"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

O segundo bônus demográfico e o tsunami de idosos no Brasil


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
151204

O Brasil está passando por um rápido processo de envelhecimento. A população idosa (60 anos e +) era de 2,6 milhões de pessoas em 1950 (5% da população total), passou para 19,8 milhões em 2010 (10% do total) e deve chegar a 67 milhões em 2050 (quase 30% do número total de habitantes do país).
Ou seja, o Brasil gastou 60 anos para ver o percentual de idosos dobrar de 5% para 10%, mas terá que enfrentar o desafio de ver o percentual triplicar (de 10% para 30%) em apenas 40 anos.
Até agora, o envelhecimento da estrutura etária brasileira foi benéfica para a economia e a redução da pobreza, pois o crescimento da população idosa foi relativamente pequeno, a redução da população dependente de crianças e jovens foi grande, enquanto o aumento das pessoas em idade produtiva possibilitou que a população economicamente ativa (PEA) aumentasse em relação à população total. Houve um aumento dos “produtores líquidos” sobre os “consumidores líquidos”. Este fenômeno é conhecido como o primeiro bônus demográfico, momento em que a demografia ajuda a economia, contribuindo para o aumento da qualidade de vida humana.
Mas dentro de pouco tempo a janela de oportunidade começará a se fechar, com o percentual da PEA diminuindo em relação à população total. Nesta situação, cresce a preocupação com o envelhecimento, com a diminuição absoluta e relativa do número de trabalhadores, com o agravamento do desequilíbrio do sistema previdenciário, com o déficit fiscal do Estado e o endividamento das famílias, com o alto custo das doenças crônicas para o sistema de saúde e assistência social, etc.
É como se o país estivesse passando de uma situação de bônus para ônus demográfico. Porém, existem alternativas otimistas (ou menos pessimistas) para este novo cenário. Em artigo para a revista Exame (03/07/2014), o demógrafo David Bloom, da Universidade de Harvard, considera que o aumento da longevidade e da esperança de vida ao nascer é uma das maiores conquistas da história da humanidade e que o envelhecimento da população não se traduz automaticamente numa catástrofe econômica e social. Ele diz:
“Há estratégias que podem ser adotadas para minimizar possíveis problemas causados pelo envelhecimento, como mudanças nas regras de aposentadoria, políticas trabalhistas favoráveis a mulheres e programas de treinamento para trabalhadores mais velhos. Com toda a certeza, o veredito sobre esse tsunami grisalho ainda não foi dado”.
De fato, o envelhecimento, em vez de ser visto de maneira negativa, como um desafio insolúvel, pode ser visto como uma oportunidade. O envelhecimento saudável e produtivo pode ser uma fonte de ganhos através do segundo bônus demográfico. Os idosos não devem ser vistos como custo para a sociedade, mas como capital humano capaz de melhorar a qualidade de vida geral.
A sociedade pode ganhar com o processo de envelhecimento e o fenômeno do segundo bônus demográfico, como diz Bloom:
“Tudo depende da preparação e do poder de adaptação, tanto do ponto de vista individual como coletivo. Antecipar uma vida mais longa significa que as pessoas provavelmente pouparão mais para os anos em que não estarão trabalhando. Indica também a revisão de políticas de aposentadoria para desestimular a saída precoce do mercado de trabalho”.
Se o idoso acreditar no seu potencial e a sociedade criar mecanismos de inclusão produtiva da população grisalha, o problema da redução da força de trabalho seria resolvido e o equilíbrio atuarial da previdência poderia ser solucionado.
O primeiro bônus demográfico é um fenômeno temporário que tem data limite de vencimento. Ele dura enquanto o percentual da PEA cresce em relação à população total e finda quando a população em idade ativa diminui. Mas o segundo bônus demográfico começa quando o processo de envelhecimento populacional atinge altas proporções, porém não tem prazo para terminar. Quanto maior for o envelhecimento maior poderá ser o segundo bônus demográfico.
As pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança no passado. Havia a expressão “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Hoje em dia, o bem-estar da população como um todo depende cada vez mais da experiência e da disposição das pessoas com mais de 60 anos.
Referência:
David Bloom. Dá para para tirar vantagem do envelhecimento da população. Exame, SP, 03/07/2014


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 04/12/2015

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Eleições na Argentina: Quem ganhou o quê?


por Immanuel Wallestein

Em 22 de novembro, 2015, Mauricio Macri derrotou Daniel Scioli na eleição presidencial da Argentina por um pouco menos de três pontos percentuais. A maioria dos analistas chamaram isso de o triunfo da direita sobre a esquerda. Ito não é falso, mas é muito simples. Na verdade, a eleição refletiu da evolução muito complexa que ocorre em toda a América Latina na atualidade. Interpretar mal o que está acontecendo pode levar a grandes erros políticos na década por vir.
A história começa durante a Segunda Guerra Mundial. O governo da Argentina era neutro, mas, na verdade, solidário com as potências do Eixo. A partir de 1943, um movimento de oposição que ligava os movimentos sindicais e oficiais do exército mais jovens passou a existir. Uma figura chave era o coronel Juan Perón, que se tornou secretário do Trabalho no governo. Sua breve detenção em 1945 levou a manifestações de rua e sua libertação, depois de oito dias. As eleições de 1946 foram essencialmente entre um anti-imperialista (isto é, anti-Estados Unidos) e candidato pró-trabalho welfare state (Perón) e um candidato de direita abertamente apoiada pelo Embaixador dos Estados Unidos. Perón ganhou e implementou o seu programa com a ajuda de sua carismática segunda esposa, Evita, heroína dos descamisados.
O peronismo não é uma política, mas um estilo, muitas vezes chamado de populismo. Seguiu-se que em termos de políticas, há muitas Peronismos - direita, centro e esquerda. O que os une são figuras míticas. Peronismo mais ou menos esquerdo de Perón foi levado a um fim por um golpe militar em 1955. Perón foi para o exílio e se casou com sua terceira esposa, Isabel, que era espanhola.
Os militares permitiram eleições em 1976. Perón retornou e se candidatou  com Isabel como sua candidato à vice-presidência. Ele morreu depois de um ano no cargo e foi sucedido por Isabel, que era muito impopular. Este foi um período de golpes militares de direita em toda a América Latina - Chile, Brasil, Peru, Uruguai e Argentina. Na Argentina, isso é chamado o período da "guerra suja", em que havia talvez 30 mil desaparecidos, que foram eliminados brutalmente.
Em 1983, os militares tinham esgotado o seu apoio e parecia sábio e seguro permitir um retorno ao governo civil. Em 1989, Carlos Menem, um peronista, tornou-se presidente. Ele perseguiu uma política muito de direita, tanto em termos de obediência às exigências neoliberais do FMI e do alinhamento com as prioridades geopolíticas dos EUA.
Em 1998, a eleição de Hugo Chávez como presidente da Venezuela marcou o início da chamada guinada à esquerda. Foi uma consequência não só de desânimo popular com os declínios de renda graves causadas pela observação do Consenso de Washington, mas do início do declínio do poder dos EUA no Oriente Médio, a que se estava dando prioridade de atenção.
Em 2001, um movimento anarquista mais ou menos, os piqueteros (bloqueadores de ruas por se recusar a se mover) emergiu como uma força política forte. Seu método político era conhecido como o caceroles (ou batendo panelas). Seu slogan era "Que se vayan todos!" ("Fora todos eles!"). Eles forçaram o regime neoliberal mas Peronista a demitir-se.
Seguindo tumulto contínuo, as eleições de 2003 colocou o neoliberal peronista Carlos Menem contra altermundialistas e peronista Néstor Kirchner. A liderança de Kirchner nas urnas foi tão grande que Menem retirou. Kirchner governou por quatro anos sucedido por sua esposa Cristina que foi eleita duas vezes com grandes margens. A Argentina agora era governada por uma subvariedade do peronismo chamado Kirchernismo.
Cristina não podia concorrer novamente em 2015 porque a lei proíbe mais de dois mandatos consecutivos no cargo. As forças Kirchneristas, conhecidas agora como a Frente para la Victoria (FPV) apresentou Daniel Scioli como seu candidato. Scioli é considerado mais centrista do que Cristina, e seu apoio foi morno. No entanto, esperava-se que nas primárias de 09 de agosto, Scioli ganharia facilmente no primeiro turno. Ele ficou em primeiro lugar, mas foi forçado em um segundo turno, que Macri venceu, com margem estreita.
A vitória de Macri também é parte de um padrão latino-americano. Os bons dias da expansão econômica das "economias emergentes" tinha atingido os seus limites em toda a economia-mundo e estava causando em todos os lugares apertar o cinto. Macri prometeu uma solução econômica, que iria trazer a inflação sob controle e renovar o crescimento econômico. Ele no entanto afirmou que seu programa seria moderado de determinadas maneiras. Ele não iria reprivatizar indústrias que Cristina tinha renacionalizado. E ele iria reter algumas das medidas do estado de bem-estar dos regimes dos Kirchner.
Não há dúvida de que Macri é um homem de direita e pretende governar mais para a direita, como ele pode. A questão agora é quão longe ele pode? Ele é confrontado por duas grandes limitações. Uma delas é a nível mundial; outra é interna. A restrição em todo o mundo é o grau em que haverá um renascimento dos "bons tempos" para o Sul global na próxima década. Se não, Macri terá de explicar nas eleições de 2019 porque é que suas soluções resolveram nada ou muito pouco para a grande maioria da população argentina. Em suma, ele iria assumir a culpa em vez de Scioli (e os Kirchneristas) para o prosseguimento de dificuldades econômicas.
A restrição interna é mais sutil. Alguns analistas acreditam que Cristina está muito feliz com a derrota de Scioli. Não só ela não gosta dele, mas se ele tivesse ganhado, ele provavelmente seria o candidato novamente em 2019. Cristina agora pode ser a candidata em 2019, a última data em que sua idade seria razoável permitir.
Enquanto escrevo, Macri ainda não apresentou o seu programa preciso. Ele está para maximizar fronteiras abertas que permitam o livre fluxo de mercadorias e capital. Em particular, ele quer acabar com o cepo al dolar - o enlace da taxa oficial do peso ao dólar norte-americano. Mas não totalmente, pelo menos de imediato. Ele deve equilibrar a curto prazo efeito negativo, fuga de capitais, com o efeito positivo meio-termo que ele afirma ocorrerá - maiores investimentos estrangeiros que irão diminuir por si só a taxa de câmbio e, portanto, a inflação.
Ele deseja participar dos tratados de livre comércio no processo, tanto no Pacífico e no Atlântico. E ele deseja redefinir o papel da aliança comercial sul-americana do Mercosul, incluindo a expulsão Venezuela de Chávez, ao qual ele é totalmente hostil. Mas isso requer unanimidade e Brasil e Uruguai manifestaram a sua oposição.
No mundo dos negócios, ele deseja restaurar relações estreitas com os Estados Unidos e separar a de suas relações com o Irã. Ele procura também reafirmar o apoio da Organização dos Estados Americanos, a estrutura, incluindo a América do Norte que a maioria dos outros países da América Latina querem substituir com aqueles com apenas os membros da América Latina e do Caribe. Mas ele também diz que sua prioridade política externa é relações com o Brasil, o maior parceiro comercial de seu país. E a presidente Dilma Rousseff que indicou que ela vai participar de posse de Macri. Brasil vai constituir uma restrição para Macri.
Finalmente, uma questão dos últimos anos tem sido a lei de anistia que absolveu os militares para todos os seus crimes durante a guerra suja. O regime de Kirchner havia revogado a anistia e estava processando as poucas figuras importantes que ainda vivem. Macri disse que não irá interferir com o processo judicial, para o desespero de alguns dos ultras em seu acampamento. Mas aqueles processados ​​serão liberados por prova insuficiente?
Em suma, Macri, de fato, representa um empurrão para a direita. Mas ele não representa um fim do Kircherismo, nem uma situação em que a esquerda (no entanto, defini-la nesta situação particular) fica sem armas e sem esperança.

Nações Unidas calculam que 33% dos solos do mundo estão degradados

No Dia Mundial do Solo, secretário-geral faz um apelo para que taxa seja revertida; 2015 foi também o Ano Internacional dos Solos; FAO calcula que demanda da população por comida pode subir 60% até 2050.
Agricultor em plantação no Senegal. Foto: FAO/Seyllou Diallo
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
O secretário-geral das Nações Unidas afirmou, esta sexta-feira, que 33% dos solos do mundo estão degradados. Ban Ki-moon disse que "o desafio é claro" e fez um apelo para que a atual taxa de degradação seja revertida.
O chefe da ONU sugere como solução o manejo sustentável, já que a degradação do solo ocorre devido à expansão das cidades, ao desmatamento, ao uso insustentável da terra, à poluição e à mudança climática.
Contribuições
A mensagem de Ban antecede o Dia Mundial do Solo, celebrado sempre em 5 de dezembro. Mas esta sexta-feira marca o encerramento do Ano Internacional dos Solos, que promoveu a contribuição dos solos para a segurança alimentar e adaptação aos efeitos da mudança climática.
O secretário-geral lembra que para se alcançar os objetivos da Agenda 2030, é importante promover o manejo sustentável dos solos, que são essenciais para a produção alimentar.
Demanda
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, com o crescimento da população mundial, a demanda por alimentos e fibras deve subir 60% até 2050.
O diretor-geral da agência lamenta que muitas vezes o papel dos solos não seja reconhecido. José Graziano da Silva classifica os solos como "aliados silenciosos da produção alimentar".
A atual taxa de degradação do solo ameaça a capacidade de se alcançar as necessidades das gerações futuras.
O secretário-geral da ONU espera que a COP21 resulte num acordo que trate da capacidade dos solos de absorver carbono, fator essencial para reverter a mudança climática. Ban Ki-moon retorna à Paris esta sexta-feira para a conferência do clima.

Infecção alimentar mata 420 mil pessoas por ano no mundo

Relatório da OMS revela que crianças com menos de cinco anos representam quase um terço desse total; agência da ONU diz que 10% da população global adoece todos os anos pelo consumo de alimentos contaminados.
Relatório afirma que uma uma em cada 10 pessoas no mundo adoece todos os anos por ingerir alimentos contaminados. Foto: PMA
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A Organização Mundial da Saúde, OMS, afirmou que 420 mil pessoas morrem todos os anos de infecção alimentar no mundo.
O alerta consta do primeiro relatório da agência da ONU sobre doenças causadas por comida contaminada, lançado esta quinta-feira.
Crianças
A OMS diz ainda que quase um terço dessas mortes, 125 mil, acontece entre crianças com menos de cinco anos.
O documento mostra também que uma em cada 10 pessoas no mundo adoece todos os anos por ingerir alimentos contaminados. Isso representa mais de 600 milhões de pessoas, mais do triplo da população do Brasil.
As regiões mais afetadas pelo problema são a África e o sul e o leste da Ásia.
Segundo o relatório, as doenças alimentares são causadas por 31 agentes, que incluem bactérias, vírus, parasitas, toxinas e substâncias químicas.
Imprecisas
Para a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, "até agora, as estimativas sobre as doenças alimentares eram vagas e imprecisas".
Chan afirmou que "ao se saber quais as causas patogênicas que estão causando os maiores problemas e em que partes do mundo é possível a implementação de ações específicas pelo público, pelos governos e pela indústria de alimentos".
A Organização Mundial da Saúde disse que a diarreia é responsável por mais da metade dos problemas gerados pelos alimentos contaminados, deixando 550 milhões de doentes e 230 mil mortos por ano.
As crianças, especialmente, são as que mais sofrem com a diarreia, 220 milhões adoecem e 96 mil morrem anualmente.
Carne Crua
O problema é causado pelo consumo de carne crua ou mal passada, ovos, vegetais ou produtos derivados do leite contaminados pelo norovírus, pela salmonela e pelo E.coli.
O relatório cita ainda outras causas de doenças e mortes como a febre tifoide e a hepatite.
Segundo a OMS, o risco de doenças alimentares é mais alto em países de baixa e média rendas. Geralmente, nesses locais a comida é preparada com o uso de água contaminada, pouca higiene e em condições inadequadas para a produção e o armazenamento de alimentos.
Ainda falando sobre os riscos, os especialistas mencionam regiões com baixos níveis de educação e sem leis suficientes para segurança alimentar.
Câncer
Os médicos alertam que as doenças transmitidas pela comida podem causar sintomas de curto prazo como náuseas, vômitos ou diarreia, em referência à intoxicação alimentar.
Mas eles dizem que elas podem ter efeitos de longo prazo, como o câncer e problemas renais ou neurológicos. Essas doenças podem ser mais graves em crianças, mulheres grávidas, idosos ou nos que tenham algum problema no sistema imunológico.
A OMS pede a governos, indústria e ao público em geral que adotem medidas para garantir a segurança dos alimentos e prevenir as doenças causadas pela comida contaminada.
A agência da ONU está trabalhando com vários países para ajudar na criação e na implementação de estratégias e políticas para reduzir o problema.

COP21: 80 países vão receber US$ 80 milhões para evitar riscos de desastres


Doação será feita pelos governos da Austrália, Canadá, França, Alemanha, Luxemburgo e Holanda; países-ilha e nações da África serão os primeiros a receber o benefício.
Estação de tratamento de esgoto na China. Foto: Banco Mundial/Yang Aijun
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 

Durante a Conferência da ONU sobre Mudança Climática, em Paris, os governos da Austrália, Canadá, França, Alemanha, Luxemburgo e Holanda firmaram um acordo nesta quarta-feira.
Essas nações vão doar mais de US$ 80 milhões para ajudar 80 países a terem sistemas mais eficientes de alerta sobre risco de desastres. O benefício será enviado primeiro para Pequenos Estados Insulares, para países menos desenvolvidos e também para nações africanas.
Consequências
Segundo a ONU, esses países estão na linha de frente das “consequências mais dramáticas da mudança climática e são os menos equipados com sistemas eficazes de alerta de desastres naturais”.
A Organização Meteorológica Mundial, OMM, calcula que 80% dos 48 países menos desenvolvidos do mundo têm apenas um sistema básico de alerta e somente 40 países-ilha tem um sistema eficiente.
Países como Bangladesh e Cuba, que têm bons sistemas de alerta, já viram uma redução dramática das mortes durante eventos ligados ao clima.
Clima Extremo
O plano de doar US$ 80 milhões foi proposto em março pelo ministro francês das Relações Internacionais, Laurent Fabius, e foi depois endossado pelo G7. A iniciativa tem o apoio da OMM, do Escritório da ONU para Redução do Risco de Desastre e do Banco Mundial.

A secretária de Estado para o Desenvolvimento da França, Annick Girardin, afirmou na COP21 que a meta é ajudar mais de 1 bilhão de pessoas expostas a eventos extremos do clima que podem ocorrer até 2020.
Um relatório lançado semana passada pela ONU mostrou que nas últimas duas décadas, 90% dos grandes desastres naturais foram causados por mais de 6,4 mil enchentes, tempestades, ondas de calor, seca e outros eventos ligados ao clima.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A renda per capita brasileira patina diante dos países do leste asiático


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

151202

O Brasil foi classificado na lista dos países emergentes pelo FMI, mas, ironicamente, deixou de crescer acima da média mundial a partir de 1980 e, portanto, tem perdido posição no cenário internacional em relação a diversos outros países. O termo “economia emergente” surgiu para substituir de maneira otimista os termos “Terceiro Mundo” e “países subdesenvolvidos”. Mas parece que a emergência acontece em apenas uma pequena parte do mundo.
O gráfico acima mostra que o desempenho brasileiro ficou atrás dos países emergentes da Ásia. Em 1980, o Brasil tinha uma renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) de 4,8 mil dólares. Na mesma data, as rendas eram de 3,2 mil na Malásia, de 2,2 mil na Coreia do Sul, de 1,6 mil na Tailândia e de apenas 302 dólares da China. A renda per capita brasileira era 16 vezes maior do que a chinesa. Porém, a renda per capita na China cresceu 57 vezes entre 1980 e 2018, 19,2 vezes na Coreia do Sul, 9,1 vezes na Malásia, 11,6 vezes na Tailândia e apenas 3,5 vezes no Brasil.
O resultado é que a renda per capita (em ppp), em 2018, deve chegar a 42 mil dólares na Coreia do Sul, 30 mil dólares na Malásia, 16,7 mil no Brasil, 18,6 mil na Tailândia e 17,5 mil na China. Ou seja, a Coreia do Sul já tem uma renda per capita 2,5 vezes a brasileira, a Malásia já ultrapassou a renda média brasileira desde a década de 1990, Tailândia passa em 2016 e China terá renda mais elevada a partir de 2017. A melhora da renda per capita nos países do leste asiático foi acompanhada pelo aumento da esperança de vida, dos níveis de educação e das condições de moradia.
Todos estes países são competidores do Brasil no mercado internacional, o que dificulta a inserção produtiva brasileira no processo de globalização. O mais grave é que a renda per capita brasileira (em ppp) está estagnada em torno de US$ 16 mil desde 2013 e as perspectivas são de estagnação dos rendimentos nesta segunda década perdida (2011-2020). O Brasil pode estar caindo na chamada “armadilha da renda média”, fato que pode comprometer o desenvolvimento do Brasil e condenar o país a nunca ser um país desenvolvido.
O período de menor crescimento econômico do Brasil coincide com o maior período democrático do país (1985-2015). O economista Samuel Pessoa considera que estes dois fatos estão interligados, pois: “Desde a promulgação da Constituição, vigora um contrato social cuja consequência é a necessidade permanente de elevação do gasto público e, portanto, da receita de tributos, à velocidade superior à do crescimento do produto” (FSP, 16/02/2014). Para o autor, o crescimento do gasto social, especialmente as despesas com INSS que foram as de maior crescimento, aumentaram a carga tributária e reduziram a capacidade de investimento do governo e das empresas. Baixas taxas de investimento implicam em baixo crescimento do PIB e baixo crescimento da renda per capita. Outros autores concordam que o crescimento do gasto social está acirrando o desequilíbrio fiscal, mas chamam a atenção para a “bolsa empresário”, financiada com dinheiro do BNDES e a corrupção como fatores de desequilíbrio das contas públicas.
Evidentemente, não se pode relacionar democracia com baixo crescimento econômico, pois, no cenário mundial, os países mais ricos são também os mais democráticos. Mas há diversos cientistas políticos que chamam a atenção para o fato de o “presidencialismo de coalizão”, com sua fragmentação partidária, ser desfuncional em relação ao crescimento econômico. Em geral, crise politica atrapalha o crescimento econômico. O período compreendido entre o final do governo Sarney e o governo Collor foi aquele de pior desempenho econômico da história republicana. A atual crise do governo Dilma Rousseff tende a repetir a dose dos dois primeiros presidentes pós-redemocratização.
Mas além das questões políticas, o crescimento econômico ocorre pelo efeito conjunto do crescimento da força de trabalho e da produtividade do trabalho e dos fatores de produção. No caso brasileiro, a força de trabalho tem crescido em termos absolutos e relativos, mas a produtividade não. Se este quadro continuar, o Brasil pode nunca mais ultrapassar a barreira da renda média e o pleno desenvolvimento vai virar uma miragem. E o pior, o país pode virar submergente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 02/12/2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Nós, os vermes da seca

Além da finalidade físico-biológico a água tem um sentido humanizador ou civilizatório; na civilização a água não serve apenas para saciar a sede, tem um caráter de elemento socializante, de uma forma que à medida que ficamos sem ela começamos a nos sentir vermes. Imagine-se o que era ser retirante, caminhar com sede, fome, o corpo suado e sujo, baixo um sol escaldante. Essa é uma mancha da história brasileira.

Em 2015 estamos a viver uma hecatombe, depois de um final da primeira década do Século XXI com sucessivos anos  com bons períodos de chuvas, entre 2008 e 2011, o semi-árido nordestino entrou em 2012 num período de estiagem longo. De lá pra cá o volume dos grandes reservatórios, responsáveis por ainda disponibilizar água em algumas cidades e regiões do semi-árido e, constituindo-se, portanto, em notável avanço, foram praticamente zerados.

Aqui em Caicó-RN não temos mais água, pelas ruas um novo comércio emerge, o comércio da água, durante todo o dia ouvimos uma ferramente típica nas cidades do interior do Brasil:  carros de som, anunciando "água boa" que ninguém sabe sequer a procedência; compra somente possível em virtude de uma melhora significativa na renda, mesmo em bairros pobres, exceto nos bairros miseráveis, onde a hecatombe é muito maior; apesar disso longe de ser alguma solução.

No Brasil sempre se espera chegar a tragédia para depois sequer procurar soluções atrasadas, ainda passa pela busca da culpa. Agora estamos n encruzilhada do desespero, tendo como única solução o acaso de uma temporada de chuvas iniciando-se em Janeiro.

As emendas parlamentares são os símbolos do atraso político nacional, espera-se a tragédia para faturar cachês eleitorais uma emenda para poços, uma emenda para adutora, outra emenda para carros-pipa. Nada funciona, aos correligionários resta destacar a "luta" do deputado aliado. A política que devia ser a racionalização preparatória para o abastecimento do semi-árido, com instalações de reserva apenas à espera do momento de emergência para serem usados, fica apenas em retórica vazia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O renminbi, de moeda do povo a divisa mundial



por Marco Antonio Moreno

O FMI tem ungido o yuan chinês como a quinta moeda da sua cesta instalando-o na elite mundial de divisas e como moeda de reserva global. Este movimento abre o caminho para um uso mais amplo do yuan chinês em comércio e finanças. O yuan compartilha, assim, de uma posição de privilégio ao lado do dólar, o euro, a libra esterlina e o iene japonês. Até agora, essas quatro moedas faziam parte dos Direitos Especiais de Saque (SDR na sigla em inglês), uma moeda artificial erguida em 1969 pelo FMI e utilizada como unidade de conta para manter alguns parâmetros financeiros semiconstantes.

Esta será a primeira mudança na composição monetária da SDR desde 1999, quando o euro substituiu o marco alemão e o franco francês. É também um marco na credibilidade internacional do yuan, uma moeda criada após a Segunda Guerra Mundial e cuja inclusão na cesta do FMI em 2010 foi rejeitada por não cumprir os critérios necessários. A inclusão da moeda chinesa na cesta do FMI é uma indicação clara das reformas que o gigante asiático tem implementado nos últimos anos, incluindo a abertura de seus mercados de câmbio e divisas e a liberação da moeda.

A China é a segunda maior economia do mundo e, desde a eclosão da crise financeira em 2008 trabalhou para incluir o yuan na cesta do FMI. Em um discurso de 2009, o governador do Banco da China, Zhou Xiaouchuan disse que um sistema global tão dependente de uma única moeda- o  dólar dos Estados Unidos - era inerentemente propenso a crises. Essa convicção desencadeou uma campanha global para incluir o yuan na cesta de moedas, para encorajar os países a incluir nas suas reservas cambiais. Renminbi é o nome oficial da moeda e significa "moeda do povo" em mandarim; yuan é a unidade. Agora, a moeda do povo entra no grande campeonato de moedas globais.



Menos peso para as moedas europeias


A incorporação terá efeito em 1 de Outubro de 2016 e o yuan terá uma ponderação de 10,92 por cento da cesta. Os novos pesos da SDR será 41,73 por cento para o dólar; 30,93 por cento para o euro; 8,33 por cento para o iene e 8,09 por cento para a libra esterlina. Na ponderação atual o dólar representa 41,9 por cento do cesto; o euro 37,4 por cento, a libra 11,3 libra e o iene 9,4 por cento. Podemos ver que na nova configuração há um claro declínio na participação das moedas europeias.

Em um relatório preliminar do FMI, se estima que o renminbi teria um peso na SDR entre 14 e 16 por cento. No entanto, a turbulência financeira desencadeada na China nos últimos meses pode ter influenciado o peso final. No entanto, é um grande triunfo do governo de Pequim, que procura reforçar a sua imagem em meio a desaceleração do crescimento.

O FMI estabeleceu os Direitos Especiais de Saque (SDR) em 1969 para aumentar a liquidez global. No âmbito do sistema da taxa de câmbio fixa de Bretton Woods, os países tiveram que ancorar as suas moedas ao dólar norte-americano. Neste esquema, se um país queria aumentar suas reservas em dólares era forçado a incorrer em déficits em conta corrente nos Estados Unidos. Os SDRs atacaram este problema, servindo como um ativo de reserva suplementar para aumentar os haveres de ouro e dólares. SDRs não são tecnicamente uma moeda, mas dá aos países membros o direito de obter qualquer uma das moedas da cesta para atender as necessidades da sua balança de pagamentos.

Desastres naturais custam um Bolsa-Família por ano ao Brasil


Levantamento inédito de economistas da UFRJ mostra que eventos extremos reduziram o PIB nacional em até 0,87% entre 2002 e 2012 e afetaram, todos os anos, 1,1% da população brasileira


Foto: BBC


Os eventos climáticos extremos atingem 1,1% da população do Brasil todos os anos e custaram até R$ 355 bilhões ao País apenas entre 2002 e 2012. É o equivalente a até 0,87% do PIB acumulado no período. Na média, o custo anual dos desastres naturais naquela década foi de R$ 25,2 bilhões, o equivalente à verba do Bolsa-Família.

Os dados são de um estudo inédito de um trio de economistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicado nesta sexta-feira numa parceria entre o Observatório do Clima e o site de notícias ambientais ((o))eco.

O grupo liderado por Carlos Eduardo Young, do Instituto de Economia da UFRJ, debruçou-se sobre os dados do Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, que mapeou os registros de eventos climáticos extremos no Brasil entre 1991 e 2012. Os números foram cruzados com estimativas de custo econômico por pessoa afetada, desalojada ou desabrigada durante eventos extremos de enxurrada, inundação ou deslizamento nos Estados de Rio de Janeiro, Alagoas, Pernambuco e Santa Catarina, feitas pelo Banco Mundial, e extrapolados para o País inteiro.

Entre 1991 e 2012, constataram os economistas, o Brasil registrou 13.622 ocorrências desses três tipos de desastre, que deixaram, no total, 46 milhões de pessoas afetadas, incluindo 3.745 mortos. A maior parte desses desastres, 10.066, aconteceu na segunda metade do período analisado – entre 2002 e 2012. No total, nessa década, 33,9 milhões de pessoas foram afetadas, cerca de 25% da população brasileira. A quantidade de recursos federais destinada à reconstrução saltou de R$ 130 milhões em 2004 para R$ 3 bilhões em 2010.

Segundo os autores, forte o aumento no número de ocorrências, no número de afetados e nas perdas econômicas neste período em relação ao anterior reflete provavelmente uma tendência. É possível, dizem, que o quadro se explique porque melhorou o registro de desastres, porque há mais gente vivendo em áreas de risco ou porque as mudanças climáticas estão causando mais chuvas torrenciais. “O mais provável é que todas essas hipóteses estejam corretas e que haja uma combinação perversa entre o aumento da população vivendo em áreas de risco e a maior probabilidade de ocorrência de eventos climáticos extremos”, afirmam Young e colegas.

O maior número de desastres naturais, 34% do total, ocorreu na região Sudeste – justamente onde há mais gente em áreas de risco. Minas Gerais ocupa disparado o primeiro lugar (2.083 ocorrências), seguido de Santa Catarina (1.108) e São Paulo (850). Juntos, o Sudeste e o Sul respondem por 69% das perdas monetárias por eventos extremos entre 2002 e 2012 – jogadas para cima pelos desastres de Santa Catarina, no fim de 2008, e da serra fluminense, em 2011.

No entanto, quando se olha o impacto no PIB regional, o Brasil segue o princípio conhecido de que os mais pobres são os mais afetados: a maior perda proporcional está na região Norte – 1,61% do PIB gasto com afetados por desastres – e na Nordeste (1,51%), enquanto o Sudeste teve 0,48% de perda em relação ao PIB.

“Ainda existe a visão de que combater a mudança climática vai agravar a pobreza. O que nós mostramos com esse estudo é que o contrário é verdade: a pobreza é agravada pela mudança climática, e reduzir emissões reduz também a vulnerabilidade dos pobres”, diz Camilla Aguiar, coautora do estudo.

(Assessoria – UFRJ)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Brasil tem mais médicos, mas distribuição ainda é desigual

População de médicos concentra-se no Sul e Sudeste e na capital dessas regiões
Assim como nas edições de 2011 e 2013, a pesquisa Demografia Médica do Brasil 2015, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), constatou que a maior quantidade de médicos (432 mil registros) no País não reflete na distribuição dos profissionais em todas regiões. Ao contrário, a concentração geográfica de médicos permanece, principalmente, nas regiões Sul e Sudeste e nas capitais dos estados dessas regiões.
A novidade da edição de 2015 é apresentar a distribuição de médicos em municípios agrupados por estratos populacionais. A pesquisa revela que as 39 cidades do Brasil com mais de 500 mil habitantes concentram 29,4% da população e 60,9% de todos os médicos do País. Uma média de 4,25 profissionais a cada 1.000 habitantes. Lembrando que o Brasil possui 5.570 municípios.
“Esse dado demonstra que temos uma grande quantidade de médicos concentrada a favor de menor parcela da população”, destaca o professor Mário Scheffer, professor da FMUSP e coordenador da pesquisa.
Em relação às diferenças regionais da quantidade de médicos e de população, as regiões Norte (1,09 médico por 1.000 habitantes) e Nordeste (razão de 1,3) possuem os estados com menor número de médicos em relação à população. No Nordeste, o estado do Maranhão tem 0,79 médico por 1.000 moradores.
A região Sudeste conta com o maior número de médicos por 1.000 habitantes, 2,75, acima da região Sul, com 2,18, e da Centro-Oeste, com 2,20.
Quando se comparam os estados e o Distrito Federal, este tem 4,28 médicos por 1.000 habitantes, seguido do estado do Rio de Janeiro, com 3,75. O estado de São Paulo vem em terceiro lugar, com de 2,7, seguido do Espírito Santo, com 2,24 médicos por 1.000 habitantes.
O percentual de médicos das capitais e do interior também apresenta cenários desiguais. As capitais das 27 unidades da federação reúnem 55,24% dos registros de médicos, mas a população dessas cidades representa apenas 23,80% do total do País.
De outro lado, todo o interior — 5.543 municípios, excluindo-se as capitais — possui 44,76% dos médicos, enquanto sua população soma 76,2% do total nacional.

Mais Médicos

Scheffer explica que a pesquisa sobre a demografia médica no País não pode ser utilizada para analisar o trabalho do programa Mais Médicos do governo federal, no qual entre suas ações está a contratação de médicos para a Atenção Primária de regiões onde há escassez ou ausência de profissionais.

Isso porque dos 18 mil médicos participantes do programa, aproximadamente 11 mil são de outros países, a grande maioria de Cuba. “Eles estão integrados em uma legislação específica do Ministério da Saúde e não fazem parte da base de dados dos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) utilizada na pesquisa e, portanto, não são contabilizados no nosso perfil dos 432 mil médicos registrados no País”, informa o professor.
Scheffer destaca que na época da implantação da lei Lei nº 12.871, de 2013, que instituiu o programa Mais Médicos, a questão da vinda de médicos estrangeiros teve muita visibilidade. No entanto, para ele, o maior impacto do programa é na criação de novas vagas em cursos de medicina.
“O programa aumenta expressivamente o número de cursos de medicina e prevê mudanças no perfil da graduação, além de expansão de vagas de residência o que vai impactar no aumento de médicos em geral e de especialistas”.
O professor ressalta que a pesquisa da demografia médica é importante para compreender a dinâmica de distribuição dos perfis médicos para orientar as políticas públicas na área. “Se não olharmos para os determinantes dessas desigualdades da concentração de médicos e não agir nesses determinantes, uma política dessa magnitude de expansão de cursos de medicina poderá significar mais profissionais em locais onde já existem muitos médicos”.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Brasil chega a 2,11 médicos por mil habitantes



Até outubro de 2015, o Brasil tinha quase 400 mil médicos e uma população de 204 milhões de habitantes, uma média de 1,95 médico para cada 1.000 pessoas. Se consideramos os registros de médicos nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), o número sobe para mais de 432 mil profissionais. Essa diferença ocorre por causa das inscrições secundárias de médicos registrados em mais de um estado, e resulta em 2,11 médicos por 1.000 habitantes.

da Agência USP de Notícias


Demografia Médica no Brasil mostra crescimento no número de médicos no país


Esse é um dos dados divulgados nesta segunda-feira, 30 de novembro, pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com a terceira edição da pesquisa Demografia Médica no Brasil, os estudos anteriores são de 2013 e 2011. Realizado com o apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), o levantamento mostra o perfil da população de médicos no Brasil e informações sobre a atuação profissional deles.

A maior parte dos dados utilizados na pesquisa são do registro administrativo dos CRMs, integrados ao banco de dados do CFM, além da base de dados populacionais do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados sobre o exercício profissional, do mercado de trabalho e da participação dos médicos no sistema de saúde brasileiro são resultados parciais de 2.400 entrevistas com médicos por meio de um inquérito nacional com amostra probabilística.

A elaboração do estudo contou com recursos do Conselho Nacional Científico e Tecnológico  (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Ao longo da pesquisa, são utilizadas tanto a quantidade de médicos (400 mil) quanto a de registrados (432 mil). Essas duas bases, “médicos” e “registros de médicos” são aplicadas em diferentes análises do estudo. Quando a pesquisa trata de dados individuais dos médicos (exemplo: sexo, idade etc.), emprega-se o número de médicos. Quando o estudo aborda regiões, estados, grupos de cidades ou municípios, devem ser considerados os registros de médicos em cada CRM.

“Esse estudo é descritivo, mas importante para que se possa acompanhar o perfil, a evolução, o comportamento e a inserção desses profissionais no sistema de saúde. Neste novo relatório de pesquisa, buscamos compreender as desigualdades na distribuição de médicos e como se dá a diversidade no exercício da profissão médica, a multiplicidade de vínculos, práticas e formações”, afirma Mário Scheffer, professor do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP e coordenador da pesquisa.



Crescimento

O estudo indica que o crescimento percentual do número de médicos no País já se estende por mais de 50 anos. De 1970, quando havia 58.994 registros, até 2015, o aumento foi de 633%. No mesmo período, a população brasileira cresceu 116%. Ou seja, o total de médicos nesses anos aumentou em maior velocidade do que o crescimento populacional.


“Percebemos que a população médica cresceu muito e as mudanças recentes, com a aprovação de mais cursos de medicina, apontam para maior crescimento. Mas esse aumento não está beneficiando de forma homogênea a população, faltam médicos em diversos locais e diversas estruturas públicas”, ressalta o professor.

Os pesquisadores projetam 32.476 novos médicos em 2020, o que representa 11.677 médicos a mais do que os 20.799 que se formaram e ingressaram na profissão em 2014. De acordo com a pesquisa, o Brasil contava, em outubro de 2015, com 257 escolas médicas, sendo que 69 delas, abertas após o ano de 2010, e  ainda não formavam médicos por terem menos de seis anos de existência.

“Os resultados do estudo poderão contribuir com o planejamento de políticas públicas, muitas em andamento e já deliberadas, que terão impacto no sistema de saúde, como o aumento de vagas nos cursos de medicina previstas na lei do Mais Médicos. É importante compreender a distribuição de médicos atualmente e questionar se a formação de novos médicos realmente contribuirá para que os profissionais estejam onde mais é necessário”, afirma Scheffer.

O Mais Médicos é um programa do governo federal implantado em 2013 e tem três pilares de atuação: a contratação emergencial de médicos, incluindo estrangeiros, a expansão do número de vagas para os cursos de medicina e residência médica e a implantação de um novo currículo com formação voltada para o atendimento com foco na Atenção Básica, conhecida como a “porta de entrada” dos usuários nos sistemas de saúde, ela engloba programas governamentais como, por exemplo o atendimento em Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

Em julho, o Ministério da Educação anunciou a abertura de 2.290 novas vagas em cursos de medicina. A meta é chegar até 2017 com 11.447 novas vagas de graduação e 12.372 vagas de Residência Médica em 2018.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Pesquisa aponta Brasil como segundo país emergente que mais investiu em energia limpa

Os dados são do Climatescope 2015, relatório internacional que avalia a atividade dessas fontes em 55 mercados emergentes na África, Ásia, América Latina e Caribe

As nações em desenvolvimento atraíram em 2014 maiores investimentos em energia limpa, ultrapassando o recorde anual e somando US$ 126 bilhões, montante 39% maior que os registrados em 2013. Os dados são do Climatescope 2015, relatório internacional que avalia a atividade dessas fontes em 55 mercados emergentes na África, Ásia, América Latina e Caribe. O Brasil ficou na segunda posição nesse ranking mundial de países em desenvolvimento atrás apenas da China.

Pela primeira vez, mais da metade dos novos investimentos mundiais feitos anualmente em energia limpa foram para projetos em mercados emergentes. A China sozinha acrescentou 35 gigawatts (GW) de capacidade de energia renovável – mais que a incorporada nos Estados Unidos, Reino Unido e França juntos.

Houve um acréscimo total de 50,4 GW de nova capacidade de energia limpa nos países pesquisados pelo Climatescope, sendo 7,7 GW na América Latina e Caribe (ALC), marcando um aumento de 21% em relação ao ano anterior e superando pela primeira vez a capacidade de energias renováveis implantada nas nações mais desenvolvidas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Região

A América Latina e Caribe apresentam uma penetração maior de energia limpa do que qualquer outra região avaliada pela pesquisa. No final de 2014, 11% dos 352 GW instalados na região eram de projetos de energia de biomassa, eólica, pequenas hidrelétricas, solar e geotérmica. Quando grandes usinas hidrelétricas são incluídas, mais da metade (56%) da energia da região vem de fontes não emissoras de gases do efeito estufa.

Em vários países na América Latina e Caribe, projetos de energia eólica e solar alcançaram “paridade de rede”, o que significa que são a alternativa de mais baixo custo e melhor para a geração de nova energia. As explicações para a alta penetração da energia renovável na região incluem recursos naturais excepcionais e um ambiente de políticas públicas favorável que incentiva investimentos em energias limpas.

O Climatescope foi desenvolvido em 2012 pelo Fundo Multilateral de Investimentos (Fumin) do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), junto a Bloomberg New Energy Finance (BNEF). A pesquisa completa está disponível em www.global-climatescope.org.

(Agência Gestão CT&I, com informações do BID)

Os poluidores do mundo devem pagar


Por Thomas Piketty
Após os ataques terroristas, infelizmente existe um sério risco de que o pensamento dos líderes franceses e ocidentais seja diferente e que eles não façam o esforço necessário para assegurar o êxito da conferência do clima de Paris. Isso seria dramático para o planeta. Em primeiro lugar por que é chegada a hora dos países avaliarem os ricos no âmbito das suas responsabilidades históricas para o aquecimento global e aos danos já causados aos países pobres. Em seguida, porque as tensões frente ao clima e a energia representam uma grave ameaça à paz mundial. Deixar os terroristas impor sua agenda não é a maneira de preparar o futuro.
Resultado de imagem para Thomas PikettyQual é o estado do debate? Se nos limitarmos aos objetivos de redução de emissões apresentadas pelos diferentes países, isso está longe de ser suficiente. Nós estamos conduzindo em uma trajetória para o aquecimento global de três graus e talvez mais, com consequências potencialmente catastróficas em especial no Sul e Sudeste da Ásia. Mesmo na eventualidade de um acordo ambicioso é medidas para reduzir as emissões, já é claro o aumento da temperatura que resultará em danos consideráveis em numerosos países. Estima-se que um fundo mundial no valor de 150 bilhões de dólares por ano teria de ser mobilizados mínimo para financiar os investimentos necessários para adaptar às mudanças climáticas (diques, realocação de casas e atividades, etc.). Se os países ricos não são capazes de elevar esse montante (pouco menos de 0,2% do PIB mundial), é totalmente irrealista a tentativa de querer convencer os países pobres e emergentes a fazer esforços extras para reduzir as suas emissões futuras. Agora, no momento em que o dinheiro prometido para adaptação seja inferior a 10 bilhões de euros. Isso é tanto mais deplorável, uma vez que não é uma questão de ajuda; é simplesmente uma questão de reparar o dano feito no passado, e que ainda se inflige.
Este último ponto é importante pois muitas vezes se ouve Porque, na Europa e nos Estados Unidos, a China, que se tornou o maior poluidor no mundo e agora é a vez da China e dos países emergentes fazer esforços.
Ao fazê-lo, podemos esquecer várias coisas. Para começar, os volumes de emissão devem ser reduzidos em termos de população total em cada país. A China, com uma população de 1,4 bilhão de habitantes é quase três vezes mais povoada do que a Europa (500 milhões) e mais de 4 vezes mais povoada do que a América do Norte (350 milhões). Além disso, o baixo nível de emissão Europeia estão parcialmente explicadas pelo fato de que nós subcontratamos maciçamente no exterior, especialmente na China, o fabrico de produtos industriais eletrônicos e poluentes que gostamos de consumir. Se levarmos em conta o teor de carbono do fluxo de comércio de importações e exportações entre as várias regiões do mundo, a emissão Europeia de repente aumenta em 40% (e as da América do Norte em 13%), enquanto as emissões chinesas diminui 25%. Agora, é muito mais justificável para examinar a distribuição de emissões em função dos países de consumo final (e não de produção).
Em seguida, observa-se que, no momento presente, os chineses emitem o equivalente a 6 toneladas de CO2 por ano  per capita (Aproximadamente a média mundial), contra 13 toneladas para os europeus e mais de 22 toneladas para os norte-americanos. Em outras palavras, o problema não é apenas que nós (europeus) poluímos muito para além do que o resto do mundo: o fato é que continuamos a reivindicar um indivíduo direito individual de poluir qui é duas vezes maior que a média mundial.
Para superar os confrontos entre países e tentar encontrar soluções comuns,  é, também, essencial introduzir o fato de que existe dentro de cada país enormes desigualdades no consumo de energia - direta e indireta (através dos bens e serviços consumidos). Dependendo do tamanho das reservas, a habitação, o orçamento, a quantidade de mercadorias compradas, o número de viagens efetuadas por via aérea, etc., vemos uma enorme variedade de situações. Mesmo estilos de vida individuais desempenham um papel importante, é claramente evidente que os níveis médios de consumo e de emissões acentuadamente aumentam com nível de renda (com uma elasticidade qui é pouco menor que 1).
Através da recolha de dados sistemáticos que cobrem tanto as emissões diretas e indiretas por país, bem como a distribuição de consumo e renda dentro de cada país, Lucien Chancel e eu analisamos a evolução da distribuição das emissões globais a nível individual ao longo dos últimos quinze anos (o estudo completo está disponível aqui).
As conclusões obtidas são claras. Com a ascensão dos países emergentes, há agora poluidores significativos em todos os continentes e, portanto, é legítimo para todos os países contribuir para o financiamento do Fundo de adaptaçãoNo entanto, os países ricos ainda representam a grande parcela dos maiores poluidores do mundo e, portanto,  não pode solicitar à China e aos países emergentes a tomar mais do que seu quinhão.
Especificamente, cerca de 7 bilhões de pessoas no planeta atualmente emitem o equivalente a 6 toneladas de CO2 por ano por pessoa. O 50% menos poluentes, ou 3,5 bilhões de pessoas, estão localizados principalmente na África, no Sul e no Sudeste da Ásia (que são as principais áreas afetadas pelo aquecimento global) emitem menos de 2 toneladas por pessoa e são responsáveis ​​por quase 15% do emissão total. No outro extremo da escala, 1% dos maiores poluidores, cerca de 70 milhões de pessoas, emitem em média 100 toneladas de CO2 por pessoa, com o resultado de que só eles são responsáveis ​​por aproximadamente 15% da emissão total, isto é,  tanto quanto os 50% da parte inferior. Eles são 50 vezes menos numerosos, mas emitem 50 vezes mais, os dois efeitos se anulam mutuamente. Mas são os 50% da parte inferior que vão pagar as consequências das alterações climáticas, em termos de aumento dos níveis de água e da temperatura. Estes 3,5 milhões de habitantes emitem 2 toneladas de CO2 per capita evão pagar por aqueles que emitem 100 toneladas.
E onde está os maiores poluidores do mundo? De acordo com nossas estimativas, 57% deles vivem na América do Norte, 16% na Europa e pouco mais de 5% na China (menos do que na Rússia e no Oriente Médio: Cerca de 6% em ambas os casos). Em nossa opinião, isso pode fornecer uma fórmula legítima de distribuição para alocar o financiamento do Fundo de Adaptação Global de 1.50 bilhões de dólares por anoA América do Norte deve pagar 85 milhões de dólares (0,5% do seu PIB) e Europa 24 milhões de dólares (0,2%). Sem dúvida, a descoberta não vai agradar a Donald Trump e outros. Eles são livres para reproduzir nossos cálculos e melhorá-los: todos os nossos dados e programas de computador estão disponíveis aqui. Nós revisamos várias séries de hipóteses sobre a distribuição do consumo per capita e emissão, sem que altere-se substancialmente os nossos principais resultados.
Outras chaves de distribuição podem ser consideradas, por exemplo, basear as contribuições sobre 10% dos maiores emissores do mundo (700 milhões de pessoas), que são responsáveis por cerca de 45% das emissões totais, três vezes mais do que as emissões de acumuladas dos 50% na parte inferior. Neste caso, o financiamento seria baseado em 40% para a América do Norte, 19% para  a Europa e 10% com a China.
O que é certo é que chegou a hora de repensar as fórmulas de distribuição baseadas na ideia de um imposto progressivo sobre o carbono: não se pode pedir às pessoas que emitem 2 mil toneladas por ano para fazer os esforços como aqueles que emitem 100 toneladas. Esta é a maior deficiência dos impostos proporcionais sobre carbono geralmente discutidos (juntamente com os sistemas de precificação do carbono e os mercados do direito de poluir, que também apresentam problemas), se forem aplicados sem correção e sem compensação.
Alguns vão argumentar que tais fórmulas de distribuição  nunca serão aceitas pelos países ricos, em particular pelos Estados Unidos. Na verdade, as soluções que será adotada em Paris e nos próximos anos para financiar a adaptação à mudança climática sem dúvida serão muito menos ambiciosas e menos transparentes. Mas soluções terão de ser encontradas: nada vai acontecer se os países ricos não colocarem as mãos nos bolsos, e as conseqüências do aquecimento global terão um impacto cada vez mais forte inclusive nos Estados Unidos.
De uma forma ou de outra, é imperativo elaborar uma avaliação comum das responsabilidades de todos os interessados, e uma linguagem comum para considerar uma resolução pacífica para este desafio global sem precedentes.