"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 28 de novembro de 2015

Cepal alerta para elevado número de feminicídio na América Latina e Caribe

Agência da ONU afirma que mais de 1,6 mil mulheres foram assassinadas no ano passado por questões de gênero; especialistas disseram que mortes foram registradas em 17 países da região.
O feminicídio deve ser enfrentado pelos governos de uma forma abrangente, levando em consideração fatores econômicos, sociais e culturais. Foto: Banco Mundial


Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.


A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, alertou para o elevado número de feminicídio na região.
A agência da ONU afirmou que pelo menos 1.678 mulheres foram assassinadas por questões de gênero em 17 países da área.
Prevenção e Reparação
A secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, afirmou que "as autoridades não podem permitir que as mulheres latinoamericanas e caribenhas continuem morrendo pelo simples fato de serem mulheres".
Bárcena pediu aos países da região que atualizem seus dados sobre o assunto para que se possa ter uma ideia real do número de feminicídios. A meta é, com base na informação, disponibilizar programas com fundos apropriados para lidar com os trabalhos de prevenção e reparação de vítimas.
Segundo a agência da ONU, "o feminicídio é a expressão de violência mais drástica contra mulheres". O crime deve ser enfrentado pelos governos de uma forma abrangente, levando em consideração fatores econômicos, sociais e culturais.
Além disso, devem ser consideradas também questões de desigualdade e as relações de poder entre homens e mulheres.
Leis
A Cepal informou que atualmente 20 países da região têm leis para combater a violência contra mulheres. Apesar disso, apenas oito disponibilizam recursos específicos para o problema em seus orçamentos nacionais.
O Brasil é uma das nações com leis que penalizam crimes de feminicídio, junto com Chile, Equador, México e Peru, entre outros.
A Comissão chama atenção ainda para os abusos ocorridos nas ruas e nos sistemas de transporte, que segundo a agência da ONU, constituem "uma das formas de violência contra mulheres mais minimizada na sociedade".
O Peru foi o primeiro país a promulgar uma lei, em março deste ano, para evitar e punir assédio sexual em locais públicos. Argentina, Chile e Paraguai estão em processo de implementar uma lei nesse sentido.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Pela crítica da arte



A violência que assola o Brasil, fica a cada dia mais claro, tem uma origem "discursiva".

No marxismo, a principal fonte de análise no Brasil, o material precede ao espírito, portanto, a origem da violência está na produção material do sistema econômico. Globalização, mídia de massas, publicidade etc. são elementos do sistema capitalista que influenciam a proliferação da violência aos destituídos do acesso ao consumo. No entanto, essa abordagem padece de uma contrariedade central.

O discurso origem da violência assola todas as camadas sociais, mesmo nas classes que tem pleno acesso ao mercado de consumo; por outro lado, ainda, com o avanço do ensino público no mundo todo, as pessoas de classes baixas podem ter  acesso aos "bens culturais", notadamente os literários. Evidentemente, que os que se dedicam ao crime efetivo (roubo e homicídio) na absoluta maioria são homens, jovens e pobres; embora os que sigam o mesmo "discurso" de classes com rendas mais elevadas não cometam os mesmos delitos têm suas vidas permeadas pelo mesmo vazio.

A contrariedade da "análise" marxista é por um lado condenar o consumismo e por outro defender discursos como o funk, os dois têm a mesma origem; o fato de ser originário entre setores excluídos da sociedade não significa, sob o ponto de vista marxista, que não tenha origem  na estrutura material, muito menos uma forma de resistência. Antes se produzia como música, por exemplo, o samba, por que agora Funk?

Uma crítica do funk, por exemplo, pode ser considerado como um apego a um elitismo cultural, apesar de que Luiz Gonzaga ou Bezerra da Silva nada tenham a ver com elitismo. Anitta, Mc Catra,Valesca Popozuda são anti-arte, ao invés de simbolizar esvaziam o mundo se sentidos úteis.

Por outro lado, não significa um retorno, resgate da música passada, e sim a busca de um elitismo cultural direcionado para o belo sem cheiro de tinta spray ou verborreia imunda. Ainda existem estrelas no céu, pássaros que cantam e mulheres linda que caminham pelas ruas.

A posse de produtos acaba sendo um fim e não a origem. O material sem o discursivo nada representa, a ostentação, o paredão, o safadão são significações que jogam o sujeito num mundo onde o fantástico é ser medíocre, rastejante.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

As finanças do Estado Islâmico

Será que o financiamento do EI através das exportações de petróleo é mais mito do que realidade? Como os mitos se constroem para ocultar verdades incômodas, talvez não convenha a Washington que se saiba toda a verdade sobre as finanças do Estado Islâmico. 

Por Alejandro Nadal

É provável que o financiamento do EI através das exportações de petróleo seja mais um mito do que uma realidade. O dinheiro que constitui a coluna vertebral das operações do EI poderá provir de outras fontes - bandeira do EI, foto da wikimedia
Na imprensa internacional abundam as referências ao poderio econômico do Estado Islâmico (EI). Diz-se que as suas finanças estão muito bem alimentadas porque desde há um par de anos controla instalações petrolíferas no norte da Síria (campos de Al-Furat e Deir Al-Sur). Além disso, desde há um ano o seu domínio do norte de Iraque inclui jazigos, poços e até refinarias, em especial na zona de Mossul, Erbil e Kirkut. Por essa razão afirma-se que o Estado Islâmico (EI) é o grupo terrorista mais rico e bem financiado do mundo. E como já sabemos, quando uma ideia se repete incessantemente nos meios de comunicação tende a converter-se em verdade absoluta.
A primeira pergunta que surge é sobre a eficácia dos bombardeamentos aéreos levados a cabo pela coligação, que tem os Estados Unidos e a França à frente. Já passaram mais de 12 meses desde que os Estados Unidos começaram os seus ataques aéreos. Por que não destruíram a infraestrutura de extração, refinação e transporte de crude e derivados nas zonas que o Estado Islâmico controla? Essas instalações não são pequenos objetivos de difícil localização e as suas coordenadas precisas são bem conhecidas. Convertê-las em alvos de um bombardeamento só requer introduzir essas coordenadas no computador de um bombardeiro ou de um míssil de cruzeiro.
Será que os efetivos do EI têm grande capacidade para consertar as instalações petrolíferas após um bombardeamento? O equipamento de bombagem de um poço pode ser consertado mais ou menos rapidamente, desde que se tenham à mão as peças de reposição necessárias. Mas quando os bombardeamentos se repetem diariamente, reconstituir a capacidade de produção já não é tão fácil. Os oleodutos são de difícil reparação e no caso de uma refinaria haveria que a reconstruir a partir do zero. Finalmente, transportar crude em camiões proporciona outro alvo fácil de destruir. Os que podem escapar representariam uma quantidade ínfima de petróleo.
Há que dizer que têm havido alguns bombardeamentos contra instalações petrolíferas. Mas são esporádicos e parecem ser episódios isolados. A infraestrutura petrolífera não parece ser o centro de atenção da campanha de bombardeamentos aéreos.
Recentemente os serviços de informação alemães deram a conhecer um relatório cuja principal conclusão é que os rendimentos petrolíferos do EI têm sido fortemente sobrestimados (sueddeutsche.de). Calcula-se que os campos petrolíferos do norte da Síria e do Iraque que estão sob controle do Estado Islâmico teriam a capacidade de 172 mil barris diários, mas a sua produção caiu para menos de 28 mil. As receitas teriam colapsado, de cerca de 3 mil milhões de dólares para apenas 100 milhões anuais. E se é verdade que os bombardeamentos finalmente se concentraram nestas instalações, os rendimentos petrolíferos do EI seriam então muito menores.
Por tudo o que se disse antes, é provável que o financiamento do EI através das exportações de petróleo seja mais um mito do que uma realidade. O dinheiro que constitui a coluna vertebral das operações do EI poderá provir de outras fontes. E como os mitos se constroem para ocultar verdades incômodas, talvez não convenha a Washington que se saiba toda a verdade sobre as finanças do Estado Islâmico.
Um indício disto está nas declarações do almirante aposentado James G. Stavridis (nada menos que comandante supremo da NATO entre 2009-2013) sobre a existência de investidores de países árabes que canalizaram fundos para financiar as operações que tornaram possível o surgimento do Estado Islâmico. Estes indivíduos multimilionários têm uma clara simpatia religiosa e afinidade ideológica com os grupos militantes do Estado Islâmico e, além disso, podem permitir-se ao luxo de lhes dar um generoso apoio financeiro.
Segundo Stavridis a maior parte desta fonte de recursos localiza-se no Qatar. Mas vários relatórios indicam que personagens de outros emiratos e da Arábia Saudita também canalizaram recursos através de diferentes mecanismos para o Estado Islâmico. O subsecretário do Departamento do Tesouro norte-americano para os assuntos de terrorismo e espionagem financeira, David Cohen, assinalou numa conferência que o mesmo fenômeno se encontra no Kuwait e voltou a apontar o melhor aliado de Washington na região, a Arábia Saudita.
Nada disto é surpreendente. As origens do Estado Islâmico e a sua ideologia de intolerância estão no emprego da jihad e do wahhabismo como instrumentos de política externa dos Estados Unidos, a partir de 1979. Quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, os Estados Unidos aproveitaram o momento para estabelecer um complexo de bases militares na Arábia Saudita. Em contraste com as promessas anteriores, Washington manteve as suas instalações após a primeira guerra do Golfo. O impacto sobre a radicalização do movimento fundamentalista islâmico de inspiração wahhabita foi imediato. A fonte de financiamento para os grupos mais radicais da Síria e agora para o Estado Islâmico não foi interrompida.
Artigo de Alejandro Nadal, publicado em 25 de novembro de 2015 no jornal mexicano “La Jornada”. 

Período entre 2011 e 2015 é o mais quente já registado

Média da temperatura global em 2015 deverá alcançar 'a simbólica e significante marca de 1º C' acima do nível da era pré-industrial, entre 1880 e 1899, anunciou nesta quarta-feira a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas.

Gráfico mostra anomalias nas temperaturas do planeta por região entre janeiro e outubro de 2015
Segundo a OMM, os anos entre 2011 e 2015 são o período mais quente já registado na história, com 2015 caminhando para ser o ano mais quente já registado. Um estudo divulgado nesta quarta-feira, 25 de novembro, apontou que a média da temperatura global neste ano deverá “alcançar a simbólica e significante marca de 1º C” acima do nível da era pré-industrial, entre 1880 e 1899.
Segundo o relatório, a causa do aumento das temperaturas nos últimos cinco anos são as mudanças climáticas provocadas por ação humana e o forte El Niño - fenómeno de aquecimento das águas do Pacífico Sul que repercute no clima mundial - registado neste ano.
“Esse impacto extra na temperatura, quando combinado com o aquecimento de longa data do planeta por conta da emissão de gases como o dióxido de carbono causada por humanos, torna virtualmente certo que 2015 será o segundo ano mais quente consecutivo já registado na Terra”, declarou o meteorologista Jeff Masters. Até ao momento, o ano mais quente já registado é 2014.
“São más notícias para o planeta”, declarou em nota Michel Jarraud, secretário-geral da OMM.
Em 2015, os níveis de dióxido de carbono (CO2) atingiram a marca inédita de 400 partes por milhão no hemisfério norte. Cientistas defendem que a taxa máxima para evitar os malefícios do aquecimento global é de 350 partes por milhão. Destruição de ecossistemas, o aumento do nível dos oceanos e intensificação de tempestades estão entre os efeitos das temperaturas elevadas.
O anúncio da OMM veio dias antes de começar a COP21, a cimeira da ONU que reúne líderes mundiais sobre as mudanças climáticas, em Paris.
Artigo publicado em Opera Mundi.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Um liberal no governo da Argentina


por Luiz Carlos Bresser-Pereira


Com a eleição de Mauricio Macri para presidente da Argentina, o governo desenvolvimentista de Duhalde e dos dois Kirchner cede lugar a um governo liberal. O que muito satisfaz o Oeste, ou seja, o establishment mundial imperial, e também as elites locais liberais subordinadas, para os quais os Kirchner se tornaram inimigos, porque lograram reduzir a dívida externa da Argentina em 75%, e porque mostraram sempre independência em relação a esse Oeste. Para eles o governo dos Kirchner foi um fracasso - o que está longe de ser verdade - e um governo liberal trará a felicidade para todos... 

Na verdade, o desenvolvimentismo argentino foi muito bem sucedido até 2008, beneficiado pela grande elevação do preço das commodities, e pelas "retenciones" sobre a exportação de soja, carne e trigo, que impediram que a taxa de câmbio se apreciasse devido a esse aumento de preços. Em consequência o país começou a se reindustrializar, e as taxas de crescimento giravam em torno de 7% a 8% ao ano. 

Mas, a partir de 2009, a taxa de crescimento caiu, porque houve a Crise Financeira Global de 2008, porque, diante da inflação que o alto crescimento trouxe sem que a oferta local pudesse acompanhá-lo, o governo decidiu usar o câmbio para segurar a inflação e esta taxa se apreciou, e, um pouco mais tarde, porque os preços das commodities caíram. Em consequência, a taxa de crescimento caiu, e o saldo em conta-corrente, que era positivo, zerou ou tornou-se ligeiramente negativo. Felizmente para a Argentina e sua indústria, a taxa de câmbio não logrou apreciar-se ainda mais porque existe na Argentina um impedimento a isto. A Argentina continua cem acesso aos mercados mundiais, e, portanto, a taxa de câmbio não pode cair mais ainda, porque não há como financiar o déficit em conta-corrente. Mas apreciou-se no mercado interno paralelo, na medida em que o governo era obrigado a controlar capitais. 

Assim, compreendemos porque as taxas de crescimento dos últimos anos foram insatisfatórias. Mas o governo não perdeu o controle da economia, como aconteceu no Brasil, e o crescimento médio do período todo foi satisfatório.

Agora temos um governo liberal. Nenhum governo liberal deu certo na Argentina desde 1950. Nem os liberal-autoritários, comandado por militares, nem os liberal-democráticos, que levaram o país a grandes crises financeiras. O que provavelmente acontecerá será o governo tentar recuperar a todo custo o crédito internacional da Argentina (o que não é bom para ela) e eliminar as retenciones, ao invés de torná-las variáveis. O resultado serão déficits em conta-corrente elevados e a correspondente taxa de câmbio valorizada, que, novamente, inviabilizara a indústria argentina e o crescimento. Vamos esperar.

O que está em jogo na conferência do clima em Paris agora que as manifestações foram proibidas

Ao proibir os protestos na COP21, Hollande está a silenciar aqueles que vão enfrentar os piores impactos das alterações climáticas e a sua violência monstruosa.

Naomi Klein

De quem é a segurança que fica protegida por todos os meios necessários? De quem é a segurança que é sacrificada ao acaso, apesar dos meios para fazer tanto mais? Essas são as perguntas que estão no coração da crise climática, e as respostas são as razões porque as cimeiras do clima tantas vezes terminam em rudeza e lágrimas.

A decisão do governo francês de proibir protestos, manifestações e outras "atividades ao ar livre" durante a Cimeira do Clima de Paris é perturbadora a muitos níveis. O que me preocupa mais tem a ver com a maneira como reflete a desigualdade fundamental da crise climática em si – e a questão nuclear é de quem é que, em última análise, é valorizada a segurança, neste mundo inclinado para um só lado.

Esta é a primeira coisa a perceber. As pessoas que enfrentam os piores impactos das alterações climáticas não têm praticamente voz nos debates ocidentais sobre a possibilidade de fazer alguma coisa séria para evitar o aquecimento global catastrófico. Cimeiras do clima enormes como essa a ter lugar em Paris são raras exceções. Durante apenas duas semanas de poucos em poucos anos, as vozes das pessoas que são atingidas primeiro e mais ganham um pouco de espaço para serem ouvidas no local onde decisões fatídicas são tomadas. É por isso que habitantes de ilhas do Pacífico e caçadores Inuit e ainda pessoas de cor com baixos rendimentos, de lugares como Nova Orleães, viajam milhares de milhas para assistirem. A despesa é enorme, em dólares e em carbono, mas estar na Cimeira é uma oportunidade preciosa para falar sobre as alterações climáticas em termos morais e para dar um rosto humano a esta catástrofe que se está a desenrolar.

A coisa seguinte a perceber é que mesmo nestes raros momentos, vozes de primeira linha não têm uma plataforma suficiente nas reuniões oficiais do clima em que o microfone é dominado por governos e grupos verdes grandes, bem financiados. As vozes das pessoas comuns são ouvidas principalmente em reuniões de organizações de base, paralelas à cimeira, assim como em manifestações e protestos que por sua vez atraem a cobertura dos meios de comunicação. Agora o governo francês decidiu tirar o megafone mais potente de entre estes, alegando que garantir a segurança das manifestações comprometeria a sua capacidade de proteger a zona da cimeira oficial onde os políticos se reunirão.

Alguns dizem que isto é tudo jogo limpo neste pano de fundo do terror. Mas uma cimeira do clima das Nações Unidas não é como uma reunião do G8 ou da Organização Mundial do Comércio onde os poderosos se reúnem e os sem poder lhes tentam invadir a festa. Os eventos paralelos da "sociedade civil" não são acrescento ou diversão para o evento principal. São parte integrante do processo. Razão pela qual o governo francês nunca deveria ter sido autorizado a decidir quais as partes da cimeira que iria cancelar e quais manteria apesar de tudo.

Em vez disso, depois dos terríveis ataques de 13 de novembro, precisava era de determinar se tinha vontade e capacidade para hospedar toda a cimeira – com plena participação da sociedade civil, incluindo nas ruas. Se não tinha, devia ter adiado e pedido a outro país que interviesse. Em vez disso, o governo de Hollande tomou uma série de decisões que refletem um conjunto particular de valores e prioridades sobre quem e o que receberá a proteção total da segurança do estado. Sim, para os líderes mundiais, jogos de futebol e mercados de Natal, não para as manifestações e protestos do clima, tornando saliente que as negociações, com o nível atual das metas das emissões, põem em perigo as vidas e meios de subsistência de milhões, se não milhares de milhões de pessoas.

E quem sabe onde isso vai acabar? Devemos esperar que a ONU revogue arbitrariamente as credenciais de metade dos participantes da sociedade civil? Os mais suscetíveis de causarem problemas dentro da cimeira fortificada? Não seria surpresa nenhuma.

Vale a pena pensar o que significa, em termos reais bem como simbólicos, esta decisão de cancelar as manifestações e protestos. As alterações climáticas são uma crise moral, porque cada vez que os governos dos países ricos deixam de agir, isto envia uma mensagem de que nós, no Norte global, estamos a colocar o nosso conforto imediato e a nossa segurança económica à frente do sofrimento e da sobrevivência de algumas das pessoas mais pobres e mais vulneráveis da terra. A decisão de proibir os espaços mais importantes onde as vozes das pessoas impactadas pelo clima teriam sido ouvidas é uma expressão dramática deste abuso de poder profundamente antiético: mais uma vez um país ocidental rico coloca a segurança das elites acima dos interesses de quem luta pela sobrevivência. Mais uma vez a mensagem é: a nossa segurança é inegociável, a vossa é de quem a agarrar.

Outro pensamento ainda. Escrevo estas palavras de Estocolmo, onde tenho estado a fazer uma série de eventos públicos ligados ao clima. Quando cheguei, a imprensa estava a ter um dia de exteriores com um tweet enviado pela ministra do ambiente da Suécia, Åsa Romson. Pouco depois rebentou a notícia dos ataques em Paris e ela twitou a sua indignação e tristeza pela perda de vidas. A seguir ela twitou que achava que eram más notícias para a cimeira do clima, um pensamento que ocorreu a toda a gente que conheço que está de alguma forma ligada a este momento ambiental. No entanto ela foi ridicularizada por suposta insensibilidade – como poderia estar a pensar nas alterações climáticas num momento de tal carnificina?

A reação foi reveladora, já que deu por garantida a noção de que as alterações climáticas são uma questão menor, uma causa sem perdas reais, frívola mesmo. Especialmente quando assuntos sérios como guerra e o terrorismo estão a tomar o centro das atenções. Isto fez-me pensar numa coisa que a escritora Rebecca Solnit escreveu não há muito: "as alterações climáticas são violência."

E é. Parte da violência é muitíssima lenta: subida dos mares que apaga gradualmente nações inteiras e secas que matam muitos milhares. Parte da violência é terrivelmente rápida: tempestades com nomes como Katrina e Haiyan que roubam milhares de vidas num único evento exasperante. Quando os governos e as grandes empresas conscientemente deixam de agir para evitar o aquecimento catastrófico, isso é um ato de violência. É uma violência tão grande, tão global e infligida contra tantas temporalidades simultaneamente (culturas antigas, vidas presentes, futuro potencial) que não há ainda uma palavra capaz de conter a sua monstruosidade. E usar atos de violência para silenciar as vozes de quem é mais vulnerável à violência do clima é mais violência ainda.

Ao explicar porque os próximos jogos de futebol se manteriam como programado, o Secretário de Estado para o Desporto da França disse: "A vida tem de continuar." Realmente tem. Por isso é que aderi ao movimento para a justiça climática. Porque quando os governos e as grandes empresas deixam de agir de uma maneira que reflete qual o valor de toda a vida na terra, temos de protestar contra eles.

Artigo publicado no The Guardian

Reduzir as desigualdades e o financiamento da educação continuam a ser desafios fundamentais



publicado no portal da OCDEOs governos precisam combater as desigualdades persistentes na educação e se concentrar em melhorar a eficiência em seus sistemas de ensino, a fim de garantir que todas as crianças, independentemente da sua origem, possa realizar seu pleno potencial e beneficiar-se de uma boa educação, de acordo com um novo relatório da OCDE.

Education at a Glance 2015 revela o rápido progresso alcançado na expansão da educação nos últimos 25 anos, com cerca de 41% das pessoas entre 25-34 anos de idade agora tem uma qualificação de nível superior. Mas as desigualdades persistem na educação, com graves consequências para os mercados de trabalho e economias. Em 2014, menos de 60% ​​dos adultos sem ensino secundário estavam no trabalho, em comparação com mais de 80% dos adultos com nível superior.

Desigualdades educacionais também afetam os lucros, com adultos que alcançaram educação terciária 23 pontos percentuais mais propensos a estar entre os 25% mais bem pagos do que os adultos adultos com ensino secundário. 

"O sonho da educação de qualidade para todos ainda não é uma realidade", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, no lançamento do relatório em Paris. "A falta de uma educação de qualidade é a mais poderosa forma de exclusão social e impede as pessoas de se beneficiando do crescimento econômico e do progresso social." Leia o discurso.

As desigualdades na educação inicial continuam a se desdobrar por toda a vida das pessoas, nomeadamente no acesso à aprendizagem ao longo da vida: cerca de 60% dos trabalhadores nas profissões mais qualificadas participar no ensino patrocinados pelo empregador, ao passo que apenas 26% dos trabalhadores em ocupações elementares fazer.

A edição deste ano da Education at a Glance também revela as dificuldades que os governos enfrentam para o financiamento da educação. Entre 2010 e 2012, o PIB voltou a subir na maioria dos países, e os gastos públicos com o n[ivel primário, já para instituições de ensino superior caiu em mais de um em três países da OCDE, incluindo a Austrália, Canadá, Estônia, França, Hungria, Itália, Portugal, Eslovênia, Espanha e Estados Unidos.


Em meio a cortes orçamentais nos níveis primário e secundário, a maioria dos governos optaram por reduzir os salários dos professores, em vez de aumentar o tamanho das turmas. Mas a evidência do programa PISA da OCDE revela que países com alto desempenho, como a Finlândia, Japão e Coreia, priorizar o ensino e os professores sobre tamanhos de infra-estrutura e de classe.

O número de países que mostram um aumento nos salários, em termos reais, encolheu para cerca de um em dois países da OCDE entre 2008 e 2013. Em média, nos países da OCDE, os professores pré-primário e primário ganhar 78% do salário de um semelhante-educado , trabalhador a tempo inteiro; professores secundários menores são pagos 80% e professores do ensino secundário de 82% do que o salário de referência.

Estes salários não competitivos vai tornar mais difícil para atrair os melhores candidatos à profissão docente, especialmente porque a força de trabalho docente está a envelhecer, com 35% dos professores do ensino secundário, pelo menos, 50 anos de idade em 2013. Essa proporção aumentou em 3 pontos percentuais entre 2005 e 2013. O aumento foi de 10 pontos percentuais ou mais na Grécia, Coréia, Portugal e Eslovénia e 19 pontos na Áustria.

Education at a Glance fornece estatísticas nacionais comparáveis ​​que medem o estado da educação em todo o mundo. O relatório analisa os sistemas de ensino dos 34 países membros da OCDE, bem como Argentina, Brasil, China, Colômbia, Costa Rica, Índia, Indonésia, Letónia, Lituânia, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul.

Principais conclusões

O nível de instrução

  • Cerca de 85% dos jovens de hoje irá completar o ensino secundário durante suas vidas. Em todos os países, as mulheres jovens estão agora mais propensos a fazê-lo do que os homens. A maior diferença de gênero está na Eslovénia, onde 95% das mulheres jovens são esperados para pós-graduação da secundário superior, em comparação com apenas 76% dos homens jovens. (Indicador A2)
  • Cerca de 41% dos 25-34 anos de idade nos países da OCDE têm agora uma educação de nível universitário. Essa proporção é de 16 pontos percentuais maior do que o de 55-64 anos de idade que tenham atingido um nível semelhante de educação.Em muitos países, essa diferença for superior a 20 pontos percentuais. (Indictor A1) 
  • O número de alunos matriculados fora do seu país de cidadania aumentou dramaticamente, de 1,7 milhões em todo o mundo em 1995, para mais de 4,5 milhões (Indicador C4). Cerca de 27% dos estudantes nos países da OCDE que se formaram pela primeira vez a partir de um programa de doutorado em 2013 eram estudantes internacionais, em comparação com apenas 7% para os estudantes que foram premiados um diploma de bacharel. (Indicador A3)
  • Em média, 83% das pessoas terciárias-educados são empregadas, em comparação com 74% das pessoas com um ensino não superior secundário ou pós-secundário e 56% das pessoas com abaixo ensino secundário. (Indicador A5)
Gastos com educação 
  • Os países da OCDE gastam, em média, USD 10.220 por estudante por ano do ensino primário através da educação terciária: USD 8.247 por aluno primário, USD 9.518 por estudante secundário e USD 15.028 por estudante do ensino superior.(Indicador B1)
  • A parcela de financiamento privado no ensino superior aumentou ao longo da última década. Cerca de dois terços do financiamento privado a nível terciário vem de famílias através de propinas. As propinas são maiores do que USD 2.000 em mais de metade dos países com dados disponíveis, ultrapassar USD 4000 na Austrália, Canadá, Coréia e Nova Zelândia, USD 5000 no Japão e US $ 8000 no Reino Unido e Estados Unidos. (Indicador B5)
  • Os países da OCDE gastaram uma média de 5,3% do PIB no primário ao ensino superior em 2012 (incluindo os programas não distribuídos por nível de educação). O financiamento público é responsável por 83,5% de todos os gastos com primário para instituições de ensino superior. Os gastos públicos com educação caiu em mais de um em cada três países da OCDE entre 2010 e 2012, incluindo a Austrália, Canadá, Estónia, França, Hungria, Itália, Portugal, Eslovénia, Espanha e Estados Unidos. (Indicadores B2 e B3)
Educação infantil
  • Na maioria dos países da OCDE, a educação agora começa para a maioria das crianças bem antes de completarem 5 anos de idade. Cerca de 74% das crianças de 3 anos estão matriculados no ensino em toda a OCDE e 80% dos países da OCDE membros da União Europeia. (Indicador C2)
  • As matrículas na pré-primária aumentou de 52% das crianças de 3 anos em 2005 para 72% em 2013, e de 69% das crianças de 4 anos a 85% em 2013. As taxas de escolarização de crianças de 4 anos aumentou 20 pontos percentuais ou mais na Austrália, Chile, Coreia, México, Polônia, Rússia e Turquia, entre 2005 e 2013. (Indicador C2)
  • Mais da metade das crianças matriculadas em programas de desenvolvimento da primeira infância frequentar instituições privadas. Isso pode resultar em pesados ​​encargos financeiros para os pais, mesmo quando os subsídios do governo são fornecidos. (Indicador C2)
Na sala de aula
  • Os alunos recebem uma média de 7570 horas de escolaridade obrigatória a nível primário e secundário inferior. Estudantes na Dinamarca têm o maior, em mais de 10 mil horas, e na Hungria, a menos, pelo menos de 6.000 horas. (Indicador D1)
  • A classe primária média nos países da OCDE tem 21 alunos e 24 no nível secundário inferior. Quanto maior o tamanho da classe, menos professores a tempo passar ensino e quanto mais tempo eles gastam em manter a ordem na sala de aula: um estudante adicional adicionado a um tamanho médio das turmas é associado com diminuição de 0,5 pontos percentuais no tempo gasto no ensino e aprendizagem. Indicador D2)
  • Os salários estatutários de professores com experiência média USD 41.245 no nível primário 15 anos, USD 42.825 nos níveis secundário inferior e USD 44.600 no nível secundário superior. (Indicador D3)

Mais informações sobre Education at a Glance, incluindo notas, resumos de países multilingues e dados-chave, está disponível em:  www.oecd.org/education/education-at-a-glance-19991487.htm.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A relatividade, um século depois da sua descoberta

O que mais admiro na sua arte (disse Albert Einstein a Chaplin) é a sua universalidade. Não diz nem uma palavra e, no entanto, toda a gente o percebe. É verdade, responde Chaplin. Mas o seu feito é ainda maior: toda a gente o admira, mas ninguém o percebe. 

Artigo de Hubert Krivine

Foto de Philippe Halsman
A relatividade especial tem agora 110 anos e a relatividade geral, um século; também este diálogo, atribuído a Einstein e a Chaplin envelheceu um pouco: hoje, a teoria da relatividade (especial) é ensinada a todos os estudantes de ciência, o que inclui alguns milhares de milhões de pessoas em todo o mundo.
À semelhança da mecânica quântica, a relatividade foi concebida com o objetivo de explicar alguns dos paradoxos teóricos ou experimentais com que se confrontava a ciência “clássica”. Não para fabricar lasers ou bombas. É notável observar que a respostas a estas preocupações, que não implicavam mais do que um pequeno grupo de físicos, em menos de cinquenta anos, fosse afetar toda a humanidade. Milhares de milhões de pessoas usam – embora sem estarem conscientes disso – a teoria da relatividade geral: todas as pessoas que utilizam o GPS nos seus telemóveis.
A relatividade especial ensina quatro coisas relacionadas, fáceis de explicar (mas não necessariamente de compreender), que estão descritas no final do artigo.
Quanto à relatividade geral, é difícil de explicar e ainda mais de entender. O hábito para a popularizar, é dizer que explica um espaço-tempo deformado pela presença de massas. É compreensível?1
Um cronista “cultural” da televisão ousou dizer sobre a A2 que “O objectivo da relatividade geral não era apenas a construção da bomba atómica”.2 Por outras palavras, que Einstein não era apenas um assassino! Nada mais estúpido: em 1915 estava-se a léguas de distância da ideia de uma bomba tal, mas sobretudo a teoria da relatividade é simplesmente (juntamente com a mecânica quântica) a base de toda a física moderna. O seu objetivo era apenas ajudar a compreender o mundo!
Esta compreensão não está concluída, e provavelmente nunca o será. Sabe-se, por observações astronómicas, que o universo está em expansão, portanto surgiu há muito tempo (mais de 13 mil milhões de anos) com uma origem de dimensão microscópica: o Big Bang. Sabemo-lo voltando atrás no tempo através das equações da relatividade que regem a sua evolução. Mas quando voltamos demasiado atrás no tempo, chegamos a um universo de tal forma contraído e quente que é necessário, para o descrever corretamente, dispor de uma teoria quântica da gravidade. Da qual atualmente não dispomos.
Continua a haver dois enigmas: a) Os movimentos das estrelas nas franjas das galáxias não são explicáveis pelas leis da gravitação, mesmo que relativistas, a menos que suponhamos a presença de uma enorme quantidade de matéria invisível. Esta matéria “negra”, desconhecida, representa pelo menos 80% da matéria do universo; e b) A expansão do universo vai-se acelerando e isso só se pode explicar pela existência igualmente hipotética de uma energia “negra” que representa 90% da energia total do universo. Resumindo, mais de 90% da energia e da massa são-nos completamente desconhecidas!
Gostaríamos de tirar duas conclusões desta apresentação sobre a relatividade.
1. A relatividade não é contraditória com a física habitual (a de Newton, que se ensina nas escolas). Só a torna um caso particular, válido (e na verdade completamente suficiente) para as velocidades, distâncias e massas usuais. Mesmo se a ignorarmos, as suas aplicações estão presentes em todo o lado. Além disso, permitiu uma reflexão completamente nova sobre o tempo e o espaço.
2. Einstein nunca teria podido financiar a sua pesquisa com os métodos de hoje, ou seja, com projetos a curto prazo, que culminam em resultados previsíveis e patenteáveis.
Vamos repetir: não houve nenhum progresso importante em teorias, incluindo em matemática, que não tenha tido uma grande repercussão na sociedade. Cabe-nos a nós garantir que essas repercussões sejam benéficas!
Anexo
1. A velocidade da luz é uma constante absoluta de aproximadamente 300.000 km/s que é independente da velocidade do observador. É paradoxal, pois, se nos movermos num combóio TGV a 300 km/h e enviarmos um sinal luminoso para a frente, esperamos que se desloque a uma velocidade de c+300 km/h em relação à paisagem. Não é isso que acontece: a medida da velocidade da luz tem sempre o mesmo valor, c, quer esteja a sua fonte imóvel, quer esteja em movimento. Tranquilizemo-nos: velocidades fracas (baixas em relação à da luz), somam-se bem, se andares a 5 km/h nesse mesmo TGV, estarás a deslocar-te, como sugere a tua intuição, a 305 km/h em relação à paisagem (ainda que, em teoria e com todo o rigor devêssemos subtrair a esse resultado 5/100 de mil milionésimos km/h!).
2. A famosa relação E=mc2 exprime que toda a massa tem uma carga energética, chamada energia de massa. O que significa, por exemplo, que o desaparecimento de 1mg de matéria cria uma energia colossal de 20 milhões de quilocalorias! De facto, toda a produção de energia corresponde a uma perda de matéria e, reciprocamente, toda a perda de matéria corresponde a um gasto de energia. Mas para as energias “razoáveis”, as da vida quotidiana, essa perda é insignificante e nunca tinha sido medida: para uma quilocaloria, valeria menos de um mil milionésimo de micrograma! Poderíamos, portanto, acreditar que nas reacções químicas “nada se perde, nada se cria”. Pelo contrário, nas reações nucleares (fissão ou fusão) as perdas de massa já não são insignificantes e a energia libertada torna-se colossal. O calor do Sol (ou o das bombas atómicas) são disso testemunhas.
3. A inércia de um corpo não é igual à sua massa, ela aumenta com a sua velocidade. Este ponto é subtil. A inércia de um corpo caracteriza a sua resistência ao movimento. A sua massa intervém na lei da gravidade, segundo a qual as massas se atraem. Acontece que, a baixas velocidades, as duas magnitudes são idênticas. Porém, quando a velocidade de um corpo móvel aumenta, a sua massa não se altera, mas a inércia aumenta, de forma a que é cada vez mais difícil acelerá-lo. Como a inércia se torna infinita quando a velocidade se aproxima da velocidade da luz, este torna-se um limite insuperável. A velocidade da luz só pode ser alcançada por corpos de massa nula: os fotões, que são os “grãos” de luz que se propagam com ela.
4. Vivemos com a intuição que o tempo é universal: que passa para toda a gente da mesma forma, tanto em repouso como em movimento. De facto, de novo, tal é verdade quando as velocidades em jogo são baixas quando comparadas com a da luz. Não há tempo absoluto: a sua medida depende da velocidade do observador. No limite, um fotão que se afasta de um relógio fixo à velocidade da luz não pode “ver” os ponteiros a moverem-se, porque recebe sempre o mesmo sinal. Quanto a ti, se te afastares a uma velocidade reduzida, consegues vê-los girar, mas mais lentamente. É claro, essa desaceleração é imperceptível a velocidades normais e por isso nunca tinha sido observada. Agora, foi posta amplamente em evidência, por exemplo nos aviões que transportam relógios atómicos.3


Notas:
1. Ver na net, por exemplo, o artigo bastante pedagógico: “La relativité générale et la courbe de l’espace-temps” [“A relatividade geral e a curva do espaço-tempo].
2. Fazendo assim com que milhões de espectadores acreditassem que a ciência foi responsável pelo lançamento da bomba de Hiroshima, como se a descoberta do bacilo da peste por Yersin tivesse sido responsável pela guerra bacteriológica!
3. Relógios de precisão inusitada: com um erro de menos de um segundo em 160 milhões de anos!
Artigo publicado originalmente em A l'encontre

O Estado Islâmico e seu lucrativo negócio de terror


Por Marco Antonio Moreno
O Estado islâmico é rico, ganha bilhões de dólares em contrabando de petróleo, o comércio de antiguidades, impostos e escravidão. Ao mesmo tempo, ele recebeu inúmeras subvenções do Ocidente: de dinheiro até as picapes Toyota fornecidas pelos Estados Unidos. Seu negócio cruel e mortal levou o Estado Islâmico a operar como uma grande empresa multinacional.
A organização terrorista se vende como uma "marca". Seus combatentes vestidos com jaquetas, camisas e calças pretas que combinam com tênis brancos. Transportam-se em caminhonetes Toyota que a América deu a "oposição moderada" contra a frente Al Nusra, conforme relatado no ano passado, The Spectator e há um mês Deutsche Wirtschafts Nachrichten. O Estado Islâmico consolidou seu controle sobre o fornecimento de petróleo no Iraque e norte da Síria e agora preside a um império de contrabando sofisticado com exportações ilegais que atravessam a Turquia, Jordânia e o Irã, de acordo com autoridades e contrabandistas iraquianos. Seus militantes controlam uma dúzia de campos de petróleo e foram capazes de fazê-los rapidamente operacionais através da instalação de refinarias móveis que permite instalar o crudo nas rotas de comércio do Ocidente. Em setembro de 2014, o embaixador da UE no Iraque reconheceu que a Europa estava financiando OISIS com a compra.
Iraque Oil Caminhão-Tanque
Contrabando de petróleo

O contrabando de petróleo é uma das principais fontes de renda do Estado islâmico. Como indicado pelo Financial Times, amigos e "inimigos" comerciam petróleo com o ISIS. Seu nível de produção, de acordo com The Economist, seria entre 1,5 e 2 milhões de barris por dia (mbd), valor que coloca-o no nono lugar dos países produtores de petróleo, pouco menos que o México (2,31 mbd ) e a Venezuela (2,37 mbd). As receitas do petróleo ajudam o ISIS a pagar suacrescente folha de pagamento: US $ 600 por mês para combatentes e US $ 1.200 para comandantes.
Grande parte dessa estrutura financeira sofisticada contou com o apoio dos Estados Unidos desde 2010, como revelado pelo documento recentemente desclassificado do Departamento de Defesa registrado em 2012. O objetivo inicial dos Estados Unidos para apoiar ISIS foi para desestabilizar o governo de Bashar al-Assad , considerado parte do "eixo do mal" pela Casa Branca.
Como indicado pelo Financial Times, bloquear o comércio de petróleo que controla ISIS tem sido uma das prioridades da aliança ocidental (os EUA, Reino Unido, Europa) contra o Estado islâmico. No entanto, a linha de caminhões que transportam óleo contrabando se estende por dezenas de quilômetros e a coalizão ocidental tem fechado os olhos durante anos. E quanto mais o Ocidente ameaça destruir o Estado Islâmico mais campos de petróleo caem nas mãos desse grupo para financiar a sua maquinaria de terror.
De acordo com o The Guardian, cada caminhão transporta 28 toneladas de petróleo comprado a $ 4.200 e, em seguida, vendidos na Turquia e Jordânia por US $ 15.000. Cada comerciante faz 8 viagens por semana e nenhum problema foi feito para pagar cerca de US $ 600 a guardas de fronteira. Total de ganhos por caminhão é mais de 300 mil dólares por mês. A milícia ISIS ganha, assim, centenas de milhões de dólares por semana com a venda de recursos energéticos roubados. Antes do ISIS, os campos de petróleo da Síria e do Iraque produziam 2 milhões de barris de petróleo por dia que entrava no mercado tradicional. Desde o surgimento da ISIS toda a produção vai para o mercado negro.

Pilhagem, impostos e escravidão

Palmyra Património
Mas o Estado islâmico não só faz fortuna em petróleo. O saque da arte antiga da Síria e do Iraque também forneceu-lhe dividendos substanciais. A grande destruição dos locais de relíquias arqueológicas considerados patrimônio cultural da humanidade foram roubados e depois vendidos para colecionadores milionários internacionais. Esta é uma razão pela qual o Estado Islâmico faz em pedaços edifícios históricos com grande publicidade. Eles foram saqueados e seu interior foi roubado o mais valioso. Eles são, então, dinamitados para apagar todas as evidências. Isto é o que mostra a imprensa. Nada dizem do saque.
Relíquias de Palmyra, Nimrud, Nínive e Hatra, foram leiloadas em Londres tal como em 2003 se leiloaram as relíquias de Samarra e Bagdá, onde começou a civilização, que foram saqueados por soldados americanos na guerra que derrubou e logo depois assassinou Saddam Hussein. De acordo com a Câmara Americana de Comércio Internacional, o comércio de antiguidades iraquianas quadruplicou em 2014. Como o Índice de terrorismo global, só o Estado islâmico em 2014 ganhou mais de $ 50 milhões com o comércio de antiguidades.
O Estado Islâmico recolhe  também diferentes taxas de imposto. Nas áreas onde exerçam controle exigem um imposto de 10 por cento sobre o rendimento e de 10 a 15 por cento das vendas, além de portagens e outras taxas. Isso aumentou o imposto sobre o valor acrescentado e níveis de preços elevados. Aqueles que não querem ficar e decidem emigrar, como visto na maciça imigração européia, devem pagar uma "permissão" de US $ 1.000.
Raptos e escravidão constituem um dos capítulos mais sórdidos do Estado islâmico. Como recompensa, o ISIS força as mulheres a se casar com lutadores. Outras mulheres tomadas como reféns são vendidas em outros países. Estima-se que em 2014 o comércio de escravos e mulheres deu-lhes $ 45 milhões de dólares. A violação dos direitos humanos é uma fonte de terror e também uma fonte muito lucrativa de renda após a pior lógica econômica do capitalismo: o maior benefício com o mínimo de esforço.
Estima-se que o Estado islâmico tem 500 milhões de dólares em dinheiro. Quando no ano passado a cidade iraquiana de Mosul foi tomada, eles saquearam os pertences do banco central, incluindo o ouro. Foi determinado que o Estado islâmico tem mais de dois bilhões de dólares em ativos, tornando-se o grupo terrorista mais rico e mais divulgado na história.

domingo, 22 de novembro de 2015

A violência e o califado vazio



Alejandro Nadal




A correspondência entre Hannah Arendt e Karl Jaspers abrange um período tumultuoso na história. Iniciado em 1926, quando se estava prestes a começar a destruição da ordem estabelecida no final da Primeira Guerra Mundial. Concluiu-se em 1969, após ambos os pensadores terem testemunhado um dos períodos mais turbulentos e violentos da história.

Em uma de suas cartas a seus professor e amigo Arendt afirma que se sente cheia de gratidão e que está pronta a intitular seu livro sobre teoria política Amor Mundi (no fim Arendt preferiu o de Condição Humana). Isto é surpreendente porque a autora tinha vivido processos violentos ao longo de sua vida: o totalitarismo sangrento, racismo, genocídio, os dois primeiros bombardeios atômicos e, o que mais chamou sua atenção no final de seus dias, o rápido desenvolvimento de novos e e mais poderosos instrumentos de destruição. Sua pergunta era interessante: pode-se amar o mundo como ele é? É uma pergunta cheia de implicações, mas infelizmente Arendt não a coloca no contexto da especificidade histórica do capitalismo.

Parte da reflexão de Hannah Arendt sobre a violência é relevante hoje, há poucos dias dos terríveis ataques em Paris. Eu digo "parte" porque outro segmento de sua obra parece fora de contexto (por exemplo, referências a Frantz Fanon) ou superficial (em relação à obra de Marx). Com efeito, Arendt nunca compreendeu nem a essência, nem o âmbito do projeto analítico de Marx. Por exemplo, seus escritos sobre a vita ativa ignoram os elementos da teoria do trabalho de Marx, sua análise da produção de mercadorias e, em particular, a importância do conceito de alienação. Estas falhas levaram Arendt aos argumentos errados sobre uma alegada contradição em Marx e análise incorreta do totalitarismo. Os direitas de todos os tipos encontraram muito convenientes essas análises equivocadas. Deixamos de lado esses dois esclarecimentos no que segue.

Neste trabalho sobre a violência Arendt analisa a relação entre violência e poder. Esse estudo tem aspectos resgatáveis ​ do pensamento de Arendt e é usado para examinar o contraste entre a violência cega (e o terror) e poder político.

O ponto de partida é Arendt é que a violência sempre precisa de instrumentos para se implantar. Essa é uma característica que Engels tinha analisado antes e é a diferença essencial entre violência e poder. A relação fundamental no mundo da violência é a que existe entre meios e fins. E aqui vem a ideia de Arendt que parece importante para mim, a principal característica desse relacionamento quando aplicado aos assuntos humanos tem sido sempre de que as extremidades estão em perigo de ser oprimidos pelos instrumentos. Ou, dito de outra forma, as extremidades da história são sempre em uma situação frágil voltado para os instrumentos.

A violência é vazia e nisso radica sua proximidade com o terror. A violência não tem medida e só absorve algo que parece racionalidade através dos instrumentos com que se acerca, mas essa é uma racionalidade instrumental que não diz nada sobre a justiça, a liberdade ou a necessidade de acesso a uma mudança na situação dos oprimidos.

É aí que reside a complexidade da análise da violência. Ou, como diz Arendt em uma passagem muito aristotélica, o problema daqueles que promovem a violência cinicamente não é que sejam frios e que sejam capazes de pensar o impensável, mas que não pensam. Ou seja, eles não conseguem articular uma análise em torno de categorias que vão além de uma razão tecnológica: a violência é um espaço vazio.

A violência não tem um fim e não tem medida. Não pode ter objetivos racionais e sempre mais violência é o imperativo de um círculo vicioso que não pode ser preenchido. A violência é nesse sentido comparável com a riqueza monetária da produção de mercadorias. O delírio de riqueza, que Marx analisou em profundidade que não chega a perceber Arendt, há fim de duas maneiras. Carece de um objetivo intrínseco e não tem nenhuma ordem quantitativa quanto à alucinação de riqueza sempre mais (dinheiro) será melhor.

A barbárie dos eventos sangrentos em que os provedores de justiça do califado islâmico assassinaram e torturaram em uma exposição indecente é um evento louco que vai além de qualquer racionalidade, mesmo instrumental. Ao contrário de poder, a violência não tem sentido e, portanto, é rica em terror. Violência não fala a linguagem do poder. Assim, o califado do Estado Islâmico é mudo. O único problema é que atinge os sons agressivos de violência.

A violência do Estado califado islâmico não tem nada a ver com o poder político. Eles serão completamente irrelevantes em muitos aspectos, no curso dos acontecimentos humanos: eles não podem alterar em quaisquer processos que já estão em curso e que não são, é claro, nem agradável nem generosos com os oprimidos. Eles não podem mudar o curso da evolução que começou há mais de cem anos atrás e cujo contexto deve ser analisado para interpretar os acontecimentos de Paris.

Ao longo da história temos vindo a confundir algo crucial: a essência do poder não é a violência. O poder não vem do cano de uma arma, porque a substância do poder não é compreendida através das categorias de obediência e submissão. Violência repousa sobre os instrumentos para ferir e romper ou tortura. O poder está no espaço de consenso e de justiça para as mulheres e os homens se reuniram em uma república democrática. Em contraste com este objetivo, o Estado Califado Islâmico busca legitimar-se através de violência.

Os ataques em Paris são uma triste lembrança da necessidade de redirecionar o curso e reconstruir o espaço político sem subordiná-los aos ditames da violência. A tarefa será difícil porque há algo que é muitas vezes perdido de vista: a democracia é enrolada em todo o mundo. A mágoa não só com a violência cega do fanatismo, o mesmo acontece com a violência do dinheiro e as relações comerciais passam por toda a sua lógica comercial. Vale dizer que a grosseria, um pouco teatral e artificial, de bombardeio contra os "brancos" do Estado islâmico pelos Estados Unidos e França, e até mesmo a Rússia, certamente não permitem ver as verdadeiras fontes de financiamento do califado.