"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 3 de outubro de 2015

A transição religiosa no Brasil e no Rio de Janeiro: pluralidade gera pluralidade

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Sou católica, de berço. Mas nunca fui carola, nunca fui radical, nada.
Estudei em colégio de freiras, e isso até me afastou um pouco da Igreja
Católica. Depois é que voltei, naturalmente. Colégio de freiras é difícil.
Metem muito medo, é muita culpa, Deus me livre”.
Maria Bethânia

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O catolicismo predominou na América Latina e no Brasil durante cinco séculos, mas nas últimas décadas a região está passando por uma grande transformação religiosa. O Brasil – que ainda é o maior país católico do mundo – tem assistido a uma rápida queda dos filiados de sua religião hegemônica, um rápido crescimento dos evangélicos, além do aumento, em ritmo menor, de outras religiões e das pessoas que se declaram sem-religião.
Em 1940 os cristãos (católicos mais evangélicos) eram 98% da população, caindo para 89% na virada do milênio e atingindo 87% no ano 2010. As pessoas afiliadas a outras religiões e os sem-religião atingiram 13% da população brasileira, segundo dados do último censo demográfico, sendo que no Estado do Rio de Janeiro os não-cristãos já somavam 25% em 2010.
O Brasil está passando por um processo de transição religiosa, que corresponde a uma verdadeira revolução silenciosa (sem guerras e sem grandes conflitos sectários). O gráfico abaixo mostra a queda dos católicos foi maior onde seus percentuais já eram baixos, especialmente naqueles estados em que os católicos estavam com menos de 50% em 2010.

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Entre 2000 e 2010 a queda no percentual de católicos foi de 26% em Roraima, 23,7% no Acre, 17,8% no Rio de Janeiro e de 17,3% em Rondônia. No outro extremo, o Piauí que tinha 85% de católicos em 2010 apresentou uma queda de somente 5,3%. Isto quer dizer que pluralidade religiosa gera mais pluralidade, conforme mostra o gráfico. Significa também que quanto maior tenha sido a queda experimentada dos católicos, maior, em média, tende a ser a queda futura. Portanto, a transição religiosa tende a se consolidar e a se aprofundar.
O Estado do Rio de Janeiro é a Unidade da Federação com menor percentual de católicos (45,8%), o menor percentual de cristãos (75%) e a maior pluralidade religiosa, representando a vanguarda das transformações religiosas do Brasil. Segundo o censo demográfico de 2010 os católicos representavam 45,8% no Rio de Janeiro, os evangélicos eram 29,4% as outras religiões somavam 9,2% e os sem-religão eram 15,6% no território fluminense.
A queda dos católicos foi maior onde seus percentuais já eram baixos, especialmente naqueles municípios em que os católicos estavam com menos de 50% em 2010, conforme mostra o gráfico. Entre 2000 e 2010 a queda no percentual de católicos foi de significativos 40% na cidade de Carapebus e de 31,4% na cidade de Queimados. Por outro lado, os católicos cresceram ligeiramente nos municípios de São José de Ubá e Macuco, onde os percentuais das filiações católicas já eram altos e continuam acima de dois terços do total populacional.
De maneira mais acentuada do que a do conjunto do Brasil, a pluralidade religiosa no Rio de Janeiro tem gerado maior pluralidade religiosa, sem haver um piso aparente. Municípios como Seropédica e Japeri tiveram grandes variações nas filiações religiosas na primeira década do século XXI e os católicos já são menos de 30% nestas duas cidades. Portanto, a transição religiosa tende a se consolidar e a se aprofundar mesmo no Estado do Rio de Janeiro, onde o processo de mudança de hegemonia já está mais avançado.

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A cidade de Seropédica (onde funciona a sede da Universidade Rural – UFRRJ), situada no pé da Serra das Araras, na parte sul do estado do Rio de Janeiro, é um exemplo de rápida mudança religiosa. Até o início dos anos de 1990, Seropédica fazia parte do município de Itaguaí. No censo demográfico de 1991, Itaguaí tinha 55% de pessoas que se declaravam católicas e 21% de evangélicos. Portanto, os católicos eram maioria da população. Porém, a perda de católicos nos anos seguintes foi muito grande em ambas as cidades.

Em Seropédica, houve quase um empate no ano 2000, com os evangélicos atingindo 35,9% e os católicos 38,8% (entre as crianças e jovens de 0 a 14 anos houve ultrapassagem dos evangélicos). As outras religiões perfaziam um percentual de 5,3% e os sem religião 20,1%, conforme mostra a tabela 3. Na primeira década do século XXI a mudança continuou de maneira acelerada entre a população total do município, com os católicos caindo para 27,4% em 2010, os evangélicos subindo para 44%, as outras religiões para 6,3% e os sem religião subindo para 22,3%. O grupo de pessoas que se declara sem religião tem crescido, especialmente onde a disputa entre católicos e evangélicos é grande.
Nota-se que a queda maior dos católicos aconteceu entre os jovens. Na população de 0-14 anos de idade os católicos tinham só 21,7% em 2010, perdendo para os sem religião que perfaziam 23,1% e os evangélicos que alcançaram 49,9%.
Portanto, entre 1991 e 2010, os católicos de Seropédica caíram de mais de 50% para cerca de um quarto (25%). Foi uma perda muito acelerada e que parece que não vai ser interrompida imediatamente, pois os católicos estão mais representados entre os idosos e os evangélicos mais representados entre as mulheres em período reprodutivo e as novas gerações. Independentemente da migração inter-religiosa, haverá mudança apenas por conta da inércia demográfica e da sucessão de gerações.
Tudo leva a crer que as tendências ocorridas no Rio de Janeiro não são uma exceção em relação ao que ocorre no restante do Brasil. Simplesmente, o Rio está na vanguarda do processo de transição. O que acontece em território fluminense tende a se repetir nas demais Unidades da Federação com uma certa defasagem temporal e em ritmo um pouco mais lento.
Como mostrei em outro artigo, uma pesquisa divulgada em 21 de julho de 2013 pelo Instituto Datafolha mostra que, quando o Papa Bento XVI veio ao Brasil, em 2007, os católicos representavam cerca de 64% da população e agora na visita do Papa Francisco, os católicos representam apenas 57% da população nacional.
Ou seja, embora o Brasil nunca tenha presenciado tantas vindas papais na história (desde a primeira vinda de João Paulo II em 1980), o percentual de católicos tem diminuído na impressionante cifra de 1% ao ano. Será que o Papa Francisco, com a sua pregação de aproximação com os mais pobres, vai mudar esta realidade? Certamente, o Papa Francisco tem carisma e em sua visita Brasil evitou os temas polêmicos da Igreja e passou uma mensagem de esperança e de defesa das comunidades pobres. Ele fez discurso contra a corrupção e disse: “nunca desanimem, não percam a confiança”.
O Papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si’, em junho, e fez um avançado discurso na Cúpula dos ODS na ONU no dia 25 de setembro de 2015. Ele visitou a América do Sul, Cuba e os Estados Unidos. Por onde passou emocionou multidões e conquistou muita simpatia.
Cabe então a pergunta: com a ajuda do Papa, será que a igreja católica no Brasil vai encontrar forças para virar o jogo e evitar a queda da primeira divisão do “campeonato” de religiões?
Referência:
ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085 DOI–10.5752/P.2175-5841.2014v12n36p1055


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 02/10/2015

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Guerras climáticas, a nova ameaça

Num planeta marcado por desigualdade e devastação natural, o aquecimento pode converter-se num novo rastilho de grandes migrações e conflitos. Em que condições ocorreriam? 

Por Agnès Sinaï.

Foto: UN Photo/Albert González Farran
Entre 2006 e 2011, a Síria viveu a mais longa seca e a maior perda de colheita já registrada desde as primeiras civilizações do Crescente Fértil. Dos 22 milhões de pessoas que habitavam então o país, quase um milhão e meio foi afetado pela desertificaçãoi, o que causou migração em massa de agricultores, criadores de gado e suas famílias para as cidadesii. Esse êxodo elevou as tensões causadas pelo afluxo de refugiados iraquianos que se seguiu à invasão norte-americana em 2003. Durante décadas, o regime do Partido Baath, em Damasco, negligenciou a riqueza natural do país, subsidiando as culturas de trigo e algodão que requerem muita água e incentivando técnicas de irrigação ineficientes. A criação ultra-intensiva do gado e o aumento da população reforçaram o processo. Os recursos hídricos reduziram-se à metade entre 2002 e 2008.
O colapso do sistema agrícola sírio é resultado de uma complexa interação de fatores, que inclui as alterações climáticas, a má gestão dos recursos naturais e a dinâmica populacional. A “combinação de mudança econômica, social, ambiental e climática erodiu o contrato social entre os cidadãos e o governo, catalisou os movimentos de oposição e provocou uma degradação irreversível do poder de Assad”, dizem Francesco Femia e Caitlin Werrell, do Centro do Clima e Segurançaiii. Segundo eles, a emergência do Estado Islâmico (EI) e a sua expansão na Síria e no Iraque resultam, em parte, da seca. E isso não decorre somente da variação climática natural. Trata-se de uma anomalia: “A mudança dos padrões de chuvas na Síria está ligada ao aumento médio do nível do mar no leste do Mediterrâneo, combinado com a queda da humidade do solo. Nenhuma causa natural aparece nessas tendências, ao passo que a seca e o aquecimento corroboram os modelos de resposta ao aumento dos gases de efeito estufa”, diz a revista da Academia Americana de Ciênciasiv.
No leste da China, durante o inverno de 2010-2011, a falta de chuvas e as tempestades de areia, que levaram o governo de Wen Jiabao a lançar foguetes na esperança de desencadear precipitações, tiveram repercussão em cascata, muito além das fronteiras do país. A perda de colheitas forçou Pequim a comprar trigo no mercado internacional. O aumento dos preços mundiais que se seguiu alimentou o descontentamento popular no Egito, o maior importador de trigo do mundo, onde as famílias gastam em comida, atualmente, mais de um terço dos seus recursos. A duplicação do preço da tonelada de trigo, que passou de 157 dólares em junho de 2010 a US$ 326 em fevereiro de 2011, foi fortemente sentida nesses países, muito dependentes da importação. O preço do pão triplicou, o que aumentou o descontentamento popular contra o regime autoritário do presidente Hosni Mubarak.
No mesmo período, as colheitas de trigo, soja e milho no hemisfério Sul foram atingidas por La Niña, um fenômeno climático severo que provocou uma seca na Argentina e chuvas torrenciais na Austrália. Num artigo da revista Nature, Solomon Hsiang, Kyle Meng e Mark Cane estabeleceram uma correlação entre as guerras civis e o fenômeno de Oscilação Sul El Niño (ENSO, na sigla em inglês), que, a cada período de três a sete anos, provoca uma acumulação de águas quentes ao longo das costas do Equador e do Peru, bem como uma reversão dos ventos alísios do Pacífico, associadas a padrões climáticos importantes a nível mundialv. Para Hsiang e os seus colegas, a probabilidade de conflito civil duplica durante o ENSO. Esta é a primeira demonstração de que a estabilidade das sociedades modernas depende muito do clima global.
As mudanças climáticas tornaram-se um “multiplicador de ameaças” e modificam o curso das relações internacionais. À segurança dura herdada da Guerra Fria sucede a segurança natural, conceito forjado pelos militares norte-americanos reunidos no seio do Centro para uma Nova Segurança Americana (Center for a New American Security). Este think tank foi criado em 2007 para contrapor-se ao ceticismo climático dos neoconservadores e identificar as ameaças globais emergentes.
As causas da insegurança ambiental não podem mais ser reduzidas a elementos puramente exógenos e naturais como as erupções vulcânicas, os tsunamis ou os terramotos. As atividades humanas, a aceleração dos ciclos produtivos e a sua globalização concorrem para desestabilizar o clima. O neologismo “antropoceno” designa essa pegada excessiva das sociedades industriais sobre o sistema Terra.
No Ártico, onde o gelo poderia derreter-se completamente até o final do século, e onde os efeitos do aquecimento global são duas vezes mais intensos do que em outros lugares, a reivindicação de novas fronteiras terrestres e marítimas reaviva as tensões entre países situados em torno dos polosvi. A Rússia, que explora o Ártico há séculos, é o único país a possuir frota de quebra-gelos nucleares. Um modelo gigante, em construção nos estaleiros de São Petersburgo, será concluído em 2017vii.
Moscovo renova também a sua frota de submarinos ultra silenciosos de quarta geração, lançadores de mísseis com ogivas nucleares. Do lado norte-americano, a abertura do Ártico é apresentada tanto como um negócio comercial em concorrência à Ásia quanto como uma possibilidade de garantir novos recursos energéticosviii.
O degelo do Ártico impõe os seus efeitos sistêmicos. A variação do vórtice polar, corrente de ar glacial do Pólo Norte, explica o frio intenso que se abateu sobre a América do Norte durante o inverno de 2013-2014. “A interação entre o Ártico e o aquecimento global é algo novo na história da humana, porque ela transforma o encontro entre a geografia e a geofísica, nessa região, em um poder novo e estranho, de natureza geofísica, que chamamos de “potência ambiental do Ártico”. Este exerce-se em escala planetária, com consequências enormes”, observa o especialista em estratégia militar Jean-Michel Valantinix.
No entanto, o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que não existe uma teoria estável que possibilite sugerir a ocorrência de conflitos armados no Polo Norte. O degelo permitirá validar ou não a robustez das instituições de cooperação transfronteiriça nos pólos, tais como o Conselho do Ártico. Os causalidades mostram-se complexas, instáveis e em evolução; os efeitos do aquecimento global pesam mais ou menos sobre as sociedades, em função da resiliência dos sistemas políticos, econômicos e sociais de cada lugarx.
No seu livro Climate Wars (Guerras Climáticas), o jornalista Gwynne Dyer descreve um mundo onde o aquecimento acelera e onde os refugiados, esfomeados pela seca, perseguidos pelo aumento do nível dos oceanos, tentam chegar ao hemisfério Norte. Enquanto isso, os últimos países autossuficientes em alimentos, os de latitudes mais altas, devem defender-se, inclusive a golpes de armas nucleares, contra vizinhos cada vez mais agressivos: os do Sul da Europa e das margens do Mediterrâneo , transformados em desertosxi.
Face ao que certos cientistas denominam uma “perturbação climática de origem humana”, a geoengenharia – ou seja, a intervenção deliberada para reduzir o aquecimento do planeta – tenta assumir o controlo do clima. Ela consiste num conjunto de técnicas para remover parte dos excedentes de carbono da atmosfera (remoção de dióxido de carbono) e regular as radiações solares (gestão de radiação solar), o risco de uma maior desestabilização das sociedades e ecossistemas. A pulverização de enxofre, por exemplo, supõe que a camada comum na atmosfera é de espessura suficiente para ter um efeito ótico de obstrução da radiação solar e, desse modo, refrescar o planeta.
Mas a observação de erupções vulcânicas leva os climatologistas a constatar que, se as partículas de enxofre concorrem para resfriar a atmosfera, elas também induzem secas regionais e podem, além disso, reduzir a eficiência de painéis solares, levar à degradação da camada de ozono e enfraquecer o ciclo hidrológico global. “Além disso, sem acordos internacionais que definam como e em que proporções usar a geoengenharia, as técnicas de gestão de radiação solar representam um risco geopolítico. Porque o custo desta tecnologia alcança dezenas de milhares de milhões de dólares por ano, poderia ser assumida por atores não-estatais ou pequenos Estados agindo em seu nome. Isso contribuiria para os conflitos mundiais ou regionais”, adverte o último relatório do IPCC.
As mudanças climáticas não criam apenas novos motivos para conflitos violentos, mas também novas formas de guerra, ressalta o psico-sociólogo Harald Weizer. A violência extrema desses conflitos excede o quadro das teorias clássicas e “instaura espaços de ação para os quais nenhum quadro referencial é fornecido pelas experiências vividas no mundo, marcado pela paz, do hemisfério ocidental pós segunda guerra mundial”xii.
Combates assimétricos entre populações e senhores de guerra a serviço de grandes grupos privados ampliam os mercados da violência, galvanizados pelo aquecimento climático. O caos de Darfur, no Sudão, que perdura desde 1987, é emblemático dessa dinâmica autodestrutiva agravada pela fragilidade dos Estados. No norte da Nigéria, a degradação das terras perturbou o modo de vida agrícola e de pastoreio e interfere com as rotas migratórias. Várias centenas de aldeias foram abandonadas e as migrações que resultaram disso contribuíram para desestabilizar a região, preparando o terreno para o movimento islâmico Boko Haram.
O último relatório do IPCC define a noção de “risco composto”(compound risk), que designa a convergência de múltiplos impactos numa dada área geográfica: “Como a temperatura média do globo pode aumentar de 2 a 4°C até 2050, em relação às médias do ano 2000, há um risco, mantendo-se todas as coisas iguais, de importantes mudanças nos padrões de violência interpessoal, conflitos entre grupos e instabilidade social no futuro.”
O pesquisador Marshall B. Burke, da universidade de Berkeley, na Califórnia, e os seus coautores anteciparam um crescimento de conflitos armados, em 54%, de agora até 2030. O seu estudo propõe a primeira avaliação global dos impactos potenciais das mudanças climáticas sobre as guerras na África Subsariana. Ele ilumina a ligação entre guerra civil, subida da temperatura e queda das chuvas, ao extrapolar as projeções médias de emissão de gases de efeito estufa do IPCC para estas regiões entre 2020 e 2039xiii.
O afluxo de refugiados às portas da ilha da prosperidade que é a Europa poderia continuar a aumentar no decorrer do século 21. “Existem hoje tantas pessoas deslocadas no mundo em razão da degradação ambiental como pessoas deslocadas pela guerra e pela violência”, estima o cientista político Francis Gemennexiv. Esses migrantes fogem de guerras que acontecem longe do Ocidente, o qual, a despeito da sua responsabilidade histórica pelo aquecimento global, resiste em reconhecer um status: “Refutar o termo de 'refugiado climático' significa refutar a ideia de que as mudanças climáticas são uma forma de perseguição contra os mais vulneráveis.” Estas são vítimas de um processo de transformação da Terra que está muito além delas.
Tradução: Inês Castilho para o Outras Palavras.
iii«The Arab Spring and climate change», The Center for Climate and Security, Washington, DC, fevereiro de 2013.
ivProceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS), vol. 112, n° 11, Washington, DC, 17/03/2015.
vSolomon M. Hsiang, Kyle C. Meng et Mark A. Cane, «Civil conflicts are associated with the global climate», Nature, vol. 476, n° 7361, Londres, 25/08/2011.
viLer, de Gilles Lapouge, «Fascination pour les pôles», Le Monde diplomatique, dezembro de 2010..
viii«National strategy for the Arctic region» (PDF), Maison Blanche, Washington, DC, 10/05/2013.
ixJean-Michel Valantin, «The warming Arctic, a hyper strategic analysis», The Red (Team) Analysis Society, 20/11/2014.
xPainel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, em inglês), Climate Change 2014: Impacts, Adaptation, and Vulnerability,2vol., Cambridge University Press, Cambridge e New York, 2014.
xiGwynne Dyer, Climate Wars: The Fight for Survival as the World Overheats, Oneworld Publications, Londres, 2010.
xiiHarald Welzer, Les Guerres du climat. Pourquoi on tue au XXIe siècle, Gallimard, coll. «NRF essais», Paris, 2009.
xiiiMarshall B. Burke, Edward Miguel, Shanker Satyanath, John A. Dykema et David B. Lobell, «Warming increases the risk of civil war in Africa»,PNAS, vol. 106, n° 49, 23/11/2009.
xivNaomi Klein, Susan George et Desmond Tutu (organizadores), Stop crime climatique. L’appel de la société civile pour sortir de l’âge des fossiles, coleção. «Anthropocène», 27/08/ 2015.

OMC corta previsão para o comércio mundial de 3,3% para 2,8% este ano

Por Marco Antonio Moreno

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A Organização Mundial do Comércio reduziu sua previsão de crescimento para este ano de 3,3 para 2,8 por cento. Um declínio significativo que explica o abrandamento econômico em curso e tem o seu epicentro na China, um país que não para de estourar bolhas especulativas. Esta nova previsão, revisada para baixo a partir da previsão de 3,3 por cento feita em abril, significa que 2015 será o quarto ano consecutivo com crescimento do comércio mundial abaixo de 3 por cento, metade da média anual entre 1990 e 2008, antes da crise financeira. 

A previsão da OMC implica que o crescimento vai se acelerar este ano, do 2,5 por cento em 2014. Mas suas expectativas têm sido repetidamente comprovadas excessivamente otimistas, embora o esperança da recuperação da economia global tenha diminuído.

relatório da OMC constata que ainda há riscos potenciais para a economia global. Estes incluem uma desaceleração maior do que a esperado nos países emergentes e em desenvolvimento, e a possibilidade de fluxos financeiros desestabilizadores pela eventual subida das taxas de juro pela Reserva Federal dos EUA. Além disso, é preciso acrescentar despesas imprevistas relacionadas com a crise migratória na Europa.
A desaceleração causou a China OMC reduziu sua previsão de crescimento para as importações da Ásia para 2,6 por cento, ante 5,1 por cento projetados em abril, e as exportações asiáticas para 3,1 por cento a previsão anterior de 5,0 por cento.
A queda da China foi uma das principais razões por que o comércio mundial caiu nos dois primeiros trimestres de 2015, com uma contração em relação ao trimestre anterior de 0,7 por cento. A queda da demanda no Brasil e o colapso dos preços do petróleo e matérias-primas também contribui para esta tendência negativa.
Isso indica que o comércio mundial está sofrendo sua maior contração desde a crise de 2008, que pode ser um sinal de que a globalização atingiu o pico. Durante décadas, o comércio mundial cresceu ao dobro da taxa de crescimento econômico, como resultado do que ficou conhecido como hiper-globalização.
No entanto, o estouro da bolha especulativa e a perda de 13 bilhões de dólares nos três últimos meses é um claro indicador de que a economia global está crescendo sem motores. A desaceleração atual não é apenas o resultado do desembarque chinês, mas também de fraqueza econômica que envolve a Europa e os Estados Unidos.

Consumicídio: Acoplamento e Ter Humano

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A marca da cultura de consumo é a redução do ser para ter” – John Piper
Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo” – Millôr Fernandes
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O consumo se transformou no ideal máximo da felicidade das pessoas. O “Ser humano” se transformou em “Ter humano” (Tavares, 2010). Coincidentemente, o ideal de felicidade dos produtores é atender a demanda dos consumidores e obter muito lucro neste processo. O capitalismo juntou a fome com a vontade de comer. O mundo está dominado pelo consumismo. Ter é mais importante do que Ser, como mostra Fred Tavares (2010):
Segundo a filosofia, o ser pode ser compreendido de várias maneiras: substância, existência, essência, ser-em-si, ser-no-mundo, ser de razão. Num sentido que aparece na filosofia grega, o ser se opõe ao devir (…) Sorvendo-se dos olhares de Deleuze e Guattari, busca-se refletir o ser humano e as suas transformações psicossociais e culturais, através de uma nova representação: a do ‘ter humano’. Não como uma concepção metafísica da natureza humana, mas, sobretudo, sob uma perspectiva do devir, ou seja, na fluidez e mutabilidade do indivíduo como estratégia de uma virtualidade identitária. O consumidor contemporâneo pode ser classificado como “ter humano”. Pois, o desejo de consumir torna-o uma subjetividade em dobra, inacabada. Incessantemente, transformando-o em uma identidade líquida, fluida e virtual. Na cultura do consumo, o indivíduo passa a ser valorizado e reconhecido mais por ter do que ser, ou pelo menos, do parecer ter”.
Mas o vício consumista depende da generosidade da natureza em fornecer recursos materiais, sendo que o crescimento ilimitado da economia depende da oferta limitada de carvão, óleo, gás natural, minérios, areias raras, madeira, água, fertilidade do solo, peixes, biodiversidae, etc. A economia ecológica ensina que a economia faz parte da ecologia e é impossível a primeira sobrepujar a segunda. Ou seja, o tamanho do espaço ecológico é um determinante que impõe uma limitação intransponível à economia, pois a parte não pode ser maior que o todo. O crescimento do consumo e a multiplicação dos bens e das marcas não pode ocorrer por meio do esgotamento das riquezas do meio ambiente. Josep Maria Galí, autor do libro: “Consumicidio: Ensayo sobre el consumo (in)sostenible” faz uma crítica das condutas do consumo nas sociedades de economia capitalista e à lógica do consumismo (Gali, 2014).
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Dito em outras palavras: é impossível manter um crescimento econômico infinito em um Planeta finito. Porém, existem pensadores utópicos ou cornucopianos que consideram ser possível manter o modelo de crescimento do consumo, mas desmaterializando os bens de consumo, quer seja pelo crescimento da sociedade da informação e do conhecimento ou pelo desacoplamento (decoupling) entre bens de consumo e recursos naturais.
A ideia do desacoplamento é tema central do Painel Internacional de Recursos da ONU (UNEP, 2015), que sonha em dissociar os efeitos do crescimento econômico do uso dos recursos naturais e dos seus impactos ambientais. Todavia a realidade tem mostrado que a degradação do patrimônio natural continua concomitantemente ao crescimento da poluição em todas as suas formas. O próprio Painel de Recursos da ONU reconhece que o uso global per capita de materiais (biomassa, combustíveis fosseis, minerais metálicos e minerais não metálicos) continua crescendo, pois era de seis toneladas, em 1970, passou para oito toneladas, em 2000 e chegou a dez toneladas, em 2010. Houve portanto aumento absoluto no uso e abuso dos materiais arrancados das entranhas da Terra. Mas também houve crescimento relativo, pois a quantidade de material (kg) para produzir uma unidade de PIB (US$) passou de 1,2 kg, em 2000 para 1,4 kg, em 2010.
Além disto, o nível de reciclagem é muito baixo e o montante de luxo e lixo é muito alto. Vale a pena ler os textos de Vaclav Smil sobre as ilusões do desacoplamento. Segundo a pesquisadora Maria Amélia Enríquez (ex-presidenta da Eco Eco e membro do Painel Internacional de Recursos da ONU), o atual padrão de consumo global é insustentável e somente seria possível assegurar o bem-estar social global, se houvesse forte aumento na eficiência dos recursos, redução na intensidade de uso e aumento de produtividade. Coisa que não está ocorrendo devido ao “efeito rebote” e ao Paradoxo de Jevons.
O relatório “Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health” (WHO, 2015) da Organização mundial da Saúde, constata:
Os últimos 50 anos viram melhorias sem precedentes na saúde humana, tal como medido pela maioria métricas convencionais. Este florescimento humano tem, no entanto, sido realizado às custas da degradação extensa dos sistemas ecológicos e biogeoquímicos da Terra. Os impactos das transformações para estes sistemas; incluindo a aceleração da ruptura climática, degradação do solo, crescente escassez de água, a pesca predatória, poluição e perda de biodiversidade; já começaram a impactar negativamente a saúde humana. Se nada for feito essas mudanças ameaçam reverter os ganhos globais de saúde das últimas décadas e provavelmente vai se tornar a ameaça dominante para a saúde durante o corrente século” (p. xi).
Por tudo isto, a economia ecológica ensina que é impossível manter o crescimento das atividades antrópicas no cenário do fluxo metabólico entrópico. Segundo Nicholas Georgescu-Roegen, com base na segunda lei da termodinâmica – lei do aumento da entropia – as transformações naturais ocorrem com o aumento de energia não utilizável para fazer trabalho. O andamento dos processos naturais resulta num constante aumento de energia não aproveitável e do aumento do grau de desordem do sistema. Isto é, há um constante aumento da entropia (e do caos) associado ao processo de produção de bens voltados à felicidade do “Ter humano”.
Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento (Ron Patterson, apud Alves 2014). Cresceram as áreas ecúmenas e diminuíram as áreas anecúmenas. O domínio humano sobre o Planeta (Antropoceno) está provocando a sexta extinção em massa das espécies. Infelizmente, a proposta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pouco faz para alterar a rota rumo ao precipício.
Portanto, tem sido uma ilusão conciliar os imperativos gêmeos da conservação e do desenvolvimento. A ideia do “desenvolvimento sustentável” tem sido apenas um bordão cada vez mais difícil de ser vendido aos cidadãos (transformados em consumidores) do mundo. O desenvolvimento sustentável virou uma contradição em termos. A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista. Mas o CONSUMICÍDIO pode destruir todo o processo civilizatório que ocorre deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus. A Eco-nomia não pode viver sem a Eco-logia. Ou mudamos o estilo de vida e evitamos a degradação ambiental ou haverá um colapso da vida na Terra.
Referências:
ALVES, JED. Para evitar o holocausto biológico: aumentar as áreas anecúmenas e reselvagerizar metade do mundo, Ecodebate, RJ, 03/12/2014
GALI, Josep M. Consumicídio: Ensayo sobre el consume (in)sostenible. Omniabooks, 2014
UNEP. The International Resource Panel (IRP) United Nations Environment Programme,2011
TAVARES, Fred. Do Ser Humano ao Ter Humano. O Comportamento do Consumidor e a Teoria do Mosaico Fluído, 22/01/2010
WHO. Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health, september 2015www.cbd.int/health/stateofknowledge/default.shtml.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 30/09/2015

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Estados Unidos e Rússia preparam “retirada” de Bashar al Assad para uma "nova Síria"

O entendimento Estados Unidos/Rússia conhecido nos últimos dias, com responsáveis militares dos dois países a discutirem a situação na Síria é um sinal claro de que algo está a ser preparado. 

Artigo de José Manuel Rosendo.

"Em termos puramente militares é por demais evidente a incapacidade das forças de Assad para recuperarem território", assinala o jornalista José Manuel Rosendo.
Praticamente desde o início da guerra na Síria que se fala da possibilidade de criação de um novo Estado que albergue Bashar al Assad e os Alauitas, ramo xiita a que pertence a família Assad. A "nova Síria" teria por base as províncias de Tartus e Lataquia, onde estão concentrados os Alauitas e que são as duas províncias mais a Oeste do actual território sírio, encostadas ao Mar Mediterrâneo.
Em termos puramente militares é por demais evidente a incapacidade das forças de Assad para recuperarem território: já perderam grande parte da Síria para as várias facções que combatem o regime mas que também combatem entre elas (por vezes em alianças de ocasião), apenas dominam a capital – ainda assim praticamente cercada –, as zonas controladas pelo Hezbollah libanês e algumas bolsas de terreno no resto do território, para além das duas províncias junto ao Mediterrâneo. Assad, enfrenta vários inimigos, conta com o apoio do Hezbollah libanês e de militares iranianos mas já não tem capacidade de recrutamento próprio. A confusão na Síria é muito grande. Arrumar a casa pode exigir um plano que comece por resolver o “problema Assad” e que passará por dar ao actual Presidente um território que seja étnica e religiosamente homogéneo. Depois se verá como pode evoluir o combate ao Estado Islâmico e quem ficará no que restar do território da actual Síria.
Os mais de quatro anos de guerra já provocaram mais de 240.000 mortos, vários milhões de refugiados e deslocados. Os países vizinhos albergam milhões de refugiados sírios e, também eles, querem ver rapidamente terminado uma guerra que facilmente pode galgar fronteiras. Os curdos capitalizam o esforço de guerra que têm feito contra o Estado Islâmico e vão certamente querer que isso se traduza em algo mais, quer na Síria quer no Iraque, sendo que na Turquia o governo dá sinais de não querer ser reactivo e já se apressou a tomar a iniciativa de modo a que os curdos não sintam qualquer margem de manobra a exigências que sempre assustaram Ancara. Se nada for feito a guerra na Síria só pode alastrar.
O entendimento Estados Unidos/Rússia conhecido nos últimos dias, com responsáveis militares dos dois países a discutirem a situação na Síria é um sinal claro de que algo está a ser preparado. Tem havido uma roda-viva nos corredores da diplomacia: Washington, Moscovo, Teerão, Riad, Omã, são algumas das capitais que guardam o segredo do que está a ser preparado. Dos últimos dias vem também a deslocação do Primeiro-Ministro israelita a Moscovo. O chefe da diplomacia síria esteve em Omã (deslocação rara a um país sunita), o chefe da secreta síria esteve em Riad… Teerão já terá um plano para a divisão da Síria que poderá ser um ponto de partida para um entendimento. Assad terá de perceber que não podendo ganhar esta guerra terá de perder alguma coisa para não perder tudo. Basta para isso que os interesses da Rússia sejam satisfeitos e que o Irão não estique demasiado a corda, até porque o acordo com o grupo dos 5+1 sobre o programa nuclear parece ser algo de que Teerão não se quer desviar.
Falta saber qual é a linha de fronteira no interior da Síria que Assad vai querer estabelecer e até pode acontecer que queira manter num futuro Estado algumas das cidades que há muito lhe escaparam da mão. Várias cidades, de Damasco a Aleppo, passando por Homs e Hamah, todas elas a poucos quilómetros da costa mediterrânica, seriam a cereja no topo do bolo da solução que parece estar a caminho. Assad pode ficar satisfeito com Lataquia e Tartus e mais uma faixa de território até Damasco. A fronteira com o Líbano é território em que pode ter a ajuda do Hezbollah. Todos os sinais apontam para que Assad aceite uma solução que lhe permita de algum modo salvar a face numa guerra que não pode vencer. Para trás fica terra queimada entregue a extremistas e a rebeldes que vão continuar a bater-se e onde as várias potências vão esgrimir argumentos, explorar apoios e fidelidades. Ainda assim a solução da “nova Síria” poderá também ser agarrada com ambas as mãos pelos rebeldes do Exército Livre da Síria, cansados de esperar por apoios externos que nunca chegaram.
Já se percebeu que os países ocidentais não querem colocar tropas no terreno. Também já se percebeu que os ataques aéreos da coligação internacional contra o Estado Islâmico não estão a conseguir alterar a situação. Por outro lado, já se viu que a Rússia está a enviar equipamento militar para as duas províncias junto ao Mediterrâneo (sem oposição dos Estados Unidos), sinal de que poderão estar a ser criadas as infra-estruturas militares mínimas que garantam a defesa de um futuro Estado de Assad. Se isso vier a acontecer, não é de todo desajustado considerar que é a Rússia quem mais beneficia deste longo braço de ferro em que nunca “deixou cair” Bashar al Assad no Conselho de Segurança da ONU. Afinal, se os Estados Unidos já contam com um fiel aliado na região, a quem dão um forte apoio militar (Israel), a Rússia mantém o aliado Assad e reforça a presença militar no Médio Oriente. Israel, se não sentir a sua segurança em risco, não se vai importar com este novo desenho até porque é conhecida a política russa em relação a movimentos islâmicos mais radicais. Talvez o Irão seja o parceiro mais difícil de contentar nesta solução. Quanto ao Líbano, encravado entre Israel a sul e uma “nova Síria” a norte e a leste, há muito que é um barril de pólvora mas essa característica também tem produzido ensinamentos que ajudam a enfrentar realidades complicadas. 
Fazer este tipo de previsões é arriscado, mas olhando para a geografia, para os interesses das potências envolvidas e para os últimos desenvolvimentos da agenda diplomática, a criação de uma “nova Síria” é a solução para onde todos os dados apontam.
Artigo publicado por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia

É necessário investimento em todos os lugares

Por Frances Coppola


A agência de classificação Standard & Poors apelou para os governos em todos os lugares para aumentar as despesas de investimento. Ela também diz que eles precisam melhorar a eficiência dos gastos que eles já estão fazendo.

Despesas de investimento privado do setor em todo o mundo caiu após a crise financeira de 2008. Na Europa, onde a crise começou mais cedo, ele começou a cair em 2007. E  não se recuperou. Investidores do setor privado permanecem e com medo de perdas, perseguindo refúgios seguros e dispostos a investir a longo prazo em infra-estruturas, competências e de I&D de aversão ao risco. 

Quando o setor privado não irá investe, o trabalho recai para o governo. E imediatamente após a crise financeira, os governos se intensificam, aumentando as despesas de investimento como os investimentos do setor privado caiu. Alguns governos têm continuado a investir desde então, nomeadamente a China, que ainda gasta cerca de 8,5% do PIB a cada ano (muito fora das suas fronteiras), e Índia, que está a gastar cerca de 4,7%. Mas a maioria dos governos reduziram os gastos com investimento, a fim de consolidar os seus orçamentos. O resultado é um frio de investimento generalizado de que é deprimente o crescimento e mantém o desemprego elevado em demasiados países ......

Leia mais aqui

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O QUINZE - versão II

Luiz Rodrigues



Traço de Shiko para a obra O Quinze. (Divulgação)

No ano de 1930 a escritora cearense Rachel de Queiroz publicou com apenas 20 anos de idade sua obra mais famosa, O Quinze; como o próprio título sugere, a romancista fazia referência a recordações vividas no interior semi-árido do Ceará no ano de 1915 quando tinha 5  anos. A trama muito simples e altamente atrativa desperta a atenção para o impacto da estiagem no ciclo econômico-rural e na "produção" dos retirantes, que também provocara a publicação de A Bagaceira em 1928 por José Américo de Almeida, considerada a obra inicial do regionalismo nordestino, produzindo uma brilhante literatura com gênios como José Lins do Rego e Graciliano Ramos.

O Quinze, portanto, se passa diante da estrutura agrária do Nordeste brasileiro no início da República onde prevalecia o coronelismo; uma estrutura propiciada por termos um semi-árido relativamente chuvoso, por ser um semi-árido, capaz de aguentar práticas que não seria adequadas a este tipo de clima, em vista do ciclo de baixas precipitações intercaladas por períodos com chuvas de consideráveis volumes, ou seja os "anos bons" propiciam a prática de atividades que são duramente afetadas por um ciclo normal, a "seca". Viemos ao semi-árido, mas por característica próprias a ele ficamos no engano, com atividades econômicas e modelos de utilização da água apenas acessíveis a outros climas, nunca fomos bons convivedores com o semi-árido.

100 anos depois vivemos outro período de seca, já com 4 anos sem um grande período de chuvas e, mesmo as grandes obras hídricas construídas enfrentam problemas em seus volumes, mesmo assim seria possível utilizá-las com maior intensidade se os governos locais tivessem a capacidade de planejamento para o clima da região; o Rio Grande do Norte, por exemplo, se tivesse concluído seu programa de adutoras a partir da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves não teria uma cidade do porte de Currais Novos no colapso, abastecida por caminhões pipa.

O semi-árido se urbanizou, a agricultura e a pecuária perderam em intensidade, e o maior desafio é garantir o abastecimento dessas zonas urbanas com suas atividades econômicas; a seca do Quinze II é a seca da má gestão, da falta de planejamento, quando temos inúmeros especialistas produzidos por nossas próprias universidades sempre alertando que não dá pra ficar na peleja de deixar  a "seca" chegar para arranjar paliativos.

Somente 4,6% das escolas públicas de Ensino Fundamental têm infraestrutura adequada

Levantamento do Todos Pela Educação revela disparidades regionais para atingir a meta 7 do PNE
Do Todos Pela Educação
Apenas 4,6% das escolas públicas de Ensino Fundamental de todo o Brasil dispõem de infraestrutura adequada para o trabalho pedagógico. No Ensino Médio, essa taxa cresce para 22,9%, mas ainda é considerada muito baixa. Se observadas todas as 149.098 unidades públicas de Educação Básica – ou seja, da Educação Infantil ao Ensino Médio, incluindo Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Educação Profissional e Tecnológica –, somente 4,4% encaixam-se no padrão ideal.
Somente 4,6% das escolas públicas de Ensino Fundamental têm infraestrutura adequadaOs dados são de um levantamento do Todos Pela Educação para o Observatório do PNE (leia mais abaixo), com base no Censo Escolar de 2014 e leva em conta os critérios estabelecidos pelo Plano Nacional de Educação (PNE). A meta 7 da lei, sancionada há pouco mais de um ano, afirma que todas as escolas públicas devem contar, em sua estrutura, com: água tratada; saneamento básico; energia elétrica; acesso à internet com banda larga de alta velocidade; acessibilidade à pessoa com deficiência; biblioteca; espaços para prática esportiva; acesso a bens culturais e laboratórios de ciências. O gráfico abaixo mostra os dados.





Segundo especialistas, a falta de infraestrutura escolar adequada pode afetar de diversas formas a aprendizagem dos alunos. Para Joaquim Soares Neto, especialista em avaliação da Universidade de Brasília (UnB) e autor de um estudo sobre infraestrutura (saiba mais aqui), o tipo de consequência depende da etapa de ensino em que a criança está matriculada. 
“Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, se não há um ambiente com condições térmicas e de salubridade adequadas, não há conforto. Isso afeta a concentração e a autoestima dos estudantes”, explica. “Nos anos finais e no Ensino Médio, pesam a ausência de laboratórios de física e química, por exemplo. Assim, aquele aprendizado que deveria vir dali simplesmente não existe – o prejuízo é total.”

Veja mais dados abaixo.






Desigualdades
As disparidades regionais nos dados de infraestrutura são grandes e aparecem quando as médias são desagregadas por etapa de ensino e por equipamentos disponíveis. A Região Sul do País, por exemplo, apresenta 36,1% das unidades de Ensino Médio e 11,6% das de Ensino Fundamental com todas as condições delineadas no PNE. As taxas caem quando se observa o Norte, que apresenta 4,7% e 0,3%, respectivamente. Veja os gráficos abaixo:








Neto afirma que o regime de colaboração entre os entes federados, previsto na Constituição, é fundamental para estabelecer políticas públicas que privilegiem a infraestrutura, o que poderia ajudar a resolver as desigualdades entre regiões do País. “Não avançamos muito na solução dessas disparidades, mas pelo menos temos conhecimento delas hoje”, reforça.

Segundo ele, num cenário de cortes orçamentários como o atual, deve-se aumentar a eficiência dos gastos para melhorar a infraestrutura da Educação Básica pública. “Não tem como solucionar a precariedade das escolas sem investimento. Mas, mesmo com a situação de crise, não devemos abrir mão do desenvolvimento do País. É preciso um projeto racional de curto ou médio prazo para que possamos usar da forma melhor possível o dinheiro existente”, opina.

Equipamentos
Quando se observa o acesso a esgoto sanitário, somente 30,4% das escolas de Ensino Fundamental dispõem dessa necessidade básica. No Médio, o número aumenta para 58,7%.
Na tabela abaixo, vê-se que, apesar de os acessos à água tratada e à energia elétrica estar quase universalizado, os números do Ensino Fundamental ainda ficam abaixo dos apresentados pelo Médio. Além disso, ainda apresentam algumas quedas pontuais, como no caso da água tratada, que caiu de 93%, em 2009, para 89,3%, em 2014.




Crescimento
Apesar dos dados negativos, a disposição de alguns equipamentos cresceu de 2009 para 2014. É o caso das bibliotecas (de 35,5% para 45%) e da banda larga (de 25,4% para 40,4%) nas escolas de Ensino Fundamental. No Médio, a banda larga também foi o item que apresentou o maior crescimento: saltou de 69,3% para 79,4% entre 2009 e 2014.
Acompanhe
Observatório do PNE, plataforma online com o objetivo de monitorar os indicadores referentes às 20 metas do Plano Nacional de Educação (PNE), permite o acompanhamento dos indicadores e estratégias e oferece análises sobre as políticas públicas educacionais já existentes.Conheça.

domingo, 27 de setembro de 2015

Computadores na sala de aula: sim ou não?

José Antonio Marina*

Os pedagogos começam a não ter uma boa reputação. Eles parecem muito hesitante. Livros didáticos, sim ou não?  Aprenda de memória, sim ou não? Computadores na sala de aula, sim ou muito pelo contrário? Disciplina ou permissividade? Na França, entrará em vigor uma profunda reforma educacional no próximo ano. Reintroduzirão-se os ditados e o cálculo mental. Programas bilingues serão excluídos e o ministro disse "Vamos verificar que o estudante repita e memorizem para dominar o conhecimento fundamental".

Kirsten Corder, da Universidade de Cambridge, e sua equipe têm mostrado que o uso de telas negativamente se correlaciona com o desempenho escolar. Em março, o Conselho escolar de Catalunya aprovou um documento intitulado "As tecnologias móveis nas escolas", que tem incentivado o Governo a incorporar os telefones na escola como uma ferramenta educacional. Eu li na imprensa que em Andaluzia se vai ensinar os alunos da 6ª série a gerenciar o Twitter, mas não pode usá-lo até dois anos depois. Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE, apenas diz: "Usar o aparelho  para cortar e colar é inútil. Se formos alunos mais inteligentes que seus  smartphones  tem que pensar seriamente sobre as pedagogias que estamos usando para educá-los."

Educação será o próximo negócio de trilhões de dólares

Em seu estudo recente Estudantes, computadores e aprendizagem, a OCDE assinala que as expectativas sobre o uso de computadores na escola não foram cumpridos, e que os países que estão no topo do ranking de educação - Cingapura, Coréia, Hong Kong Japão e Xangai - não são aqueles com maiores percentagens de estudantes conectados à Internet. Vários países e várias comunidades autônomas da Espanha foram introduzidas na programação principal. Se o foco é aberto para os perigos atribuídos às novas tecnologias, o coração encolhe. Para complicar ainda mais a questão, as grandes multinacionais da computação aspiram a se tornar grandes educadores do mundo inteiro. Google, IBM, Microsoft, Cisco, Samsung, Apple e outras estão a investir muito dinheiro e talento para obtê-lo. Educação será o próximo negócio de trilhões de dólares. Pearson vendeu apenas metade do  The Economist  para investir nos benefícios de se tornar um grande produtor mundial de conteúdo educacional. O mundo da educação está em ciclogênese explosiva.

É compreensível que muitas opiniões causem confusão nos pais, professores e autoridades educacionais. Os pedagogos sérios não podem fingir certezas que não têm e devem basear-se em evidências. E quais são elas? Computadores são ferramentas maravilhosas para gerenciar informações. Só por isso. Em todas as funções vitais que a informação é importante, os computadores serão. Mas inteligência humana não é limitado à utilização de informação. Você precisa entender, apreciá-la, integrá-la em planos pessoais, prosseguir os esforços para direcionar a ação, tomar decisões, assimilar valores. Os computadores são ferramentas mentais. Lev Vygotsky, o grande psicólogo do século XX, explicou que a mente humana inventa ferramentas que estendem as suas capacidades. Algumas servem para fazer coisas, e outras para expandir a inteligência. Ferramentas mentais são a linguagem, a escrita, a álgebra, os sistemas conceituais, a notação matemática, as calculadoras e os computadores. Nos permitem pensar sobre as coisas que sem eles não poderíamos pensar. O que fazemos na escola é ensinar como gerir estas ferramentas muito poderosas que a tecnologia nos oferece e que ainda não foram inventadas. Eles não substituir qualquer coisa: as expande. Eu gostaria de repetir que "um burro conectado à Internet, continua a ser um burro", mas se na frente da tela é uma pessoa sábia, as possibilidades são maravilhosas.

A criança a partir do seu cérebro, deve saber como gerenciar sua própria memória implementada parte em formato neuronal e parte em formato eletrônico

O "modelo de inteligência executiva" do qual já falei se centra precisamente sobre ensinar a gerenciar não só o próprio cérebro, mas as ferramentas mentais que podem expandir as suas capacidades. Por exemplo, cada criança, adolescente ou adulto deve construir e gerenciar sua própria memória. Originalmente, toda foi preservada no cérebro. Quando a escrita apareceu, parte da memória pessoal foi vertida em escritos. Agora, temos uma grande oportunidade de usar o computador para isso. Mas o padrão permanece o mesmo. A criança a partir de seu cérebro deve saber como gerenciar sua própria memória implementada parte no formato neuronal e parte em formato eletrônico. Isso é o que se chama de desenvolvimento de talentos. Isto é o que tentamos ensinar em programas Pai Foundation University, e sentir a emoção de estar na vanguarda. 



*Filósofo da educação espanhol