"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

JOÃO ABNER - QUESTÃO HÍDRICA NO SERIDÓ

Abaixo entrevista do Professor da UFRN João Abner acerca do desabastecimento das populações do Seridó do Rio Grande do Norte e os encaminhamentos para as soluções.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O mito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Os ODS apresentam uma boa intenção, mas vendem uma grande ilusão” (Alves, 2015)
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Houve uma janela de oportunidade e o mundo conseguiu realizar uma série de Conferências globais no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1990. O fim da Guerra Fria e a maior distenção Internacional criou um ambiente de maior cooperação e de enfrentamento dos problemas nacionais e mundiais. Cabe destacar os seguintes eventos:
1992 – Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio de Janeiro, Brasil
1993 – Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, Viena, Áustria
1994 – Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, Cairo, Egito.
1995 – Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social em Copenhague, Dinamarca.
1995 – 4ª Conferência Mundial sobre Mulheres, Pequim, China
1996 – Conferência sobre Assentamentos Humanos (Habitat II), Istambul, Turquia
1996 – Cúpula Mundial da Alimentação, Roma, Itália
Todas estas Conferências tiveram ampla participação dos governos, empresas e sociedade civil. Elas produziram documentos de dezenas de páginas com uma lista enorme de propostas e reivindicações. Portanto, havia uma ampla e avançada agenda para o século XXI. Porém, o Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, promoveu, no ano 2000, em Nova Iorque, a Cúpula do Milênio que criou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecendo oito pontos a serem alcançados pelos diversos países até o ano de 2015.
Como mostraram Correa e Alves (2005) os ODMs foram fruto de pouca discussão, baixo envolvimento da sociedade civil e representaram uma redução e simplificação da agenda dos anos 90, além de colocar uma “régua” muito baixa nos objetivos a serem implementados:
A inflexão de rota identificada na elaboração final do mapa dos ODMs não chega a ser surpreendente. A conjuntura geopolítica dos anos 2000 tem sido – como bem analisam o embaixador Gelson da Fonseca e Benoni Belli – marcada por um forte sentimento de ‘frustração’. Esse clima decorre das promessas não cumpridas da primeira metade da década de 90, quando a agenda das Nações Unidas se pautava por um projeto bastante ambicioso de governança global solidária e justiça. Essa promessa, como bem sabemos, vem sendo solapada pelo unilateralismo imperial norteamericano, pós-2001, pelo recrudescimento dos conflitos internacionais e, consequentemente, pelo crescimento dos investimentos militares em detrimento do financiamento do desenvolvimento, para não mencionar a sobrevida do chamado ‘fundamentalismo de mercado’ como princípio, meio e fim da gestão macroeconômica” (Correa, Alves, 2005, p. 177).
A primeira versão dos ODMs ignorou completamente as questões populacionais e os direitos sexuais e reprodutivos. Mas na revisão de 2005, depois de muita pressão foi acrescentado a meta “# 5b. Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”. Porém, não foi tocado nos direitos sexuais e, em termos reprodutivos continuam existindo cerca de 225 milhões de mulheres, no mundo, sem acesso aos meios de regulação da fecundidade. Uma avaliação mais detalhada dos objetivos e metas dos ODM pode ser econtrada em CARVALHO e BARCELLOS (2014).
Em 2015 a ONU completa 70 anos com três grandes eventos:
a) julho: Addis Abeba/Etiópia, reforma do sistema financeiro global e apoio ao desenvolvimento;
b) setembro: NYC, aprovação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS);
c) dezembro: Paris, COP-21, para adoptar um acordo global para conter o aquecimento global.
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Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) vieram na esteira dos ODMs, mas foram propostos como resolução da Rio + 20, Conferência realizada em 2012, e são uma agenda mundial com 17 objetivos, 169 metas e mais de 300 indicadores. De 25 a 27 de setembro, em Nova York, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizará um encontro, com status de plenária de alto nível da Assembleia Geral, para decidir pela adoção dos ODS. Os indicadores serão definidos pela Comissão de Estatística da ONU em 2016.
De acordo com os objetivos e metas (ver Plataforma ODS), são previstas ações mundiais nas áreas de erradicação da pobreza, segurança alimentar, agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, padrões sustentáveis de produção e de consumo, mudança do clima, cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura, industrialização, entre outros. Os temas podem ser divididos em quatro dimensões principais:
  • Social: relacionada às necessidades humanas, de saúde, educação, melhoria da qualidade de vida, justiça.
  • Ambiental: trata da preservação e conservação do meio ambiente, com ações que vão da reversão do desmatamento, proteção das florestas e da biodiversidade, combate à desertificação, uso sustentável dos oceanos e recursos marinhos até a adoção de medidas efetivas contra mudanças climáticas.
  • Econômica: aborda o uso e o esgotamento dos recursos naturais, produção de resíduos, consumo de energia, entre outros.
  • Institucional: diz respeito às capacidades de para colocar em prática os ODS.
Como disse Alves (11/03/2015): “Os ODS apresentam uma boa intenção, mas vendem uma grande ilusão”. O crescimento demoeconômico continua sendo o fundamento da agenda pós-2015. Por exemplo, entre 2000 e 2015 nada foi feito para mudar a situação da gravidez indesejada e a falta de acesso aos métodos contraceptivos. Nos ODS a meta “Alcançar o acesso universal à saúde reprodutiva” foi repetida, mas com data limite de 2030. Nada foi dito sobre este adiamento e pouco tem sido proposto para que desta vez a universalização dos direitos reprodutivos seja uma realidade.
Mas o pior é o apelo ao crescimento econômico como panaceia para todos os problemas sociais. Os formuladores dos ODS ignoraram o alerta feito pelos estudiosos da economia ecológica que não cansam de repetir que é impossível manter o contínuo crescimento das atividades antrópicas no contexto incontornável do fluxo metabólico entrópico. Como disse Kenneth Boulding: “Alguém que acredite que o crescimento exponencial pode continuar infinitamente num mundo finito ou é louco ou é economista”. Herman Daly, não nunca deixa de falar que estamos em um “mundo cheio” e caminhando para um crescimento deseconômico. Outros estudiosos também reforçam o ponto de vista deNicholas Georgescu-Roegen e da entropia:
O que mais interessa, portanto, é entender que a Terra é atravessada por um fluxo de energia extremamente significativo, que é finito e não crescente. Entra na forma de luz solar e sai como calor dissipado. Não haveria limite à expansão da economia se ela não fosse um subsistema aberto desse imenso sistema fechado. Mas se o pressuposto for inverso – e este é o ponto de partida da economia ecológica – então qualquer expansão da macroeconomia terá um custo. Qualquer aumento do subsistema exige algum tipo de contrapartida natural, fazendo com que tal decisão não possa ignorar seu ‘custo de oportunidade’” (CECHIN e VEIGA, 2010)
Mas a ONU – pressionada pelo lobby dos países pobres a favor do crescimento econômico e pelo loby dos países ricos contra a redistribuição da renda mundial – estabeleceu no objetivo # 8.1: “Sustentar o crescimento econômico per capita, de acordo com as circunstâncias nacionais e, em particular, pelo menos um crescimento anual de 7% do PIB nos países menos desenvolvidos”.
Pois bem, as projeções demográficas apontam que a população da África Subsaariana deve passar de um bilhão de habitantes em 2015, para algo em torno de 3 a 5 bilhões de habitantes em 2100, com a média de 4 bilhões como o cenário mais provável. O PIB da África Subsaariana (em poder de paridade de compra) está estimado em US$3,5 trilhões em 2015, com uma renda per capita de US$ 3,8 mil, segundo dados do FMI. Pois bem, se a economia crescer 7% ao ano, a África Subsaariana terá um PIB 16 vezes maior em 40 anos, podendo chegar a US$ 56 trilhões em 2055, com renda per capita de US$ 22,4 mil em 2055. Este montante é superior aos PIBs atuais dos EUA, União Europeia e América Latina juntas. Se a taxa de 7% continuar por 80 anos, o PIB da África Subsaariana será de no mínimo US$ 896 trilhões em 2100 (10 vezes maior que o PIB mundial de 2015).
O ODS # 8 fala em crescimento econômico sustentado e o ícone apresenta uma seta apontando para cima. O ODS # 12 diz: “Assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis”, mas não apresenta uma definição clara de sustentabilidade. Sintomaticamente, o símbolo utilizado no ícone de propaganda é o oito deitado, que representa o infinito. Melhor seria que os ODS indicassem para a perspectiva do Estado Estacionário ou do decrescimento da produção e do consumo dos países ricos e dos segmentos populacionais ricos dos países pobres. Sustentabilidade ambiental (e ecocêntrica) não combina com crescimento econômico em um mundo superpoluído e anti-simbiótico.
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A natureza já se encontra degradada atualmente e caminhando para o colapso ambiental. O mundo já ultrapassou 4 das 9 Fronteiras Planetárias (Steffen et. al. 2015). Cada Fronteira é um elo fraco da corrente, rebentando uma, toda a ligação se solta. A Pegada Ecológica já é superior a 60% à biocapacidade da Terra (WWF, 2015). O nível de concentração de CO2 na atmosfera ultrapassou as 400 partes por milhão (ppm), quando o limiar seguro é 350 ppm. O degelo aumentou nas cordilheiras e nos glaciares, elevando o nível dos oceanos. Há um crescente processo de acidificação das águas e solos, crescimento dos desertos e redução da fertilidade da natureza. O progresso econômico humano se deu às custas do regresso ecológico do Planeta e o resultado da ampliação das atividades antrópicas foi o aquecimento global.
O ODS # 13 diz: “Tomar medidas urgente para combater as mudanças climáticas e seus impactos”. Porém, as ações sobre este item não serão tomadas em Nova Iorque em setembro, mas sim em dezembro em Paris, na COP-21. Segundo cálculos do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas), com base no Carbon Tracker, as metas de redução de emissões, chamadas INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas), somam 14,9 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2030 se forem cumpridas. Porém, para limitar o aquecimento global a 2º C, o mundo precisa emitir ao ano, no máximo, 11,3 bilhões de toneladas daqui até o fim do século. O ano de 2014 foi o mais quente desde o início das medições no final do século XIX. Mas tudo indica que 2015 e 2016 serão ainda mais quentes por conta do El Niño. O mundo está a caminho dos 4 graus de aquecimento desde o início da Era Industrial e isto terá consequências muito danosas para o meio ambiente, a economia e a vida na Terra. A COP-21 pode ser marcada pelo binômio: “muito pouco, muito tarde”.
Será possível então continuar com o crescimento demoeconômico no século XXI neste quadro de degradação dos ecossistemas e de mudanças climáticas catastróficas?
Pelo princípio da precaução, a humanidade deveria evitar continuar em sua marcha egoística pela dominação e exploração dos recursos naturais e agressão à biodiversidade. Não faz sentido a corrida pelo crescimento econômico rumo ao precipício. Os países ricos deveriam decrescer e distribuir renda a favor dos países pobres, mudando o estilo de vida poluidor e destruidor. O grande economista Stuart Mill já falava em Estado Estacionário, em seu famoso livro de 1848. E ele não está só. Vale a pena lembrar a mensagem de Celso Furtado, no livro “O mito do desenvolvimento econômico”, feita ainda nos idos de 1974:
(…) que acontecerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da terra, chegar efetivamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de vida dos povos ricos chegam efetivamente a universalizar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambiguidades: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso (Furtado,1974, p. 19).
Infelizmente, a expansão do capitalismo chegou a níveis inimagináveis e a “classe” consumidora deverá ser maioria da população mundial até 2025, segundo a McKinsey (outras firmas de consultoria internacional, como a Goldman Sachs e a PwC, também fazem projeções semelhantes). A expansão do consumo mundial em países como China, Índia, Indonésia, Vietnã e Turquia já é uma realidade e só tende a crescer, pois une o desejo de lucro das empresas com a vontade de consumir das pessoas. Assim, a realidade tem sido mais forte do que o mito, para a tristeza da Mãe Natureza (Pachamama) que tem pagado um preço muito alto para sustentar a generalização do consumo entre setores crescentes da população mundial.
No artigo “Caminhos percorridos da Rio 92 à Pós-2015” a socióloga Iara Pietricovsky (10/09/2015), membro do Colegiado de Gestão do INESC, concorda com o argumento que: “A ONU como instituição, começou a perder seu poder e legitimidade política. Isso ficou claro, ao longo do tempo, pelo baixo nível de comprometimento dos governos, pela ausência de investimento por parte do próprio sistema para fazer com que as negociações tivessem resultados efetivos dos pontos já negociados sem que se reabrissem as questões já acordadas. E por fim, a própria crise financeira do sistema de governança mais tradicional”. Ela considera que “O processo de formulação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) está crivado de problemas” e entre os dez itens relacionados, diz: “As questões de financiamento ainda estão obscuras e não existe concretamente nenhuma proposta que mostre a entrada de dinheiro novo para que se iniciem programas e projetos que visem a efetivação dos Objetivos”.
Parece até ironia, mas a Terceira Conferência Internacional de Financiamento para o Desenvolvimento, na capital da Etiópia, Adis Abeba (13 a 17 de julho) começou no auge da crise financeira grega, depois de duas semanas com os bancos fechados por falta de dinheiro. Logo depois da Conferência de Adis Abeba o mundo assiste bestificado a crise migratória na Ásia e Europa. Aumenta o número de migrantes e refugiados que sofrem com as guerras, a pobreza e as mudanças climáticas.
A consultoria Mackinsey publicou em fevereiro de 2015 um relatório (Debt and, not much, deleveraging, McKinsey Global Institute – MGI) mostrando que as dívidas dos domicílios (famílias), governos, empresas e setor financeiro passou de US$ 87 trilhões no quarto trimestre de 2000 para US$ 142 trilhões no quarto trimestre de 2007 e para US$ 199 trilhões no segundo trimestre de 2014. Em proporção do PIB a divida total passou de 246% em 2000, para 269% em 2007 e atingiu 286% em 2014. Isto quer dizer que a economia internacional está sendo sustentada por uma bolha de crédito que vem crescendo de forma exponencial, chegando a praticamente a 200 trilhões de dólares em meados de 2014, ou cerca de 3 vezes o valor do PIB mundial. Evidentemente esta dívida terá que ser paga em algum momento do futuro pelas atuais ou posteriores gerações. Portanto, são grandes a chances de uma enorme recessão global e pequenas as chances de sucesso dos ODS no próximo quindênio. Não dá para continuar fazendo cada vez mais do mesmo. O mundo precisa de uma revolução no estilo de produzir e consumir. E não dá para esperar muito pelas mudanças.
O desenvolvimento sustentável virou um oxímoro e o tripé da sustentabilidade se transfigurou em um trilema. O “Ser humano” se transformou em “Ter humano”. O consumo virou uma religião, enquanto o modelo “Extrai-Produz-Descarta” (Cavalcanti, 2012) está levando a humanidade rumo ao abismo. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável se mostram incapazes de mudar o vício da dependência ao consumismo. Por isto os ODS são um mito, pouco fazendo para evitar o colapso ambiental provocado pelo CONSUMICÍDIO.
Referências:
ALVES, JED. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): boa intenção, grande ilusão. Ecodebate, RJ, 11/03/2015 http://www.ecodebate.com.br/2015/03/11/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-ods-boa-intencao-grande-ilusao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. Novas propostas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Ecodebate, RJ, 18/07/2014 http://www.ecodebate.com.br/2014/07/18/novas-propostas-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-ods-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. A dívida de 200 trilhões de dólares e a próxima crise financeira mundial, Ecodebate, RJ, 13/03/2015 http://www.ecodebate.com.br/2015/03/13/a-divida-de-200-trilhoes-de-dolares-e-a-proxima-crise-financeira-mundial-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
CARVALHO, PGM. BARCELLOS, FC. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM: Uma avaliação crítica. Sustentabilidade em Debate, Brasília, v. 5, n. 3, p. 222-244, set/dez 2014
CAVALCANTI, Clóvis. Sustentabilidade: mantra ou escolha moral? Uma abordagem ecológico-econômica. SP, Estudos avançados 26 (74), 2012http://www.scielo.br/pdf/ea/v26n74/a04v26n74.pdf
CECHIN, Andrei e VEIGA, J. Eli. O fundamento central da Economia Ecológica In: MAY, Peter (org) Economia do meio ambiente: teoria e prática, 2ª ed, RJ: Elsevier/Campus, p. 33-48, 2010
CORREA, S. ALVES, JED. As metas de Desenvolvimento do Milênio (ODM): Grandes limites e oportunidades estreitas. Rio de Janeiro, Campinas, REBEP, v. 22, n. 1, 2005
FURTADO, C. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974
PIETRICOVSKY, Iara. Caminhos percorridos da Rio 92 à Pós-2015, Brasilia, INESC, 10/09/2014
ONU. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, Setembro, 2015 http://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 23/09/2015

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O direito e a mentira na crise europeia

Dizia Winston Churchill que, em tempos de guerra, a verdade é tão valiosa que deve ser acompanhada de mentiras como guarda-costas. E na crise econômica também encontramos um fértil ecossistema no qual proliferam mentira e engano para proteger a verdade, ou o que ainda restar dela. 

Artigo de Alejandro Nadal, publicado no La Jornada.

Agora que o Syriza voltou a triunfar nas eleições gregas, o tema da restruturação da dívida ganha maior relevância. Tsipras e o seu partido apresentam-se ante o eleitorado e a opinião pública como os únicos capacitados para conseguir este objetivo que se lhes escapou no seu primeiro mandato. Mas as novas tentativas enfrentarão as velhas mentiras.
Desde que estalou a crise na Europa diz-se repetidamente que é necessário aplicar as regras e os tratados fundamentais da união monetária. Essa retórica refere-se em primeira instância à necessidade de pagar as dívidas adquiridas e, em segundo lugar, à impossibilidade de resgatar uma economia em perigo de cair em insolvência e suspensão de pagamentos.
Qual é o fundamento legal da segunda regra? Normalmente faz-se referência ao artigo 125, primeiro parágrafo, do Tratado da União Europeia na sua versão consolidada. Essa disposição diz que nem a União, nem os estados membros, assumirão ou serão responsáveis pelos compromissos dos governos centrais, autoridades regionais ou locais ou outras autoridades públicas, ou empresas públicas dos estados membros, sem prejuízo das garantias financeiras mútuas para a realização conjunta de projetos específicos.
Este artigo é a expressão do que comummente se chamou a cláusula de não resgate no contexto da crise europeia. Mas a letra desta disposição somente proíbe à União ou aos estados membros assumir as dívidas de outros estados membros. Não proíbe fazer empréstimos para ajudar outro Estado membro a superar uma crise.
O mais importante: onde se proíbe explicitamente a restruturação de dívidas de um Estado membro? A resposta: em nenhuma parte. O artigo 125.1 não proíbe a redução de taxas de juro nem a extensão de prazos ou o adiamento do pagamento de juros ou de capital. Schäuble e os seus amigos no Ecofin não têm argumentos legais para se opor a uma restruturação da dívida grega. A única opção que lhes resta é agarrarem-se ao dogma neoliberal.
Ainda que isto possa parecer estranho, esta é a interpretação avalizada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) no caso Pringle contra o governo da Irlanda. O TJUE está encarregue da interpretação e aplicação do marco legal da União Europeia. Esse caso foi iniciado pelo deputado irlandês Thomas Pringle que questionou o procedimento de criação e mesmo a legalidade do mecanismo europeu de estabilidade (MES). Este mecanismo foi criado em 2010 de forma rápida e formalizado num tratado especial em 2012. O mandato do MES é velar pela estabilidade macroeconómica e assegurar o funcionamento dos fundos de resgate que marcaram as primeiras respostas das instituições europeias face à crise. No caso Pringle, o Tribunal rejeitou os argumentos do deputado, tanto no que respeita a falhas de procedimento, como a aspecto centrais do MÊS.
O veredicto do TJUE não surpreendeu os economistas e os apaixonados dos dogmas sobre livre mercado. Mas no âmbito forense, esta decisão foi vista com preocupação. Trata-se de uma sentença superficial que não corrige os vícios essenciais de muitas mudanças introduzidas nos tratados constitutivos da UE para tranquilizar os mercados financeiros.
O exemplo anterior não é o único com bases legais frágeis. O programa do Banco Central Europeu (BCE) sobre Transacções monetárias directas (OMT, nas siglas em inglês) é outro exemplo importante. Esse mecanismo permite ao BCE comprar títulos de curto prazo no mercado secundário para reduzir o custo de financiamento para países europeus. Mas hoje a controvérsia legal subsiste: o anúncio da criação do OMT numa conferência de imprensa é quase o único fundamento legal de dito programa. Estou a exagerar, claro, mas não por muito.
Desde que estalou a crise, o regime de direito na União Europeia encontra-se submetido a tensões insuportáveis. O ‘modo de emergência’ resultou em delegar ao BCE todo o tipo de faculdades, algumas das quais carecem de fundamentos legais robustos e outras simplesmente fazem com que a ideia de prestação de contas seja uma piada de mau gosto. O resgate é e será para os amigos.
Hoje os governos e instituições europeias respondem cada vez menos aos cidadãos. O estado de direito converteu-se no manto protetor da arbitrariedade. A ajuda e a flexibilidade para os amigos e aliados, a regra dura e a rigidez para os nossos inimigos. Essas são as verdadeiras regras de Schäuble e dos seus amigos.
A senhora Christine Lagarde disse-o em 2011 com grande clareza: os líderes da União Europeia tiveram de violar a lei para salvar o euro. Mas Esquilo já se tinha adiantado, ao assinalar que a verdade é a primeira vítima numa guerra.

Artigo publicado no La Jornada.
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

A desaceleração Chinesa e seu impacto global em 5 gráficos

Por Marco Antonio Moreno

China Pib Usa Japon

A crise financeira que começou em 2008 está levando a uma crise estrutural da economia global que vai alterar todas as variáveis ​​de comércio e indústria. Neste processo, a desaceleração da China terá um grande impacto sobre todos, não apenas pelo tamanho de sua economia, mas também pelo seu rápido crescimento no pré e pós acidente financeiro do período 2008/2009. Uma economia que passou de 3 por cento do PIB mundial em 2000, para 14 por cento em 2015 não pode ter pouca importância. No mesmo período, os Estados Unidos caiu de 25 por cento do PIB mundial para 22 por cento. O Japão, que em 2000 era a segunda maior economia do mundo e representava 10 por cento do PIB mundial, hoje é 5 por cento do PIB. 

A China se tornou o maior consumidor dos princiapais produtos básicos e em 2013 foi responsável por quase metade do consumo mundial de cobre, alumínio, níquel, zinco e carvão. A demanda chinesa levou a um forte aumento dos preços das commodities globais ao longo da última década, assim que este período foi apelidado de "super ciclo" de commodities. Um ciclo se desvanece como a desaceleração aumenta à medida que percebe a queda das exportações e das importações chinesas. Em 2015 as exportações chinesas representam um quarto do período pré-crise, enquanto as importações são apenas um terço daqueles feitos antes de o sistema financeiro entrar em colapso.Observe o impulso que a China teve na época da crise de 2008/2009 e como essa dinâmica ajudou a evitar a propagação da crise na Europa e nos Estados Unidos para os países emergentes.


China Import Export
Mas a desaceleração que está sofrendo o gigante asiático  indica que há pouca chance de que a China volte a embarcar neste momentoso nível de investimento que os últimos anos mostrou. Os dados mostram que a China cortou suas importações de todas as mercadorias e isso indica que as perspectivas para os preços das matérias-primas essenciais continuará a agravar-se. Apesar de o investimento e a poupança na China tenham tido as maiores taxas de décadas recentes, poupança, investimento desde 2008 e desde 2010 eles tiveram uma mudança significativa, conforme demonstrado no gráfico a seguir.
China Investment
Isso resulta em problemas para muitos países exportadores de commodities, tais como Argentina, Brasil, Austrália, Indonésia, Chile, Peru que basearam seu modelo de crescimento em exportações e hoje estão sendo prejudicados pela menor demanda por seus produtos e queda dos preços. Na verdade, a China não é o único fator que pesa sobre as balanças comerciais dos países exportadores de commodities. Baixos preços do petróleo estão a criar muitos problemas financeiros para a saúde econômica dos países exportadores deste recurso energético.
Commodities China
Não há solução rápida para os problemas da China e o estouro da sua bolha financeira está a implodir mercados de ações em todo o mundo. Ao mesmo tempo, a fraqueza da economia global está a minar seu modelo de crescimento baseado em exportações. As exportações chinesas são agora um quarto do que eram antes da crise em 2008. Desde os anos 90 a China assegurou a sua competitividade global, mantendo os salários baixos e uma moeda que se desvalorizou em relação ao dólar. Enquanto isso ajudou a China a ganhar maior participação no comércio mundial, isso também significou que os consumidores gastaram pouco.
Além disso, as famílias chinesas tendem a poupar mais do que suas contrapartes em mercados emergentes, devido à insuficiência de pensões da segurança social e da saúde. Como o último relatório do FMI (World Economic Outlook) a taxa de poupança na China é a maior da maioria das economias mundiais.
Salvando China
Como os consumidores chineses não são o principal motor da demanda interna, o vácuo foi preenchido em grande parte pelo investimento que incentiva o Estado. Após a crise de 2008/2009, quando a economia mundial começou a vacilar, a China anunciou um plano de 600 bilhões de dólares para estimular o investimento em infra-estrutura e habitação. Que incentivou a economia chinesa e foi um alívio bem-vindo para a economia mundial. Agora a situação é diferente e China começa a aderir ao movimento de desaceleração e estagnação e isso terá um grave impacto sobre a economia mundial.

domingo, 20 de setembro de 2015

O fim dos BRICs (ou não)

Por Javier J Navarro em El Blog Salmón
Crescimento BRIC
BRIC é o acrônimo que representa Brasil, Rússia, Índia e China. Essas potências em 2001 eram vistas como as futuras potências econômicas, podendo retirar protagonismo  nas décadas seguintes no papel do G7 (EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá), que eram até então as potências industriais indiscutíveis.
Passaram-se quatorze anos e as últimas notícias econômicas sugerem que o papel  esperado desses países está se tornando menos importante. Especialmente porque o noticiário econômico não é tão bom.
OS BRIC e os BRIMCS
O termo Bric foi cunhado pelo economista do Goldman Sachs Jim O'Neill em 2001 a ideia em seu papel Building Better Global Economic BRICs, destacou os seguintes aspectos dos países do BRIC.:
  • Em 2001 e 2002 o crescimento do PIB do BRIC seria maior do que o do G7.
  • No final de 2000, o PIB nominal do BRIC foi de 8% em todo o mundo, mas em termos de PPP (Purchasing Power Parity) foi de 23,3%.
  • O PIB da China é maior do que o da Itália (e, em seguida, bateu todos os outros países do G7, exceto os EUA).
  • Nos anos seguintes, o PIB do BRIC (e especialmente o da China) cresceria, criando um forte impacto sobre as políticas fiscais e monetárias do BRIC. *** A política econômica global deveria ser refeita, e o G7 deveria incluir representantes do BRIC. **
Com o tempo o termo BRIC (bastante impressionante e fácil de lembrar) acabou se tornando BRIMCS, incluindo o México e a África do Sul na sigla. Juntos, estes seis países são responsáveis ​​por mais de 3 bilhões de pessoas e mais de 20% do PIB mundial.
O Brasil não é o que era
Os críticos da economia brasileira costumam dizer que o Brasil é um país de grande potencial, e que seguirá sendo. A economia brasileira experimentou um momento doce sob a liderança de Lula da Silva, que melhorou as condições dos mais pobres quando o crescimento econômico convertia milhões em classe média.
fim da bolha imobiliária, a queda dos preços das matérias-primas, a falta de confiança dos investidores após a partida, à luz da corrupção e do perigo de que tudo é simplesmente um "bluff", fizeram a Previsão para o Brasil em 2015 de uma recessão de 1,3% e um crescimento de 1,1% e 2% no ano seguinte. Enquanto isso, a inflação perto de dois dígitos e a sua dívida é considerado "lixo" não torna a vida fácil para os brasileiros.
Rússia, afetada por matérias-primas e Ucrânia
A recente queda no preço do petróleo e do gás devido ao fracking, não ajudou a economia russa especialmente dependentes da venda de hidrocarbonetos, como mencionado monocultura é bastante prejudicial.
A previsão é de que o PIB da Rússia vai cair 2,7% em 2015, vai crescer 0,7% em 2016 e em 2017 voltará a 2,5%. Se tudo continuar como antes, é claro. Enquanto isso, a Rússia terá que seguir aguentando algo que não vai agradar muito os investidores. O último Deutsche Bank reduziu a sua presença na Rússia.
China, irá afetar a sua explosão financeira a sua economia?
Seguindo com a China, as previsões econômicas da China ainda são bastante boas. Um aumento de 7,1% do PIB este ano, 7,0% no próximo ano e 6,9% em 2017. É verdade que retarda, mas a verdade é que muito pouco para o que tem sido, e nada de incomum considerando gradualmente se aproximando do seu limite.
A questão que permanece é se a implosão da bolsa da China que falamos há algumas semanas, pode acabar causando um problema de maior China. Mesmo que a crise se espalhe para o resto das economias e vejamos o país em recessão. Além disso considerar que o país tem sido politicamente estável desde Deng Xiao Ping, mas este tem sido principalmente devido ao forte crescimento econômico.
Índia, o último que cai
A questão que permanece é o que vai acontecer com Índia. Dos países do BRIC, possivelmente agora deve ser o que as melhores perspectivas têm, posto que vem crescendo a uma taxa de 5% desde 1993 (exceto em 1997, 2002 e 2008), a previsão de crescimento para este ano é de 7,5% . Mas muito melhor nos próximos anos, um crescimento de 7,9% para 2016 e 8,0% para 2017.
Embora a opinião de Jim O'Neil de que estes países devem ser incluídos no G7 por causa da sua crescente importância na economia ainda seja válida, houve uma falha geral em muitos analistas do mundo para considerá-los como um grupo homogêneo, uma vez que aqueles que confiaram mais em matérias-primas e sofreu uma bolha imobiliária está sofrendo mais do que outros.
Continua por ser visto como o abrandamento ou mesmo a recessão, irá influenciar esses países e o resto das economias ocidentais. No entanto, todas as projeções mencionadas mostram que vão se recuperar nos próximos dois anos, então talvez a sigla BRIC não tenha chegado ao fim, mas ressurgirá fortemente. Se ninguém inventa uma melhor, é claro.
Nota Metodológica: números de crescimento do PIB e das estimativas de que são todos do Banco Mundial, a utilização de dados homogêneos.