bernie Sanders no lado democrata. O segundo é o impasse aparentemente inabalável no Congresso dos EUA, onde o compromisso parece ter se tornado uma palavra suja, especialmente para um grupo considerável de membros republicanos da Câmara dos Deputados, bem como a alguns senadores republicanos.

Trump e Sanders programas têm bastante diferentes. Trump está executado em uma plataforma anti-imigrante. Sanders está executando em uma proposta do aumento das despesas do "estado de bem-estar" que exigem aumentos de impostos, que são bloqueados pelo grupo rígido anti- "compromisso" na legislatura.

Apesar das plataformas opostas, cada um obtém números consistentemente elevados nas pesquisas e também parecem desenhar surpreendentemente grandes audiências para suas palestras. Além disso, eles parecem não só para quebrar todas as regras que regem os chamados comportamentos nas campanhas, mas também parecem ser recompensados justamente para fazer isso. Então, a mídia parece concluir que estamos agora em um tipo diferente de situação política, aquele cujo resultado é bastante imprevisível e que provavelmente vai deixar uma impressão duradoura na política dos EUA.

Vamos começar com a estrutura da política eleitoral, nos Estados Unidos e a maioria dos outros países, especialmente no Norte. A situação normal, desde há muito que se realiza eleições periódicas em que existem dois principais partidos em competição, um centro-direita e um de centro-esquerda. Claro, todos eles de vez em quando temos visto o surgimento de alguns terceiros cujos votos em uma eleição especial tem ferido um ou outro destes dois principais partidos. Mas em nenhum lugar a estrutura dos dois partidos foram afetados mais brevemente, embora em alguns casos o chamado terceiro substituiu um dos dois partidos tradicionais anteriores e se tornam membro do agrupamento de dois partidos. Um bom exemplo desta última mudança em que estão os dois principais partidos é a ascensão do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha, um "terceiro", que substituiu o Partido Liberal como um dos dois principais partidos.

É claro que todo sistema eleitoral tem suas peculiaridades, que tornam mais fácil ou mais difícil de jogar o jogo. Mas a linha de fundo é que o sistema com dois partidos que só têm diferenças entre si limitadas (geralmente principalmente sobre o tamanho das alocações ao "estado de bem-estar") tem sido notavelmente resiliente para um tempo muito longo.

Nos Estados Unidos, em 2015, não há sequer um sopro de um terceiro partido sério. Pelo contrário, as pessoas com raiva que são dissidentes parecem ter decidido a buscar seus objetivos, indo para dentro dos duas partidos, em vez de ir para fora deles. Onde esses ativistas ser depois das eleições reais, se o seu candidato preferido nem sequer obter a indicação primária? Provavelmente eles vão voltar para onde estavam antes - tanto os eleitores relutantes para o candidato mais convencional ou abstêmios do processo eleitoral.

Os meios de comunicação também afirmam que a campanha presidencial dos EUA parece estar indo para sempre, como se isso fosse de alguma forma incomum. Mas isso não é realmente verdade para a França ou a Alemanha ou a Grã-Bretanha ou Japão ou para que a Grécia? A razão parece bastante óbvia. Mesmo que um sistema de dois partidos oferece aos eleitores uma escolha muito limitada, a escolha limitada parece importar para uma grande percentagem dos eleitores. E assim os potenciais candidatos e os dois principais partidos não podem nunca parar de buscar vantagem eleitoral, quaisquer que sejam as restrições formais sobre a campanha podem ser.

Acaso o fenômeno Trump/Sanders reflete a ansiedade significativa por parte do eleitorado? Sim, é verdade que ele faz. Mas a ansiedade é um fenômeno mundial, de modo algum um caso exclusivamente americano. E, mais uma vez, como nós olhamos ao redor do mundo, há quase em toda parte um aumento de apoio aos partidos e / ou indivíduos que falam a língua de ansiedade e descontentamento.

A realidade econômica do sistema-mundo se tornou um de constante aumento de desemprego e cada vez mais selvagens flutuações de preços de mercado e valorização da moeda. A resposta mais comum para este tem sido um grande aumento da retórica anti-imigrante. É difícil pensar em um país em que isso não seja verdade. A retórica protecionista tem vindo a dominar a cena política, não só nos Estados Unidos mas também quase todos os outros lugares.

Mas depois vem a réplica final da mídia: Suponha que um desses candidatos "de fora", na verdade, ganha e /ou torna-se uma parte do governo? A resposta para isso parece muito simples: Temos visto essas partes tornar-se o governo (Hungria) ou parte do governo (Noruega). Nem tudo o que muda muita coisa. Se um partido anti-imigrantes faz bem, há algum aperto sobre a entrada de migrantes e alguns aperto dos gastos do Estado de bem-estar para os setores mais pobres da população. Há algum aumento da violência anti-minoria dentro do país. Estes são todos negativos. Mas no final, nem a geopolítica do país, nem as opções econômicas do meio-run do país parecem ter mudado. Por que supor que isso não seria verdade para os Estados Unidos em 2016?

Não quero dar a entender que as eleições não importam. Eles são importantes, especialmente em termos de curto prazo. Mas importa muito menos do que frequentemente assumem. Para ter certeza, existem batalhas políticas reais acontecendo. Mas essas batalhas ocorrem em grande parte fora dos processos eleitorais.

Então, eu volto ao meu tema repetido. Estamos em uma crise estrutural do sistema-mundo moderno. Precisamos ter dois intervalos de tempo: Um é a muito curto prazo, em que temos de lutar batalhas eleitorais, a fim de "minimizar a dor" para o grande número de pessoas que estão sofrendo no curto prazo. Mas também temos de lutar contra a longo médio prazo (20-40 anos) batalha de transformação do sistema capitalista para o tipo de uma pós-capitalista que será melhor e não pior do que a atual.